Incarceron

Catherine Fisher · Capítulo 2 de 4 · parte 3/4

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Incarceron

Cuidado com a neve

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Seja o que for que vá acontecer, ele queria uma cabeça limpa.

Eles também tinham lhe dado roupas limpas e água para se lavar. Dois homens-Crane estavam de pé do lado de fora da sala, encostados na parede.

Ele foi até a janela. Havia uma longa queda. Adiante tinha uma rua estreita, apinhada de pessoas até agora, mendigando e vendendo e montando acampamentos improvisados na rua, dormindo em sacos, seus animais vagando por toda parte. O barulho era terrível.

Ele colocou as mãos no peitoril e inclinou-se para fora, olhando para os telhados.

Era a maioria de palha, com um ou outro de metal remendado. Não havia como ele pudesse sair por eles; a casa inclinava-se para fora como se fosse cair, e ele certamente cairia. Por um momento ele se perguntou se não seria melhor quebrar seu pescoço aqui do que ter que enfrentar alguma criatura sem nome, mas ainda havia tempo. As coisas poderiam mudar.

Ele abaixou a cabeça e sentou no banco tentando pensar. Onde estava Keiro? O que ele estava fazendo? Qual plano ele tinha? Keiro era voluntarioso e selvagem, mas era um grande conspirador. A emboscada do Civicry tinha sido sua ideia. Ele foi obrigado a pensar em algo bom.

Finn já perdeu sua audácia, sua absoluta autoconvicção.

A porta se abriu; Gildas se espremeu para dentro.

“Você!” Finn pulou de pé. “Você tem uma ousadia...”

O Sapiente levantou as duas mãos. “Você está com raiva. Finn, não tive escolha.

Você viu o que teria acontecido para nós.” Ele parecia triste, caminhou e sentou-se no banco.

“Além disso, eu vou com você.”

“Eles disseram que só eu.”

“As moedas de prata fazem muito.” Ele resmungou nervoso. “A maioria das pessoas tenta subornar um modo de ser levado para fora da Caverna, me parece, não para dentro.”

Havia apenas um assento no cômodo; Finn estava sentado no chão entre a palha com os braços em volta dos joelhos. “Pensei que estava sozinho,” disse em voz baixa.

“Bem, não está. Não sou Keiro, e não vou abandonar meu vidente.”

Finn fez uma careta. Então disse, “Você me abandonaria se eu não visse nada?”

Gildas esfregou as mãos secas, fazendo um som que lembrava papel. “Claro que não.”

Eles ficaram em silêncio por um momento, ouvindo o burburinho da rua. Então Finn disse, “Fale-me sobre a Caverna.”

“Pensei que conhecesse a história. Sapphique veio para a Cidadela das Justiças, que deve ser onde estamos. Ele descobriu que as pessoas daqui prestavam uma homenagem a cada mês para um ser que só conhecem como a Besta—o tributo é um jovem rapaz ou moça da cidade. Eles vão para uma caverna na montanha; ninguém jamais retorna."

Ele coçou a barba. “Sapphique foi diante das Justiças e ofereceu a si mesmo no lugar de uma moça cuja vida era o pagamento. Dizem que ela chorou a seus pés. Enquanto ele saia da cidade o povo o observou ir, em silêncio. Ele entrou na Caverna sozinho, sem armas.”

Finn disse, “E?”

Gildas ficou em silêncio por um momento. Quando continuou sua voz estava baixa.

“Por três dias nada aconteceu. Então, no quarto, notícias se espalharam em volta como um incêndio de que o estranho havia surgido da Caverna. As pessoas da cidade sinalizaram os muros, abriram os portões. Sapphique caminhou lentamente até a estrada. Quando alcançou os portões levantou a mão direita, e então viram que estava faltando o dedo indicador, e que a mão sangrava na poeira. Ele disse, ‘A dívida não foi paga. Não há o suficiente de mim para pagar a dívida. O que vive na Caverna é uma fome que nunca pode ser satisfeita. Um vazio que nunca pode ser preenchido.’ Então ele se virou e foi embora e as pessoas o deixaram ir. Mas a garota, aquela cuja vida ele salvou, correu atrás, e viajou com ele por um tempo. Foi a primeira de seus Seguidores.”

Finn disse, “O que—?” mas a porta foi aberta antes que pudesse terminar. O homem-Crane acenou. “Fora. O rapaz precisa dormir agora. Partiremos ao Acender das Luzes.”

Gildas saiu, com um olhar rápido. O homem jogou alguns cobertores para Finn; ele os puxou em torno de si e sentou encolhido contra a parede, ouvindo vozes e cantorias e latidos na rua.

Sentia frio e completamente sozinho. Tentava pensar em Keiro, em Claudia, a garota que a Chave tinha mostrado a ele. E Attia, será que o tinha esquecido? Será que todos o abandonariam ao seu destino?

Ele rolou e se cobriu.

E então viu o Olho.

Estava muito pequeno, em cima, perto do teto, meio escondido entre teias de aranha.

Ele o observava firmemente e ele olhou para trás, depois se sentou e o encarou.

“Fale comigo,” disse, sua voz suave com raiva e desprezo. “Está com muito medo de falar comigo?

Se eu nasci de você, então fale comigo. Diga-me o que fazer. Abra as portas.”

O Olho era um raio vermelho, sem piscar.

“Sei que você está lá. Sei que pode me ouvir. Sempre soube. Os outros esquecem, mas eu não.”

Ele estava de pé agora; se aproximou e estendeu a mão, mas o Olho estava, como sempre, muito alto. “Eu disse a ela sobre você, a Mestra, a mulher que foi morta, que eu matei. Você viu isso?

Você viu sua queda, você a pegou? Você a tem em algum lugar, viva?”

Sua voz estava tremendo, sua boca estava seca; ele conhecia os sinais mas estava muito zangado e com medo para parar.

“Eu vou Escapar de você. Eu prometo. Deve haver algum lugar para ir. Onde você não possa me ver. Onde você não existe!”

Ele estava suando, fatigado. Ele teve que se sentar, deitar, deixar a tontura varrer sobre ele, a colcha de retalho de imagens, um cômodo, uma mesa, um barco em um lago escuro. Ele se engasgou com elas, lutou contra, afogado nelas. “Não,” ele disse. “Não.” O Olho era uma estrela.

Uma estrela vermelha. Caiu lentamente em sua boca aberta. E enquanto queimava dentro dele, ele a ouviu falar no mais fraco dos sopros, o murmúrio de poeira em corredores desertos, o queimar das cinzas no coração do fogo.

“Eu estou por toda parte” sussurrou. “Por toda parte.”

Pelos intermináveis corredores de culpa,

Meu fio prateado de lágrimas é derramado.

O osso de meu dedo, a chave que se quebrou, Meu sangue, o óleo que pule o cadeado.

—Canções de Sapphique.

Claudia olhou para a imagem consternada. “O que você quer dizer com presos?

Vocês estão todos na Prisão, não estão?” O garoto sorriu largamente, uma leve gozação que ela já não gostou. Ele sentou no meio-fio do que parecia algum tipo beco escuro e se reclinou para trás, olhando fixamente para ela como analisando-a minuciosamente.

“Estamos, realmente? E onde você está então, Princesa?”

Ela amarrou a cara. Na verdade, ela tinha entrado no guarda-roupa da hotelaria onde as carruagens tinham parado para o almoço - uma câmara de pedra fedorenta muito perto do Protocolo – por conforto. Mas ela não ia perder tempo explicando. “Me escute, qualquer que seja seu nome—”

“Keiro.”

“Bem, Keiro. É vital que eu fale com Finn. Como você conseguiu essa Chave dele?

Você a roubou?”

Ele tinha olhos muito azuis, e seu cabelo era loiro e longo. Ele era bonito, e certamente sabia disso. Ele disse, “Finn e eu somos irmãos adotivos, jurados um para o outro. Ele me deu ela por segurança.”

“Então ele confia em você?”

“É claro.”

Outra voz disse, “Bem, eu não.”

Uma garota apareceu atrás dele; ele olhou para ela calorosamente e murmurou, “Você vai calar a boca?” Mas ela agachou e falou apressadamente com Claudia.

“Eu sou Attia. Eu acho que ele vai abandonar Finn e o Sapiente e tentar Escapar como Sapphique tentou, ele acha que a Chave vai funcionar para ele. Você não deve lhe permitir! Finn morrerá.”

Confundida com os nomes, Claudia disse, “Espere. Vá mais devagar. Por que ele morrerá?”

“Eles parecem ter algum tipo de ritual nesta Ala. Ele tem que enfrentar a Besta. Tem algo que você possa fazer? Alguma magia das estrelas? Você tem que nos ajudar!”

A menina tinha as roupas mais sujas que Claudia já vira; seu cabelo era escuro e retalhado em um áspero e irregular corte. Ela estava claramente preocupada. Tentando pensar, Claudia disse, “Como eu posso fazer alguma coisa? Vocês têm que tirar ele disso.”

“O que te faz pensar que nós podemos?” Keiro perguntou calmamente.

“Você não tem escolha.” Um grito no pátio da pousada a fez olhar em volta nervosamente.

“Porque Finn é o único com quem irei conversar.”

“Gosta dele, não? De qualquer jeito, quem é você?”

Ela olhou com ódio. “O Diretor de Incarceron é meu pai.”

Keiro bufou. “Que Diretor?”

“Ele... supervisiona a Prisão.” Ela sentiu frio. O desprezo dele a gelou. Rapidamente ela continuou.

“Talvez eu possa encontrar mapas da Prisão, um mapa dos caminhos secretos dela, suas entradas e corredores que lhe mostrarão o caminho para fora. Mas eu não te direi nada até ver Finn.”

Isso era uma mentira que teria feito Jared gemer, mas ela não tivera escolha. Ela não confiava em Keiro; ele era arrogante, e a menina parecia zangada e assustada.

Keiro deu de ombros. “O que tem de tão especial em Finn?”

Ela hesitou. Então disse, “Acho... Eu acho que o reconheço. Ele está mais velho, ele parece diferente, mas tem algo nele, sua voz... Se eu estiver certa, seu nome verdadeiro é Giles, e ele é filho de... Uma pessoa bastante importante aqui.” Ela não devia dizer muito.

Somente o suficiente para leva-lo a agir.

Keiro ficou olhando, estupefato. “Você está me dizendo que todo esse disparate sobre vir de Fora é verdade? Que a marca no pulso dele significa alguma coisa?”

“Tenho que ir. Apenas vá busca-lo.”

Ele cruzou os braços. “E se eu não conseguir?”

“Então esqueça a magia das estrelas.” Ela olhou a garota, seus olhos se encontraram rapidamente. “E essa Chave será só um pedaço de cristal inútil. Mas se você é irmão dele, você iria querer salva-lo.”

Keiro concordou. “Eu quero.” Ele acenou para Attia. “Esqueça ela. Ela é louca. Não sabe de nada.”

Sua voz estava baixa e séria. “Finn e eu somos irmãos e nós cuidamos um do outro. Sempre.”

Attia olhou fixamente para Claudia, seu rosto machucado. “Ele é aparentado com você?” ela perguntou em voz baixa. “Seu irmão? Primo?”

Claudia deu de ombros. “Só um amigo. Um amigo, isso é tudo.” Apressadamente, ela desligou o campo visual.

A Chave bruxuleou na escuridão fétida. Ela a enfiou no bolso em sua saia e correu para fora, desesperada por ar fresco. Alys estava passando ansiosamente no corredor, servos passando por ela com bandejas e louças.

“Oh, aqui está você, Claudia! Conde Caspar está te procurando.”

Mas Claudia já podia ouvi-lo, o zurro fino e irritante de sua voz, e para sua consternação, ela viu que era Jared, com quem ele estava conversando, e Lorde Evian, os três sentados em bancos ao sol, os cães do albergue se esparramando em uma barulheira cheia de expectativa aos seus pés.

Ela saiu e atravessou os paralelepípedos.

Evian se levantou imediatamente e fez uma pomposa reverencia; Jared mudou de lugar silenciosamente para dar lugar a ela. Caspar disse irritado, “Você sempre está me evitando, Claudia!”

“Claro que não. Porque diabos eu faria isso?” Ela se sentou e sorriu. “Que legal.

Todos meus amigos juntos.”

Caspar olhou de cara feia. Jared balançou a cabeça levemente. Ao lado deles, Evian escondeu um sorriso com seu lenço rendado. Ela imaginou como ele conseguia sentar tão friamente com o Conde, o garoto que ele estava tramando assassinar. Mas então, provavelmente ele teria protestado que não era pessoal e que isso era política e nada mais.

O jogo, sempre.

Ela virou para Jared. “Quero quer você viaje comigo agora. Estou tão entediada.

Não podemos discutir a História Natural do Reino de Menessier?”

“Por que não eu?” Caspar jogou um naco de carne aos cachorros e assistiu eles brigarem por ele.

“Eu não sou chato.” Seus pequenos olhos se viraram para ela. “Sou?”

Era um desafio. “Realmente não, Sua Graça.” Ela sorriu amavelmente. “E é claro que eu amaria que você se juntasse a nós. Menessier tem algumas passagens excelentes sobre a fauna nas florestas coníferas.”

Ele a olhou fixamente com desgosto. “Claudia, não tente aquela besteirada de olhar inocente comigo. Eu te disse, eu não me importo com o que você tem que fazer. De qualquer jeito, eu sei tudo sobre isso. Fax me contou sobre noite passada.”

Ela sentiu-se empalidecer, não conseguia olhar para Jared. Os cachorros rosnavam e brigavam.

Um roçou sua saia e ela bateu o pé para ele.

Caspar ficou de pé, sorrindo triunfante. Ele estava usando um colar de argolas de ouro espalhafatoso e uma casaca de veludo preta, e ele chutou os cães ao lado até que eles gritaram.

“Mas estou te avisando, Claudia, seria melhor você ser mais discreta. Minha mãe não tem a mente tão aberta quanto eu. Se ela descobrisse, ela ficaria furiosa.” Ele sorriu para Jared. “Seu inteligente tutor poderia achar que sua doença ficasse pior de repente.”

Ela estava tão zangada que quase se pôs de pé em um salto, mas o leve toque de Jared a manteve sentada. Eles observaram Caspar atravessar o pátio da pousada à passos largos, evitando as poças e estrumeiras em suas botas caras.

Finalmente Lorde Evian pegou sua tabaqueira. “Minha nossa,” ele disse em voz baixa. “Agora, se eu já ouvi uma, aquilo foi uma ameaça.”

Claudia encontrou os olhos de Jared. Eles estavam escuros e preocupados, “Fax?”

Ele disse.

Ela encolheu os ombros, exasperada consigo mesma. “Ele me viu saindo do seu quarto noite passada.”

O desagrado dele transpareceu. “Claudia...”

“Eu sei. Eu sei. É tudo minha culpa.”

Evian cheirou o tabaco delicadamente. “Se me for permitido argumentar, isso foi uma coisa muito lamentável de se acontecer.”

“Não é o que você pensa.”

“Tenho certeza.”

“Não. De verdade. E você pode abandonar a encenação. Eu contei ao Jared sobre... os Lobos de Ferro.”

Ele deu uma olhada ao redor rapidamente. “Claudia, baixo, por favor.” Sua voz perdeu a afetação.

“Eu aprecio que você confie em seu tutor, mas—”

“É claro que ela devia ter me contado.” Jared bateu de leve no tampo da mesa com seus longos dedos. “Porque o complô todo é insensato, completamente criminoso, e quase certo de ser traído. Como vocês puderam mesmo pensar de coloca-la nisso!”

“Porque não podemos fazê-lo sem ela.” O homem gordo estava calmo, mas uma película de suor brilhava em sua testa. “Você acima de todos, Mestre Sapiente, entende o que o decreto de ferro de Havaarna nos fez. Nós somos ricos, alguns de nós, e vivemos bem, mas não somos livres.

Estamos com pé e mão acorrentados pelo Protocolo, escravizados a um mundo estático, vazio onde homens e mulheres não podem ler, onde os avanços tecnológicos dos séculos são as preservas dos ricos, onde artistas e poetas estão fadados a repetições sem fim e estéreis reelaborações de obras-primas do passado. Nada é novo. O novo não existe. Nada muda, nada cresce, evolui, se desenvolve. O tempo parou.

O progresso é proibido.”

Ele se inclinou para frente. Claudia nunca o vira tão sério, tão despojado de seu gasto disfarce, e isso a deprimiu, como se ele fosse uma pessoa completamente diferente, um homem mais velho, exausto e desesperado.

“Estamos morrendo, Claudia. Devemos abrir esta cela onde nos trancamos, escapar desta roda infinita onde andamos como ratos. E me dediquei para nos libertar. Se isso significa minha morte, não me importo, porque mesmo a morte será um tipo de liberdade.”

Na quietude as gralhas crocitaram entre as árvores acima. Os cavalos no pátio do estabulo estavam sendo arreados, seus cascos batendo nas pedras.

Claudia lambeu os lábios secos. “Não faça nada ainda,” ela sussurrou. “Eu posso ter... Alguma informação para você. Mas ainda não.” Ela levantou rapidamente, sem querer dizer mais nada, sem querer sentir a angustia gélida que ele abrira nela como uma ferida de faca.

“Os cavalos estão prontos. Vamos.”

***

As ruas estavam cheias de pessoas, todas caladas. Seu silêncio apavorava Finn; era tão intenso, e o jeito faminto com que o olharam o fez tropeçar, as mulheres e crianças malvestidas, os mutilados, os velhos, os soldados; as encaradas frias e curiosas que ele não ousava olhar, de modo que ele olhava para baixo, para os próprios pés, na rua suja, em qualquer lugar menos para eles.

O único som que se ouvia nas ruas íngremes era a marcha constante dos seis guardas em volta dele, o estalo de suas botas com sola de ferro nas pedras, e muito acima, voando em círculos como um presságio, um único grande pássaro piando em gritos chorosos entre as nuvens e ecoando ventos da abóboda de Incarceron.

Então alguém cantou de volta, uma única nota de lamento, e como se isso fosse um sinal, toda a multidão a acompanhou e cantarolou suavemente, sua tristeza e medo em um único estranho e suave som. Ele tentou compreender a palavras, mas somente fragmentos chegaram até ele... A linha prateada que se partiu... Todo abaixo os infinitos corredores de culpa e sonhos... E como um coro a atormentadora frase repetida: o osso de seu dedo a chave, seu sangue o óleo que lubrifica o cadeado.

Virando uma esquina, Finn deu uma olhada para trás.

Gildas caminhava atrás, sozinho. Os guardas o ignoravam, mas ele caminhava firmemente, sua cabeça erguida, e os olhos das pessoas se deslocavam com admiração sobre o verde de seu casaco de Sapiente.

O velho parecia austero e importante; ele deu a Finn um breve aceno de encorajamento.

Não havia sinal de Keiro ou Attia. Desesperadamente Finn olhou na multidão. Será que eles tinham descoberto o que estava acontecendo com ele? Será que esperariam do lado de fora da Caverna? Será que eles tinham falado com Claudia? A ansiedade o atormentava, e ele não se permitiria pensar na coisa que ele temia, que se escondia no escuro de sua mente como uma aranha, como o sussurro zombador de Incarceron.

Que Keiro poderia ter pego a Chave e ido.

Ele sacudiu a cabeça. Nos três anos de Comitatus, Keiro nunca tinha o traído. Tinha o provocado, sim, rido dele, roubado dele, brigado com ele. Mas ele sempre esteve ali. E ainda agora, Finn percebeu com uma repentina frieza, quão pouco ele sabia sobre seu irmão adotivo, sobre de onde ele viera. Keiro só dissera que seus pais estavam mortos.

Finn nunca perguntara nada. Sempre estivera absorto demais em suas próprias dolorosas perdas, nos flashes de memória e desmaios.

Ele deveria ter perguntado.

Deveria ter se importado.

Uma chuva de minúsculas pétalas negras começou a cair sobre ele. Olhando para cima, ele viu que as pessoas estavam jogando-as, lançando punhados que caiam nas pedras e faziam um tapete perfumado negro na estrada. E ele viu que as pétalas tinham uma qualidade peculiar, que quando se tocavam, elas derretiam, e que as sarjetas e ruas fluíam com uma massa espessa coalhada que transpirava o mais doce dos perfumes.

Isso fez com que ele se sentisse estranho. É como se isso o fizesse entrar em um sonho, fê-lo lembrar da voz que ouvira de noite.

Estou em todos os lugares. Como se a Prisão tinha lhe respondido. Ele olhou para cima agora, enquanto eles marchavam sob a enorme boca do portão, e viu um único Olho vermelho na ponte levadiça, seu olhar fixo sem piscar nele.

“Você pode me ver?” ele respirou. “Você falou comigo?”

Mas o portão estava atrás dele e eles estavam fora da Cidade.

A estrada ia em frente reta e estava deserta. O óleo espesso escorria por ela, atrás, ele ouviu os portões e portas baterem, os ferrolhos de madeira se cruzar, as grades de ferro despencar. Aqui sob a abóboda o mundo parecia vazio, a planície varrida por ventos gelados.

Os soldados tiraram dos ombros os pesados machados que carregavam; o que estava na frente tinha também algum tipo de dispositivo com uma caixinha de metal anexada, uma máquina de arremesso-invariável, Finn pensou. Ele disse, “Deixe o Sapiente nos alcançar.”

Eles diminuíram o passo, como se agora ele não fosse seu prisioneiro, mas seu líder, e Gildas caminhou sem fôlego e disse, “Seu irmão não apareceu.”

“Ele vai acabar aparecendo.” Dizer isso ajudou.

Eles caminharam rapidamente, fechados num grupo apertado. Nos dois lados o chão estava aberto em fossos e armadilhas; Finn viu os dentes de aço luzirem no fundo.

Olhando para trás, ele estava surpreso em como a Cidade já estava bem para trás, suas muralhas alinhadas com pessoas, assistindo, gritando, segurando seus filhos no alto para verem.

O capitão da guarda disse, “Sairemos da estrada aqui. Cuidado, pisem só onde nós pisarmos e não pensem em fugir. O chão é cheio de globos de fogo.”

Finn não tinha ideia do que seriam os globos de fogo, mas Gildas fez carranca. “Esta Besta realmente deve ser terrível.”

O homem deu uma olhada nele. “Eu nunca a vi, Senhor, e não pretendo vê-la.”

Uma vez fora da lisa estrada o caminho estava difícil. A terra de cobre parecia ter sido marcada e arranhada em vastos sulcos; em vários lugares estava queimada, carbonizada numa secura cinza-escuro que subia em nuvens de poeira quando eles pisaram sobre ela, ou se vitrificou quase em vidro. Uma enorme temperatura teria sido necessária para fazer aquilo, Finn pensou. Fedia também, um cheiro acre de cinzas. Ele seguiu os homens de perto, observando seus passos com nervosa atenção; quando pararam e ele ergueu sua cabeça, viu que foram longe na planície, as luzes da Prisão tão altas acima deles eram sois brilhantes, lançando a sombra dele e a de Gildas atrás deles.

Na abóboda muitos quilômetros acima, o pássaro ainda voava em círculos. Ele guinchou uma vez, e os gaurdas olharam para cima. O mais perto murmurou, “Procurando por carcaças.”

Finn começou a se perguntar quão longe eles andariam. Não havia colinas aqui, nenhuma saliência, então, onde encontrariam uma caverna? Ele tinha imaginado ela como uma abertura escura num penhasco metálico. Agora ele estava ocupado com uma nova apreensão, porque mesmo sua imaginação estava lhe traindo.

“Pare.” O capitão da guarda ergueu uma mão. “Aqui está.”

Não havia nada ali. Foi a primeira ideia de Finn. Alivio o preencheu. Era tudo fingimento. Eles o deixariam ir agora, voltariam para a Cidade, inventariam algum conto horripilante sobre um monstro para manter as pessoas quietas.

Então, quando ele empurrou os homens para passar, viu o fosso no chão.

E a Caverna.

***

Jared disse, “Você lhes prometeu mapas que não existem! Foi uma ideia louca, Claudia. As coisas estão ficando perigosas para nós!”

Ela sabia que ele estava profundamente preocupado. Ela cruzou para o lado dele da carruagem e disse, “Senhor, eu sei. Mas as apostas são tão altas.”

Ele olhou para cima e ela viu a dor que estava por trás dos olhos dele. “Claudia, me diga que você não está pensando seriamente sobre esta loucura de Evian. Não somos assassinos.”

“Eu não sou. Se meus planos funcionarem, não haverá necessidade disso.” Mas ela não disse em que estava pensando: que se a Rainha realmente descobrira, que se ele, Jared, estava em qualquer perigo, ela os teria matado sem hesitação, mesmo seu pai, para salvá-lo.

Talvez ele soubesse disso. Quando a carruagem sacudiu, ele deu uma olhada para fora da janela e sua expressão escureceu, seu cabelo preto roçando a gola do casaco de Sapiente. “Aqui está nossa prisão,” ele disse sem vida.

E seguindo o olhar dele, ela viu os pináculos e torres de vidro do Palácio, os torreões e torres enfeitados com bandeiras, ouviu que todos os sinos estavam tocando para lhe dar as boas-vindas, todas as pombas batendo as asas, todos os canhões estavam sendo disparados em estrondosa saudação de cada terraço, que subiam quilômetros de altura em esplendor no puro céu azul.

Colocamos tudo o que restou nisso.

É maior do que todos nós agora.

—Relatório do projeto; Martor Sapiens.

“Pegue isso, e isso.”

O capitão da guarda introduziu uma bolsa de couro pequena e uma espada na mão do Finn. A bolsa parecia tão leve que deveria estar vazia. “O que há nela?” Ele perguntou nervoso.

“Você verá.” O homem recuou e olhou para Gildas. Então ele disse. “Por que não fugir, mestre?

Por que desperdiçar a sua vida?”

“Minha vida é de Sapphique,” Gilda se irritou. “É meu o seu destino.”

O capitão balançou sua cabeça. “Fique à vontade. Mas ninguém nunca voltou.” Ele apontou a cabeça para a entrada da caverna.

“Aí está.”

Houve um momento de silêncio tenso. Os guardas agarraram firmemente seus machados; Finn sabia que este era o momento que eles esperavam que fizesse algum tipo de corrida para a liberdade. Agora ele tinha uma espada na mão e seus terrores desconhecidos de volta. Quantos trazidos como tributos tinham gritado e lutado em pânico aqui?

Não ele. Ele era Finn.

Imprudentemente, ele se virou e olhou para a fenda.

Era muito fina e muito sombria, suas bordas foram incendiadas e arrasadas, era como se o metal da estrutura da prisão tivesse sido superaquecido inúmeras vezes em um torcer grotesco e afilado. Como se tudo que arrastasse para fora desses lábios de metal pudesse derreter aço, como caramelo.

Ele olhou para Gildas. “Eu vou primeiro.” Antes que o Sapiente pudesse abaixar ele se virou e se abaixou na barra da escuridão, tendo um último rápido olhar a distância. Mas a planície marcada estava vazia, a cidade era uma fortaleza remota.

Ele deslizou suas botas sobre a borda, encontrando um ponto de apoio, comprimiu seu corpo dentro.

Uma vez que ele estava abaixo do nível do solo a escuridão se fechou sobre ele. Ao sentir com as mãos e os pés ele percebeu que aquela fenda era um espaço horizontal entre camadas inclinadas, inclinada para baixo na terra. Ele tinha que espalhar-se para caber, avançando para frente, sobre uma superfície escura repleta de detritos que pareciam ser pedras e bolas lisas de aço que rolaram dolorosamente sob ele. Seus dedos tatearam no pó, em um pedaço de escombros que desmoronaram como o osso, ele a deixou cair precipitadamente.

O teto era baixo; por duas vezes ele roçou suas costas e temeu ficar preso. Tão logo o pensamento o tocou ele parou.

Transpirando, ele engoliu um profundo suspiro. “Onde está você?”

“Logo atrás.” Gildas parecia tenso. A voz dele ecoou; uma pequena chuva de pó caiu em cima do cabelo e dos olhos de Finn, uma mão agarrou sua bota. “Siga adiante.”

“Por quê?” Ele tentou virar a cabeça para olhar para traz. “Por que não esperar aqui até o Apagar das Luzes; então volte não me diga que os homens vão esperar lá fora, eles provavelmente já foram. O que há para nos parar?”

“Globos de fogo são para nos parar, garoto tolo. Hectares deles. Um passo errado e seu pé é arrancado. E você não viu o que eu vi na noite passada, como eles patrulham as muralhas da Cidade, quão longe os holofotes varrem a planície a noite toda. Nós seríamos facilmente vistos.”

Ele riu, um ladrar triste na escuridão. “Eu quis dizer o que disse para as mulheres cegas. Você é um Vidente das Estrelas. Se Sapphique veio aqui, então devemos fazer. Embora receio, minha teoria de que o caminho para saída conduz para cima, parece fadada e ser comprovada errado.”

Finn sacudiu sua cabeça, incrédulo. Mesmo nesta confusão o velho se preocupava mais com suas teorias que qualquer outra coisa. Ele a raspou, cavando com os dedos de suas botas e a levantando para frente.

Pelos próximos minutos, ele tinha certeza de que o telhado estava mergulhando tão baixo que se encontraria no chão e o prenderia. Então, para seu alívio a diferença começou a aumentar e ao mesmo tempo para a esquerda da ponta e a inclinação mais acentuada.

Finalmente ele pode subir de joelhos sem bater a cabeça no teto. “Ele abre adiante.” Sua voz estava baixa.

“Espere ali.”

Gildas se atrapalhou. Houve um estalo alto e a luz sibilou; um dos sinalizadores de fumaça primitivos que o Comitatus tinha usado para pedido de socorro. Ele mostrou a Finn o Sapiente deitado de bruços, tirando uma vela do pacote e acendendo a chama; Conforme a luz vermelha cuspida morria, as pequenas chamas tremeluziam gotas em uma pequena corrente de ar à frente.

“Eu não sabia que você os trouxe.”

“Alguns de nós.” Gildas disse. “Pensei em trazer mais que roupas extravagantes e anéis inúteis.”

Ele colocou suas mãos ao redor da chama. “Vá em silêncio. Embora o que quer que ele seja, já nos terá cheirado e nos ouvido vindo.”

Como em resposta, algo rugiu à frente. Um som baixo de trituração, sentido como uma vibração em suas mãos espalmadas. Finn puxou a espada para fora e a segurou firmemente. Ele não podia ver nada na escuridão.

Ele seguiu em frente e abriu um túnel em torno de um espaço ao seu redor. Na cintilação da chama da pequena vela, ele viu as camadas enrugadas de metal, afloramentos de quartzos de cristal, estranhos pelos de óxidos que brilhavam em turquesa e laranja como a luz afiada além deles. Ele se ajoelhou e depois ficou de quatro.

À frente, algo se moveu, ele o sentiu ao invés de ouvir, ele sentiu uma corrente de ar sujo que o pegou na parte de trás de sua garganta, muito parado, escutou cada sentido se esforçando.

Atrás dele Gildas resmungou.

“Fique parado.”

O Sapiente amaldiçoou. “Ele está aqui?”

“Eu acho que sim.”

Ele estava se tornando consciente do espaço, à medida que a escuridão crescia. Se acostumando ás margens das sombras, e fachadas de pedras inclinadas começaram a se separar por elas. Ele viu um pináculo de pedra queimada e percebeu com choque repentino que era imensa e muito longa e que o projeto agora era o vento soprando em seu rosto, um cheiro quente, como a respiração de uma criatura grande, um terrível fedor acre.

E em seguida, em um instante de clareza, ele soube que a coisa estava enrolada em torno dele, que a negra face da rocha era sua pele com crostas e as esporas vastas de pedras eram garras fossilizadas, que estava em uma caverna formada por antigas escamas, que ocultam uma fera latente.

Ele se virou para gritar o aviso.

Mas lentamente, com um peso terrível rangendo, um olho se abriu. Um olhar vermelho com fortes pálpebras, maior do que ele.

***

O barulho era ensurdecedor por todo o caminho através das ruas, constantemente, flores eram arremessadas; Claudia se viu vacilando no repetido baque e deslizando no impacto sobre o teto do carro. O cheiro dos caules esmagados crescia doce e enjoativo. A subida era íngreme e ela foi jogada desconfortavelmente no assento; Ao lado dela Jared parecia pálido; ela segurou seus braços. “Você está bem?”

Ele sorriu debilmente. “Eu gostaria que nós pudéssemos ir embora. Vomitar na escadaria do palácio, não fará grande impressão.”

Ela tentou sorrir. Juntos eles se sentaram em silencio, enquanto o transporte ribombava e batia através dos portões da cidadela exterior nas suas vastas defesas, através de seus pátios e pórticos de paralelepípedos, e com cada torção e volta ela sabia que estava se tornando mais e mais enredada na vida que esperava por ela aqui, os labirintos do poder, os labirintos da traição.

Lentamente os gritos estridentes desapareceram e as rodas funcionavam muito bem.

Espreitando em torno da cortina viu que a estrada estava forrada com tapete vermelho, dispendiosas porções dela, e por toda ela, guirlanda de flores penduradas na rua e pombas batiam entre telhados e cumeeiras.

Havia mais pessoas aqui em cima, estes eram os apartamentos de cortesões, o conselho privado e o escritório de protocolo e os aplausos foram mais refinados, pontuados por explosões de músicas de violas, serpentes, pífaros e tambores. Em algum lugar à frente ela podia ouvir urros e aplausos—Caspar estava obviamente inclinando-se da janela da sua carruagem para receber as boas-vindas a seu lar.

“Eles querem ver a noiva,” Jared murmurou.

“Ela ainda não está aqui.”

Um silêncio, em seguida ela disse. “Mestre, eu estou com medo.” Ela sentiu sua surpresa. “Eu estou, realmente. Esse lugar me assusta, em casa eu sei quem eu sou, o que fazer. Eu sou a filha do Warden, eu sei onde eu estou. Mas esse é um lugar perigo, cheio de armadilhas. Toda minha vida eu sempre soube que isto estava me esperando, mas agora eu não tenho certeza que eu possa enfrentar isso. Eles querem me absorver, me fazer uma deles, e eu não quero mudar! Não quero! Eu quero permanecer eu.”

Ele suspirou e ela viu seu escuro olhar velado fixado na janela. “Claudia, você é a pessoa mais corajosa que eu conheço.”

“Não sou...”

“Você é. E ninguém vai mudar você. Você vai mandar aqui, embora não vá ser fácil.

A rainha é poderosa, e ela vai te invejar, porque você é jovem e vai tomar o seu lugar. Seu poder é tão grande quanto o dela.”

“Mas se eles o mandam embora...”

Ele se virou. “Eu não vou. Eu não sou um homem valente. Eu compreendo isso.

Confrontação me incomoda. Uma olhada para seu pai e eu gelarei até os ossos, Sapiente ou não.

Mas eles não podem fazer com que eu te abandone, Claudia.” Ele se sentou longe dela. “Eu tenho visto a face da morte durante anos, e isso dá algum tipo de temeridade, pelo menos.”

“Não fale disso.”

Ele gentilmente deu de ombros. “Ela virá, mas não devemos pensar muito de nós mesmos. Nós temos que considerar se podemos ajudar Finn. Dê-me a chave e me deixe trabalhar nisso um pouco mais. Ela tem complexidades que eu ainda mal imagino.”

Quando a carruagem brincou ao longo de um limiar ela tirou-a de seu bolso oculto e a deu para ele, e quando ela o fez a asa da águia de profundidade no cristal tremeluzia, como se bateu e os tirou. Jared puxou a cortina rapidamente e o sol pegou as facetas brilhantes.

O pássaro estava voando.

Ele sobrevoava uma paisagem escura, uma planície carbonizada. Muito abaixo um abismo se abriu na terra e o pássaro, e o pássaro voou e despencou dentro, torcendo pelos lados na fenda estreita fazendo Claudia assobiar com medo.

A Chave ficou escura. Uma única luz vermelha pulsava nela.

Mas mesmo enquanto eles olhavam para ela, a carruagem retumbou para parar os cavalos batendo e soprando e a porta foi aberta, a sombra do Diretor escureceu o limiar.

“Venha, minha querida,” ele disse baixinho. “Todos estão esperando.”

Sem olhar para Jared, e sem sequer se deixar pensar ela saiu da carruagem. Ela se ergueu e segurou no braço de seu pai.

Juntos eles encararam a fila dupla de cortesões aplaudindo, o esplendor de bandeiras de seda, a escada grande levando para cima para o trono.

Sentada sobre ele, resplandecente em um vestido prata com rufos vastos e grandes, sentava-se a rainha. Mesmo nessa distância, a vermelhidão de seus cabelos e lábios era evidente, e o brilho dos diamantes em seu pescoço. Por trás dos ombros dela, uma presença carrancuda, estava Caspar.

O diretor disse calmamente. “Um sorriso, eu acho.”

Ela colocou, um sorriso brilhante, confiante, tão falso como tudo em sua vida, um manto sobre a frieza.

Então eles subiram firmemente as escadas.

***

Era o olhar irônico de seu pesadelo, e ele reconheceu a voz rouca. “Você?”

Por trás de sua cabeça Gildas ofegou. “Ataque. Ataque, Finn.”

O olho era um turbilhão, sua pupila era um espiral de movimento, uma galáxia escarlate. Em volta dele a escuridão se convulsou e ele viu que a vastidão escondida da Besta estava repleta de objetos, pedaços de joias, ossos, fragmentos de trapos, eixos de armas. Eles tinham séculos de idades. Com um rasgo e rachaduras um afloramento de rocha escura de facetada tornou-se sua cabeça e levantando sobre ele; esporas de metal deslizaram para fora como garras, agarrando o chão tremendo e inclinante da caverna.

Finn não conseguia se mover, poeiras e fumaça o encobriram.

“Ataque!” Gildas agarrou seu braço.

“É inútil. Você não consegue ver...?”

Gildas deu um rugido de raiva, pegou a espada dele e pôs no ocular coagulado da besta, saltando para trás como se esperasse o sangue em cascata numa grande gota. Então ele viu, vendo o que Finn tinha visto.

Não havia ferimento. O couro se abriu e dissolveu, absorveu a lâmina, se reagrupou em torno dela. A Besta era uma criatura composta, uma formação rápida e triturante de milhões de seres, de morcegos e ossos e besouros, negras nuvens de abelhas, um padrão de caleidoscópio em constante mudança de fragmentos de rocha e fragmentos de metal.

Uma vez que ele se virou e subiu para o telhado da câmara, eles viram que ao longo dos séculos, ela havia absorvido todo o terror e o medo da Cidade, que todo Tributo enviado para aplacar tinha sido absorvido, ingerido e o tinham feito crescer mais. Em algum lugar dentro dele, estavam bilhões de átomos dos mortos, das vítimas e os filhos arrastados aqui fora por decretos das Justiças. Era uma massa magnetizada de carne e metal, sua calda se desintegrando, cravejado com unhas, dentes e garras.

Ele estendeu sua cabeça à cima deles e se inclinou, trazendo os grandes olhos vermelhos perto do rosto de Finn, tornando sua pele escarlate, com as mãos tremendo e o olhar como se fosse vermelho sangue.

“Finn.” Ele disse, com voz de profundo prazer, um melado de rouquidão gutural.

“Finalmente.”

Ele recuou para Gildas, A mão do Sapiente agarrou–lhe o cotovelo. “Você sabe o meu nome.”

“Eu lhe dei o seu nome.” Sua língua tremeluzia na caverna escura de sua boca. “Dei muito tempo atrás, quando você nasceu de minhas células, quando você se tornou meu filho. ”

Ele estava tremendo. Queria negá-lo, gritar, mas as palavras não vinham.

A criatura inclinou a cabeça estudando-o. O focinho longo pingando abelhas e escamas, fragmentado em uma nuvem de libélulas e reformado novamente. “Eu sabia que você viria,”

disse. “Eu estive observando você, Finn, porque você é tão especial. Em todas as entranhas e veias do meu corpo, em todos os milhões de seres que eu coloquei, não há ninguém como você.

”

Na cabeça ampliada mais próxima, algo como um sorriso formado rompeu. “Você realmente acha que pode escapar de mim? Você esquece que eu poderia matá-lo, desligar a luz e o ar, queima-lo em segundos? ”

“Eu não esqueci,” ele conseguiu dizer.

“A maioria dos homens o faz. A maioria dos homens se contenta em viver em sua prisão e achar que é o mundo, mas não você, Finn. Você se lembra de mim. Você olha em volta e vê meus Olhos te observando, nas noites de escuridão em que você me chamou e eu ouvi...”

“Você não respondeu,” ele sussurrou.

“Mas você sabia que eu estava lá. Você é um Vidente das Estrelas, Finn. Quão interessante isto é.”

Gildas avançou. Ele estava branco, cabelos espaços e molhados de suor “Quem é você?” Ele rosnou.

“Eu sou Incarceron, velho. Você deveria saber que foram os Sapienti que me criaram. Seu maior, enorme, excedente erro. Seu inimigo.” Ele ziguezagueou mais perto, a boca de modo que eles pudessem ver os trapos de pano que pendiam lá, sentir o cheiro do óleo, estranhamente o mau cheiro doce de K. “Ah, o orgulho dos Sábios. E agora você se atreve a buscar uma maneira de se libertar de sua própria loucura. ”

Ele deslizou para trás, seus olhos vermelhos estreitados em fendas. “Pague-me, Finn, pague-me como Sapphique pagou. Dê-me sua carne, seu sangue. Dê-me o velho e seu desejo terrível para a morte. Então talvez sua Chave possa abrir portas com as quais você não sonha. ”

A boca de Finn estava seca como a cinza. “Isto não é um jogo.”

“Não?” O riso da Besta era suave e deslizante. “Vocês não são peças em um tabuleiro? ”

“Pessoas.” Sua ira estava aumentando. “Pessoas que sofrem. Pessoas que você atormenta.”

Por um segundo a criatura dissolveu para nuvens de inseto, em seguida ela coagulou em gárgulas abruptas, uma nova face, serpentina e sinuosa. “Temo que não. Eles atormentam uns aos outros.

Não há sistema que possa parar isso, nenhum lugar que possa parar o mal, porque os homens o trazem com eles, mesmo as crianças. Tais homens estão além da correção, e a minha tarefa é unicamente contê-los. Eu os prendo dentro de mim. Eu os engulo inteiros. ”

Um tentáculo atacou em torno de seu pulso. “Pague-me, Finn. ”

Finn empurrou para trás, olhou para Gildas. O Sapiente parecia encolhido com o rosto desenhado, como se todos os seus medos tivesse caído sobre ele de uma vez, mas ele disse lentamente.

“Deixe-o me levar, rapaz. Não há nada para mim agora.”

“Não.” Finn olhou para a Besta, seu sorriso reptiliano a centímetros dele. “Eu já lhe dei uma vida.”

“Ah. A mulher.” O sorriso aumentou. “Como a morte dela te dilacera. Consciência e vergonha são tão raras. Elas me interessam. ”

Algo em seu sorriso o fez perder o fôlego. Um choque de esperança o machucou, ele engasgou.

“Ela não está morta! Você a pegou, você parou sua queda! Não foi? Você a salvou!”

O espiral vermelho piscou para ele. “Nada é desperdiçado aqui,” ela murmurou.

Finn olhou, mas a voz de Gildas era um grunhido em seu ouvido. “É mentira, menino.”

“Talvez não. Talvez...”

“Ele está brincando com você.” Azedo com o desgosto, o velho olhou para a confusão girando do Olho. “Se é verdade que fizemos tal coisa como você, então estou pronto para pagar por nossa loucura.”

“Não.” Finn o agarrou apertado. Ele deslizou um círculo chato de prata de seu polegar e o ergueu em uma centelha de brilho. “Pegue isso como seu Tributo em vez disto, Pai?”

Era o anel-crânio. E ele estava além de se importar.

Eu trabalhei por anos em segredo para fazer um dispositivo que é uma cópia daquele do lado de Fora. Agora ele me protege. Timon morreu semana passada e Pela desapareceu nos tumultos, e apesar disso estou escondido neste corredor perdido, a Prisão procura por mim. “Meu senhor,”

ela sussurra, “eu te sinto. Sinto seu rastejo na minha pele.”

—Diário de Lorde Calliston

A Rainha se levantou graciosamente.

Na brancura de porcelana de seu rosto seus estranhos olhos estavam claros e frios.

“Minha querida, doce Claudia.”

Claudia fez uma reverência, sentiu o sussurro de um beijo em cada bochecha, e no aperto do abraço sentiu os ossos finos da mulher, a pequena moldura dentro do espartilho e enormes saias rodadas.

Ninguém sabia a idade da Rainha Sia. Afinal de contas, ela era uma feiticeira. Mais velha que o Diretor talvez, embora do lado dela, ele estava sério e sombrio, sua barba prateada meticulosa.

Frágil ou não, sua juventude era convincente; ela parecia pouco mais velha que seu filho.

Virando, ela levou Claudia para dentro, passando pelo olhar emburrado de Caspar.

“Você está tão bonita, querida. Este vestido é maravilhoso. E seu cabelo! Agora me conte, é natural ou você o coloriu?”

Claudia expirou já irritada, mas não havia necessidade de responder. A Rainha já estava falando sobre outra coisa. “...e eu espero que você não considere isso muito avançado de mim.”

“Não,” Claudia disse sem expressão em um segundo de silêncio.

A Rainha sorriu. “Excelente. Por aqui.”

Era uma porta dupla de madeira e foi escancarada por dois lacaios, mas quando Claudia entrou, as portas fecharam e toda a minúscula câmara se moveu silenciosamente para cima.

“Sim, eu sei,” a Rainha murmurou, segurando-a perto. “Tal violação do Protocolo.

Mas é só para mim, então, quem tem que saber?”

As pequenas mãos brancas estavam tão apertadas em seu braço, que ela podia sentir as unhas se cravando. Ela estava sem fôlego, como se ela tivesse sido sequestrada.

Até seu pai e Caspar foram deixados para trás.

Quando as portas abriram, o corredor que se esticava diante dela era uma visão de dourado e espelhos; ele tinha que ser três vezes o tamanho do de casa. A Rainha a guiou por ele pela mão, entre vastos mapas pintados que mostravam todos os estados no Reino, adornados em suas pontas com fantasias de ondas fluentes e sereias e monstros do mar.

“Aquela é a biblioteca. Eu sei que você ama livros. Caspar, infelizmente, não é tão estudioso.

Realmente, eu não sei se ele pode ler de qualquer jeito. Nós não vamos entrar.”

Escoltada firmemente, ela olhou para trás. Entre cada mapa ficava uma urna de porcelana azul e branca que poderia ter escondido um homem, e os espelhos refletiam um aos outros de numa confusão de luz que de repente ela não tinha mais ideia de onde o corredor acabava ou se ele acabava. E a pequena figura da Rainha parecia repetida diante e atrás dela e do lado, se modo que o pavor que Claudia tinha sentido no coche parecia estar concentrado naquele passo jovem anormal, rápido, naquela voz confidente, aguda.

“E esta é sua suíte. A do seu pai é a próxima porta.”

Imensa.

Um carpete onde seu pé afundou; uma cama de dossel com seda cor de açafrão, que ela sentiu que iria lhe afogar.

De repente ela puxou sua mão da mão da Rainha e se afastou, sabendo a armadilha.

Sabendo que fora pega nela.

Sia estava quieta. O falatório inútil se fora. Elas se encararam.

Então a Rainha sorriu. “Você não vai precisar ser avisada, tenho certeza, Claudia. A filha de John Arlex vai ser bem treinada, mas eu suponho que não machucara lhe dizer que muitos dos espelhos são duplos e os dispositivos de escuta em todo o Palácio são os mais eficientes.” Ela se aproximou. “Veja, eu ouvi falar que você recentemente estava um pouco curiosa sobre o querido e perdido Giles.”

Claudia manteve seu rosto perfeitamente composto, mas suas mãos estavam geladas. Ela olhou para baixo. “Eu pensei nele. Se as coisas tivessem sido diferentes...”

“Sim. E todos estão devastados com sua morte. Mas mesmo que a Dinastia Havaarna tenha acabado, o Reino deve ser governado. E eu não tenho dúvida, Claudia, que você fará isso muito bem.”

“Eu?”

“Claro.” A Rainha virou e sentou elegantemente numa cadeira dourada.

“Certamente você sabe que Caspar é incapaz até de se governar. Venha e sente aqui, minha querida. Deixe-me aconselhá-la.”

A surpresa estava lhe congelando. Ela sentou.

A Rainha se inclinou, seus lábios vermelhos fazendo um sorriso tímido. “Agora, sua vida aqui pode ser muito agradável. Caspar é uma criança—deixe-o ter seus brinquedos, cavalos, palácios, garotas, e ele não trará problemas. Eu me certifiquei que ele não soubesse nada sobre política.

Ele fica entediado tão facilmente! Você e eu podemos ter horas muito agradáveis, Claudia. Você não tem ideia de quão cansativo isso fica só com aqueles homens.”

Claudia olhou para as mãos. Isso era real, alguma coisa disso? Quanto disso era o jogo?

“Eu pensei...”

“Que eu te odiava?” A risada da Rainha era feminina. “Eu preciso de você, Claudia!

Podemos governar juntas, e você será tão boa nisso! E seu pai vai sorrir o sorriso sério dele.

Então.” Suas pequenas mãos bateram de leve nas de Claudia. “Sem mais pensamentos triste sobre Giles. Ele está em um lugar melhor, minha querida.”

Lentamente, ela concordou e ficou de pé, e a Rainha também levantou, com um farfalhar de seda.

“Tem somente uma coisa.”

Com uma mão na porta, Sia virou. “Sim?”

“Jared Sapiens. Meu tutor. Eu...”

Continuar: parte 4 de 4