Incarceron

Catherine Fisher · Capítulo 2 de 4 · parte 4/4

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Incarceron

Cuidado com a neve

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

“Você não vai precisar de um tutor. Eu posso lhe ensinar tudo agora.”

“Eu quero que ele fique.” Ela disse firmemente.

A Rainha olhou para trás. “Ele é jovem para um Sapiente. Eu não sei o que seu pai estava pensando...”

“Ele ficará.” Ela se certificou que isso fosse uma declaração, não uma pergunta.

Os lábios da Rainha tremeram. Seu sorriso era agradável. “O que você disser, querida. Tudo que quiser.”

***

Jared colocou o scanner na moldura da porta, abriu a minúscula janela, e sentou na cama. O

quarto era esparso, talvez como a Corte pensasse que a cela de um Sapiente deveria ser, com laminas de madeira no chão e painéis escuros cobertos com trevos e rosas verdes.

Cheirava a caules e umidade, e parecia vazio o suficiente, mas ele já removera dois pequenos dispositivos de escuta e devia haver outros. Mesmo assim, ele tinha que correr o risco.

Ele pegou a Chave e a segurou, ativando a ligação de voz.

Nada, fora a escuridão.

Ele tocou-a novamente, preocupado: A escuridão cresceu em um círculo largo, mas permaneceu escuro. Então, muito vagamente, ele viu a beira de alguém agachado. “Não podemos conversar,”

ela murmurou. “Não agora.”

“Então escute.” Jared manteve sua voz baixa. “Isso pode ajudar. Uma combinação de dois, quatro, três, um no painel de toque produz um campo de amortecimento.

Qualquer sistema de vigilância perdera seu rastro, completamente. Você desaparecerá de seus scanners. Entende isso?”

“Eu não sou estúpido.” O sussurro desdenhoso mal veio.

“Você encontrou Finn?”

Nada. Eles tinham desligado.

Jared uniu os dedos e xingou baixinho na língua Sapiente. Fora da janela, as vozes das pessoas cresceram; alguns violinistas nos jardins distantes raspando uma jiga.

Haveria dança esta noite para dar as boas-vindas à noiva do Herdeiro.

E se o velho Bartlett estava certo, o verdadeiro Herdeiro ainda estava vivo, e Claudia estava convencida de que ele era este garoto, Finn. Jared balançou a cabeça, desabotoando a gola de seu casco com longos dedos. Ela queria isso demais. Sua duvidas teriam que ficar em silencio, porque sem está esperança, ela não teria nada. E afinal, era possível, somente possível, que o instinto dela estivesse certo.

Cansado, encostou-se no travesseiro duro, pegou o malote de medicação em seu bolso, e preparou a dose. Ela estava três grãos mais forte, e estivera pela última semana, mas a dor que vivia oculta em seu corpo ainda parecia crescer lentamente, como uma coisa viva; algumas vezes ele pensava que ela devorava a droga, que estava alimentando seu apetite.

Ele aplicou a seringa, franzindo as sobrancelhas. Estas eram ideias mórbidas e tolas.

Estilo musical.

Mas quando ele deitou e dormiu, sonhou por um momento que um olho, escarlate como galáxias, se abrira na parede e olhara para ele.

***

Finn estava desesperado; ele segurou o anel no alto. “Pegue isso e nos deixe.”

O Olho cresceu, examinando ele de perto. “Você acredita que este objeto é de algum valor? ”

“Ele contém vida. Presa dentro dele.”

“Tão pertinente... Como todas suas vidas estão presas dentro de mim.”

Ele estava tremendo. Certamente se Keiro estivesse ouvindo, ele agiria agora. Se ele estivesse aqui.

Gildas entendeu. Deve ter entendido, porque ele vociferou alto.

“Pegue isso! Deixe-nos ir.”

“Como eu peguei o Tributo de Sapphique? Com eu peguei isso?” Na pele coagulada da Besta, um brilho de luz abriu; eles viram um osso frágil minúsculo, embutido no fundo.

Gildas murmurou uma prece de admiração.

“Quão pequeno é!” A Besta considerou. “E ainda assim, quanta dor isso me custou. Deixe me ver esta vida presa. ”

Ele deslizou a gavinha mais próxima. Finn apertou o anel em seu punho, seu suor fazendo ele escorregadio. Então ele abriu a mão.

De uma só vez, o Olho piscou. Arregalou, se contraiu, olhou ao redor. Da garganta da Besta um sussurro deslizou como óleo, uma demanda intrigada e fascinada.

“Como você fez isso? Onde você está?”

Uma mão apertou a boca de Finn; quando ele se agitou, viu Attia, um dedo nos lábios em alerta.

Atrás dela, estava Keiro, a Chave segura apertada em uma mão, um lança-chamas na outra.

“Você está invisível!” A Besta parecia amedrontada. “Isso não é possível! ”

Uma massa de tentáculos saiu dela, tateando teias de aranhas minúsculas e pegajosas. Finn cambaleou para trás.

Keiro ergueu até os ombros o lança-chamas. “Se você nos quer,” ele disse calmamente, “aqui estamos.”

Uma explosão de chamas rugiu por Finn; a Besta uivou com fúria. Em um instante a caverna era uma explosão de pássaros barulhentos em pânico e abelhas e morcegos libertados da forma e da ordem; eles arquearam e oscilaram e voaram em espirais até o teto da caverna, batendo a si mesmos insensatamente contra a pedra.

Keiro gritou com prazer. Atirou de novo, um estouro de chamas amarelas, e a Besta estava uma cascata ruidosa de fragmentos, de pele queimada e pedras caídas, seu Olho vermelho nada, mas uma pequenina explosão de mosquitos que se partiram em medo enlouquecido.

As chamas chiaram, atingiram as paredes, e repercutiram em um calor repentino.

“Deixe isto!” Finn berrou. “Vamos sair!”

Mas o teto e o chão estavam se inclinando, a rachadura se fechando em torno deles.

“Eu posso não poder te ver,” a Prisão mencionou acidamente acima do tumulto, “mas você está aqui, e eu te agarrarei apertado, meu filho. ”

De costas uns para os outros ela os forçou, rapidamente, as paredes da caverna estavam caindo, pedaços do teto se espatifando. Finn agarrou a mão de Attia no caos.

“Fiquem juntos!”

“Finn.” A voz de Gildas estava embargada. “Na parede. Lá em cima.”

Por um momento Finn não tinha ideia do que ele quis dizer; então ele viu. Uma fissura se abrindo.

Instantaneamente Attia se livrou. Ela correu e saltou; agarrando nas facetas salientes, ela se arrastou acima dos tentáculos, escalando as muitas escamas da própria Besta.

Ela impeliu Gildas depois dela; o velho escalou desajeitadamente, mas com vigor desesperado, pedaços de pedras e gemas rolando e deslizando sob suas mãos.

Finn virou.

Keiro tinha a arma pronta. “Continuem! Está procurando por nós!”

Incarceron estava cega. Ele viu como as partes da Besta se modificaram, uma garra, uma calda, como esta tateou e açoitou na escuridão. Ela os sentia na pele, sentia as vibrações de seu movimento. Ele queria perguntar a Keiro como ele fizera isso, mas não havia tempo, então ele virou e subiu atrás de Gildas.

A cada minuto as paredes estavam mudando, se modificando e ondulando, se empinando mais retas como se a Besta as levantasse, se enrolando ao redor para atirá-los de suas costas. Alto, no espaço cavernoso ele os alcançou, se pendurando, e quando Finn olhou para cima ele viu frestas de luz no alto, alfinetes de brilhante, e por um vertiginoso instante ele estava entre as estrelas, e então uma girou sobre ele e ela era um holofote, prateando suas mãos e rosto quando ele arquejou, desamparadamente exposto.

Attia virou, seu rosto um borrão. “Vá mais devagar! Temos de ficar perto da Chave!”

Keiro estava escalando muito abaixo, o lança-chamas deixado de lado. Quando o esconderijo acidentado chacoalhou, ele escorregou, um pé balançando no espaço, e talvez a Besta sentiu isso, porque ela sibilou e o ar fumegou com gases repentinos.

“Keiro!” Finn virou. “Vou ter que voltar por ele.”

Attia se contorceu. “Não. Ele pode se virar.”

Keiro agarrou a direita e puxou-se de volta. A Besta tremeu. Então riu, aquele sinistro riso que Finn lembrava tão bem. “Então vocês tem um dispositivo para se disfarçar. Eu lhes parabenizo.

Mas certamente eu pretendo descobrir o que é.”

Poeira caiu; um raio de luz. “Espere!” Finn gritou para Gildas; sem fôlego o velho balançou a cabeça.

“Não consigo mais segurar.”

“Você consegue!”

Ele deu um olhar desesperado a Attia; ela arrastou os braços de Gildas sobre os ombros e disse, “Ficarei com ele.”

Ele quase caiu onde Keiro segurava, apanhou-o com uma mão e se agarrou nele. “É inútil! Não tem saída!”

“Tem que ter,” Keiro ofegou. “Não temos uma Chave?”

Ele a esquivou e a mão de Finn pegou-a; por um momento ambos estavam segurando-a. Então Finn arrebatou-a e segurou-a longe. Pressionou cada botão, cutucando a águia, sua esfera, sua coroa. Nada. Quando a Besta açoitou debaixo deles ele sacudiu a Chave, a xingou, e sentiu a quentura dela aumentar repentinamente em suas mãos, superaquecendo com um barulho sinistro. Com um grito ele a abanou; ela o queimara.

“Use-a!” Keiro gritou. “Derreta a rocha!”

Finn apertou na Chave no contra um lado da caverna. Na hora ela zumbiu e estalou.

Incarceron gritou. Um uivo de angustia. Rochas caíram, Attia gritou do alto.

Quando Finn olhou, uma grande fenda branca se abriu na parede como um rasgo no tecido do mundo.

***

O Diretor estava com Claudia na janela e olhou para baixo na folia iluminada por tochas. “Você fez bem,” ele disse gravemente. “A Rainha está satisfeita.”

“Bom.” Claudia estava tão cansada, mal podia pensar.

“Amanhã, talvez nós...” Ele parou.

Um bip agudo e urgente. Insistente e alto, Claudia olhou ao redor. “O que é isso?”

Seu pai ficou muito quieto. Depois ele alcançou o bolso do colete e pegou seu relógio, e com um clique de seu polegar, abriu o estojo dourado. Ela viu o bonito mostrador, a hora. Quinze para as onze.

Mas o bip não era o bater das horas. Era um alarme.

O Diretor olhou fixamente. Quando ergueu o olhar, seus olhos estavam frios e pálidos. “Tenho que ir. Boa noite, Claudia. Durma bem.”

Assombrada, ela lhe assistiu atravessar a porta. “É a Prisão?” ela disse.

Ele virou, seu olhar atento. “O que te faz dizer isso?”

“O alarme... Nunca tinha escutado antes...”

Ele estava a observando. Ela se amaldiçoou. Então ele disse, “Sim. Parece haver um incidente.

Não se preocupe. Verei isso pessoalmente.”

As portas se fecharam atrás dele.

Por um momento ela ficou ali, congelada. Olhou para os painéis de madeira; então, como se a quietude a estimulasse à ação, ela agarrou um xale escuro, o pôs em volta de si, e se jogou na porta, abrindo-a rapidamente.

Ele estava bem abaixo no corredor dourado, caminhando rápido. Tão logo ele virou a esquina, ela correu atrás dele, sem ar, silenciosa nos macios carpetes. Sua imagem bruxuleando em espelhos escuros.

Do lado de um grande vaso de porcelana uma cortina girou; escorregando atrás dela, ela se viu no alto de um escuro lance de escadas em espiral. Ela esperou, seu coração martelando, observando a figura escura dele descendo abaixo, e ela viu que ele estava correndo, um passo rápido, agitado. Apressadamente ela avançou abaixo atrás dele, voltas e voltas, uma mãe no corrimão úmido, até que as paredes douradas se tornaram tijolo e depois pedra, os degraus esburacados com o uso, pegajosos com líquen verde.

Estava frio aqui embaixo, e muito escuro. A respiração dela nublava. Ela tremeu e apertou o xale contra si.

Ele estava indo à Prisão.

Ele estava indo para Incarceron!

Leve, muito à frente, o alarme estava tocando, alto e urgente, um pânico incessante.

Estes eram adegas de vinho. Elas eram câmaras enormes, cheias, abarrotadas com barris e cascos, fiação serpenteando suas paredes, presas com sais brancos que escorriam lentamente da alvenaria. Se era o Protocolo, era muito convincente.

Espreitando em torno de uma pilha de cascos, ela se manteve quieta.

Ele chegara a um portão.

Era de bronze verde, construído no fundo da parede, brilhando com rastros de caracol, corroído pela velhice. Grandes rebites o cravejavam. Correntes enferrujadas penduradas nele. Com um silencioso salto no coração ela viu a águia de Havaarna, suas asas estendidas quase perdidas sob camadas de verdete.

Seu pai olhou ao redor e ela abaixou-se atrás dos cascos, sem respirar. Então ele usou uma combinação no globo que a águia segurava; ela ouviu um clique.

As correntes escorregaram e balançaram, caindo.

Num banho de teias de aranha e caracóis e poeira o portão vibrou, aberto.

Ela se debruçou desesperada para ver o que havia atrás, para ver Dentro, mas só havia escuridão e um cheiro, um fedor metálico, ácido e ela teve que se jogar para trás ás pressas quando ele virou.

Quando ela olhou novamente ele se fora, e o portão estava fechado.

Claudia encostou-se aos tijolos molhados e expirou um sibilo silencioso de sopro desanimado.

Finalmente. Finalmente.

Ela o encontrara.

***

O Alarme apitou em seus dentes, em seus nervos, em seus ossos. Finn pensou que isto provocaria um desmaio; apavorado, ele chegou até a fenda, contra o vento gelado que uivava por ela.

A Besta se fora. Assim como Keiro passou por cima de Finn e agarrou Gildas, ela se dissolveu; repentinamente eles estavam caindo numa cascata de fragmentos, e então eles bateram contra a parede, uma corrente de corpos segurados só pela mão de Finn.

Ele gritou com agonia. “Não consigo segurá-los!”

“O cacete que não!” Keiro gritou sufocado.

Terror correu nele. A mão de Keiro deslizou num puxão agonizante. Ele não ia conseguir segura-los. Sua mão queimou.

Uma sombra caiu sobre ele. Ele pensou que era a cabeça da Besta, ou uma grande águia, mas quando ele se contorceu em desespero e olhou para cima, viu mergulhando pela fenda, zumbindo com o poder contido, um navio prateado, um veleiro antigo, suas velas de tecido fino cheio de remendos, suas cordas se embaraçando e pendendo pela amurada.

Ele surgiu acima eles, e muito lentamente, uma escotilha abriu na base. Uma cesta foi baixada, balançando em quatro imensos cabos, e em cima dela um rosto olhou pela amurada do navio, um rosto horrendo, carrancudo, deformado por óculos e um bizarro aparelho respiratório.

“Entrem,” esganiçou. “Antes que eu mude de ideia.”

Como eles subiram, ele não tinha ideia, mas em segundos Keiro tinha caído na cesta que balançava demais; Gildas se arrastou atrás dele. Attia pulou, parando só um momento, e então Finn se deixou cair, sua mente tão negra com alivio que ele caiu sem medo, e não se sentiu pousar, até que um silêncio bem-vindo explodiu com o grito de Keiro em sua orelha. “Sai de cima de mim, Finn!”

Ele se esforçou para se levantar. Attia estava se debruçando sobre ele. “Tudo bem com você?”

“... Sim.”

Ele não estava, ele sabia, mas ele passou por ela para a borda e olhou, tonto com o balanço, o ar gelado.

Estavam fora da Caverna, acima da planície, milhas a cima da Cidade. Ela jazia como um brinquedo, e desta altura eles podiam ver as marcas de queimadura e a fumarolas ao redor delas, como se a própria terra fosse à pele da Besta que roncava abaixo, soltando vapores com ira.

Nuvens se alinhavam ao redor, vapores de amarelo metálico, um arco-íris.

Finn sentiu Gildas lhe agarrar, a voz do velho delirante com alegria, arrebatada pelo vento. “Olhe para cima, garoto! Rápido! Ainda existem Sapienti, com poder!”

Ele girou a cabeça. E viu, enquanto o navio prateado subia em espirais, uma torre tão estreita e impossivelmente alta que parecia uma agulha equilibrada em cima de uma nuvem, seu topo bruxuleando com luz. Ele sentiu sua respiração gear e condensar na amurada, quebrar e se estilhaçar, cada caco de gelo polarizado pela torre, cada cristal alinhado como se por um imã.

Ofegando no ar leve, ele agarrou a mão do velho, tremendo com frio e medo, não se atrevendo a olhar para baixo novamente, vendo apenas o minúsculo lugar de desembarque na ponta da agulha crescer mais, o globo lentamente girando em seu cume.

E ainda assim, alto como eles estavam, acima deles, milhas e milhas, a noite de Incarceron estendia-se no céu gelado.

***

O martelar acordou Jared num suor frio de medo.

Por um momento ele não tinha ideia do que era, então ele ouviu um sussurro, “Jared! Rápido, sou eu.”

Ele sentou e levantou-se cambaleando, tirando o scanner da moldura, tateando a procura da tranca. Tão logo ele a levantou, a porta se escancarou, quase batendo em seu rosto; então Claudia estava dentro, sem fôlego e manchada com poeira, um xale imundo ao redor de seu vestido de seda.

“O que foi?” ele prendeu a respiração. “Claudia, ele descobriu? Ele sabe que nós temos a Chave?”

“Não. Não.” Ela não tinha ar; ela sentou-se rapidamente na cama e se abaixou, apertando as costelas.

“Então o que?”

Ela ergueu a mão, fazendo-o esperar; depois de um momento, quando ela pode falar e olhou para cima, ele viu sua face iluminada com triunfo.

Ele se afastou subitamente desconfiado. “O que você fez Claudia?”

Seu sorriso era penetrante. “O que eu esperei tantos anos para fazer. Descobri a porta para o segredo dele. A entrada para Incarceron.”

UM MUNDO QUE ESTÁ SUSPENSO NO ESPAÇO.

 

“Onde estão os líderes?” Sapphique perguntou.

“Em suas fortalezas,” o cisne respondeu.

“E os poetas?”

“Perdidos em sonhos de outros mundos.”

“E os artesãos?”

“Forjando máquinas para desafiar a escuridão.”

“E os Sábios, que fizeram o mundo?”

O cisne abaixou seu pescoço negro tristemente.

“Definharam em bruxas e feiticeiros em torres.”

—Sapphique no Reino dos Pássaros

Finn cuidadosamente tocou uma das esferas. Ela lhe mostrava seu próprio rosto, inchado grotescamente no vidro delicado cor-de-lilás. Atrás dele ele viu Attia vir através do corredor e olhar ao redor.

“O que é isso?” Ela ficou estupefata entre as bolhas presas ao teto, e ele viu como ela estava limpa nessa manhã, seu cabelo lavado, as novas roupas fazendo-a parecer mais jovem que nunca.

“O laboratório dele. Olhe aqui.”

Algumas das esferas continha paisagens completas. Em uma, uma colônia de pequenas criaturas de pelos dourados repousavam tranquilamente ou cavavam em pequenos montes de areia. Attia estendeu suas mãos sobre o vidro. “É quente.”

Ele assentiu. “Você dormiu?”

“Um pouco. Eu fiquei acordando porque estava muito quieto. Você?”

Ele anuiu, sem querer dizer que sua exaustão tinha o feito cair em uma pequena cama branca e dormir instantaneamente, sem nem se despir. Apesar disso, quando ele acordou nessa manhã, ele tinha descoberto que alguém tinha colocado o cobertor sobre ele, e colocado roupas limpas na cadeira em um quarto nu e branco. Tinha sido Keiro?

“Você viu o homem no barco? Gildas acha que ele é um Sapiente.”

Ela balançou a cabeça. “Não sem a máscara. E tudo que ele disse na noite passada foi ‘Tome esses quartos e conversaremos de manhã.’” Ela olhou ao seu redor. “Foi corajoso, voltar por Keiro.”

Eles ficaram em silêncio por um momento. Ele se aproximou e ficou ao lado dela, e enquanto observavam os animais se coçando e rolando, eles ficaram conscientes de que além desse globo estava uma câmara completa de mundos de vidro, verde-água, dourado e azul claro, cara um preso em uma corrente, algumas menores que um punho, outras vastas como um átrio, onde pássaros voavam, ou peixes nadavam, ou bilhões de insetos voavam e enxameavam.

“É como se ele tivesse feito celas para todos eles,” ela disse baixinho. “Eu espero que ele não nos coloque em uma.” Então, percebeu o solavanco repentino no reflexo dele, “O quê? Finn?”

“Nada.” Suas mãos deixaram manchas quentes na esfera quando ele se inclinou.

“Você viu algo.” Os olhos de Attia estavam arregalados. “Eram as estrelas, Finn?

Há realmente milhões delas? Elas se reúnem e cantam na escuridão?”

Estupidamente, ele não queria desapontá-la. Disse, “Eu vi... eu vi um lago na frente de uma grande construção. Era de noite. Lanternas estavam flutuando sobre a água, pequenas lanternas de papel, cada uma com uma vela dentro para que elas parecessem azuis, verdes e vermelhas.

Havia barcos no lago e eu estava em um deles.” Ele esfregou o rosto. “Eu estava lá, Attia. Eu estava inclinado sobre o lado e tentando tocar meu reflexo na água, e sim, havia estrelas. E elas estavam com raiva porque minha manga ficou molhada.”

“As estrelas?” Ela se aproximou.

“Não. As pessoas.”

“Que pessoas? Quem eles eram, Finn?” Ele tentou. Havia um cheiro. Uma sombra.

“Uma mulher,” disse. “Ela estava com raiva.”

Doía. Lembrar doía. Desencadeava flashes de luz; ele fechou os olhos contra elas, suando, sua boca seca.

“Não.” Ansiosa, ela estendeu a mão para ele, as marcas vermelhas nos seus pulsos onde as correntes tinham machucado a pele. “Não se preocupe.”

Ele esfregou o rosto com sua manga e o quarto ainda estava com o silêncio que ele não conhecia desde a cela onde ele nasceu. Sem jeito, ele murmurou, “Keiro ainda está dormindo?”

“Ah, ele!” Ela fez uma carranca. “Quem se importa?” Ele a observou caminhar por entre as esferas,

“Você não pode continuar a o detestar dessa forma. Você ficou com ele na Cidade.”

Ela estava em silêncio, então ele disse. “Como vocês conseguiram nos seguir?”

“Não foi fácil.” Ela apertou os lábios. “Ouvimos rumores sobre o Tributo, então ele disse que deveríamos roubar um lança-chamas. Fui eu quem causou uma distração para que ele pudesse conseguir. Não que eu tivesse recebido algum agradecimento.”

Finn riu. “Esse é Keiro. Ele nunca agradece.” Estendendo suas mãos sobre a esfera, ele inclinou sua testa sobre ela e os répteis de dentro o encaram de volta apaticamente. “Eu sabia que ele viria. Gildas disse que não, mas Keiro nunca iria me trair.”

Ela não deu nenhuma resposta, mas ele percebeu que o silêncio dela tinha mudado com uma tensão estranha; quando ele olhou para ela, ela estava o observando com algo como raiva.

Explodiu nela abruptamente. “Você está tão errado, Finn! Não pode ver como ele é? Ele teria te abandonado facilmente, só levado a Chave e ido embora e nem teria se importado!”

“Não,” ele disse, surpreso.

“Sim!” Ela o encarou, seus machucados lívidos na pele branca do seu rosto. “Porque foi apenas a ameaça da garota que o fez ficar.”

Ele se sentiu frio. “Que garota?”

“Claudia.”

“Ele falou com ela!”

“Ela o ameaçou. ‘Encontre Finn,’ ela disse, ‘ou a Chave será inútil para você.’ Ela estava realmente zangada com ele.” Attia deu ombros suavemente. “Era a ela que você deveria agradecer.”

Ele não iria acreditar.

De jeito nenhum ele acreditaria.

“Keiro teria voltado.” Sua voz estava baixa e teimosa. “Eu sei como ele se parece, que ele não se importa com ninguém, mas eu o conheço. Nós lutamos juntos. Nós fizemos o juramento.”

Ela balançou a cabeça. “Você confia demais, Finn. Você deve ter nascido no Lado de Fora, porque você não se encaixa aqui.”

Então, ouvindo passos, ela disse rapidamente, “Pergunte a ele sobre a Chave.

Pergunte. Você vai ver.”

Keiro entrou no cômodo e assobiou. Ele estava usando uma roupa justa azul-escuro, seu cabelo molhado, e ainda estava comendo uma maçã do prato do quarto deles, os últimos dois anéis-caveira brilhando nos seus dedos. “Então é aqui onde vocês estão!” Ele fez um giro completo. “E

essa é a torre de um Sapiente. Aposto que é a gaiola do velho.”

“Estou satisfeito por você pensar assim.” Para o horror de Finn, uma das maiores esferas se abriu e um estranho saiu, seguido por Gildas. Ele se perguntou o quanto eles tinham ouvido, e como poderia haver escadas para baixo dentro da esfera, mas antes que ele estivesse certo sobre isso, ela se fechou e só brilhou dentre as centenas de outras.

Gildas usava uma veste de Sapiente verde iridescente. Seu rosto afilado estava lavado, sua barba aparada. Ele parecia diferente, Finn pensou. Alguma da fome tinha desaparecido; quando ele falou sua voz não estava rabugenta, mas tinha uma nova gravidade.

“Esse é Blaize,” disse. E então, suavemente, “Blaize Sapiens.”

O homem alto inclinou sua cabeça levemente. “Bem-vindos à minha Câmara dos Mundos.”

Eles o encararam. Sem a máscara de respiração, seu rosto era extraordinário, mosqueado com feridas, pontos e manchas de ácido, seu fino cabelo amarrado para trás com uma fila oleada.

Sob o casaco de Sapiente ele usava velhas calças a altura dos joelhos manchadas com produtos químicos, e uma camisa amassada que talvez um dia já tivesse sido branca.

Por um momento ninguém falou. Então, para surpresa de Finn, foi Attia que disse, “Temos de agradecê-lo, Mestre, por nos salvar. Nós poderíamos ter morrido.”

“Ah... bem. Sim.” Ele olhou para ela, seu sorriso torto e estranho. “Isso de fato é verdade. Eu pensei que seria melhor eu descer.”

“Por quê?” A voz de Keiro estava fria.

O Sapiente se virou. “Eu não entendo...?”

“Por que se incomodar? Em salvar-nos? Temos algo que você precisa?”

Gildas franziu as sobrancelhas. “Esse é Keiro, Mestre. O que não tem maneiras.”

Keiro urrou. “Não me diga que ele não sabe sobre a Chave.” Ele mordeu a maçã, o mastigado alto no silêncio.

Blaize se virou para Finn. “E você deve ser o Vidente das Estrelas.” Seus olhos estavam fixos em Finn com escrutínio enervante. “Meu colega me contou que Sapphique mandou essa chave para você, e que ela vai leva-lo para o Lado de Fora. Que você acredita que veio do Lado de Fora.”

“Eu acredito.”

“Você se lembra?”

“Não. Eu só... acredito.”

Por um momento o homem o encarou, uma mão fina coçando distraidamente um machucado da sua bochecha. Então ele disse, “Infelizmente, eu tenho de dizer que você está errado.”

Gildas se virou estupefato; Attia encarou.

Irritado, Finn disse, “O que você quer dizer?”

“Quero dizer que você não veio do Exterior. Ninguém nunca veio do Exterior.

Porque, veja, não existe o Exterior.”

Por um momento o silêncio no cômodo estava alarmado, cheio de descrença. Então Keiro riu suavemente e jogou os restos da maçã sobre as lajes de pedra no chão. Ele se aproximou, tirou a chave, e a colocou do lado de uma esfera de vidro. “Certo, Sábio. Se não existe o Exterior, para que é isso?”

Blaize estendeu a mão e a pegou. Ele a virou cuidadosa e calmamente. “Ah sim. Eu ouvi histórias sobre tais dispositivos. Talvez os Sapienti originais os inventaram. Há uma lenda que diz que Lorde Calliston fez uma em segredo e morreu antes de poder experimentá-la. Ela torna o usuário invisível aos Olhos, e sem dúvida tem outras habilidades. Mas não pode deixar você sair.”

Gentilmente ele colocou o cristal sobre a mesa. Gildas o fitou. “Irmão, isso é tolice!

Todos sabemos que o próprio Sapphique—”

“Não sabemos nada sobre Sapphique além de um monte de histórias de lendas.

Aqueles tolos na Cidade, cujos feitos eu observo com tédio, inventam novas histórias sobre Sapphique todo ano.” Ele cruzou os braços, seus olhos cinzentos cruéis. “Homem amam criar histórias, irmãos. Eles amam sonhar. Eles sonham que o mundo é um profundo subterrâneo, e se nós subirmos encontraremos uma forma de sair, um alçapão para uma terra onde o céu é azul e a terra gera sementes e mel e não há dor. Ou que há nove círculos da Prisão rodeando seu centro, e se adentrarmos profundamente neles encontraremos o coração de Incarceron, seu ser vivo, e iremos emergir até outro mundo.” Ele balançou a cabeça. “Lendas. Nada mais.”

Finn estava chocado. Ele olhou para Gildas; o velho parecia abatido, então raiva explodiu dele.

“Como você pode dizer isso?” ele rangeu. “Você, um Sapiente? Eu pensei, quando vi o que você era, que nossos esforços seriam mais fáceis, que você entenderia...”

“Eu entendo, acredite em mim.”

“Então como você pode dizer que não há um Lado de Fora?”

“Porque eu vi.”

A voz dele estava tão melancólica e pesada com desespero que até Keiro parou de andar de um lado para o outro e o encarou. Do lado de Finn, Attia tremeu. “Como?” ela sussurrou.

O Sapiente apontou para uma esfera, uma casca preta e vazia. “Ali. O experimento me tomou décadas, mas eu estava determinado. Meus sensores penetraram metal e pele, osso e arame. Eu fiz meu caminho quilômetros através de Incarceron, seus átrios e corredores, seus mares, seus rios. Como você, acredito.” Ele riu cruelmente, mordendo as unhas ruídas da sua mão. “E sim, eu encontrei o Lado de Fora, de certa forma.” Ele se virou o tocou os controles, e a esfera se iluminou. “Eu encontrei isso.”

Eles viram uma imagem da escuridão. Uma esfera dentro da esfera, um globo de metal azul. Ela pairava numa interminável escuridão de espaço, sozinha, silenciosa.

“Essa é Incarceron.” Blaize apontou para ela. “E vivemos dentro dela. Um mundo.

Construído, ou brotado, quem sabe. Mas sozinho, numa vastidão, num vácuo. No nada.

Não há nada do lado de fora.” Ele deu ombros. “Lamento. Eu não queria destruir os sonhos das suas vidas. Mas não há lugar nenhum para ir.”

Finn não podia respirar. Era como se as frias palavras tivessem tirado a vida dele.

Ele fitou o globo e sentiu Keito se aproximar por detrás dele, sentiu o calor e a energia do seu irmão de juramento, e isso o confortou. Mas foi Gildas quem surpreendeu a todos.

Ele riu. Um rugido, áspero e gutural, de desprezo. Ficando ereto, ele se virou para Blaize e o olhou.

“E você se chama de Sábio! Enganado pela malícia da Prisão, mais provável. Ela lhe mostra mentiras e você acredita nelas, e vive aqui acima dos homens e os despreza. Pior que um tolo!”

Ele se aproximou do homem mais alto; Finn deu um passo atrás dele. Ele conhecia o temperamento do velho.

Mas Gildas apunhalou o ar com seu dedo nodoso, e sua voz estava dura e baixa.

“Como se atreve a ficar aí e me negar a minha esperança e a chance das vidas deles. Como se atreve a me dizer que Sapphique é um sonho, que a Prisão é tudo que há!”

“Porque é verdade,” Blaize disse.

Gildas se soltou do aperto de Finn. “Mentiroso! Você não é nenhum Sapiente. E você esquece.

Vimos os Estrangeiros.”

“Sim!” Attia disse. “E falamos com eles.”

Blaize parou. Ele disse, “Falaram com eles?”

Por um momento quase parecia que a certeza dele estava estremecida. Ele juntou seus dedos e sua voz estava estrangulada. “Falaram com quem? Quem eram eles?”

Todos olharam para Finn, então ele disse, “Uma garota que se chamava Claudia. E um homem.

Ela o chama de Jared.”

Houve um segundo de silêncio. Keiro disse, “Então explique isso.”

Blaize deu suas costas para eles. Mas quase imediatamente ele se virou e seu rosto estava sério.

“Eu não desenho preocupar vocês. Mas vocês viram uma garota e um homem. Como vocês sabem onde eles estão?”

Finn disse, “Eles não estão aqui.”

“Não?” Blaize olhou para ele rapidamente, seu rosto marcado inclinado para o lado.

“Como você sabe? Você não achou que eles também devam ser de Incarceron? Em outra Ala, algum nível distante onde vida parece diferente, onde eles nem sabem que estão aprisionados?

Pense, garoto! A ideia de escapar vai se tornar uma tolice que vai devorar a sua vida. Você vai passar anos em viagens perdidas, buscando, e tudo por nada! Encontre um lugar para viver, e fique em paz em vez disso. Esqueça as estrelas.”

Sua voz murmurou por entre as esferas de vidro, alta nas vigas de madeira do teto.

Apavorado, mal ouvindo a explosão furiosa de Gildas, Finn encarou a janela e ficou ali, olhando para o lado de fora do vidro selado para as nuvens da estratosfera de Incarceron, muito altas para pássaros, a paisagem congelada quilômetros abaixo, as colinas distantes e as inclinações escuras que pareciam paredes além da sua visão.

Seu próprio medo o aterrorizava.

Se isso fosse verdade, não havia Escapada, daqui ou de si mesmo...

Ele era Finn e sempre seria, com nenhum passado e nenhum futuro e nenhum lugar para voltar.

Ninguém com quem ele esteve.

Gildas e Attia estava zangados; eles estavam discutindo, mas o argumento frio de Keiro cortou através do barulho e silenciou a todos. “Por que não perguntamos a eles?” ele disse. Ele pegou a chave o tocou os controles; se virando rapidamente, Finn viu como conhecedor ele estava.

“Não há sentido,” Blaize disse rapidamente.

“Para nós há.”

“Então eu vou deixar vocês falarem com seus amigos.” Blaize se virou. “Eu não tenho nenhum desejo de fazer o mesmo. Sintam-se livres para se sentirem em casa nessa torre. Comam, descansam. Pensem sobre o que eu disse.”

Ele caminhou entre as esferas e saiu pela porta, a veste ondulando sobre suas roupas manchadas, o fraco odor de ácido e algo mais, algo doce, ficou atrás dele.

Logo que ele se foi Gildas praguejou, longa e amargamente.

Keiro sorriu. “Você aprendeu algo útil dos Comitatus, então.”

“Pensar que depois de todos esses anos eu encontraria um Sapiente e ele seria tão fraco!” O

velho parecia doente de desgosto. Então ele estendeu a mão. “Dê-me essa Chave.”

“Não precisa.” Keiro a colocou com pressa sobre a mesa e deu um passo para trás.

“Está funcionando.”

Um zumbido familiar se elevou; o holograma foi projetado e se iluminou em um círculo de luz.

Hoje parecia mais brilhante que antes, como se eles estivessem mais próximos da fonte, ou como se seu poder tivesse crescido. Dentro dele, tão perto como se ela estivesse entre eles, Claudia apareceu. Seus olhos estavam brilhantes, seu rosto alerta.

Finn quase sentiu que ele podia estender a mão e tocá-la.

“Eles o encontraram,” ela disse.

“Sim,” ele sussurrou.

“Estou tão satisfeita.”

Jared estava com ela, um braço inclinado contra o que parecia ser uma árvore. E de repente Finn percebeu que eles estavam sentados em um campo, ou um jardim, e a luz daquele lugar era gloriosamente dourada.

Os ombros de Gildas passaram por ele. “Mestre,” disse de forma curta. “Você é um Sapiente?”

“Sou.” Jared se levantou e se inclinou formalmente. “Como você, eu vejo.”

“Por esses cinquenta anos, filho. Antes que você tivesse nascido. Agora me responda três perguntas e diga a verdade. Vocês estão no Exterior do Incarceron?”

Claudia encarou. Jared assentiu devagar. “Sim.”

“Como você sabe?”

“Porque esse é um palácio, não uma prisão. Porque o sol está sobre nós, e as estrelas e a noite.

Porque Claudia descobriu o portão que leva até a Prisão...”

“Descobriu?” Finn prendeu a respiração.

Mas antes que ela pudesse responder, Gildas falou, “Mais uma coisa. Se você está no Exterior, onde está Sapphique? O que ele fez para sair? Quando ele vai voltar para nos libertar?”

Havia flores no jardim, papoulas brilhantes e vermelhas.

Jared olhou para Claudia, e no silêncio entre eles uma abelha zumbiu nas pétalas, um murmúrio pequeno que fez Finn tremer com a memória perdida.

Então Jared se levantou e se aproximou, tão perto, que ele e Gildas estavam cara a cara. “Mestre,”

ele parecia cortês. “Perdoe minha ignorância. Minha curiosidade. Perdoe-me se isso parece uma pergunta estúpida. Mas quem é Sapphique?”

Nada mudou, ou irá mudar.

Então nós devemos mudar.

—Os Lobos de Aço.

Finn pensou que a abelha iria sair do halo dourado e pousar sobre ele. Enquanto ela zumbia perto de sua mão, ele deu um puxão para trás e ela arremessou-se para longe.

Ela olhou para Gilda. O velho homem quase cambaleou; Attia foi ajudar ele a sentar, e Jared estava agarrando suas próprias mãos como se para ajudar, desânimo em seu rosto. Ele olhou fixamente para Claudia; Finn ouviu seu murmúrio. “Eu não deveria ter perguntado. O

Experimento...”

“Sapphique Escapou." Keiro arrastou um banco e sentou sob o holofote, sua luz abundante em seu casaco vermelho. “Ele saiu. O único que conseguiu fazer isso. Está é a lenda.”

“Não é uma lenda,” Gildas estourou. Ele ergueu os olhos. “Você realmente não sabe? Eu pensei...

que lá fora ele seria um grande homem... um rei.”

Claudia disse, “Não. Pelo menos... bem, nós poderíamos fazer alguma busca. Ele pode ter se escondido. As coisas aqui não são perfeitas tampouco.” Ela ficou de pé rapidamente. “Talvez vocês não saibam, mas as pessoas aqui acreditam que Incarceron seja um lugar maravilhoso. Um paraíso.”

Eles olharam fixamente para ela.

Ela viu o choque da descrença em seus rostos. O de Keiro mudando quase que instantaneamente para um sorriso ácido, divertido. “Fabuloso”, ele murmurou.

Então ela contou a eles. Ela contou a eles sobre o Experimento, seu pai, o enigma lacrado da Prisão. E então ela contou a eles sobre Giles. Jared disse, “Claudia...” mas ela ondulou uma mão para ele e continuou rapidamente, andando na grama surpreendentemente verde. “Eles não o mataram, nós sabemos disso. Eles o esconderam. E eu penso que eles o esconderam aí dentro.

Eu acho que ele é você.”

Ela se virou e os encarou, e Keiro disse, “Você está dizendo...” e então parou e olhou fixamente para seu irmão de juramento. “Finn? Um príncipe?” Ele riu, imaginando.

“Você está louca?”

Finn abraçou a si mesmo. Ele estava tremendo, ele sabia, aquela rara confusão desnorteadora estava de volta aos cantos de sua mente, lampejos de coisas idas tão rápido quanto sombras em espelhos escuros.

“Você parece com ele,” Claudia disse firmemente. “Não é permitido fotografias agora, não são Protocolo, mas o velho homem tinha uma pintura.” Ela a ergueu, deslizando para fora de uma bolsa azul. “Olhe.”

Attia inspirou.

Finn estremeceu.

O cabelo da criança era brilhante e seu rosto iluminado com inocente felicidade.

Impossível vitalidade irradiava dele. Sua túnica era um tecido de ouro, sua pele gorducha e rosada. Uma pequena águia marcava seu pulso.

Finn se aproximou mais. Ele estendeu a mão e ela ergueu a miniatura para ele, e seus dedos fecharam ao redor da moldura dourada; por um momento ele sentiu que a tinha segurado, que a tinha tocado. E então as pontas de seus dedos encontraram o nada e ele sabia que estava muito longe, mais longe do que ele podia imaginar. E um longo tempo atrás.

“Havia um velho homem,” Claudia disse. “Bartlett. Ele cuidava de você.”

Ele olhou fixamente para ela. Seu vazio assustou ambos.

“Rainha Sai, então? Sua madrasta, ela deve ter odiado você. Caspar, seu meio-irmão? Seu pai, o rei, que morreu. Você deve lembrar!”

Ele queria. Ele queria arrastá-las para fora da escuridão de sua mente, mas não havia nada lá.

Keiro estava de pé e Gildas tinha seu braço, mas tudo o que ele podia ver era Claudia, seu olhar ávido, feroz nele, querendo lembrá-lo. “Nós éramos noivos.

Quando você fez sete anos houve um grande banquete. Uma enorme celebração.”

“Deixe-o em paz,” Attia vociferou. “Deixe-o em paz.”

Claudia aproximou-se. Ela esticou a mão e tentou tocar seu pulso. “Olhe, Finn. Eles não puderam tirá-lo. Isto prova quem você é.”

“Isto não prova nada!” Attia virou-se tão de repente, que Claudia puxou-se de volta. Os punhos da garota estavam cerrados, seu rosto machucado branco. “Pare de atormentá-lo! Se você o amou, deveria parar! Você não pode ver que isso o machuca e ele não consegue lembrar? Você realmente não se importa se é ele, se ele é Giles. Tudo o que você quer é não casar com este Caspar!”

No silêncio chocado Finn respirava fortemente. Keiro o empurrou sobre o banco; seus joelhos cederam e ele sentou-se depressa.

Claudia estava pálida. Ela deu um passo para trás, mas seus olhos nunca deixaram Attia. Então ela disse, “Realmente esta não é a verdade. Eu quero o Rei de verdade. O verdadeiro Herdeiro, mesmo que ele não seja dos Havaarna. E eu quero tirar você desse lugar. Todos vocês.”

Jared se aproximou e agachou-se. “Você está bem?”

Finn assentiu. Sua mente estava nublada; ele esfregou o rosto com as mãos.

“Ele fica assim,” Keiro disse. “E pior.”

“Pode ser o tratamento que eles deram a ele.” Os olhos escuros do Sapiente encontraram os de Gilda. “Eles devem ter dado drogas a ele para fazê-lo esquecer. Você tentou algum antídoto, Mestre, quaisquer terapias?”

“Nossos remédios são limitados,” Gilda grunhiu. “Eu usei pó de tumentine e uma decocção de papoula. E uma vez dentes de lebre, mas o deixou doente.”

Jared pareceu educadamente chocado. Claudia sabia por seu rosto que tais coisas eram tão primitivas que os Sapienti aqui tinham praticamente esquecido delas. De repente ela se sentiu furiosa de frustração, ela queria alcançar e arrastar Finn para fora, rompendo a barreira invisível.

Mas isso não adiantava, então ela fez a si mesma dizer calmamente, “Eu decidi o que fazer. Eu vou entrar. Através do portal.”

“Como isso pode nos ajudar?” Keiro perguntou, observando Finn.

Foi Jared quem respondeu. “Eu fiz um estudo cuidadoso da Chave. Pelo que posso ver, nossa habilidade de contato um com o outro está mudando. A imagem está tornando-se mais clara e mais focada. Isto pode ser por causa de Claudia e eu termos vindo da Corte; nós estamos mais perto de vocês, e a Chave pode registrar isso. Ela pode ajudar você a navegar em direção ao portal.”

“Eu pensei que haviam mapas.” Keiro olhou Claudia. “A Princesa aqui disse isso.”

Claudia suspirou, impaciente. “Eu menti.”

Ela olhou direto para ele; os olhos azuis dele eram afiados como gelo.

“Mas,” Jared continuou apressadamente, “há problemas. Há uma estranha...descontinuidade que me confunde. A Chave demora demais para nos mostrar uns aos outros; cada vez que ela parece estar ajustando algum parâmetro físico ou temporal...

Como se nossos mundos estão de algum modo desalinhados...”

Keiro parecia desdenhoso; Finn sabia que ele achava que tudo isso era uma perda de tempo. Do banco ele levantou a sua cabeça e disse calmamente, “Mas você não acha, Mestre, que Incarceron é outro mundo? Que ele flutua livre no espaço, longe da Terra.”

Jared olhou fixamente. Então ele disse suavemente, “Não, eu não acho. Uma fascinante teoria.”

“Quem lhe disse isso?” Claudia disparou.

“Não importa.” Instavelmente, Finn se pôs de pé. Ele olhou para Claudia. “Nesta Corte de vocês, há um lago, não há? Onde nós flutuávamos lanternas, com velas dentro?”

As papoulas ao redor dela eram um tecido vermelho no sol. “Sim,” disse ela.

“E em cima de meu bolo de aniversário, pequenas bolas de prata.” Claudia estava tão imóvel, que mal podia respirar.

E então enquanto ele a olhava em insuportável tensão, os olhos dela se arregalaram; ela virou-se e gritou, “Jared! Desligue-o! Desligue-o! ”

E na escuridão da sala de esferas imediatamente havia só escuridão, e uma estranha vertigem inclinada, e um perfume de rosas.

Keiro levou sua mão direita cuidadosamente ao espaço vazio onde a holoimagem tinha estado.

Faíscas foram cuspidas; ele deu um puxão de volta, xingando.

“Alguma coisa os assustou,” Attia respirou.

Gilda franziu as sobrancelhas. “Não alguma coisa. Alguém.”

***

Ela tinha o cheirado. Um doce, inconfundível perfume que ela percebeu agora tinha estado lá por um longo tempo, que ela tinha conhecido, mas ignorado, envolvida na tensão do momento.

Agora, enquanto ela resistia ao inflamado toque de lavanda e delfínios e rosas, ela sentiu Jared atrás dela levantar lentamente em seus pés, ouviu sua baixa respiração de desânimo como se ele registrar-se-á também. “Saia,” ela disse friamente.

Ele estava atrás do arco de rosa. Ele deu um passo relutantemente, a seda pêssego de seu terno macia como pétalas.

Por um momento nenhum deles falou.

Então Evian sorriu um envergonhado sorriso.

“Quanto você ouviu?” Claudia exigiu, mãos no quadris.

Ele tirou um lenço e limpou o suor de seu rosto. “Realmente demais, eu temo, minha querida.”

“Pare a atuação.” Ela estava furiosa.

Ele deu uma olhada para Jared e então, curiosamente para Chave. “Este é um dispositivo incrível.

Se nós tivéssemos tido a menor ideia que existia, nós teríamos movido céus e terras para encontrá-lo.”

Ela silvou uma respiração de raiva e virou-se. Para suas costas, ele disse astutamente, “Você sabe o que isso significa, se esse rapaz é realmente Giles.”

Ela não respondeu.

“Isso significa que nós temos uma figura representativa para o nosso golpe. Mais do que isso, uma causa justa. Como você disse tão emocionadamente, o verdadeiro Herdeiro.

Eu acredito que essa era a informação que você me prometeu?”

“Sim.” Ela virou-se e viu seu olhar fascinado, e aquilo a gelou como tinha feito antes. “Mas escute, Evian. Nós estamos fazendo isso a meu modo. Primeiro de tudo eu estou indo através daquele portal.”

“Não sozinha.”

“Não,” Jared disse rapidamente. “Comigo.”

Ela disparou a ele um olhar assustado. “Mestre...”

“Juntos, Claudia. Ou absolutamente não.”

Uma trombeta soou no Palácio. Ela deu um olhar em direção ao edifício em contrariedade. “Tudo bem. Mas não há necessidade de assassinatos, você não vê? Se as pessoas entenderem que Giles está vivo, se nós o mostramos a eles, certamente a Rainha não será capaz de negá-lo..”

Sua voz sumiu enquanto ela olhava para eles. Jared estava brincando infeliz com uma florzinha branca na grama; esfregando seu perfume entre os dedos. Ele não olharia para ela. Evian o fez, mas seus pequenos olhos estavam quase piedosos. “Claudia,” ele disse, “você é tão inocente ainda?” Ele veio até ela, não mais alto do que ela, suando no sol quente. “As pessoas nunca irão ver Giles. Ela nunca deixaria que isso acontecesse. Você e ele seriam mortos sem piedade, como o velho homem que eu falei. Jared também, e qualquer um que eles pensem que sabe sobre o plano.”

Ela cruzou os braços, sentindo seu rosto ir aquecendo. Ela sentiu-se humilhada, como uma criança pequena sendo repreendida gentilmente, para piorar. Por que, é claro, ele estava certo.

“São eles que devem ser mortos.” A voz de Evian era baixa e dura. “Eles devem ser removidos.

Nós estamos decididos sobre isso. E nós estamos prontos para agir.”

Ela ergueu os olhos para ele. “Não.”

“Sim. Muito em breve.”

Jared deixou cair à flor e virou sua cabeça. Ele pareceu muito pálido. “Você deve pelo menos esperar até depois do casamento.”

“O casamento é em dois dias. Tão logo ele acabar nós vamos nos mover. É melhor se nenhum de vocês conhecer os detalhes...” Ele ergueu a mão para evitar que ela falasse.

“Por favor, Claudia, não me pergunte jamais. Se isso vir a sair errado, se você for interrogada, desta forma você pode nada revelar. Você não saberá o tempo, ou o lugar, ou o método. Você não terá ideia de quem são os Lobos de Aço. Você não poderá ser culpada.”

Por ninguém além de si mesma, ela pensou amargamente. Caspar era um ganancioso um pouco tirano e iria tornar-se pior. A Rainha uma cativante assassina. Eles sempre infringiam o protocolo.

Eles nunca mudariam. E ainda assim ela não queria o seu sangue em suas mãos.

A trombeta soou de novo, urgente. “Eu tenho que ir,” ela disse. “A Rainha está caçando e eu tenho que estar lá.”

Evian assentiu e afastou-se, mas antes que ele tivesse tomado dois passos ela forçou as palavras para fora, “Espere. Uma coisa.”

A seda de pêssego cintilou. Uma borboleta voou até seu ombro, curiosa.

“Meu pai. E meu pai?”

No bonito céu azul um alvoroço de pombos levantou de uma das mil torres do Palácio. Evian não se virou e sua voz era tão baixa que ela mal as ouviu. “Ele é perigoso.

Ele está implicado.”

“Não o machuque.”

“Claudia...”

“Não.” Ela cerrou seus punhos. “Ele não tem de ser morto. Prometa-me agora. Jure.

Ou eu vou a Rainha neste minuto e conto a ela todas as coisas.”

Aquilo o fez virar-se, assustado. “Você não iria...”

“Você não me conhece.”

Como ferro frio ela o encarou. Somente sua teimosia manteria uma faca fora do coração de seu pai. Ela sabia que ele era seu inimigo, seu sutil adversário, seu frio oponente sobre o tabuleiro de xadrez. Mas ele ainda era seu pai.

Evian lançou um olhar para Jared, então expirou, um longo e desconfortável suspiro. “Muito bem.”

“Jure.” Ela adiantou sua mão e agarrou a dele e segurou com força; ela estava quente e úmida.