Luís de Camões: notas biográficas
D. Antonio Alves Martins
A
BISPO DE VIZEU
OFFERECE O DISCIPULO E AMIGO
Camillo Castello Branco.
LUIZ DE CAMÕES
I
O protagonista do sempre formoso poema de Almeida-Garrett é
um Luiz de Camões romantico, remodelado na phantasia
melancolica d'um grande poeta exilado, amoroso, nostalgico. A ideal
tradição romanesca impediu, com as suas nevoas irisadas de
fulgores poeticos, passante de duzentos e cincoenta annos, que o
amador de Natercia, o trovador guerreiro, fosse aferido no estalão
commum dos bardos que immortalisaram, a frio e com um grande
socego de metrificação, o seu amor, a fatalidade do seu destino em
centurias de sonetos. Garrett fez uma apotheose ao genio, e a si se
ungiu ao mesmo tempo principe reinante na dynastia dos poetas
portuguezes, creando aquella incomparavel maravilha litteraria.
Ensinou a sua geração sentimental a vêr a corporatura agigantada
do poeta que a critica facciosa de Verney e do padre José Agostinho
apoucára a uma estatura pouco mais que regular.
Camões resurgiu em pleno meio-dia do romantismo do seculo
XIX, não porque escrevêra os L , mas porque padecera
d'uns amores funestissimos. O seculo XVIII citava-o apenas nos
livros didacticos e nas academias eruditas, como exemplar classico
em epithetos e figuras da mais esmerada rhetorica. Tinha cahido em
mãos esterilisadoras dos grammaticos que desbotam
sapientissimamente todas as flôres que tocam, apanham as
borboletas, prégam-as para as classificarem mortas, e abrem lista de hyperboles e metaphoras para tudo que transcende a legislatura
codificada de Horacio e Aristoteles.
Luiz de Camões, qual o figuram Garrett no poema tragico e
Castilho no drama ultra-romantico, e as musas indigenas e
forasteiras nas suas contemplações plangentes, é o que se requer
que seja o martyr do amor, o soldado ardído, o talento
menoscabado pela camarilha dos reis. Os maviosos
sentimentalistas afizeram-nos a estas côres prismaticas--ás
refulgencias das auroras e dos luares theatraes. Mal podemos
encarar o nosso Camões a uma grande luz natural. Queremol-o na
tristeza crepuscular das tardes calmosas, na mesta solidão dos
mares, nas saudades do desterro, no desconforto das primeiras
precisões, vivendo da mendicidade do Jáo--do escravo, como se
alguma hora houvesse em Portugal escravos de procedencia
asiatica--e das economias da preta, arrastando-se sobre moletas do
adro de S. Domingos para o catre do hospital. Quem nos mostrar
Camões á luz com que a historia e a critica inductiva elucidam as
confusas obscuridades dos homens extraordinarios--e por isso mais
expostos á deturpação lendaria--poderá avisinhar-se da verdade?
mas, do mesmo passo, se desvia da nossa inveterada opinião, e
talvez incorra em delicto de ruim portuguez.
Eu me vejo n'este perigo e não me poupo ás eventualidades da
ousadia. Pretender exhibir novidades inferidas de factos
comparados e probabilidades em uma biographia tantas vezes feita
e refeita, será irrisorio atrevimento quando m'as poderem
contradictar com provas solidamente cimentadas. O que não
parecer novo n'estes traços será uma justificada emenda aos erros dos biographos antigos e recentes em que nomeadamente avultam
os senhores visconde de Juromenha e doutor Theophilo Braga que
segue muito confiado aquelle douto investigador com uma
condescendencia extraordinaria para escriptor que tanto averigua.