Luís de Camões: notas biográficas
Capítulo VI
A tença dos 15$000 reis, o apregoado escandalo da sovinaria dos
ministros, não era, áquelle tempo, a miseria que se nos cá figura.
Vejamos e comparemos os ordenados d'aquella época. O ordenado
dos desembargadores do cardeal infante eram 30$000 reis, do
copeiro-mór 6$000 reis, do vedor das obras 4$000 reis, do guarda-
mór 13$000 reis, e do veador da fazenda 30$000 reis. As tenças de
30$000 reis eram apanagio de homens de muitos serviços.
Na conta de receita e despeza de 1557 vê-se que o regedor da
justiça, 45 desembargadores, e os do paço que não eram poucos, e
os da fazenda que eram muitos, todos juntos, receberam dos seus
ordenados 3:777$800 reis. O governador da casa do civel, 24
desembargadores, 6 alcaides, 100 empregados e outros officiaes de
justiça, todos juntos, receberam dos seus ordenados 1:664$200
reis[16]. Trinta annos depois, o numerario não estava mais barato, e
os reis de tença de Camões haviam de parecer um excesso, um
esbanjamento da fazenda nacional a qualquer d'aquelles
desembargadores. Diogo Botelho, tão celebrado em Africa e Asia,
recebia 12$000 reis de tença[17]. Luiz de Camões não se julgaria
desdourado com os 15$000 reis, nem essas hypotheses de fomes,
frios e mendicidades que se encarecem deve aceital-as a critica
desligada de velhos preconceitos.
Eu creio tanto na mendicidade de Homero como nos peditórios
nocturnos de esmola do Antonio de Java para sustentar Camões. Se o poeta chegasse ao extremo da penuria, acharia no refeitorio
dos seus bons amigos dominicanos com quem tratava
frequentemente a farta mesa que alli encontravam somenos
benemeritos. Não me soffre o conceito que fórmo d'esse egregio
espirito que elle quizesse a vida sustentada com tão desprimorosos
expedientes. É a lenda da miseria em que se comprazem as
imaginações sombrias. Porque elle pediu em verso uma camisa em
Gôa, decidiram que o poeta não tinha camisa. Parece ignorarem
que a dadiva d'uma camisa como ellas por esse tempo se
presenteavam era um objecto caro e luxuoso. A fabula tecida sobre
a fome de Camões originou-se talvez d'alguns poetas subalternos
que entenderam desforçar-se da sua pobreza affrontando a nação
que vira finar-se no desconforto o principe dos poetas da Hespanha.
Consolavam-se assim com a camaradagem e vociferavam contra a
ingratidão dos parvos. Espanta, porém, que se não clamasse com
mais justiça contra os aulicos que deixaram morrer no hospital
Antonio Galvão, o apostolo das Molucas, e Duarte Pacheco Pereira.
Não se póde ajuizar que os proventos do poema impresso lhe
auxiliassem a vida. Os L talvez lhe não surtissem o
equivalente da tença nos oito annos da sua maior popularidade.
Devia ser vagarosa a extracção da obra, attentas as calamidades
d'aquelles annos--pestes, ameaças de guerra, pobreza do estado,
corrupção de costumes, desavenças no paço, a preponderancia dos
livros mysticos e o descahimento das letras profanas. A segunda
edição do poema, no mesmo anno de 1572, em vista dos
argumentos plausiveis do academico Trigoso[18], não é aceitavel
nem sequer verosimil. Falsificaram retrospectivamente a data
porque havia razão para recear que uma censura mais severa prohibisse nova edição sem os córtes das estancias que
desagradaram á clerezia e á pudicicia d'uns velhos que poderiam,
na verdura dos annos, ter assistido sem pejo ás chocarrices
obscenas de Gil Vicente. Não se póde calcular quantos annos
intercorreram da primeira á segunda edição; é, todavia, provavel
que a segunda se fizesse em vida do poeta.
Luiz de Camões, se a vida se lhe prolongasse, teria mais
abastada velhice. Philippe II de Castella, vindo a Portugal mezes
depois da morte do poeta, perguntou pelo author dos L . Não
me consta que os reis naturaes, os legitimos, alguma hora
perguntassem por Camões. O intruso concedeu á provecta mãi do
poeta fallecido a tença que o filho recebia. Este procedimento, e a
curiosidade benevola do usurpador é o unico acto honorifico que liga
a biographia de Camões á dos monarchas. D. João III desterrára-o,
D. Catharina e o cardeal desprezaram-o, D. Sebastião ouviria novas
do seu poema, lêl-o-hia, e não impugnaria a concessão da tença e
do officio na Asia. No desprezo, se não odio da rainha D. Catharina
transpira a vingança do rancoroso Francisco Barreto contra quem
Camões, livre dos ferros, dardejaria violentas, mas não injustas
satyras. Barreto, chegado a Lisboa, vingou-se de quantos inimigos
deixára na India. O bravo Gonçalo Falcão, que logo que elle sahiu
do governo o desafiára a combate singular, foi mandado carregar de
ferros e conduzir a Lisboa. Pôde fugir a tamanha ignominia o bravo
de Jafanapatão, escondeu-se em Lisboa, e conseguiu ser absolvido,
allegando que os duellos ainda não eram prohibidos pelo concilio
tridentino, quando elle reptou Francisco Barreto. Não obstante, a
rainha mandou-o riscar dos livros da nobreza e reduziu-o á miseria.
D. Sebastião, volvidos annos, restituiu-o á capitania de Sofála, onde expirou apenas tomou posse. Barreto fanatisára a rainha brindando-
a com uma pedra milagrosa que levou da India. O seixo tinha sete
céos de côres diversas e uma figura de mulher com um menino no
collo. Era Nossa Senhora, achada nas mãos d'um bonzo! Agua
onde mergulhassem a pedra sarava muitas doenças; mulheres de
parto muito bem pariam, assevera Miguel Leitão de Andrade na
M ; e nas mãos da rainha o calhau fazia os mesmos
milagres. A viuva de D. João III, além d'estes seixos milagrosos,
gostava muito que os governadores do Levante lhe vendessem bem
e pelo maior preço a pimenta. É o que ella pedia fervorosamente a
D. João de Castro e aos outros vice-reis. A respeito de poetas e
viajantes, dava tanto por Luiz de Camões como por Fernão Mendes
Pinto--rivaes no infortunio, mas não iguaes no merecimento de
melhor sorte. Os favores, embora apoucados, que Luiz de Camões
recebeu da côrte são posteriores ás finaes desavenças de D.
Sebastião com sua avó. Esse divorcio deu-se em 1571, e o alvará
da tença é lavrado em 1572.
Não vituperemos Philippe I pelo desamor com que tratou os
nossos escriptores. Não cahe a ponto aqui a lista dos talentos
portuguezes protegidos pelos reis castelhanos, desde Diogo
Bernardes, o moço da toalha, até Manoel de Sousa Coutinho, o
incendiario da casa de Almada, que, depois de frade, offerecia a sua
chronica ao terceiro dos usurpadores. Se Camões se bandearia em
Castella como Gabriel Pereira de Castro, Caminha, Pereira Brandão
e Côrte Real não sei; porém, quando o snr. Theophilo Braga me
nomeia os amigos de Camões parciaes do prior do Crato, e entre
elles está Miguel Leitão de Andrade, lembra-me se Camões,
vivendo, seria tanto por D. Antonio como o preconisado Leitão de Andrade. Diz o snr. doutor Theophilo Braga na sua primeira V
C e repete na segunda, publicada ha dias, que o author da
M «esteve a ponto de ser degolado pelo invasor
hespanhol». O snr. Braga entendeu a passagem do carnaz. Miguel
Leitão esteve a pique de ser decapitado justamente porque fugia de
D. Antonio para o usurpador Philippe. Elle mesmo o refere na
M , n'estes termos explicitos: No tempo que o snr. D.
Antonio se levantou rei, me achei com elle em Lisboa, por não poder
escusar servil-o, sendo fidalgo de sua casa. Porém, vendo entregar-
se a fortaleza de S. Gião a Sua Magestade me pareceu ir-me para o
dito senhor, e indo ja na Gollegan, a meu parecer fóra ja do perigo
de morte a todos os que se fossem de Lisboa, a qual executava
cruelmente Manoel da Silva fronteiro de Santarem, alli me
prenderam, etc. E conta depois como pôde evadir-se pela latrina, e
foi depois mais tarde a Madrid requerer com o traslado authentico
dos trabalhos que passou para fugir. Tambem o snr. visconde de
Juromenha conjecturou que Camões estivesse no Pedrogão,
convidado por Miguel Leitão de Andrade quando foi desterrado para
Riba-Tejo. Camões soffreu este desterro em 1546, e Miguel Leitão
de Andrade nasceu em 1555. Não me parece aceitavel que Camões
fosse visitar um sujeito que nasceu nove annos depois da visita.
Que processos tão de palpite e phantasmagoricos tem usado estes
doutos na biographia de Camões! Se não seria melhor estudar o
assumpto!
Accusam os jesuitas de propulsores da jornada de Africa, porque
aferventavam o zelo religioso do principe fanatisado contra a
mourisma. Porque não accusam com maior justiça e sobre provas
escriptas Luiz de Camões? Affirma o snr. Theophilo Braga que o poeta não sympathisava com a jornada d'Africa. Tanto sympathisava
que, ao proposito da setta enviada pelo Papa a D. Sebastião, lhe
escreveu uma epistola recheada de versos assignalados por uma
virulenta rhetorica sanguinaria:
Já por ordem do céo, que o consentiu,
Tendes o braço seu, reliquia cara,
Defensor contra o gladio que feriu
O povo que David contar mandára,
No qual, pois tudo em vós se permittiu,
Presagio temos, e esperança clara,
Que sereis braço forte e soberano
Contra o soberbo gladio Mauritano.
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Que as vossas settas são na justa guerra Agudas, e entrarão por derradeiro
(Cahindo a vossos pés povo sem lei)
Nos peitos que inimigos são do Rei.
Está revendo a incitadora carta um coração que ainda vibra hostil
como outr'ora o braço valoroso do mancebo que se estreára em
Ceuta, Não se condemne Luiz de Camões por esse enthusiasmo;
mas reservemos os louvores da prudencia discreta e previdente
para o bispo Jeronymo Osorio e Martim Gonçalves da Camara. Se
pretendem illibar Camões da nodoa quasi commum dos fidalgos--
para que nos dizem que o alquebrado poeta escreveu bastantes
estancias cantando, por hypothese, o regresso triumphal do coroado
imperador de Marrocos? Essa mal estreada epopêa condiz á indole
bellicosa de Camões--foi a ultima e mallograda explosão do seu
patriotismo; todavia, é uma prova negativa do seu juizo politico. Emfim, sempre poeta e sublime poeta do amor e das batalhas, foi
astro que refulgiu até ao occaso, apesar dos annos aggravados de
doença, de necessidades supportadas com a impaciencia da
velhice, e um pouco do fel do ciume d'outros poetas eleitos para
cantarem a Iliada africana.