Luís de Camões: notas biográficas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 4 de 8

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Luís de Camões: notas biográficas

Capítulo III

 

Posto que na Carta de perdão se diga que o pai do soldado,

Simão Vaz de Camões, cavalleiro fidalgo, morava na cidade de

Lisboa, isto não affirma que elle, no anno em que o filho embarcou,

alli residisse. Simão Vaz estanciára muito pela India, e possuíra em

Baçaim, em 1543, a aldêa de Patarvaly que D. João de Castro, o

vice-rei, lhe aforára por 60 pardáos[7]. Estes aforamentos eram

vitalicios e concedidos como remuneração de serviços a fidalgos

pobres, porque, dizia o vice-rei, não dispunha d'outra moeda.

Fallecido D. João de Castro, os governadores subsequentes Garcia

de Sá e Jorge Cabral, insinuados por D. João III, que já vivia do

expediente de emprestimos, annullaram as concessões do vice-rei

como nocivas aos interesses da monarchia. A aldêa de Patarvaly foi

reivindicada para a corôa, e a fortuna de Simão Vaz manifestou-se

na pobreza da sua viuva e do seu filho unico.

 

Pedro de Mariz e a serie de biographos mais antigos testificam

que Simão Vaz, tendo naufragado em terra firme de Gôa, a custo se

salvára e morrera depois n'esta cidade. Ora, em 1552, a nau

Zambuco varou no rio de Seitapor, a trinta leguas de Gôa, salvando-

se a tripolação. Seria essa a nau em que Simão Vaz de Camões ia

novamente no engodo da fortuna esquiva? Se era, em março de

1553, quando Camões sahiu do carcere, a morte de seu pai não

podia ainda saber-se em Lisboa. É certo que, nas L de

Gaspar Corrêa e D de Couto, o nome de Simão Vaz é inteiramente desconhecido. Seja como fôr, é necessario expungir da

biographia de Luiz de Camões um Simão Vaz, residente em

Coimbra, primo do poeta, que o snr. visconde de Juromenha por

desculpavel equivoco da homonymia reputou pai de Luiz,

descurando as inducções da chronologia e todas as provas moraes

que impugnam semelhante parentesco.

 

Das poesias de Camões nada se deprehende quanto aos seus

progenitores. Em toda a obra poetica e variadissima do grande

cantor não transluz frouxo sedimento filial,--nem um verso referente

ao pai. Em todos os seus poemas escriptos na Africa e Asia, na

juventude e na velhice, não ha uma nota maviosa de saudade da

mãi. Os poetas da renascença tinham esse aleijão como preceito de

escóla. Desnaturalisavam-se da familia, da trivialidade caseira para

se inaltecerem ás cousas olympicas. Gastavam-se na

sentimentalidade das epopêas e das eclogas. O amor da familia, se

alguma hora reluz, não é o da sua--é o das familias heroicas.

Apaixonavam-se pelo mytho, e timbravam em nos commoverem

com as desgraças de Agamemnon ou Nióbe. Isto não desdoura a

sensibilidade do cantor de Ignez e de Leonor de Sá; mas vem de

molde para notar que do poeta para com seus paes não se encontra

um hendecasyllabo que lhe abone a ternura. O mesmo desamor se

verifica em todos os poetas coevos, quer epicos, quer lyricos. Só

uma vez em Diogo Bernardes se entrevê tal qual affecto de familia a

um irmão que professa na Arrabida, e em Sá de Miranda a um filho

e á esposa mortos: mas de amor filial é escusado inquirir-lhes o

coração nas rimas. Parece que o haverem sido um producto

physiologico do preceito da propagação os isentava de grandes affectos e respeitos a quem os gerou. Não os escandecia em raptos

poeticos essa vulgar e material alliança de filhos a paes.