Luís de Camões: notas biográficas
Capítulo II
Direi primeiro do amor meio lendario de Luiz Vaz de Camões a D.
Catharina de Athaide, como causa essencial da sua vida inquieta e
dos revezes da sinistra fortuna procedentes d'esse desvio da
prudencia na mocidade.
Diogo de Paiva de Andrade, sobrinho do celebrado orador, deixou
umas L ineditas que passaram da opulenta livraria do
advogado Pereira e Sousa para meu poder [1]. Diogo de Paiva
nascera em 1576. É contemporaneo de Camões. Conheceu
provavelmente pessoas da convivencia do poeta. Poderia escrever
amplamente, impugnando algumas noticias de Mariz, de Severim e
de Manuel Corrêa. Era cedo, porém, para que o assumpto lhe
interessasse bastante. Na juventude de Paiva, as memorias de
Camões não tinham ainda attingido a consagração poetica de que
se formam as nebulosas do mytho. Diogo de Paiva pouco diz; mas,
n'essas poucas linhas, ha duas especies não relatadas pelos outros
biographos:
Luiz de Camões, poeta bem conhecido, tendo 18 annos, namorou
Catharina de Athaide, e principiou a inclinação em 19 ou 20 de abril,
do anno de 1542, em sexta-feira da semana santa, indo ella á igreja
das Chagas de Lisboa, onde o poeta, se achava. A esta senhora
dedicou muitas das suas obras, e ainda que com differentes nomes
é a mesma de que falla repetidas vezes. Foi depois dama da rainha
D. Catharina, e continuando os amores com boa correspondencia, mudou ella de objecto para os agrados de que Camões se queixa
em suas composições. Por estes amores foi quatro vezes
desterrado: uma de Coimbra, estando lá a côrte, para Lisboa; outra
de Lisboa para Santarém; outra de Lisboa para a Africa; e
finalmente de Lisboa para a India, d'onde voltou muito pobre, sendo
já fallecida D. Catharina, por quem tão cegamente se apaixonára.
O desterro de Camões de Coimbra, onde estava a côrte, é a
novidade que não pude conciliar com o facto de ter residido D. João
III em Coimbra nos annos immediatos a 1542, anno em que o poeta
vira D. Catharina na igreja das Chagas. Os impressos que consultei,
e não foram poucos, não me esclareceram. Sei tão sómente que o
rei esteve em Coimbra por 1527 e 1550. N'esta segunda data já
Camões se repatriára do segundo desterro em Africa. Quanto á
inconstancia da dama da rainha--novidade de mais facil
averiguação--os factos que vou expender a persuadem
coherentemente.
D. João III, o rei-inquisidor, e piedoso por antonomasia, antes de
fazer um filho em Isabel Moniz, fizera outro em Antonia de Berredo.
Eram ambas de linhagem illustre. A primeira finou-se n'um convento
da Guarda, sem ter visto seu filho Duarte que, aos 22 annos, morreu
arcebispo de Braga. A segunda ficou na côrte, e achou marido de
raça fina, sem embargo da concubinagem real, aggravada pelo acto
da sua notoria fecundidade. A criança tinha morrido. Os nobiliaristas
chamaram-lhe Manuel e occultaram-lhe o nome da mãi, visto que
ella propagou altos personagens, sujeitos envergonhados.
Antonia de Berredo casára com um viuvo rico e velho, Antonio
Borges de Miranda, senhor de Carvalhaes, Ilhavo e Verdemilho, que
de sua primeira mulher, da casa de Barbacena, tivera dous filhos, a
quem competia a successão dos vinculos. D. Antonia concebeu do
marido, e deu á luz um menino que se chamou Ruy Borges Pereira
de Miranda. O marido falleceu. Os filhos do primeiro matrimonio,
Simão Borges e Gonçalo Borges foram esbulhados da successão
dos vinculos--um estrondoso escandalo em que influiu o arbitrio
despotico do rei a favor do filho da sua amante[2].
Apossado iniquamente dos senhorios de Carvalhaes, Ilhavo e
Verdemilho, Ruy Borges, filho de Antonia de Berredo, affeiçoou-se a
D. Catharina de Athaide, filha de Alvaro de Sousa, veador da casa
da rainha, senhor de Eixo e Requeixo, nas visinhanças de Aveiro. D.
Catharina era pobre, como filha segunda; seu irmão André de Sousa
era um simples clerigo, prior de Requeixo; o senhor da casa era o
primogenito Diogo Lopes de Sousa.
D. Catharina aceitára o galanteio do poeta Luiz Vaz de Camões,
talvez antes de ser requestada por Borges de Miranda. O senhor de
Ilhavo, rivalisado pelo juvenil poeta, sentia-se inferior ante o espirito
da dama da rainha. Seria um estupido consciente; queixou-se talvez
a mãi. Não é de presumir que a mulher de D. João III se aviltasse
protegendo o galanteio repellido do filho da Berredo--amante notoria
de seu marido; mas é natural que a mãi de Ruy Borges recorresse
directa e clandestinamente ao rei solicitando o desterro do perigoso
émulo de seu filho. Assim pôde motivar-se o primeiro desterro de
Camões para longe da côrte, e o segundo para Africa em castigo da
teimosia d'elle e das vacillações de Catharina de Athaide na aceitação do opulento Ruy Borges,--vacillações transigentes com a
riqueza do rival do poeta pobre, a meu vêr. A dama não seria muito
escoimada em primores de fidelidade. Das damas da côrte de D.
João III, dizia Jorge Ferreira de Vasconcellos: «todas são mui
próvidas em não estarem sobre uma amarra por não ser como o
rato que não sabe mais que um buraco»--e talvez pensasse em
Camões quando escrevia: «Elle cuida que por discreto e galante ha
de vencer tudo: eu quizera-lhe muito mais dinheiro que todas suas
trovas, porque este franqueia o campo, e o al é martellar em ferro
frio[3]».
Sahiu Camões para a Africa em 1547, e lá se deteve
proximamente dous annos. Quando regressou, a dama da rainha
era já casada com Ruy Borges e vivia na casa do esposo convisinha
de Aveiro, entregue ao ascetismo, sob a direcção de frei João do
Rosario, frade dominicano.
Subsistem umas M communicadas a Herculano em 1852,
e datadas em 1573 por aquelle frade, nas quaes o confessor revela
que D. Catharina, quando elle a interrogava ácerca do desterro de
Camões por sua causa, a esposa discreta de Ruy Borges respondia
que não ella, mas o grande espirito do poeta o impellira a empresas
grandiosas e regiões, apartadas. Esta resposta, um tanto
amphibologica, argue e justifica o honestissimo melindre da esposa.
Se respondesse: «fui a causa de seu desterro», daria testemunho
menos nobre de sua ingratidão, e teria de córar como esposa
voluntaria de Ruy Borges, como treda amante do desditoso poeta, e
ainda como filha espiritual do frade nimiamente indagador que varias vezes e indelicadamente a interrogava sobre o caso
melindroso: E todas las vezes que no poeta desterrado por saa
rasão lhe falava...--escreve frei João do Rosario.
O arrependimento, o tedio e a saudade não a mortificaram longo
tempo. Morreu Catharina de Athaide em 28 de setembro de 1551, e
foi sepultada na capella-mór que dotára no mosteiro de S. Domingos
d'Aveiro em sepultura que talvez mandasse construir.
Camões não ignorava a tristeza raladora de D. Catharina. Este
soneto exprime o sentimento d'uma vingança nobre até ao extremo
de compadecida:
Já não sinto, senhora, os desenganos
Com que minha affeiçao sempre tratastes, Nem vêr o galardão, que me negastes,
Merecido por fé ha tantos annos.
A mágoa choro só, só choro os damnos
De vêr por quem, senhora, me trocastes! Mas em tal caso vós só me vingastes
De vossa ingratidão, vossos enganos.
Dobrada glória dá qualquer vingança,
Que o offendido toma do culpado,
Quando se satisfaz com causa justa;
Mas eu de vossos males a esquivança
De que agora me vejo bem vingado,
Não a quizera tanto á vossa custa.
Semelhante soneto dirigido á outra D. Catharina de Athaide, dama
do paço que morreu solteira, não tem explicação. Claro é que Luiz
de Camões allude á mulher que o vinga padecendo as mágoas
resultantes d'uma alliança em que elle foi ingratamente sacrificado.
Á outra dama que morreu, estando para casar, segundo a versão
colhida pelos primeiros biographos, não diria Camões:
... a vingança
Não a quizera tanto á vossa custa.
Como o vingaria ella, desconhecendo as tristezas de casada que
não chegou a ser? Era mister que se désse mudança de vida
irremediavelmente afflictiva e remordida de arrependimento para
que o poeta se ufanasse de vingado,--e tanto que implicitamente lhe
perdôa. O soneto que trasladei não attrahiu ainda notavel reparo
d'algum biographo, sendo a pagina mais para estudo nos amores de
Camões. Antes do generoso soneto, quando a julgava contente,
Camões exprimia-se de mui diverso theor. O ciume, o despeito e a
cólera desafogára n'outros versos perdoaveis á dôr, mas somenos
fidalgos. Chamou-lhe cadella.
O viuvo Ruy Borges passou logo a segundas nupcias como quem
procura em outra mulher a felicidade que não pudera dar-lhe a
devota Catharina absorvida no mysticismo, como n'um refugio aos
pungitivos espinhos da sua irremediavel ingratidão.
O poeta grangeára inimigos na côrte. Deviam ser os Berredos e
os parentes de Ruy Borges de Miranda. Entre os mais proximos
d'este havia um seu irmão bastardo, Gonçalo Borges, criado do paço, a cargo de quem corria a fiscalisação dos arreios da casa real.
Teria sido esse o espia, o denunciante das clandestinas entrevistas
do poeta com a dama querida de seu irmão?
Em maio de 1552, Gonçalo Borges curveteava o seu cavallo entre
o Rocio e Santo Antão, no dia da procissão de Corpus-Christi, em
que se mesclava um paganismo carnavalesco de exhibições
mascaradas. Dous incognitos de mascara enxovalharam Gonçalo
Borges com remoques. Houve um reciproco arrancar das espadas.
N'este comenos, Luiz de Camões enviou-se ao irmão de Ruy
Borges e acutilou-o no pescoço. O golpe, segundo parece, era a
segurar; mas não deu resultados perigosos para o ferido. Camões
foi preso; e, ao terminar um anno de carcere, solicitou perdão de
Gonçalo Borges que, voluntario ou coagido por empenhos, lhe
perdoou, visto que não tinha aleijão nem deformidade. A Carta de
perdão, produzida pelo snr. visconde de Juromenha, é datada em 7
de março de 1553, e está integralmente copiada[4].
Dias depois, Luiz Vaz de Camões sahia para a India, na
mesquinha posição de substituto d'um Fernando Casado, e recebia
2$400 reis como todos os soldados razos que embarcavam para o
Oriente; e para isto mesmo prestou a fiança de Belchior Barreto,
casado com sua tia. Aquelles 2$400 reis eram o primeiro quartel dos
9$600 reis, soldo annual do soldado reinol.
Expatriou-se na humilhação dos mais desprotegidos. Devia de ter
alienado a estima e o favor de amigos influentes, porque sahia do
carcere rebaixado pelo desbrio com que implorára o perdão, e réo
confesso de uma vingança por motivos menos honestos aos olhos dos velhos serios, e desdourados na propria fidalguia pelas
ribalderias amorosas d'um mancebo de nascimento illustre. Se Luiz
de Camões embarcasse para a India como o commum dos
mancebos fidalgos, receberia 300 ou 400 cruzados de ajuda de
custo.
A familia Camões, no reinado de D. João III, esteve relegada da
consideração da côrte. O mais notavel d'essa familia, o cruzio D.
Bento, prior geral da sua Ordem, gozou apenas a prelazia
monastica, mas sem influencia civil d'alguma especie. Simão Vaz de
Camões, parente do poeta, senhor d'um morgado mediano, era, por
esse tempo, um libertino espiado pela justiça, deshonrado por
delictos graves e allianças matrimonialmente ignobeis. Os outros
ramos vegetavam obscuros; e alguns d'essa familia que militaram
na Asia não alcançaram alguma qualificação notavel nos minuciosos
annaes de Graspar Corrêa. Diogo do Couto nem sequer os nomeia.
No reinado de D, João II, Antão Vaz, avô do poeta, casára com D.
Guiomar da Gama, parenta de Vasco da Gama, a quem seguiu á
India, capitaneando uma caravela, talvez escolhido por Vasco, em
attenção ao parentesco. O heroe dos L enviou Antão Vaz
embaixador ao rei de Melinde, a comprimental-o, a levar-lhe
presentes e a concertar as pazes[5]. Luiz de Camões, com rara
modestia, omitte o nome de seu illustre avô; dá-lhe, porém,
predicados d'elegancia oratoria, e compraz-se em o fazer discursar
largamente. Na dilação do discurso transluz uma licita vaidade.
Vasco
Manda mais um, na pratica elegante, Que co'o rei nobre as pazes concertasse; ........................................
Partido assi o embaixador prestante, ......................................
Com estylo que Pallas lhe ensinava,
Estas palavras taes fallando orava[6].
Nenhum biographo, que me conste, aproximou ainda a passagem
do poema do nome do embaixador Antão Vaz. Verdade é que João
de Barros, Damião de Goes e o bispo Osorio escondem o nome do
enviado; e a maioria dos biographos não conheceu os mss. de
Gaspar Corrêa, nem consultou senão os expositores triviaes. Antão
Vaz, como se lê n'outros trechos d'aquelle prolixo chronista, é
sempre o preferido nas mensagens em que é essencial o discurso.
Conhece-se que Vasco da Gama o reputava efficaz no dom da
palavra. Passado o anno 1508 não tenho noticias d'elle, nem sei
que se avantajasse no posto com que sahiu do reino, commandante
de caravela, em 1502. Provavelmente não «fez fazenda», como lá
se dizia na Asia, ou porque tinha espiritos por demais levantados da
terra nas azas da eloquencia, como se deprehende do conceito do
neto, ou porque pertencia á raça ainda generosa e desinteresseira
dos primitivos soldados do Oriente. O certo é que a sua
descendencia, filho e neto, não inculcam herdar-lhe os haveres.