Luís de Camões: notas biográficas
Capítulo IV
Luiz de Camões achou-se bem, confortavelmente em Gôa. As
suas cartas conhecidas não inculcam nostalgia, nem a estranheza
dolorosa do insulamento em região desconhecida. Rescendem o
motejo, o sarcasmo e a vaidade das valentias. Não se demora a
bosquejar sequer, com séria indignação, o estrago, a gangrena que
lavrava no decadente imperio índico pelos termos graves de Simão
Botelho, de Gaspar Corrêa, Antonio Tenreiro, Diogo do Couto e dos
theologos. Narra de relance e com phrases jocosas as façanhas
d'esses ignorados acutiladiços, as basofias de Toscano, a moderada
furia de Calisto, e as proezas do duellista Manuel Serrão. Era este
Serrão um ricaço de Baçaim, senhor de quatro aldêas, que fizera
desdizer um bravo da alta milicia. Comprazia-se Camões n'estas
historias façanhosas, chasqueando os pimpões de lá e os de cá,
uns que nunca lhe viram as solas dos pés por onde unicamente
podiam vulneral-o como ao heroe grego. Acha-se tranquillo como
em cella de frade prégador, e acatado na sua força como os touros
da Merceana. Preoccupava-o fortemente a bravura. Como a
metropole da India portugueza, não havia terra mais de feição para
chibantes. Escrevia Francisco Rodrigues da Silveira: «Dentro em
Gôa se cortam braços e pernas e se lançam narizes e queixadas em
baixo cada dia e cada hora, e não ha justiça que sobre o caso faça
alguma diligencia: dando por razão que o não permitte a India,
porque cada qual pretende satisfazer-se por suas mãos de quem o
tem aggravado[8]».
Depois, as mulheres. As portuguezas cahem de maduras, ou
porque a lascivia as sorvou antes de sazonadas, ou porque vem ao
chão de velhas:--é opiniativa a intelligencia do conceito picaresco.
As indigenas são pardas como pão de rala, tem uns palavriados que
travam a hervilhaca, e gelam os mais escandecidos desejos. São
carne de salé onde amor não acha em que pegue. Lembra-se das
lisboetas que chiam como pucarinho novo com agua, e manda-lhes
dizer que, se lá quizerem ir, receberão das mãos das velhotas as
chaves da cidade. De envolta com estas prosas facetas, envia um
soneto e uma ecloga funebres á morte d'um amigo.
Esta carta encerra a nota melancolica d'uma phrase de Scipião:
Patria ingrata, não terás meus ossos. Mas a comparação, para não
ser um dislate d'orgulho, era de certo um gracejo de Luiz de
Camões. Que lhe devia a patria em 1553? Elle tinha 30 annos;
escrevera poemas lyricos excellentes, apenas louvados na roda dos
palacianos e dos menos cultos. Ferreira e Sá de Miranda parece
que não o conheciam. O bravo que sahira do carcere com perdão
de Gonçalo Borges a quem golpeára o cachaço, ou o toutiço, como
disseram os physicos do exame, em verdade, confrontando-se com
Scipião Africano, ao desterrar-se, não primava em pontos de
modestia. O seu avantajado e indiscutivel direito á gratidão da patria
era um poema começado apenas, ou talvez ainda não tracejado.
Camões tem ante si dezeseis annos para pleitear com Vasco da
Gama a imperecedoura glorificação que lhe prepara. A patria
desconhecia ainda o seu grande acrédor que se estava germinando
no cerebro potentissimo d'aquelle seu filho--unico filho que todas as
nações cultas conhecem, e o maximo na immortalidade que tem de
sobreviver á terra que cantou.
Os feitos valorosos de Luiz de Camões na Asia não tiveram a
notabilidade que os chronistas do Oriente e de D. João III deram a
lances insignificantes de homens obscuros. O diffuso author das
D , Couto, apenas o nomeia n'uma crise de pobreza
convisinha da mendiguez. Os antigos biographos e commentaristas
não o condecoram como quinhoeiro nos fastos das carnificinas
memorandas. Seria grande elogio á primorosa probidade de
Camões o excluil-o d'esses canibalismos, d'essa
...... bruta crueza e feridade,
como elle invectiva na estancia XCIX do canto IV.
Mas entrevejo na cerração de tres seculos que o poeta, na
apotheose do Albuquerque terrivel e do Castro forte--elaborando a
epopêa que sagrou em idolatria de semi-deuses uma phalange de
piratas, escrevia com as mãos lavadas de sangue innocente do
indio, a quem apenas os conquistadores concediam terra para
sepultura como precaução contra a peste dos cadaveres insepultos,
quando não exhumavam as ossadas dos reis indigenas na
esperança de que lh'as resgatassem com aljofar e canella[9].
Façanhas de Camões não sei decifral-as nos seus poemas: elles--
os poemas--só per si sobejam na sua historia como acções
gloriosissimas.