Manual do Pequeno Investidor em Ações

Fábio Portela Lopes de Almeida · Capítulo 8 de 9

Páginas do PDF

Manual do Pequeno Investidor em Ações

6. Erros comuns que você pode evitar

1. Aprendendo a perder dinheiro

Entender com o perder dinheiro investindo em ações é quase tão im portante quanto aprender a ganhá-lo. Evitar erros m uitas vezes é m ais im portante do que acertar, principalm ente para preservar o patrim ônio. Por essa razão, esse capítulo tem por obj etivo abordar algum as situações que norm alm ente colocam o patrim ônio do investidor em grande risco - não apenas no m ercado de ações, m as de m aneira geral.

As principais m aneiras de perder dinheiro com investim entos, de m aneira geral, são as seguintes:

Comprar ações confiando nas dicas de amigos e parentes

Você tem aquele colega de trabalho que parece bem sucedido: tem um a bela casa, com piscina, churrasqueira e 8 quartos, 3 carrões im portados na garagem . Ele vive dizendo que se dá m uito bem nos investim entos financeiros, e te puxa pra um canto da sala, dizendo que você tem que com prar ações de um a em presa "X". O que você faz? Vai correndo pra um a corretora, abre sua conta, e coloca todas as suas econom ias nas ações da em presa indicada. No dia seguinte, as ações sobrem 1% e você pensa: estou com sorte! O cara é bom m esm o! Aí você pega dinheiro em prestado para investir m ais ainda (afinal, a dica é certa!!). Um m ês depois, estoura um a crise financeira e você vê as ações com um a queda de 70%. Desesperado, recorre a seu colega de trabalho: "Pô, você não m e disse que era certo que as ações iam subir?" E a resposta vem rápido: "cara, aquilo era pra trade curto, estava na cara que ia desabar. Mas com pra ações Y que você vai ver que vai dar tudo certo". Você pensa: "Esse cara sabe o que faz. Eu que fiz besteira". O que você não sabe é que ele tam bém havia quebrado, que seu patrim ônio era herança de um tio que gostava m uito dele, e que ele adorava alardear ganhos no m ercado financeiro que não existiam . Portanto: não confie em dicas!!! Analise as dicas da m aneira com o você analisaria um im óvel ou um carro novo: vej a se a em presa é lucrativa, bem adm inistrada, ESTUDE! Você não com praria um apartam ento sem fazer um a visita com aquele tio que entende tudo de im óveis, não é? Por que você faria isso com seu investim ento em ações?

Trocar de investimentos constantemente

Outra m aneira interessante de perder dinheiro é trocar de investim entos todo m ês. Fazendo isso, você vai ganhar m uito dinheiro: só que pro banco e pro governo. O sistem a financeiro é feito pra gente que pensa no longo prazo: se você trocar de investim entos constantem ente, vai perder m uito dinheiro com taxas de adm inistração, im postos e outros penduricalhos.

Isso não vale apenas para as ações. Se você quer perder m uito dinheiro rapidam ente, invista em previdência privada (PGBL ou VGBL, você escolhe) ou em renda fixa e troque constantem ente de investim ento: os custos da previdência privada às vezes são tão altos que em m enos de um ano você pode perder m etade de seu capital só entre im postos e taxas de adm inistração, se trocar um a vez por m ês de fundo. Na renda fixa, lem bre-se ainda que o IOF para fundos de renda fixa é regressivo: se você m udar de aplicação em 1 dia, paga 96% de IOF sobre o rendim ento, fora as taxas e dem ais im postos (com o IRPF) que tam bém incidem . Quer perder dinheiro? Troque todo dia de fundo de renda fixa. Ah, se você não quer perder dinheiro com IOF, fique quieto e só troque de fundo depois de 30 dias.

Investir em títulos de capitalização

Seu gerente, aquele cara gente boa que adora falar contigo sobre o fim de sem ana dele, te apresenta um a dica fantástica de investim ento: títulos de capitalização. É um investim ento fantástico: te paga uns 0.5% ao m ês (m uitas vezes, até m enos, ainda m ais em cenário de j uros baixos) e você ainda concorre a um prêm io de R$ 50.000,00 por m ês ou 6 prêm ios anuais de R$ 2.000.000,00. Tudo bem se você tem m uito dinheiro e quer aplicar um pouco em título de capitalização, só pra arriscar ganhar o prêm io: m as não o trate com o investim ento! 0.5% ao m ês é a rentabilidade da poupança!

Comprar ações no topo histórico e vendê-las no fundo do poço

Essa é clássica: todo m undo sabe que o segredo para ganhar ações é com prá-las quando estão baratas e vendê-las quando estão caras. Mas, sei lá por que razão, a m aioria das pessoas investe j ustam ente quando o contrário acontece: com prar quando está tudo caro, e vendem as ações quando o m ercado está em baixa. Alguns econom istas dizem que é o efeito m anada: quando está todo m undo vendendo, as pessoas ficam aliviadas por acom panhar o m ovim ento e por "bloquear" o prej uízo. Pensam : "ainda bem que vendi agora, poderia perder m ais!". O problem a é que essas pessoas abandonam a bolsa e só voltam quando todo m undo está eufórico, em novo efeito m anada: "se está todo m undo com prando, é porque o negócio é bom !". E aí o ciclo se repete. Conheço um as 3 figuras que fazem isso direto, m as não falo nada: dizem que não é bom negócio contrariar loucos.

Investir em imóveis quando os preços estão caros demais

A lógica é a m esm a do item 4: as pessoas adoram com prar casas quando está tudo caro. Há várias cidades em que casebres de m adeira podre são vendidos por R$ 200.000,00. Aqui em Brasília, vi outro dia um apartam ento de 100 m etros quadrados que estava todo quebrado, sem tinta na parede, sem piso no chão, com portas destruídas, vendido por R$ 600.000,00.

E então, leitor? Já aprendeu com o perder dinheiro? Não fazer nada do que foi dito j á é um bom com eço para você com eçar a ganhar (ou, pelo m enos, a não perder, o que j á é um negócio fantástico). Vej am os agora alguns outros erros que devem ser evitados por quem investe em ações.

2. Cuidado com as “dicas” de analistas financeiros

Há algum tem po, no fim de 2009, li um a notícia m uito interessante, que retratava um estudo cuj a conclusão era a seguinte: os analistas de m ercado erraram a m ão na retom ada após os períodos m ais dram áticos da crise financeira de 2008/2009, e quem adotou um a estratégia contrária à indicada pelos analistas foi m ais bem sucedido do que quem a seguiu. Mas, no final da m atéria, a crítica ao trabalho dos analistas foi am enizada e se afirm ou a im portância de seguir as indicações em 2010.

Isso não faz o m enor sentido. Ações que estavam subavaliadas no final de 2008 e no início de 2009 eram tidas com o arriscadas pelos analistas, que recom endavam "cautela". Alguns analistas diziam que era m elhor o investidor se afastar do m ercado de ações. E isso quando o Ibovespa rondava a casa dos 29.000 pontos! Quem seguiu o conselho dos analistas deixou de com prar ações da Gerdau a R$ 11,00; da Vale a R$ 23,00; do Banco do Brasil a R$ 12,00; da Randon a R$ 7,00. E nem estou falando de quem com prou nos valores m ínim os.

Os analistas deixaram de observar que o m aior risco de quem com pra ações é adquiri-las quando elas estão caras. Quando elas estão baratas (no caso, MUITO baratas), não há quase nenhum risco no investim ento, para quem tem um horizonte de prazo razoável. Não faz sentido o que a m atéria propunha: que não fazia sentido acom panhar os analistas no m eio da crise, m as que em 2010 fazia. Se eles conseguiram errar a m elhor época para se investir em ações nos últim os 10 anos, não vej o porque acertariam daqui pra frente.

O investidor não deve se apegar às "dicas" dos analistas. Deve estudar as em presas e ler seus relatórios e balanços antes de com prar as ações. Deve pegar os balanços disponíveis nos sites das com panhias e estudá-los. Deve tam bém ler os relatórios dos analistas, m as não pode, em hipótese algum a, seguir as "dicas" ou as "carteiras" indicadas sem m aior reflexão.

3. O risco de sair da bolsa

Ficar fora da bolsa de valores tem seus riscos - o principal é o de perder os m om entos de alta que, m uitas vezes, representam a m aior parte dos ganhos em determ inados períodos. Ao contrário do que m uitos investidores que utilizam análise técnica acabam pregando, que as pessoas deveriam voltar para as ações apenas depois que algum sinal quase inequívoco de tendência de alta apareça, o investidor de longo prazo deveria j ustam ente evitar ficar de fora do m ercado de ações.

Em agosto de 2011, o Ibovespa estava na casa dos 49.000 pontos. Alguns analistas viam ali força suficiente para que as ações despencassem ainda m ais, e a m aioria recom endava ao investidor pessoa física que m antivesse distância do m ercado de ações. O resultado? Quem estivesse com um percentual de seus investim entos naquele m om ento alocado em um fundo de ações que apenas replicasse o com portam ento do Ibovespa, ganhou um excepcional rendim ento de lá até o fim daquele ano: +29,25% em pouco m enos de 6 m eses. Seguindo o conselho dos analistas, m uita gente teria perdido dinheiro.

O investidor de longo prazo não pode deixar de investir em ações nesses períodos, até porque, às vezes, m uitas das altas que ocorrem durante a recuperação que se segue aos períodos de baixa são responsáveis pela m aior

parte dos rendim entos obtidos no longo prazo. Em estudo realizado com os

rendim entos m édios no índice S& P 500 entre 1980 e 2008, o MARE (Market Analysis, Research & Education) identificou que a m aior parte dos rendim entos obtidos no período de quase trinta anos se deveu a m enos de 50 dias entre os que apresentaram m elhor perform ance ao longo do período. Vej a o gráfico:

Com o você pode ver, quem investiu, em 1980, US$ 10.000,00 em um fundo de ações que apenas replicasse o índice S& P 500 e não m oveu um único centavo do fundo, teve um a rentabilidade fantástica: o investim ento inicial rendeu US$ 243.651 ao longo dos 28 anos (2336,51%, ou 12,08% ao ano). Mas, se o investidor, por m edo, desaplicasse seus investim entos e perdesse apenas os 5 dias em que as ações apresentaram m aior alta, teriam um a perda substancial: ao invés de quase US$ 250.000, seus investim entos renderiam US$ 180.399,00 (1703% ou 10,88%). Se ele perdesse os dez dias de m elhor perform ance, a queda de rendim ento seria ainda m aior: a rentabilidade cairia para algo em torno de US$ 140.000. Apenas dez dias com o dinheiro desaplicado teriam custado US$ 100.000,00! É caro ficar fora da bolsa de valores, não é m esm o?

4. Todo mundo tem que investir em Petrobras e Vale?

As grandes vedetes da bolsa de valores brasileira são as ações da Vale e da Petrobras. Há m uitos anos, investir em ações é sinônim o de ter um a pequena fração das duas gigantes do Ibovespa. Quem investiu nelas no início deste período, que se iniciou na fase posterior ao Plano Real, com a estabilização da econom ia, não tem do que reclam ar. De 1998 pra cá, por exem plo, as ações preferenciais da Petrobras subiram 2.334% (27,84% ao ano, em m édia), e as da Vale, 4.540% (ou 34,35% ao ano). Tão im pressionante que, para m uitas pessoas, as ações das duas em presas devem constar nas carteiras de investim ento de qualquer pessoa - e seria um a “m aluquice” não ter ações delas. Mas será m esm o?

A evolução dos preços das duas em presas parece ter seguido um a lógica bem parecida nos últim os anos. A Vale, em 1998, encerrou o ano cotada a aproxim adam ente R$ 0,99 por ação; a Petrobras, a R$ 1,15 (os preços j á descontam eventuais splits nos preços das ações). Hoj e, ao fim de 2012 as em presas estão cotadas, respectivam ente, em torno de R$ 40,50, e R$ 20,69, por ação preferencial. Sem contar com os dividendos. Quem tinha R$ 10.000,00 investidos nas ações de cada um a das em presas em 1998, quando a econom ia brasileira estava derrapando em m eio a sucessivas crises e em decorrência dos baixos preços das commodities, teria, hoj e, R$ 409.090,91 em ações da Vale, e R$ 179.913,04 em ações da Petrobras.

Um a perform ance im pressionante, sem som bra de dúvidas. Isso significa que a grande m ídia está certa, ao aconselhar que o investidor tem que ter ações da Vale ou da Petrobras em sua carteira? Não, em absoluto. Vale e Petrobras são em presas com o qualquer outra. Não têm qualquer selo de garantia de que as im peça de quebrar ou de dar prej uízo.

A Petrobras vem acom panhada de um grande risco associado - o risco governo -, que não pode ser desconsiderado. Há alguns anos, no processo de capitalização da em presa, vim os o quanto esse risco pode prej udicar o pequeno investidor: na surdina, foi surrupiado quase 30% da proporção que cada ação representava no patrim ônio da em presa, e até hoj e m uita gente não se deu conta disso. Além disso, os investim entos necessários para explorar lucrativam ente o pré-sal ainda são obscuros, apesar da propaganda estatal de que o céu é o lim ite para a em presa.

Por enquanto, a Vale tem conseguido se desvencilhar desse risco. Mas o governo tam bém tem um a grande fatia das ações da Vale em sua posse (por m eio do BNDES), e além disso tem estado descontente com a atitude da em presa de não se alinhar ao perfil político governam ental. Em outras palavras, a Vale tem resistido a ser m ais um “cabide de em pregos” direcionado para a satisfação dos interesses do Planalto. Em bora a em presa sej a um a espetacular pagadora de im postos - hoj e, ela é m ais rentável para o governo do que j am ais fora enquanto estatal -, o governo quer ter um papel m ais ativo na gestão da em presa.

Das duas, eu tenho preferido a Vale à Petrobras. Mas isso não significa que eu estou aconselhando ninguém a com prar ações dela ou de nenhum a com panhia (até porque eu não tenho o poder de fazer qualquer recom endação: sou um sim ples investidor tentando com partilhar m inhas opiniões). Investir nas em presas tem seus riscos que tam bém devem ser avaliados criticam ente. Mas acredito que a Vale tem um a gestão m elhor e, principalm ente, m ais independente que a Petrobras – apesar de o governo ter tentado, nos últim os m eses, interferir tam bém na em presa.

Outro risco associado às duas diz respeito ao seu setor de atuação. As duas em presas atuam no setor de commodities, que passou por um boom na década passada. Se na era FHC as commodities estavam no seu piso histórico, durante o governo Lula elas se recuperaram rapidam ente e chegaram ao seu teto histórico. Com o o Brasil é grande exportador de commodities e as em presas desse setor lucraram bastante com o aum ento do preço delas, Vale e Petrobras foram m uito beneficiadas no período.

O problem a é que a próxim a década pode não ser tão boa para o setor de commodities quanto foram os anos 2000. Os Estados Unidos são ainda o principal m otor da econom ia m undial, m as eles ainda estão derrapando por conta da crise que se iniciou em 2008. O desem prego é alto, e a inflação tam bém tem crescido m uito nos últim os anos. A econom ia j aponesa, outro grande participante do m ercado m undial, tam bém está em baixa há um bom tem po, e tam bém a Europa está crescendo m uito pouco.

Baixo crescim ento econôm ico significa m enos consum o de petróleo e de m inérios, além de outras commodities. A não ser que haj a um crescim ento sustentável em outras partes do planeta - a China tam bém j á dá alguns sinais de desgaste e de incapacidade de m anter seu crescim ento nos níveis excepcionais dos últim os anos -, o cenário econôm ico pode ser desfavorável a essas em presas.

Tam bém é im portante destacar que a grande razão para que a m ídia recom ende o investim ento em Vale e Petrobras diz respeito ao espetacular crescim ento das em presas nos últim os anos. Um analista que não recom ende Vale ou Petrobras em sua carreira é olhado com desdém . Talvez, m uitos analistas indiquem as duas em presas apenas para não ir contra a m aré: afinal, errar em conj unto com outros é m elhor do que errar sozinho.

Mas o que m uitas pessoas não sabem é que as duas não foram as cam peãs de crescim ento nesse período. Algum as outras em presas deram a seus acionistas rentabilidade superior às duas vedetes.

As ações da Randon Participações (RAPT4), por exem plo, estavam cotada a m eros R$ 0,15 em 1998, e ao fim de 2011 estavam avaliadas em torno de R$ 10,90 - um crescim ento de 7.592%. As ações de um a em presa do setor elétrico -que norm alm ente é considerado de baixo crescim ento -, a Coelce (COCE5), valiam R$ 1,17 em 1998, e no final daquele ano valiam em torno de R$ 30,00, um crescim ento de 2.464%, com parável ao da Petrobras. Em 2000, as ações da Am bev (AMBV4) estavam cotadas a R$ 3,50; ao fim de 2011, estão avaliadas em torno de R$ 45,00 (rentabilidade de 1.185%) e, ao fim de 2012, j á valiam m ais de R$ 80,00. As ações preferenciais da Livraria Saraiva (SLED4), em presa que quase nenhum analista cobre, estavam cotadas a R$ 1,65 em 1998, e chegaram a ser negociadas a R$ 37,00 em 2011 (rentabilidade de 2.142%). Sem contar dividendos. Com eles, por exem plo, não tenho a m enor dúvida de que as ações da Coelce, que é um a excelente pagadora de proventos, teriam tido um a rentabilidade espetacularm ente superior à da Vale e da Petrobras. Em bora nem todas as em presas citadas tenham crescido tanto quanto Petrobras e Vale, é fácil perceber que outras boas com panhias tam bém tiveram rendim entos espetaculares.

Claro, com parar o crescim ento de em presas diferentes olhando pro passado é fácil. É só escolher em presas que cresceram e com parar. Alguém poderia m e acusar de ser desonesto por fazer isso; saber quem ganhou depois do j ogo ter acabado é fácil. O difícil é saber quem serão os vencedores daqui a 10, 15 anos.

Meu obj etivo, contudo, não foi o de m ostrar que Coelce, Am bev, Randon ou Saraiva são investim entos m elhores que Vale ou Petrobras para o futuro. A ideia é apenas m ostrar para quem investe apenas em Petrobras e Vale que outras em presas existem e que precisam ser estudadas, porque podem ser um m elhor investim ento do que as duas queridinhas do Ibovespa.

Os resultados da capitalização da Petrobras para o investidor

Um exem plo de com o a Petrobras pode não ser um investim ento tão bom quanto norm alm ente é anunciado pela m ídia especializada foi visto pelos investidores no processo da capitalização da com panhia, realizado em 2010. Com a finalização do processo, a Petrobras obteve US$ 70 bilhões para investir na exploração do pré-sal. Mas qual foi o resultado da capitalização da Petrobras para os acionistas da em presa - os novos, que aproveitaram o m om ento para com prar suas prim eiras ações da petrolífera, e os antigos, que tiveram que adquirir novas ações para tentar m anter intacta sua parcela de propriedade na em presa?

O prim eiro elem ento a ser observado é o expressivo aum ento de valor de m ercado da com panhia. Em 17 de setem bro de 2010, pouco antes da consolidação do processo de capitalização, o valor de m ercado da em presa era de aproxim adam ente R$ 251 bilhões; no início de outubro, valia R$ 350 bilhões, um acréscim o de 39%. Isso, por si só, não diz m uito a respeito de a em presa ser um investim ento bom ou ruim .

O prim eiro elem ento a ser observado pelo investidor é que os US$ 70 bilhões (uns R$ 120 bilhões) obtidos no processo de capitalização são m uito pouco perto do que a em presa pretende investir ao longo dos próxim os anos, para explorar o pré-sal. Para que o leitor tenha um a ideia, em 2009 o Ministro da Fazenda anunciou que a em presa deveria investir, só em 2010 ano, cerca de R$ 340 bilhões para a extração do petróleo da cam ada do pré-sal. Ou sej a, o dinheiro obtido com a capitalização representa pouco m enos de 1/5 do valor necessário para investir na extração daquele petróleo. Mas os dados não batem : segundo José Sergio Gabrielli, então presidente da em presa, a com panhia deveria investir, até 2020, cerca de US$ 111 bilhões (R$ 180 bilhões) para aproveitar os recursos do pré-sal.

Independentem ente de quem está certo, façam os um a continha básica. A em presa valia R$ 350 bilhões, m as precisava investir ainda um valor entre R$ 180 bilhões e 340 bilhões até 2020 para poder aproveitar o petróleo do pré-sal (segundo Mantega, R$ 350 bilhões só nesse ano!). Ou sej a, a em presa terá que investir algo entre m etade e m ais de 100% de seu valor de m ercado para poder aproveitar os recursos do pré-sal. Mas obteve, no m egaprocesso de capitalização, apenas R$ 120 bilhões. De onde a em presa obterá o valor restante - entre R$ 60 bilhões e R$ 280 bilhões que faltam para chegar à m arca prevista? Provavelm ente, de um a nova capitalização.

Mas com o isso afeta a situação dos investidores da com panhia? Vam os ver um espelho dos dados fundam entalistas para observar com o a situação afetou a situação dos acionistas da em presa. Quem tinha 1 ação da em presa, em setem bro (antes da capitalização), teria um lucro por ação (LPA) equivalente a R$ 3,34, um valor patrim onial por ação (VPA) de R$ 18,68 e teria recebido R$ 0,95 em dividendos por ação (DPA) - dados relativos aos valores de 2009. Em outubro, os m esm os dados seriam os seguintes: LPA de R$ 2,28,VPA de R$ 12,75 e R$ 0,65 em DPA. Ou sej a, com o era de se esperar, o aum ento no núm ero de ações levou a um a piora dos indicadores fundam entalistas básicos da em presa na casa dos 31%. Por que isso aconteceu? Porque o núm ero de ações da em presa aum entou. Para entender esse ponto, im agine que um a em presa que tenha um patrim ônio de R$ 1.000.000,00, um lucro líquido de R$ 100.000,00 e pague R$ 50.000 em dividendos, e tem 1.000 ações. Nesse caso, seu VPA seria de R$ 1.000,00, seu LPA de R$ 100,00, e seu DPA de R$ 50,00. Agora, im agine que a em presa aum entou em 10 vezes o seu núm ero de ações, passando para 10.000 ações. Nessa hipótese, seu patrim ônio, seu lucro líquido e seus dividendos são divididos por um núm ero m aior de ações, o que leva a um decréscim o em todos os indicadores. Nessas condições, seu VPA passaria para R$ 100,00, seu LPA para R$ 10,00 e seu DPA para R$ 5,00. Bem pior, não é? Pois aconteceu o m esm o com a Petrobras!

O que m ais aconteceu? Bom , o índice P/L da em presa subiu um bocado. Em setem bro, antes da capitalização, seu P/L estava na casa dos 7,5. Agora, em outubro, está na casa dos 11. Ou sej a, m esm o piorando todos os indicadores, com o a cotação da ação perm aneceu por um bom tem po m ais ou m enos igual ao que era antes (na casa dos R$ 26,00), a em presa estava m ais cara (e hoj e o preço está na casa de R$ 20,00). Não está caríssim a (um P/L de 11 não é caro), m as está m ais cara do que antes do processo de capitalização. Conclusão? O investidor perdeu em todas as pontas: levou ações de um a em presa que tinha indicadores m elhores, com um preço pior.

E ainda pode ficar pior. Para investir os R$ 280 bilhões que faltam para chegar ao total previsto em investim entos, a em presa tem três alternativas: ou tom a um em préstim o, ou em ite novas ações (outra capitalização), ou reinveste seus lucros. A terceira alternativa seria a m ais adequada, porque significaria crescim ento orgânico e estruturado. O investim ento viria naturalm ente da atividade operacional da em presa. Mas não é suficiente! Para que o leitor tenha um a ideia, o Lucro Líquido da Petrobras nos 12 m eses anteriores a novem bro de 2010 foi de aproxim adam ente R$ 30 bilhões, suficiente para cobrir pouco m enos de 10% do investim ento total necessário para a em presa explorar o pré-sal. E isso se a em presa deixar de pagar dividendos (o que ela não pode fazer, j á que a lei a obriga a pagar em dividendos pelo m enos 25% de seu lucro).

Sobram duas alternativas: tom ar um em préstim o ou em itir novas ações. Para explorar o pré-sal, tom ar os R$ 280 bilhões em em préstim os significaria triplicar a dívida atual da em presa, o que prej udicaria irrem ediavelm ente sua eficiência. E em itir novas ações significaria prej udicar novam ente os interesses dos acionistas. Afinal, em itir R$ 280 bilhões em novas ações significaria dim inuir para pouco m ais do que m etade o percentual do patrim ônio que cada ação da em presa representa.

Para tornar esse em preendim ento lucrativo para seus acionistas, o investim ento da em presa para explorar a cam ada do pré-sal teria que devolver, pelo m enos, 12% ao ano em retorno para seu acionista. Menos do que isso, é m elhor investir em outra em presa - e, acredite, há várias em presas com retorno m aior. Isso significaria que os R$ 280 bilhões teriam que dar de retorno um lucro de R$ 33 bilhões por ano para a em presa. Ou sej a, a em presa teria que lucrar o DOBRO do que tem lucrado anualm ente. E isso para COMEÇAR a dar lucro para o acionista. Difícil a situação, não é?

5. O risco de especular com micos

Micos são aquelas em presas que têm valor de m ercado ínfim o e são m uito pouco negociadas no m ercado de ações, que m uitas vezes são negociadas por poucos centavos e são, por conta dessas características, m uito arriscadas.

Mas essas características são j ustam ente o que tornam os m icos m uito atrativos. Em razão de serem pouco negociadas, essas ações podem passar por m om entos de m uita volatilidade - o que significa a possibilidade de ganhar m uito dinheiro com poucos recursos, transform ando centenas de reais em m ilhares em um piscar de olhos. Muitos especuladores acabam se iludindo na esperança disso acontecer, e se esquecem de que o potencial de lucros é acom panhado de um risco excessivo de que m ilhares de reais se transform em em dezenas de reais em poucos dias.

Para ilustrar os riscos de especular com os m icos, apresento o exem plo da Mundial, um a em presa cuj as ações passaram por um m om ento de excessiva volatilidade em 2011, fazendo pequenas fortunas em algum as sem anas -m om ento seguido por um estouro fantástico que levou m uitos à bancarrota e levou à investigação por parte da CVM, por suspeita de fraude.

Estudo de caso: as ações da Mundial

O m ercado, às vezes, é irracional. Nos prim eiros m eses de 2011, as ações ordinárias da Mundial (MNDL3) subiram m ais de 1100%, o que fez indicador P/L subir para faixa superior a 120. Em 52 sem anas, as ações da em presa saltaram de R$ 0,21 para R$ 3,15. R$ 10.000,00 investidos nela no Réveillon de 2011 teriam se transform ado em pouco m ais de R$ 140.000,00 antes do m eio do ano.

Com resultados tão bons no m ercado, a em presa deveria ser um a m áquina de produzir lucros, concorda? Provavelm ente, ela deveria ter um a m arca fortíssim a- daquele tipo que faz com que as pessoas a escolher seus produtos com base na força da m arca. Mais ou m enos com o os produtos da Apple, que m uita gente com pra “porque é da Apple, oras”. Ou então, um a m arca conhecida com o a dos produtos da Am bev, que às vezes se tornam sinônim o do produto que é vendido. A criança vai pedir um refrigerante qualquer e j á pede o Guaraná Antarctica, e não um guaraná qualquer. Ou com o a Coca-Cola, que tem efeito ainda m aior.

Mas o que produz a Mundial? Produtos para cabelos (navalhas e várias linhas de tesouras), m aquiagem , pinças, alicate, lixas, barbeadores e tesourinhas para cortar unhas - de m uitos e m uitos tipos. A em presa não tem vantagem com petitiva. Os indicadores fundam entalistas da em presa tam bém não eram significativos: ROE de −53%, ROIC de 2,40%, m argem líquida de −6,7%, lucro sem apresentar constância no crescim ento, dívida alta. Você investiria num a em presa assim ? Eu não.

A liquidez corrente da em presa é de 0,62. Esse indicador m ede a capacidade da em presa de pagar suas dívidas de curto prazo. Um indicador m enor que 1 indica que a em presa tem m ais dívidas de curto prazo (obrigações a serem pagas em 1 ano) do que bens e direitos que podem ser convertidos em dinheiro no m esm o prazo. Com o você pode ver, a em presa tem capacidade de honrar apenas 62% de suas dívidas de curto prazo. Para pagar o restante, só com em préstim os ou outras m aneiras de financiam ento (em itir ações e debêntures, por exem plo).

Ou sej a, para pagar sua dívida, a em presa tem que assum ir dívidas de prazo m ais longo, o que aum entaria seu endividam ento de longo prazo. E esse indicador tam bém não é bom . Mas por que, com indicadores tão ruins, as ações da Mundial apresentaram rentabilidade tão expressiva nos últim os m eses?

Im pressionado com a alta das ações da em presa, resolvi pesquisar um pouco sobre os m otivos que levaram a esse m ovim ento expressivo. Encontrei apenas dois fatores que poderiam explicar isso nas sem anas anteriores à alta absurda: o anúncio de um desdobram ento de ações e o processo de reestruturação da em presa, com a intenção de aderir ao nível I de Governança Corporativa da BM& F Bovespa. O que isso significa? Que a em presa quer se com prom eter m ais com seu acionista, divulgando m elhor suas inform ações e adotando m elhores práticas. Apesar disso, a em presa teve que se j ustificar perante a BM& F Bovespa em 20 de j unho de 2011 por não ter enviado as inform ações financeiras referentes ao prim eiro trim estre de 2011 - o que é indício, no m ínim o, de desorganização e ausência de transparência.

Ou sej a, nada a j ustificar o m ovim ento de alta das ações. O m ovim ento teve o seguinte padrão: no dia prim eiro de abril de 2011, cada ação preferencial da Mundial (MNDL4) era negociada a um preço próxim o a R$ 1,90. Desde então, não parou de subir, tendo encerrado o m ês de abril a R$ 3,19 (alta de 67,89%). Após o desdobram ento das ações, a um a proporção de 6 para 1, as ações encerraram m aio a R$ 0,73, que equivaleria, na cotação antiga, a R$ 4,38 (alta de 37,30% no m ês). Em j unho, a farra continuou, com o preço das ações chegando a R$ 1,90, ou R$ 11,40 com base na cotação anterior (alta de 160,27% no m ês). E, em j ulho, a farra continuava: a cotação chegou a R$ 5,11 -equivalente a R$ 30,66 antes do desdobram ento (alta de 168,94%).

Isso até o dia 20 de j ulho, quando a cotação caiu incríveis 50,80%; e no dia 21 de j ulho, despencou m ais 24,30%. Em apenas dois dias, a ação despencou de R$ 5,11 para R$ 1,90 (equivalente a R$ 11,40 nos preços anteriores ao desdobram ento) - um a queda total acum ulada de 62,81%. Hoj e, no final de 2012, as ações estão cotadas a R$ 0,38.

O que aconteceu? Sim ples: os preços com eçaram a subir porque com eçaram a subir. Não tem explicação: os únicos fatores que poderiam explicar racionalm ente um a subida no preço das ações foram o anúncio da em presa de que pretendia cum prir as regras para alcançar o nível 1 de governança corporativa da Bovespa e o anúncio de que um investidor estrangeiro teria interesse em aplicar até US$ 50 m ilhões na em presa. Nada - NADA - disso explica o que aconteceu na em presa.

O que explica, então? A ganância de m uita gente, seguida por m anipulação do m ercado que está sendo investigada pela CVM. As pessoas são gananciosas. Os preços com eçaram a subir. Subiram , subiram , e outros especuladores, vendo ali um a oportunidade de ganhar dinheiro fácil, aceitaram pagar qualquer preço pelas ações. Com m ais gente com prando, os preços subiram , subiram , até a m arca absurda de 1.500% (MNDL4). Só a ganância explica o que aconteceu. É claro que tam bém houve m anipulação do m ercado por grandes investidores (que deveria, sim , ser investigada), m as ela só deu certo por causa da ganância de investidores m enores, que toparam continuar com prando ações da em presa a qualquer custo.

A R$ 5,11 por ação, a em presa chegou a ser negociada por um índice P/L de 127,75. Ou sej a, cada ação chegou a ser negociada pelo equivalente a 127 vezes o lucro anual da em presa. E a quase 16 vezes o valor patrim onial da com panhia. Mas as pessoas continuaram entrando no negócio, achando que o céu era o lim ite. E foi, para algum as pessoas: com a queda de 62,81%, m uitos especuladores perderam m uito dinheiro.

Você poderia perguntar: “Fábio, perdeu dinheiro com o? Afinal, quem tinha as ações da Mundial em abril, teve um ganho fantástico de 500%, m esm o com essa queda toda! Não está bom ?”. De fato, se alguém tivesse as ações preferenciais da Mundial no início de abril e as m antivesse até j ulho, teria tido esse ganho, m esm o após a vertiginosa queda de m ais de 60% dos últim os dois dias. Mas m uito pouca gente fez isso: ninguém investiu na em presa porque acreditava no negócio, m as porque acreditava que ela seria o seu passaporte para a riqueza fácil. Muitos especuladores podem ter ganho um dinheirinho com ela; m as, se eles foram responsáveis, não investiram todo o dinheiro que tinham : ganharam seus 20% ou 30% em cada operação, m as com o entraram com pouco dinheiro, não conseguiram m uito resultado.

De nada adianta você ganhar 30% em 3 ou 4 dias, se você investiu R$ 1.000 ou R$ 2.000. Afinal, R$ 300 ou R$ 400 não vão fazer ninguém ficar m ilionário. Mesm o que tenha investido R$ 10.000, R$ 3.000 ganhos na operação tam bém não farão ninguém m ilionário. E se alguém investiu m ais do que isso depois que a cotação com eçou a disparar, era sim plesm ente insano. Acredito que m uito pouca gente fez isso, e a m aioria saiu com m uito pouco lucro.

E, pior, m uita gente deve ter com eçado a investir nessa sem ana ou na sem ana passada, achando que iria sair da rua da am argura em 3 sem anas. Deu pena de algum as pessoas, em alguns fóruns da Internet. Havia gente narrando que, depois de ganhar R$ 25.000 com as ações da Mundial, resolveu pegar em préstim o e perdeu m ais de R$ 50.000,00 nos pregões seguintes. Havia relato de pessoas que venderam ações de boas em presas para “fazer caixa” e especular com as ações da Mundial e que levaram um rom bo estupendo no seu patrim ônio.

Lições a serem aprendidas com o caso da Mundial

Investir na bolsa não é difícil. Se você pegar os balanços de duas em presas, um a excelente e um a péssim a, em questão de segundos saberá dizer qual delas é a m elhor. Basta pegar o crescim ento do lucro ao longo dos anos, com o a dívida tem sido equacionada, se a em presa gasta m uito com pessoal e com a sua adm inistração, se ela tem um a boa m argem de lucro e vantagens com petitivas. O resto é calcular indicadores fundam entalistas, o que pode ser feito com lápis e papel ou com um a planilha do Excel. Não é difícil: com um pouco de esforço, qualquer pessoa pode com preender o essencial para separar o j oio do trigo.

Mas m uitas pessoas querem acertar na loteria. Acreditam que a bolsa é um cassino, o que j á vim os que é um erro crasso. Ao invés de se concentrar na form ação de um a boa carteira de investim entos, com em presas que com provadam ente são bem adm inistradas e têm vantagem com parativa, elas preferem se concentrar nas em presas cuj a cotação vai disparar rapidam ente. Um ou outro pode ficar rico assim . Acontece. Mas esse aí vai ser 0,00000001% da população. É loteria. Você não pode deixar o futuro de todas as suas econom ias na m ão da sorte. Com disciplina e paciência, o retorno virá.

Mas é isso: toda vez que um a bolha estoura ou que um “m ico” sobe estupidam ente, os especuladores aprendem , pela dor, lições que j á deveriam ter aprendido. São os m esm os que depois saem difam ando o investim ento em ações, dizendo que só os “tubarões” (grandes investidores) ganham dinheiro no m ercado. São esses que m etem a bala na cabeça por não saber lidar com o prej uízo que sua irresponsabilidade causou. São esses que se divorciam porque as econom ias de anos do casal são reduzidas a pó depois de um a aposta equivocada e m aldizem o m ercado de ações.

6. O risco de investir em IPOs

Muitos investidores gostam de investir em IPOs - Initial Public Offerings (em português, Ofertas Públicas Iniciais), que nada m ais são do que um a oferta de ações por parte de um a em presa quando ela abre seu capital, possibilitando que suas ações sej am negociadas no m ercado. Mas será que investir nas ações de um a em presa nesse m om ento é realm ente bom ? Será que o investim ento em Ofertas Públicas Iniciais vale a pena? E que cuidados é im portante tom ar antes de decidir investir em um IPO?

Antes de m ais nada, é im portante com preender porque um a em presa abre seu capital. Vam os tentar im aginar um a situação em que um em presário bem sucedido tem um a em presa de sucesso com provado e com crescim ento sustentável. Sua em presa é conhecida por ter vantagem com parativa durável. Ou sej a, ela tem m aiores m argens de lucro que a concorrência, um a m arca reconhecida e de prestígio, apresenta bons lucros. Sua situação é confortável no m ercado. Por que ele abriria o capital de sua em presa?

Basicam ente, alguém faria isso por três razões: (i) por acreditar que a em presa tem condições de se expandir a taxas m uito m ais rápidas com o dinheiro que ingressar com a venda das ações; (ii) em razão de a em presa não estar tão bem quanto a situação descrita no parágrafo anterior deu a entender, e precisa do dinheiro para continuar funcionando; e (iii) o m ercado está topando pagar preços tão absurdos pelas ações de sua em presa que seria irracional não vendê-las. Existem exem plos de cada um a dessas situações.

Mas é im portante com preender o seguinte: um a em presa só em ite ações em um a Oferta Pública Inicial (ou IPO, que é a sigla para o term o em inglês) em benefício próprio. Para o bem ou para o m al do investidor.

O caso do IPO do Facebook é ilustrativo isso. A em presa não em itiu ações porque o Mark Zuckerberg é um suj eito bacana, m as porque tentou aproveitar a popularidade da rede social para inflar os preços das ações em seu IPO. Afinal, os preços do IPO - US$ 38 indicavam um a relação P/L próxim a a 100, m uito além de qualquer critério razoável - o que levou a ação a apresentar, nos prim eiros m eses de negociação, um a queda brusca. Ao final de 2012, a ação estava cotada a US$ 26, 32% abaixo do preço da oferta.

Claro, o futuro é im previsível. Quando o Google em itiu suas ações, tam bém havia a suspeita de preços elevados dem ais (o P/L estava na casa dos 67), m as a em presa conseguiu m anter um crescim ento tão absurdo de lá para cá que quem investiu nela naquela época obteve bons lucros. Mas essa não é a regra dos IPOs: em boa parte dos casos, a ação é em itida sim plesm ente por um preço alto dem ais para ser j ustificado. Com o Warren Buffett costum a dizer, "é m uito m elhor com prar um a em presa espetacular a um preço razoável do que um a com panhia razoável a um preço alto".

De m inha parte, prefiro não investir em IPOs. Os dados históricos disponíveis para avaliação da em presa são m uito escassos e é difícil prever o que a em presa fará com o dinheiro recebido. Em alguns casos, o dinheiro é sim plesm ente desperdiçado e não agrega valor algum à com panhia. Em outros casos de sucesso, o dinheiro é bem investido, com o ocorreu com Drogasil, Le Lis Blanc e Natura há alguns anos. Mas é difícil saber o que vai acontecer. Não é possível elaborar qualquer análise fundam entalista decente sem histórico da com panhia e, por essa razão, prefiro ficar de fora da farra dos IPOs.