Manual do Pequeno Investidor em Ações
4. Descobrindo o quanto vale uma empresa
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
11. O imposto de renda
Um a das dúvidas m ais com uns dos pequenos investidores, ao investir em ações, se refere ao pagam ento do Im posto de Renda. Quando pagar, com o pagar, com o calcular o m ontante a ser pago... são m uitas questões, e espero aj udar o pequeno investidor a com preender a m ecânica da tributação dos investim entos em ações e, principalm ente, com o utilizá-la a seu favor.
O prim eiro aspecto a ser considerado é a base de cálculo do Im posto de Renda, que é o lucro da operação. Por lucro, deve-se considerar o ganho obtido com a venda de ações em um determ inado m ês. Esse ganho é apurado a partir do preço de venda das ações, subtraindo-se o seu valor de aquisição, a partir do preço m édio de com pra de cada ação.
Parece com plicado, m as não é. Vej am os um exem plo: Maurício com prou 200 ações da hipotética TVAS5 por R$ 10,00, em j aneiro de 2009. Em agosto, o valor das ações estava em R$ 40,00 e Maurício considerou que aquela era um a boa oportunidade de realizar os lucros.
A base de cálculo do im posto é o lucro obtido com a operação. Com o Maurício vendeu todas as ações, a base de cálculo é obtida m ultiplicando-se o total das ações (200) pela diferença entre o preço de venda e o preço de aquisição (40-10): 200 x 30 = R$ 600,00. Esse é o lucro da operação.
Note ainda que Maurício poderia abater da base de cálculo os custos de aquisição das ações. Se ele pagou R$ 20,00 de corretagem , ele pode abater esse valor da base de cálculo, que seria de R$ 580,00 (R$ 20,00 abatido dos R$ 600,00).
Vam os com plicar um pouquinho m ais as coisas. Ao invés de adquirir as ações todas de um a vez, Maurício as com prou em j aneiro, fevereiro e m arço. Em j aneiro, com prou 200 ações por R$ 10,00; em fevereiro, 400 ações por R$ 13,00; e em m arço, m ais 100 ações por R$ 20,00. E as vendeu em agosto, por R$ 40,00 cada. Em cada operação, pagou R$ 20,00 de corretagem .
Com o fazer a conta então? Nesse caso, Maurício deve calcular o preço m édio de aquisição das ações, fazendo um a conta sim ples. No total, ele com prou 700 ações da TVAS5, pagando um valor total de R$ 7.400,00. Essa conta é feita m ultiplicando-se o custo de cada ação pela quantidade de ações com pradas em cada operação: (R$ 10,00 x 200) + (R$ 13,00 x 400) + (R$ 20,00 x 100) = R$ 7.400,00. Mas ele vendeu as ações por R$ 40,00 cada: com o ele tem 700 ações, o valor total de suas ações TVAS5 é de R$ 28.800,00. Para calcular o lucro, então, basta subtrair o valor total da venda (R$ 28.800,00) pelo custo de aquisição (R$ 7.400 + R$ 60,00 de corretagem ). O lucro de Maurício na operação é de R$ 21.340,00. Sobre este valor é que deve ser calculado o im posto.
Outro ponto im portante, no que diz respeito à tributação do investim ento em ações, é a isenção para o investidor que vende ações no valor de até R$ 20.000,00 em um m ês. Assim , Maurício, que vendeu R$ 28.800,00 em ações da TVAS5, pagaria im posto sobre R$ 21.340,00 (o lucro). Com o a alíquota do Im posto de Renda é de 15% para operações de alienação de ações, ele pagaria R$ 3.201,00 para o Leão. Mas, se ele tivesse vendido suas ações em dois m eses, não pagaria um único centavo de im posto!
Outro ponto im portante a ser considerado é que as operações day trade (com pra e venda de um a ação no m esm o dia) são tributadas com outra alíquota, de 20%. Nesse caso, 1% é retido na fonte, e o investidor deve recolher os outros 19%, preenchendo o DARF com o código 6015, até o últim o dia do m ês seguinte ao da operação. Note-se que nas operações day trade não há isenção das transações para nenhum valor: obtido lucro, é devido o im posto.
No caso das operações de venda no m ercado de ações que ultrapassem o valor de R$ 20.000,00 por m ês, o investidor deve pagar o im posto devido nos m esm os m oldes - via DARF com o código 6015, até o últim o dia do m ês seguinte ao da operação. Outro aspecto relevante da isenção para as vendas abaixo de R$ 20.000,00 é que esse valor se refere ao total das operações realizadas pelo investidor. Se ele vendeu m ais de R$ 20.000,00 em um a, duas ou vinte operações, é devido o im posto caso tenha obtido lucro.
Além disso, o lucro é considerado a partir do total das operações realizadas. Se Maurício obteve lucro de R$ 5.000,00 com a venda de ações TVAS5 e teve prej uízo com as tam bém hipotéticas ações PFLA3 de R$ 15.000,00, nenhum im posto é devido. E os lucros podem ser com pensados com os prej uízos de m eses seguintes (m as não de anos seguintes!).
Acho im portante que o pequeno investidor perceba que a estrutura tributária adotada no Brasil beneficia quem adquire ações com o obj etivo de investir para o longo prazo. Mesm o que o valor das ações triplique ou quadruplique, nenhum im posto será devido enquanto o investidor não as vender, possibilitando que o valor que eventualm ente seria pago a título de Im posto de Renda continue rendendo. Apenas no m om ento em que as ações forem vendidas será devido im posto, pois só aí haverá lucro do ponto de vista tributário.
4. Descobrindo o quanto vale uma empresa
1. Comprando uma ação por menos do que ela vale
Qualquer pessoa interessada no m ercado de ações j á deve ter ouvido o seguinte conselho: "com pre na baixa e venda na alta". Realm ente, esse parece ser um conselho óbvio, j á que a única m aneira segura de obter lucro em qualquer negócio é j ustam ente vender um produto por um preço m ais alto do que aquele pelo qual foi adquirido. O grande problem a para seguir o conselho, contudo, é saber se o preço da ação está baixo ou alto dem ais. Afinal, um a ação está barata quando cai 20%? 30%? ou 90%?
A correta avaliação do preço de um a ação depende de um a análise do desem penho da em presa. Afinal, um a ação é um a pequena fração de um a em presa: se a em presa vai bem , gera bons lucros e cresce ao longo do tem po, o preço das ações tende a refletir seus fundam entos. Por outro lado, se a em presa vai m al, am argando longos períodos de prej uízo, a cotação de suas ações tam bém tende a refletir essa situação.
Essa é a “ordem natural" das coisas. Contudo, às vezes a cotação não reflete os fundam entos de um a em presa. Um a em presa péssim a pode ser negociada por um preço elevado, e um a em presa excelente pode ter suas ações negociadas por um a verdadeira pechincha! Obviam ente, a últim a situação é a ideal.
O grande segredo do investim ento em ações é com prar um a ação por m enos do que ela vale efetivam ente. Portanto, para investir, é preciso saber calcular efetivam ente o valor de um a ação, pois som ente assim é possível com pará-lo com o preço e verificar se a probabilidade de o investim ento dar bons resultados é alta. O obj etivo desse capítulo, portanto, é discutir alguns dos fatores que devem ser exam inados para avaliar o quanto um a ação vale efetivam ente.
2. As ações e o poder dos juros compostos
Não é por acaso que Albert Einstein considerava os j uros com postos a força m ais poderosa do universo. Ela pode ser um a poderosa aliada do investidor, ou o pior dos inim igos do perdulário. Tenha os j uros com postos (o fam oso j uros sobre j uros) a seu favor, e você pode fazer fortunas; os tenha contra você, e pode se tornar m iserável em pouco tem po. Por essa razão, é im portante com preender o "poder de fogo" dos j uros com postos e entender com o o m ercado de ações pode fazer com que eles estej am a seu lado.
Para com preender o potencial dos j uros com postos, vej am os os seguintes exem plos. Na prim eira situação, suponha o caso de um investidor que tenha a capacidade de investir R$ 300,00 por m ês durante 30 anos, a com eçar desse m ês, com um a rentabilidade de 12,1% ao ano. Em 30 anos, são 360 m eses, ou sej a, ele teria investido de seu próprio bolso R$ 108.000,00. Mas, por causa dos j uros com postos, ele teria obtido R$ 942.871,40. Ou sej a, a diferença entre o valor poupado e o valor obtido se deveu única e exclusivam ente ao efeito dos j uros incidindo sobre o valor investido ao longo de 30 anos. Caso a rentabilidade sej a m antida, ele teria por ano m ais R$ 114.087,45 (ou R$ 9.507,28 m ensais). Ou sej a, com apenas R$ 300,00 investidos por m ês, em 30 anos ele teria um im portante com plem ento de m ais de R$ 9.000,00 por m ês para sua aposentadoria, indefinidam ente. E ainda poderia deixar essa renda m ensal para seus filhos...
Claro, a veracidade dessa conta só pode ser atestada pelo desconto da inflação no período. Descontada um a inflação m édia anual de 4%, durante os 30 anos, o valor real acum ulado seria de R$ 399.411,00 (e não quase um m ilhão). É por isso que a inflação é perigosa: ela dim inui o valor do dinheiro ao longo dos anos. Mas, de qualquer m odo, os R$ 9.507,28 que o investidor teria por m ês equivaleriam a R$ 4.027,00, em valores de hoj e -- um a com plem entação de aposentadoria excelente!
O que acontece se o investidor tiver um a capacidade de investim ento m aior -digam os, R$ 4.000,00 m ensais? Com um a rentabilidade de 12,1% ao ano, se ele com eçar do zero, ele teria acum ulado ao longo de 30 anos um valor nom inal de R$ 12.571.619,31! Mais de dez m ilhões de reais, que renderiam , por m ês, m ais de cem m il reais -- para ser exato, R$ 126.763,83. Em valores reais, descontada a inflação de 4% ao ano, isso equivaleria a um a econom ia total de R$ 5.325.479,97, com um a renda m ensal de R$ 53.698,59. Que boa aposentadoria!!
Essa m esm a pessoa, se não tivesse paciência e esperasse apenas 20 anos para com eçar a usufruir do patrim ônio acum ulado, teria econom izado aproxim adam ente R$ 2.198.000,00 em term os reais (ou R$ 3.710.000,00 em valores nom inais), o suficiente para um a renda m ensal de R$ 37.412,18 (com o poder de com pra de R$ 22.000,00 hoj e). De qualquer m odo, m ais 10 anos de espera seriam suficientes para econom izar m ais 7.000.000,00 de reais!!! Pense: em 20 anos, são acum ulados R$ 3.700.000,00; em m ais dez anos, o valor acum ulado chega a três vezes esse valor. Essa é a força dos j uros com postos!
Quantos de nós conhecem os pessoas que ganham m ais de R$ 8.000,00 (de renda fam iliar) e não conseguem form ar um bom patrim ônio? Se elas pudessem dim inuir um pouco o padrão de consum o, hoj e, em vinte ou trinta anos poderiam ter acum ulado o suficiente para viver m uitíssim o bem , sem nunca m ais se preocupar em trabalhar ou com a previdência. Se pensarm os na previdência pública com o um "investim ento", a força da econom ia particular fica ainda m ais evidente. Alguém que contribui para a previdência pelo teto, paga aproxim adam ente R$ 308,00 por m ês. Mas, ao final de 35 anos de contribuição, recebe o m ilionário valor de pouco m ais de R$ 2.000,00. Se essa m esm a pessoa, ao invés de pagar R$ 308,00 todo m ês para a previdência, econom izasse esse valor, poderia ter um a econom ia suficiente para se tornar m ilionário em 30 anos.
Claro, não discuto aqui a outra faceta da contribuição previdenciária -- que é a de custear todo o sistem a previdenciário e conferir ao em pregado um seguro que custeia eventual infortúnio. Mas, se o em pregado conseguir econom izar o m esm o m ontante da contribuição previdenciária (ou sej a, m ais R$ 308,00 por m ês), j á estará fazendo o suficiente para garantir um a aposentadoria digna o suficiente para que ele aproveite a "m elhor idade". É im portante notar a diferença que a rentabilidade do investim ento traz. Alguém que tenha um a rentabilidade um pouco m enor, de 10% ao ano, e econom ize R$ 300,00 por m ês, teria acum ulado R$ 622.000,00 (e não os m ais de R$ 900.000,00). Por outro lado, se o investidor conseguisse um a rentabilidade de 14% ao ano, teria acum ulado m ais de R$ 1.048.000,00!
É por isso que é im portante "apim entar" as aplicações financeiras com investim entos em renda variável, com o o investim ento em ações. No longo prazo, esse investim ento "m ais arriscado" poderá fazer toda a diferença na acum ulação de um grande capital. As ações são um bom veículo para a acum ulação de patrim ônio ao longo do tem po porque são o veículo de duas m aneiras diferentes de com por j uros com postos: por m eio da retenção de lucros e reinvestim ento na própria atividade em presarial, por m eio do pagam ento de dividendos, que podem ser reutilizados para a com pra de novas ações, e por m eio da recom pra de ações por parte da própria em presa. Vej am os com o os três m ecanism os podem funcionar a seu favor.
Lucros retidos
Um a em presa tem várias alternativas a sua disposição para decidir onde aplicar o dinheiro oriundo de seu lucro líquido. Ela pode investir o dinheiro no m ercado, garantindo caixa para a realização de investim entos futuros, por exem plo, ou pode usar o dinheiro para pagar proventos (dividendos e j uros sobre o capital) para seus acionistas. Mas, se se trata de um a com panhia eficiente em seu ram o de atuação, o que ela pode fazer de m elhor a seus acionistas é reinvestir o lucro em sua própria atividade.
Quando um a em presa retém seus lucros, ela não precisa tom ar dinheiro em prestado para adquirir novas em presas de seu ram o, com prar novas m áquinas ou am pliar sua estrutura operacional. Essas novas aquisições, se forem bem realizadas, tendem a elevar o lucro da em presa a um baixo custo, pois é com o se a em presa tom asse um em préstim o dela m esm a, sem qualquer risco desnecessário ou gastos com pagam ento de j uros. Isso faz com que os lucros de um determ inado período sej am , ano a ano, acum ulados e m ultiplicados -tornando-se um a excelente ferram enta para a acum ulação de j uros com postos.
Com o saber se um a determ inada em presa está retendo seus lucros? É fácil: basta dim inuir do Lucro Líquido da com panhia o quanto ela pagou de dividendos e j uros sobre capital para seus acionistas. Vej am os um caso concreto, o da Drogasil (atual Droga Raia):
Com o o leitor pode ver, a em presa foi, entre 2002 e 2009, um a verdadeira m áquina de retenção de lucros. Em 2002, reteve quase R$ 5 m ilhões de seu lucro de R$ 8 m ilhões, tendo pago R$ 3 m ilhões de dividendos. À exceção de 2003, quando houve um a pequena dim inuição de seu lucro líquido, todos os anos seguintes foram de lucros estupendos. Em 2009, o lucro líquido da em presa passou a R$ 74 m ilhões, e a em presa reteve m ais da m etade desse valor, R$ 39 m ilhões, que é quase dez vezes o quanto ela reteve de lucro em 2002, o prim eiro ano da série. Im agine o quanto esses R$ 39 m ilhões poderão im pulsionar o seu crescim ento nos próxim os anos!
Reter os lucros ao invés de repassá-los ao acionista na form a de dividendos e j uros sobre capital é m elhor, tam bém , para o acionista. Quanto m aior o lucro da em presa, m ais ela repassará ao acionista na form a de dividendos e j uros sobre o capital. Com o o leitor pode observar, apesar da política agressiva de retenção de lucros, o valor pago em dividendos aum entou m ais de dez vezes entre 2002 e 2009. Se a em presa pagasse todo o seu lucro na form a de dividendos, não poderia ter crescido tanto quanto cresceu. Por essa razão, verifique sem pre se as em presas de seu portfólio estão m antendo um a taxa adequada de reinvestim ento de seus lucros; é um a excelente m aneira de garantir a rentabilidade de sua aplicação.
Dividendos
Outra m aneira de um a em presa levar seus acionistas a se beneficiarem dos j uros com postos é por m eio do pagam ento de dividendos, que nada m ais são do que um a m aneira de a em presa dividir seus lucros com os acionistas. Mas de nada adianta o acionista receber dividendos e gastá-los; é preciso reinvesti-los na com pra de novas ações.
Ou sej a, sem pre que um a ação pagar dividendos, o pequeno investidor deve utilizar os valores recebidos para adquirir novas ações da em presa (ou de outras em presas). Note-se que há algum as em presas que j á dispõem de program as de reinvestim ento autom ático de dividendos, o que pode autom atizar o processo, tornando-o m ais fácil de ser seguido.
Vam os pegar um exem plo: caso alguém houvesse com prado, em cada ano entre 2000 e 2009, R$ 1.000,00 em ações da Petrobras (PETR4), teria obtido um a rentabilidade de 235,02% (m édia de 12,85% ao ano). E se o investidor houvesse reinvestido os dividendos recebidos? Qual seria sua rentabilidade?
Para responder a essa pergunta, utilizo a seguinte m etodologia: o investidor com praria, a cada ano, R$ 1.000,00, a um a cotação que refletisse a cotação m édia daquele ano, e com praria ações com os dividendos recebidos. No caso, partirei do princípio de que o investidor apenas receberá dividendos a partir do ano seguinte ao que adquiriu as ações, para facilitar os cálculos. Tam bém serão desconsiderados os custos de transação. Vej am os os resultados:
Com o se vê, o rendim ento foi bastante superior ao exem plo anterior, em que não havia o reinvestim ento dos dividendos. Em bora eles possam parecer de pouca im portância no com eço (para m uitos, é m ero dinheiro pro café), no longo prazo o seu reinvestim ento pode levar à form ação de verdadeiras fortunas.
Basta ter paciência e reinvestir.
Precauções antes de investir em empresas que pagam bons dividendos
Muitos investidores procuram ações com um bom dividend yield para alcançar um único propósito: ganhar dinheiro com os dividendos que são pagos periodicam ente. Quem olha o elevado dividend yield de algum as em presas j á fica em polgado. E não é para m enos: em tem pos nos quais a renda fixa dificilm ente rende m ais do que 10% ao ano, olhar para as ações da Eletropaulo e ver que a em presa pagou m ais de 20% ao ano nos últim os tem pos torna tentadora a ideia de investir nela som ente pelos dividendos. E não apenas a Eletropaulo: várias em presas apresentaram dividend yield altíssim o nos últim os anos: a Monark (BMKS3), por exem plo, chegou a apresentar um dividend yield de 108,2%, e a Yara Brasil Fertilizantes (ILMD4), um yield de 71,50%.
Mas, antes que você corra para o home broker a fim de com prar essas ações,
é preciso tom ar alguns cuidados. O excelente portal The Motley Fool publicou recentem ente um a m atéria sobre o assunto, m ostrando três fatores que o investidor deve prestar atenção antes de com prar ações de um a em presa com o propósito de receber dividendos polpudos.
Dívidas muito altas afetam irremediavelmente a capacidade de manter um dividend yield elevado
Verifique a dívida (de curto e longo prazo) da em presa e se ela tem condição de pagá-la com tranquilidade. Às vezes, um a em presa vem pagando bons dividendos por um bom período de tem po, m as com o a sua dívida é extrem am ente alta, dificilm ente a com panhia conseguirá m anter elevado o patam ar de pagam ento dos dividendos. A razão para isso é óbvia: se a em presa tem que pagar suas dívidas, terá que cortar os dividendos para quitá-las, concorda?
Dê preferência a em presas que paguem bons dividendos e consigam m anter baixo o seu índice de liquidez (de preferência, superior a 1).
Dividend Yield alto demais pode sinalizar problemas
Outro m otivo para suspeitar da capacidade de pagam ento de dividendos no longo prazo é o pagam ento de um dividend yield alto dem ais. O artigo do The Motley Fool ilustra essa questão com um dado histórico do m ercado de ações am ericano: m ais de 1/4 das em presas que pagavam m ais de 8% em dividend yield em 2001 não pagaram um único centavo em dividendos no últim o ano. Claro, 8% não é um valor absurdo para a realidade brasileira, m as é um dividend yield excepcional para a realidade am ericana, na qual os j uros pagos em um título público (bond) com vencim ento em 10 anos está girando a um a taxa de 3% ao ano. Com parando-se com o Brasil, isso equivaleria a algo em torno de 30% de dividend yield!!
O cuidado a ser tom ado com em presas que pagam um dividend yield elevado dem ais está no fato de que o m ercado pode estar divisando problem as dem ais no futuro da com panhia. O dividend yield expressa a relação entre os dividendos pagos por ação (DPA) e a cotação da ação. Assim , se um a ação custa R$ 1,00 e a em presa pagou R$ 0,20 em dividendos num determ inado ano, a em presa apresenta um dividend yield de 20%. Se o preço cair para R$ 0,40, o dividend yield j á aum enta para 50%!
É im portante observar que, às vezes, o m ercado tam bém erra na avaliação de um a em presa: é o que ocorre quando o preço de um a em presa fantástica cai inj ustificadam ente e o dividend yield pode subir bastante, trazendo um a excelente oportunidade de investim ento.
O dividend yield de empresas de setores arriscados corre riscos
Outro ponto a ser observado é o setor de atuação da em presa. O artigo do The Motley Fool m ostra com o um a em presa aparentem ente sólida com o o The New York Tim es teve que dim inuir drasticam ente o pagam ento de dividendos por causa das m udanças que seu setor de atuação sofreu. Com o a venda dos j ornais im pressos despencou (e com ela o valor pago pelos anunciantes), a em presa passou por sérias dificuldades financeiras.
No Brasil, é im portante tom ar m uito cuidado com setores em que a concorrência é m uito acirrada, com o o varej o e a aviação. Nesses setores, é bem com um que em presas aparentem ente sólidas apresentem prej uízo e venham eventualm ente a falir. Outro setor que é bom "ficar de olho" é o de telefonia fixa, j á que cada vez m ais o setor vem perdendo espaço para em presas de telefonia m óvel - e, portanto, é im portante que o investidor observe se a em presa está procurando se reposicionar no m ercado. Tam bém é im portante tom ar cuidado com os setores cíclicos (com o o de commodities), j á que um a eventual virada nos preços pode levar em bora boa parte dos dividendos pagos pela em presa.
Observe a taxa de crescimento dos dividendos
Norm alm ente, o investidor que com pra ações com o obj etivo de receber dividendos futuros se preocupa apenas com o dividend yield, que é a relação entre a cotação e os dividendos pagos pela ação. Se um a ação custa R$ 20,00 e paga R$ 2,00 a título de dividendos, seu dividend yield é de 10% (2/20). Bom , hoj e escrevo sobre um a questão um pouco diferente, que é m uito pouco abordado: a taxa de crescim ento dos dividendos, que reflete o com portam ento dos dividendos ao longo dos anos.
O seguinte exem plo ilustra bem a questão: digam os que um investidor tenha investido R$ 100.000,00 em um a em presa que pagasse, na época, 3,5% de dividendos em relação a sua cotação, em 2001. Isso significa que ele receberia R$ 3.500,00 de dividendos naquele ano.
Parece pouco, não é? Mas digam os que os dividendos pagos por essa em presa cresçam bastante, uns 30% ao ano. Em 2002, ele teria recebido R$ 4.550,00, ou 4,5% de rentabilidade. Parece pouco, não é? Afinal, em 2002, a taxa Selic estava nas alturas, pagando m uito m ais do que isso. Mas, em 2003, a ação pagaria de dividendos R$ 5.915,00, aum entando a rentabilidade para 5.9% ao ano, a rentabilidade aproxim ada da poupança. Encurtando a conversa, em 2008 o investidor teria recebido em dividendos R$ 21.916,00, um a rentabilidade de 21,91% sobre o investim ento inicial - ou quase 3 vezes o valor que a taxa Selic está pagando atualm ente. Se ela continuar nesse ritm o, em 2015 pagaria fantásticos R$ 137.808,17 de dividendos, m ais que o valor investido em 2001 (um a rentabilidade naquele ano de R$ 137%!!!). E sem que o investidor tenha adquirido um a única ação a partir de então. Im agine se ele reinvestisse os dividendos recebidos a cada ano em novas ações da em presa...
O que aconteceu? A em presa não era um a pagadora apenas razoável de dividendos, pois paga apenas uns 3,5% de dividendos ao ano?
Sim , a em presa paga apenas aproxim adam ente isso ao ano. Mas isso não significa dizer que ela é um a m á pagadora de dividendos. O dividend yield m ascara um elem ento que pode ser fundam ental para a rentabilidade do investidor: a taxa de crescim ento dos dividendos.
Quando utilizam os o dividend yield, tem os acesso apenas à razão entre a cotação e os dividendos pagos em um único ano. Se a em presa for boa, o seu lucro anual crescerá e, ao longo dos anos, sua cotação crescerá -- e m esm o que o valor pago a título de dividendos cresça, o dividend yield pode perm anecer estável ou m esm o dim inuir. Ou sej a, o valor pago em dividendos por cada ação cresce, m as com o o preço da ação tam bém aum enta, o dividend yield perm anece estável.
Exem plifico, voltando ao exem plo anterior: se a taxa de crescim ento dos dividendos aum entou 30%, e a cotação aum entou tam bém 30%, seu dividend yield perm aneceu igual. Se a cotação aum entou m ais do que 30%, isso significa que o dividend yield atual é inferior ao de 2001!
Agora, um exem plo real: o da Randon Participações (uso os dados da RAPT4).
Em 2001, cada ação RAPT4 pagou em dividendos R$ 0,02, e a ação teve um preço m édio no ano de R$ 0,38 - um dividend yield de 5,2%. Assim , um investidor que tenha com prado R$ 100.000,00 de RAPT4 no preço m édio da ação teria com prado 263.157 ações e receberia de dividendos R$ 5.263,14.
Em 2002, a em presa passou a pagar R$ 0,06 de dividendos por ação, um crescim ento assom broso de 300%. Ou sej a, o investidor receberia R$ 15.789,42 em dividendos, em 2002. Com o a cotação da ação subiu para um preço m édio de R$ 0,70, o dividend yield em 2002 foi de 8,5%. E o patrim ônio do investidor em ações subiu de R$ 100.000,00 para R$ 184.209,90.
Em 2003, teriam sido R$ 31.578,00 em dividendos, pois a em presa pagou, por ação, R$ 0,12. Em 2008, para resum ir a conversa, seriam R$ 118.420,65, j á que a em presa pagou R$ 0,45 por ação. E o investidor teria recebido em dividendos, no total, R$ 452.630,04, entre 2001 e 2008.
No período, a taxa m édia de crescim ento anual dos dividendos foi de 56,02% -- ou sej a, a cada ano, em m édia, tem pago m ais de 50% a m ais de dividendos do que pagou no ano anterior.
Há em presas m ais "fam osas" que tam bém têm tido um a taxa boa de crescim ento de dividendos. No caso da Petrobras, por exem plo, a taxa é de 14,95% entre 2001 e 2008. A Vale, por sua vez, tem um a taxa de 17,82%. É um acelerador e tanto para as econom ias pessoais...
No caso da PETR4 (Petrobras), alguém que tivesse investido R$ 100.000,00 em 2001, a um preço m édio de R$ 4,52, teria recebido, em 2008, R$ 25.220,22 -um a rentabilidade sobre o investim ento inicial de 25,22%...
É im portante observar que não há garantia nenhum a de que essas taxas se repetirão no futuro. O investidor precisa estudar cada em presa em que pretende investir para verificar sua solidez e perspectivas futuras. Além disso, as em presas citadas foram utilizadas apenas com o estudos de caso, não significando que eu as estej a recom endando para investim ento. Mas não custa dar um a olhadinha nas em presas que costum eiram ente pagam bons e crescentes dividendos.
É possível viver de dividendos?
Muitas em presas pagam pouco, em dividendos - às vezes, só uns 2 ou 3% sobre o valor de sua cotação. Por exem plo, a Am bev (AMBV4), em 2010, pagou R$ 2,12 em proventos (dividendos e j uros sobre o capital). Tendo em vista que, em dezem bro daquele ano, as ações AMBV4 estavam cotadas a aproxim adam ente R$ 45,00, isso equivalia a um dividend yield de apenas 4,7%. Bem abaixo da poupança e da renda fixa em geral.
Mas os dividendos são im portantíssim os. É im portante não se ater ao dividend yield em dem asia. Com o visto, o que im porta é o crescim ento do valor pago em dividendos ao longo do tem po, e não a relação entre os dividendos e o preço da ação. E, nisso, a Am bev tem sido extrem am ente bem sucedida. Deem um a olhada na seguinte planilha:
Em prim eiro lugar, preste atenção na coluna “Dividendo/ação” entre os anos de 2002 e 2010. Em 2002, a Am bev pagou para seus acionistas R$ 0,16 em proventos. Em 2010, foram pagos R$ 2,12 - ou 1.225% a m ais que em 2002. Anualm ente, isso equivale a um aum ento de 33,26% por ano no valor pago em dividendos. Entre 2009 e 2010, a taxa foi ainda m aior - a em presa pagou o dobro em 2010 do que havia pago no ano anterior.
Mas 9 anos é um período curto para avaliar com o os dividendos podem ter im pacto significativo no seu patrim ônio. Se alguém tivesse investido R$ 5.000,00 por ano entre 2002 e 2010 em ações da Am bev, e reinvestisse o valor recebido em dividendos em ações da com panhia, teria recebido em 2010 cerca de R$ 7.561,60 em dividendos, tendo investido até então R$ 45.000,00. Ou sej a, o patrim ônio investido estaria com um a rentabilidade de 16,14% - bem acim a da renda fixa.
Este é um exem plo que rem ete a um a em presa até aqui sólida, que tem apresentado bom histórico de crescim ento. É óbvio que nem todo investim ento em ações, no longo prazo, terão um resultado com o este. Não é possível garantir nem m esm o que a Am bev terá este futuro, em bora as proj eções tenham sido form uladas com prem issas que considero bastante razoáveis.
No exem plo da Am bev, discuti o que aconteceria com um a em presa de forte crescim ento, apesar de ter um dividend yield relativam ente baixo. Mas vej am os o que aconteceria com um a em presa com bom histórico de pagam ento de dividendos, com o a CPFL Energia (CPFE3):
Com o você pode observar, m esm o não sendo a CPFL Energia um a em presa de crescim ento, o seu histórico de excelente pagadora de dividendos perm ite concluir que, m antidos os princípios de sua adm inistração, quem detiver suas ações e reaplicar os dividendos recebidos poderá ter bons m otivos para com em orar daqui a algum as décadas.
Com o o leitor j á deve ter percebido, é perfeitam ente possível se aposentar com os rendim entos recebidos na form a de dividendos. Mas o m elhor cam inho para alcançar este obj etivo é ter paciência e um a carteira bem diversificada de ativos lucrativos e pagadores de dividendos.
O pagamento de dividendos reduz o preço da ação?
Algum as pessoas acreditam que o pagam ento de dividendos não é um a vantagem para o investidor em ações em razão do seguinte fato: o valor pago a título de dividendos é descontado do preço da ação. Por isso, a vantagem decorrente do pagam ento dos dividendos seria anulada pelo desconto na cotação. A prem issa de que o valor dos dividendos é descontado do preço é correta, m as será que a conclusão de que não valeria a pena receber os proventos tam bém é?
Antes de responder à pergunta, é im portante com preender a razão de os dividendos serem descontados no preço da ação. Para explicar esse ponto, vou aproveitar um a m etáfora bastante rural: im agine que você é um pecuarista e tem um a vaca que custa R$ 20.000,00. Alguns m eses depois, seus em pregados avisam que a vaca está prenha de um bezerrinho. Você concorda que, agora, o preço da vaca subiu um pouco? Afinal, o preço dela é com posto pelo seu preço intrínseco (o preção da vaca), adicionado ao preço do bezerro. Se o bezerro custar R$ 3.000,00, isso significa que o preço do conj unto, agora, é R$ 23.000,00. No dia em que a vaca o parir, o bezerro será retirado dela e, com isso, o preço da vaca cai de R$ 23.000,00 para os R$ 20.000,00 originais.
O m esm o ocorre com os dividendos. Digam os que você tenha ações de um a em presa a um preço de R$ 30,00 por ação. A em presa anuncia o pagam ento de gordos dividendos no valor de R$ 3,00 por ação. No dia "com ", que é o últim o dia em que alguém deve ter ações da em presa para receber os dividendos. O dia seguinte é a data "ex" dividendos, a partir da qual alguém que investiu na em presa não tem m ais direito a dividendos. Essa data equivale ao dia do nascim ento do bezerrinho; com o os dividendos não serão pagos para ninguém m ais além dos que tinham ações da com panhia no dia anterior, os dividendos são descontados do preço da ação. Com o a ação estava cotada a R$ 30,00 e os dividendos correspondiam a R$ 3,00, a ação agora passou a ser negociada a R$ 27,00.
Obviam ente, esse é um m odelo sim plificado. Pode ocorrer de a vaca ser de um raça que, subitam ente, com eçou a ser m uito valorizada pelos fazendeiros da região, o que a levou a ser cobiçada. Com isso, a dem anda por vacas daquela raça aum enta e, por essa razão, o seu preço, na gestação do bezerrinho, sobe para R$ 30.000,00. Se o bezerro passar a custar R$ 4.000,00, isso significa que, após o parto, a vaca valerá R$ 26.000,00 (os R$ 30.000,00 m enos os R$ 4.000,00 que o bezerro vale).
Por que trabalhei com essa hipótese da valorização? Pelo sim ples fato de que isso tam bém ocorre no m ercado de ações, o que atenua bastante o efeito do desconto dos dividendos no preço da ação. Voltem os ao exem plo anterior. Os preços das ações não são estáveis, com o suposto naquele exem plo: no dia em que a em presa anuncia os dividendos, é possível que o m ercado goste da notícia e o preço das ações sobe um pouco, de R$ 30,00 até R$ 32,00 na data "com ". No dia seguinte, a data "ex" dividendos, é feito o aj uste e a cotação cai de R$ 32,00 para R$ 29,00, abatendo-se os R$ 3,00 a título de dividendos.
Note que, nesse exem plo, o investidor ganhou R$ 3,00 em dividendos e perdeu R$ 1,00 na cotação da ação. Ou sej a, ao contrário do que algum as pessoas supõem , o pagam ento dos dividendos não em patou com a desvalorização da ação, m as garantiu lucros reais para o proprietário das ações.
A rigor, o desconto dos dividendos na cotação das ações de um a determ inada em presa só afeta o bolso dos traders, que negociam ações no curtíssim o prazo. E, m esm o assim , esse efeito só é percebido nas ações de em presas m enos líquidas. No caso de em presas m ais líquidas, que são m ais negociadas, esse efeito é m enos perceptível. Se a Vale pagar R$ 0,30 em dividendos e o preço de sua ação cair de R$ 42,00 para R$ 41,70, é bem possível que, se o m ercado estiver otim ista, no m inuto seguinte os preço j á voltem para a faixa dos R$ 42,00. A rigor o preço de um a ação depende das forças de m ercado: se houver o desconto dos dividendos, m as o m ercado continuar a negociar as ações da Vale a R$ 42,00, praticam ente ninguém perceberá que houve o valor dos dividendos foi descontado.
Para pegar um exem plo real: no dia 11/08/2011, foi o dia "com " de dividendos pagos pela VALE5. Naquela data, o preço da ação estava em R$ 40,15. No dia seguinte (o dia "ex"), a ação estava cotada a R$ 39,16, ou sej a, R$ 0,99 abaixo da cotação do dia anterior. A queda foi ainda superior ao valor pago a título de dividendos, de R$ 0,9334 por ação. Para o investidor de curto prazo, portanto, o desconto significou um prej uízo de 2,5%. Mas quem teve paciência para esperar um pouquinho viu o preço chegar a R$ 40,99 no dia 01/09/2011, m ais do que o suficiente para "com pensar" o desconto.