Manual do Pequeno Investidor em Ações

Fábio Portela Lopes de Almeida · Capítulo 5 de 9

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Manual do Pequeno Investidor em Ações

3. Começando a investir em ações

1. O primeiro passo: a escolha da corretora

Antes de com eçar a investir em ações, é preciso abrir um a conta em um a corretora de valores. Mas com o escolher? São m uitas as opções no m ercado, e esta é um a das prim eiras dificuldades que o pequeno investidor enfrenta ao tom ar a decisão de investir. Sem ter m aiores inform ações, boa parte dos investidores nem sabem que é necessário abrir um a conta em um a corretora de valores m obiliários para ter acesso às m elhores oportunidades de investim entos. Mas com o escolher a sua corretora?

Provavelm ente, você j á é cliente de um grande banco com o Banco do Brasil, Caixa Econôm ica, Bradesco, Itaú Unibanco ou Santander. Nada m ais natural do que o im pulso de querer com eçar a investir diretam ente pelas corretoras vinculadas ao seu banco. Afinal, é m enos papelada pra preencher, m enos burocracia, m ais facilidade pra investir sem ter que transferir o dinheiro da conta para a corretora…

O problem a é que essas facilidades vêm com vários custos. Boa parte das corretoras associadas aos bancos cobram taxas de custódia e de corretagem altíssim as – no m ínim o, com paráveis às m aiores taxas cobradas pelas dem ais corretoras.

Os serviços proporcionados pelas corretoras atreladas a bancos são, m uitas vezes, bem piores do que o de algum as das corretoras independentes: os home brokers (sistem as de negociação de ativos a partir de seu com putador) não têm tantos recursos sofisticados, e m uitas vezes são bastante instáveis. Não é raro, além disso, que essas corretoras deixem de oferecer aos clientes a possibilidade de investir em determ inados ativos ou de realizar determ inadas operações. Por exem plo, em algum as corretoras atreladas a bancos não é possível negociar opções ou alugar as ações.

Escolher um a corretora depende de um a verificação de vários fatores. É prefiro analisar se o perfil da corretora com bina com seu perfil de investim ento, a segurança da corretora, a facilidade de uso de seu home broker, entre outros fatores. Destaco os seguintes:

I. A segurança da corretora

Ninguém gostaria de transferir o dinheiro da sua conta do banco para a sua conta na corretora e, não m ais do que de repente, perder tudo. Mas isso pode acontecer com a parcela de seu dinheiro que estiver na conta corrente da corretora, se ela vier a falir. Por isso, é im portante escolher um a corretora sólida, que não invista em seus fundos de m aneira excessivam ente alavancada - ou sej a, com crédito excessivam ente alto em relação a seus ativos.

Quanto à parcela investida em ações ou em títulos do tesouro direto (ou outros ativos), não se preocupe: em bora a operação de com pra do ativo tenha sido interm ediada pela corretora, na verdade ele é custodiado por outras instituições. A corretora é apenas o agente interm ediador da negociação.

II. Os recursos do home broker

A m aior parte dos contatos que você terá com sua corretora será por m eio de s e u home broker, que é o acesso eletrônico ao sistem a de negociações que perm ite a com pra e venda de ativos, por m eio da Internet. Portanto, antes de escolher um a corretora, verifique se o home broker dela é estável, rápido e confiável. Você pode obter essa inform ação consultando fóruns de investim ento: há vários deles espalhados na Internet.

Já pensou ter um prej uízo porque você queria vender rapidam ente um a ação e não conseguiu porque o sistem a não funcionou? Ou verificar que um a ação está cotada a um valor que você considera baixo e não conseguir com prá-la porque o sistem a sim plesm ente não foi capaz de receber sua ordem ?

Além disso, é im portante verificar os recursos que a corretora disponibiliza por m eio de seu home broker. Algum as corretoras disponibilizam análises de ativos, relatórios de investim ento, vídeo-aulas sobre investim entos, inform ação atualizada com o preço de várias ações, dados fundam entalistas das ações, entre vários outros serviços. É im portante conhecer o seu perfil de investidor para saber que tipo de serviços seria m ais necessário para que você tom asse suas decisões de investim ento.

Um a advertência: as corretoras ganham dinheiro com a corretagem paga por seus clientes. E isso gera um conflito de interesses entre o cliente e a corretora, que ganha m ais dinheiro com os clientes que negociam m ais ações diariam ente. Por essa razão, elas norm alm ente privilegiam clientes que operam em day trade, ou sej a, negociam ações diariam ente, vendendo e com prando ativos conform e parâm etros de análise técnica, e por isso oferecem ferram entas com patíveis com análise técnica e gráfica. Além disso, boa parte dos cursos oferecidos pelas corretoras tam bém seguem essa abordagem . Portanto, se você adota um a abordagem fundam entalista com o a que é favorecida nesse livro, e que recom enda m uito m enos negociações no m ercado, tom e bastante cuidado!

III. Custos de custódia e corretagem

Outro fator im portante a ser considerado diz respeito aos custos com custódia e corretagem . A taxa de custódia é um a taxa m ensal criada pelas corretoras para m anter o cadastro dos clientes, bem com o para registrar suas operações em seus sistem as de home broker, além de cobrir custos operacionais da corretora. É im portante notar que a taxa de custódia não é de cobrança obrigatória. Algum as corretoras associam sua cobrança à quantidade de operações realizadas no m ês (norm alm ente, quanto m ais operações, m enos taxa), e outras cobram um a taxa fixa. Portanto, é im portante pesquisar!

A taxa de corretagem , por sua vez, é cobrada pela corretora para que a ordem de com pra ou venda sej a executada. Essa taxa tam bém varia de corretora para corretora. Algum as corretoras cobram um a taxa de corretagem fixa por operação, e outras cobram um a taxa de corretagem variável, proporcional ao valor da operação. Algum as corretoras tam bém cobram a cham ada “tabela Bovespa”, que é ideal para quem investe valores pequenos, m as m uito onerosa para quem opera valores m ais altos.

Para escolher um a corretora segundo o critério de custo, o ideal é definir, antes, o seu perfil de investim ento. Se você pretende investir valores m ais altos, o ideal é optar por corretoras que cobrem valores fixos por ordem , e não um percentual do valor da operação; e se você pretende investir valores m ais baixos, talvez sej a interessante optar por um a corretora que utilize a tabela Bovespa.

É im portante não escolher sua corretora apenas com base no custo. Às vezes, vale à pena pagar um preço um pouco m aior de corretagem ou de taxa de custódia, e receber um bom atendim ento e um home broker estável e rápido. Obviam ente, esse custo tam bém não pode ser tão alto a ponto de com prom eter seus ganhos.

IV. Atendimento

Por fim , um fator im portante a ser considerado é a qualidade do atendim ento recebido. Tirar dúvidas sobre operações com um a equipe qualificada e interessada em resolver seus problem as é essencial. Às vezes, é j ustam ente a diferença entre um a boa operação e um a operação com prej uízo. Mas tom e cuidado: deixe bem claros seus obj etivos antes de confiar no atendim ento. Não confie cegam ente nas sugestões da corretora, porque o único responsável por suas operações é você m esm o!

2. Como lidar com as recomendações dos analistas

É im portante observar com cuidado as recom endações dos analistas de m ercado. A m aioria deles trabalha em corretoras de valores e, por isso, não têm um olhar desinteressado sobre as ações que recom endam com pra, venda ou m anutenção.

Na verdade, se você observar bem , a m aioria das recom endações oriundas dos analistas é a de com pra. Por que isso acontece? Pelo sim ples fato de que, com o a m aioria dos analistas trabalham para um a corretora, que ganha dinheiro com a taxa de corretagem cobrada em cada operação realizada pelo investidor, é m elhor para ela que seus analistas adotem sem pre um a abordagem razoavelm ente otim ista, que recom ende a com pra da m aioria dos ativos analisados.

É rara a situação em que os analistas recom endam , em sua m aioria, a venda de determ inados ativos. Norm alm ente, quando isso ocorre, j á se configurou um a situação de desespero tam anha nos m ercados que a recom endação j á perdeu o sentido. Muitas vezes, quando o analista recom enda a venda do ativo, o preço da ação j á caiu tanto que dificilm ente cairá m uito m ais. Lem bro do que aconteceu em 2008, quando os preços da ação da Gerdau (GGBR4) caíram abaixo de R$ 12,00, e nessas alturas vários analistas recom endavam a venda da ação. Mas o preço não caiu m uito além desse patam ar; pelo contrário, alguns m eses depois, quando os m ercados com eçaram a se recuperar, os preços voltaram ao patam ar de R$ 23,00, assegurando um ganho de quase 100% para aqueles que não confiaram nas recom endações. No m om ento em que escrevo, as ações voltaram a cair bastante - não sem antes ter sido alvo de recom endações de analistas no m om ento de alta.

Existem tam bém as recom endações de m anutenção do ativo - que, em tese, indicariam que o investidor deveria m anter suas ações em sua carteira, j á que não se espera um retorno diferente da rentabilidade esperada do m ercado.

Vej a bem : m inha desconfiança com as recom endações dos analistas não significa que as considere inúteis. Muitas vezes, é im portante ler os relatórios de m ercado para verificar se você não está deixando de analisar um ou outro aspecto que seria im portante. Além disso, é im portante lê-los porque, m uitas vezes, são m encionadas oportunidades de investim ento que ainda não haviam cham ado a sua atenção e que, eventualm ente, vale a pena estudar m ais profundam ente. Mas você não deve confiar excessivam ente nesses relatórios: eles devem ser considerados apenas m ais um a fonte de inform ação.

Dê especial atenção aos relatórios que analisam a em presa em sua inteireza, privilegiando os elem entos fundam entalistas e as perspectivas quanto a sua atividade operacional. Procure relatórios que citem fontes de inform ação confiáveis, e que tracem cenários realistas (nem m uito otim istas, nem pessim istas dem ais) quanto à atividade da em presa, e que m ostrem coerência com o histórico da com panhia. Seguindo essas diretrizes, os relatórios dos analistas podem ser bastante úteis na construção de um a carteira bem sucedida de ações.

3. Investir em fundos de investimento ou em ações individuais?

Um a dúvida com um entre os que estão dando os prim eiros passos no processo de investim ento em ações diz respeito a com o investir. Alguns pensam em investir em fundos de investim ento, m as suspeitam que as taxas cobradas são elevadas e talvez fosse m elhor investir diretam ente em ações. Outros, por sua vez, acreditam que é m elhor investir em um fundo de investim ento porque pensam não ter as qualidades necessárias para escolher, por si sós, as ações que farão parte de suas carteiras.

Quais são as vantagens dos fundos de investimento em ações?

Muitas pessoas sim plesm ente não se interessam pelo m ercado financeiro e não estão a fim de estudar os balanços trim estrais de nenhum a em presa. Odeiam o linguaj ar dos econom istas, não querem saber de livros sobre finanças pessoais (nem os voltados para investidores iniciantes) e acham que a m aioria dos livros que sugerem o enriquecim ento são livros de autoaj uda. Apesar disso, acreditam na econom ia do país e que investir em ações é um bom negócio e QUEREM investir nelas, m as não têm a disposição de aprender com o fazer isso. Um a saída para quem tem esse perfil é investir em fundos de ações.

As principais vantagens do investim ento em um fundo de ações passam j ustam ente pela desnecessidade de o investidor dispor de tem po para acom panhar seus investim entos. Investir em ações por m eio da aquisição direta das ações individualm ente é um bom negócio, e pode vir a ser m elhor negócio do que investir em um fundo que reproduz algum índice, com o o Ibovespa, o IBrX-100 ou um fundo de small caps, que invista em em presas m enores e com m aior potencial de crescim ento.

Todavia, o tem po dem andado em estudo é bastante superior do que o necessário para investir em um fundo de ações. Além disso, o investim ento por m eio de um fundo de ações tam bém tem as seguintes vantagens:

Economia de tempo de estudo: o investidor aplica em um fundo adm inistrado por um a instituição financeira, não necessitando estudar ele próprio os fundam entos das ações em que investe.

Diversificação: ao adquirir um a quota de um fundo, o investidor com pra ações de várias em presas diferentes, que com põem o fundo. Assim , principalm ente o pequeno investidor, que não tem condição de com prar diretam ente ações de em presas diferentes, pode diversificar seu portfólio.

Atualização da composição do fundo: a m aioria dos fundos de ações atualiza seu portfólio de acordo com a relevância das em presas adquiridas e com a com posição de índices de ações. Por exem plo, se o Ibovespa tem sua com posição m odificada, um fundo de ações indexado pelo Ibovespa altera sua com posição, para refletir as m odificações do m ercado.

Facilidade de recolhimento de tributos: outra vantagem de investir em fundos de ações diz respeito ao recolhim ento de tributos. Com o a instituição adm inistradora do fundo é obrigada a recolher os im postos sobre os ganhos obtidos, o investidor não precisa se preocupar com a Receita Federal ao aplicar seus recursos em fundos de investim entos.

Quais são as desvantagens dos fundos de investimento em ações?

Mas tam bém há grandes desvantagens em investir diretam ente em fundos. Talvez a principal delas diga respeito às ações de em presas ruins que o investidor é obrigado a com prar quando adquire a quota de um fundo. Se o investidor com pra quotas de um fundo com posto por 40 ou 50 ações, é bastante provável que algum as das em presas adquiridas não sej am um bom investim ento no longo prazo.

Esse é o preço pago em razão de não se estudar diretam ente as ações de cada em presa a ser adquirida: ao não fazer o “dever de casa”, o investidor se suj eita à estratégia adotada pelo gestor, caso o fundo sej a ativo e busque com prar e vender ações de acordo com suas análises; ou se suj eita à com posição do índice, caso o fundo sej a passivo e repita a com posição de um índice de ações (com o o Ibovespa), que pode ser com posto por ações de em presas deficitárias, m as que faça parte do índice.

Outra desvantagem do investim ento em fundos de ações é de natureza tributária. Ao com prar diretam ente as ações de sua carteira, o pequeno investidor tem a vantagem de aproveitar o lim ite de R$ 20.000,00 de isenção nas com pras à vista. Se o investidor vende até R$ 20.000,00 em ações durante um determ inado m ês, não paga um único centavo de im posto. No fundo de ações, contudo, cada venda, independentem ente do valor negociado, paga-se 15% de Im posto de Renda (a regra vale tam bém para os ETFs).

Além disso, ao investir em fundos de ações o investidor paga um a taxa de adm inistração. Alguns fundos cobram um a taxa de perform ance tam bém sobre o desem penho do investim ento ao longo do ano, o que dim inui a rentabilidade dos investim entos. E o pior é que às vezes esses fundos ainda têm um a rentabilidade próxim a à de determ inados índices, não se revelando vantagem algum a para o investidor. Ao com prar ações diretam ente, o investidor não paga nada de taxa de adm inistração – até porque, obviam ente, ele é o próprio adm inistrador de sua própria carteira. No caso das ETFs, que verem os daqui a pouco, paga-se um a taxa de adm inistração baixíssim a com relação às taxas cobradas pelas instituições financeiras.

Mesm o que você escolha investir em ações por m eio de fundos de investim ento, contudo, note que é sem pre possível buscar taxas de adm inistração um pouco m ais baixas. Portanto, pesquise as taxas cobradas pelas instituições financeiras em cada fundo antes de investir. No longo prazo, esse trabalho extra vai ser recom pensador!

Você pode bater a rentabilidade de fundos de investimento

Parece um a briga inj usta. Você, o pequeno investidor, contra dezenas de funcionários que adm inistram um fundo de investim entos. Pessoas com MBA, treinam ento em gestão de investim entos, que sabem m uito m ais do que você ou eu. Mas sim , você é capaz de bater a rentabilidade de fundos de investim ento.

Segundo um estudo realizado nos EUA, publicado no livro The “Motley Fool Investm ent Guide“, 80% dos fundos de investim ento naquele país não conseguiram superar o índice S& P 500. Ou sej a, a cada 10 fundos, apenas 2 conseguiram superar a m édia do m ercado. Trazendo esse estudo para a realidade brasileira, isso significa que você faria m elhor que 80% dos fundos de investim ento se apenas investisse seu dinheiro num fundo de investim ento que reproduzisse o Ibovespa.

Os gestores dos fundos de investim ento e as equipes com que trabalham estão fazendo um péssim o trabalho, concorda? Afinal, eles recebem j ustam ente para poder dar um a rentabilidade m elhor para seus clientes do que o m ero investim ento em um fundo que apenas reproduzisse um índice com o o Ibovespa! E esses caras são extrem am ente bem rem unerados, ganham tubos de dinheiro pagos pelos seus clientes em polpudas taxas de adm inistração. Mundo inj usto... receber tão bem pra fazer um trabalho tão ruim !

Por que os fundos de investim ento têm um a perform ance tão m edíocre? E por que você, caro leitor, pode alm ej ar superá-los? Por um sim ples m otivo: você tem o tem po a seu favor e não tem que prestar satisfação a ninguém . Você pode investir no que der na sua telha. Se você acha que um a em presa que vale R$ 2.000.000,00 pode se tornar a próxim a Vale, você pode investir nela. Você pode definir o quanto quer investir em cada em presa do seu portfólio, e pode deixar a rentabilidade do investim ento te deixar cada vez m ais rico, sem ter que vender um percentual das ações.

Os fundos de investim entos não têm essa liberdade toda. Boa parte dos fundos não pode concentrar seus investim entos todos apenas nas em presas que considera espetaculares, porque estabelece regras que o autolim itam , por exem plo, estabelecendo um percentual m áxim o a ser investido em cada ação. No m áxim o, cada ação poderia corresponder a um percentual do patrim ônio do fundo. Isso significa dizer que, se o preço de um a ação disparar, o fundo vai ter que vender aquelas ações, pelo único m otivo de ter que seguir a regra do governo. Im agine um fundo que investiu em ações da Vale em 1999, e que houvesse um a regra segundo a qual o m áxim o do capital a ser com prom etido por em presa é de 5%. Ou sej a, se o preço da Vale disparar, é bem provável que o percentual investido na em presa aum ente. Se o preço dela duplicou e o das dem ais em presas perm aneceu estável, isso significa que o percentual da Vale na carteira do fundo fica próxim o a 10%. Nessa situação, o fundo vai ter que vender um a parte das ações, só pra seguir a regra que ele m esm o estabeleceu. E deixou de aproveitar boa parte do crescim ento do preço da Vale entre 2003 e 2010...

Mas existem outras razões para um fundo de investim entos render m enos. Às vezes, o fundo acaba tendo que com prar ações de em presas m enos prom issoras, só pra "diluir" o risco. Ao invés de se concentrar em em presas lucrativas, acaba com prando um as âncoras que só irão afundar a rentabilidade do fundo. Pior ainda, a depender do tam anho do fundo, ele pode ser obrigado a investir m aj oritariam ente em em presas grandes (as fam osas blue chips), cuj o potencial de crescim ento não é tão bom quanto o das small caps.

Im agine a situação de um fundo de investim entos que adm inistrasse R$ 500 bilhões. 5% desse patrim ônio equivaleria a R$ 25 bilhões, 25 vezes o valor de m ercado da Saraiva (SLED4), por exem plo. Um a em presa com o e não poderia ser com prada pelo fundo, segundo as regras obedecidas: e, além disso, com prar ações da Saraiva não faria o m enor sentido, j á que a rentabilidade obtida com ela, m esm o que o valor da ação dobrasse, seria ínfim o: R$ 1 bilhão se transform aria em R$ 2 bilhões, m as para um patrim ônio de R$ 500 bilhões, isso é pouco m enos de 0,4%. E o fundo teria que com prar TODAS as ações da em presa para obter um a rentabilidade pífia. Não faria sentido.

Além disso, m uitas vezes os fundos de ações acabam com prando as em presas da m oda só para não ter um a perform ance inferior à de seus fundos concorrentes. Im agine, todo m undo com prando ações da Petrobras e seu fundo não com pra. Vai que as ações da em presa disparam e o fundo perde o bonde! Então, para ficar com um a boa im agem , o fundo acaba com prando ações da Petrobras. Todavia, nem sem pre elas são as m elhores opções de investim ento para o longo prazo. Longo prazo que tam bém é um problem a para o adm inistrador de um fundo.

Im agine que você tem um fundo de ações e avaliou que as ações de um a em presa são um a excelente oportunidade porque o preço está baixo e a em presa é fantástica - rentável, os lucros crescem constantem ente a altas taxas, pouca dívida... um a chance de ouro. Mas o m ercado ainda não a percebeu. Você com pra as ações para o fundo e passam -se m eses e anos sem que as cotações disparem . Seu fundo com eça a perder em rentabilidade da concorrência e seus investidores, chateados com a situação, com eçam a vender suas quotas. Dois anos depois, o m ercado percebe a situação da em presa e a cotação dispara. Mas você não pode se beneficiar da situação porque seu fundo j á fechou as portas.

É por isso que eu ou você, sardinhas nesse oceano de tubarões, podem os nos sair bem m elhor que a m aioria dos fundos. Podem os com prar ações de um a pequena em presa e deixar seus preços subirem o quanto quiserm os esperar, sem ter que obedecer a qualquer regra im posta pelo governo. Só precisam os respeitar as regras que nós m esm os nos im puserm os. Podem os com prar ações de qualquer em presa, desde um a blue chip até a m enor das small caps (ou até das micro caps). E, principalm ente, podem os com prar ações de em presas fantásticas e esperar o quanto quiserm os até o m ercado acom panhar nosso raciocínio e elevar o preço da cotação.

4. Alternativas aos fundos de investimento

Existem tam bém outras alternativas de investim ento indireto em ações, além dos fundos: os ETFs e clubes de investim ento. Am bas as alternativas, contudo, apresentam basicam ente as m esm as virtudes e os m esm os problem as dos fundos de investim ento, em m aior ou m enor grau.

Mas é im portante, de qualquer m odo, que o investidor saiba as alternativas que tem a sua disposição - até porque não há nada que o obrigue a usar apenas um a m odalidade de investim ento. Vej am os, então, o que são os ETFs e clubes de investim ento.

ETF - uma maneira mais barata de aplicar dinheiro em fundos de investimento

Um a m aneira interessante (e m ais barata) de investir em fundos de ações são os cham ados ETFs (Exchange-Traded Funds), que são negociados na própria bolsa de valores.

Os principais fundos ETF negociados pela Bovespa hoj e são o PIBB11 (que reproduz o índice IBrX-50) e, m ais recentem ente, foram lançados os fundos BOVA11 (reproduz o Ibovespa), SMAL11 (reproduz índice de small caps) e MILA11 (reproduz índice de ações de m édia e grande capitalização).

Investir diretam ente em ETFs trazem a vantagem de ter um a taxa de adm inistração bastante baixa, m uito inferior à oferecida nos bancos. Por outro lado, as instituições financeiras podem oferecer fundos m ais diversificados, cuj as ações são escolhidas pelos analistas de investim ento cuj a função é selecionar as m elhores opções de investim ento para os clientes do banco. Na prática, contudo, a m aioria dos fundos de investim ento não consegue bater a rentabilidade do Ibovespa, o que torna o investim ento em ETFs um a im portante alternativa para quem não quer se preocupar em estudar as com panhias em que investe.

Clubes de investimento

Um clube de investim ento é um a associação com posta por pessoas físicas que tenham interesses em com um e com partilhem um a m esm a filosofia de investim ento. Investir nesses clubes é algo recom endado para investidores que tenham vontade de aprender m ais sobre o m ercado acionário, um a vez que um a parte substantiva dos recursos deve ser aplicada necessariam ente em ações e os associados decidem , em conj unto, quais ativos adquirir e as estratégias de investim ento do clube.

Investir por m eio dos clubes de investim ento é um a ferram enta im portante de educação financeira, pois, ao discutir com os dem ais associados a estratégia de investim ento e os ativos a serem adquiridos, cada m em bro tem um a oportunidade única de aprender com os outros com o analisar as em presas cuj as ações o clube irá adquirir. É im portante, portanto, que o clube sej a com posto por investidores razoavelm ente experientes, que tenham conhecim ento de com o funciona o m ercado financeiro, e que haj a um a perspectiva de longo prazo, para que os associados m ais inexperientes não se desanim em caso os resultados iniciais não sej am positivos. Os clubes de investim ento são m uito populares no exterior (principalm ente nos EUA), m as ainda estão se popularizando por aqui.

Segundo o regulam ento, um clube de investim ento precisa ter no m ínim o 3 e, no m áxim o, 150 associados - e cada m em bro não pode ter m ais do que 40% das quotas.

Para criar um clube de investim entos, é necessário procurar um a das instituições autorizadas (Corretora de Valores, distribuidora de títulos ou banco com carteira de investim ento) para atuar com o adm inistrador do clube. A instituição cuidará da m aior parte da papelada exigida pelo Bovespa para a criação e m anutenção do clube, além de m anter o registro de todas as operações de com pra e vendas de ativos e da tributação do clube.

A tributação, aliás, é variável: caso o clube tenha m ais de 67% do capital investido em ações, o im posto de renda incidirá com o o investim ento em ações: 15% do lucro no m om ento do resgate (art. 7º da Instrução Norm ativa nº 487/04 -SRF). Caso o clube tenha m enos de 67% do capital em ações, a tributação segue o regim e regressivo da renda fixa: quanto m aior o prazo de investim ento, m enor o im posto pago.

Os clubes de investim ento agregam as principais vantagens de investir em fundos de ações, com m enos desvantagens. Com o os clubes de investim ento têm m aior volum e de recursos do que um investidor individual poderia acum ular num espaço curto de tem po, é possível diversificar entre m ais investim entos do que seria possível para um a única pessoa. Mas a diversificação pode ser m ais inteligente do que num fundo de investim entos, porque os associados podem decidir efetivam ente onde investir, evitando que o fundo sej a com posto por ações de em presas deficitárias.

Mas tam bém há desvantagens nos clubes de investim ento. A principal delas é que, em bora haj a a recom endação de que os investidores se associem com pessoas que com partilhem interesses com uns, é m ais com um a divergência entre pessoas próxim as, que pode levar a com plicadas questões de relacionam ento. As discussões sobre o destino dos investim entos podem levar a discussões ásperas com am igos e fam iliares que poderiam , dependendo da intensidade, levar a rupturas indesej adas.

Por essa razão, há quem não recom ende form ar clubes de investim ento com pessoas m uito próxim as: é m elhor perder a oportunidade de investir j untos do que a am izade. Mas, se você quiser form ar o clube com pessoas próxim as, é m elhor todos deixarem m uito clara a estratégia a ser utilizada de antem ão, antes de constituir o clube: com a m etodologia de investim ento j á determ inada, as discussões serão m uito m enores do que se ela perm anecer em aberto.

Fundos de capital protegido

Fundos de capital protegido são outra alternativa aos fundos de investim ento em ações. À prim eira vista, eles são m uito atraentes, pois oferecem a possibilidade de investir em ações sem o risco de perder dinheiro. Parece bom dem ais, não é? Ganhar um dinheirão quando a bolsa estiver na alta, e não perder nada quando crises com o a de 2008 assolarem o m ercado acionário. Parece bom dem ais pra ser verdade?

Pois acredite: pode ser m esm o bom dem ais para ser verdade. Não duvide j am ais dessa verdade: um a instituição financeira não oferece um produto se houver um a expectativa de que ele tenha prej uízo. Se ele investe seu dinheiro no m ercado de ações e garante pro cliente o capital investido, deve adotar algum m ecanism o de proteção. Afinal, se o m ercado cai e ele garante a devolução, no m ínim o, do capital investido, a instituição que ofereceu o fundo terá prej uízo. Ou não?

Para garantir o retorno do capital ao investidor, um a m aneira de o banco proteger o capital é investir grande parte do m ontante aplicado em renda fixa. Por exem plo, se ele investir 90% do capital em renda fixa e o investim ento render 11,1% por ano, em um ano ele teria 100% do capital investido. Com os 10% restantes, o banco poderia investir em ativos de m ais riscos, a fim de garantir a rentabilidade prom etida. É por essa razão que os fundos de capital protegido têm prazo: um a vez que o investidor investiu neles, som ente pode resgatar o investim ento na data definida pelo gestor. Com isso, garante-se que os 90% recuperaram o valor investido inicialm ente.

Até aí, tudo tranquilo para o investidor: nada do que se disse até aqui é novidade, pois ele próprio poderia utilizar um m ecanism o parecido com esse, por m eio da diversificação de seus investim entos. Você pode investir 90% de seu patrim ônio em tesouro direto, com j uros garantidos pelo governo federal, e alocar os outros 10% em ações. Em aproxim adam ente um ano, teria garantido os 100% iniciais.

Mas -- e aí é que m ora o perigo -- existem outros riscos para o investidor. E o principal deles está j ustam ente nos m ecanism os que o gestor do fundo utiliza a favor dele para lucrar com seu dinheiro. Boa parte dos fundos de capital protegido usam um a fórm ula com o a seguinte: se o Ibovespa alcançar um a rentabilidade entre -20% e 40% no ano, o banco garantirá ao investidor a rentabilidade gerada pelo m ódulo do resultado do Ibovespa. Se você não se lem bra das aulinhas de m atem ática, m ódulo é o valor absoluto de um a grandeza: o m ódulo de -20 é 20, e o m ódulo de +20 tam bém é 20. Assim , se o Ibovespa tiver um resultado de -15%, ainda assim o investidor teria um a boa rentabilidade, de 15%.

Fantástico, não é? A bolsa cai 15%, e você lucra 15%. Mas... o que acontece se a bolsa cair m ais de 20% ou subir m ais de 40%? Dependendo do regulam ento - e essa é um a cláusula m uito com um -, o investidor não ganha absolutam ente nada (a não ser seu capital protegido), ou ganha apenas um a taxa pré-fixada. Ou sej a, a bolsa subiu 80% e você ganhou... uns 7% de rentabilidade (é, essa taxa pré-fixada norm alm ente é bastante baixa).

É em razão dessa cláusula que grande parte dos fundos de capital protegido é oferecida j ustam ente nos m om entos de pânico do m ercado, quando os investidores estão preocupados com a segurança de seu investim ento e a probabilidade de altas absurdas no m ercado ao longo dos próxim os m eses se torna extrem am ente alta. Com o os investidores estão particularm ente preocupados com os riscos do m ercado de ações nesses m om entos, se tornam bastante suscetíveis a propostas de investim ento desse tipo. Só que, com o o m ercado teve um a forte baixa, as chances de um a alta superior ao teto definido pelo banco são extrem am ente altas. Ou sej a, o banco dá de retorno o m ódulo de qualquer rentabilidade entre -20% e +40% do Ibovespa, m as as expectativas, no m om ento em que o m ercado está em baixa, podem ser de altas m uito superiores a essa.

Ao final de 2008, no auge da crise do setor im obiliário norte-am ericano, m uitos bancos passaram a oferecer fundos de capital protegido. Nessa época, o Ibovespa estava com aproxim adam ente 30.000 pontos e o m ercado estava absolutam ente desesperado. Mas esse foi j ustam ente o m elhor m om ento para investir em ações - j ustam ente a época em que os bancos, oferecendo a "tranquilidade" aos investidores, abriram vários desses fundos de capital protegido. Em 2009, o Ibovespa alcançou um a alta de pouco m ais de 80%, m uito superior a 40%. Mas quem investiu num fundo de capital protegido que adotasse regras com o as descritas não viu nada do lucro do Ibovespa: ganhou, se m uito, a "taxa pré-fixada" paga pelo banco. Um péssim o prêm io de consolação em um ano fantástico para investir em ações, com o 2009.

Quem ficou com a diferença? Com toda a alta de 2009 do m ercado de ações? O banco: ele pagou pra os investidores desses fundos em torno de 10%, garantindo o capital, e com o investiu 10% do seu patrim ônio em ações, ganhou uns 18% em cim a do seu dinheirinho (80% de alta em cim a dos 10%). Isso sem contar as taxas de adm inistração cobradas pelo fundo...

Portanto, m uito cuidado ao analisar as regras dos fundos de capital investido. É im portantíssim o que elas sej am m uito bem com preendidas e confrontadas com o cenário m ais provável do m ercado de ações. Se o banco oferece um produto com o esses em um período de baixa nas ações, não tenha dúvida: ele quer ganhar m ais dinheiro com o SEU dinheiro.

5. Q ue rentabilidade esperar?

Muitas pessoas acreditam que é possível ficar rico da noite para o dia na bolsa de valores, com prando ações de em presas cuj os preços saltarão de poucos centavos para dezenas de reais. É até possível que isso aconteça, m as não se iluda: esse tipo de acontecim ento se deve apenas à sorte. E, m uitas vezes, m esm o com prando ações em que isso aconteça, é m uito difícil que um investidor se torne rico da noite para o dia. Mais provável é que o investidor que aposte suas econom ias em ações altam ente especulativas, com o intuito de enriquecer rapidam ente, acabe tendo um forte prej uízo.

Em 2011, ocorreu um trágico exem plo dessa situação, com as ações da Mundial (MNDL3 e MNDL4). No dia prim eiro de abril (e isso não é m entira!), cada ação preferencial da Mundial (MNDL4) era negociada a um preço próxim o a R$ 1,90. Desde então, não parou de subir, tendo encerrado o m ês de abril a R$ 3,19 (alta de 67,89%). Após o desdobram ento das ações, a um a proporção de 6 para 1, as ações encerraram m aio a R$ 0,73, que equivaleria, na cotação antiga, a R$ 4,38 (alta de 37,30% no m ês). Em j unho, a farra continuou, com o preço das ações chegando a R$ 1,90, ou R$ 11,40 com base na cotação anterior (alta de 160,27% no m ês).

E, em j ulho, os preços subiram ainda m ais: a cotação chegou a R$ 5,11 – equivalente a R$ 30,66 antes do desdobram ento (alta de 168,94%).

Mas, a partir de m etade de j ulho, a cotação com eçou a despencar. Em apenas dois dias (20 e 21 de j ulho), a cotação despencou de R$ 5,11 para R$ 1,90 (equivalente a R$ 11,40 nos preços anteriores ao desdobram ento) – um a queda total acum ulada de 62,81%. E continuou a cair até os patam ares anteriores a esse m ovim ento especulativo - hoj e, enquanto escrevo, as ações MNDL4 estão sendo negociadas por R$ 0,28.

O que aconteceu? Não há explicação racional para explicar o m ovim ento: os preços com eçaram a subir porque com eçaram a subir. Os únicos fatores que poderiam explicar racionalm ente um a subida no preço das ações foram o anúncio da em presa de que pretendia cum prir as regras para alcançar o nível 1 de governança corporativa da Bovespa e o anúncio de que um investidor estrangeiro teria interesse em aplicar até US$ 50 m ilhões na em presa. Nada – NADA – disso explica o que aconteceu na em presa.

O que explica, então? A irracionalidade do m ercado: o efeito m anada, o fato de que em determ inadas circunstâncias algum as pessoas seguem o que as outras fazem . Alguns investidores inexperientes viram o preço das ações subindo e, por ganância, com eçaram a acreditar que, por entrar no nível 1 de governança corporativa da Bovespa, a Mundial seria a m elhor em presa do m undo e os preços com eçaram a subir. Os preços com eçaram a subir repentinam ente e outros especuladores, vendo ali um a oportunidade de ganhar dinheiro fácil, aceitaram pagar qualquer preço pelas ações. Com m ais gente com prando, os preços subiram , subiram , até a m arca absurda de 1.500% (MNDL4) em m enos de três m eses. Só a ganância explica o que aconteceu. Tam bém houve m anipulação do m ercado por grandes investidores, m as ela só deu certo por causa da ganância de investidores m enores, que toparam continuar com prando ações da em presa a qualquer custo.

E esse m ovim ento abrupto gerou m uito prej uízo. Muitas pessoas acreditaram piam ente que o poderiam lucrar com o m ovim ento da ação, sem se dar conta da irracionalidade do m ercado. Em determ inado m om ento, quando cada ação estava cotada a R$ 5,11, a em presa chegou a ser negociada por um índice P/L de 127,75. Ou sej a, cada ação chegou a ser negociada pelo equivalente a 127 vezes o lucro anual da em presa. E a quase 16 vezes o valor de todo o patrim ônio da com panhia. Mas as pessoas continuaram entrando no negócio, acreditando piam ente que o céu era o lim ite - m as o tom bo veio rápido e m uitos perderam dinheiro. Alguém poderia perguntar: perdeu dinheiro com o? Afinal, quem tinha as ações da Mundial em abril, teve um ganho fantástico de 500% ao final de j ulho, m esm o com essa queda toda! Não está bom ?”. De fato, se alguém tivesse as ações preferenciais da Mundial no início de abril e as m antivesse até o fim de j ulho, teria tido esse ganho, m esm o após a vertiginosa queda de m ais de 60% naqueles dois dias. Mas m uito pouca gente fez isso: ninguém investiu na em presa porque acreditava no negócio, m as porque acreditava que ela seria o seu passaporte para a riqueza fácil. Muitos especuladores podem ter ganho um dinheirinho com ela; os m ais responsáveis não investiram todo o dinheiro que tinham e ganharam seus 20% ou 30% em cada operação - m as com o entraram com pouco dinheiro, não conseguiram m uito resultado para aum entar seu patrim ônio.

Afinal, de nada adianta ganhar 30% em 3 ou 4 dias, se foram investidos R$ 1.000 ou R$ 2.000. R$ 300 ou R$ 400 não vão fazer ninguém ficar m ilionário. Mesm o que alguém tenha investido R$ 10.000, R$ 3.000 ganhos na operação tam bém não farão ninguém m ilionário. E se alguém investiu m ais do que isso depois que a cotação com eçou a disparar, era sim plesm ente insano. Acredito que m uito pouca gente fez isso, e a m aioria saiu com m uito pouco lucro - ou m uito prej uízo.

Muitos investidores com eçaram a investir nas últim as sem anas do m ovim ento de crescim ento do preço da ação - j ustam ente o pior m om ento para aplicar os recursos. Nesse período, era com um ver em fóruns da internet histórias com o a de um investidor que contava que, depois de ganhar R$ 25.000 com as ações da Mundial em poucos dias, resolveu pegar em préstim o e perdeu m ais de R$ 50.000,00 nos pregões dos últim os dias, depois de ter pego em préstim o bancário para “aproveitar a onda”. Havia tam bém especuladores que venderam ações de boas em presas para “fazer caixa” e especular com as ações da Mundial, nos últim os dias antes do tom bo. Todos esses perderam m uito dinheiro, e a m aioria j am ais voltará a investir em ações, por achar que o m ercado não é um local seguro para pequenos investidores.

Mas a verdade é que investir na bolsa não é difícil. Se você pegar os balanços de duas em presas, um a excelente e um a péssim a, em questão de segundos saberá dizer qual delas é a m elhor. Basta pegar o crescim ento do lucro ao longo dos anos, com o a dívida tem sido equacionada, se a em presa gasta m uito com pessoal e com a sua adm inistração, se ela tem um a boa m argem de lucro. O resto é calcular indicadores fundam entalistas, o que pode ser feito com lápis e papel ou com um a planilha do Excel, com o verem os m ais adiante. Não é difícil: com um pouco de esforço, qualquer pessoa pode com preender o essencial para separar o j oio do trigo.

Mas é im portante saber que nível de rentabilidade se deve esperar do m ercado de ações, para não cair em m ovim entos especulativos que, na m aioria das vezes, apenas leva o investidor ao prej uízo.

E o que um investidor poderia esperar? O rendim ento m édio das ações, nos Estados Unidos, no período entre 1871 e 2011, foi de 8,8% ao ano. Não parece m uito, não é? Mas esse rendim ento "baixo" teria transform ado US$ 1.000 de 1871 em US$ 148.845.499,33 no final de 2011.

Nada m al... m as o que esses núm eros indicam ? Em prim eiro lugar, entenda o seguinte: não espere ganhar 30%, 40%, 50% anualm ente no m ercado de ações. Eventualm ente, em um ano m ais otim ista, é bem possível obter um a rentabilidade com o essa; m as tentar alcançar essa m eta com o obj etivo constantem ente é m uito m ais com plicado, arriscado e frustrante. Afinal, alguém que tenha com o m eta ganhar 30% ao ano pode ficar bem decepcionado se alcançar a m arca de 20%, que é um a excelente rentabilidade.

Além disso, lem bre-se de que tentar obter um a rentabilidade absurda no curto prazo dem anda que o investidor corra m aiores riscos, levando-o a arriscar m ais do que efetivam ente pode perder. E é por essa razão que m uita gente perde dinheiro na bolsa de valores: perseguem rentabilidades absurdas, arriscam suas econom ias com investim entos duvidosos e na m aioria das vezes incorrem em prej uízos com os quais não podem arcar.

Portanto, não espere rentabilidades absurdas na bolsa. Em estudo realizado em 2008 pela corretora TOV sobre a rentabilidade histórica do Ibovespa, chegou-se à conclusão de que, em 40 anos, o índice da bolsa de valores brasileiro apresentou rentabilidade m édia de 31,75%. Mas não se em polgue m uito: nessa base de dados estão períodos econôm icos bastante conturbados, em que a rentabilidade dos investim entos era m uito diferente da apresentada nos dias atuais. A própria renda fixa, até bem pouco tem po, rendia m ais do que 15% ao ano com razoável constância. Acredito que, com a estabilização na econom ia, a tendência é a de os resultados das várias classes de investim ento se aproxim arem m ais da m édia dos países desenvolvidos.

Outro ponto a ser observado é que as m édias às quais m e referi dizem respeito aos resultados obtidos em índices de ações que, com o j á vim os, incorporam ações de em presas boas e ruins, sendo perfeitam ente possível que um investidor individual obtenha resultados bastante superiores à dos índices.

6. Como saber se você está obtendo um bom resultado?

Com o você pode saber se sua estratégia de investim ento em ações é boa? Afinal, para saber se você é ou não um bom investidor, é necessário ter um parâm etro de com paração, que no m undo dos investim entos é cham ado de benchmark.

O prim eiro passo para definir o seu benchmark é: esqueça parâm etros absolutam ente obj etivos. Você pode ter prej uízo em determ inado ano e, ainda assim , ter sido m uito bem sucedido em seus investim entos em ações. Em um ano que o Ibovespa caiu m uito, se sua carteira caiu pouco você pode se considerar um bom investidor. Por isso, não defina um determ inado patam ar obj etivo com o o obj etivo de sua carteira; alguém que tenha com o obj etivo conseguir um a rentabilidade anual de 20% ao ano pode ficar m uito frustrado se em determ inado ano sua carteira não conseguir superar aquele obj etivo. E a frustração é o prim eiro passo para fazer besteira...

Por outro lado, alguém que estabeleça o Ibovespa (ou outro índice de ações) com o parâm etro poderá ter bons m otivos para com em orar caso sua perform ance sej a superior à do seu benchmark. Ter um a rentabilidade de 10% quando o Ibovespa caiu 12% é um bom m otivo de com em oração, m esm o que a rentabilidade obtida não sej a espetacular.

Outra característica que o investidor deve buscar ao estabelecer seu benchmark diz respeito às características do parâm etro. É preciso buscar um parâm etro com patível com o m ercado de ações - de preferência, um índice de ações com o o Ibovespa. Com parar ações com índices que m edem o resultado de outras categorias de investim ento (com o o CDI ou os índices IMA, que m edem a rentabilidade dos títulos públicos) pode tam bém ser m otivo de frustração, pelo sim ples fato de que o lastro desses índices tem características totalm ente diferentes do m ercado de ações.

De m inha parte, prefiro utilizar o Ibovespa com o parâm etro. É o índice m ais utilizado para m edir a rentabilidade do m ercado de ações no país e, por isso, é um a boa m edida de com paração para o desem penho de um a carteira de ações.

Você pode estar se perguntando: com o eu poderia ficar satisfeito de apenas superar a rentabilidade do índice, se o índice apresentar resultados negativos por alguns anos consecutivam ente? A preocupação é legítim a, m as um investidor que consiga obter, constantem ente, rentabilidade superior à do Ibovespa tem um a boa chance de atingir resultados bastante superiores ao índice quando o m ercado com eçar a se recuperar - e, com isso, aum enta m uito a probabilidade de alcançar um resultado m édio, no longo prazo, superior ao do próprio índice.

7. Ações podem proteger seu patrimônio contra a inflação

Um dos principais desafios enfrentados pelo pequeno investidor é a busca por vencer a inflação. Ela corrói, lentam ente m as de m aneira persistente, o poder de com pra de seu dinheiro. Cada real vale um pouco m enos a cada dia. Se você guarda dinheiro no colchão, repense sua estratégia, porque a cada dia, m ês e ano que passa, ele vale m enos.

Tam bém não se apegue à ideia de que a inflação, hoj e, está baixinha, baixinha. O governo costum a fixar suas m etas de inflação com base no IPCA, m as esse índice é habitualm ente inferior ao IGP-M, que tam bém é m uito utilizado para o reaj uste de preços de algum as coisas bem im portantes para o nosso dia-a-dia, com o o aluguel de um im óvel.

O que fazer, então, para fugir da inflação? Um a boa m edida é investir em ações. Existem alguns setores do m ercado cuj os produtos são sem pre reaj ustados para refletir a perda de valor decorrente da inflação, o que é um a "certa" garantia de que os lucros da em presa, desconsiderados outros fatores, tam bém serão autom aticam ente reaj ustados, ano a ano. É o que acontece, por exem plo, no setor de energia elétrica. Periodicam ente, essas em presas reaj ustam seus preços de acordo com parâm etros previam ente aj ustados.

Mesm o que ocorra (com o alguns analistas estão prevendo que vá acontecer nos próxim os m eses) um reaj uste m enor do que o esperado em um ou outro ano, no longo prazo os reaj ustes com pensarão a inflação porque, segundo a legislação adm inistrativa, em um contrato de concessão de serviço público (com o é o caso dessas em presas) é preciso assegurar o equilíbrio econôm ico-financeiro para a prestadora do serviço. Traduzindo o j uridiquês: os preços devem ser reaj ustados para garantir a lucratividade do negócio para a em presa! Se a inflação sobe, os preços tam bém subirão.

Outras em presas garantem esse "reaj uste" autom aticam ente, em razão de seu nicho de atuação. Por exem plo, um a em presa com o a Am bev, que tem produtos consum idos repetidam ente por seus fiéis clientes, pode reaj ustar, ano a ano, os preços de seus produtos. Vej a, por exem plo, o que diz o blog "Seu Bolso", do Estadão, em com entário sobre o balanço trim estral da em presa no segundo trim estre do ano de 2010:

A receita líquida da operação de cervej a no Brasil no segundo trim estre foi de R$ 3,097 bilhões, alta de 19,7% ante os R$ 2,587 bilhões registrados no m esm o período de 2009. A receita por hectolitro em cervej as avançou 5,3%, devido aos aum entos de preço em linha com a inflação. A m édia de participação de m ercado em cervej a no período apresentou um crescim ento de 2,2 pontos porcentuais na com paração com o segundo trim estre de 2009.

É im portante notar que nem toda com panhia é protegida contra a inflação. Outras em presas enfrentam um a com petição tão feroz que o reaj uste de preços em linha com a inflação afastaria seus clientes em potencial. É um dos m otivos pelos quais as com panhias aéreas são, em geral, um péssim o investim ento. A concorrência é tão alta que é preciso oferecer preços cada vez m ais baixos para os consum idores. Hoj e, é possível com prar um a passagem aérea por preços m enores do que os praticados em 2002!! É o que acontece, tam bém , com certos produtos de alta tecnologia, com o com putadores. A não ser que a em presa tenha um a vantagem com parativa enorm e com relação à concorrência, seus produtos devem ser vendidos por preços cada vez m enores. Lem bro de ter com prado um com putador m édio, em 2000, por R$ 2.000,00. Hoj e, é perfeitam ente possível com prar um com putador m édio (para os padrões de hoj e), por quase m etade desse preço.

Mas, em geral, as ações de em presas dos setores de energia e de consum o são bastante "protegidas" do dragão da inflação. É claro que não estou recom endando o investim ento em qualquer em presa de energia e de consum o. É preciso garim par o m ercado e verificar se a em presa é bem adm inistrada antes de investir nela.

8. Q uando começar a investir em ações?

É m uito com um que as pessoas adiem o m om ento de com eçar a investir em ações. Pensam que é m elhor adiar um pouco o m om ento de investir, por um a série de fatores - a crise torna o investim ento em ações m ais voláteis, e com eçar a investir em um m om ento ruim preocupa m uitas pessoas. Afinal, um a das piores sensações para quem está com eçando a econom izar é j ustam ente a de ver o produto de seu suor dim inuir rapidam ente em razão de um a decisão "ruim " em term os de investim ento.

Nada m ais errado para quem está com eçando. O m elhor m om ento para com eçar a investir em ações é... AGORA! Isso não quer dizer, evidentem ente, que você vai obter um a rentabilidade m aior se investir agora do que em algum outro m om ento. Não... m as, se você com eçar a investir em ações agora, E AOS POUCOS, esta terá se m ostrado um a excelente oportunidade para ter com eçado. Investindo aos poucos, você terá pouco a perder, e as perdas serão absorvidas ao longo do tem po, e transform adas em excelente lucro no futuro.

Quando com param os as ações com a renda fixa, tem os o seguinte quadro: a renda fixa (CDBs, Tesouro Direto, Poupança) oferece retornos m ais estáveis no curto e no m édio prazo. E quando estou falando em curto e m édio prazos, m e refiro a períodos de um a dez anos. Mas, no longuíssim o prazo, em períodos de 20 anos para cim a, o retorno das ações tende a ser m uito m ais estável - e isso ocorre em virtude dos efeitos da inflação. No Brasil, essa abordagem foi distorcida nas últim as décadas porque os j uros pagos na renda fixa eram (e ainda são) excessivos, m as essa tendência j á está com eçando a se inverter. Com isso, acontecerá duas coisas que favorecerão o investim ento em ações: (i) a relação entre o dividend yield e os j uros da renda fixa vai ficar cada vez m ais próxim a; e (ii) isso levará a um favorecim ento do preço das ações.

Entenda o raciocínio: digam os que você invista num a em presa que pague, constantem ente, 8% de dividendos ao ano. Se a renda fixa oferecer um retorno de 12% ao ano, parece m ais razoável investir em renda fixa, concorda?

Mas isso só é verdade em term os. Em prim eiro lugar, essa análise sim plória desconsidera o crescim ento dos dividendos pagos ao longo do tem po. Se um a em presa paga R$ 0,50 por ação em um ano em dividendos, e no ano seguinte seu lucro cresce, é provável que o valor pago a título de dividendos tam bém sej a elevado e, no ano seguinte, ela venha a pagar R$ 0,60 por ação. Na renda fixa, isso não ocorre.

Além disso, se os j uros da renda fixa dim inuírem , o preço das ações tende a subir. Isso ocorre porque o custo de oportunidade de investir em ações dim inui, tornando-se m ais razoável assum ir o risco adicional das ações, porque a alternativa (investir em renda fixa) passa a ser m enos atraente. Se rentabilidade da renda fixa dim inuir para, digam os, 5% ao ano, um a ação que pague 10% de dividendos terá espaço para que seu preço suba até que o dividend yield se torne equivalente à renda fixa (ou sej a, que a ação DOBRE seu preço).

9. Começando a investir em ações no pior momento possível

Um dos piores m edos que alguém poderia ter ao pensar investir em ações é o de com eçar a investir no pior m om ento possível, ou sej a, pouco antes de um a crise avassaladora derrubar o preço de praticam ente todas as ações do m ercado. Obviam ente, não estou aconselhando ninguém a fazer isso. É duro investir e, logo na sua prim eira experiência com as ações, ver seu patrim ônio ser dilapidado m ês após m ês, sem ana após sem ana, e ter estôm ago de aço para perm anecer com seu capital investido.

Mas, ainda assim , faz sentido investir em ações nesse cenário.

Obviam ente, não estou dizendo para você pegar todas as suas econom ias e aplicar em ações im ediatam ente. Ninguém - NINGUÉM - deveria fazer isso, principalm ente sem experiência e autocontrole em ocional, características que você só adquire após algum tem po no m ercado financeiro. Mas, se você poupar um pouco de sua renda m ensal todo m ês e utilizar o valor econom izado para com prar ações de boas em presas - em presas com vantagens com petitivas e com capacidade de sobreviver à m ais dura das crises -, você pode se beneficiar da crise para com prar cada vez m ais ações.

Na verdade, a m elhor coisa que poderia acontecer para um investidor iniciante é enfrentar um a crise m onum ental logo no início, por um a série de razões. Em prim eiro lugar, ele teria a oportunidade de forj ar seu caráter de investidor, que é um a das virtudes m ais im portantes que alguém deve desenvolver antes de investir em ações. Aprender a perder dinheiro e a não se desesperar com isso é, talvez, a característica m ais difícil que alguém poderia desenvolver. Quem com eça a investir em anos áureos, nos quais a bolsa só sobe m esm o que você invista em em presas péssim as, não desenvolve essa característica. Passa 4, 5 anos ganhando dinheiro e, na hora que a prim eira crise surge, j á fica desesperado, pensa em pular da ponte ou fica com incontinência urinária. Quem com eça a investir no início de um a crise, por sua vez, j á se acostum a desde logo com a possibilidade de perder dinheiro e, se tiver firm eza de caráter, ainda pode se beneficiar m uito do m om ento.

Pois eu digo, com convicção: a m elhor coisa que pode acontecer para um investidor de longo prazo é um a crise.

Duvida? Eu m esm o sou fruto dessa experiência. Depois de um a experiência ruim em 2006, voltei à bolsa em m aio de 2008 com a ideia fixa de que iria investir apenas em em presas com qualidade superior com base nos fundam entos delas, e não com base em com entários de analistas financeiros. Aprendi bastante entre 2006 e 2008 sobre com o avaliar em presas e a utilizar os dividendos a m eu favor, reinvestindo-os na aquisição de novas ações. E hoj e não posso m e queixar: por ter com prado, aos poucos, m uitas ações j ustam ente no m om ento em que o preço delas estava m uito baixo, a rentabilidade que tive desde que com ecei a investir foi bastante satisfatória, e bem superior ao que eu obteria investindo na renda fixa.

Para ilustrar o m eu ponto, vam os brincar com um exem plo fictício. Im agine a situação de dois investidores, João e Maria. João, suj eito bastante conservador, só investe em títulos do tesouro direto. Ele tem m edo da volatilidade do m ercado de ações e, por isso, só investe na renda fixa. Maria, por sua vez, é um a m ulher de coragem , não tem m edo de volatilidade e resolve investir apenas em ações. Mas ela não é boba. Ela entende um pouco de m atem ática e, por isso, resolve investir apenas um pouco do capital que tem a disposição a cada m ês em ações. Am bos os investidores têm a sua disposição R$ 1.000,00 por m ês e decidem aplicar seu dinheiro. João obtém com os títulos do tesouro direto um a rentabilidade de 10% ao ano e Maria, por sua vez, tem garantidos apenas os dividendos de suas ações.

Para piorar as coisas, Maria não sabe que nos próxim os dez anos enfrentará um a crise financeira gravíssim a, que reduzirá o preço das ações, nos piores m om entos, a m enos de 50% do valor inicial. Suponham os que o lucro da em presa em que ela investe perm anece constante ao longo do tem po (um a em presa ruim , portanto) e que ela distribui 25% de seu lucro na form a de dividendos, que são reinvestidos religiosam ente por Maria na com pra das ações. Ao final de dez anos, o preço da ação é idêntico ao preço do prim eiro ano. Com o Maria e João se sairiam ?

Com o você pode ver, João teve sem pre um a rentabilidade constante: a cada ano, recebia j uros com postos na ordem de 10% ao ano. Maria, por sua vez, passou por m aus bocados. A cotação da ação passou de R$ 50,00 no prim eiro ano para apenas R$ 25,00 no terceiro ano, e para R$ 20,00 no sétim o ano, quando a cotação com eçou a se recuperar até chegar aos m esm os R$ 50,00 do início. Mas o patrim ônio que ela conseguiu construir foi m aior do que o de João. Com o ela conseguiu essa proeza?

Por dois m otivos. Em prim eiro lugar, com o a cotação da ação dim inuía a cada ano, m as os dividendos pagos por ação se m antinham constantes, ela recebe, m ais dividendos a cada ano, proporcionalm ente ao capital investido. Para entender esse ponto, im agine a seguinte situação: você tem R$ 1.000,00 investidos em 5 ações de um a em presa (cada ação vale R$ 200,00, portanto). Cada um a daquelas ações paga R$ 10,00 em dividendos. Ou sej a, se você tem 50 ações, você recebe R$ 50,00 em dividendos, ou 5% do seu patrim ônio. Mas im agine que no ano seguinte você com pra m ais R$ 1.000,00 em ações, m as elas valem R$ 100,00 agora. Ao invés de com prar apenas 5 ações, agora você pode com prar 10 ações com o m esm o dinheiro. Se cada ação pagar os m esm os R$ 10,00 em dividendos, agora você recebe R$ 150,00 - os R$ 50,00 iniciais, m ais R$ 100,00 das novas 10 ações. E isso eleva a rentabilidade total de seu investim ento. No ano, seu patrim ônio é de R$ 1.500,00, m as, com o você recebeu R$ 150,00 em dividendos, sua rentabilidade passa a 10% naquele ano, ou 7,5% sobre o investim ento inicial (divida R$ 150,00 recebidos em dividendos por R$ 2.000,00, o valor investido até então). Seu patrim ônio ainda está no negativo, m as você teve um a rentabilidade em dividendos superior ao do ano anterior.

Isso significa dizer que, a cada ano em que a cotação da ação cai, m as os dividendos perm anecem constantes, a rentabilidade de seu investim ento SOBE, um a vez que você pode com prar m ais ações com o m esm o dinheiro. No caso de Maria, sua rentabilidade inicial em dividendos, no prim eiro ano, foi de apenas 2,5% (R$ 300,00 recebidos em dividendos dividido por R$ 12.000,00, o total investido). No ano 5, ela teria investido R$ 60.000,00 e receberia, em dividendos, R$ 2.747,32. Sua rentabilidade, naquele ano, seria de 19% e, no total, de 4,5%. Quase o dobro da rentabilidade inicial obtida no prim eiro ano! Parece pouco, quando com parado aos 10% que João recebe a cada ano, m as isso significa que Maria, no ano seguinte, poderá com prar ainda m ais ações do que no ano anterior, j á que cada centavo investido, agora, tem um a rentabilidade m elhor do que no passado.

O segundo m otivo para Maria ter se saído m elhor do que João se refere ao fato de que ela pôde com prar m ais ações a preços m ais baixos. Com o o obj etivo de Maria era investir para o longo prazo, ela aproveitou para com prar, a cada ano, cada vez m ais ações a preços bastante baixos. Na m édia, portanto, o preço de cada ação foi baixíssim o: tão baixo que, m esm o tendo a cotação das ações perm anecido no m esm o patam ar, dez anos depois, ela teve um bom lucro ao conseguir form ar um bom preço m édio.

E Maria investiu num a em presa péssim a, que não conseguiu aum entar seu lucro em nenhum centavo ao longo de um a década – um a prem issa bastante im provável de ocorrer com em presas bem adm inistradas.

10. Escolhendo sua primeira ação

A essa altura, você j á está ansioso. Escolheu sua corretora, organizou sua vida financeira, pagou todas as suas dívidas e form ou um bom colchão de segurança. Além disso, abriu sua conta num a corretora de valores ou habilitou o home broker do seu banco, e j á tem um dinheiro para investir em ações. Se você seguiu todos os passos até aqui, está preparado para com eçar a investir.

Agora, surge a dúvida: com o escolher a sua prim eira ação? Talvez o m elhor conselho a ser dado para alguém que está com eçando a investir em ações é a fam osa m áxim a de Peter Ly nch: “com pre o que você conhece”.

Seguir os conselhos de Ly nch sobre investim entos provavelm ente é algo inteligente a se fazer. Ele foi o gestor do fundo de investim entos norte-am ericano Fidelity ’s Magellan entre 1977 e 1990, tendo obtido um retorno de 29% ao ano no período - bem m elhor do que a m édia histórica de 8,88% do m ercado de ações am ericano. Em um de seus livros, “One Up on Wall Street”, Ly nch conta a história da aquisição da Hanes, um a de suas principais ações. Ele tom ou conhecim ento da em presa por m eio de sua esposa, que com prou e elogiou as m eia calças produzidas pela com panhia, que eram de excelente qualidade, apesar de serem vendidas no superm ercado.

Ly nch ficou im pressionado com os elogios e estudou os balanços financeiros da em presa, a fim de verificar se valia a pena o investim ento. Esse é um ponto im portante! Ly nch não com prou as ações da Hanes apenas porque seus produtos pareciam bons e eram elogiados pela esposa, m as porque os fundam entos da em presa tam bém eram bons - a com panhia tinha qualidade de adm inistração, força financeira e potencial de crescim ento.

Mas o ponto de partida que atraiu Ly nch foi o fato de a em presa ser conhecida de sua esposa. Ou sej a, ele com eçou com prando o que era fam iliar, m as esse foi apenas o início de sua análise.

Agora, reflita: quantas em presas você conhece que têm ações listadas na bolsa? Ficou difícil? Que tal um a pequena lista com o a seguinte: Petrobras, Natura, Am bev, Itaú Unibanco, Drogasil, Cielo, Am il, TAM. Com certeza você as conhece: e todas elas têm ações listadas na Bovespa.

No nosso cotidiano, usam os dezenas de produtos fabricados por em presas cuj as ações estão listadas em bolsa. São bens de que gostam os e recom endam os para nossos am igos e vizinhos. Por que, ao invés de apenas consum irm os esses produtos, tam bém não lucram os um pouco com eles?

A prim eira ação a fazer parte do sua carteira pode ser, assim , a de um a em presa que j á faz parte de seu dia-a-dia. Se você consom e os produtos dela e gosta deles, esse j á é um bom sinal de que ela pode ser um a boa aposta com o investim ento. Por que não tentar entender um pouco m ais da em presa para verificar se ela realm ente é um bom investim ento?