Memoria sobre a cultura, e productos da cana de assucar

José Caetano Gomes · Capítulo 7 de 47

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Memoria sobre a cultura, e productos da cana de assucar

Como se deve cultivar a Cana de Assucar.

Trabalhando-se continuada, e alternativamente desta sorte, podem evitar-se todos os estrumes, e estercos; estes são inventados pelos homens, e o humus he o da natureza. As vargens que estão cercadas de serras, collinas, montes, se estas eminencias se conservão coroadas de matto, são sempre ferteis, porque o humus, que estes mattos estão continuadamente depositando na terra, dissolvido pelas chuvas, vai enriquecer as vargens. As fraldas destas eminencias podem ser cultivadas para pequenos vegetaes, se o angulo, que fizerem, não passar de quarenta, e cinco gráos porque então só grandes arvores lhes convém.

Os proprietarios destas eminencias, que as descoroão de mattos, empobrecem o Estado a perpetuidade; a coroa sendo descuberta, apresenta huma superficie nua aos raios do Sol, e passados poucos tempos ficão reduzidas a escalvados; porém a perda que não se repara mais, he a das chuvas, que os grandes vegetaes tem a propriedade de chamar.

O humus não basta só para conduzir as plantas á sua perfeição; ellas carecem ainda da luz, 3, do ár renovado, 4, de ter a superficie da terra até onde podem extender-se as suas raizes, despida de plantas; esta mesma terra revolvida, bem dividida, e haver entre planta, e planta huma certa distancia, proporcionada aos succos, de que carecem, segundo a sua natureza; haver huma escolha escrupulosa na semente, ou planta, e conhecer qual he o tempo proprio para se lançar na terra, etc. etc.

 

Como se deve cultivar a Cana de Assucar.

A Experiencia tem feito conhecer, que o melhor tempo de plantar a Canna na Capitania do Rio de Janeiro, he de Dezembro a Março, para ser moida de Junho a Septembro do anno subsequente, com dezoito mezes de idade. Como nestes mezes não há olhos de Canna, usa-se cortar da Canna, que se deixou para velha, pequenas estacas; porém esta Canna velha, que está deteriorada por ter passado do ponto da sua madureza, tem sim bastante doçura, porém os botões, ou olhos dos seus nós, ou articulações, que he o que deve ser Canna, huns estão já murchos, outros podres, e por consequencia perdidos; e só a parte superior da Canna, que sempre conserva verdura, pouca doçura, e mesmo acidez, he o que nasce facilmente.

Ainda que os botões estejão em bom estado, devem desprezar-se as Cannas velhas, porque em quanto tem doçura, não nascem, e he preciso hum mez, e mais tempo para a perderem. Para se fazer huma plantação perfeita, he preciso fazer a planta. No principio da moagem, devem plantar-se os olhos, ou parte superior da Canna, n'huma terra de muita substancia, lodosa mesmo, em terreno virgem, que tenha bem humus, ou seja bem estercado, para a Canna, que nascer, ser bem ataiobada, ou selvagem. Desta Canna sem doçura, e bravia, he que se tirão as estacas para fazer a plantação; cujas estacas devem ter o comprimento, que alcancem quatro nós, que segundo a distancia de nó a nó, serão mais compridas, ou mais curtas. Esta Canna plantada n'hum terreno tão pouco proprio para se lhe extrahir o Assucar, não he perdida; além da utilidade da boa planta, no fim de dois, ou tres cortes, póde servir para Assucar; porém deve haver o cuidado de renovar a Canna para a planta. A Canna de Assucar cresce em todas as especies de terra; porém as que são gordas, fortes, baixas, lodosas, novamente roteadas, quero dizer, donde se derrubou matto virgem, a pezar do comprimento, ou altura, que alcanção, tem o succo aquoso, oleoso, pouco assucarado, difficil de cozer, de purificar, sem rendimento. Hum terreno ligeiro, poroso, profundo, inclinado até quinze gráos, he aquelle que a natureza tem destinado a este rico vegetal. Deve-se dividir o terreno destinado para a Canna em tres partes, e cada huma destas partes, subdividir-se em pequenos quadrados de doze braças cada hum; qualquer que seja a exposição do terreno, sempre estes pequenos quadrados hão de ser alinhados de Norte a Sul, de

Leste a Oeste. Veja-se a Estampa I. Cultivão-se estes pequenos quadrados, deixando os lados de cada hum delles para todas as partes, livres da planta da Canna; porém podem occupar-se em mandioca, carás, batatas, feijão, milho, aboboras, ervilhas, etc. Cada hum dos quadrados, se tiver doze braças de frente, e doze de fundo, deve conter quatrocentas covas, na distancia humas das outras de seis palmos. Para se fazerem estas còvas, não he preciso que todo o quadrado esteja descuberto de capim, basta que seja limpo pouco mais que o tamanho dellas, que devem ter dois palmos de comprido, hum palmo de largo, e seis pollegadas de fundo. Comparadas estas covas com as que se fazem actualmente, hão de parecer muito grandes, e muitos fundas; e na realidade o não são, respeito ás que fazem os Colonos das Antilhas, e o mesmo digo sobre a distancia dellas; pois elles chegão a afastallas humas das outras, até dez palmos e meio, e a dar-lhe dezoito pollegadas de comprido, doze de largo, e oito de fundo. O milho para prosperar de serra acima, para os seus cultores colherem duzentos por hum, he preciso fazerem as covas na distancia de cinco a seis palmos, nas quaes lanção quatro, ou cinco grãos; ora este vegetal não tem o corpo da Canna de Assucar, nem como ella carece de tanta substancia, e alimento; a cova de milho he para quatro, ou cinco pés, a da Cana para oito, ou dez, que tantas são as que devem nascer, dos olhos, os botões das duas pequenas estacas, que se deitão nas covas, e se devem conservar, cortando todas as que demais nascerem, porque como ladrões lhe roubão a substancia.

He certo que com a enxada, que se usa no Brasil, que he talvez a primeira que se inventou, e onde não chegou ainda a enxada de Luca, Franceza, ou Ingleza, he hum pouco difficil fazer esta especie de covas; são precisas de vinte a trinta golpes, quando com qualquer das mencionadas, bastão tres, ou quatro. A nossa enxada he fatigante, o trabalhador anda curvado; e tendo o ferro de cinco a seis libras, elle carrega com vinte, ou mais nas cadeiras; nesta especie de serviço o homem baxo tem vantagem ao homem alto, a quem he preciso maior curvatura, e por consequencia dobrado esforço. Na Republica de Luca, e em algumas Provincias de França, não se usa de arado, nem de charrua, porque a sua enxada equivale ao trabalho destes instrumentos, e fica a terra mais bem trabalhada.

No Brasil onde os mesmos instrumentos pouco uso podem ter, he de huma grande vantagem o adoptarmos a enxada Luqueza, ou outra com pouca differença, que he huma especie de pá, com dez pollegadas de altura, nove de largura em cima, oito em baxo, com a grossura de meia pollegada, a acabar em huma linha, bem temperada de aço, com hum alvado de seis pollegadas, quatro a meio ferro, e duas sobresahindo, e com a vacuidade de pollegada e meia de diametro, que vai diminuindo insensivelmente, com dois furos no alvado, para com huma cavilha se fazer firme o cabo, que

deve ter oito palmos de comprido. Veja-se a Estampa II. Fig. I. e II. O trabalhador com este instrumento tem o corpo direito, virado para o Norte, os calcanhares afastados pouco mais de meio palmo; a enxada afastada quasi hum palmo do pé esquerdo; a mão esquerda por todo o comprimento do braço, pegando no cabo; e a mão direita pegando no mesmo cabo, quasi no hombro direito Fig. III. A mão esquerda levanta a enxada até onde póde hir, sem que o antebraço se desuna do corpo. Fig. IV. A mão direita da altura, a que chegou, impelle a enxada com toda a força, e a esquerda deixa escorregar o cabo, segundo a ferida que a enxada fez na terra. Para se tirar esta terra, serve de apoio a mão esquerda, e a direita carregando no cabo, levanta a pá, e ambas a guião para lançar a terra a qualquer parte; porém deve ser regularmente para Oeste, ou Leste. No segundo movimento, deve chegar-se o calcanhar do pé esquerdo ao do direito, e este ladear para a direita tanto quanto a enxada cava, e assim progressivamente.

Designados os quadrados para a plantação da Canna, vão a cada hum vinte trabalhadores; o seu feitor os deve pôr enfileirados olhando para Oeste, na distancia de seis palmos huns dos outros; manda-os andar á direita para ficarem virados para o Norte; manda-lhe passar o pé direito a perfilar com o esquerdo, na distancia pouco mais que meio palmo; e desta sorte principião o trabalho, abrindo as covas de Oeste para Leste, de manhã até ao meio dia, servindo de guia a sombra do corpo; e do meio dia para a noite virados para o Sul fazem o mesmo; ou tambem podem trocar as mãos, porque se trabalha para o lado direito, assim como para o esquerdo; devendo buscar-se de qualquer sorte o alinhamento perfeito das covas de Norte a Sul, e de Leste a Oeste, o que he essencial para a perfeição da cultura deste rico vegetal.

Feitas as covas, devem lançar-se nellas duas estacas de Canna, que não tenhão menos de quatro, nem mais de cinco botões, para quando nascerem, fazerem huma soqueira de oito, ou dez Cannas. Cobrem-se estas estacas com duas pollegadas de terra, e quando tem nascido a Canna, e alcançado dois palmos pouco mais de altura, enchem-se as covas com o resto da terra. Limpão-se as Cannas de todas as hervas que podem roubar-lhe a substancia, á proporção que forem nascendo. Esta plantação deve fazer-se de Janeiro até Março, e não antes, nem depois. Qualquer que seja a qualidade da terra, não deve pretender-se mais, que dois cortes; o primeiro dahi a dezoito mezes, o segundo a que se chama sóca, dahi a quinze, ou dezaseis mezes. Depois deste segundo córte, deve occupar-se o terreno em que esteve a Canna, com aboboras de todas as especies, que tem a propriedade de cubrir bem a terra, para que as raizes da Canna apodreção, e depois de convertidas em humus, ficar a terra apta para receber nova Canna, que dahi a mais de hum anno se lhe póde confiar. De Janeiro a Março do segundo anno, cultiva-se a segunda divisão, e no anno seguinte a terceira. A quarta plantação faz-se nos mesmos quadrados da primeira; a quinta, nos segundos, a sexta nos terceiros, a setima nos primeiros da primeira, a oitava nos da segunda, a nona nos da terceira, e assim alternativamente; de sorte que a Canna de cada quadrado tenha intervallo bastante, que a livre de plantas, que lhe roubem a luz. Esta fórma de plantação póde variar-se a infinito, segundo a quantidade de terreno, e intelligencia do cultor.

Em lugar de quadrados perfeitos, podem ser quadrados longos etc., com tanto que se busque sempre o dar á Canna, a maior quantidade de ár, e luz possivel; porque a experiencia faz ver com evidencia, que só a dos aceiros, que recebe continuadamente a influencia destes dois agentes, he que alcança perfeição no seu succo; a que está para dentro, fica sempre esverdeada, o seu succo mal digerido, difficil de cozer, e de purificar; por consequencia o fim do lavrador deve ser quanto lhe for possivel, fazer todo o Canaveal em aceiro.