Memorias de José Garibaldi, volume 1
XVI Viagem na Provincia do Rio Grande
XVI
VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE
Em Bajada embarquei n'um bergantim italiano, capitão Ventura. Este maritimo homem recommendavel a todos os respeitos, tratou-me sempre com a maior generosidade e cavalheirismo. Conduziu-me á embocadura do Iguassu, affluente do Parana, ahi passei para bordo de um barco, capitaneado por Pascoal Carbone, que se destinava a Montevideo.
Estava então em maré de ventura; Carbone obsequiou-me tambem admiravelmente.
A fortuna, assim como as infelicidades vem sempre em grandes porções; estas haviam finalisado para mim; aquellas começavam a affluir sem interrupção.
A minha proscripção continuava em Montevideo. A resistencia que empregára contra os lanchões e a perda que lhes haviamos causado era para isso pretexto plausivel. Fui então obrigado a esconder-me em casa de Pazante aonde me conservei por espaço de um mez.
Comtudo a minha reclusão tornava-se supportavel, por que era suavisada pelas visitas de muitos compatriotas, que em tempo de prosperidade e de paz tinham vindo estabelecer-se no paiz e exerciam para com os amigos do velho mundo a mais generosa hospitalidade. A guerra, e sobretudo o cerco de Montevideo veiu mudar a posição da maior parte d'elles e de feliz que era tornou-l'ha não só má, porém pessima. Pobres homens! bastantes vezes os deplorei, e desgraçadamente não podia fazer mais do que lamental-os!
Passado um mez, era tempo de seguirmos viagem; parti com Rossetti para o Rio Grande; a nossa jornada devia ser e foi feita a cavallo, o que me deu muito prazer. Viajavamos á escotero.
Darei uma pequena explicação sobre esta maneira de viajar, que pela sua rapidez deixa bem longe a posta por mais ligeira que ella seja.
Sejam dois, tres ou quatro os viajantes, vão acompanhados por vinte cavallos habituados a seguir os que vão montados; quando depois alguns dos cavalleiros vê que o seu cavallo está fatigado, apeia-se, passa o selim e os arreios para um dos que vem livres, e segue a galope tres ou quatro leguas; depois toma outro, e assim successivamente os vae mudando até chegar ao seu destino; os cavallos cançados, mesmo tendo de seguir os outros, recuperam forças, porque vão livres de selim e do cavalleiro.
O pouco tempo que os cavalleiros gastam n'estas mudas, os cavallos o aproveitam para comerem alguma herva e beberem agua, se por acaso a encontram; as verdadeiras rações são duas vezes ao dia, pela manhã e á noite.
D'este modo chegámos a Piratini, séde do governo do Rio Grande; a capital da provincia é Porto Allegre, porém como estava occupada pelos imperiaes, o governo republicano estabelecera-se em Piratini.
Piratini é realmente um dos mais bellos paizes do mundo; divide-se em duas regiões; uma de planicies e a outra montanhosa.
As planicies verdadeiramente tropicaes produzem a banana, a cana d'assucar, e a laranja. Junto aos troncos das suas arvores, e por entre as plantas arrasta-se a serpente cascavel, a serpente negra, e a serpente coral; ali, como na India, vê-se saltar o tigre, o jaguar, a puma, e o leão inoffensivo, de dimensões eguaes a qualquer dos enormes cães do monte de S. Bernardo.
A região montanhosa é temperada como o meu bello clima de Niza; colhe-se o bom pecego, a pera, a ameixa, e toda a qualidade de fructos da Europa, encontram-se as magnificas florestas, das quaes nenhuma pena seria capaz de fazer exacta descripção, com os seus pinheiros direitos como os mastros dos navios, e d'altura de duzentos pés, e dos quaes talvez cinco ou seis homens não podessem abraçar o tronco. Á sombra d'esses pinheiros vegetam os taquares, canas gigantescas que chegam a oitenta pés d'altura, e das quaes na base não excedem a grossura do corpo d'um homem; existe tambem ali a barba de pau, litteralmente dita a barba das arvores, que entrelaçando-se multiplicadamente fórma espeços bosques; nas vastas planicies chamadas campestres estendem-se cidades inteiras, como Cima da Serra, Vaccaria, Lages; não tres cidades, mas tres provincias; população caucasiana, de origem portugueza, e essencialmente hospitaleira.
O viajante não tem precisão de dizer nem de pedir coisa alguma; entra em qualquer habitação, vae direito á camara dos hospedes; os criados apparecem, sem que sejam chamados, descalçam-o e lavam-lhe os pés. Fica ali por quanto tempo quer, e quando lhe appetece retira-se sem despedir-se nem agradecer; e apesar d'esta descortesia, outro que venha depois d'elle não é recebido com menos agrado.
É a juventude da natureza, o erguer da humanidade.