Memorias de José Garibaldi, volume 1

Giuseppe Garibaldi · Capítulo 30 de 45

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Memorias de José Garibaldi, volume 1

XXIX a Retirada

XXIX

 

A RETIRADA

 

Chegada a noute preparámo-nos para partir, sendo o nosso disignio o tomar novamente o caminho das Lages. A maior difficuldade que tinhamos a vencer, era o transportar os feridos. O major Peixoto não nos podia coadjuvar, porque tinha um pé atravessado por uma balla.

Pelas dez horas da noute, estando os feridos accommodados o melhor possivel, começámos a nossa marcha, abandonando o crado e seguindo a linha da floresta, que sendo a maior que existe talvez no mundo, se estende do rio Prata aos Amazonas, coroando os cumes da serra Espinasso, sobre uma extensão de trinta graus de latitude: não conheço a sua extensão em longitude, mas deve ser immensa.

As tres provincias de Cima da Serra, Vaccaria e Lages, são segundo julgo ter já dito situadas no crados d'esta floresta. Coritibani, especie de colonia, estabelecida pelos habitantes de Coritiba situada no districto das Lages, provincia de Santa Catharina era o theatro do episodio que estou contando: costeavamos pois o nosso bosque isolado, para nos aproximarmos o mais possivel da floresta, tratando de nos juntarmos á divisão de Aranha, que se havia infelizmente separado de nós.

Á sahida do bosque aconteceu-nos um d'esses successos que provam como o homem é filho das circumstancias e o poder que tem um terror panico ainda sobre os mais corajosos. Marchavamos em silencio, como convinha á nossa situação dispostos a combater o inimigo se se oppozesse á nossa retirada. Um cavallo que se achava na durela da floresta sentindo a pouca bulha que faziamos tomou medo e fugiu.

Ouviu-se então gritar uma voz:

—É o inimigo!

No mesmo momento os setenta e tres homens que tinham resistido a quinhentos com tanta coragem que se podia dizer que haviam sido os vencedores, tomáram medo e começaram a fugir dispersando-se de tal modo que foi uma felicidade o não ter algum dos nossos acordado o inimigo dando-lhe o signal de alarme.

Consegui com muito trabalho reunir alguns d'elles ao qual pouco a pouco se foi juntando o resto, de modo que ao raiar da aurora estavamos na aurela da floresta dirigindo-nos para as Lages.

O inimigo que não havia dado pela nossa fuga, procurou-nos inutilmente no dia seguinte.

No dia do combate o perigo tinha sido grande, a fadiga enorme, a fome imperiosa, a sede ardente, mas era necessario combater, combater pela vida e esta idéa dominava todas. Mas uma vez na floresta tudo mudou. Faltavam todas as coisas e a miseria não tendo a distracção do perigo fez-se sentir terrivel, cruel, insupportavel. A falta de viveres, o abatimento de todos, as feridas de alguns, e a carencia dos meios de as tratar, lançaram-nos na desanimação.

Ficámos quatro dias sem encontrar senão raizes e julgo desnecessario descrever a fadiga que tivemos para achar n'esta floresta um caminho onde não existia o mais pequeno atalho e onde a natureza mui fecunda faz a cada passo encontrar barrancos enormes.

Alguns dos meus homens desertaram desesperados e tivemos grande trabalho para os juntarmos e impor-lhes respeito. Não existia senão um unico recurso para dissipar esta desanimação e fui eu que o encontrei. Disse a todos que lhe dava a liberdade de se retirarem para onde quizessem, ou de continuarem a marchar unidos e em corpo, protegendo os feridos e defendendo-se mutuamente. O remedio foi efficaz. Desde que cada um foi livre de fazer o que quizesse ninguem pensou mais em desertar e a confiança voltou a todos.

Cinco dias depois do combate encontrámos uma picada, atalho de largura d'um homem, e raras vezes de dois que nos conduziu a uma casa onde nos refrescámos matando dois bois.

Continuámos o nosso caminho para as Lages onde chegámos n'um dia de perfeito inverno.