Memorias de José Garibaldi, volume 1

Giuseppe Garibaldi · Capítulo 22 de 45

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Memorias de José Garibaldi, volume 1

XXI Partida e Naufragio

XXI

 

PARTIDA E NAUFRAGIO

 

Promptos a partir esperámos pela maré cheia, sahindo ás quatro horas da tarde.

Foi n'esta occasião que soubemos apreciar o bem que nos resultava da pratica que tinhamos de navegar entre os rochedos. Não obstante esta pratica, não sei hoje dizer porque audaciosa ou antes porque habil manobra chegámos a tirar os nossos navios d'entre os rochedos, ainda que tivessemos, como já disse, escolhido a maré cheia. O fundo necessario para navegarmos faltava-nos por toda a parte, foi pois só ao cair da noite que os nossos esforços obtiveram um resultado feliz conseguindo deitar ancora no Oceano.

Julgo conveniente dizer que os nossos navios foram os primeiros que sahiram do lago Tramandai.

Ás oito horas da noite levantámos ancora e começámos a nossa viagem.

No dia seguinte pelas tres horas da tarde tinhamos naufragado na embocadura do Aserigua, rio que tem a sua nascente na serra Espinasso, e que se lança ao mar na provincia de Santa Catharina, entre as torres e Santa Maura.

De trinta homens da equipagem, dezeseis affogaram-se.

Direi em duas palavras como aconteceu esta terrivel catastrophe.

No momento da nossa partida, o vento do meio dia começava a apparecer. Corriamos parallelos á costa. O Rio Pardo tinha, como já disse, trinta homens de equipagem, uma peça de doze, uma grande porção de caixas, e outros objectos de toda a especie, que tinhamos levado por precaução, por não sabermos o tempo que estariamos no mar, e a que praia chegariamos, e qual seriam as circumstancias em que estaria essa praia no momento em que nos dirigiamos para um paiz inimigo.

O lanchão achava-se pois mui subcarregado, e as vagas cobrindo-o de minuto em minuto, ameaçavam submergil-o. Resolvi então aproximar-me da costa e tomar terra na parte que me pareceu accessivel; mas o mar que ia sempre crescendo, não nos deixou escolher a posição que nos convinha, e uma vaga enorme nos arremeçou para a costa.

Estava n'essa occasião na parte mais elevada do mastro do traquete, d'onde esperava descobrir uma passagem atravez os rochedos. O lanchão inclinou-se sobre o estribordo e eu fui lançado a trinta pés de distancia.

Ainda que estivesse n'uma posição perigosa, a confiança que tinha nas minhas forças como nadador, fez com que não pensasse um unico momento na morte, e tendo comigo alguns companheiros, que não eram marinheiros, e que momentos antes tinha visto deitados no tombadilho e mui enjoados; em logar de nadar para a costa, comecei a reunir uma parte dos objectos, que pela sua ligeireza promettiam conservar-se á superficie, e comecei a empurral-os para o navio gritando aos meus homens que se lançassem ao mar e que apanhassem alguns d'aquelles objectos, tratando de ganhar a costa que se achava na distancia de uma milha. O navio tinha-se afundado, mas a mastreação conservava-o com os seus flancos de bombordo fóra de agua.

O primeiro que eu vi agarrado ás enxarcias foi Eduardo Mutru um dos meus melhores amigos: atirei-lhe um fragmento da escotilha recommendando-lhe que o não alargasse.

Este estando quasi salvo, lancei os olhos para o navio.

Vi então o meu caro e corajoso Luiz Carniglia. Estava ao leme no momento da catastrophe, e havia ficado agarrado á popa do navio. Infelizmente estava n'esta occasião vestido com uma jaqueta de uma enorme roda. Não havia tido tempo de a tirar, não podendo por isso nadar em quanto a tivesse vestida. Vendo que me dirigia para elle começou a gritar.

—Agarra-te bem, lhe respondi, que já te dou soccorro.

Subindo ao navio como o teria podido fazer um gato, cheguei ate junto d'elle; agarrei-me com uma mão a uma borda, e com a outra tirando da algibeira uma faca que infelizmente cortava pessimamente, comecei a rasgar as costas da jaleca. Tinha quasi finalisado esta minha ardua tarefa, e Carniglia estava quasi salvo, quando um golpe de mar horrivel, envolvendo-nos fez em pedaços o navio e lançou ao mar os homens que ainda se conservavam a bordo.

Carniglia foi tambem precipitado e não tornou a apparecer.

Lançado ao fundo do mar como um projectil, voltei á superficie todo aturdido, mas tendo uma unica idéa—a de soccorrer ao meu charo Luiz. Comecei a nadar em volta da carcassa do navio chamando-o em altos gritos, mas elle não me respondeu. Esse bom amigo que já me tinha salvo a vida, tinha morrido sem eu o poder soccorrer.

No momento em que abandonava a esperança de salvar Carniglia, lancei os olhos em volta de mim. Por uma graça especial de Deus, n'este momento de agonia para todo o mundo, não pensei um unico momento em mim tratando unicamente dos outros.

Vi então os meus companheiros nadando para a praia, separados uns dos outros segundo a sua agilidade ou força. Alcancei-os em um momento e animando-os com os meus gritos, passei-lhe adiante, sendo um dos primeiros a atravessar os rochedos, cortando para isso vagas tão altas como montanhas.

Puz pé em terra. Mas a dôr por perder o meu pobre Carniglia, deixando-me indifferente sobre a minha propria sorte, dava-lhe uma força invencivel.

Apenas tinha posto pé em terra que me voltei movido por uma derradeira esperança.

Póde ser, ir vêr Luiz.

Interroguei todas essas figuras assustadas, mas todas me davam a mesma resposta. Já não me restava esperança alguma.

Vi então Eduardo Mutru, que depois de Carniglia era quem eu estimava mais, e a quem tinha passado um fragmento da escotilha recommendando-lhe que se agarrasse com toda a força. A violencia das vagas tinha-lhe, sem duvida, tirado este apoio. Ainda nadava, mas pela convulsão dos seus movimentos indicava a extremidade a que se achava reduzido. Já disse como o amava, era pois o segundo irmão que ia perder no mesmo dia. Não quiz em um momento perder tudo o que mais presava no mundo. Lancei ao mar os restos do navio que me tinham servido para ajudar a ganhar a praia, e lancei-me de novo ao mar, indo novamente affrontar um perigo ao qual tinha poucos momentos antes escapado. No fim d'um minuto só algumas braças me separavam de Eduardo.

—Coragem... Coragem, lhe disse eu.

Vã esperança, vãos esforços! No momento em que encaminhava para elle o pedaço de madeira salvadora desappareceu.

Dei um grito, e mergulhei. Depois não encontrando o meu pobre amigo julguei que teria vindo á superficie. Voltei tambem: Ninguem! Mergulhei de novo e de novo voltei ao cimo d'agua. Dei gritos desesperados, mas tudo foi em vão. Eduardo Mutru tinha tambem sido engolido por esse Oceano que elle não tinha tido receio de atravessar para, unindo-se-me, servir a causa dos povos.

Ainda um martyr da liberdade italiana que não teve um tumulo, uma cruz!

Os cadaveres dos dezeseis afogados que nós contamos n'este desastre, fieis companheiros das minhas aventuras, foram arremeçados pelas vagas a mais de trinta milhas de distancia para o norte. Procurei então entre os quatorze que haviam escapado e que n'este momento estavam na praia, um rosto amigo, uma figura italiana.

Nenhuma!

Os seis italianos que me acompanhavam estavam mortos. Carniglia, Mutru, Staderini, Nadonne e Giovanni... Não me recordo do nome do sexto.

Peço perdão á patria por o haver esquecido, bem sei que escrevo estas memorias doze annos depois d'estes successos terem logar, bem sei que muitos acontecimentos tão terriveis como o que acabo de descrever, tem tido logar na minha vida; bem sei que vi cair uma nação, e que tentei defender uma cidade; bem sei que perseguido, exilado, e tratado como um animal feroz, depuz no tumulo a mulher a quem amava mais que a propria vida, bem sei que depois de fechado o seu tumulo fui obrigado a fugir como os condemnados de Dante; bem sei que não tenho um asylo, e que do extremo d'Africa onde me acho, olho para essa Europa que me repelle como um bandido, apesar de não ter tido até hoje senão um pensamento, um amor—a patria; sei tudo isto, mas não obstante devia-me lembrar d'esse nome.

E comtudo não o sei!!

Tanger, março de 1857.—G. G.