Memorias de José Garibaldi, volume 1
XXVII Novos Combates
XXVII
NOVOS COMBATES
Tive muito que fazer no dia em que se effectuou a passagem da divisão para a margem meridional, porque, se o exercito era pouco numeroso as bagagens pareciam não ter fim.—Na parte mais estreita do rio a corrente redobrava de violencia.—Trabalhámos pois desde o nascer do sol até ao meio dia para fazer passar a divisão.
Pelo meio dia começou a apparecer a flotilha inimiga, composta de vinte e duas vélas. Combinavam os seus movimentos com a tropa de terra, e traziam a bordo além de equipagem grande numero de soldados. Subi á montanha mais proxima para observar o inimigo, e vi immediatamente que o seu plano era reunir as suas forças á entrada do lago. Dei logo parte ao general Canavarro que no mesmo momento deu as ordens convenientes, mas não obstante essas ordens os nossos homens não chegaram a tempo de defender a entrada do lago. Uma bateria que haviamos construido na embocadura do lago e que era dirigida pelo bravo Capotto resistiu fracamente, pois não tinha senão peças de pequeno calibre, e alem d'isso mal servidas por artilheiros inhabeis. Os nossos tres pequenos navios estavam reduzidos á metade da equipagem, porque a outra metade tendo sido mandada para terra para coadjuvar a passagem das tropas, não se nos juntou, deixando-nos sós para combater um tão temivel inimigo.
Durante este tempo o inimigo ajudado pelo vento e mare vinha para nós com toda a força. Dirigi-me então a toda a pressa para o meu posto a bordo do Rio Pardo, onde já a minha corajosa Annita tinha começado o combate, apontando e dando ella mesmo fogo á peça de que se tinha encarregado, animando com a voz e o exemplo os meus companheiros um pouco atemorisados.
O combate foi horrivel e mais mortifero que se poderia julgar. Tive poucos mortos, porque, como já disse, metade da equipagem estava em terra, mas dos seis officiaes que estavam nos tres navios só eu escapei são e salvo.
Todas as nossas peças estavam desmontadas, mas o combale continuou á clavina e não cessámos de atirar em quanto o inimigo passou por diante de nós. Durante o combate Annita ficou sempre ao meu lado, no posto mais perigoso, não querendo nem desembarcar nem aproveitar-se de nenhum alivio, e despresando mesmo o inclinar-se como faz o homem mais bravo, quando vê a mecha aproximar-se do canhão inimigo.
Soffrendo mil cuidados por a vêr exposta a tantos perigos, julguei encontrar um meio de affastar.
Ordenei-lhe, foi necessario uma ordem, para me obedecer que fosse pedir reforço ao general dando-lhe a minha palavra de que se me enviasse esse reforço entraria no lago perseguindo os imperiaes e tratando-os de tal maneira que elles não pensariam em desembarcar, embora tivesse que largar o fogo á sua flotilha. Obriguei Annita a prometter-me que ficaria em terra enviando-me a resposta por um homem seguro; mas com bastante pesar meu foi Annita, que trouxe a resposta do general:
«Não tinha soldados para me mandar, e ordenava-me que não largasse o fogo á esquadra inimiga, mas que viesse para a terra salvando as armas e munições.»
Obedeci. Então debaixo de um fogo que não cessou um momento, conseguimos fazer transportar a terra as armas e munições. Foi Annita quem á falta de officiaes dirigiu esta operação em quanto eu passando de um navio a outro collocava no logar mais inflamavel de cada um d'elles, o fogo que o devia devorar.
Foi uma missão terrivel que me fez passar uma triplece revista de mortos e feridos. Era um verdadeiro açougue de carne humana; andava-se por cima de montões de cadaveres. O commandante do Itaparika João Henriques de la Laguna estava deitado no meio de dous terços da sua equipagem com uma balla que lhe tinha feito no meio do peito um buraco por onde podia entrar perfeitamente um braço. O pobre João Griggs tinha, como já disse, o corpo separado em dois por um tiro de metralha. Fiquei suffocado, com a vista de similhante espectaculo, e perguntei a mim mesmo como poderia ter escapado.
N'um momento uma nuvem de fumo envolveu os nossos navios e os nossos bravos tiveram ao menos uma sepultura digna d'elles.
Em quanto tinha comprido a minha obra de destruição, Annita pela sua parte havia cumprido a sua de salvação. Para transportar á praia todas as nossas armas e munições fez talvez vinte viagens ao navio passando constantemente debaixo do fogo do inimigo. Andava n'um pequeno barco com dois remadores, e os pobres diabos curvavam-se o mais possivel, para evitar as ballas.
Annita pelo contrario na pôpa, no meio da metralha, estava direita e socegada como uma estatua de Pallas, e Deus que me cobria com uma das suas mãos, estendia-lhe tambem essa protecção.
Era noite fechada quando tendo reunido todos os marinheiros que haviam escapado, me juntei com a nossa divisão, e nos retirámos para o Rio Grande seguindo o mesmo caminho que alguns mezes antes tinhamos atravessado com o coração cheio de esperança e procedidos pela victoria.