Memorias de José Garibaldi, volume 1

Giuseppe Garibaldi · Capítulo 35 de 45

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Memorias de José Garibaldi, volume 1

XXXIV Levanta-Se o Cerco.—rossetti

XXXIV

 

 

LEVANTA-SE O CERCO.—ROSSETTI

 

Comtudo a situação do exercito republicano peiorava de dia para dia; as suas necessidades augmentavam e os seus recursos diminuiam. Os dois combates de Taquari e S. José do Norte tinham dizimado a infanteria que apezar de ser pouco numerosa era um poderoso recurso para as operações de cerco. As grandes necessidades animavam as deserções, as populações como succede n'estas guerras mui prolongadas cançavam, e foram atacadas de uma suprema indifferença, começando nós então a conhecer que estava proximo o momento de tudo se acabar.

N'este estado de cousas os imperiaes fizeram propostas que, ainda que vantajosas para os republicanos foram por estes recusadas. Esta recusa augmentou o descontentamento dos mais desgraçados, e por conseguinte da parte mais fatigada do exercito e do povo, sendo decidido que o cerco seria abandonado e que todos se retirariam.

A divisão Canavarro de que faziam parte os marinheiros foi designada para começar o movimento e abrir as passagens da serra, occupadas pelo general Labattue, francez ao serviço do imperador. Bento Gonçalves com o resto do exercito formaria a retaguarda.

A guarnição republicana de Settembrina devia seguir-nos, mas não pôde executar este movimento, porque surprehendida pelo famoso Morinque a cidade foi tomada.

Foi ahi que morreu o meu caro Rossetti.

Tendo caido do cavallo, depois de ter praticado prodigios de valor, ferido perigosamente, e intimado para se render, preferiu antes que o matassem do que entregar a sua espada.

Ainda uma outra ferida para o meu coração. Já fallei muitas vezes de Rossetti, sabe-se pois como o amava, seja-me pois permittido dizer á Italia o que já tenho dito tantas vezes: Oh! Italia, minha mãe, acabamos de perder, eu um dos meus irmãos mais caros, e tu um dos teus filhos mais generosos.

Era natural de Genova. Havia sido, por paes que conheciam pouco o seu caracter, destinado á vida ecclesiastica, quando era um dos mais ardentes patriotas italianos que tenho conhecido. Inclinado á vida aventureira e não podendo respirar na Italia, partiu para o Rio de Janeiro onde foi negociante e corretor; mas não tendo Rossetti nascido negociante, era uma planta exotica dando-se mal na terra do agio e calculo, não porque elle não fosse dotado de uma intelligencia fina e apta a enriquecer-se de todos os conhecimentos, mas porque Rossetti era o mais italiano de todos os italianos, isto é, o mais generoso e prodigo dos homens, e com taes vicios não se faz fortuna, mas antes se caminha a grandes passos para a ruina.

Foi o que aconteceu com Rossetti.

Bom para com todos, a sua casa achava-se franca para toda a gente, e especialmente para os italianos desgraçados. Não esperava que os proscriptos o fossem procurar, era elle que os ia encontrar, esgotando assim em pouco tempo os seus recursos. Bem desgraçado, esse coração do anjo não podia ver soffrer um italiano. Se o não podia soccorrer immediatamente, fazia-o esperar na sua pobre cabana, e corria as ruas da cidade, e não entrava em sua casa senão quando trazia algum soccorro para aquelle ou aquelles que o esperavam. É verdade que a sua bondade, a sua franqueza e a sua lealdade o tinham tornado estimado de todos, e por isso quando se achava n'estes piedosos embaraços, todos o coadjuvavam com prazer.

A batalha de Tarifa teve logar, e os republicanos foram batidos pelos imperiaes; Bento Gonçalves e os principaes chefes feitos prisioneiros, e conduzidos ao Rio de Janeiro. Entre elles achava-se o nosso capitão Zambecarri, com quem travamos relações, segundo já disse, nas prisões de Santa Cruz. Fallou-se de nos fazermos corsarios, e desde esse momento Rossetti e eu não tivemos um minuto de descanço em quanto não nos lançamos no Occeano com a bandeira republicana. Rossetti encarregou-se de tudo e alcançou o fim que pertendiamos.

Os leitores sabem o resto, porque desde esse momento não nos perdemos de vista.

Infelizmente não ha um canto da terra onde não descansem os ossos de um italiano generoso, devendo por isso a Italia cobrir-se de luto e não encher-se de gloria. Pobre Italia, tu sentirás verdadeiramente a sua falta no dia em que tentares arrancar o teu cadaver aos corvos que o devoram.