Memorias de José Garibaldi, volume 1
XXXVI Conductor de Bois
XXXVI
CONDUCTOR DE BOIS
Eis-me pois truppiere, isto é conductor de bois.
Em consequencia n'uma estancia chamada o Casal das Pedras, com a authorisação do ministro da fazenda, consegui reunir em vinte dias e com grande difficuldade novecentos bois, quasi todos selvagens. Maiores dificuldades me esperavam ainda durante o caminho onde encontrei obstaculos quasi invenciveis. O maior de todos foi o Rio-Negro, onde tive quasi perdido todo o meu capital. Da passagem do rio, da minha inexperiencia no meu novo mister, e sobre tudo da rapina de certos capatazes, mercenarios que tinha alugado como conductores, salvei com muito custo quinhentos bois, que visto o mau sustento e o pessimo caminho foram julgados incapazes de chegar ao seu destino.
Resolvi em consequencia matal-os e tirar-lhe as pelles, que vendi, ficando-me livres de toda a despeza uns trezentos escudos que serviram para fazer face ás primeiras necessidades da minha familia.
É aqui que devo mencionar um encontro que me deu um dos meus mais charos e melhores amigos.
Aproximando-me de S. Gabriel, na retirada que acabavamos de fazer, tinha ouvido fallar de um official italiano, dotado de grande valor e intelligencia, que, exilado como carbonario se tinha batido em França no dia 5 de junho de 1832, e depois no Porto durante o cerco que ahi houve por causa da guerra entre os dois irmãos D. Pedro e D. Miguel, vindo depois offerecer-se ao serviço das jovens republicas da America do Sul.
Contavam-se a seu respeito cousas tão extraordinarias que muitas vezes disse:
—Quando encontrar esse homem, ha-de ser meu amigo.
Chamava-se Anzani.
Chegando á America, tinha-se apresentado com uma carta de recommendação a dois dos seus compatriotas MM.*** negociantes em S. Gabriel, que tinham feito d'elle o seu factotum.
Anzani exercia todos os empregos, caixeiro, guarda-livros, homem de confiança, emfim era o bom genio d'esta casa.
Como todos os homens fortes e corajosos, Anzani era socegado e dotado de um excellente genio.
A casa commercial de que elle se tinha tornado director era uma d'essas casas como se acham unicamente na America do Sul, isto é vendendo tudo o que é possivel imaginar.
A villa onde residiam os nossos dois compatriotas era infelizmente proxima da floresta que servia de refugio a essas tribus de indios de que já dissemos algumas palavras no capitulo precedente.
Um dos chefes d'estes indios tinha-se tornado o terror d'esta pequena villa, á qual vinha duas vezes por anno, com a sua tribu, roubando quanto queria sem encontrar a menor resistencia.
Primeiramente veiu acompanhado por duzentos ou trezentos homens, depois com cem, depois com cincoenta, segundo elle tinha visto augmentar o terror estabelecendo o seu poder, e depois sentindo-se o senhor tinha vindo só, e dava as suas ordens que eram obedecidas, como se por detraz de si tivesse a sua tribu prompta a assassinar aquelle que lhe recusasse obedecer.
Anzani tinha ouvido fallar d'este homem e tinha escutado tudo o que se dizia a seu respeito, sem manifestar a sua opinião sobre a audacia d'este chefe selvagem e sobre o terror que inspirava a sua ferocidade.
Este terror era tamanho que quando se ouvia dizer o chefe dos Mattos todas as janellas se fechavam, e todas as portas se trancavam como se na villa andassem alguns cães damnados.
O indio estava habituado a estes signaes de terror, que lisongeavam o seu orgulho, escolhia a porta que queria vêr aberta, batia—abrindo-se logo com a rapidez do relampago—e roubava tudo sem encontrar a menor resistencia.
Havia justamente dois mezes que Anzani dirigia a casa de commercio nos seus maiores como menores detalhes, quando se ouviu o grito terrivel:
—O chefe dos Mattos!
Como o costume, portas e janellas fecharam-se precipitadamente.
Anzani estava só em casa arranjando as contas da semana, e não julgando que o estrondoso annuncio que acabavam de fazer valesse a pena de se incommodar ficou assentado á sua mesa, com as janellas e portas abertas.
O indio parou espantado diante d'essa casa que no meio do terror geral que causava a sua chegada, se conservava indifferente á sua apparição.
Entrou e viu encostado ao balcão um homem que socegadamente fazia as suas contas. Parou diante d'elle de braços cruzados e olhando-o com espanto.
Anzani levantou a cabeça.
Anzani era a politica em pessoa.
—Que quer meu amigo? perguntou elle ao indio.
—Como! que quero?! disse este.
—Sem duvida, disse Anzani, quando se entra n'um armazem é que se quer comprar alguma cousa.
O indio começou a rir.
—Pelo que vejo não me conheces? perguntou ele a Anzani.
—Como queres que te conheça, se é a primeira vez que te vejo!
—Sou o chefe dos Mattos, replicou o indio, mostrando no seu cinto um arsenal composto de quatro pistollas e um punhal.
—Então que queres?
—Beber.
—O que?
—Um copo de agua-ardente.
—Não ha nada mais facil; paga primeiro e depois tens a agua-ardente que quizeres.
O indio começou a rir de novo.
Anzani franziu as sobrancelhas.
—Em logar de me responder, tornas de novo a rir. Não acho isso mui politico. Previno-te, pois, que se isso succede outra vez ponho-te fóra da porta.
Anzani tinha pronunciado estas palavras com tal firmeza, que outro qualquer homem que não fosse o indio teria comprehendido com quem tinha a tratar.
Talvez o selvagem houvesse comprehendido, mas não o deu a conhecer.
—Já te disse que me desses um copo de agua-ardente, repetiu elle batendo com o punho no balcão.
—E eu já te disse que o pagasses primeiro, disse Anzani, quando não, não a bebes.
O indio deitou um olhar colerico a Anzani, mas o olhar d'este encontrou o seu,—o relampago havia encontrado o relampago.
Anzani dizia muitas vezes:
—A unica força que existe é a moral. Olhae fixa e obstinadamente o homem que vos encarar, se elle abaixar os olhos, estaes senhor d'elle, mas se pelo contrario sois vós que os abaixaes estaes perdido.
O olhar de Anzani tinha um irresistivel poder. Foi o indio que foi vencido, e conhecendo a sua inferioridade, e furioso d'este poder desconhecido, quiz ganhar animo bebendo.
—Está bem, disse elle, ahi tens meia piastra, da-me de beber.
—É obrigação minha servir quem me paga, disse tranquilamente Anzani.
E deu ao indio um copo de agua-ardente.
O indio bebeu.
—Outro, disse elle.
Anzani deu-lhe outro copo.
O indio bebeu-o como o primeiro.
—Ainda outro, disse elle.
Em quanto Anzani teve dinheiro suficiente para se pagar da despeza do indio, não lhe fez nenhuma observação, mas quando o bebedor já não tinha dinheiro para pagar, cessou de encher-lhe o copo.
—Então? perguntou o selvagem.
Anzani fez-lhe a sua conta.
—Depois? insistiu o selvagem.
—Depois?... Como não tem dinheiro, não bebe mais agua-ardente, respondeu Anzani.
O indio tinha formado bem o seu calculo. Os cinco ou seis copos de agua-ardente que havia bebido, tinham-lhe dado a coragem que havia perdido com o olhar de Anzani.
—Agua-ardente, disse elle levando a mão a uma das pistollas, agua-ardente, ou morres.
Anzani que já previa o final d'esta scena, estava preparado. Tinha cinco pés e nove pollegadas, e era dotado de uma força e agilidade pasmosa. Apoiou a mão no balcão e saltando para o outro lado deixou-se cair sobre o indio, agarrando-lhe o punho direito.
O selvagem não poude aguentar o choque e caiu; Anzani não o largou e poz-lhe o pé no peito.
Então agarrando com a mão esquerda a mão direita do indio, tornando-lhe por isso inoffensiva a arma, Anzani tirou-lhe do cinto as pistollas e punhal, que espalhou pelo armazem, e arrancando-lhe a pistolla da mão, quebrou-lhe o cano na cabeça e na cara, e julgando que o selvagem já se achava bem castigado foi empurrando-o aos pontapés até á porta deitando-o no meio de um grande lamaçal.
O indio levantou-se com muita difficuldade e fugiu, mas em tal estado que nunca mais tornou a apparecer em S. Gabriel.
Anzani havia feito debaixo do nome de Ferrari a guerra de Portugal. Com este nome tinha-se conduzido admiravelmente, ganho a patente de capitão e recebido duas graves feridas: uma na testa, outra no peito, e tão graves que no fim de dezeseis annos morreu por causa d'ellas.
A ferida da cabeça era um golpe de sabre que lhe tinha aberto o craneo.
A do peito foi uma balla que lhe tinha ficado no pulmão, e de que mais tarde lhe nasceu uma phtisica pulmonar.
Quando se lhe fallava dos prodigios de coragem que tinha praticado debaixo do nome de Ferrari, sorria-se e dizia que elle e Ferrari eram dois entes differentes.
Infelizmente não podia, ao mesmo tempo que attribuia os seus prodigios de valor a um ente imaginario, trespassar-lhe as duas feridas.
Tal era o homem de quem me haviam fallado, e a quem eu desejava conhecer e ter por amigo.
Em S. Gabriel soube que tinha ido tratar de alguns negocios a sessenta milhas de distancia. Montei então a cavallo para o procurar.
No caminho, na margem de um pequeno rio, encontrei um homem, com o peito nú lavando uma camisa—vi que era este o homem que procurava.
Dirigi-me a elle, estendi-lhe a mão e disse-lhe quem era.
Desde este momento fomos irmãos.
Já não estava na casa de commercio, e como eu havia entrado ao serviço da republica do Rio Grande. Era commandante de infanteria da divisão de João Antonio, um chefe republicano dos mais conhecidos. Como eu deixava o serviço e dirigia-se aos saltos.
Depois de um dia passado juntos, demos os nossos adresses respectivos e combinámos que não emprehenderiamos movimento algum importante sem o participarmos mutuamente.
Seja-me permittido narrar um facto que dá bem a conhecer a nossa miseria e a nossa fraternidade.
Achava-me tão pobre como Anzani em camisas, em quanto que elle tinha mais um par de calças.
Dormimos no mesmo quarto, mas Anzani partiu antes de romper o dia e sem se despedir.
Quando accordei encontrei sobre o meu leito o melhor dos seus dois pares de calças.
Conhecia apenas Anzani, mas era um d'esses homens que se apreciam á primeira vista, e tanto que quando entrei ao serviço da republica de Montevideo e fui encarregado de organisar a legião italiana, o meu primeiro cuidado foi escrever-lhe convidando-o a vir acompanhar-me.
Veiu com effeito e desde esse dia não nos deixamos mais, até que elle tocando na terra de Italia morreu entre os meus braços.