Misery

Stephen King · Capítulo 4 de 5 · parte 4/4

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Misery

Paul

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Com a espingarda na mão, Annie ficou observando eles irem embora, antes de voltar vagarosamente para casa. Paul ouviu quando ela largou a espingarda na mesa e veio para o quarto. Annie parecia pior do que nunca. Seu rosto estava pálido, e tinha uma expressão furiosa; ela olhava de um lado para o outro, inquieta.

— Eles voltaram — sussurrou ela.

— Vá com calma.

— Eu sabia que esses fedelhos acabariam voltando. E eles voltaram.

— Eles já foram embora, Annie. Você os expulsou.

— Eles nunca vão embora. Alguém deve ter dito a eles que aquele policial esteve na casa da Mulher Dragão antes de desaparecer. E aqui estão eles!

— Annie. . .

— Você sabe o que eles querem?

— Claro, já lidei muito com a imprensa. Eles querem as duas mesmas coisas de sempre: que você cometa algum erro grave enquanto eles estiverem gravando e que alguém pague uns martínis no final da tarde. Mas, Annie, você precisa ficar cal. . .

— É isso o que eles querem! — disse ela, arranhando o rosto com as unhas até sair sangue.

— Annie, pare com isso!

— E mais isso!

Annie deu uma bofetada em si mesma, deixando a marca dos dedos na bochecha esquerda.

— E mais isso!

Outra bofetada, ainda mais forte, que espalhou o sangue que lhe corria pela bochecha direita.

— Pare com ISSO! — gritou ele.

— É isso o que eles querem! — respondeu ela, aos gritos, esfregando as mãos pelo rosto e estendendo-as sujas de sangue para que ele visse. Annie saiu do quarto.

Paul só conseguiu escrever muito tempo depois. A princípio, a imagem de Annie arranhando o rosto não lhe saía da cabeça e o trabalho seguiu lentamente. Ele percebeu, entretanto, que era inútil pensar nela e que era preciso terminar o livro. Logo a história o envolveu e ele se embrenhou pela brecha do papel.

E como sempre acontecia naqueles dias, Paul se entregou ao trabalho com uma abençoada sensação de alívio.

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No dia seguinte, apareceram mais policiais, só que da polícia municipal, não da estadual. Com eles veio um homem franzino carregando uma maleta que só podia ter uma máquina de escrever. Sempre com o rosto impassível, Annie ficou conversando com eles alguns minutos no jardim antes de fazê-los entrar.

Sentado silenciosamente com um maço de folhas no colo (o último bloco de rascunho terminara na noite passada), Paul escutou Annie prestando depoimento à polícia. Ela repetiu exatamente a mesma história que contara a Davi e Golias quatro dias atrás. Para ele, aquilo tudo não passava de pura amolação. E ficou estarrecido ao perceber que estava começando a sentir pena de Annie Wilkes.

O policial de Sidewinder que fez a maioria das perguntas, começou explicando a Annie que ela poderia exigir a presença de um advogado, mas ela recusou a proposta e simplesmente repetiu o que já dissera. Paul percebeu que ela não se contradisse uma só vez.

Eles ficaram na cozinha cerca de meia hora e, no final, o policial perguntou como ela tinha conseguido aqueles ferimentos horríveis no rosto.

— Foi durante a noite — respondeu ela — Tive um pesadelo.

— Que tipo de pesadelo? — perguntou o policial.

— Sonhei que as pessoas se lembravam de mim depois de todos esses anos e começavam a aparecer por aqui novamente.

Quando eles partiram, Annie veio até o quarto. Ela tinha no rosto uma expressão distante e infeliz.

— Isso aqui está ficando muito movimentado — observou ele, com um sorriso.

Annie continuou séria.

— De quanto tempo ainda precisa?

Paul hesitou alguns instantes. Olhou para as folhas datilografadas e para a pilha de folhas escritas à mão.

— Dois dias — disse ele, voltando a olhar para ela. — Talvez três.

— Da próxima vez eles vão trazer um mandato de busca — disse Annie, saindo do quarto antes que Paul pudesse responder qualquer coisa.

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Annie tornou a aparecer à meia noite e quinze.

— Você já devia ter ido para a cama há uma hora atrás, Paul.

Paul levantou os olhos surpreendido por ter sido tirado do mundo encantado do livro — Geoffrey acabara se tornando o herói dessa história e estava frente a frente com a horrenda abelha rainha, com quem teria que lutar para salvar a vida de Misery.

— Não faz mal. Daqui a pouco eu durmo. Tem coisas que se você não escreve na hora, depois não consegue mais.

Paul fez um gesto vago com a mão dolorida. No dedo indicador, havia surgido um calombo — metade calo, metade bolha — no local onde o lápis exercia maior pressão. As cápsulas poderiam lhe aliviar a dor, mas também levariam embora duas idéias.

— Você acha o livro bom, não acha? — perguntou Annie, ternamente. — Bom de verdade. Você já não está escrevendo ele só para mim, não é mesmo?

— Ah, não.

Paul esteve a ponto de dizer: Ele nunca foi para você, Annie; nem para você, nem para aquelas pessoas que assinam suas cartas dizendo "sou sua fã número um". Quando a gente começa a escrever o livro, elas todas estão com a cabeça no mundo da lua. Mas também nunca foi para minhas ex-esposas, nem para minha mãe, nem para meu pai. A razão pela qual os escritores quase sempre colocam uma dedicatória num livro é que o egoísmo deles é tanto que chega a deixar eles mesmos horrorizados.

Mas não seria sensato dizer isso a ela.

Paul escreveu até o dia clarear. Quando foi para a cama, dormiu cerca de quatro horas e teve sonhos confusos e desagradáveis. Num deles, o pai de Annie apareceu subindo uma escada comprida, carregando na mão uma cesta cheia de papéis que pareciam recortes de jornais. Paul tentou gritar, tentou alertá-lo do perigo, mas toda vez que abria a boca, a única coisa que conseguia dizer eram parágrafos bem organizados de uma história, que começavam sempre com as mesmas palavras: "Certo dia, há uma semana atrás. . ." Annie então aparecia aos gritos, descendo o corredor às pressas com as mãos esticadas para empurrar o pai. . .só que os gritos dela estavam se tornando zumbidos estranhos e o corpo dela se encrespou e se curvou para a frente, porque Annie estava se transformando numa abelha.

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No dia seguinte, Annie não recebeu a visita de nenhuma autoridade oficial, mas um bando de visitantes não-oficiais apareceu. Os chamados "curiosos". Certa hora, foi um carro cheio de adolescentes. Quando eles entraram no jardim para manobrarem o carro, Annie saiu de casa correndo e gritando para eles saírem dali se não quisessem levar um tiro.

— Foda-se, Mulher Dragão! — gritou um deles.

— Onde foi que você enterrou ele? — perguntou um outro quando o carro já se afastava, levantando uma nuvem de poeira.

Um terceiro atirou nela uma garrafa. Paul imaginou imediatamente um adesivo para o carro deles: colabore com os delinqüentes juvenis DE SIDEWINDER.

Uma hora mais tarde, Paul viu Annie passando silenciosamente pela janela, com as luvas de trabalho, dirigindo-se para o celeiro. Algum tempo depois, ela voltou com uma corrente enrolada com arame farpado. Annie bloqueou a entrada da casa e prendeu no arame alguns pedaços de pano vermelho para sinalizar a corrente.

— Isso não vai impedir a entrada dos policiais — disse ela ao entrar — mas vai manter longe aqueles fedelhos.

— Hum-hum.

— Suas mãos, Paul. . . parecem inchadas.

— Hum-hum.

— Eu detesto bancar a chata, Paul, mas. . .

— Amanhã. — disse ele.

— Amanhã? Mesmo?

O rosto de Annie se iluminou.

— Espero que sim. Por volta das seis.

— Isso é maravilhoso, Paul! Posso começar a ler agora?

— Eu preferia que você esperasse.

— Então eu espero — disse ela, olhando para ele de um jeito derretido. Paul a detestava ainda mais quando ela o olhava assim.

— Adoro você, Paul. E você sabe disso, não sabe?

— Sei — respondeu ele, voltando ao trabalho.

 

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Naquela noite, Annie lhe trouxe uma pílula de Keflex — ele estava pouco a pouco melhorando da infecção urinaria — e um balde com gelo. Ela deixou ainda uma toalha cuidadosamente dobrada junto dele e saiu sem dizer uma palavra.

Paul largou o lápis e, com a ajuda da mão esquerda, desdobrou os dedos da mão direita. Ele a enfiou no balde de gelo até que ela ficasse dormente e isso fez com que desinchasse um pouco. Em seguida, Paul a enrolou na toalha e ficou contemplando a escuridão até sentir o sangue circulando novamente na mão. Ele pôs a toalha de lado, flexionou os dedos algumas vezes (a princípio fazendo uma careta de dor) e retomou o trabalho.

Quando o dia clareou, Paul empurrou a cadeira vagarosamente até a cama, deitou-se e caiu no sono. Ele sonhou que estava perdido em meio a uma tempestade de neve, mas a neve eram folhas soltas que esvoaçavam pelo mundo, deixando-o desorientado, e cada folha estava datilografada mas nelas não havia nenhum ene, nem tê, nem e, e ele compreendeu que assim que a nevasca passasse, ele próprio teria que preencher à mão cada espaço vazio, decifrando palavras que mal estavam escritas.

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Paul acordou por volta das onze horas. Assim que Annie ouviu movimento no quarto, apareceu com um suco de laranja, as cápsulas e um prato fumegante de sopa de galinha. Annie estava radiante.

— Hoje é um dia muito especial, não é, Paul?

— É, sim.

Paul não conseguiu segurar a colher com a mão direita. Ela estava inchada, vermelha, e dura feito pedra. "Estes últimos dias foram como uma interminável noite de autógrafos", pensou ele.

— Coitada da sua mão, Paul! Vou apanhar mais uma cápsula agora mesmo!

— Não precisa. Esta vai ser a arrancada final; quero meus pensamentos livres de remédios.

— Mas você não pode escrever com a mão desse jeito!

— Não, não posso — concordou ele — Minha mão está um lixo. Vou terminar o livro do mesmo modo que comecei: com a Royal. Umas oito páginas ou dez serão o bastante. Acho que consigo escrever mesmo sem o ene, o tê e o e.

— Eu devia ter lhe comprado outra máquina.

Annie parecia sinceramente arrependida e seus olhos encheram-se de lágrimas. Paul achava cenas ocasionais como essa as mais desagradáveis, pois através delas ele vislumbrava a mulher que ela teria sido se a educação dela tivesse sido correta ou se os remédios que ela ingerira não tivessem lhe afetado tanto as glândulas do corpo. Ou as duas coisas juntas.

— Eu errei. É duro admitir, mas é verdade. Só porque não quis aceitar que aquela mulher, Nancy Dartmonger, tivesse levado a melhor. Desculpe-me, Paul. . . Coitada da sua mão. . .

Annie levantou a mão dele, cuidadosamente, imitando Níobe, e a beijou.

— Está tudo bem — garantiu ele. — Nós vamos nos entender, Ducky Daddles e eu. Eu odeio, mas como acho que ela também me odeia, ficamos empatados.

— De quem você está falando?

— Da Royal. Eu a apelidei assim por causa daquele personagem da história em quadrinhos.

— Ah!. . .

Annie apagou. Desligou-se completamente. Paul esperou que ela voltasse a si enquanto tomava a sopa, segurando a colher desajeitadamente entre o dedo indicador e o dedo médio da mão esquerda. Quando finalmente voltou a si, Annie abriu um sorriso radiante, como alguém que acaba de acordar e percebe que vai fazer um lindo dia.

— Já acabou? Se tomou tudo, tenho algo especial para você.

Paul inclinou o prato mostrando a ela apenas um punhado de massinhas que ficara no fundo.

— Viu como sou uma boa abelha operária, Annie? — perguntou ele sem o menor vestígio de sorriso nos lábios.

— Você é a melhor abelha operária que jamais existiu, Paul, e merece um prêmio por isso! Para falar a verdade. . . espere! Espere até ver o que eu trouxe para você!

Annie saiu do quarto às pressas. Paul olhou para o calendário, virou-se para o Arco do Triunfo e depois olhou para cima, onde os Ms entrelaçados dançavam no teto. Por último, Paul encarou a máquina de escrever e a enorme pilha de papéis desalinhados. Adeus para vocês, pensou ele, vagamente, quando Annie apareceu com outra bandeja na mão.

Havia quatro pratos na bandeja: um com fatias de limão, outro com ovos mexidos e um terceiro com torradas. O quarto prato era um pouco maior e estava ao centro. Nele havia um enorme (porcaria) monte de caviar.

— Não sei se você gosta — disse ela, timidamente. — Eu mesma não sei se gosto. Para dizer a verdade, nunca provei.

Paul começou a rir. Paul riu até a barriga doer, até as pernas doerem, até a própria mão doer; muito em breve, ele provavelmente teria mais alguma parte do corpo doente já que Annie era paranóica o bastante para achar que se alguém estava rindo, só podia estar rindo dela. Mas ainda assim, ele não conseguiu parar. Paul continuou a rir até perder o fôlego e se engasgar; suas bochechas ficaram vermelhas, os olhos cheios de água. Aquela mulher cortara seu pé com um machado, serrara seu dedo com uma faça elétrica e agora aparecia com uma montanha de caviar suficiente para alimentar um elefante. Mas para sua surpresa, aquele olhar sombrio não tomou conta do rosto dela. Ao contrário, Annie começou a rir também.

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Caviar é uma dessas coisas que você adora ou detesta, mas Paul não era nem de uma opinião nem de outra. Quando voava na primeira classe e a aeromoça colocava um prato de caviar na frente dele, Paul comia e depois se esquecia que caviar existia; até a próxima vez que uma aeromoça colocasse um prato de caviar na frente dele. Agora, porém, Paul comeu avidamente, com todos os acompanhamentos a que tinha direito, como se tivesse descoberto os prazeres da comida pela primeira vez na vida.

Annie não gostou nem um pouco de caviar. Ela beliscou a pontinha de uma torrada, fez uma cara de nojo e deixou de lado. Paul, entretanto, comeu com sofreguidão. Em quinze minutos, devorara metade do monte Beluga... Paul deu um arroto, cobriu imediatamente a boca com as mãos e olhou para ela, receoso. Mas Annie soltou uma alegre gargalhada.

Eu vou matar você, Annie, pensou ele, sorrindo para ela. Vou matar você de verdade. Pode ser que eu vá junto — o que provavelmente vai acontecer —, mas irei com a barriga entupida de caviar. Podia ser pior.

— Estava uma delícia, mas não agüento mais.

— Se comer mais, vai acabar vomitando. Isso aí tem muito condimento — disse ela, sorrindo para ele. — Mas ainda preparei outra surpresa! Uma garrafa de champanha! Só que é para mais tarde. . . quando você terminar o livro. É uma garrafa de Dom Pérignon. Custou setenta e cinco dólares! Uma única garrafa! Mas Chuckie Yoder, da loja de bebidas, me garantiu que esta é a melhor.

— Chuckie Yoder tem toda razão — Paul lembrou-se que o Dom Pérignon era parcialmente culpado por ele ter vindo parar nesse inferno. Depois de alguns instantes, ele pediu: — Eu gostaria de uma outra coisa também, quando terminar o livro.

— E o que é?

— Você disse certa vez que tinha guardado todas as minhas coisas.

— E guardei.

— Bem. . . dentro da minha pasta tem um maço de cigarros. Eu gostaria de fumar um cigarro quando terminasse o livro.

O sorriso de Annie fechou pouco a pouco.

— Você sabe que essas coisas não lhe fazem bem, Paul. O fumo provoca câncer.

— Annie, você acha que a essa altura eu vou me preocupar com câncer?

Ela não respondeu.

— Eu quero um só. Sempre que termino um livro, eu gosto de me recostar na cadeira e fumar um cigarro. Acredite em mim: esse é o que tem o melhor sabor, melhor até do que aquele que você fuma depois de um belo jantar. Pelo menos, é assim que costumava ser. Imagino que agora eu possa até ficar tonto ou ter ânsia de vômito, mas gostaria de manter esse pequeno vínculo com o passado. O que você me diz, Annie? Vamos, lá, seja camarada. Eu tenho sido.

— Está bem. . . mas antes do champanha. Eu não vou tomar uma bebida espumante de setenta e cinco dólares no mesmo quarto em que você estiver soprando esse veneno no ar.

— Ótimo. Se você me trouxer na hora do almoço, eu vou deixar no peitoril da janela, onde eu possa vê-lo de vez em quando. Quando terminar o livro, eu preencho as letras, acendo o cigarro e fumo até achar que vou desmaiar. Depois eu te chamo.

— Está bem, mas saiba que eu não estou gostando nada disso. Mesmo que você não vá pegar um câncer de pulmão por causa de um cigarro só, eu continuo não gostando. E sabe por quê, Paul?

— Não.

— Por que só as abelhas não-operárias é que fumam — concluiu ela, recolhendo os pratos.

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- Senhor Ian, ela está..?

- Shhhhh! - fez Ian, exaltado.

Hezekiah calou a boca. Geoffrey sentiu o coração disparar. La de fora, vinha o rangido suave dos cordames, o barulho suave das velas batendo nas primeiras brisas refrescantes e, de vez em quando, ouvia-se o grito de um pássaro. Ao longe, Geoffrey ouvia um grupo de homens no convés cantando uma canção de marinheiros, com suas vozes desafinadas. Aqui dentro, porém, tudo era silêncio. Três homens, dois brancos e um negro, esperavam para ver se Misery viveria... ou...

Ian deu um gemido rouco; Hezekiah cruzou os braços com força; Geoffrey mal conseguia controlar seu estado já quase histérico. Depois de tudo aquilo, será que Deus poderia ser tão cruel a ponto de deixar Misery morrer? Em outras circunstâncias, Geoffrey teria se atrevido a negar uma possibilidade dessas, muito mais por graça do que por indignação. A idéia de um Deus cruel lhe soaria terrivelmente absurda em outros tempos.

Mas suas opiniões a respeito de Deus, assim como a respeito de muitas outras coisas, haviam mudado bastante, e essa mudança ocorrera na África. Foi na África que ele descobriu que não havia um só Deus, mas muitos deuses - e que muitos deles eram mais que cruéis - eram loucos. E isso mudava tudo. A crueldade podia ser compreendida. Quanto à loucura, não havia argumentos.

Se a sua Misery estava mesmo morta, como temia, Geoffrey iria até a proa e se jogaria ao mar. Ele sempre soubera que os deuses eram severos, e sempre aceitara esta idéia. Mas Geoffrey não tinha vontade de viver num mundo em que os deuses fossem loucos.

Esses pensamentos mórbidos foram interrompidos pela voz ofegante e estridente de Hezekiah.

- Senhor Ian! Senhor Geoffrey! Os olhos dela! Estão mexendo! Os magníficos e brilhantes olhos de Misery se abriram. Eles miraram Ian, depois Geoffrey, e Ian novamente por alguns instantes Geoffrey sentiu que eles estavam confusos; mas quando percebeu que ela os reconhecia, ele sentiu uma felicidade imersa lhe invadir a alma.

- Onde estou? - perguntou ela, bocejando e esticando o corpo - Ian... Geoffrey... Estamos num navio? Por que estou com tanta fome?

Rindo e chorando ao mesmo tempo, Ian abraçou-a, repetindo incansavelmente o nome da esposa.

Misery abraçou-o também, entre confusa e feliz. Ao ver Misery bem outra vez, Geoffrey sentiu que poderia suportar a felicidade dos dois até o fim da vida. Ele ficaria sozinho, mas estaria em paz.

Os deuses talvez não fossem loucos , afinal; pelo menos, não todos.

- Acho melhor deixarmos os dois sozinhos, não acha? - disse Geoffrey, tocando Hezekiah no ombro.

- Acho sim, senhor Geoffrey. - respondeu ele com um sorriso, deixando a mostra seus sete dentes de ouro.

Geoffrey deu um último olhar para Misery. Por apenas um segundo, aqueles magníficos olhos azuis contemplaram os seus. Geoffrey se sentiu aquecido, preenchido por completo.

"Eu te amo, minha querida, pensou ele, "você pode me ouvir?" Talvez a resposta tenha sido apenas um apelo desesperado de seu próprio coração, mas ele achava que não. Ela foi tão clara; tão parecida com a voz de Misery.

Sim, eu posso ouvi-lo... Também te amo.

Geoffrey fechou a porta atrás de si e dirigiu-se para a proa do navio. Ao invés de se jogar ao mar, como pensara fazer, ele acendeu o cachimbo e fumou lentamente, enquanto contemplava o sol descendo por trás daquela silhueta distante que se perdia no horizonte - a silhueta da África.

E como não havia outro jeito, Paul arrancou a folha da máquina e rabiscou a caneta a palavra mais amada e mais detestada do vocabulário de um escritor:

 

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A mão inchada de Paul resistiu na hora de preencher as letras que faltavam, mas ele as obrigou ao trabalho. Afinal de contas, se elas não ficassem um pouco mais flexíveis, ele não conseguiria ir até o fim.

Quando terminou, Paul largou a caneta e ficou contemplando o trabalho. E como sempre acontecia quando terminava um livro, ele se sentiu estranhamente vazio, abatido, consciente de que por um mínimo de sucesso ele pagara um preço absurdo.

Era sempre assim — sempre assim. Era como subir um caminho íngreme no meio do mato e, depois de muito esforço, descobrir a paisagem nada gratificante de uma auto-estrada com alguns postos de gasolina.

Ainda assim, era bom terminar — sempre bom terminar. Era bom produzir, ter criado alguma coisa. De certa forma, ele compreendia e apreciava este ato de heroísmo em criar pequeninas vidas que não existiam, em dar a sensação de movimento e a ilusão de vida. E compreendeu — finalmente — que ele era um pouco tolo em usar esse truque, mas este era o único truque que ele conhecia. E, se sempre terminava sentindo-se vazio, ele jamais deixara de fazê-lo com amor. Paul acariciou as folhas e sorriu.

Em seguida, ele apanhou o Marlboro que ela deixara no peitoril da janela. Ao lado, havia um cinzeiro de cerâmica com o desenho de um barco de passeio a vapor e, em volta, os dizeres: lembrança DE HANNIBAL, MISSOURI — O LAR DO CONTISTA AMERICANO.

No cinzeiro havia uma caixa de fósforos com um único palito dentro — tudo o que ela lhe permitira. Um palito, porém, era o bastante.

Paul pôde ouvir Annie no andar de cima. Ótimo. Ele tinha tempo suficiente para fazer alguns preparativos, e tempo suficiente para saber se Annie estava descendo antes dele estar pronto para ela.

Chegou a hora do truque para valer, Annie. Vamos ver se eu consigo. Vamos ver: "Você Consegue", Paul?

Ignorando a dor nas pernas, Paul abaixou-se e removeu o pedaço solto do rodapé.

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Cinco minutos mais tarde, Paul chamou por ela e ouviu as pesadas passadas de Annie descendo as escadas. Ele imaginava que quando este momento chegasse, ele ficaria extremamente nervoso, mas para seu alívio percebeu que estava bastante calmo. O quarto estava tomado pelo cheiro forte do fluido, que escorria pela tábua de madeira entre os braços da cadeira e pingava pelo chão.

— Paul, você acabou mesmo? — perguntou ela, ainda no corredor.

Paul olhou a pilha de papéis encharcada de fluido em cima da tábua de madeira, ao lado da insuportável máquina de escrever.

— Bem. . . fiz o melhor que pude, Annie.

— Que maravilha! Mal posso acreditar! Depois de todo esse tempo! Espere um instante, vou apanhar o champanha!

— Ótimo!

Paul ouviu os passos de Annie pisando forte no chão da cozinha. Estou ouvindo esses passos pela última vez, pensou ele, maravilhado. Essa sensação abalou ligeiramente a sua calma. O medo começou a rondá-lo. . . juntamente com um outro sentimento. Algo que ele supôs vir da distante costa da África.

A porta da geladeira foi aberta e fechada. E ela vinha atravessando a cozinha. E ela vinha para cá.

Paul não havia fumado o cigarro, é claro. Ele continuava no peitoril da janela. Era o fósforo que ele queria. Aquele único palito de fósforo.

E se não acender?

Agora, porém, era tarde demais para pensar nisso.

Paul esticou a mão e apanhou o cinzeiro com a caixa de fósforos. Ele pegou o único palito. Annie vinha pelo corredor. Paul riscou o palito e, com efeito, ele não acendeu.

Calma. Com calma ele acende! Paul riscou novamente. Nada. Calma. . . calma. . .

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— Espero que. . .

Annie estacou na porta do quarto e engoliu o que ia dizer. Paul estava na cadeira, por trás de uma barricada de papéis empilhados e da antiquada máquina de escrever. Paul virara de propósito a primeira folha da pilha para que Annie a lesse:

A VOLTA DE MISERY

De Paul Sheldon

Em cima da pilha encharcada de fluido pairava a mão trêmula e inchada de Paul, segurando um palito de fósforo aceso.

Parada no meio da porta, uma Annie boquiaberta segurava uma garrafa de champanha enrolada num guardanapo.

— Paul? — disse ela, com cautela. — O que você está fazendo?

— Já fiz. E ficou bom, Annie. Você tinha razão. Este é o melhor livro da série, talvez o melhor livro que eu jamais tenha escrito em toda a minha vida. Agora vou fazer um pequeno truque com ele. Um truque daqueles! Aprendi com você.

— Paul, não! — gritou ela agoniada, ao compreender o que estava prestes a acontecer. Ela levantou os braços e a garrafa de champanha explodiu no chão feito um torpedo, espalhando espuma para todos os lados. — Não! Não! POR favor, NÃO!..

— Pena que você não vá ler o livro nunca! — disse ele com um sorriso sincero e radiante, o primeiro sorriso de verdade, em meses. — Modéstia à parte, o livro é muito bom. Ele é magnífico, Annie!

A chama do fósforo estava quase tocando a ponta dos dedos dele, e Paul largou-o. Por um segundo, ele teve medo que o fósforo tivesse apagado durante a queda, mas uma chama azulada surgiu na primeira folha e, com um chiado suave, começou a se espalhar pela pilha de papel, até se tornar forte e amarelada.

— POR DEUS, NÃO! — gritou ela — MISERY NÃO! MISERY NÃO! NÃO ELA! ELA NÃO! NÃO! NÃO!

O rosto de Annie bruxuleava por trás das chamas.

— Quer fazer algum pedido, Annie? — gritou ele, em resposta — Quer fazer algum pedido, sua bruxa fodida!

— MEU DEUS DO CÉU, PAUL, O QUE É QUE VOCÊ ESTÁ FAZEEEEEEEEEEENDO!

Annie se precipitou para a frente, com os braços esticados. A pilha de papel estava incendiando. A Royal começou a ficar enegrecida. O fluido escorrera para debaixo dela e algumas chamas azuladas dançavam por entre as teclas. Paul sentia o rosto pelando, a pele tostando.

— MISERY NÃO! VOCÊ NÃO PODE QUEIMAR MISERY! SEU FEDELHO! SEU PORCARIA! VOCÊ NÃO PODE QUEIMAR MISERY!

E então ela fez exatamente o que Paul esperava que ela fizesse. Annie agarrou a pilha de papel em chamas, com intenção de correr para o banheiro e, talvez, afundá-la na banheira.

Quando ela deu as costas, Paul ergueu a máquina acima da cabeça, sem se importar com as queimaduras que o ferro quente deixava em suas mãos, especialmente na direita, tão inchada. Pequenas gotas de chama azulada caíram do fundo da Royal, mas Paul não deu a elas mais atenção do que à dor que sentiu nas costas ao erguer a máquina pesada. Em seu rosto havia apenas uma expressão enlouquecida de esforço e concentração. Paul atirou a máquina e acertou nas costas sólidas e largas de Annie.

Com um gemido estridente, Annie caiu no chão, por cima da pilha em chamas.

A superfície da tábua que lhe servira de escrivaninha estava pontilhada de pequenas chamas azuladas. Ofegante, Paul atirou-a longe e, sentindo o cheiro do ferro queimado, ele ficou de pé, pulando na perna direita.

Annie gemia e se contorcia no chão. Uma chama surgiu entre o corpo dela e o braço esquerdo e ela gritou. Paul sentiu o cheiro da pele e gordura queimando.

Annie se jogou para o lado e conseguiu ficar de joelhos. A maioria das folhas se espalhara pelo chão, umas pegando fogo, outras espumando no champanha. Mas ela ainda tinha algumas na mão. O casaco começou a pegar fogo; cacos de vidro estavam espetados nos braços dela e um pedaço maior penetrara na bochecha.

— Eu vou te matar! — disse ela, cambaleando na direção de Paul. Ainda de joelhos, ela deu três "passos" e caiu em cima da máquina. Ela se contorceu de dor e virou de frente, mas Paul se jogou sobre ela, sentindo o formato da máquina, mesmo por baixo do corpo de Annie. Ela gritou, esperneou e tentou sair de baixo dele.

As chamas começaram a cercar os dois e Paul sentiu o calor implacável saindo daquele monte de carne que se contorcia e tentava se levantar. Ele sabia que pelo menos o casaco e a combinação deviam estar grudados no corpo de Annie, mas não teve pena.

Ela tentou fazê-lo cair, mas ele agüentou firme. Deitado em cima dela, Paul parecia um homem prestes a cometer um estupro. Seu rosto estava frente a frente com o dela. A mão dele apalpava o chão à procura de alguma coisa que ele sabia muito bem o que era.

— Saia de cima de mim!

Paul alcançou a ponta de uma folha em chamas.

— Saia de cima de mim!

Ele amassou a folha, apertando o fogo entre os dedos. Paul sentia o cheiro de Annie — um cheiro de carne queimada, suor, ódio e loucura.

— SAIA DE CIMA DE MIM! — gritou ela, escancarando a boca. Paul viu-se, de súbito, olhando para dentro da caverna úmida e avermelhada da deusa.

— SAIA DE CIMA DE MIM, SEU PORCARIIIIIIA. . .

Paul enfiou a folha, meio branca, meio chamuscada, dentro daquela garganta aberta e estridente. Os olhos dela se arregalaram, num misto de horror, choque e dor.

— Aqui está o seu livro, Annie! — disse ele, ofegante, enquanto amassava outro bolo de papel, encharcado de champanha.

Annie se contorceu e o punhado de carne saliente que restara do joelho de Paul bateu no chão, causando uma terrível onda de dor — mas ele continuou em cima dela. Eu vou acabar com você, vou sim, Annie. Vou acabar com você, porque a única coisa que posso fazer é também a pior coisa que está ao meu alcance. Engula o meu livro! Engula o meu livro! Engula até SUFOCAR! Paul enfiou o bolo de papel molhado pela garganta dela, num gesto furioso, empurrando ainda mais para dentro o primeiro maço de papel chamuscado, que ele enfiara anteriormente.

— Aqui está, Annie. O primeiro e único exemplar da Edição Annie Wilkes. Que tal? Coma, Annie, aproveite, seja uma boa abelha operária e coma o seu livro inteiro!

Paul enfiou um terceiro bolo de papel; e um quarto. O quinto ainda estava em chamas, mas a palma da mão dele, cheia de bolhas, apagou o fogo quando entrava na boca de Annie.

Um gemido estranho começou a surgir dentro dela e, subitamente, ela deu um empurrão extraordinário e Paul foi ao chão. Com dificuldade, Annie conseguiu ficar de joelhos. Ela levou as mãos à garganta inchada e escurecida. Com exceção da gola, o casaco dela pegara fogo por completo. A pele da barriga estava coberta de bolhas e o champanha escorria do bolo de papel que ela tinha na boca.

— Mmrnmm! Mmft! Mmmft!

Ainda segurando a garganta, Annie conseguiu ficar de pé. Paul se arrastou desajeitadamente pelo chão, olhando para ela com atenção.

— Mmmmm! Mmmft! Mmmmmft!

Ela deu um passo na direção dele. Dois. E tropeçou caindo em cima da máquina. Dessa vez, a cabeça dela ficou virada para o lado, e Paul pôde perceber no rosto dela uma expressão incrédula e horrorizada: O que aconteceu, Paul? Eu estava lhe trazendo champanha, não estava?

Caída de encontro à parede, Annie parecia um saco de entulho que despencara no chão com um estrondo que abalara a estrutura da casa.

43

O corpo de Annie apagara a pilha de folhas em chamas. Elas agora não passavam de um monte preto e fumegante no meio do quarto. A espuma do champanha apagara a maioria das folhas soltas, mas algumas haviam voado de encontro à parede e o papel de parede, à esquerda da porta, tinha alguns pontos de fogo. . . mas sem grande intensidade.

Apoiando-se nos cotovelos, Paul foi se arrastando até a cama e puxou a colcha. Do mesmo jeito, voltou rastejando em direção à parede, afastando os cacos do caminho com a palma das mãos. Suas costas estavam machucadas; a mão direita, gravemente queimada; a cabeça doía; o estômago estava embrulhado com o doce aroma de carne queimada — mas ele estava livre. A deusa estava morta e ele estava livre.

Paul apoiou-se no joelho direito e levantou-se desajeitadamente. Com a colcha molhada de champanha e suja de cinzas, ele começou a apagar as chamas. Quando apagava uma folha perto do rodapé, alguma coisa se incendiou no meio da parede. O calendário, nada mais.

Paul voltou rastejando em direção à cadeira. No meio do caminho, Annie abriu os olhos.

44

Paul não acreditou no que estava vendo: Annie se levantou lentamente e ficou de joelhos. Paul continuava apoiado nas mãos, as pernas largadas para trás, uma versão adulta do sobrinho do Popeye.

Não. . . não, você morreu.

Você está enganado, Paul. Você não pode matar a deusa. A deusa é imortal. Agora é preciso enxaguar.

Os olhos de Annie, horríveis, estavam esbugalhados. Um ferimento enorme no alto da cabeça minava sangue por todo o rosto dela.

— Sssseeeeuu. . .— tentou gritar ela, com a garganta entupida de papel.

Annie começou a vir na direção dele, os braços esticados para pegá-lo.

— Ssseeeeuuu tttrraappaaa. . .

Paul deu meia-volta e começou a rastejar em direção à porta. Annie estava atrás dele. Quando atravessava os cacos de vidro, ele sentiu a mão dela agarrando seu tornozelo esquerdo. Annie agarrou-o com força e Paul soltou um grito de dor.

— Seu trapa. . . — fez ela, exultante.

Paul virou a cabeça. Annie estava ficando roxa e inchada. E ele percebeu que ela estava se transformando mesmo na deusa dos Bourkas.

Com toda força, Paul deu um puxão na perna sem pé e ela se soltou das mãos de Annie. Ela ficou apenas com a tira de couro que usara para apertar o coto da perna.

Paul começou a chorar e continuou rastejando pelo chão. Seu rosto cobriu-se de suor. Apoiado nos cotovelos, Paul se arrastava como um soldado tentando passar por baixo de uma rajada de metralhadora. E bem atrás dele, o barulho surdo de um joelho batendo no chão. E outro. E mais outro. Ela vinha atrás dele. Annie era tão forte quanto ele sempre receara.

Ele a queimara, quebrara a coluna dela enchera a goela de papel e ela ainda ainda ainda vinha atrás dele.

— . . .ceiro! — gritou ela — Trapa. . . ceiro!

Um caco de vidro entrou no cotovelo de Paul, mas ele seguiu em frente. Paul seguiu em frente, como se tivesse uma tachinha enfiada no braço.

Annie agarrou-o pela batata da perna.

— Ah!. . . Agh!. . . Agh!

Paul virou outra vez. Sim, o rosto de Annie estava preto, cada vez mais preto, os olhos cheios de sangue saltavam do rosto e as veias da garganta estavam inchadas, salientes. A boca de Annie começou a se mexer e Paul percebeu que ela estava tentando rir.

Paul já estava perto da porta. Paul se agarrou desesperadamente no batente da porta.

— Ah!. . .Agh!. . .Agh! A mão dela na coxa dele. Um joelho. Outro.

Mais perto. A sombra de Annie. A sombra de Annie o cobriu.

— Não! — gritou ele.

Paul sentiu que Annie puxava sua perna com força. Agarrado junto à porta, Paul fechou os olhos.

— Ah!. . .Agh!. . . Agh!

Em cima dele. Tambores. Deusa-tambor.

As mãos de Annie subiram pelas costas de Paul como duas aranhas e ela agarrou-o pelo pescoço.

— Ah!. . . Agh!. . . Trapa. . . ceiro!

Paul ficou sem ar. Paul continuou agarrando a porta. Paul continuou agarrando a porta e sentiu Annie em cima dele sentiu as mãos de Annie apertando o seu pescoço e ele gritou. Será que você não morre será que você não morre nunca será que. . .

— Ah!. . . Ah. . .

A pressão no pescoço diminuiu. Por alguns instantes, Paul conseguiu respirar. Annie, então, caiu em cima dele. Aquele monte de carne flácida caiu em cima dele e Paul não conseguiu mais respirar.

45

Paul esforçou-se para sair de baixo dela como um homem que tenta sair de baixo de uma avalanche. E para isso teve que reunir toda a força que lhe restara.

Ele rastejou para fora do quarto, sempre esperando que a mão de Annie o agarrasse pelo tornozelo a qualquer momento. Mas isso não aconteceu. Ela continuava parada, com a cara no chão, em meio a uma poça de sangue, champanha e cacos de vidro. Será que estava morta? Ela tinha que estar morta. Mas Paul não acreditava muito.

Ele bateu a porta. A tranca que ela colocara por fora lhe pareceu alta demais, mas ele conseguiu se levantar até alcançá-la. Paul fechou a tranca e caiu no chão, num acesso de tremedeira.

Por um tempo indeterminado, ele deixou-se ficar naquele estado de entorpecimento. Até que escutou um barulho. Os ratos, pensou ele. São os ra. . .

Os dedos grossos e ensangüentados de Annie surgiram por baixo da porta e lhe agarraram a camisa.

Com um grito, Paul jogou-se para o lado e as pernas latejaram de dor. Paul fechou a mão e martelou aqueles dedos incessantamente. E ao invés deles recuarem, eles apenas tremeram e estacaram.

Que este seja o fim dela. Por favor Meu Deus permita que este seja o fim dela.

Paul agora sentia dores terríveis. Ele começou a rastejar em direção ao banheiro, mas voltou os olhos no meio do caminho. Lá estava a mão de Annie por baixo da porta. Por mais que as dores o afligissem, Paul não agüentava olhar para aquela mão estendida. Ele deu meia-volta e empurrou-as para dentro. Paul teve que se controlar muito para conseguir tal coisa. Ele estava certo de que ela o agarraria assim que se aproximasse.

Quando finalmente chegou ao banheiro, todo o seu corpo doía. Ele entrou e fechou a porta.

Meu Deus, e se ela mudou os remédios de lugar?

Mas ela não tinha feito isso. Aquele emaranhado de caixas continuava no mesmo lugar, inclusive as amostras grátis de Novril. Paul tomou três delas sem água, e rastejou até a porta, bloqueando a entrada com o peso do corpo.

Paul adormeceu.

46

Já estava escuro quando Paul acordou. A princípio ele não soube dizer onde estava — como seu quarto ficara tão pequeno? E então ele se lembrou de tudo e experimentou uma estranha certeza: ela não morrera, mesmo agora ela não morrera. Annie estava do outro lado da porta, com o machado na mão, esperando por ele. Quando colocasse a cabeça para fora ela desceria o machado em seu pescoço e sua cabeça sairia rolando feito uma bola de boliche — enquanto Annie ria e ria.

Isso é loucura, disse ele, tentando convencer a si mesmo. Mas foi então que ele ouviu — ou pensou ouvir — um suave farfalhar, como a saia engomada de uma mulher roçando suavemente contra a parede.

É invenção sua. É a sua imaginação... tão vívida

Não. Eu ouvi, sim

Mas ele não tinha ouvido nada. E sabia que não. Paul esticou a mão em direção à maçaneta, mas recuou. Ele sabia que não tinha ouvido nada, mas. . . e se tivesse?

Ela pode ter saído pela janela.

Paul, ela está morta;

A resposta, ilógica e implacável: A deusa nunca morre.

Paul percebeu que estava mordendo os lábios furiosamente e obrigou a si mesmo a parar com aquilo. Não era assim que se ficava maluco? Era. Paul estava muito perto da loucura, mas, não tinha motivo? Mas se permitisse que a loucura se instalasse — e os policiais finalmente aparecessem dentro de um ou dois dias para encontrar apenas uma mulher morta no quarto de hóspedes e um punhado de carne chorando no banheiro, um punhado de carne chorosa, que um dia atendera pelo nome do escritor Paul Sheldon — Annie não sairia vitoriosa?

Sem dúvida. Agora, Paulie, você vai ser uma boa abelha operária e vai seguir o roteiro direitinho, certo?

OK.

Paul esticou a mão para virar a maçaneta. . . e recuou outra vez. Ele não conseguiria seguir o roteiro original. Nele, Paul vira a si mesmo colocando fogo nos papéis e vira Annie apanhando as folhas — isso acontecera de verdade. Só que ele devia ter acertado a maldita máquina na cabeça de Annie, não nas costas dela. No roteiro, ele imaginara ir até a sala e incendiar a casa, depois de fugir pela janela. Ele sabia que ia levar um tombo daqueles, mas sabia também o quanto Annie era meticulosa em matéria de trancar as portas. Melhor cair do que morrer carbonizado, dissera João Batista certa vez, se ele não estava enganado.

Se fosse num livro, tudo seria de acordo com o roteiro. . . mas a vida era uma desordem. O que podia ser dito de uma vida em que a maioria das decisões era tomada depois de um copo de bebida ou de alguma outra coisa qualquer? Uma vida que não era sequer dividida em capítulos?

— Uma desordem — murmurou ele — É bom que existam sujeitos como eu para manter a vida bem enxaguada. A garrafa do champanha não estava incluída no roteiro, mas isso era o de menos, comparado à vitalidade sem fim daquela mulher, e à sua atual indecisão.

Enquanto não tivesse certeza de que Annie estava morta, Paul não poderia causar um incêndio capaz de chamar a atenção das pessoas. Não porque Annie pudesse estar viva — ele a queimaria viva sem nenhum remorso.

Não era Annie que o detinha. Era o livro. O livro de verdade. A pilha que ele queimara nada mais era do que uma página-título por cima de folhas em branco, intercaladas por folhas de rascunho. O manuscrito original de A volta de Misery estava bem escondido, embaixo da cama. A não ser que ela esteja viva. Se ela estiver viva, deve estar lá dentro lendo o livro.

E o que você vai fazer?

Espere bem aqui, aconselhou-o uma parte de sua mente. Espere bem aqui, porque é mais seguro.

Mas uma outra parte, essa mais corajosa, insistia para ele seguir o roteiro, pelo menos até onde fosse possível: ir até a sala; quebrar a janela; dar o fora dessa casa horrorosa; dar um jeito de chegar até a estrada e acenar para um carro. Em outros tempos, essa última etapa poderia levar alguns dias, mas, atualmente, a casa de Annie virara um espécie de ponto turístico.

Paul reuniu toda a coragem e virou a maçaneta. A porta abriu lentamente para a escuridão e, com efeito, lá estava Annie, lá estava a deusa, parada nas sombras, o vulto branco do uniforme de enfermeira..

Paul fechou os olhos com força e tornou a abri-los. Sombras, sim. Annie, não. Paul nunca vira Annie vestida de enfermeira, exceto nas fotos dos jornais. Sombras apenas. Sombras e sua (tão vívida) imaginação.

Paul arrastou-se até o corredor e olhou a porta do quarto. Nada. A porta estava fechada. Ele virou em direção a sala.

Havia muitas sombras. Annie podia estar escondida nelas. Annie podia ser uma delas. E ela podia estar segurando o machado.

Paul rastejava.

Ali estava o sofá e Annie estava por trás dele. Ali ficava a porta da cozinha e Annie estava por trás dela. Os tacos rangiam atrás dele e. . . é claro! Annie estava atrás dele!

Paul virou para trás com o coração aos pulos, a cabeça latejando, e Annie estava lá, com o machado levantado, mas só por alguns segundos, antes de se desfazer por entre as sombras. Quando finalmente alcançou a sala, Paul ouviu o barulho de um carro se aproximando e a luz dos faróis iluminou a janela. Paul ouviu os pneus derraparem e compreendeu que eles haviam deparado com a corrente na entrada.

Alguém abriu e fechou a porta do carro:

— Merda! Olhe só para isso!

Paul arrastou-se rapidamente e olhou para fora. Alguém vinha se aproximando da casa. Alguém com um chapéu que tornava aquela silhueta inconfundível. Um policial.

Paul passou a mão na mesinha com as peças de cerâmica — algumas caíram e se espatifaram no chão — e apanhou uma delas. E isso foi como acontece nos livros. A coerência precisa dos romances, cada vez mais rara na vida real.

Era o pingüim sentado no bloco de gelo.

MINHA HISTÓRIA JÁ FOI contada, dizia o letreiro no bloco de gelo. Foi, sim! Graças a Deus!

Apoiado no braço esquerdo, Paul agarrou o pingüim com a mão direita. As bolhas arrebentaram e o pus começou a escorrer. E exatamente como havia feito com o cinzeiro há algum tempo atrás, Paul atirou o pingüim no vidro da janela.

— Aqui! — gritou ele, delirante. — Aqui! Aqui! Por favor! Eu estou aqui!

47

Houve ainda um outro detalhe típico de romance nesse desfecho: os dois policiais que acabavam de chegar eram os mesmos que haviam interrogado Annie a respeito de Kushner, Davi e Golias. Hoje, entretanto, Davi não estava com o casaco abotoado. Ele trazia a arma na mão. Davi chamava-se Wicks; Golias, McKnight. E eles traziam um mandato de busca. Quando finalmente entraram na sala, atendendo aos gritos desesperados de Paul, eles se viram frente a frente com um homem que parecia um farrapo humano.

— Eu me lembro de ter lido um livro quando estava no ginásio — diria Wicks à esposa na manhã seguinte. — Acho que se chamava O conde Monte Cristo, ou talvez O prisioneiro de Zenda. Mas isso não importa. Um dos personagens do livro passara quarenta anos numa solitária. Em quarenta anos, ele não vira uma só pessoa. Era assim que parecia o cara que encontramos ontem.

Wicks faria uma pausa para tentar expressar da melhor maneira o choque entre as diferentes emoções que sentira — horror, piedade, repulsa e compaixão, mas, acima de tudo, surpresa, por encontrar um homem naquelas condições ainda com vida. Ele não tinha palavras para descrever o que sentira.

— Quando nos viu — finalizaria Wicks —, ele começou a chorar. Ele não parava de me chamar de Davi, não sei por quê.

— Talvez achasse você parecido com algum conhecido dele — diria a esposa.

— É, talvez.

48

A pele de Paul estava escura e seu corpo, fraco. Ele esbarrou na mesinha, o corpo tremendo, e virou- se para eles com os olhos esbugalhados.

— Quem é vo. . . ia perguntando McKnight.

— Deusa — interrompeu o homem esquelético jogado no chão. Ele passou a língua nos lábios e prosseguiu: — Tomem cuidado com ela. No quarto. Foi onde me prendeu. Escritor de estimação. Quarto. É lá que ela está.

— Annie Wilkes? — perguntou Wicks, apontando para o corredor.

— Naquele quarto?

— É, lá mesmo. Trancada por fora. Mas claro. Tem a janela.

— Quem é vo. . . ia perguntando McKnight pela segunda vez.

— Pelo amor de Deus, será que você não está vendo? — interveio Wicks. — É aquele cara que Kushner estava procurando. O escritor. Não lembro o nome, mas é ele, sim.

— Graças a Deus. . . — murmurou o homem esquelético.

— O que foi que disse? — perguntou Wicks aproximando-se dele e franzindo as sobrancelhas.

— Graças a Deus não lembra do meu nome.

— Eu não estava atrás de você, amigo.

— Eu sei. Não importa. Mas tomem cuidado. Acho que ela está morta, mas tomem cuidado. Se estiver viva. . . é muito perigosa. . . como uma serpente.

Com um tremendo esforço, Paul colocou a perna retorcida sob o facho de luz da lanterna de McKnight.

— Cortou fora meu pé. Machado.