Misery
Paul
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Na última carta, ela assinara simplesmente Sra Roman D. Sandpiper. O convite para chamá-la de "Virgínia" (embora feito entre parênteses) fora retirado.
Os sentimentos dela, por mais obsessivos que fossem, não tinham chegado à fixação paranóica de Annie, mas Paul compreendeu que eles eram provenientes de uma mesma fonte: o complexo de Scheherazade. O poder atraente, profundo e natural do ter que.
Paul deixou-se levar e adormeceu.
10
Paul passou aqueles dias cochilando como fazem os velhinhos, sem mais nem menos e, às vezes, nas horas mais impróprias, e o seu sono era como o sono dos velhos. Em outras palavras, um sono separado do mundo dos acordados apenas por uma fina película. Ele continuou a ouvir o ruído do cortador de grama, mas este se tornou mais profundo, mais forte e cortante: o ruído de uma faca elétrica.
Ele havia escolhido o dia errado para reclamar da Royal e do ene que faltava, mas era evidente que nunca existiria o dia certo para dizer não a Annie Wilkes. O castigo podia demorar. . . mas não deixava de vir.
Bem, se isso o incomoda tanto, terei que fazer alguma coisa para fazer você parar de pensar nesse velho ene. Paul escutou Annie revirando coisas pela cozinha, jogando outras no chão, e resmungando naquela estranha linguagem de Annie Wilkes. Dez minutos depois ela apareceu com a seringa, o Betadine e a faca elétrica. Paul começou imediatamente a gritar. De certo modo, ele era como os cachorros de Pavlov. Toda vez que Pavlov tocava uma sineta, os cachorros começavam a salivar. Toda vez que Annie entrava no quarto de hóspedes com uma seringa, um vidro de Betadine e algum objeto afiado e cortante, ele começava a gritar. Ela ligou a faca no interruptor próximo à cadeira de rodas e Paul gritou, protestou e fez mais e mais promessas de que seria bonzinho. Quando ele tentou se esquivar da seringa, Annie o avisou para ficar quieto, ou o que estava prestes a acontecer poderia não ter os benefícios de qualquer anestésico. Paul continuou a se afastar da seringa, choramingando e implorando, mas ela sugeriu que talvez fosse melhor usar a faca na garganta dele e acabar logo com tudo.
Ele, então, ficou quieto e deixou que ela lhe aplicasse a injeção, passasse Betadine no seu polegar esquerdo e na lâmina da faca. Quando Annie a ligou, as lâminas se movimentaram para frente e para trás, espalhando gotas marrons de Betadine pelo ar — mas ela pareceu não perceber. No final de tudo, havia também muitas gotas vermelhas espalhadas por todo o lado. Porque quando Annie decidia uma coisa, ela ia até o fim. Annie não se comovia com pedidos. Annie não se comovia com gritos. Annie mantinha-se sempre firme nas suas decisões.
Quando as lâminas trepidantes da faca penetraram por entre a membrana macia que havia entre o dedo indicador e o dedo polegar prestes-a-morrer, Annie assegurou a ele mais uma vez, em seu tom de voz de "isso-dói-mais-na-mamãe-do-que-em-você-Paulie", que ela o amava.
E aí, naquela mesma noite. . .
Você não está sonhando, Paul. Você está pensando coisas que não se atreve a pensar quando está acordado. Então acorde. Pelo amor de Deus, ACORDE!
Paul não conseguia acordar.
De manhã ela cortara seu fora seu dedo polegar e de noite ela entrara no quarto alegremente e ele continuava sentado e meio atordoado pela droga e pelas dores com a mão esquerda enfaixada presa junto ao peito e ela trazia um bolo e berrava ''Parabéns pra você numa voz desafinada mas não era dia de seu aniversário e havia velas espalhadas pelo bolo e bem ao centro espetado no meio do glacê como uma vela extra vinha seu dedo polegar seu dedo polegar morto e cinzento com a unha ligeiramente roída de um lado porque ele costumava roer a unha quando estava à procura de alguma palavra e ela disse a ele se você prometer ficar bonzinho Paul pode comer um pedaço de bolo mas não vai precisar comer nenhum pedaço dessa vela especial e então ele prometeu ficar bonzinho porque não queria ser obrigado a comer daquela vela especial mas também porque especialmente porque certamente porque Annie era a maior Annie era boa vamos agradecer a ela pela comida inclusive aquilo que não teremos que comer as meninas só querem se divertir mas algumas coisa ruim se aproxima por favor não me faça comer o meu dedo Annie mamãe Annie deusa Annie quando Annie está por perto é melhor ser sincero ela sabe quando você se comportou bem ou mal então fique bonzinho pelo amor da deusa é melhor não chorar é melhor não ficar emburrado mas acima de tudo é melhor não gritar não gritar não gritar não
Ele não gritara.
Mas agora, ao acordar, ele gritou. Com um movimento tão brusco que todo o seu corpo doeu e sem perceber que seus lábios estavam grudados um no outro com força para segurar o grito — embora a amputação do dedo já tivesse ocorrido há mais de um mês.
Paul estava tão concentrado em não gritar que nem percebeu o que vinha chegando pela alameda da casa. E quando ele finalmente deu conta, pensou que fosse uma miragem.
Um carro de polícia do estado do Colorado.
11
O período que seguiu à amputação do dedo foi um pouco confuso e a única atividade de Paul, além do livro, era contar a passagem dos dias. Isso já estava se tornando uma obsessão e ele chegava às vezes a perder mais de cinco minutos contando e recontando os dias que haviam passado para ter a certeza de que não esquecera de nenhum.
Você está ficando tão ruim quanto ela. Pensou certa vez.
E daí?, respondeu sua mente, muita abatida.
Paul adiantara bastante o livro depois da amputação do pé, no que Annie chamava, muito afetadamente, de "seu período de convalescença". Não — bastante era falsa modéstia, se é que isso existia. Ele trabalhara maravilhosamente para um homem que no passado se julgava incapaz de trabalhar se estivesse sem cigarros ou com uma dor de cabeça ligeiramente mais forte, ou com dor na coluna. Seria melhor dizer que ele agira como um herói, mas Paul achava que isso era fuga, pois as dores tinham sido realmente insuportáveis. Quando a perna começou finalmente a sarar, surgiu uma "fantasmagórica coceira" no pé que não eslava mais lá, e era ainda pior que as dores. O que mais o incomodava era a falta do pé. Paul acordava inúmeras vezes durante a noite usando o pé direito para coçar o vazio, alguns centímetros abaixo do lugar onde sua perna esquerda agora terminava.
Mas ainda assim ele continuara a trabalhar.
Só depois da amputação do polegar esquerdo, e daquele extravagante bolo de aniversário que parecia ter saído do cenário de Whatever Happened to Baby Jane, foi que a lixeira começou a ficar entupida de folhas amassadas. Ele perde um pé, quase morre, continua trabalhando. Ele perde um dedo da mão e cai num estado de estranhas inquietações. Não devia ser o contrário?
Para dizer a verdade, ele passara uma semana inteira na cama, com febre, mas isso era o de menos; o máximo que sua temperatura chegou a alcançar foi pouco mais de trinta e oito graus e isso não era motivo para nenhum drama. A febre, mais provavelmente causada por um estado geral de enfraquecimento do que por alguma infecção específica, não era problema para Annie. Entre outros souvenirs que ela tinha em casa, havia Keflex e Ampicillin. Ela o medicou e ele melhorou. . . tanto quanto foi possível melhorar dadas as estranhas circunstâncias em ele vivia. Mas havia algo de errado. Ele parecia ter perdido alguma substância vital, e o resultado final não foi muito bom. Paul tentou botar a culpa no ene que faltava na máquina, mas ele já havia pesado isso antes. Afinal de contas, o que era um ene comparado a um pé faltando e, agora, numa atração extra, um dedo da mão faltando?
Mas qualquer que fosse a razão, havia alguma coisa perturbando seu sonho e reduzindo gradualmente a brecha no papel por onde costumava enxergar. No inicio — ele era capaz de jurar! — a brecha era tão larga quanto o Túnel Lincoln. Agora, porém, era menor que um nó na madeira num tapume por onde um pedestre intrometido bisbilhota um prédio lindo em construção. Ele tinha que se retorcer e inclinar o pescoço se quisesse ver alguma coisa e, na maioria das vezes, as coisas realmente importantes aconteciam fora de seu campo de visão. . . o que não era surpresa, já que a brecha era tão pequena.
Em termos práticos, o que aconteceu após a amputação do dedo e a semana de febre era óbvio demais. A linguagem do livro se tornara muito floreada e inflamada — ele não estava parodiando a si mesmo, não muito, mas estava caminhando para isso e se sentia incapaz de evitar. Certos lapsos na continuidade começaram a se multiplicar como ratos se multiplicam silenciosamente pelos cantos do porão. Por cerca de trinta páginas, o Barão se transformou no Visconde de A procura de Misery e ele teve que rasgar todas as folhas.
Não tem importância, Paul, repetia ele, inúmeras vezes, alguns dias antes da Royal cuspir o tê e depois o e. Esse maldito livro está quase no fim. E estava mesmo. Escrever o livro se tornara uma tortura e terminar o livro significava o fim de sua vida. O fato deste último começar a lhe parecer ligeiramente mais atraente do que o anterior dizia tudo o que precisava ser dito a respeito da piora de seu corpo, de sua mente e de seu espírito. O livro seguia em frente, apesar de tudo, como se fosse algo independente. Os lapsos na continuidade eram irritantes, mas secundários. Paul estava tendo mais problemas com o próprio faz-de-conta do que jamais tivera em toda sua vida — o jogo "Você Consegue?" passara de uma simples brincadeira a um exercício elaborado. Apesar de todas as coisas terríveis a que Annie o submetera, o livro continuava a crescer. Ele podia reclamar que perdera alguma coisa — sua energia, talvez — além dos litros e mais litros de sangue que haviam jorrado de seu dedo na amputação, mas a história continuava ótima, de longe o melhor livro da série. O enredo podia ser melodramático, mas era bem trabalhado, e, no seu jeito meio despretensioso, era até divertido. Se algum dia fosse publicado numa quantidade diferente desta tiragem limitada da edição Annie Wilkes, (primeira edição: um exemplar), Paul achava que ia vender horrores. É, ele ia acabar o livro, se aquela maldita máquina não desmontasse.
Você tinha obrigação de ser tão valente, pensou ele certa vez após uma série de exercícios de peso que continuava a fazer. Seus braços estavam finos e trêmulos, o coto do dedo latejava de dor e uma fina camada de suor começava a brotar em sua testa. Você não era aquele jovem pistoleiro metido a valentão que queria fazer nome em cima desse velho xerife? Só que você já perdeu uma letra e venho notando que outras — o tê, o e e o gê, por exemplo — estão começando a ficar meio estranhos. . . às vezes viram para um lado, outras vezes para o outro, às vezes saem por cima da linha, outras vezes por baixo. Acho que este velho xerife talvez ganhe esta rodada, meu caro. Acho que este velho xerife talvez continue a lhe bater até você morre.. . e aquela cadela talvez saiba disso. E por essa razão, talvez, ela tenha cortado meu polegar esquerdo. Como diz aquele velho ditado: ela pode ser maluca, mas não é surda.
Paul olhara para a máquina tenso e cansado.
Vá em frente. Vá em frente e acabe com ela. Vou terminar o livro de qualquer maneira. Se ela quiser me comprar outra máquina, eu agradeço pela gentileza, mas caso contrário termino o livro naquele maldito bloco de rascunho.
A única coisa que eu não vou fazer é gritar.
Eu não vou gritar.
Eu.
Eu não vou.
12
Eu não vou gritar!
Sentado de frente para a janela, Paul agora tinha certeza, certeza absoluta, que o carro de polícia entrando na casa de Annie era tão real quanto seu pé tinha sido um dia.
Grite! Com os diabos, grite!
Paul queria gritar, mas a ameaça tinha sido bem clara — clara demais. Ele nem conseguia abrir a boca. Ele tentou, mas se lembrou dos respingos marrons do Betadine saindo da faca elétrica. Ele tentou, mas se lembrou do machado partindo o osso, do suave chiado do Bernz O-matiC acendendo quando ela riscou o fósforo.
Ele tentou abrir a boca, mas não conseguiu.
Tentou levantar as mãos. Não conseguiu.
Um gemido horripilante saiu de seus lábios cerrados e suas mãos bateram levemente na lateral da Royal — e isso foi tudo que conseuiu fazer, o único gesto que parecia capaz de fazer para controlar seu futuro. Mas nada do que havia lhe acontecido antes — exceto talvez o momento em que ele reparou que sua perna mexia mas o pé continuava imóvel — foi tão terrível quanto aquela imobilidade. Na verdade, ela não durou muito tempo; cinco segundos, talvez, por certo não mais que dez. Para ele, entretanto, pareciam anos.
Bem ali em sua frente estava a salvação: tudo que ele precisava fazer era quebrar o vidro da janela, arrancar a mordaça que aquela cadela colocara em sua boca, e começar a gritar: Socorro! Socorro! Salvem-me de Annie! Salvem-me da deusa!
Ao mesmo tempo, outra voz gritava dentro dele: Eu prometo ser bonzinho, Annie! Eu não vou gritar! Eu vou ser bonzinho, pelo amor da deusa, eu vou ser bonzinho! Eu juro que não grito, não arranque mais nenhum pedaço de mim! Será que até este momento ele tivera alguma vez a consciência exata do quanto ela o deixara acovardado, do quanto ela havia arrancado da parte essencial de sua personalidade, do fogo de seu espírito? Paul tinha consciência do quanto vivia aterrorizado, mas teria também noção do quanto ela suprimira da sua realidade subjetiva, que ele antes julgava tão forte?
De uma coisa ele tinha quase certeza: havia muito mais coisa errada com ele do que a imobilidade, assim como havia muito mais coisa errada com o que ele estava escrevendo do que o ene que faltava, do que a febre, do que os lapsos na continuidade, do que a perda da sua energia. A verdade era tão simples quanto terrível; tão terrivelmente simples. Ele estava morrendo aos poucos, mas morrer desse jeito não era tão ruim quanto ele temia. Mas ele também estava se apagando, o que era péssimo, pois envolvia uma certa debilidade mental.
Não grite!, gritou uma voz em pânico dentro dele ao ver o guarda saindo do carro e ajeitando o boné que lembrava o do Smokey Bear. Ele devia ter uns vinte e dois ou vinte e três anos de idade e usava óculos escuros. No meio do caminho, ele se deteve para ajeitar o vinco da calça caqui do uniforme. A trinta metros dele, um homem envelhecido o observava por trás de uma janela — um homem de olhos azuis a saltarem do rosto lívido e barbudo, gemendo por entre os lábios cerrados e agitando as mãos inutilmente sobre uma tábua apoiada nos braços de uma cadeira de rodas.
não grite (grite, sim) grite e tudo estará acabado grite e será o fim (isso nunca vai ter um fim não até que eu esteja morto aquele menino não é páreo para a deusa). Pelo amor de Deus Paul será que você já morreu e não sabe? Grite, seu titica de galinha! grite até não agüentar mais!
Os lábios de Paul se entreabriram. Ele respirou fundo e fechou os olhos. Não tinha a menor idéia do que ia gritar, se é que ia gritar alguma coisa — até que saiu. — ÁFRICA!
Paul levantou as mãos trêmulas que se agitaram como pássaros assustados e as levou até a cabeça, como se quisesse segurar os miolos prestes a explodir.
— África! África! Socorro! Socorro! África!
13
Paul abriu os olhos. Smokey estava olhando para a casa, mas Paul não pôde ver os olhos dele por causa dos óculos escuros. Ele, entretanto, fez um ligeiro movimento com a cabeça demonstrando certo espanto; deu mais um passo e parou.
Paul olhou para a tábua de madeira. Á direita da maquina havia um pesado cinzeiro de cerâmica, que em outros tempos estaria cheio de pontas de cigarro. Agora, porém, a coisa mais perigosa que havia nele eram clipes de papel e uma borracha. Paul agarrou-o e o jogou pela janela. O vidro se espatifou e Paul julgou que este fosse o barulho mais intenso que ele jamais ouviu. As paredes desmoronaram, pensou ele, irrefletidamente.
— Aqui! Socorro! Cuidado com a mulher! Ela é maluca!
O policial olhou para ele de queixo caído. Ele enfiou a mão no bolso da camisa e apanhou um pedaço de papel que só podia ser o retrato. Depois de olhar bem, ele avançou até a beirada da alameda e anunciou as quatro únicas palavras que Paul o ouviu dizer, as quatro últimas palavras que ele diria em vida. Depois disso, tudo o que ele viria pronunciar seriam gemidos ininteligíveis.
— Ei! É você mesmo!
Paul estivera tão concentrado no policial que só avistou Annie quando já era tarde demais. Mas quando ele finalmente a viu, ficou totalmente aterrorizado. Annie tinha se transformado numa deusa de verdade, metade humana, metade máquina, sentada no alto do cortador de grama Lawnboy, um estranho centauro feminino. O chapéu dela caíra pelo chão e seu rosto contraído mostrava os dentes cerrados. Numa das mãos segurava a cruz de madeira que marcava o túmulo de Bossie — a primeira vaca ou a segunda, Paul não lembrava mais, que finalmente tinha parado de mugir.
Bossie tinha morrido. A chegada da primavera tornou macia a terra e Paul assistiu pela janela — entre mudo de espanto e acessos de riso — ao enterro da vaca. Annie cavou a sepultura (o que tomou grande parte do seu dia), passou uma corrente pela barriga de Bossie (que também se tornara muito mais macia) e puxou-a com o jipe. Paul apostou consigo mesmo que Bossie se partiria ao meio antes de Annie chegar até a sepultura, mas esta aposta ele perdeu. Depois de jogar a vaca no buraco, uma Annie imperturbável começou a cobri-la com terra — uma tarefa que só terminou quando o dia escureceu.
Paul viu ainda quando ela enfiou a cruz na sepultura e leu uma passagem da Bíblia sob a luz da lua que acabava de surgir.
Agora Annie empunhava a cruz como uma lança, com a ponta suja de terra apontada para as costas do policial.
— Atrás de você! Cuidado! — gritou Paul, consciente de que era tarde demais.
Com um grito estridente, Annie afundou a cruz nas costas do rapaz.
Ele gemeu, deu uns passos para a frente, o corpo inclinado para trás. Seu rosto parecia o rosto de um homem tentando expelir uma pedra dos rins ou sofrendo de uma crise de flatulência.
A cruz tombou para o chão à medida que ele se aproximou da janela, por onde o rosto desolado de um inválido o observava através das vidraças despedaçadas. O policial levou a mão até as costas, num gesto que Paul achou semelhante ao de um homem tentando coçar um ponto das costas que nunca conseguiria alcançar.
Annie desceu do Lawnboy e ficou estática, com as mãos cruzadas sobre o bico dos seios. Mas pouco depois avançou em direção ao rapaz e arrancou-lhe a cruz das costas. Ele se virou, tentando apanhar o revólver, mas Annie enfiou a ponta afiada na barriga dele.
Com outro gemido, o policial caiu de joelhos e abraçou a barriga. Paul pôde ver o uniforme dele rasgado nas costas, onde Annie lhe deu a primeira estocada.
Annie soltou a cruz outra vez — a extremidade pontiaguda se quebrara, deixando uma ponta lascada — e furou as costas dele entre as omoplatas — Annie parecia estar querendo matar um vampiro. As duas primeiras estocadas talvez não tivessem sido muito profundas nem causado muito dano mas a terceira perfurou as costas do rapaz e ele caiu estatelado no chão.
— AQUI! — gritou Annie, puxando violentamente a cruz da sepultura de Bossie das costas do policial. — gostou disso, seu velho trapaceiro?
— Annie, pare com isso!
Annie levantou os olhos e virou-se para Paul. Seus olhos escuros faiscavam e os cabelos sujos caíam em desalinho pelo rosto. Seus lábios se abriram ligeiramente num sorriso lunático de quem venceu todos os obstáculos.
— AQUI! — gritou ela, introduzindo a cruz nas costas do rapaz; nas nádegas; na coxa; no pescoço; na virilha; Annie perfurou o policial uma meia dúzia de vezes, gritando "aqui!" a cada gesto, até que a cruz se partisse ao meio.
— Aqui — disse ela distraidamente, dirigindo-se para o mesmo local de onde viera correndo. Pouco antes de passar pela janela, Annie largou a cruz ensangüentada no chão, como um objeto que não tivesse mais nenhum interesse.
14
Paul pôs as mãos nas rodas da cadeira, sem muita certeza de que pretendia ir a alguma parte — quem sabe à cozinha para apanhar uma faca. Não para tentar matar Annie, não, claro que não; quando ela visse a faca sairia correndo para buscar sua arma. A faca não era para matar Annie, mas para defender-se da vingança dela, cortando os pulsos primeiro. Paul não sabia se era esta a sua intenção, mas reconhecia que a idéia era das melhores. Porque se havia uma hora para abandonar o barco, a hora era essa. E ele também já estava cansado de perder pedaços do seu corpo toda vez que Annie ficava com raiva.
Foi então que ele viu uma coisa que o deixou paralisado.
O policial.
O policial ainda estava vivo.
Ele levantou a cabeça. Seus óculos haviam caído e Paul pôde ver os olhos dele. Paul pôde ver como ele era novo, tão novo, tão machucado e tão assustado. Seu rosto estava coberto de sangue. Ele ficou de joelhos, caiu, com um grande esforço tornou a se levantar e começou a rastejar na direção do carro.
Quando estava no meio do caminho entre a casa e a alameda, ele perdeu o equilíbrio e caiu de costas no gramado. Por alguns instantes, ele ficou estendido, com as pernas para o ar, tão indefeso quanto uma tartaruga de cabeça para baixo. Ele conseguiu se virar vagarosamente e esforçou-se outra vez para ficar de joelhos. Seu uniforme estava cada vez mais encharcado de sangue; as manchas menores iam se alastrando sensivelmente até formarem outras maiores.
Smokey conseguiu chegar até a alameda mas, subitamente, o barulho do cortador de grama se fez ouvir.
— Cuidado! — gritou Paul — Ela está voltando! Cuidado!
O policial virou a cabeça e seu rosto ficou tomado de pânico. Ele apanhou a arma — um revólver grande, preto, de cano longo e coronha de madeira — e Annie reapareceu, sentada no alto do Lawnboy, aproximando-se a toda velocidade.
— ATIRE NELA! — gritou Paul.
Mas ao invés de atirar, ele se atrapalhou e a arma caiu ao chão. Ao esticar a mão para apanhá-la, Annie desviou o Lawnboy e passou por cima da mão e do antebraço do rapaz. Um jato assombroso de sangue esguichou pelo bocal de saída de grama. O rapaz vestido no uniforme de polícia soltou um grito estridente. As lâminas giratórias passaram pela arma, provocando um som metálico. Annie veio fazer a manobra perto da janela e por um segundo seus olhos fitaram os de Paul. E ele teve certeza do que aquele olhar significava. Primeiro Smokey, depois você.
O rapaz estava caído de lado, mas ao ouvir o cortador se aproximando, ele se virou e, dando impulso com os calcanhares, tentou desesperadamente entrar debaixo do carro, onde ela não o atingiria.
Mas ele nem chegou perto. Com um grito esganiçado, Annie passou com as lâminas do cortador por cima da cabeça dele.
Paul viu de relance o brilho aterrorizado nos olhos castanhos do rapaz, viu os farrapos da blusa caqui do uniforme saindo de um braço levantado num gesto inútil de defesa, e virou a cabeça.
O motor do Lawnboy engasgou e ele ouviu uma série de barulhos estranhamente líquidos e abafados.
Paul fechou os olhos e vomitou.
15
Paul só tornou a abrir os olhos quando ouviu o barulho de chaves na porta da cozinha. Com a porta do quarto aberta, ele a viu descendo o corredor, metida num velho par de botas marrons, calça jeans com um chaveiro pendurado na presilha do cinto e a blusa masculina salpicada de sangue. Paul encolheu-se de medo e teve ímpetos de dizer: Se você cortar mais algum pedaço de mim eu vou morrer, Annie. Meu corpo não agüenta outra amputação. Eu morro de propósito! Mas ele não conseguiu dizer uma palavra — apenas gemidos aterrorizados que o aborreceram ainda mais.
Annie, entretanto, não deu chance que ele abrisse a boca.
— De você eu cuido mais tarde — disse ela, passando a chave na fechadura, uma Kreig nova que teria derrotado o próprio Tom Twyford em pessoa. Ela atravessou o corredor e suas passadas firmes foram diminuindo pouco a pouco.
Desanimado, Paul olhou pela janela. Apenas uma parte do corpo do rapaz podia ser vista e a cabeça continuava embaixo do cortador de grama, que estava ligeiramente inclinado para o lado. O cortador de Annie era um pequenino trator, próprio para manter gramados pouco maiores que o normal bonitos e bem aparados. Mas não fora projetado para manter-se de pé e equilibrado ao passar por cima de pedras, troncos de madeira ou cabeças de policiais. Se o carro da polícia não estivesse estacionado exatamente onde estava e se o rapaz não tivesse chegado tão perto dele, o cortador teria certamente tombado e Annie teria rolado pelo chão — pode ser que ela saísse ilesa do tombo, mas era possível também que saísse seriamente machucada.
Ela tem uma sorte dos diabos, pensou Paul melancolicamente, enquanto observava. Annie colocou o cortador na posição correta e soltou a cabeça do rapaz com um só empurrão, mas o cortador bateu na lateral do carro da polícia, arranhando a pintura.
Agora que o rapaz estava morto. Paul pôde observá-lo melhor. Ele parecia um boneco grande e maltratado por um bando de crianças levadas. Paul sentiu uma compaixão enorme por aquele rapaz anônimo, misturada com outro sentimento que ele não distinguiu à princípio. Depois de refletir por alguns instantes, ele descobriu, sem muita surpresa, que era inveja. O policial não voltaria mais para casa, para sua esposa e filhos, se é que os tinha, mas em compensação escapara de Annie Wilkes.
Ela segurou a mão ensangüentada do rapaz e o puxou pela alameda até o celeiro, que estava com a porta entreaberta. Quando ia saindo, Annie a abriu por completo, entrou no carro e guardou-o lá dentro também. Annie parecia praticamente serena. Ao sair do celeiro, puxou a porta pelos trilhos e deixou apenas uma abertura suficiente para ela entrar e sair.
Com as mãos na cintura, Annie desceu a alameda até a metade e olhou a sua volta. Mais uma vez, Paul percebeu nela uma extraordinária sensação de serenidade.
A parte inferior do cortador estava toda suja de sangue, especialmente o bocal de saída de grama, onde o sangue ainda pingava. Farrapos do uniforme caqui estavam espalhados pela alameda e pelo gramado recém-cortado. Havia manchas e gotas de sangue por todo o lado. A arma do policial estava largada no chão, com o cano arranhado e reluzindo um brilho metálico onde a pintura soltara. Preso num dos espinhos do cactos que Annie plantara em maio, havia um pedaço de papel retangular. A cruz da sepultura de Bossie ficara na alameda, como uma ilustração daquele espetáculo repugnante.
Annie saiu de seu campo de visão e voltou para casa. Quando entrou na cozinha, Paul a ouviu cantando. Pouco depois ele a viu de novo pela janela, com um grande saco verde de lixo nas mãos e mais uns três ou quatro enfiados nos bolsos da calça. A camisa dela estava molhada de suor embaixo das axilas, em volta do pescoço e, nas costas, uma mancha comprida de suor lembrou a ele vagamente uma árvore.
É muito saco para pouco lixo, pensou ele sabendo perfeitamente que havia lixo bastante para encher todos eles.
Ela catou os trapos do uniforme, apanhou a cruz, partiu-a e enfiou-a no saco. Inacreditavelmente, Annie se ajoelhou e se benzeu depois de jogar a cruz fora. Em seguida, pegou o revólver, descarregou-o e guardou as balas num dos bolsos. Com uma pancadinha de quem tem muita prática no assunto, Annie fechou o tambor da sua arma e enfiou-a na cintura. Quando apanhou o pedaço do papel espetado no cactos, Annie ficou a contemplá-lo muito pensativa. Depois de algum tempo, enfiou-o também num dos bolsos da calça. Ela guardou os sacos de lixo no celeiro e ia se dirigindo para o telheiro ao lado da casa quando alguma coisa lhe chamou a atenção. O cinzeiro. Annie o entregou gentilmente a Paul pela janela quebrada.
— Aqui está, Paul.
Um pouco atordoado, Paul apanhou-o.
— Depois eu venho catar os clipes de papel. — disse ela, como se esta fosse uma questão que tivesse passado pela cabeça dele.
Por alguns segundos, Paul pensou em jogar o cinzeiro na cabeça dela, partir aquela cabeça tão doentia. Mas ao pensar no que aconteceria a ele — no que poderia acontecer a ele — caso ela ficasse apenas machucada, Paul recolocou o cinzeiro onde estava, com sua mão trêmula que não tinha mais dedo polegar.
— Eu não o matei, você sabe — disse ela, olhando para ele.
— Annie...
— Você o matou. Se tivesse ficado com a boca fechada, eu o teria despachado. Ele ainda estaria vivo e eu não teria que limpar toda essa sujeira.
— É, ele teria ido embora por aquela estrada. E quanto a mim, Annie?
— Não sei o que quer dizer — respondeu ela, enrolando a mangueira do jardim nos braços.
— Você sabe, sim. Ele tinha um retrato meu. Está bem aí no seu bolso, não está?
Nas profundezas de seu estado de choque, Paul parecia ter encontrado sua própria serenidade.
— Não me faça perguntas para que eu não precise mentir — disse ela, enfiando a ponta da mangueira numa bica que havia à esquerda da janela de Paul.
— Um policial com meu retrato na mão significa que meu carro foi encontrado. Nós dois sabíamos que isso ia acontecer. Eu só estou surpreso de ter demorado tanto. Num livro, um carro pode simplesmente sumir da história — acho que eu mesmo seria capaz de convencer o público disso — mas não na vida real. Só que nós ficamos nos enganando a esse respeito, não foi, Annie? Você, por causa do livro; eu, por causa da minha vida, por mais infeliz que ela tenha se tornado.
— Não sei do que está falando — disse ela, abrindo a torneira. — Tudo o que sei foi que você matou aquele pobre rapaz ao jogar o cinzeiro pela janela. Você está confundindo o que poderia ter acontecido à você com o que já aconteceu a ele.
Annie riu para ele. Um sorriso desatinado, com uma expressão que realmente o deixou aterrorizado. Era o próprio demônio que estava por trás do olhar de Annie.
— Sua cadela. . .
— Cadela maluca, não é mais correto? — retrucou ela, ainda sorrindo.
— É claro. . . você é maluca.
— Nós vamos ter uma conversinha sobre isso mais tarde, está bem? Quando eu tiver mais tempo. Nós teremos muito o que conversar. Mas como você pode ver, eu agora estou muito ocupada.
Annie ligou a mangueira e passou quase meia hora limpando o sangue do cortador de grama, da alameda e do gramado, enquanto o jato de água formava lindos arco-íris contra a luz do sol.
Quando terminou, Annie enrolou a mangueira nos braços. O dia ainda estava claro, mas a sombra dela formava um rastro comprido sobre o gramado. Eram seis horas.
Annie soltou a mangueira de plástico verde da bica, guardou-a embaixo do telheiro e voltou para olhar a alameda cheia de água e o gramado que parecia coberto de orvalho.
Em seguida, ela trepou no cortador e deu a volta na casa. Paul abriu um sorriso. Ela tinha uma sorte dos diabos e quando estava em apuros tinha quase tanta esperteza quanto o próprio diabo, mas quase era a palavra chave. Em Boulder, ela dera um passo em falso e conseguira escapar por muita sorte. Mas agora ela dera outro passo em falso, e ele assistira. Annie levou o cortador de grama, mas esqueceu-se da lâmina — para falar a verdade, esqueceu-se da lâmina e da armação que a revestia. Pode ser que ela lembrasse mais tarde, mas Paul achava difícil. Certas coisas davam sempre um jeito de se ausentar da cabeça de Annie assim que o momento presente virava passado. Ocorreu a ele que a cabeça de Annie era como o cortador de grama: ele parecia em ordem, mas bastava virá-lo de cabeça para baixo para ver uma máquina assassina com uma lâmina muito afiada coberta de sangue.
Annie tornou a entrar em casa pela porta da cozinha e subiu as escadas. Durante alguns minutos, Paul a ouviu revirando alguma coisa pelo andar de cima e quando ela desceu, bem devagarinho, ele sentiu que ela vinha arrastando algo pesado, mas flexível. Ele hesitou um pouco, mas acabou empurrando a cadeira e encostando o ouvido na porta de madeira.
Os passos de Annie diminuíram, ligeiramente abafados, mas ele continuou a ouvir o barulho de um objeto sendo arrastado. Imediatamente uma idéia surgiu em sua cabeça, provocando uma onda de pânico.
O barracão! Ela foi ao barracão pegar o machado! O machado novamente!
Mas aquilo durou apenas um instante. Paul tratou de tirar o pensamento da cabeça. Annie não tinha ido para o barracão; ela estava indo para o porão. Ela estava arrastando alguma coisa para o porão.
Quando ele a ouviu subindo, empurrou a cadeira rapidamente até a janela. Ao sentir os passos dela vindo para o quarto, ao ouvir a chave na fechadura, ele pensou: Ela veio me matar.
E a única sensação que ele sentiu foi alívio.
16
A porta se abriu e Annie ficou parada a observá-lo. Ela trocara de roupa e agora vestia uma camiseta de malha branca e calça caqui. Num dos ombros, ela trazia pendurada uma pequenina bolsa caqui, grande demais para ser uma carteira, mas não tão grande para ser uma sacola.
Assim que ela entrou, Paul ficou surpreso por conseguir se dirigir a ela com certa dignidade:
— Se veio para me matar, Annie, vá em frente, mas tenha a bondade de ser rápida. Não arranque mais nenhum pedaço de mim.
— Eu não vou matar você, Paul. Isto é, não se eu tiver um pouco de sorte. Eu devia matar você — sei muito bem disso — mas sou maluca, não sou? E quem é maluco nem sempre costuma cuidar direito dos seus interesses, não é mesmo?
Annie empurrou a cadeira e levou-o pelo corredor. Ele podia ouvir o barulho da bolsa batendo contra o corpo sólido dela e reparou que nunca a havia visto com aquela bolsa antes. Quando ia à cidade de vestido, ela carregava uma carteira grande, dessas que as solteironas usam para ir às quermesses da igreja; quando ia de calças compridas, levava uma carteira pequena enfiada num dos bolsos, tal como um homem.
Os raios dourados do sol iluminavam toda a cozinha. A sombra das pernas da mesa refletidas no piso formavam barras horizontais que o fizeram lembrar das grades de uma prisão. Pelo relógio em cima do fogão, eram seis e quinze. Como não tivesse motivos para acreditar que ela fosse tão relapsa com os relógios quanto era com calendários (o dali ainda estava em maio) Paul achou que a hora estivesse certa. Os primeiros grilos já começavam a cantar. Eu sempre escutava os grilos quando era menino, pensou ele, quase a chorar.
Annie empurrou-o pela despensa, e parou em frente à porta do porão, que estava aberta. Uma luz amarelada bruxuleava lá dentro e o cheiro das últimas chuvas de inverno ainda estava presente.
Lá embaixo tem aranhas, pensou ele. Lá embaixo tem camundongos. Lá embaixo tem ratos.
— Não conte comigo — disse ele.
Annie o olhou impaciente e ele reparou que desde que matara o policial ela parecia quase normal. Seu rosto estava firme, mas ligeiramente aflito, como o de uma mulher se preparando para um grande jantar.
— Você vai para o porão e a única dúvida é: você quer que eu o leve no colo ou carregado nas costas? Cinco segundos para decidir.
— Nas costas — respondeu ele, de imediato.
— Muito espertinho.
Annie virou-se de costas para que ele passasse a mão por seu pescoço e lhe avisou:
— Não tente bancar o engraçadinho tentando me sufocar, Paul. Aprendi caratê em Harrisburg e sou muito boa nisso. Largo você no chão. Ele pode estar sujo, mas é duro o bastante. Você quebrará a coluna.
Annie o levantou com a maior facilidade. As pernas de Paul, retorcidas e horríveis como as de um aleijado, ficaram penduradas ao longo do corpo dela. A esquerda, com o punhado de carne inchada onde ficava seu antigo joelho, estava ligeiramente menor que a outra. Paul descobrira que conseguia ficar de pé apoiado na perna direita, embora por curtos períodos de tempo. Isto, entretanto, lhe causava dores insuportáveis que duravam horas e não passavam com o remédio.
Ela começou a descer as escadas e o cheiro forte de pedra, madeira, umidade e legumes estragados tornou-se mais forte. Lá embaixo havia três lâmpadas e ele pôde ver as teias de aranha tecidas entre as vigas do teto e as paredes de pedra cheias de gretas irregulares como o desenho de uma criança. O lugar era fresco, mas não agradável.
Paul nunca se aproximara tanto de Annie quanto naquele instante em que ela o carregava pela escada íngreme do porão. E só se aproximaria dela assim uma vez mais. A experiência foi das mais desagradáveis. Ele pôde sentir o suor de Annie, resultado de seus últimos movimentos, e embora ele realmente gostasse do cheiro do suor "saudável" — que ele associava a trabalho e a grandes esforços, coisas que muito respeitava — o cheiro dela era insuportável. Além do suor, havia também sujeira. Paul achava que ela se tornara tão relapsa no banho quanto era em relação aos calendários. De dentro da orelha dela saía um punhado de cera marrom-escura e ele perguntou a si mesmo, com certa repugnância, como ela ainda podia escutar alguma coisa.
Ali, encostado numa das paredes, havia um colchão, que Annie trouxera arrastado, e ao lado dele, uma mesa de televisão velha e quebrada, cheia de enlatados e garrafas. Ela se aproximou do colchão e se agachou.
— Pode sair, Paul.
Com todo o cuidado, ele a soltou e deixou-se cair no colchão. Ela começou a revirar a bolsa e Paul a olhou desconfiado.
Quando a agulha de uma seringa brilhou na luz fraca e amarelada do porão, Paul começou imediatamente a gritar.
— Não! Não! Não!
17
— Ora, ora — disse ela — Você deve estar achando que Annie está realmente de mau humor hoje. Relaxe, Paul.
Ela colocou a seringa sobre a mesinha e explicou:
— Isto é escopolamina, um remédio a base de morfina. Você tem muita sorte de eu ter morfina em casa. Eu disse como eles vigiam de perto esses remédios nos ambulatórios dos hospitais, não disse? Vou deixar isto com você. Aqui é muito úmido e suas pernas podem doer muito antes de eu voltar.
— Espere!
Annie lhe dirigiu um olhar ligeiramente perturbado — o olhar de um cúmplice para outro.
— Você atira longe uma porcaria de cinzeiro e eu é que fico cheia de serviço. Volto já.
Logo depois ela estava de volta, trazendo as almofadas do sofá e os lençóis da cama. Ela ajeitou as almofadas nas suas costas para que ele pudesse sentar sem muito desconforto, mas mesmo assim ele pôde sentir a friagem das paredes de pedra.
Ela abriu duas garrafas de Pepsi com o abridor do chaveiro e estendeu uma para ele. Annie tomou metade da sua sem parar e abafou um arroto com a mão, num gesto feminino.
— Precisamos conversar — disse ela — Ou, melhor, eu preciso falar e você precisa ouvir.
— Annie, quando eu disse que você era maluca, eu. . .
— Não quero ouvir uma palavra sobre isso! Mais tarde, talvez. Não que eu vá tentar mudar a sua opinião — um espertinho como você que vive de pensar. Tudo o que fiz foi salvar você de um acidente de carro antes de você morrer congelado e tratar das suas pernas quebradas e lhe dar remédio para aliviar suas dores e cuidar de você e fazer você se livrar de um livro ruim e escrever o melhor livro que você jamais escreveu em toda a sua vida. Se isso é ser maluca, então me leve para um hospício.
Oh, Annie, se ao menos alguém conseguisse. . .
E antes que conseguisse impedir, Paul estava dizendo:
— Você também cortou fora o meu pé, porra!
Annie lhe deu uma bofetada com tanta força que a cabeça de Paul chegou a tombar para o lado.
— Não fale palavrão na minha frente! Você pode não ter sido educado, mas eu fui muito bem educada. Você tem sorte de eu não ter cortado o seu pênis. Eu pensei nisso, sabia?
Paul olhou para ela e sentiu um frio no estômago.
— Sabia, Annie — disse ele, calmamente.
Annie arregalou os olhos e por poucos instantes ela pareceu estar surpresa e com a consciência culpada. Era o olhar da Menina Levada, não da Mulher Malvada.
— Escute uma coisa, Paul, preste bem atenção. Tudo estará bem se ninguém aparecer para procurar aquele rapaz antes de escurecer. Daqui a uma hora e meia mais ou menos já estará escuro. Se alguém aparecer antes disso. . .
Annie enfiou a mão na bolso e apanhou o revólver do policial. As luzes do porão refletiram o arranhão metálico que o Lawnboy fizera no cano da arma.
— Se alguém aparecer antes disso, tenho esta arma. Primeiro em quem aparecer, depois em você e depois em mim.
18
Annie contou a ele seus planos. Assim que escurecesse, ela ia levar o carro de polícia para o seu Lugar Risonho e o deixaria estacionado no alpendre ao lado da cabana, onde ficaria bem escondido. Para ela, o único perigo estava na Rodovia 9, mas como só teria que percorrer nela cerca de seis quilômetros, o risco não era tanto assim. Saindo da rodovia, o caminho para as montanhas era de estradas de terra pouco movimentadas, muitas delas sem uso, desde que o gado parou de utilizá-las para ir pastar no alto das montanhas. Annie ressaltou ainda que muitas dessas estradas tinham porteiras, mas que ela e Ralph tinham ganho as chaves dos proprietários em pessoa, sem ter que precisar pedir, quando compraram a cabana. Isso é o que se chama de boa vizinhança, frisou ela, dando a uma expressão agradável algumas conotações insuspeitadas: desconfiança, desprezo e uma pitada de mau gosto.
— Agora que você mostrou que não é digno de confiança, eu queria levá-lo só para não o perder de vista, mas vi que não ia dar certo. Eu poderia colocá-lo na mala do carro, mas seria impossível trazê-lo de volta pois vou ter que descer na bicicleta do Ralph. Quem sabe eu não levo um tombo e quebro a porcaria do meu pescoço?
Annie deu uma gargalhada para mostrar o quanto aquilo seria engraçado, mas Paul continuou sério.
— Se isso acontecer de verdade, o que será de mim, Annie?
— Você vai estar bem, Paul — disse ela, com serenidade — Como é ansioso!
Annie foi até uma das janelinhas do porão e ficou contemplando o cair da noite enquanto Paul a observava, melancólico. Se Annie levasse um tombo da bicicleta do marido numa daquelas estradas de terra, ele não acreditava que ficaria bem. No que ele acreditava realmente é que teria uma morte horrível naquele lugar e que seu corpo ia servir de comida para os ratos. A propósito, eles certamente já deviam estar de olho naqueles dois humanos indesejáveis que haviam invadido o seu domínio. Na porta da despensa havia agora uma fechadura Kreig, além de um ferrolho da grossura do seu pulso e as janelinhas do porão, como se refletissem a paranóia de Annie, não passavam de pequenas aberturas de cinqüenta centímetros por trinta. Isso, aliás, não lhe pareceu muito estranho — afinal de contas, as casas não refletiam a personalidade de seus moradores? Paul não se achava capaz de passar por aquelas janelinhas nem que estivesse bem de saúde, o que não era o seu caso. E não serviu de conforto a idéia de que pudesse quebrar um dos vidros e gritar por socorro caso alguém aparecesse antes dele morrer de fome.
Paul começou a sentir as primeiras pontadas de dor na perna. Fora a necessidade do remédio. Seu corpo clamava pelo Novril. Era o seu ter que, não era? Claro que era.
Annie se aproximou e abriu a terceira garrafa de Pepsi.
— Antes de sair trago outras para você. Estou precisando de açúcar. Você não se incomoda, não é?
— Claro que não. Minha Pepsi é sua Pepsi. Annie abriu a tampa de rosca e bebeu avidamente.
Beber de um só gole, dá vontade de cantar, pensou ele. De quem era aquilo? Roger Miller, não era? Muito engraçado isso aparecer na sua cabeça.
Hilariante.
— Vou colocar ele no carro e levar para o meu Lugar Risonho. Vou pegar todas as coisas dele. Guardo o carro no alpendre e enterro ele juntamente com. . .você sabe. . . com os trapos dele. . . num bosque lá das montanhas.
Paul não disse nada. Não parava de pensar em Bossie mugindo, mugindo e mugindo até morrer. Outra grande lição que ele aprendera sobre a vida naquelas paragens era: Vacas mortas não mugem.
— Vou colocar uma corrente bloqueando a entrada da casa. Sei que se a polícia aparecer isso pode levantar suspeitas, mas prefiro assim; senão eles podem se aproximar da casa e ouvir a bagunça que você vai fazer. Pensei em deixá-lo amordaçado, mas seria perigoso, principalmente porque você está tomando remédios que afetam a respiração. Você pode vomitar. Ou ficar com o nariz entupido por causa da umidade. Se o seu nariz entupir e você não puder respirar pela boca. . .
Annie desviou o olhar e se desligou. Ficou tão silenciosa quanto as pedras da parede e tão vazia quanto a primeira garrafa de Pepsi que abriu. Dá vontade de cantar. E Annie não tinha cantado hoje? Pode apostar que sim. Irmãos, como Annie cantara enquanto limpava o quintal! Paul riu sozinho, mas ela não pareceu ter notado. Olhou para ele e piscou os olhos.
— Vou deixar um bilhete na cerca — disse ela bem devagar, como se estivesse organizando os pensamentos. — A uns cinqüenta quilômetros daqui tem uma cidade chamada Steamboat Heaven — não é um nome engraçado para uma cidade? Esta semana está acontecendo o que eles chamam de "a maior feira do mundo''. Todo verão eles organizam essa feira e lá tem muitas pessoas vendendo cerâmica. Vou deixar um bilhete dizendo que fui à Steamboat Heaven dar uma olhada nas peças de cerâmica. Vou dizer também que devo passar a noite lá. Se depois alguém vier me perguntar onde dormi, para que possam chegar os registros do hotel, eu direi que as cerâmicas não eram bonitas e que eu resolvi voltar na mesma noite. Só que me senti cansada. . . sim, é isso o que vou dizer. Vou dizer que encostei o carro no acostamento porque fiquei com medo de dormir no volante. Eu pretendia apenas tirar um cochilo, mas estava tão cansada que acabei dormindo a noite inteira.
Paul estava assombrado com a astúcia de Annie e percebeu, subitamente, que ela estava fazendo uma coisa que ele não podia fazer: brincando de "Você Consegue?" na vida real.
Talvez seja por isso que ela não escreve livros. Ela não precisa.
— Voltarei o mais rápido que puder porque a polícia vai vir até aqui. — continuou ela.
Essa possibilidade não pareceu abalar nem um pouco a estranha serenidade que ela demonstrava, mas Paul tinha lá suas dúvidas de que no fundo ela não estivesse percebendo que a brincadeira estava chegando ao fim.
— Não acho que a polícia venha ainda esta noite, a não ser que seja para dar uma olhada na estrada, mas sei que eles vão aparecer mais cedo ou mais tarde, tão logo tenham certeza de que o policial está desaparecido. Eles vão refazer todo o trajeto dele para tentar descobrir onde foi que ele foi visto pela última vez. Você não acha, Paul?