Misery

Stephen King · Capítulo 4 de 5 · parte 3/4

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Misery

Paul

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Acho.

— Eu devo estar de volta antes deles aparecerem. Se eu sair bem cedinho, quando o dia clarear, acho que terei chegado por volta da hora do almoço. Devo chegar antes deles. Se aquele policial começou a ronda em Sidewinder, deve ter parado em vários lugares antes de vir até aqui. E quando eles aparecerem, você já estará de volta ao quarto, muito bem acomodado. E eu não vou lhe amarrar, nem fechar a sua boca, Paul. Porque da próxima vez, devem ser dois deles; pelo menos dois, você não acha, Paul?

Ele achava.

Annie balançou a cabeça, satisfeita.

— Pois eu posso com dois, se for preciso. — Annie deu um tapinha na bolsa caqui. — Enquanto eu estiver falando com eles lá fora, eu quero que você se lembre desta arma, Paul, antes de abrir a boca. Quero que você se lembre que ela vai ficar aqui o tempo todo quando eles aparecerem amanhã ou num outro dia qualquer. A bolsa vai ficar aberta. Você pode vê-los, Paul, mas se eles o virem — seja sem querer ou por que você tentou alguma coisa como a de hoje — eu tiro a arma da bolsa e começo a atirar. Você já foi o responsável pela morte daquele rapaz.

— Tolice.

Paul achou que Annie fosse maltratá-lo por isso, mas não se incomodou.

Mas ela não fez nada. Annie lhe dirigiu apenas um sorriso calmo e maternal.

— Você sabe que sim. Não vou enganar a mim mesma achando que você se importa com isso, não vou mesmo, mas você sabe que foi o responsável pela morte dele. E não vou me enganar achando que você se importará se duas outras pessoas acabarem morrendo para ajudar você. . . mas não vai adiantar, Paul. Porque se eu tiver que matar dois, eu mato quatro. Eles. . . e nós. E você quer saber de uma coisa? Acho que você ainda quer salvar a sua pele.

— Não muito — respondeu ele — Para lhe dizer a verdade, Annie, a cada dia que passa eu ligo menos para a minha vida.

Annie deu uma risada.

— Já escutei isso antes! Mas é só alguém sentir uma mão a lhe apertar a garganta que a coisa muda de figura! E como muda! Nessas horas, eles gritam, berram e viram um bando de fedelhos!

Não que isso tenha impedido você de seguir em frente, não é, Annie?

— De qualquer maneira, fica o aviso. Se você realmente não se importa mais, então pode gritar assim que eles chegarem. A escolha é sua.

Paul não disse nada.

— Quando eles vierem, eu vou estar lá na frente e dizer, sim, claro, um policial esteve aqui, sim. Eu estava de saída para a feira de cerâmica em Steamboat Heaven quando ele chegou. Vou dizer que ele me mostrou o seu retrato e que eu respondi que não tinha visto você por aqui. Então um deles vai me perguntar: "Isso foi no último inverno, senhorita Wilkes, como pode ter tanta certeza que não o viu?'', e eu vou responder: "Se Elvis Presley ainda fosse vivo e o senhor o visse no último inverno, não se lembraria de ter visto ele?" E ele ia responder que sim, que era provável que sim, mas o que isso tem a ver com o preço do café em Bornéu? Aí eu respondo: "Paul Sheldon é o meu escritor favorito e já vi fotos dele inúmeras vezes." Eu vou ter que dizer isso, Paul. Sabe por quê?

Ele sabia. Paul continuava estarrecido com a esperteza de Annie, apesar de reconhecer que não deveria se surpreender com mais nada que partisse dela. Lembrava-se muito bem da legenda embaixo da foto dela na prisão, tirada entre o fim do julgamento e a volta ao tribunal. Paul lembrava de cada palavra, agoniada? não a mulher DRAGÃO. Annie lê calmamente enquanto espera pela sentença.

— E então, eu vou dizer que o policial fez algumas anotações num bloquinho e me agradeceu pela atenção. Vou dizer que eu o convidei para uma xícara de café, mesmo estando atrasada para sair, e eles me perguntarão por que fiz isso. E eu vou responder que o policial provavelmente devia saber do meu passado e que eu queria que ele entrasse para ter certeza que tudo estava em ordem. Só que ele não quis entrar, tinha que ir a outros lugares. Então eu perguntei se ele não gostaria de levar uma Pepsi gelada com ele, já que o dia estava tão quente, e ele aceitou, dizendo que era muita gentileza.

Annie tomou a segunda Pepsi e segurou a garrafa entre eles. Visto através da garrafa de plástico, o olho de Annie parecia enorme e embaçado como o de um Ciclope, e a cabeça parecia ter um tumor num dos lados.

— Eu vou jogar esta garrafa na vala da estrada, a uns três quilômetros daqui. Só que antes eu vou esfregar a mão dele na garrafa. — disse ela, com um sorriso. — Impressões digitais! Eles vão pensar que ele passou por aqui e foi embora. Isso não é bom, Paul?

Paul ficou ainda mais estarrecido.

— Eles vão subir a estrada atrás dele, mas não vão encontrá-lo. Ele terá simplesmente desaparecido. Puff!

— Puff! — exclamou Paul.

— Eles não vão demorar muito a voltar, eu sei disso. Afinal de contas, se não descobrirem nenhuma pista além desta garrafa, eles são capazes de desconfiar de mim. Afinal de contas, eu sou maluca, não sou? Todos dizem isso. A princípio, acho que eles vão acreditar em mim. Não acho que eles vão querer entrar e revistar a casa logo de primeira. Eles vão procurar por ele em outros lugares antes de voltarem aqui. Nós ainda temos algum tempo. Uma semana, talvez. Annie olhou para ele frente a frente e disse:

— Você vai ter que escrever mais rápido, Paul.

19

A noite caiu e a polícia não veio. Annie, entretanto, não ficou fazendo companhia a Paul. Ela queria substituir o vidro da janela e catar os cacos e os clipes de papel espalhados pelo gramado.

— Quando a polícia vier amanhã à procura de sua ovelha desgarrada, não queremos que eles encontrem nada fora de ordem, não é, Paul? — dissera ela.

Então deixe eles darem uma olhada embaixo do cortador de grama, minha cara. Se eles derem uma olhadinha lá, vão encontrar um montão de coisas fora de ordem.

Por mais que Paul tentasse fazer sua imaginação tão vívida trabalhar, ele não conseguia idealizar uma situação que os levasse a isso.

— Você não imagina o porquê de eu ter lhe contado tudo isso, Paul? — perguntou ela pouco antes de subir para dar um jeito na vidraça da janela. — O porquê de eu ter lhe contado os meus planos com essa riqueza de detalhes?

— Não — respondeu ele, abatido.

— Por um lado, eu queria que ficasse sabendo do que pode acontecer se você agir como agiu hoje, e o que deve fazer para continuar vivo. Mas também queria que soubesse que eu acabaria com tudo agora mesmo, não fosse o livro. Eu ainda me interesso pelo livro.

Annie deu um sorriso, ao mesmo tempo radiante e pensativo, e lhe assegurou:

— Esse é, realmente, o melhor livro Misery que você já escreveu, e eu quero muito saber como ele vai terminar.

— Eu também, Annie.

Annie olhou para ele, muito surpresa.

— Ora. . . mas você sabe, não sabe?

— Quando começo a escrever um livro, sempre acho que sei como ele vai terminar, mas na verdade nenhum dos meus livros terminou exatamente do jeito que eu imaginava a princípio. Se você parar para pensar, vai ver que não há nada de excepcional nisso. Escrever um livro é como disparar um ICBM*. . . só que o livro corre no tempo, não no espaço. O tempo da narrativa, aquele que os personagens passam vivendo a história; e o tempo real, aquele que o autor leva escrevendo o livro todo. Terminar um romance exatamente daquele jeito que você imaginou no início é como disparar um míssil para o outro lado do planeta e querer que a bomba caia dentro de uma cesta de basquete. Teoricamente, pode funcionar. Muitos autores afirmam com a cara mais lavada que isso é moleza, mas eu duvido.

* ICBM — Inter-Continental Ballistic Missile (Míssil disparado de um continente para outro)

— É, eu compreendo.

— Eu devo ter um excelente sistema de navegação aqui nos meus equipamentos, porque sempre chego perto. E quando se tem uma carga altamente explosiva dentro de um míssil, perto é bom o bastante. Neste momento, por exemplo, eu vejo duas saídas possíveis para o livro. Uma é muito triste. A outra pode não ser um final feliz digno de um filme de Hollywood como você gosta, mas pelo menos lança alguma esperança para o futuro.

Annie ficou alarmada e. . . subitamente, ameaçadora:

— Você não está pensando em matar Misery de novo, está, Paul? Paul deu um sorriso.

— O que você ia fazer, Annie? Me matar? Isso não me mete medo. Eu posso não saber o que vai acontecer a Misery, mas sei muito bem o que vai acontecer a mim... e a você. Eu vou escrever fim na última folha. Você vai ler, e aí você é que vai escrever fim, não é? O fim de nós dois. E este fim, eu nem preciso imaginar. Não importa o que digam, a vida não é muito diferente da ficção. Na maioria das vezes, a gente sabe exatamente como as coisas vão acontecer.

— Mas. . .

— Acho que sei qual dos dois vai ser o fim do livro. Tem oitenta por cento de chance de ser este e, se for mesmo, você vai gostar. Mas mesmo assim, nenhum de nós vai ficar sabendo dos detalhes até que ele esteja escrito, certo?

— É, acho que não.

— Você se lembra daquele anúncio antigo dos ônibus Greyhound? Ele dizia assim: "A viagem já é metade da diversão!"

— De qualquer maneira, está quase no fim, não está?

— Está, já está quase no fim.

20

Antes de sair, Annie lhe trouxe outra garrafa de Pepsi, um pacote de bolachas, sardinhas, queijo e. . . a comadre.

— Se você me trouxer as folhas batidas e um daqueles blocos, eu posso trabalhar escrevendo à mão. Vai ajudar a passar o tempo.

Annie considerou a idéia por alguns instantes e balançou a cabeça dizendo que não.

— Eu gostaria muito, Paul, mas não pode ser. Eu teria que deixar pelo menos uma luz acesa e não posso arriscar.

A idéia de ser deixado sozinho naquele porão provocou nele uma momentânea onda de pânico, seguida de calafrios em diversas partes do corpo. Paul pensou nos ratos escondidos em suas tocas por entre as fendas da parede de pedra; pensou neles saindo das tocas quando o porão estivesse às escuras; pensou neles farejando a sua debilidade, talvez.

— Não me deixe no escuro, Annie. Por favor, não faça isso comigo.

— É preciso. Se eles virem uma luz acesa no porão, podem parar para investigar, com ou sem corrente na entrada da casa, com ou sem bilhete na cerca. Se eu deixasse uma lanterna, você poderia fazer sinais. Se eu deixasse uma vela, você poderia incendiar a casa. Está vendo como já o conheço bem?

Paul raramente ousava mencionar as vezes em que estivera fora do quarto, porque isto sempre a deixava furiosa; mas o medo de ficar sozinho no escuro o impeliu a dizer:

— Se eu quisesse tacar fogo na casa, Annie, eu poderia ter feito isso há muito tempo atrás.

— Naquele tempo as coisas eram diferentes — respondeu ela, secamente. — Sinto muito que você tenha que ficar no escuro. Sinto, mas você vai ter que ficar. A culpa é toda sua, por isso, pare de se comportar como um fedelho. Preciso ir agora. Se achar que precisa daquela injeção, aplique na perna.

Annie voltou-se e completou:

— Ou no traseiro.

Ela começou a subir as escadas.

— Cubra as janelas! — gritou ele. — Cubra com um lençol. . . ou. . .ou. . . pinte-as de preto ou. . . Pelo amor de Deus, Annie, os ratos! Os ratos!

Annie já estava no terceiro degrau. Ela parou e virou-se para ele com um olhar sombrio e inexpressivo:

— Não tenho tempo para fazer nem uma coisa nem outra. De qualquer maneira, os ratos não vão lhe incomodar. Quem sabe eles não pensam que você é um deles, Paul? Eles podem adotá-lo. . .

Annie riu e começou a subir as escadas, rindo cada vez mais alto. Paul ouviu um clique, as luzes apagaram e Annie continuou rindo e ele garantiu a si mesmo que não ia gritar, não ia implorar, não ia fazer nada daquilo. Mas a umidade pegajosa das sombras e o estrondo da risada de Annie foram demais para ele e Paul começou a gritar para ela não fazer isso com ele, para não abandoná-lo ali, mas ela continuou rindo e ele ouviu um estalido quando a porta foi fechada e a risada dela diminuiu mas continuou presente, a risada dela estava do outro lado da porta, do lado onde havia luz e ele ouviu um trinco ser fechado, outra porta bater e a risada dela diminuiu mais ainda (mas continuou presente), e outro trinco fechou, um ferrolho fechou e a risada dela se distanciou, a risada dela estava lá fora, e mesmo depois dela ligar o carro, dar marcha à ré, colocar a corrente e ir embora, Paul achou que ainda podia ouvi-la. Paul achou que ainda podia ouvir Annie rindo, rindo e rindo.

21

No centro do porão ficava a bancada de uma velha fornalha escurecida, que lembrou a ele um polvo. Paul esperava poder escutar as badaladas do relógio da sala, mas uma ventania forte de verão, tão comum naquelas noites, não permitiu. Só restou o tempo, arrastando-se interminavelmente. Quando o vento cessava, ele ouvia o canto dos grilos e. . . algum tempo mais tarde começou a ouvir também o barulho furtivo que ele tanto temera: o andar curto e arrastado dos ratos.

Mas não era dos ratos que ele estava com medo, era? Não. Era do policial. A sua maldita imaginação, tão vívida, raramente metia medo nele, mas quando isso acontecia, era um deus-nos-acuda. Deus o acudira quando a coisa começou, mas ela agora simplesmente disparara. O fato de seus pensamentos parecerem irracionais não fazia a menor diferença na escuridão. Na escuridão, as coisas racionais pareciam tolices, e as lógicas, parte de um sonho. Na escuridão, pensava-se com os sentidos. Ele não parava de imaginar o policial voltando à vida — alguma forma de vida — levantando-se por entre o monte de capim em que Annie o escondera, cheio de fiapos espalhados pelo corpo, o rosto coberto de sangue e sem vida, retalhado pela lâmina do cortador de grama. Paul via o policial se arrastando pelo gramado, em direção à casa, com o uniforme rasgado esvoaçando ao sabor do vento; ele o via atravessando a parede como num passe de mágica e aparecendo bem ali no porão; ele o via se arrastando pelo chão imundo de pedra e os barulhos que ele escutava não eram dos ratos, mas do policial se aproximando. E havia um único pensamento no cérebro morto daquele rapaz: Você me matou. Você abriu a boca e me matou. Você atirou um cinzeiro e me matou. Seu porcaria, filho da puta, você me tirou a vida.

A certa altura, Paul sentiu os dedos do policial roçando em seu rosto e deu um grito, ao mesmo tempo em que se jogou para o lado. Suas pernas latejaram. Paul esfregou as mãos furiosamente pelo rosto, atirando longe uma aranha.

A agitação cessou temporariamente a dor nas pernas, aliviou o nervosismo pela necessidade do remédio e diminuiu um pouco o medo. Por outro lado, seus olhos começaram a se acostumar com a escuridão e isso também ajudou. Não que ali houvesse muita coisa para ser vista — a fornalha, os restos de uma pilha de carvão, a mesinha com a sombra das latas e. . . à sua direita. . .que sombra era aquela? Ali, perto daquelas pedras salientes. Paul conhecia aquela sombra. E alguma coisa nela o fez lembrar de uma sensação desagradável. O topo redondo apoiava-se em três pernas. Parecia uma miniatura das máquinas assassinas de The War of the Worlds, de Orson Welles. Paul tentou adivinhar o que era, cochilou, acordou, olhou novamente e pensou: Claro! Devia ter sabido desde o início! Isso é uma máquina assassina. E se existe algum marciano no planeta Terra, ele é a maldita Annie Wilkes. Isso aí é a churrasqueira. O crematório onde ela me fez queimar Carros velozes.

Paul mudou de posição e deu um gemido. Sentia dores nas pernas — especialmente no punhado de carne que restara do seu joelho esquerdo — e também na bacia, o que era um mau sinal. Há dois meses já não sentia mais dores na bacia.

Paul tateou em busca da seringa, mas tornou a colocá-la no lugar. Só uma pequena dose, dissera Annie. Era melhor guardar para depois.

Ao ouvir ruídos num dos cantos do porão, Paul virou imediatamente a cabeça, esperando ver o policial rastejando em sua direção e encarando-o com seu único olho castanho no rosto retalhado: Se não fosse você, eu agora estaria em casa vendo TV, ao lado da minha esposa.

Mas não havia policial nenhum por ali. A sombra indistinta talvez fosse produto da sua imaginação, mas era provável que fosse apenas um rato. Paul decidiu relaxar um pouco. Esta seria uma noite muito comprida.

22

Paul tirou um cochilo e acordou todo curvado para o lado esquerdo, com a cabeça caída, tal qual um bêbado jogado na rua. Ele se esticou, e as pernas doeram terrivelmente. Ao tentar urinar, Paul sentiu tanta dificuldade que pressentiu uma infecção urinária a caminho. Tornara-se tão vulnerável. Tão vulnerável a tudo. Paul colocou a comadre no chão e apanhou a seringa.

Uma pequena dose de escopolamina, dissera Annie. Pode ser que sim, mas pode ser também uma dose forte de alguma outra coisa. Quem sabe da mesma droga que ela usava em pessoas como Ernie Gonyar e "Queenie" Beaulifant?

Os lábios de Paul se abriram num pequeno sorriso. E isso era tão ruim assim? A resposta foi um estrondoso NÃO! Isso era ótimo. As estacas desapareceriam para sempre. E as marés baixas chegariam ao fim. Para sempre.

Com estes pensamentos em mente, Paul procurou sentir uma das veias da perna esquerda. E apesar de nunca ter aplicado uma injeção em si mesmo em toda a sua vida, Paul o fez com eficiência e com certo entusiasmo.

23

Paul não morreu, mas também não dormiu. A dor foi embora e ele se deixou levar como um balão de puro pensamento, separado do corpo e preso apenas por um fio comprido.

Você estava se passando por Scheherazade para você mesmo, pensou ele enquanto seus olhos contemplavam a churrasqueira. Paul pensou nos raios mortais dos marcianos incendiando Londres.

Paul lembrou-se subitamente de uma música de um grupo chamado The Trammps, que dizia mais ou menos assim: Burn, baby, burn, burn the mother down. . .*

Uma luz.

Uma idéia.

Burn the mother down. . .

Paul adormeceu.

* Burn the mother down = Queime sua mãe inteirinha.

24

Quando acordou, o porão estava iluminado pela luz nevoenta da manhã. Em cima da mesinha, um rato enorme com o rabo graciosamente enrolado em volta do corpo roía um pedaço de queijo que Annie deixara para ele.

Paul deu um grito, jogou-se para o lado e gritou ainda mais por causa das pernas. O rato desapareceu.

Annie deixara algumas cápsulas para ele. Embora soubesse que o Novril não aliviaria mais suas dores, era melhor do que nada.

Além do mais, com ou sem dor, está na hora da sua dose matinal, não é, Paul?

Ele tomou duas cápsulas com Pepsi e se recostou nas almofadas, sentindo uma ponta de dor nos rins. Tinha alguma coisa de errado com eles. Ótimo.

Marcianos. Máquinas assassinas marcianas.

Paul olhou para a churrasqueira esperando que ela se parecesse com uma churrasqueira na luz da manhã: uma churrasqueira e nada mais. E ficou surpreso ao descobrir que ela ainda se parecia com uma daquelas pomposas máquinas assassinas de Welles.

Você tinha tido uma idéia — qual foi?

A música dos Trammps voltou à sua cabeça:

Burn, baby, burn, burn the mother down!

Mesmo? E que mãe era essa? Ela não deixou nem ao menos uma vela.

Os rapazes dos trabalhos forçados lhe mandaram um recado

Você não tem que queimar nada agora. Nem aqui.

Do que vocês estão falando, rapazes? Será que vocês podem me. . .

E então veio a idéia, de uma só vez, da mesma maneira como todas as boas idéias sempre surgem. Perfeita, impecável e tão maravilhosamente convincente por sua crueldade.

Burn the mother down...

Paul olhou para a churrasqueira esperando sentir de novo a dor pelo que ele fizera — pelo que ela o obrigara a fazer. E ela veio, mas fraca e suave; a dor nos rins era pior. Como foi mesmo que ela disse ontem? Tudo o que fiz foi. . . fazer você se livrar de um livro ruim e escrever o melhor livro que você jamais escreveu em toda a sua vida. . .

Talvez houvesse uma ponta de verdade nisso. Talvez ele tivesse superestimado Carros velozes.

Você é que está tentando se convencer disso, sussurrou uma voz dentro dele. Se conseguir sair dessa, vai acabar achando que nunca precisou do pé esquerdo — afinal de contas, são cinco unhas a menos para cortar. E hoje em dia, eles fazem maravilhas com próteses. Nada disso, Paul. Aquele era um ótimo livro e aquele era um ótimo pé. Não vamos nos enganar.

Ainda assim, uma parte mais impenetrável de sua mente desconfiava que pensar dessa forma é que era enganar a si mesmo.

Enganar, não, Paul. Vamos encarar a verdade. Mentir para si mesmo. Um cara que inventa histórias é um cara que mente para todas as pessoas. Por isso, não poderá jamais mentir para si mesmo. Parece engraçado, mas é verdade. Se começar com isso, pode fechar a máquina e virar corretor ou qualquer outra coisa, porque você já terá dado o seu recado.

Mas, então, o que era verdade? A verdade, caso vocês insistam, é que ele tinha ficado bastante ofendido com a crescente recusa da crítica especializada em considerá-lo algo mais que um "escritor popular" (que para ele significava apenas um degrau acima de um cara pago para escrever por outro). Essa denominação não se enquadrava à imagem que ele fazia de si mesmo como um Escritor Sério, que escrevia romances melosos apenas para subsidiar (toque de trombetas, por favor!) o seu TRABALHO DE VERDADE! Ele detestava Misery? Será que detestava? Se assim fosse, como fora tão fácil se embrenhar outra vez no mundo dela? Mais que fácil; uma delícia, assim como entrar numa banheira de águas mornas com um bom livro numa das mãos e uma cerveja gelada na outra. Talvez o que ele detestasse fosse o fato do rosto de Misery na capa dos livros ofuscar a foto do autor, impedindo que os críticos reconhecessem nele um novo Mailer ou um novo Cheever — que reconhecessem nele uma pessoa importante. E não teria sido essa a razão dos seus "livros sérios'' terem se tornando cada vez mais acanhados e motivo de riso? Olhem para mim! Olhem como sou bom! Ei, rapazes! Esse livro tem um enfoque diferente! Esse livro tem alguns trechos com fluxo da consciência! Esse é o meu TRABALHO DE VERDADE, seus bundões! Não se Atrevam a virar as costas para mim! Não se Atrevam, seus porcarias, seus fedelhos! Não se atrevam a dar as costas para o meu TRABALHO DE VERDADE! Não se ATREVAM OU eu. . . eu. . .

Eu, o quê? O que você vai fazer? Cortar o pé deles? Serrar o dedo deles?

Paul foi tomado por uma súbita tremedeira. Precisava urinar. Ele apanhou a comadre e finalmente conseguiu urinar, embora doesse mais que da vez anterior. Paul gemeu e continuou a gemer por muito e muito tempo.

Finalmente, o Novril começou a fazer efeito — embora só um pouquinho — e ele cochilou.

Abrindo os olhos pesados, Paul vislumbrou a churrasqueira.

Como você ia se sentir se ela o fizesse queimar A volta de Misery? perguntou uma sussurrante voz interior. Paul teve um sobressalto, mas, ainda sonolento, percebeu que isto o machucaria, sim, machucaria muito. Isto faria com que a dor de ver Carros velozes virando fumaça se parecesse com a pontada nos rins, comparada com a dor que sentira quando Annie descera o machado com força sobre a sua perna, arrancando-lhe o pé e exercendo sua autoridade editorial sobre ele.

Ele percebeu também que não era bem essa a pergunta.

A pergunta era: Como Annie ia se sentir?

Perto da churrasqueira havia uma mesa com uma meia dúzia de latas e potes.

Uma dessas latinhas era de fluido para acender carvão em churrasqueira.

E se fosse Annie a gritar de dor? Você não fica curioso para saber como ela ia ficar? Nem um pouquinho curioso? Quem com ferro fere, com ferro será ferido, não é assim que diz o ditado? Só que o ditado foi inventado muito antes dos Fluidos Ronson Fast-Lite.

Burn the mother down.

Paul adormeceu com um ligeiro sorriso no rosto pálido e debilitado.

25

Às três e quinze da tarde, Annie apareceu muito silenciosa, o que parecia indicar mais cansaço do que um estado depressivo. Seus cabelos naturalmente ondulados estavam amassados com o formato do capacete que ela havia usado. Paul perguntou se tudo tinha corrido bem e ela balançou a cabeça, afirmativamente.

— Sim, acho que sim. Se não tivesse tido problemas com a bicicleta, já teria chegado há uma hora. A corrente estava enferrujada. Como estão suas pernas, Paul? Quer tomar outra dose antes de subir?

Depois de quase vinte horas naquele lugar úmido, as pernas de Paul pareciam ter milhares de alfinetes espetados. Ele precisava urgentemente de outra dose, mas não ali. Ali não ia adiantar.

— Acho que estou bem.

Annie virou de costas e se agachou.

— Vamos, segure em mim. Mas não se esqueça do que eu disse sobre tentar me sufocar. Estou exausta e nem um pouco a fim de brincadeiras.

— Eu também não estou para brincadeiras.

— Ótimo.

Annie o levantou com um grunhido e Paul teve que engolir um grito de aflição. Annie se dirigiu para as escadas com a cabeça ligeiramente inclinada e ele percebeu que ela estava — ou devia estar — olhando para a mesinha. A olhadela rápida e aparentemente casual de Annie lhe pareceu longa demais e ele teve certeza que ela dera pela falta da lata de fluido, escondida na cueca. Tantos meses depois de seus primeiros furtos e ele finalmente arranjara coragem de roubar mais alguma coisa. . . Se as mãos de Annie deslizassem pela sua perna, elas iam encontrar algo mais que um simples traseiro.

Com a mesma expressão no rosto, Annie desviou os olhos da mesa e Paul sentiu um alívio tão grande que o sacolejo da subida tornou-se quase tolerável. Annie sabia como manter o rosto impassível quando o desejava, mas Paul achava — ou esperava — que a tivesse enganado.

Que dessa vez ele a tivesse realmente enganado.

26

— Acho que agora eu aceitaria aquela dose, Annie — disse Paul quando ela o colocou na cama.

Annie examinou por alguns instantes o rosto lívido e suado de Paul, antes de sair do quarto.

Assim que ela se retirou, Paul apanhou a latinha da cueca e a enfiou embaixo do colchão. Ele nunca mais escondera nada no colchão nem pretendia deixar a lata ali por muito tempo, apenas até o final do dia. Mais tarde ele a colocaria num lugar seguro.

Depois de lhe aplicar a injeção, Annie colocou um bloco de papel e alguns lápis bem apontados no peitoril da janela, e empurrou a cadeira de rodas para perto da cama.

— Vou dormir um pouco. Se algum carro chegar, eu escuto; mas se não aparecer ninguém, sou capaz de dormir até amanhã de manhã. Se resolver trabalhar, a cadeira está aí perto e as folhas datilografadas, ali no chão. Mas eu não aconselharia até que suas pernas fiquem mais aquecidas.

— Neste exato momento, não conseguiria trabalhar, mas acho que à noite provavelmente eu poderia fazer um grande esforço nesse sentido. Eu entendi muito bem o que você quis dizer com trabalhar mais rápido.

— Fico feliz, Paul. Quanto tempo ainda acha que precisa?

— Em condições normais, eu diria um mês. Se conseguir trabalhar no mesmo ritmo destes últimos dias, duas semanas. E se fizer realmente um superesforço, cinco dias, uma semana, talvez. O livro vai estar no rascunho, mas estará acabado.

Annie deu um suspiro e ficou olhando as mãos, melancolicamente.

— Sinto que temos menos de duas semanas.

— Eu gostaria que você me prometesse uma coisa.

Annie o encarou sem raiva ou desconfiança, apenas ligeiramente curiosa.

— O que é?

— Que não lesse as folhas até eu terminar. . .ou até que eu tenha que. . .você sabe. . .

— Parar?

— É, ou até que eu tenha que parar. Só assim você vai sentir o final como um todo. Vai ser muito mais emocionante.

— Esse vai ser um livro muito bom, não é?

— Vai — respondeu Paul com um sorriso — Vai ser o melhor.

27

Por volta das oito da noite, Paul passou cuidadosamente da cama para a cadeira. Paul não ouvia o menor barulho lá em cima desde que as molas da cama rangeram, anunciando que Annie fora dormir às quatro horas da tarde. Ela devia realmente estar muito cansada.

Ele apanhou a latinha de fluido e empurrou a cadeira para o seu "local de trabalho" onde ficavam: a máquina com três dentes faltando no sorriso antipático, a cesta de lixo, os lápis, os blocos de papel, as folhas datilografadas e uma pilha de folhas de rascunho — algumas que ele ainda ia utilizar e outras que iriam para a cesta de lixo.

Ou teriam ido, anteriormente.

Ali estava, ainda que imperceptível, a porta para um outro mundo. Ali estava também a sua própria alma — como desenhos em série que, com o correr das folhas, dão a ilusão de movimento.

Com a longa prática adquirida, Paul manobrou a cadeira e parou entre a pilha de folhas e a parede. Ele se deteve por alguns instantes para ver se escutava algum barulho e, em seguida, puxou um pedaço do rodapé de uns vinte centímetros, que ele descobrira estar solto há cerca de um mês. Ele sabia pela fina camada de poeira acumulada (daqui a pouco você vai estar espalhando fios do seu próprio cabelo só para ter certeza) que Annie ignorava aquele pedaço solto do rodapé.

Ali dentro havia um pequeno buraco cheio de poeira e cocô de rato.

Paul escondeu a latinha de Fast-Lite e recolocou o rodapé no lugar. Por poucos segundos, Paul ficou com medo que ela não fosse encaixar (Meu Deus! Annie tinha a visão tão apurada!), mas ela acabou entrando perfeitamente.

Só depois de observar atentamente o rodapé, foi que ele apanhou o bloco e um dos lápis e se embrenhou pela brecha do papel.

Paul escreveu quatro horas seguidas — até a ponta dos três lápis terminar —, empurrou a cadeira até a cama, deitou-se e caiu imediatamente no sono.

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Paul parou de escrever ao ouvir o motor de um carro se aproximando e ficou surpreso por se sentir tão calmo — o único sentimento dele naquele exato momento era uma certa contrariedade por ter sido interrompido quando a história fluía como o vôo de uma borboleta e o inquietava como uma picada de abelha. As botas de Annie ecoaram pelo corredor.

— Esconda-se! — vinha dizendo ela.

Ao entrar, Annie percebeu que ele já havia se afastado da janela. Seu rosto estava tenso e tinha uma expressão implacável. A bolsa caqui pendurada no ombro estava com o fecho aberto. Ela deu uma olhadela rápida no peitoril da janela para ver se não havia nenhum objeto dele à vista.

— É a polícia. — Annie parecia tensa, mas controlada. A bolsa caqui estava bem ao alcance da mão direita. — Você vai se comportar, Paul?

— Vou.

Annie olhou para o rosto dele atentamente.

— Vou confiar em você — disse ela finalmente, fechando a porta, mas sem se dar ao trabalho de passar a chave.

O carro entrou pela alameda do jardim. O ronco suave do motor era a marca registrada do Plymouth 442. Assim que ouviu a porta da tela da cozinha bater, Paul se aproximou da janela o suficiente para espiar a cena sem ser visto. Annie estava parada e o carro parou na frente dela. O policial que vinha dirigindo saiu do carro quase no mesmo local onde o jovem guarda proferira suas últimas quatro palavras. . . mas terminavam aí as semelhanças. Aquele primeiro policial que aparecera era um jovem franzino, recém-saído da adolescência e novato na polícia, que vinha colher dados sem grande importância sobre um escritor desmiolado que sofrera um acidente e que se arrastara para morrer no bosque ou saíra alegremente dos destroços com o polegar levantado a pedir carona.

O homem que agora saía do carro devia ter uns quarenta anos de idade e tinha os ombros enormes. Seu rosto tinha o formato retangular e uma expressão firme, com apenas algumas rugas em volta dos olhos e dos cantos da boca. Annie era uma mulher avantajada, mas na frente dele chegava quase a parecer miúda.

Havia ainda outra diferença. O policial que Annie matara viera sozinho, mas desse carro saiu ainda um homem baixo, à paisana, que tinha os ombros curvados e os cabelos louros e ralos. Davi e Golias, pensou ele. Mutt e Jeff. Jesus Cristo!

O policial à paisana deu apenas alguns passos para fora do carro. Ele parecia velho e cansado, e tinha o rosto de um homem que está morrendo de sono. . . exceto pelos olhos azul-claros. Os olhos estavam atentos, alertas. . . Paul julgou que ele fosse um homem ágil.

Os dois cercaram Annie. Ela começou a falar, olhando para cima quando se dirigia a Golias, olhando para baixo quando se dirigia a Davi. Paul ficou imaginando o que aconteceria se ele quebrasse o vidro e gritasse por socorro novamente. Achava que eles tinham oitenta por cento de chance de agarrá-la. Oh, Annie era rápida, mas o policial corpulento parecia ser ainda mais rápido, apesar do tamanho, e forte o bastante para arrancar urna árvore de tamanho médio com raiz e tudo. O andar acanhado do policial à paisana podia ser propositalmente ilusório, assim como sua expressão sonolenta. Paul achava que eles podiam com ela. . . exceto pelo fator surpresa. Eles ficariam surpresos com os gritos, não ela. E nisso, Annie levava vantagem.

Além disso, o policial à paisana estava com o casaco todo abotoado, apesar do calor. Se Annie atirasse primeiro em Golias, talvez conseguisse apontar a arma para o rosto de Davi antes dele desabotoar aquele maldito casaco e sacar o revólver. Acima de tudo, aquele casaco abotoado indicava que Annie tinha razão: aquela era apenas uma visita de rotina.

Até o momento.

Eu não o matei, você sabe. Você o matou. Se tivesse ficado com a boca fechada, eu o teria despachado. Ele ainda estaria vivo. . .

E ele acreditava nisso? Claro que não! Mas por um momento ele sentiu um doloroso sentimento de culpa, como uma punhalada. E ele ia ficar de boca fechada só porque Annie tinha vinte por cento de chance de acabar com eles dois também?

O sentimento de culpa voltou e foi embora. A resposta para essa pergunta também era não. Seria louvável atribuir a si mesmo tamanho altruísmo, mas não era bem este o caso. E o caso era simples: ele mesmo queria cuidar de Annie Wilkes. O máximo que eles poderiam fazer era colocá-la na prisão, sua cadela, mas eu sei como fazer você sofrer.

30

Claro que havia sempre a possibilidade deles farejarem um rato. Caçar ratos, afinal de contas, era o trabalho deles e os dois deviam conhecer o passado de Annie. Se era assim que as coisas deviam acontecer, então, que acontecessem. . . mas Paul achava que Annie seria capaz de escapar da polícia uma última vez.

Ele agora estava bem a par da situação. Depois daquela longa noite de sono, Annie passara a ouvir constantemente o rádio e o policial desaparecido — cujo nome era Duane Kushner — estava sempre no noticiário. Eles revelaram que ele estava seguindo pistas de um escritor famoso chamado Paul Sheldon, mas o desaparecimento de Kushner não foi relacionado com o desaparecimento do próprio Paul nem por suposição. Pelo menos, não até o momento.

Com a neve derretida pela chegada da primavera, o Camaro foi rolando oito quilômetros pelo leito do rio e não fosse por uma simples obra do acaso, teria ficado mais um mês ou até um ano no meio da floresta sem ser descoberto. Um helicóptero da Guarda Nacional sobrevoava a Reserva numa missão de combate às drogas (em outras palavras, à procura de plantações de maconha) quando os policiais viram o reflexo do sol no que restara do pára-brisa do Camaro. Eles desceram numa clareira próxima para ver de perto e encontram o carro. As batidas violentas que ele recebera ao ser carregado pelas águas acabaram por encobrir a gravidade do acidente em si. O rádio não informava se o carro deixara rastros de sangue para servir de análise para a perícia (se é que uma análise fora realizada), mas Paul sabia que uma análise minuciosa acusaria poucos mas preciosos rastros de sangue — o carro passara quase toda a primavera com a neve derretida escoando por dentro dele.

No Colorado, todas as atenções estavam voltadas para o policial Duane Kushner, o que podia ser comprovado pela presença daqueles dois visitantes na casa de Annie. Até o momento, todas as suspeitas recaíam em três aspectos legais: contrabando de bebida; maconha; cocaína. Era possível que Duane tivesse descoberto, ainda que casualmente, um armazenamento, uma plantação ou uma destilaria de uma daquelas três substâncias quando procurava pelo escritor recém-chegado à região. Como as esperanças de encontrar Duane com vida começassem a se dissipar, o assunto em questão passou a ser o motivo dele ter saído sozinho para fazer uma patrulha. Paul duvidava que a polícia do Colorado tivesse recursos suficientes para financiar um sistema de patrulhamento em duplas, mas era evidente que eles estavam à procura de Kushner em grupos de dois. Para não correr nenhum risco.

Golias apontou para a casa. Annie deu de ombros e balançou a cabeça. Davi disse alguma coisa. Pouco depois, Annie pareceu concordar e os conduziu pela alameda que levava à cozinha. Paul ouviu as dobradiças da porta rangerem e eles entraram. O barulho de tantos passos ali dentro era aterrorizante, quase uma profanação.

— A que horas mais ou menos ele esteve aqui? — perguntou Golias; tinha que ser Golias — a voz era grossa, com sotaque do meio-oeste e castigada pelo fumo.

Por volta das quatro, disse ela. Pouco antes, pouco depois. Ela tinha acabado de cortar a grama e não estava usando relógio. Era um dia muito quente; disso ela se lembrava bem.

— Quanto tempo ele esteve aqui, senhora? — perguntou Davi.

— Senhorita, por favor.

— Desculpe-me.

Annie disse que não poderia ter certeza, mas que ele não se demorara muito tempo. Uns cinco minutos, talvez.

— Ele lhe mostrou algum retrato?

— Claro. Foi por isso que ele veio.

Paul estava assombrado com a calma e a cordialidade de Annie.

— E a senhorita tinha visto aquele homem do retrato?

— Claro que sim. Era Paul Sheldon, eu o reconheci imediatamente. Tenho todos os livros dele. Gosto deles demais. Isso deixou o policial Kushner desapontado. Ele disse que se era esse o caso, eu devia saber o que estava falando. Ele parecia desanimado e também parecia estar com muito calor.

— É, estava muito quente naquele dia — disse Golias e Paul ficou alarmado com a proximidade da voz dele. Na sala? Quase certo que sim. Apesar do tamanho, ele se movimentava como um lince.

A voz de Annie também estava mais próxima. Os policiais haviam passado para a sala, mesmo sem serem convidados, e ela viera atrás deles. Eles deviam estar querendo dar uma olhada na casa.

Annie ainda parecia estar calma, embora seu escritor de estimação estivesse a poucos metros deles apenas. Ela contou a eles que convidara o policial para um café gelado, mas ele recusara. Ela então perguntou se ele não queria levar uma garrafa de. . .

— Por favor, cuidado com isso! — Annie interrompeu a si mesma, elevando o tom de voz. — Gosto muito das minhas coisas e algumas delas são bastante frágeis.

— Desculpe.

Aquela voz baixa e sussurrante devia ser de Davi, uma voz ao mesmo tempo humilde e ligeiramente assustada. Em outras circunstâncias, aquele tom de voz para um policial poderia parecer engraçado, mas este não era o caso e Paul não achou graça nenhuma. Sentado bem esticado, com as mãos segurando firmemente os braços da cadeira, Paul ouviu o barulho suave de um objeto sendo colocado cuidadosamente no lugar (o pingüim sentado no bloco de gelo, talvez). Paul imaginou que Annie estivesse remexendo a bolsa com as mãos e só via a hora de um dos policiais — Golias, provavelmente — perguntar a ela que diabo havia ali dentro. E aí, começaria o tiroteio.

— O que a senhorita estava dizendo? — perguntou Davi.

— Eu perguntei a ele se não queria levar uma garrafa de Pepsi, afinal, o dia estava tão quente... Eu sempre deixo as garrafas na geladeira, bem perto do congelador. Elas ficam geladas, mas não chegam a congelar. Ele respondeu que seria muito gentil de minha parte. Ele era um rapaz muito educado. O senhor poderia me responder como podem permitir a um rapaz tão novo como ele sair assim sozinho?

— Ele tomou o refrigerante aqui? — perguntou Davi, ignorando a pergunta de Annie. A voz dele estava tão perto. Paul percebeu que ele devia estar parado no corredor que dava para o banheiro e o quarto de hóspedes. Paul se esticou mais ainda na cadeira e seu coração disparou.

— Não — respondeu Annie, mais calma que nunca. — Ele levou a garrafa com ele. Disse que precisava ir andando.

— Para onde vai esse corredor? — perguntou Golias.

E Paul ouviu o passo das botas, a princípio abafado pelo tapete da sala, tornar-se mais nítido quando ele passou para o chão de tacos do corredor.

— Dá num banheiro e num quarto vazio. Eu durmo ali algumas vezes, quando faz calor. Se quiser, pode dar uma olhada, mas garanto ao senhor que não há nenhum policial amarrado no pé da minha cama.

— Não, tenho certeza que não — retrucou Davi. Surpreendentemente, os passos e as vozes começaram a diminuir, indo em direção à cozinha.

— Ele lhe pareceu perturbado com alguma coisa?

— Nem um pouco. Apenas cansado e com calor. A respiração de Paul começou a voltar ao normal.

— Nem preocupado com nada?

— Não.

— E não disse para onde iria em seguida?

Os policiais provavelmente não devem ter dado conta, mas os ouvidos já acostumados de Paul perceberam nela um momento de hesitação — aquilo podia ser uma armadilha, uma ratoeira pronta para disparar agora ou dentro de alguns instantes.

— Não — disse ela, finalmente. — Mas ele seguiu para oeste. Deve ter ido em direção a Springer Road, para o lado daquelas fazendas.

— Muito obrigado por ter colaborado conosco, senhorita — disse Davi — Pode ser que a gente volte para fazer mais perguntas.

— Está bem, fiquem a vontade. Não tenho tido muita companhia ultimamente.

— A senhorita se incomoda de nos mostrar o celeiro? — perguntou Golias, subitamente.

— Claro que não, mas não deixem de dizer "olá" quando entrarem.

— Dizer "olá" para quem, senhorita? — perguntou Davi.

— Ora, para Misery, a minha porca.

31

Annie estava parada na porta olhando para ele tão fixamente, mas tão fixamente, que ele começou a sentir o rosto queimar e percebeu que estava ficando ruborizado. Os policiais haviam ido embora há quinze minutos.

— Tem alguma coisa de errado com o meu rosto? — perguntou ele, finalmente.

— Por que você não gritou?

Antes de entrar no carro, os policiais fizeram um ligeiro cumprimento com o chapéu, mas nenhum dos dois sorriu. Mesmo assistindo a cena de um ângulo reduzido, Paul pôde perceber a expressão que eles tinham no olhar. Eles sabiam quem era ela.

— Eu fiquei esperando você gritar o tempo todo — prosseguiu ela. — Eles teriam pulado em cima de mim.

— Pode ser que sim, pode ser que não.

— Então por que não gritou?

— Annie, se você passar a vida inteira achando que o pior vai sempre acontecer, você vai ter que se enganar uma vez ou outra.

— Não banque o espertinho comigo!

Paul percebeu que Annie parecia impassível, mas estava profundamente confusa. O silêncio de Paul não se encaixava na visão que ela alimentava do mundo como uma luta constante: A Boa Annie versus o time insuperável e brigão dos Fedelhos Porcarias.

— Quem está bancando o espertinho? Eu disse que não ia abrir a boca e não abri. Quero terminar o meu livro relativamente em paz. Quero terminá-lo para você.

Annie olhou para ele desconfiada, querendo acreditar, receando acreditar. . . e finalmente acreditando. E ela fazia bem em acreditar, porque ele estava falando a verdade.

— Então trate de trabalhar — disse ela ternamente — Trate de pegar no livro imediatamente. Você viu o jeito com que eles olharam para mim.

32

Os dois dias subseqüentes transcorreram tão tranqüilos quanto os que precederam a visita de Duane Kushner — era até possível duvidar que Duane Kushner tivesse algum dia aparecido. Paul escrevia sem parar. Ele desistira temporariamente da máquina de escrever e Annie a colocara no console embaixo do quadro com o Arco do Triunfo, sem dar uma palavra. Naqueles dois dias, Paul encheu três dos quatro blocos de rascunho. Quando terminasse com eles, passaria a escrever nas folhas de datilografar. Annie apontava a meia dúzia de lápis Berol Black Warrior, ele escrevia até as pontas terminarem e ela os apontava novamente. Os lápis iam diminuindo gradualmente de tamanho enquanto Paul se sentava ao sol, de frente para a janela, e se debruçava sobre a história. De vez em quando, ele agitava distraidamente o dedão do pé direito no ar, como a coçar a sola do pé esquerdo que não existia mais, olhando pela brecha no papel. E ela se abrira de tal modo que o livro caminhava para o clímax da forma mais natural, como sempre acontece com os melhores livros. Paul enxergava tudo com clareza: três grupos distintos, mas todos firmemente decididos, caminhavam pelas cavernas dentro do rosto da deusa; dois deles, com intenção de matar Misery e o último — formado por Ian, Geoffrey e Hezekiah, para salvá-la; enquanto isso, a aldeia dos Bourkas ardia em chamas e os poucos sobreviventes se aglomeravam na saída da caverna — no ouvido esquerdo da deusa — prontos para acabar com qualquer um que ousasse sair lá de dentro com vida.

No terceiro dia após a visita de Davi e Golias, o transe hipnótico dos Bourkas encontrava-se bastante abalado, mas não de todo destruído, quando uma caminhonete creme da Ford com os dizeres KTKA/Grand Junction pintados na porta invadiu o jardim de Annie. A parte traseira da caminhonete estava apinhada de equipamentos de vídeo.

— Meu Deus! — exclamou Paul, entre bem-humorado, surpreso e aterrorizado — Que bagunça é essa?

A caminhonete mal estacionara e um rapaz de calça desbotada e camiseta pulou fora dela. Ele trazia nas mãos um objeto grande e preto e por uma fração de segundos Paul pensou que fosse uma bomba de gás lacrimogêneo. Quando ele pousou o objeto no ombro e se virou para a casa, Paul percebeu que era uma câmera. Uma garota bonita saiu pela porta da frente ajeitando os cabelos, e antes de se colocar frente à câmera, parou para dar uma olhada final na maquiagem no espelho retrovisor.

Os olhos do mundo exterior — tão afastados da Mulher Dragão nos últimos anos — voltava a atacar violentamente.

Paul afastou a cadeira o mais rápido possível, esperando ter saído da janela a tempo.

Bem, se você quiser ter certeza de que não apareceu, é só dar uma olhada no noticiário das seis, pensou ele ao mesmo tempo que tapava a boca com as mãos, para abafar o riso.

A porta de tela da cozinha se escancarou.

— Caiam fora daqui! — gritou Annie — Saiam já da minha casa!

— Senhorita Wilkes, nós gostaríamos de. . . — disse uma voz ao longe.

— Vocês gostariam é de um tiro no traseiro se não derem o fora daqui!

— Senhorita Wilkes, eu sou Glenna Roberts da KTKA. ..

— Você podia ser o Jesus Cristo do planeta Marte! Saiam da minha casa se não quiserem MORRER!

— Mas. . .

PUM!

Annie pelo amor de Deus você matou a repórt. . .

Paul chegou a cadeira para a frente e deu uma espiada. Ele não tinha outra escolha — precisava dar uma olhada. E ficou aliviado ao ver que Annie atirara para o alto. Mas foi o bastante. Glenna Roberts se jogou de cabeça dentro da caminhonete. O cinegrafista virou a câmera para Annie; Annie virou a espingarda para o cinegrafista. O rapaz — achando que era mais jogo continuar vivo para ver o Grateful Dead novamente do que filmar a Mulher Dragão — entrou correndo na caminhonete, que deu marcha à ré antes mesmo dele fechar a porta.

Continuar: parte 4 de 4