Misery

Stephen King · Capítulo 2 de 5 · parte 3/4

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Misery

Annie

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Ela saiu do quarto e Paul apoiou-se nos cotovelos uma última vez. Dentro da churrasqueira, algo que se parecia com um pedaço de madeira queimada boiava num lago escuro e nauseante.

Pouco depois, Annie voltou ao quarto. E por incrível que pareça ela ainda estava agitada. .

Annie sentou-se na cama e lhe empurrou as cápsulas na boca.

"Eu ainda mato você", pensou ele engolindo o remédio e se recostando no travesseiro.

20

— Vamos, coma.

Paul ouvia a voz distante de Annie e sentiu uma pontada de dor. Ao abrir os olhos, percebeu que ela estava sentada a seu lado — pela primeira vez, seu rosto estava realmente do mesmo nível que o dela; ele a encarava frente a frente. Ainda tonto, Paul percebeu, com alguma surpresa, que, pela primeira vez depois de alguns séculos, ele estava sentado. . . ele estava sentado, de verdade.

"E quem se importa com isso?, pensou ele, tornando a fechar os olhos. A maré estava alta e as estacas, submersas. Finalmente, a maré subira. E da próxima vez que ela baixasse, podia ficar por lá para sempre, e ele sairia pegando onda, enquanto ouvessem ondas para surfar. . . Mais tarde. Só mais tarde ele queria pensar em ficar sentado. . .

— Vamos, coma! — repetiu ela, e ele sentiu uma pontada de dor outra vez, uma dor do lado esquerdo da cabeça. Paul soltou um gemido e tentou se esquivar

— Vamos, Paul, você tem que comer. Você tem que voltar a si para comer, caso contrário. . .

Era na orelha esquerda. Annie estava puxando sua orelha.

— Ei — murmurou ele — Não faça isso, pelo amor de Deus.

Seus olhos estavam pesados, mas Paul os abriu. Um segundo depois, sentiu uma colher entrando por sua boca e Paul teve que engolir a sopa quente para não engasgar.

E subitamente, saído de algum lugar — a mais sensacional aparição que já presenciei, senhoras e senhores! — o Esfomeado irrompeu de novo na pista de corrida. Aquela única colherada de sopa parecia ter despertado suas entranhas de algum transe hipnótico. Paul tomou a sopa avidamente, sem saciar de todo a fome.

Lembrou-se vagamente de ver Annie empurrando a churrasqueira sinistra e fumegante para fora do quarto e lembrou-se de vê-la trazendo alguma coisa parecida com um carrinho de supermercado. Paul estivera tonto e drogado, mas essas imagens não lhe causavam mais nenhum impacto; afinal de contas, estava hospedado na casa Annie Wilkes. Churrasqueiras, carrinhos de supermercado. . . amanhã seriam um parquímetro e uma ogiva nuclear. Quando se vive num lugar como esse, coisas esquisitas nunca param de acontecer.

Paul estivera inconsciente, mas percebia agora que o carrinho de supermercado nada mais era que uma cadeira de rodas dobrável. E era nela que ele estava sentado. Suas pernas, presas nas talas, estavam esticadas à sua frente e a região da bacia, como estivesse inchada, não parecia muito satisfeita com a nova posição.

Ela me colocou na cadeira quando eu estava dormindo, pensou ele. Ela me carregou no colo. Um peso desses. . . Ela deve ser mesmo muito forte.

— Pronto, acabou! — anunciou Annie. — Fico satisfeita de ver como você tomou a sopa toda, Paul. Acho que você vai ficar bom. Eu não diria "novinho em folha" — não, isso nunca — mas, se não tivermos mais nenhum desses. . . contratempos. . . acho que você poderá melhorar. Agora vou trocar os lençóis e, depois, as suas roupas. E se você não estiver sentindo dor e ainda estiver com fome, deixarei que coma umas torradinhas. . .

— Muito obrigado, Annie. — respondeu ele, com humildade. Vai ser na sua garganta. E eu talvez permita que você antes solte um:

"Meu Deus do céu". Mas só um. Annie. Só um.

21

Quatro horas mais tarde, Paul estava de volta na cama e nesse instante, ele seria capaz de queimar todos os livros por uma única cápsula de Novril. Enquanto estivera sentado, suas pernas não haviam incomodado (afinal, suas veias estavam entupidas de narcótico — o suficiente para fazer dormir metade do exército da Prússia), mas agora, que estava deitado, era como se toda a parte inferior de seu corpo tivesse sido tomada por uma nuvem de abelhas.

Aquela sopa devia realmente ter recobrado as suas forças, pois ele não se lembrava de ter podido gritar tão alto desde que saíra do nevoeiro.

Imaginava que Annie estivera um longo tempo parada no corredor, do outro lado da porta, antes de entrar. Estivera imóvel, desligada, com o olhar vazio a contemplar a maçaneta da porta ou, quem sabe, as linhas de sua própria mão.

— Aqui está — disse ela, dando-lhe duas cápsulas dessa vez. Paul segurou o punho de Annie para firmar o copo e engoliu o remédio.

— Comprei dois presentes para você.

— É mesmo? — murmurou ele.

Annie apontou para o canto do quarto, onde se encontrava a cadeira de rodas dotada de um suporte para apoiar as pernas, que ficava projetado para frente.

— O outro eu mostro amanhã. E agora, Paul, trate de dormir um pouco.

22

Paul, entretanto, ficou um longo tempo sem conseguir pegar no sono. Curtindo os efeitos da droga, ele começou a pensar na sua situação. Não lhe doía tanto agora. Doía menos do que pensar no livro que escrevera e depois destruíra.

Tantas coisas. . . coisas isoladas que se juntavam como pedaços diferentes de pano numa colcha de retalhos.

Segundo Annie, eles estavam a quilômetros dos vizinhos mais próximos que, por sinal, não gostavam dela. Como era mesmo o nome deles? Boynton. Não, era Roydman. Sim, era isso mesmo, Roydman. E qual era a distância até a cidade? Não muito distante, por certo. Calculava que estivesse dentro de um círculo cujo diâmetro tivesse no mínimo uns vinte e cinco quilômetros e, no máximo, setenta. A casa de Annie Wilkes ficava bem ao centro deste círculo. A casa dos Roydmans e a cidade de Sidewinder, por menor que esta fosse, deviam ficar. . .

E o meu carro? Meu Camaro também está em algum lugar dentro deste círculo. Será que a polícia encontrou o meu carro?

Achava que não. Ele era uma pessoa muito conhecida. Se o carro com os documentos em seu nome tivesse sido encontrado, uma averiguação das mais simples revelaria que ele estivera em Boulder, antes de sumir de vista. A descoberta de seu carro daria início a uma busca, os jornais noticiariam o seu desaparecimento. . .

Ela nunca assiste televisão, nem escuta rádio — a não ser que use fones de ouvido.

Isso tudo o fazia lembrar do cachorro numa história de Sherlock Holmes — aquele que nunca latia. Seu carrão não havia sido encontrado porque nenhum policial aparecera por ali. Se ele tivesse sido encontrado, os policiais não teriam averiguado todas as pessoas dentro desse círculo imaginário? E quantas pessoas mais havia dentro desse círculo, tão perto da Western Slope? Os Roydmans, Annie Wilkes, talvez umas dez ou doze pessoas.

Mas o fato do carro não ter sido encontrado até o momento não significava que ele não seria encontrado.

Sua imaginação tão vívida (que ele não herdara de ninguém da família de sua mãe) assumiu o comando. O policial era alto, tinha um ar distante, mas atraente, e suas costeletas eram um pouco mais compridas que o comum. Ele usava óculos escuros e espelhados, que refletiam em duplicata a imagem da pessoa que estivesse sendo interrogada, e tinha um forte sotaque típico do meio-oeste.

Encontramos um carro capotado na encosta da montanha Humbuggy. O carro pertence a um escritor muito famoso, Paul Sheldon. Há sangue nos bancos e no painel, mas não há o menor sinal dele. Na certa, conseguiu sair do carro e deve estar perambulando por aí, meio sem rumo. . .

Paul soltou uma gargalhada. Mas é claro que o policial não poderia imaginar o estado de suas pernas. Era natural que pensassem assim, já que ele não estava nas imediações do local do acidente. Não era possível que o curso das investigações os levasse a pensar em algo tão improvável quanto um seqüestro. Pelo menos, não de início. Nunca, talvez.

A senhora se lembra de ver alguém pela estrada no dia da tempestade? Ele é alto, tem quarenta e dois anos e cabelos ruivos. Devia estar usando calça jeans, blusa de flanela quadriculada e casaco de lã. Ele podia estar mancando. . . Ora, a senhora nem ao menos saberia quem ele é?

Annie convidaria o policial para tomar um café na cozinha, mas tomaria o cuidado de fechar todas as portas entre a cozinha e seu quarto de hóspedes. No caso dele começar a gemer.

Que nada, senhor, eu não vi ninguém! Para falar a verdade, eu vim para casa o mais cedo que pude. Tony Roberts me avisou que a tempestade não estava mais indo para o sul.

O policial deixaria a xícara de café sobre a mesa e se levantaria, dizendo:

Está bem, se a senhora vir alguma pessoa parecida com a descrição que lhe dei, avise imediatamente a polícia. Ele é uma pessoa muito famosa. Já saiu até na revista People. E em outra também. . .

Não se preocupe, senhor.

E o policial iria embora.

Talvez esta cena já tivesse acontecido e ele simplesmente ignorasse. Talvez este mesmo policial que imaginara, ou algum colega dele, tivesse interrogado Annie Wilkes enquanto ele estava dopado. Deus é testemunha das muitas horas em que ele estivera dopado. Depois de pensar mais um pouco, Paul concluiu que isso não era muito provável. Ele não era uma pessoa qualquer. Ele já aparecera na revista People (primeiro best-seller) e na revista Us (primeiro divórcio); haviam formulado uma questão sobre a vida dele no programa de Waltes Scott, "Personality Parade", que ia ao ar aos domingos. Eles tornariam a procurá-lo, talvez por telefone, ou pessoalmente. Quando uma celebridade — ou uma quase-celebridade, como um escritor — desaparecia, a polícia fechava o cerco e se esmerava nas investigações.

Você está apenas imaginando.

Talvez imaginando; talvez deduzindo. E de qualquer maneira, era melhor fazer isso do que ficar prostrado na cama, sem se ocupar com nada.

Havia muretas de proteção na estrada?

Tentou se lembrar, mas não conseguiu. A única coisa que conseguia lembrar era de ter se abaixado para apanhar os cigarros e, então, o mundo virou de cabeça para baixo de uma maneira formidável, dando início às trevas. Mais uma vez, a dedução (ou uma simples adivinhação, se você quiser bancar o mal-humorado) lhe disse que não. Muretas amassadas ou grades de proteção partidas teriam chamado a atenção da polícia rodoviária.

Mas, então, o que acontecera realmente?

Perdera o controle do carro numa pequena descida com inclinação suficiente para o carro capotar. Se fosse à beira de um precipício, haveria muretas; se fosse à beira de um precicípio, teria sido muito difícil, ou praticamente impossível, que Annie tivesse conseguido chegar até onde o carro estava, e, muito menos, que tivesse conseguido trazê-lo de volta para a estrada.

Mas onde estaria o carro? Enterrado no meio da neve, é claro.

Paul colocou o braço sobre os olhos e imaginou o trator da prefeitura descendo a estrada onde ele capotara. Passavam-se duas horas depois do acidente. O trator era um pequeno ponto amarelo num mar de neve branca. O motorista estava agasalhado até os ossos; na cabeça, trazia um antigo boné de maquinista, nas cores azul e branco. À sua direita, no fim de um barranco que mais adiante se transformaria num desfiladeiro típico dessa região, encontra-se o Camaro de Paul Sheldon. E a parte que mais se podia ver dele era apenas o pára-choque traseiro, onde se via um adesivo azul e desbotado com os dizeres: HART PARA PRESIDENTE. O rapaz que dirige o trator não avista o carro; o adesivo está muito desbotado para chamar a atenção de alguém. As pás do trator diminuem seu campo de visão e, além disso, o dia está escurecendo e ele está exausto. Tudo o que quer no momento é terminar sua última travessia, fazer a manobra de volta e tomar um gole de bebida.

Ele segue em frente e as pás do trator jogam montes de neve cinzenta nas valas ao longo da estrada. Seu Camaro está, agora, quase todo soterrado. Mais tarde, na mais profunda escuridão da noite, quando mesmo as coisas que estão a um palmo de nosso nariz parecem irreais, seria a vez de um outro funcionário limpar a pista. Ele viria no sentido contrário e acabaria de soterrar o carro.

Paul abriu os olhos e ficou contemplando o teto. Uma rachadura no gesso formava uma linha que lhe lembrava três letras M entrelaçadas. Ao longo do interminável correr dos dias em que passara ali deitado, Paul se tornara bastante familiarizado com aquelas letras e, agora que se deparava com elas mais uma vez, começou a pensar em palavras começadas com m: malvada, miserável, megera e machucado.

É.

Podia ter acontecido assim. Podia.

E ela já haveria pensado no que aconteceria quando seu carro fosse encontrado?

Haveria, sim. Ela era maluca, mas não era tola.

Mas jamais passara pela cabeça dela que ele podia ter uma cópia de Carros velozes.

É, ela estava certa. Aquela cadela estava certa. Eu não tinha nenhuma cópia.

Na sua cabeça surgiram as imagens das folhas de papel chamuscadas flutuando pelo quarto; as chamas, o barulhinho do fogo, o cheiro da destruição. Paul cerrou os dentes e tentou afastar as imagens da cabeça. Nem sempre era bom ter uma imaginação muito vívida.

Não, você não tirou nenhuma cópia do livro. Mas nove entre dez escritores teriam tirado. Teriam sim, se ganhassem pelo menos tanto quanto você ganha pelos seus livros, mesmo pelos que não são da série Misery. Isso nem passou pela cabeça dela.

Annie não é escritora.

Nem tola — e nisso nós dois concordamos. Para mim, Annie se acha o máximo; seu ego não é apenas forte, mas inquestionavelmente grandioso. Queimar o livro lhe pareceu a coisa mais apropriada. E o conceito dela a respeito da coisa mais apropriada iria por água abaixo com a simples lembrança de uma insignificante máquina de tirar xerox e alguns pares de moedas de vinte e cinco centavos. . . e isso, meu amigo, sequer havia passado pela cabeça dela.

As deduções de Paul eram como castelos de areia, mas para ele, Annie parecia tão sólida quanto o rochedo de Gibraltar. Devido às muitas pesquisas que fizera para um dos livros Misery, Paul não era um simples leigo quando se tratava de comportamentos neuróticos e psicóticos. Embora uma pessoa às raias de uma psicose pudesse alternar períodos de profunda depressão com períodos de intensa alegria, que beiram a violência, Paul sabia que o ego estava por trás desses estados, certo de que todos os olhos estavam voltados para ele, e certo de que ele estava estrelando um grande espetáculo, cujo desenlace era aguardado por milhares de ansiosos espectadores.

Esse ego impedia o curso dos pensamentos; e estes acabavam se tornando bastante previsíveis, visto que convergiam sempre numa mesma direção: Partiam da pessoa desequilibrada e se dirigiam para objetos, situações e pessoas fora do seu campo de controle (ou seja, para suas fantasias: um neurótico conseguia distinguir a fantasia da realidade, mas para o psicótico elas eram exatamente a mesma coisa).

Annie Wilkes queria destruir Carros velozes. Portanto, para ela, existia apenas uma única cópia.

Talvez eu tivesse conseguido evitar tudo isso se dissesse a ela que existia uma outra cópia; ela perceberia como seria inútil aquilo tudo, ela. . .

Paul estava quase adormecendo, más seus pensamentos o despertaram e ele abriu os olhos.

Sim, Annie perceberia que seria inútil destruir o livro. Ela se veria obrigada a seguir num daqueles pensamentos que lhe escapavam ao controle. Seu ego estaria ofendido, reclamaria. . .

Eu tenho um gênio!

Se Annie se visse obrigada a reconhecer que não adiantaria destruir o seu "livro obsceno", não acabaria ela se decidindo a eliminar, então, o autor do livro? Afinal de contas, não havia nenhuma outra cópia de Paul Sheldon.

O coração de Paul disparou. No outro cômodo, o relógio começou a bater. Paul ouviu os passos pesados de Annie andando no andar de cima. Ouviu-a urinando e puxando a descarga do banheiro. Tornou a ouvir os passos dela e o estalido das molas da cama.

Você não vai me fazer ficar com raiva de novo, vai?

Paul tentou acompanhar seus pensamentos, tal como um cavalo marchador tenta acertar o passo. De que adiantava toda essa análise barata? E o carro? Quando seria encontrado? E o que isso significava para ele no momento?

— Espera um pouco — murmurou ele, na escuridão do quarto. — Espere um minuto só, não desligue o telefone. Espere um pouco.

Paul colocou o braço sobre os olhos, trazendo de volta o policial com óculos escuros e costeletas maiores que o comum.

Encontramos um carro capotado na encosta da montanha Humbuggy. . . era isso o que o policial estava dizendo, e bla-bla-blá. . .

Só que desta vez Annie não o convida para tomar café. Desta vez ela não se sentirá a salvo até que ele tenha ido embora e sumido de vista. Mesmo da cozinha, com duas portas fechadas e com o hóspede completamente dopado, o policial poderia ouvir um gemido.

Se o carro fosse encontrado, Annie Wilkes ia sentir que estava correndo perigo, não ia?

— Ia, sim. — murmurou Paul.

As pernas estavam começando a doer outra vez, mas Paul estava tão aterrorizado que nem percebeu.

Annie estaria em apuros, não porque o tivesse levado para sua casa, especialmente no caso dela ser mais próxima do local do acidente do que a cidade de Sidewinder, como ele acreditava; por uma ação dessas Annie poderia até ganhar uma medalha e um título vitalício do fã-clube de Misery Chastain (para infelicidade de Paul, tal coisa existia). Mas o problema era que Annie o levara para sua casa, acomodara-o em seu quarto de hóspedes e não avisara a ninguém. Não dera sequer um telefonema para o hospital mais próximo. "Aqui quem fala é Annie Wilkes. Eu moro no alto da montanha Humbuggy e socorri um homem na estrada. Ele parece que foi atropelado pelo King Kong.'' O problema era que Annie o viciara com um remédio a que ela certamente não poderia ter acesso, nem mesmo se ele estivesse apenas metade viciado do que julgava estar. O problema era que Annie o submetera a um misterioso tratamento intravenoso, espetara agulhas em seus braços e colocara suas pernas em talas feitas de muletas de alumínio serradas. O problema era que Annie Wilkes fora levada ao tribunal de Denver. . . não como testemunha de defesa, pensou ele. Aposto que não.

O policial entra na impecável viatura da polícia (impecável a não ser pela grande quantidade de neve que se acumula nas rodas e no pára-choque) e Annie sente um alívio. . . mas não está mais segura, porque ela agora é como um animal acuado.

A polícia vai ser incansável em suas buscas porque ele não é uma pessoa qualquer; ele é Paul Sheldon, um deus da literatura, que fez nascer Misery Chastain, a queridinha de todos. Mas caso não o encontrem, talvez suspendam as buscas, ou, então, as transfiram para um outro local. Mas quem sabe um dos Roydmans não a viu naquela noite, carregando uma trouxa, que mais se parecia com um homem enrolado, na traseira do jipe? Mesmo que eles nada tivessem visto, Annie ficaria imaginando se os Roydmans não iriam inventar histórias a seu respeito. Afinal de contas, eles não gostavam dela.

Mas os guardas poderiam voltar e, da próxima vez, o hóspede talvez não ficasse quieto.

Paul lembrou-se do olhar desnorteado de Annie quando as chamas da churrasqueira estavam quase fugindo ao seu controle. Lembrou-se de vê-la passar a língua nos lábios e andar de um lado para outro com as mãos abanando e retornando ao quarto a toda hora. No quarto em que seu hóspede estava perdido em uma nuvem de fumaça. Uma vez ou outra Annie exclamava: "Meu Deus do céu!", e sua voz ecoava pela casa vazia.

Annie roubava um pássaro raro, de lindas penas — um pássaro raro que viera da África.

E o que eles iam fazer com ela quando descobrissem?

Ora, iam levá-la ao tribunal outra vez. Iam levá-la outra vez ao tribunal de Denver. Mas ela agora não sairia livre.

Paul tirou o braço dos olhos e ficou olhando para o teto, onde os Ms entrelaçados pareciam flutuar. Não era preciso colocar o braço sobre os olhos para imaginar o restante. Ela ainda o manteria preso por uma semana, mas bastaria uma outra visita ou um telefonema dos policiais para que ela decidisse se livrar de seu pássaro raro. Ela acabaria fazendo isso, tal como os cães decidem se livrar da caça quando percebem que estão sendo perseguidos.

Ela lhe daria cinco cápsulas ao invés de duas; ou o asfixiaria com o travesseiro; ou simplesmente lhe daria um tiro. Ela devia ter uma espingarda em algum lugar. Quase todas as pessoas que moravam no interior tinham uma espingarda, e isso resolveria o problema.

Não, um tiro não.

Seria muito inconveniente.

Deixaria provas.

Nada disso ocorrera até o momento porque o carro não havia sido encontrado. A polícia devia estar procurando-o em Nova Iorque ou Los Angeles, mas ninguém estava procurando por ele em Sidewinder, Colorado.

Mas na primavera.

Os Ms separaram-se um do outro lá no teto. Marcas. Manchas. Molhadas.

A dor nas pernas aumentou. A próxima vez que o relógio batesse, Annie apareceria com o remédio. Mas ele teve receio que ela pudesse ler seus pensamentos. Paul desviou o olhar para a parede à sua esquerda, onde havia um calendário pendurado. Pelo calendário, estavam em fevereiro, e a estampa do mês mostrava um menino andando de trenó. Mas os cálculos de Paul indicavam que já deviam estar no início de março. Annie Wilkes devia ter se esquecido de virar a folhinha.

Quanto tempo levaria até que a neve derretesse e deixasse à mostra seu Camaro com chapa de Nova Iorque e os documentos no porta-luvas confirmassem que o veículo pertencia a Paul Sheldon? Quanto tempo até que aquele policial aparecesse por aqui? Ou que ela lesse as notícias no jornal?

Quanto tempo ainda, até que a primavera derretesse toda a neve?

Seis semanas? Cinco, talvez?

Esse pode ser todo o tempo que eu ainda tenho de vida, pensou ele, começando a tremer. Suas pernas estavam completamente despertas e Paul só conseguiu dormir depois que Annie lhe trouxe o remédio.

23

Na noite seguinte Annie lhe apresentou a Royal, uma máquina de escrever fabricada numa era em que máquinas elétricas, televisões a cores e telefones com teclas eram frutos de ficção científica. Ela era preta como carvão; nas laterais, duas placas de vidro deixavam à mostra suas alavancas, molas, hastes e lingüetas. A alavanca de retrocesso, feita de aço e frouxa pela falta de uso, mais parecia o polegar de uma pessoa pedindo carona. O cilindro estava empoeirado e o revestimento de borracha era gasto e cheio de marcas. Na frente da máquina, lia-se o nome — Royal — em letras que formavam um semicírculo. Annie segurou a máquina por alguns instantes para que ele a examinasse e, resmungando alguma coisa, a depositou na cama, entre as duas pernas de Paul.

Ele encarou a máquina.

Ela estava rindo para ele?

Meu Deus! Era isso mesmo o que dava a parecer.

De qualquer modo, ela lhe cheirou a encrenca. A fita era de duas cores, um vermelho e um preto muito desbotados. Paul nem se lembrava mais que existiam máquinas com fitas assim, e a visão que tinha à sua frente não lhe causou a menor nostalgia.

— E então? — perguntou Annie, entusiasmada — O que acha?

— É bem simpática. Uma verdadeira antigüidade.

— Eu não a comprei como antigüidade — respondeu ela, fechando o sorriso. — Eu a comprei em segunda mão. Foi um achado!

— Uma máquina de escrever nunca é uma antigüidade — respondeu ele, prontamente. — Uma boa máquina dura para sempre, é praticamente eterna. . .

Se Paul pudesse aproximar-se da máquina, ele a teria acariciado. Se Paul pudesse aproximar-se da máquina, ele a teria beijado. O sorriso de Annie voltou e Paul suspirou, aliviado.

— Eu a comprei na "Novidades Usadas" — não é um nome idiota para se dar a uma loja? Mas a dona da loja, Nancy Dartmonger, é uma mulher idiota.

Uma sombra cobriu o rosto de Annie, mas dessa vez ele percebeu imediatamente que o problema não era com ele. Paul vinha desco-brindo que seu instinto de sobrevivência não era apenas um simples instinto, mas também um meio surpreendente de conhecê-la melhor. Descobrira que estava se acostumando aos ciclos de Annie, às suas mudanças de humor.

— Além de idiota, ela é malvada. Já se divorciou duas vezes e agora está vivendo com um balconista de bar. Por isso, quando você disse que ela era uma antigüidade. . .

— Ela me parece bem simpática.

Annie ficou calada por alguns instantes e depois falou timidamente, como se fizesse uma confissão:

— Ela não tem o "N".

— É mesmo?

— Aqui. . . Dá para ver? — perguntou ela, inclinando a máquina.

Paul deu uma olhadela no semicírculo das letras e reparou que havia uma falha, tal qual uma boca de dentes estragados em que falta um molar.

— Hum. . . estou vendo.

Annie tornou a colocar a máquina no lugar e a cama balançou. Paul calculou que uma máquina daquelas devia pesar uns vinte quilos, pois devia ter sido fabricada numa época em que não havia liga de metais, nem matéria plástica. . . nem tampouco adiantamento pela venda de livros, nem lançamento de filmes, nem USA Today, nem Entertainment Tonight e nem pessoas famosas fazendo comerciais de cartões de crédito e vodca.

A Royal sorria para ele, anunciando problemas.

— Ela queria quarenta e cinco dólares por ela, mas acabou deixando por quarenta; por causa do "n" que está faltando.

Annie lhe dirigiu um sorriso cheio de malícia, que dizia: ninguém me engana.

Paul retribuiu o sorriso. A maré estava alta, o que tornava possível sorrir e mentir com facilidade.

— Ela lhe deu um desconto? E você não teve que pechinchar?

— Eu disse a ela que "n" era uma letra muito importante — admitiu ela.

— Melhor para você!

Esta era uma nova descoberta para Paul: a bajulação se tornava também muito fácil, à medida que você ia pegando o jeitinho.

O sorriso de Annie tornou-se embaraçado, como se ela o convidasse a partilhar de um segredo delicioso:

— Eu disse a ela que "n" era uma das letras do nome do meu escritor predileto.

— E são duas das letras no nome da minha enfermeira predileta.

O rosto de Annie se incendiou e suas bochechas sólidas ficaram ruborizadas. É exatamente assim que ficavam os ídolos dos livros de H. Rider Haggard quando acendiam fogueiras na boca das estátuas. Era exatamente assim que ficavam quando anoitecia.

— Você está caçoando de mim — disse ela, num sorriso tímido.

— Não, não estou.

— Está bem.

Annie pareceu se desligar, mas não daquela maneira. Estava apenas satisfeita, um pouco embaraçada, e dando alguns minutos para organizar seus pensamentos. Paul também poderia estar satisfeito com o curso das coisas, não fosse pelo peso da máquina de escrever, tão sólida quanto Annie e também tão avariada. Pousada na cama, a Royal lhe dirigia um sorriso sem um dos dentes, anunciando problemas.

— A cadeira de rodas custou muito mais. . . Os estoques da Ostomy praticamente sumiram desde que eu. . .

Annie interrompeu o que ia dizer. Franziu as sobrancelhas, soltou um pigarro e sorriu.

— Mas já era hora de você voltar a se sentar, Paul, e eu não lamento nem um pouco o dinheiro que ela me custou. E é evidente que você não poderá bater à máquina sentado, não é mesmo?

— É, eu não poderia. . .

— Arranjei uma placa de madeira. . . cortei do tamanho certo. . . comprei papel. . . Espere um instante!

Annie saiu do quarto correndo como uma menina, deixando Paul e a máquina a olharem um para o outro. Paul parou de sorrir no momento em que Annie lhe deu as costas, mas a Royal não se alterou. Algum tempo mais tarde, Paul desconfiou que, já naquela época, ele pressentira o que estava por acontecer, assim como pressentira como seria trabalhar naquela máquina, como ela rangeria através de seu sorriso, tal como Ducky Daddles, aquele personagem da história em quadrinhos.

Quando voltou, Annie trazia uma placa de madeira de um metro por um e vinte mais ou menos e, na outra mão, um pacote de papel da marca Corrasable Bond.

— Olhe só! — exclamou Annie, colocando a placa de madeira nos braços da cadeira de rodas que estava ao lado da cama, como se aguardasse a chegada de um ilustre visitante. Uma vez mais, Paul pôde imaginar sua imagem sentado na cadeira, por trás daquela placa, enclausurado como um prisioneiro.

Ela colocou a máquina na placa de madeira, de frente para sua imagem. Ao lado, colocou o pacote do Corrasable Bond — a marca de papel que ele mais odiava no mundo; porque a tinta não fixava no papel e só das folhas roçarem umas nas outras, todo o trabalho acabava borrado.

Annie montara algo como uma escrivaninha para um aleijado.

— O que você acha?

— Parece bem — disse ele, soltando a maior mentira de sua vida com incrível naturalidade. Em seguida, Paul fez uma pergunta para a qual já adivinhava a resposta: — E o que você acha que eu devo escrever?

— Ora, Paul! Eu não acho. Eu sei o que você vai escrever — disse ela entusiasmada, com os olhos a lhe saltarem do rosto. — Você vai usar esta máquina para escrever um livro novo. O melhor livro de sua vida! A volta de Misery!

24

A volta de Misery. Paul não esboçou a menor reação. Na sua cabeça surgiu a imagem de um trabalhador que acaba de perder a mão numa serra. Contemplando o punho amputado, ele experimentaria a mesma sensação de vazio que sentia no momento.

— É isso mesmo! — exclamou Annie, exultante, mantendo as mãos vigorosas cruzadas sobre o peito. — Vai ser um livro só para mim, Paul! Será minha recompensa por ter lhe salvado a vida! A primeira e única edição do mais novo livro Misery! Terei algo que ninguém mais no mundo poderá ter, não importa o quanto eles o desejem! Pense nisso Paul!

— Annie, Misery está morta.

Inacreditavelmente, porém, ele já considerava a idéia de trazê-la de volta. Paul sentiu certa repulsa pela idéia, mas nenhuma surpresa. Afinal, um homem que fora capaz de beber a água suja de um balde não teria problemas para escrever alguma coisa, seguindo orientações alheias.

— Não, ela não está morta — retrucou Annie, sonhadoramente. — Mesmo quando eu estava. . . com raiva de você, eu sabia que ela não havia morrido de verdade. Sabia que você não seria capaz de matá-la. Pois você é uma pessoa boa, Paul.

— Sou? — perguntou ele, desviando o olhar para a máquina de escrever, que lhe sorria.

Vamos ver se você é bom mesmo, meu amigo, sussurou-lhe a máquina.

— É, sim.

— Annie, eu nem sei se vou conseguir me sentar nessa cadeira. Da última vez. . .

— Da última vez você sentiu muita dor. E da próxima vez, também vai sentir. Mais ainda, talvez. Mas daqui a pouco — e esse dia já está chegando, embora possa parecer a você que ainda vai demorar — vai doer menos. E menos. . . e menos.

— Annie, você me responde a uma pergunta?

— Mas é claro, querido!

— Se eu escrever esta história para você. . .

— Um romance! Um tão grande quanto os outros — maior ainda! Paul fechou os olhos e tornou a abri-los:

— Está bem. Se eu escrever esse romance, você me deixará ir embora quando terminar?

Por alguns instantes, uma nuvem escura tomou conta do rosto de Annie e ela lhe dirigiu um olhar muito cauteloso:

— Você fala como se eu o mantivesse prisioneiro, Paul. Paul a encarou sem dizer uma palavra.

— Acho que quando você terminar, você estará ponto para. . . pronto para se encontrar com pessoas outra vez. Era isso o que você queria ouvir?

— Era exatamente isso o que eu queria ouvir.

— Francamente! Eu imaginava que escritores fossem egocêntricos, mas não imaginava que isso significasse também ingratidão!

Como Paul ainda a encarasse, Annie desviou o olhar, impaciente e embaraçada.

— Vou precisar de todos os livros Misery, se você tiver, já que não tenho comigo a relação com todos os tópicos do livro.

— Mas é claro que eu tenho! E que relação é essa?

— São um punhado de folhas soltas onde guardo todas as anotações sobre Misery: os personagens e os lugares, principalmente, além de diferentes tipos de citações, a seqüência cronológica, o contexto histórico. . .

Paul percebeu que Annie não o ouvia. Era a segunda vez que ela não mostrava o menor interesse pelos segredos de sua profissão, um assunto que fascinaria uma platéia de pseudo-escritores. E a razão era das mais simples. Annie era a encarnação de um arquétipo da era vitoriana, mais conhecido como "O Leitor Fiel". Ela não queria saber de suas anotações porque para ela, Misery e os personagens que a cercavam eram pessoas de verdade. Suas anotações nada significavam. Se começasse a falar sobre um recenseamento na cidade de Little Dunthorpe, aí sim, ela talvez começasse a se interessar.

— Eu vou lhe trazer os livros, mas vou logo avisando que as pontas das páginas estão dobradas, por que é assim que marco o lugar em que parei de ler. Mas isso é um sinal de que o livro foi lido muitas vezes e lido com carinho, não é mesmo?

— Sim, é verdade — respondeu ele. Não havia necessidade de mentir dessa vez.

— Vou aprender encadernação e eu mesma irei encadernar A volta de Misery — disse ela, com o olhar perdido em pensamentos. — Com exceção da Bíblia que minha mãe me deixou, este será o único livro que pertencerá só a mim.

— Isso vai ser bom — respondeu ele, só para dizer alguma coisa, pois estava começando a sentir-se enjoado.

— Agora eu vou deixá-lo para que possa começar a pensar. Isso tudo é tão excitante! Você também não acha, Paul?

— Acho, Annie. Acho sim.

— Daqui a meia hora estarei de volta com um pedaço de peito de galinha, purê de batata e ervilha. E você tem sido tão bonzinho, que vou lhe dar um pouco de gelatina também. Trarei seu remédio na hora certa e, se você precisar, deixarei que tome uma cápsula a mais durante a noite. Quero fazer tudo para que durma bem e comece a trabalhar amanhã. Aposto como você vai melhorar muito mais rápido quando estiver trabalhando.

Annie foi até a porta e voltou-se. Levou a mão até os lábios e lhe soprou um beijo, numa cena ridícula.

Paul resistiu o quanto pôde, mas acabou encarando a máquina de escrever mais uma vez. Pousada sobre a cômoda, ela sorria. Olhar para aquela máquina era como olhar para um instrumento de tortura — estrapada, corda e roldana, que pairavam inertes, mas por alguns instantes apenas.

Acho que quando você terminar, você estará pronto para. . .pronto para se encontrar com pessoas outra vez.

Ah, Annie, você estava mentindo para mim e para você mesma. Eu percebi, e você percebeu também. Estava escrito nos seus olhos.

O limitado campo de visão que se abria agora à sua frente era dos mais desagradáveis: seis semanas de dores nas pernas, restabelecendo contato com Misery Chastain, nascida Carmichael, seguida de um rápido enterro no fundo do quintal. Ou quem sabe ela talvez oferecesse seus restos mortais para Misery, a porca? Haveria um pouco de justiça nisso, embora pudesse parecer algo mórbido.

Então não escreva o livro! Deixe que ela fique com raiva. Annie é como um frasco de nitroglicerina ambulante. Sacuda ela um pouco até explodir! Será melhor do que ficar aqui sofrendo.

Paul tentou se fixar nos Ms entrelaçados do teto, mas pouco depois já estava encarando a máquina outra vez. Em cima da cômoda, pesada, silenciosa e cheia de palavras que ele não queria escrever, ela lhe dirigia um sorriso em que faltava um dos dentes.

Não acho que você pense assim, meu velho amigo. Você ainda quer continuar vivo, mesmo que isto signifique sofrer. E mesmo se for preciso trazer Misery de volta, você o fará. Ou pelo menos tentará. Mas antes de tudo, você vai ter que aprender a lidar comigo. . . e eu não fui com a sua cara.

— Nem eu com a sua — murmurou Paul.

Dessa vez, ele tentou olhar para a janela, onde flocos de neve caíam. Mas sem ao menos dar conta de desviar os olhos, Paul percebeu pouco depois que encarava mais uma vez a máquina de escrever, num misto de atração e repulsa ao mesmo tempo.

25

Dessa vez, não foi tão doloroso sentar na cadeira, e isso era bom, pois a experiência anterior o deixara certo de que as tentativas futuras seriam tão dolorosas quanto a primeira.

Annie colocou a bandeja sobre a cômoda e trouxe a cadeira até a cama. Enquanto ela o ajudava a sentar, uma passageira onda de dor percorreu toda a região da bacia. Ela se debruçou para pegá-lo no colo e Paul pôde sentir por alguns instantes o pulsar das veias na garganta de Annie. Num gesto de repulsa, ele virou o rosto. Passando os braços firmemente por baixo das costas e das nádegas dele, Annie levantou-o pelos ares.

— Tente não mexer nada dos joelhos para baixo.

Dizendo isso, Annie o depositou na cadeira com a maior facilidade, como se colocasse um livro na única brecha existente numa estante. Annie era muito forte. Mesmo que ele estivesse em forma, uma briga entre os dois seria difícil. E no estado em que se encontrava, seria algo assim como Wally Cox contra Boom Boom Mancini.

Annie apoiou a placa de madeira nos braços da cadeira e foi até a cômoda apanhar o prato de comida.

— Viu como ela encaixa direitinho? — perguntou ela.

— Annie, queria lhe pedir um favor.

— O que é?

— Você poderia virar a máquina de escrever de modo que ela fique virada para a parede?

— Por que você quer que eu faça uma coisa dessas? — perguntou ela, franzindo as sobrancelhas.

— É só uma superstição que tenho. Sempre viro a máquina para a parede antes de começar a escrever um livro. Na verdade, faço isso todas as noites, antes de dormir.

— Entendo. É como não deixar o sapato virado de cabeça para baixo para a mãe da gente não morrer. Eu nunca deixo meus sapatos nessa posição.

Annie virou a máquina, que ficou a encarar o vazio da parede.

— Está melhor assim?

— Bem melhor.

— Você é tão bobinho!. . .

Annie aproximou-se e começou a lhe dar a comida na boca.

26

Paul sonhou que Annie Wilkes vivia no harém de um lendário califa árabe, tirando gênios e demônios de dentro de garrafas e voando sobre o reino num tapete voador verde e branco, com chapa do estado de Colorado. Annie passou próximo a ele, e Paul pôde ver os cabelos dela ao vento e os seus olhos brilhantes e atentos como os de um comandante de uma embarcação, navegando por entre imensos blocos de gelo flutuante.

Annie dizia:

Era uma vez. Era uma vez, há muitos e muitos anos. Nos tempos em que o avô de meu avô era apenas um menino. Esta é a história de como Um menino muito pobre. Quem me contou esta história foi um homem que. Era uma vez. Era uma vez.

27

Quando Paul acordou, Annie o estava sacudindo. Raios de sol invadiam o quarto e a neve parara de cair.

— Vamos, acorde, seu dorminhoco. Trouxe iogurte e um gostoso ovo cozido. Já é hora de trabalhar.

Paul olhou para o rosto animado de Annie e experimentou uma sensação nova e estranha: esperança. Sonhara que Annie Wilkes era Scheherazade. Finos tecidos envolviam seu corpo sólido e seus pés enormes calçavam sapatos pontudos, bordados de lantejoulas cor-de-rosa. Annie voava em seu tapete e entoava as frases mágicas que costumam abrir as melhores histórias.

Mas Annie não era Scheherazade. Ele era. E se o que ele escrevesse fosse bom o bastante, se ela protelasse sua morte só para saber como ia terminar a história, por mais que os instintos animais de Annie a impelissem para acabar com ele. . .

Ele não teria uma chance de escapar?

Paul olhou por cima dos ombros de Annie e percebeu que ela virara a máquina de escrever antes de acordá-lo. Ela lhe dirigia um sorriso resplandecente, onde faltava um dente. Era como se dissesse: É bom ter esperanças e é muito nobre querer lutar. Mas o destino já está traçado.

28

Annie empurrou a cadeira até a janela e pela primeira vez em semanas ele pôde sentir os raios de sol sobre a pele lívida e coberta de escaras. A sensação era de um prazer intenso e Paul sentiu-se agradecido. Ao passar o dedo na vidraça embaciada da janela, Paul experimentou uma sensação repousante e ao mesmo tempo melancólica, como a carta de um velho amigo.

Pela primeira vez em semanas — que lhe pareciam anos — ele pôde divisar uma paisagem diferente daquela inalterável que avistava de sua cama: o papel de parede azulado, a gravura do Arco do Triunfo e a folhinha com um interminável mês de fevereiro, estampando a figura de um menino deslizando pelas encostas de uma montanha em seu trenó. (Paul supunha que a imagem daquele menino com o gorro de lã na cabeça surgiria em sua cabeça todas as vezes que entrasse o mês de fevereiro, mesmo no caso dele ainda viver o bastante para presenciar a entrada de fevereiro por mais uns cinqüenta anos.) Paul olhava para este novo mundo tão extasiado quanto da primeira vez que fora ao cinema, ainda criança, e assistira a Bambi.

O horizonte ficava perto, o que era comum na região das montanhas Rochosas. A vista não ia muito além das montanhas altas e escarpadas. O céu era de um azul intenso, sem nuvens, e um verde tapete de florestas se estendia até a encosta da montanha mais próxima. Entre a casa de Annie e o início da floresta, Paul calculou que houvesse cerca de trinta acres de campo aberto, cobertos por uma camada de neve alva e brilhante. Seria impossível dizer se esses campos eram cultivados ou não. E essa vista que se decortinava à sua frente só era quebrada por uma única construção: um gracioso celeiro vermelho. Quando ele a ouvia falar de seus animais ou quando a via passar pela janela, toda empertigada e com uma expressão impenetrável no rosto, ele imaginava o celeiro como um barracão saído de um livro infantil com histórias de fantasmas: o telhado afundado pelo peso da neve caindo ao longo dos anos, as janelas empoeiradas e quebradas, algumas tapadas com pedaços de papelão, as portas compridas, soltas talvez, caindo para o lado de fora. A graciosa construção pintada de vermelho com arremates cor de creme parecia-se mais com uma garagem para cinco veículos construída por um rico fazendeiro. Próximo ao celeiro, havia um jipe Cherokee com uns cinco anos de uso, mas em muito bom estado. Ao lado do jipe, presa a um cavalete de madeira feito artesanalmente, via-se uma pá de trator limpar a neve. Bastaria que ela levasse o jipe cuidadosamente até a frente do cavalete para encaixar as pás no gancho que havia no chassi — o tipo de coisa perfeita para uma mulher que vivia sozinha e não contava com a ajuda de nenhum vizinho (Annie provavelmente não aceitaria nem um prato de costeletas de porco daqueles trapaceiros dos Roydmans, mesmo que estivesse morrendo de fome). A entrada estava limpa e sem neve (prova de que ela realmente utilizava a pá), mas Paul não podia ver a estrada, pois a casa cobria seu campo de visão.

— Vejo que gostou do meu celeiro.

Surpreso, Paul voltou-se para ela, mas o movimento súbito e impensado lhe causou uma onda de dor no que restara de sua canela e no punhado de carne saliente em que seu joelho se transformara. Sentia como se sua perna estivesse sendo espetada por finas agulhas, mas aos poucos a dor foi diminuindo.

Annie trazia uma bandeja nas mãos. Comida leve, comida de doente. . . mas seu estômago acordou na mesma hora. Quando ela chegou mais perto, Paul percebeu que ela usava sapatilhas brancas, como as de uma enfermeira.

— Ele é realmente muito bonito.

Ela colocou a bandeja na placa de madeira a sua frente, e puxou uma cadeira.

— Ora, ora. . . "Você é aquilo que aparenta", costumava dizer minha mãe. Eu mantenho o celeiro sempre limpinho para os vizinhos não falarem. Eles estão sempre procurando algum motivo para falar mal de mim. Por isso, tudo está sempre arrumadinho. . .Manter as aparências é algo muito importante. E o celeiro não me dá tanto trabalho assim, é só não deixar o serviço acumular. A parte mais detestável é tentar impedir que a neve destrua o telhado.

A parte mais detestável. Guarde mais essa pérola do vocabulário de Annie Wilkes para quando você for escrever as suas memórias — no caso de você ainda ter a oportunidade de escrever suas memórias. Guarde ainda "trapaceiro" e "ora, ora", além das muitas que ainda vão aparecer com o correr do tempo.

— Há dois anos atrás, Billy Haversham instalou umas fitas elétricas em todo o telhado. Basta ligar um interruptor e elas se aquecem, derretendo a neve. Mas acho que não vou usá-las neste inverno. Olhe só como a neve está derretendo naturalmente.

Paul ia levando uma garfada de ovo para a boca, mas parou no meio do caminho. Ao longo do telhado do celeiro formava-se uma fileira de pedaços compridos de gelo, que pingavam cada vez mais depressa, indo cair numa calha que se estendia na base da parede.

— Ainda não são nove horas e a temperatura já passou dos sete graus!

Annie parecia radiante, e Paul esperava que o pára-choque traseiro do seu Camaro também estivesse assim — radiante e brilhando ao sol, a medida que a neve derretia.

Paul largou o garfo no prato.

— Não vai querer a última garfada! Já está satisfeito?

— Sim, estou satisfeito.

Na sua cabeça surgiu a imagem dos Roydmans subindo a estrada de Sidewinder. Um brilho forte ofusca a vista da senhora Roydman e ela protege os olhos com uma das mãos.

— O que é aquilo?. . . Não vá dizer que estou ficando maluca, mas há alguma coisa ali embaixo. O reflexo foi tão forte que me cegou a vista! Dê marcha à ré. Quero dar uma olhada naquilo ali.

— Então deixe-me levar a bandeja para que você possa começar a trabalhar.

Annie lhe dirigiu um olhar caloroso e desabafou;

— Você nem pode imaginar como estou animada, Paul!

Annie foi embora e o deixou na cadeira. Paul ficou contemplando os pingos de gelo derretendo e caindo na calha que se estendia ao longo da parede.

29

— Se fosse possível, eu gostaria de um tipo de papel diferente — pediu Paul, quando Annie retornou ao quarto para colocar a máquina na placa de madeira.

— Você não quer esse papel? — perguntou ela, apontando para o pacote embrulhado em papel celofane. — Mas esse é o mais caro que existe! Eu me certifiquei quando fui comprá-lo na Paper Patch.

— Sua mãe nunca lhe disse que o mais caro nem sempre é o melhor?

Annie franziu as sobrancelhas e sua defensiva inicial transformou-se em indignação. Paul adivinhou que a raiva de Annie estava a caminho.

— Não, minha mãe nunca me disse isso, seu espertinho. O que ela me disse foi que quando você paga pouco não compra nada que preste.

Paul sabia agora que o clima dentro de Annie era algo parecido com a primavera do meio-oeste: ela era uma mulher cheia de furacões prestes a irromper; se nesse momento ele fosse um agricultor e olhasse para um céu igual ao rosto de Annie, Paul sairia correndo e esconderia a família e os animais no abrigo do porão. Annie estava pálida, as narinas respiravam ruidosamente como as de um animal farejando fogo, e ela abria e fechava as mãos, como se pretendesse esmagar punhados de ar.

Sua dependência e vulnerabilidade em relação a Annie o advertiam para voltar atrás e apaziguar o ânimo dela enquanto havia tempo — se é que ainda havia tempo —, e fazer como as tribos nos romances de Rider Haggard, que ofereciam sacrifícios para sua deusa quando ela se enfurecia.

Mas havia nele uma outra parte, mais astuta e menos intimidada, que o lembrava a cada instante que ele não poderia representar o papel de Scheherazade se bancasse o amedrontado e conciliador toda vez que ela explodisse. Se agisse assim, ela acabaria explodindo cada vez com mais freqüência. Se você não tivesse uma coisa que ela quisesse tão terrivelmente, essa parte sua raciocinava, ela o teria levado para um hospital ou o teria matado há muito tempo, para proteger-se dos Roydmans — por que para ela, o mundo estava cheio de Roydmans; para ela, eles estavam escondidos atrás de cada arbusto. Se você não tomar a iniciativa nesse exato momento, Paulie, nunca mais será capaz de fazê-lo.

Annie estava ainda mais ofegante e suas mãos abriam e fechavam num ritmo alucinante. Paul percebeu que ela avançaria sobre ele em questão de segundos.

Reunindo toda a coragem que ainda lhe restava e tentando desesperadamente acertar o tom exato para demonstrar a mais casual irritação, ele disse:

— Você pode muito bem parar com isso; ficar furiosa não muda em nada a situação.

Annie ficou paralisada, como se tivesse levado uma bofetada.

— Eu não estou tentando enganá-la, Annie — frisou ele, com toda a paciência.

— Está, sim. Você não quer escrever o meu livro e fica arrumando desculpas para não começar. Sabia que você ia fazer isso, Paul. Mas não vai adiantar nada!

— Isso que você está dizendo é uma bobagem. Por acaso eu disse que não ia começar?

— Não. . . mas. . .

— Pois bem, eu vou começar. Venha até aqui que eu vou lhe mostrar uma coisa, vou lhe mostrar qual é o problema. E traga aquele potinho Webster, por favor.

— Trazer o quê?

— Aquele potinho com lápis e canetas. Na redação dos jornais eles são chamados de potes Webster, em homenagem a Daniel Webster.

Paul inventara aquela história impulsivamente, mas ela surtiu o efeito desejado: Annie pareceu mais confusa do que nunca, perdida num termo específico, que desconhecia, e seu ódio não só se difundiu, como diminuiu. Ele percebeu que ela não se sentia nem mais no direito de ficar com raiva.

Annie largou o pote de canetas sobre a tábua. Meu Deus! Eu venci! Não, não fui eu. Foi Misery! Misery venceu!

Mas não havia sido Misery, Scheherazade. Scheherazade havia vencido.

Annie ia fazer uma pergunta, mas Paul a interrompeu:

— Preste atenção.

Paul apanhou uma folha no pacote e traçou duas linhas paralelas, uma a lápis e outra a caneta. Em seguida, esfregou o dedo polegar sobre as linhas, deixando um rastro na direção que o dedo corria.

— Viu só?

— Viu o quê?

— A tinta da máquina também vai manchar. Não tanto quanto a mancha deixada pelo lápis, mas muito pior do que a da caneta.

— E você pretende ficar aí sentado e esfregar cada folha com o polegar?

— Só das folhas roçarem umas nas outras por um período de semanas, dias talvez, já será o bastante para elas ficarem borradas. E eu quando escrevo um livro costumo manusear muito as folhas, procurando um nome ou uma data escritos anteriormente. Por Deus, Annie, uma das primeiras coisas que a gente aprende quando entra para esse negócio é que os editores detestam livros escritos nesse papel, tanto quanto detestam folhas escritas a mão.

Continuar: parte 4 de 4