Misery

Stephen King · Capítulo 2 de 5 · parte 2/4

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Misery

Annie

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Por favor. . . — balbuciou —, as dores, por favor. . . eu estou morrendo.

— Não, você não está morrendo.

— Eu vou gritar. . . — ameaçou ele, começando a chorar mais alto. Doía ter que chorar. Doíam suas pernas e doía seu coração. — Eu não posso mais me segurar. . .

— Então pode começar a gritar. Mas lembre-se: foi você quem fez essa sujeira, não eu. A culpa é toda sua.

De alguma forma, Paul conseguiu segurar o grito e ficou a observar Annie: ela mergulhava o pano no balde, torcia-o e enxaguava a parede; mergulhava, torcia e enxaguava. Quando finalmente o relógio que ele imaginava ficar na sala bateu três vezes, ela se levantou e pegou o balde.

Ela está indo embora. Ela está indo embora, eu vou escutá-la jogando a água do balde fora e ela pode sumir por algumas horas, só porque ainda não acabou de me castigar.

Mas ao invés de sair, Annie se dirigiu até ele, enfiou a mão no bolso do avental e desta vez não lhe deu duas cápsulas, mas três.

— Aqui estão — disse ela, com ternura.

Ele agarrou o remédio e enfiou-o rapidamente na boca. Ao levantar os olhos, porém, ele viu que Annie levantava o balde de plástico amarelo e começava a virá-lo em direção ao seu rosto, tomando todo o seu campo de visão. A água cinzenta e suja quase entornou no lençol.

— Vamos, beba! — disse ela, numa voz ainda muito terna. Paul a encarou com os olhos esbugalhados.

— Beba! Sei que não precisa de água para engolir o remédio, mas acredite em mim: eu posso tomar essas cápsulas de volta da sua boca. E além do mais, essa é apenas a água que usei para enxaguar, não vai lhe fazer mal algum.

Annie curvou-se por cima dele, dura como um monolito, inclinando o balde na direção de sua boca. Paul pôde ver o pano de chão boiando na água suja, coberto por uma fina camada de espuma. Uma parte dele se alarmou, mas Paul não hesitou nem um minuto. Tomou a água sofregamente, engolindo o remédio, e o gosto que lhe ficou na boca o fez recordar das vezes em que sua mãe o obrigava a escovar os dentes com sabão. Logo em seguida, Paul arrotou.

— Se eu fosse você, não vomitaria, Paul. Nada de remédio até as nove da noite — disse ela, ao mesmo tempo que seu rosto adquiria aquele olhar vago de sempre. Subitamente, porém, o rosto de Annie se iluminou, e ela abriu um sorriso.

— Você não vai mais me fazer ficar com raiva, vai?

— Não — murmurou ele. Como poderia provocar a ira da lua que comandava as marés? Mas que idéia! Que idéia mais idiota!

— Eu amo você — declarou ela, beijando-lhe uma das bochechas. Annie saiu do quarto, sem voltar-se para trás, carregando o balde numa das mãos. Ela lembrava uma robusta camponesa a carregar um balde cheio de leite, ligeiramente afastado do corpo, para não derramar nem uma gota.

Paul recostou-se. Sua boca estava com gosto de areia e emboço de parede. E com gosto de sabão.

Eu não vou vomitar. . . não vou vomitar. . . não vou.

Esse pensamento insistente começou a desaparecer de sua mente e Paul percebeu que ia adormecer. Conseguira segurar o remédio no estômago o tempo suficiente para que ele fizesse efeito. Ele ganhara.

Dessa vez.

11

Paul teve um pesadelo. Sonhou que estava sendo comido por um pássaro. Ouviu um estrondo e pensou: Isso mesmo! Atire nele! Atire nesse pássaro maldito.

Ao acordar, entretanto, ele reparou que o estrondo era apenas Annie Wilkes fechando a porta da cozinha. Annie fora cuidar de seus serviços e ele pôde ouvir os passos dela sobre a neve. Ela passou em frente à janela e ele a viu, vestida num casacão de lã, com o capuz sobre a cabeça. O ar quente da respiração dela formava uma aura de fumaça branca, que lhe envolvia a cabeça. Ela nem olhou aqui para dentro, tão compenetrada com o serviço, pensou ele. Alimentar os animais, limpar o estábulo, fazer algum encantamento, quem sabe — ele não colocaria a mão no fogo por ela. O céu estava de um violeta escuro — hora do pôr-do-sol. Deviam ser umas cinco e meia, seis da tarde, talvez.

A maré ainda estava alta e Paul poderia tornar a dormir; de fato, ele queria dormir, mas também queria refletir um pouco sobre a situação incrível em que se encontrava, e isso devia ser feito agora, enquanto era capaz de pensar racionalmente.

Estava começando a descobrir, porém, que a pior coisa era ele nem ao menos querer pensar na situação — mesmo que a única maneira de tentar resolvê-la fosse, a princípio, pensar sobre ela. Paul afastava esses pensamentos da cabeça, tal como uma criança que afasta o prato de comida da sua frente, embora saiba que não poderá sair da mesa antes de acabar de comer.

Paul não queria pensar sobre a sua situação, por que viver aquela situação já era o bastante. Não queria pensar, por que todas as vezes a sua cabeça se enchia de imagens tenebrosas: o rosto vazio de Annie, os ídolos de pedra, e a lembrança do balde de plástico amarelo vindo em sua direção. Pensar em todas essas coisas não mudaria nem um pouco a sua situação e era ainda pior do que ficar sem pensar. Mas sempre que pensava em Annie e na sua condição em relação a ela dentro da casa dela, esses pensamentos lhe invadiam a cabeça, expulsando todos os outros. Seu coração disparava, um pouco por medo, mas também por sentir-se envergonhado. Via a si mesmo encostando os lábios na borda do balde amarelo, via a água suja com sabão e o pano de chão a boiar lá dentro. E ainda assim, ele bebera aquela água sem a menor hesitação. Jamais contaria isso a alguém, caso conseguisse escapar. Paul até chegou a pensar que seria capaz de enganar a si mesmo a esse respeito, mas jamais seria capaz de fazê-lo.

Ainda assim, angustiado ou não (e ele o estava), ainda queria viver.

Pense nisso, homem! Meu Deus, será que você já está tão intimidado que não quer nem mais tentar escapar?

Não — mas já estou quase nesse ponto.

Foi então que um pensamento estranho e colérico lhe veio à cabeça: Ela não gosta do meu livro novo porque é burra demais para compreendê-lo.

O pensamento não era apenas estranho; nas atuais circunstâncias, a opinião de Annie sobre Carros velozes era totalmente irrelevante. Ao pensar nas coisas que ela lhe dissera, ele descobriu algo novo: sentir raiva de Annie era muito melhor do que sentir medo de Annie. E ele foi fundo nesta descoberta.

Burra demais? Não! Turrona demais! Ela não só não quer saber de mudanças, como também não quer nem ouvir falar nelas.

Era isso mesmo. Ela podia ser maluca, mas será que a avaliação dela em relação ao seu trabalho era assim tão diferente da avaliação de centenas de milhares de leitores espalhados por todo o país — noventa por cento deles, mulheres —, que mal podiam esperar pela publicação de um novo livro de quinhentas páginas, contando as aventuras de uma criança rejeitada que acabara se casando com um nobre? Não, não era! Todos queriam Misery, Misery e mais Misery. Cada uma das vezes em que ele dedicara um ou dois anos para escrever outro tipo de livro — os que ele julgava (a princípio com toda a certeza, em seguida, com alguma esperança e, finalmente, com um crescente desespero) serem seus livros "sérios" —, ele recebera uma chuva de cartas de protesto, em que muitas das leitoras assinavam "a sua fã número um". O tom das cartas variava entre a perplexidade (que de algum modo afetava a todas elas), a reprovação e o ódio mais declarado. Mas a mensagem era sempre a mesma: O livro não era o que eu esperava, não era o que eu queria. Por favor, volte para a Misery, quero saber o que Misery vai fazer em seguida. Ele poderia escrever algo como um novo Tess de D'Urbervilles, O som e a fúria ou Under the Volcano; não faria a menor diferença. Elas continuariam pedindo Misery, Misery e mais Misery.

É difícil de entender. . .ele não é interessante. . . e como é vulgar!

A raiva de Paul voltou a atacar; raiva da estupidez inflexível de Annie, raiva por ela o ter raptado e por mantê-lo prisioneiro; raiva por obrigá-lo a escolher entre beber a água suja de um balde ou agüentar a dor de duas pernas quebradas; e, acima de tudo, ainda tinha que se controlar enquanto Annie criticava o melhor livro que ele jamais conseguira escrever.

— Dane-se você e os palavrões que você detesta! — proferiu ele em voz alta, sentindo-se melhor e senhor de si.

Mas Paul sabia que este pequeno desabafo era inexpressivo e digno de pena. Afinal de contas, Annie estava no celeiro, onde não poderia ouvi-lo, a maré estava bem alta e as estacas, submersas. Ainda assim. . .

Lembrou-se do dia em que Annie entrara no quarto e, com as cápsulas na mão, o coagira a permitir que ela lesse o manuscrito de Carros velozes. O rosto de Paul foi ficando vermelho, não só pela vergonha e humilhação por que passara, mas também porque estava cheio de ódio: um ódio que se transformara de uma pequena centelha para um fogaréu. Jamais permitira que alguém lesse um de seus livros sem que antes ele o tivesse revisado e passado a limpo. Jamais! Nem mesmo Bryce, seu agente. Jamais permitira! E agora ele nem ao menos. . .

Seus pensamentos foram interrompidos. Ao longe, pôde ouvir o triste mugido de uma vaca.

Ele nem ao menos tirava cópia de seus manuscritos antes da segunda revisão!

O manuscrito de Carros velozes, que agora estava na posse de Annie, era a única cópia que existia em todo o mundo! Ele chegara até a queimar as anotações!

Dois anos de trabalho e ela não gostara — ela era maluca.

Ela só gostava de Misery; era de Misery que ela gostava, e não de um ladrão de carros do Harlem hispânico que falava palavrão.

Lembrou-se de ter pensado: Não, eu não me importo se você pegar todas as páginas do livro e fizer delas barquinhos de papel, mas por favor. . .

A humilhação e o ódio reapareceram, despertando o primeiro latejo de dor. Era verdade. . . seu trabalho, o orgulho que tinha pelo trabalho e o próprio valor do trabalho em si nada significavam quando a dor apertava. O fato dela fazer isso com ele — mais ainda, de ter o poder de fazer isso com ele, quando Paul passara a maior parte de sua vida achando que a palavra "escritor" era a que melhor o definia — tornava Annie uma pessoa ainda mais monstruosa, da qual ele precisava escapar. Ela era realmente como uma deusa — caso não o matasse, destruiria tudo que existia dentro dele.

Paul ouviu agora o grito estridente da porca. E pensar que Annie achara que ele ia se importar com o nome que ela dera ao animal. . . Paul considerava Misery um nome superapropriado para uma porca. . . Lembrou-se de Annie imitando o animal: seu lábio superior franzido, as bochechas até parecendo terem se achatado. Por um instante Annie parecia-se realmente com uma porca: Oinc!OINC!

Do celeiro, chegava a voz de Annie a mexer com Misery. Paul recostou-se, colocando um dos braços sobre os olhos. Era preciso conservar o ódio que sentia, porque isso o fazia sentir-se corajoso. Um homem corajoso é capaz de pensar, ao contrário de um covarde.

Aquela era uma mulher que havia sido enfermeira, disso ele tinha certeza. Estaria trabalhando ainda? Não, Annie não saía para trabalhar. Por que razão teria deixado de exercer a profissão? Isso parecia óbvio: Ela tinha um parafuso a menos. E se isso era óbvio para ele, que vivia por entre um nevoeiro de dor, seria também óbvio para seus colegas de profissão.

E ele tinha motivos de sobra para ter certeza do quanto ela não regulava da cabeça, não tinha? Ela o tirara dos destroços de um acidente de carro e ao invés de chamar uma ambulância ou mesmo a polícia, o trouxera para a casa dela; instalara-o em seu quarto de hóspedes, alimentara-o através de tubos nas veias e o entupia de narcótico, chegando a ponto de causar o que ela chamava de "depressão respiratória", pelo menos uma vez; ela não contara a ninguém que ele estava ali, e se não o fizera até o momento, era porque não tinha a menor intenção de fazê-lo.

Teria ela agido dessa mesma maneira se tivesse salvo do acidente uma pessoa qualquer? Não, achava que não. Ela o tinha raptado por que ele era Paul Sheldon e ela, . .

— Ela é a minha fã número um — murmurou Paul.

Uma lembrança terrível passou por sua cabeça. Certa vez sua mãe o levara ao Zoológico de Boston, e ele ficara encantado por um pássaro grande e imponente. Suas penas — vermelhas, violeta e azuis — eram as mais lindas que ele jamais havia visto. . . e os olhos, os mais tristes. Paul perguntou à mãe de onde aquele pássaro viera e ela lhe respondera "da África". Naquele instante, Paul compreendeu que o pássaro estava condenado a morrer numa gaiola, num lugar muito distante daquele a que Deus o destinara, e ele começou a chorar; sua mãe lhe comprou um sorvete e ele parou de chorar por algum tempo. Mas logo recomeçou e ela o levou para casa. No caminho de volta para Lynn, sua mãe o chamara de maricas e chorão.

As penas. Os olhos.

A dor nas pernas começou a aumentar.

Não. Não, não.

Paul apertou o braço contra os olhos. Do celeiro, chegavam ruídos de Annie a se movimentar. Impossível saber o que ela estava fazendo, mas em sua mente, (são suas IDÉIAS, sua CRIATIVIDADE — foi isso o que quis dizer) podia vê-la a arrastar fiapos de capim do celeiro com a sola de suas botas; podia até ver os fiapos rolando pelo chão.

Da África. Esse pássaro veio da África. Da. . .

De súbito, seus pensamentos foram arrebatados pela lembrança da voz estridente e agitada de Annie: Você acha que quando eles me levaram ao tribunal lá em Den. . .

Ao tribunal. Quando eles me levaram ao tribunal lá em Denver.

A senhora jura dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade?

("Não sei de onde ele tira essas coisas!")

Eu sei.

("Ele vive escrevendo coisas desse tipo.")

Diga seu nome completo.

("Do MEU lado da família, não tem ninguém com uma imaginação igual à dele.")

Annie Wilkes.

("Tão vivida!")

Meu nome é Annie Wilkes.

Gostaria que ela dissesse mais coisas, mas ela não dizia.

— Vamos lá — murmurou ele, ainda com o braço dobrado sobre os olhos.

Era assim, nessa posição, que conseguia pensar melhor, imaginar melhor. Sua mãe costumava falar dele orgulhosamente (a não ser quando o chamava de maricas e chorão) com a senhora Mulvaney, uma vizinha; gabava-se de sua imaginação fértil, tão vivida, e contava que ele vivia escrevendo historinhas incríveis.

— Vamos lá. Vamos lá. Vamos lá.

Paul imaginou o tribunal em Denver. Via Annie Wilkes, não mais vestida em seus jeans, mas num desbotado vestido preto e roxo, com um chapéu horroroso na cabeça. A sala estava lotada. O juiz era calvo e usava óculos. Seus bigodes brancos encobriam, apenas parcialmente, um sinal de nascença.

Annie Wilkes.

("Imagine só! Ele começou a ler aos três anos de idade!")

Como. . . como uma fã ardorosa.

("Ele está sempre escrevendo, inventando histórias.'')

Agora é preciso enxaguar.

("Da África. Esse pássaro veio")

— Vamos lá — murmurou Paul.

Mas não conseguiu ir adiante. O promotor perguntara-lhe o nome, e ela respondera inúmeras vezes que se chamava Annie Wilkes, e não dissera nada além disso; com seu corpo sólido, sinistro e fibroso Annie Wilkes repetia apenas seu nome — nada além disso.

Tentando adivinhar a razão pela qual aquela ex-enfermeira que o mantinha prisioneiro teria sido levada ao tribunal, Paul adormeceu.

12

Paul estava na enfermaria de um hospital. Um alívio tão grande o invadiu, que ele quase chorou. Alguma coisa acontecera enquanto estivera dormindo. Alguém havia chegado ou, talvez, Annie tivesse se compadecido e mudado de idéia a seu respeito. Mas isso não importava. Paul havia adormecido na casa daquela mulher monstruosa e acordara num hospital.

Mas por que o haviam colocado numa enfermaria tão grande, que lembrava um hangar para aviões? Idênticas fileiras de leitos, onde homens deitados tinham os braços ligados por tubos a frascos idênticos, lotavam todo o galpão. Paul sentou-se na cama e reparou que todos os homens eram idênticos também — todos tinham a sua cara.

Ao longe, o relógio soou uma badalada e ele compreendeu que o relógio soava do outro lado da parede de um sonho. Apenas um sonho. E uma tristeza profunda substituiu o alívio.

Do outro lado da ampla enfermaria, uma porta se abriu e dela surgiu Annie Wilkes, metida num vestido comprido coberto por um avental e com uma touca na cabeça — tal como Misery Chastain no seu livro O amor de Misery. Em um dos braços, ela trazia uma cesta de palha. Ao se aproximar dele, Annie levantou o pano que trazia na cesta e encheu a mão com o que havia lá dentro, atirando algo no rosto do adormecido Paul Sheldon. Areia. Annie jogara areia e fingia ser Misery Chastain fingindo ser joão-pestana. Joana Pestana.

O rosto daquele Paul Sheldon tornou-se lívido e o medo tomou conta dele. Paul acordou e percebeu que Annie Wilkes estava debruçada em cima dele. Numa das mãos, ela carregava um livro grosso, O filho de Misery e, pelo marcador, ele percebeu que ela estava quase no final da leitura.

— Você estava gemendo — disse ela.

— Tive um pesadelo.

— Um pesadelo sobre o quê? — perguntou Annie.

— África — mentiu ele, dizendo a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

13

Na manhã seguinte, Annie foi entrando pelo quarto, com o rosto transtornado. Paul estava cochilando, mas despertou imediatamente e levantou o corpo, apoiando-se nos cotovelos.

— Senhorita Wilkes? Annie? Está tudo bem?. . .

— Não!

Meu Deus, ela vai ter um ataque cardíaco!, pensou ele. Se por um instante ficara assustado, no momento seguinte ficou eufórico. Tomara que ela tenha um ataque! Um ataque fulminante! Ele ficaria feliz da vida em ir se arrastando até o telefone, por mais que suas pernas doessem. Seria capaz de se arrastar sobre cacos de vidro, se fosse preciso.

E Annie estava tendo um ataque . . . mas não do tipo que ele queria.

Ela vinha em sua direção num andar cambaleante, como o de um marinheiro que acaba de pisar em terra firme após uma longa viagem.

— O que. . . — Paul tentou se esquivar, mas não havia para onde fugir. Atrás da cabeceira da cama, havia apenas a parede. — Não!

Annie se aproximava e acabou tropeçando. Por um segundo, Paul achou que ela iria cair em cima dele. Annie se debruçou sobre a cama e o encarou. Seu rosto estava pálido, suas cordas vocais retesadas e uma veia lhe saltava na testa. Annie cerrou os punhos, sólidos e rijos feito pedra, e explodiu:

— Seu. . . seu. . . seu trapaceiro!

— Mas. . . eu não estou enten. . .

Subitamente, porém, ele entendeu o que acontecera. Lembrou-se que o marcador estava a poucas páginas do fim. Annie terminara de ler o livro. Agora sabia de tudo. Sabia que Misery não era estéril. Era Ian quem não podia ter filhos. Ele imaginou Annie sentada na sala de estar, onde ele ainda não tivera oportunidade de ir. Teria ela ficado de queixo caído e olhos arregalados quando Misery finalmente descobriu toda a verdade e tomou sua decisão, indo encontrar-se, sorrateiramente, com Geoffrey? Teriam seus olhos se enchido de lágrimas ao perceber que Misery e Geoffrey, longe de terem tido um furtivo caso de amor, nas costas do homem que ambos amavam, estavam oferecendo a Ian um presente inigualável: um filho que ele acreditaria ser seu de verdade? E não teria se comovido quando Misery contou a Ian que estava grávida, e ele a tomou em seus braços, com os olhos cheios de lágrimas, e murmurou: "Minha querida, minha querida." Em questão de segundos, Paul teve certeza que Annie reagira assim. Mas ao perceber que Misery falecera ao dar à luz um menino, a quem Ian e Geoffrey provavelmente criariam juntos, ela não se emocionou até as lágrimas. Annie ficara possessa da vida.

— Ela não pode ter morrido! — gritava Annie, com os punhos cerrados — Misery Chastain NÃO PODE ESTAR MORTA!

— Annie, por favor. . .

Annie passou a mão num jarro que havia na mesa-de-cabeceira e atirou-lhe a água gelada no rosto. Um cubo de gelo bateu em seu ouvido esquerdo e escorregou pelo travesseiro, indo parar embaixo do ombro. Na sua mente, ("Tão vívida!") ele a viu acertando o jarro na cabeça. Ele morreria de traumatismo craniano e hemorragia cerebral, em meio àquela poça de água gelada e com os braços arrepiados.

Ela estava prestes a fazer tal coisa, não havia a menor dúvida.

No último instante, porém, Annie deu-lhe as costas e atirou o jarro contra a porta. Tal como o prato de sopa, o jarro de água se espatifou pelo chão.

Annie voltou-se de novo para ele. Seu rosto estava vermelho de raiva.

— Trapaceiro! — disse ela, ofegante, tirando o cabelo, que lhe caía pelo rosto com as costas da mãos. — Seu trapaceiro! Como pôde fazer tal coisa?

Paul interveio rápida e urgentemente, com os olhos brilhantes cravados no rosto de Annie — tinha certeza que sua vida poderia depender do que ele dissesse nos próximos vinte segundos.

— Annie, em 1871 era muito comum as mulheres morrerem de parto. Misery deu a vida por seu marido, seu melhor amigo e por seu filho. O espírito de Misery irá sempre. . .

— Não quero saber do espírito dela! — gritou Annie abrindo os dedos da mão, num gesto brusco, como se fosse arrancar-lhe os olhos.

— Eu quero Misery! E você a matou). Você assassinou Misery! Annie cerrou os punhos novamente e deu dois socos no travesseiro, um de cada lado de sua cabeça, deixando dois sulcos profundos. Paul foi sacudido como uma boneca de pano. Suas pernas tocaram uma na outra e ele gritou:

— Eu não a matei!

Annie ficou paralisada, olhando para ele com um olhar sombrio — o olhar daquela fenda.

— É claro que não! — respondeu ela com sarcasmo. — E se não foi você, Paul Sheldon, quem mais poderia ter sido?

— Ninguém a matou — retrucou ele, mais calmo. — Misery apenas morreu.

Nos últimos tempos, ele descobrira que esta era a verdade. Se Misery fosse uma pessoa de verdade, ele seria uma das pessoas a quem a polícia certamente viria interrogar. Afinal de contas, ele tinha motivos para acabar com ela: Paul a odiava. Desde o terceiro livro da série, Paul passara a odiar Misery. Há quatro anos atrás, no dia primeiro de abril, Paul mandara imprimir um folheto, confidencialmente, e o enviara aos amigos mais chegados. Chamava-se O passatempo de Misery e, nele, Paul descrevia o animado fim de semana que ela passara no campo, ao lado de Growler, um setter irlandês que pertencia a Ian.

Paul poderia tê-la matado,. . . mas não o fizera. Apesar de seu desprezo, a morte de Misery fora quase uma surpresa para ele próprio. Apegara-se de tal modo à idéia de que a arte deveria imitar a vida real, pelo menos um mínimo que fosse, que esse propósito não o abandonou mais até o final das aventuras já batidas de Misery. E ela morrera de uma maneira surpreendente para ele. Nem mesmo o fato dele ter saído aos pulos pelo quarto ao final do livro, poderia mudar aquele fato consumado.

— Você está mentindo — sussurrou Annie — Eu achei que você era um homem bom, mas estava enganada. Você não passa de um trapaceiro velho e mentiroso.

— Misery se foi. Isso é tudo. Essas coisas acontecem. . . A vida é assim, quando alguém. . .

Annie derrubou a mesinha-de-cabeceira e a única gaveta voou longe, jogando no chão o que havia dentro: seu relógio de pulso e alguns trocados. Paul, que nem ao menos sabia que seus pertences estavam naquela gaveta, encolheu-se timidamente.

— Você acha que eu nasci ontem? — vociferou ela, retraindo os lábios. — Na minha profissão vi dezenas, ou melhor, centenas de pessoas morrerem. Às vezes elas se vão dormindo, outras vezes, vão aos gritos. Elas simplesmente se vão, como você mesmo disse. Mas isso não acontece com personagens de livros! Deus leva as pessoas quando é chegada a hora, mas um escritor é Deus em relação a seus personagens, e assim como Deus nos criou, um escritor também cria seus personagens. Ninguém pode querer que Deus venha se explicar quando leva alguém que gostamos, não há dúvida, eu aceito. Mas em relação a Misery, eu tenho algo a lhe dizer, seu trapaceiro: Por um acaso, Deus está com duas pernas quebradas, na minha casa, comendo da minha comida e. . .

Aquela expressão indefinida tomou conta de Annie. Ela ficou de pé, com os braços caídos ao longo do corpo, olhando vagamente para uma velha fotografia do Arco do Triunfo que havia na parede. Deitado na cama, com dois sulcos profundos no travesseiro, um de cada lado da cabeça, Paul a observava. Ainda podia ouvir as gotas de água pingando no chão. Foi então que, pela primeira vez, ele teve a certeza de que seria capaz de cometer um assassinato. Na verdade, essa questão já lhe ocorrerá uma ou duas vezes, anteriormente, mas de uma maneira apenas teórica. Agora, porém, ela surgia de uma maneira real, e ele soube que seria capaz. Se Annie não tivesse atirado o jarro na parede, ele o quebraria no chão e tentaria cortar uma das veias da garganta dela, aproveitando o alheamento de Annie, que permanecia parada e inerte como um cabideiro.

Paul olhou para o chão e reparou que dentro da gaveta haviam sido guardados sua caneta e uma escova, além do relógio e do dinheiro trocado. Sua carteira não estava ali. E, mais importante ainda, seu canivete suíço também não.

Aos poucos, Annie foi voltando ao normal e sua raiva, afinal, se dissipou. Ela olhou para ele com tristeza e disse:

— Acho melhor eu ir embora. Acho melhor não ficar perto de você. Não me parece muito. . . prudente.

— Ir embora? Mas ir para onde?

— Não importa para onde. Um lugar que conheço. . . Se ficar aqui, vou acabar fazendo algo insensato. Preciso pensar. Adeus, Paul.

— Você vai estar de volta a tempo de me dar o remédio? — perguntou ele, aterrorizado.

Annie atravessou o quarto e saiu, sem dar uma palavra. E pela primeira vez, ele ouviu o barulho de uma chave na fechadura.

Paul ouvia os passos de Annie descendo o corredor e se encolheu todo, ao ouvi-la gritando algo que ele não compreendeu, seguido do barulho de algum objeto se espatifando no chão. Uma porta bateu e, em seguida, ele a ouviu dando partida no jipe. Conseguiu distinguir o barulho surdo dos pneus sobre a neve e, pouco a pouco, o ruído do motor foi diminuindo até sumir de vez.

Paul estava sozinho.

Esta sozinho e trancado num quarto na casa de Annie Wilkes. Preso a uma cama. A distância entre Denver e aquele quarto era tal como. . . a distância entre o Zoológico de Boston e a África.

Deitado na cama, Paul limitava-se a olhar para o teto. Sua garganta estava seca e seu coração disparara.

Pouco depois, o relógio da sala bateu meio-dia, e a maré começou a baixar.

14

Cinqüenta e uma horas.

Paul sabia o tempo exato. Conseguira se reclinar e apanhar com a ponta dos dedos a caneta de escrita fina que trazia no bolso na hora do acidente. Cada vez que o relógio batia, Paul rabiscava um tracinho no braço. Quatro traços horizontais e um diagonal significavam cinco horas. Quando Annie retornou, havia em seu braço dez grupos de cinco traços e um tracinho extra. Os rabiscos, muito nítidos a princípio, foram se tornando falhos à medida que suas mãos foram ficando menos firmes. Não acreditava ter perdido uma só badalada. Ele cochilara um pouco, mas nunca pegara no sono, e cada vez que o relógio soava, Paul despertava.

Passado algum tempo, ele começou a sentir fome e sede, mesmo estando com as dores. Era algo assim como uma corrida de cavalos. A princípio, o Rei da Dor saíra na frente, deixando o Esfomeado para trás; a égua Sede Encantadora ficara perdida por trás de uma nuvem de poeira. No dia seguinte da partida de Annie, por volta do nascer do sol, o Esfomeado viu seus esforços recompensados e deixou o Rei da Dor para trás.

Paul passara a norte toda cochilando e acordando encharcado de suor. Tinha certeza que estava morrendo. Depois de algum tempo, começou a desejar que realmente estivesse. Só assim estaria livre daquele sofrimento. Jamais pudera imaginar o quanto uma dor podia ser insuportável. As estacas estavam cada vez maiores. Podia até ver crustáceos agarrados a elas, pedaços descorados e pendurados nas fissuras da madeira. Eles é que tinham sorte; para eles não existia dor. Por volta das três da manhã, Paul se entregara a uma acesso de gemidos inúteis.

Na metade do segundo dia — na hora de número vinte e quatro — ele percebeu que apesar das dores terríveis havia mais alguma coisa o incomodando. Era a entrega completa. Podem chamar esse cavalo de A Vingança do Lixo, se o desejarem. Paul precisava muito mais daquelas cápsulas do que podia imaginar.

Ele começou, então, a pensar na possibilidade de sair da cama, mas só de imaginar a dor da queda, acabou desistindo. Podia imaginar muito bem ("Tão vivida!") a intensidade da dor. Ele poderia tentar, mas de que adiantaria? Annie trancara a porta. O que mais poderia ele fazer além de se arrastar até a porta como uma serpente?

Tomado pelo desespero, Paul puxou os lençóis pela primeira vez.

Esperava desesperadamente que a situação não fosse tão ruim quanto os contornos do lençol sugeriam. E não era assim tão ruim. Era muito pior. Paul olhou horrorizado para o que restara dele dos joelhos para baixo. Em sua mente, irrompeu a voz de Ronald Reagan em King's Row: "Onde está o que sobrou de mim?"

O que sobrara dele estava bem ali e ele talvez fosse até capaz de sair-se bem dessa. As probabilidades talvez fossem remotas, mas ele supunha que seria pelo menos tecnicamente possível. . . embora pudesse não mais voltar a andar. Pelo menos não até que as pernas fossem cortadas em pedacinhos, coladas com a ajuda de aço, examinadas sem a menor piedade e sujeitadas a meia dúzia de dolorosos procedimentos.

Ele calculara que Annie havia colocado telas em suas pernas, pois conseguira senti-las, mas, até então, ignorava do que elas fossem feitas. A parte inferior de suas duas pernas estava cercada por duas hastes finas de aço, que se pareciam com os restos de uma muleta muito bem cortados com uma serra. Essas hastes foram tão bem colocadas que, dos joelhos para baixo, ele se parecia com Im-Ho-Tep por ocasião da descoberta de seu túmulo. Suas pernas serpenteavam estranhamente dos joelhos para baixo: uma ponta saliente aqui, um sulco profundo acolá. O joelho esquerdo — um dos maiores focos de dor — parecia não existir mais. Entre a batata da perna e a coxa havia apenas um punhado de carne saliente. A parte superior de ambas as pernas estava bastante inchada e levemente inclinada para fora. Tanto as coxas quanto a virilha e o pênis estavam cobertos de feridas quase cicatrizadas.

Paul imaginara que suas pernas estavam quebradas, mas se enganara. Elas estavam reduzidas a pó.

Chorando e gemendo ao mesmo tempo, Paul tornou a se cobrir com o lençol. Nada de sair da cama. Era melhor ficar onde estava, morrer naquela cama e aceitar a intensidade da dor, por maior que ela fosse, até que tudo estivesse acabado.

Por volta das quatro da tarde do segundo dia, a égua Sede Encantadora apertou o cerco. Já fazia algum tempo que a garganta e a boca estavam secas, mas agora isso o estava incomodando sobremaneira. Sua língua parecia enorme e grossa, e até engolir a saliva causava dor. Em seu pensamento surgiu a imagem do jarro de água que Annie atirara contra a parede.

Paul cochilou, abriu os olhos e tornou a cochilar.

O dia se foi e a noite caiu.

Sentiu uma vontade enorme de urinar. Paul, então, enrolou o pênis no lençol e, improvisando um tosco filtro, urinou em suas mãos trêmulas, dispostas em formato de concha. Tentando encarar o que fazia como o reinicio de um ciclo, Paul bebeu o pouco de urina que suas mãos conseguiram segurar e ainda lambeu os dedos. Aqui estava algo que ele não pretendia jamais contar a ninguém, caso vivesse o bastante para contar alguma coisa a alguém. . .

Paul começou a achar que Annie havia morrido. Ela era uma pessoa tremendamente inconstante, e pessoas assim muitas vezes acabavam se suicidando. Ele a imaginou ("Tão vivida") parando o jipe no acostamento da estrada, puxando um revólver calibre quarenta e quatro que ficava embaixo do banco, colocando-o na boca e, finalmente, atirando.

"Agora que Misery morreu não tem mais graça viver. Adeus, mundo cruel!" Annie começaria a chorar convulsivamente e puxaria o gatilho.

Paul começou a gemer e soltou um grito. Lá fora, o vento também gritava. . . mas não lhe dava a menor atenção.

Quem sabe um acidente? Seria possível? Mas é claro que sim! Paul imaginou Annie dirigindo perigosamente e, então, ("Ele não herdou isso de ninguém da minha família") o vazio tomaria conta dela. O carro sairia da estrada e Annie cairia num abismo; o carro se transformaria numa bola de fogo, e Annie morreria sem ao menos dar-se conta.

E se ela estava morta, ele morreria onde estava, como um rato numa ratoeira.

Volta e meia, Paul desejava ficar inconsciente, pois isso acarretaria algum alívio. Mas esse estado nunca sobreveio. Ao invés disso, vieram a Hora Trinta e a Hora Quarenta; logo depois, O Rei da Dor e a Sede Encantadora fundiram-se num único animal (O Esfomeado ficara para trás). Paul começou a se sentir como um pedaço de tecido vivo exposto na lâmina de um microscópico ou como uma minhoca presa a um anzol — algo que se mexia incessantemente esperando apenas a chegada da morte.

15

Quando Annie retornou, Paul julgou, à princípio, que estivesse sonhando. Mas a realidade — ou a mera luta pela sobrevivência — assumiu o seu devido lugar e Paul começou a gemer, pedir, implorar, tudo ao mesmo tempo — tudo isso brotando de um fundo poço de irrealidades. A única coisa que conseguia distinguir claramente era que Annie usava um vestido azul-marinho e um chapéu com um enfeite — exatamente o tipo de roupa que ele a imaginara usando no tribunal, em Denver.

Ela estava muito corada e seus olhos brilhavam, cheios de vida. Ela estava tão bonita quanto Annie Wilkes jamais conseguiria aparentar. Mais tarde, quando Paul tentou se lembrar dessa imagem, os únicos detalhes que lhe vieram à mente com nitidez foram as bochechas coradas e o chapéu enfeitado. Do último reduto de lucidez e clareza que ainda lhe restava, Paul conseguiu formular um pensamento racional: Ela está parecendo uma viúva que acaba de dar uma trepada depois de dez anos sem transar.

Annie trazia na mão um copo de água bem grande.

— Tome — disse ela, colocando as mãos frias por trás de seu pescoço, para que ele pudesse beber a água sem engasgar.

Os poros secos de sua língua clamavam por água. Paul tomou três longos goles, deixando que a água escorresse pelo queixo e molhasse a camiseta. Annie afastou o copo e Paul estendeu as mãos trêmulas, insaciável.

— Vá com calma, Paul. Um pouquinho de cada vez, senão você vai vomitar.

Pouco depois, Annie permitiu que ele tomasse mais dois goles.

— Meu remédio. . .— implorou Paul, tossindo e lambendo os lábios.

Já nem se lembrava direito de que tivera coragem de beber sua própria urina, nem do gosto que ela tinha, tão salgada. . .

— O remédio. . .dores. . . por favor, Annie, ajude-me pelo amor de Deus. . . as dores estão terríveis. . .

— Eu sei que estão, Paul, mas você precisa me escutar — disse ela, dirigindo-lhe aquele olhar severo e ao mesmo tempo maternal. — Eu precisei me afastar daqui para pensar um pouco. Eu pensei bastante, Paul, e espero ter tomado a decisão certa. A princípio eu não tinha muita certeza, meus pensamentos ficam meio confusos, eu sei. Por causa disso é que não conseguia me lembrar onde eu estava todas aquelas vezes em que fui interrogada. Então eu resolvi rezar. Deus existe, Paul, e ele responde às nossas preces. Sempre. Então eu me pus a rezar: "Meu Bom Deus, Paul Sheldon pode estar morto quando eu voltar", mas Deus me respondeu: "Não, ele não morreu. Eu o poupei para que você pudesse mostrar-lhe qual o caminho a seguir".

Paul tinha os olhos fixos no copo, e mal ouvia o que Annie dizia. Ela permitiu que ele tomasse mais três goles. Seu corpo começou a ficar dormente e Paul arrotou.

Durante todo o tempo, Annie o observava com um olhar muito bondoso.

— Eu vou lhe dar o remédio, mas antes você terá que fazer uma coisa. Volto já — disse ela, saindo do quarto.

— Não! — gritou Paul.

Annie não lhe deu a menor atenção.

Deitado na cama, envolto numa onda de dor, Paul tentava, em vão, não gemer.

16

De início, Paul pensou que estivesse delirando. A cena que se descortinava à sua frente era grotesca demais para ser real: Annie entrara no quarto arrastando uma churrasqueira.

— Annie, eu estou morrendo de dor — lamentou-se Paul, começando a chorar.

— Eu sei, meu querido — retrucou Annie, dando-lhe um beijo no rosto; o toque dos lábios dela parecia suave como uma pluma. — Eu trago já seu remédio.

Annie tornou a sair e Paul ficou olhando para aquele objeto, que cairia bem num pátio em um dia de verão, mas que estava bem ali, em seu quarto. Mais do que nunca, aquela churrasqueira lhe trouxe à memória a imagem de ídolos e sacrifícios.

E era exatamente um sacrifício o que Annie tinha em mente. Quando voltou, ela trazia numa das mãos o manuscrito de Carros velozes — o único manuscrito que existia, fruto de dois anos de trabalho — e, na outra, ela trazia uma caixa de fósforos Diamond Blue Tip.

17

— Não! — gritou Paul.

Todo o seu corpo tremia. Por um segundo, um pensamento lhe varou a cabeça: por menos de cem dólares ele poderia ter tirado xerox de seu livro, quando ainda estava em Boulder. Todo mundo — Bryce, suas duas ex-esposas, e, com os diabos, até mesmo sua mãe — sempre costumava recriminá-lo por não tirar pelo menos uma cópia dos originais para deixar guardada. Afinal de contas, o Hotel Boulderaro, assim como sua casa de Nova Iorque, poderiam pegar fogo; poderiam ocorrer furacões, enchentes ou outra calamidade qualquer. E Paul negava-se terminantemente a fazer tal coisa, alegando um motivo nada racional: acreditava que tirar cópias dos originais lhe atrairia azar.

Muito bem: aqui estavam o azar e uma calamidade reunidos numa só pessoa: o furacão Annie. Ela era tão ingênua, que não lhe passou pela cabeça, nem por um só instante, que poderia existir uma cópia de Carros velozes guardada em algum lugar. Se ele ao menos tivesse dado ouvidos. . . se ao menos tivesse gasto uns míseros cem dólares. . .

— É isso mesmo. — disse ela, entregando-lhe a caixa de fósforos.

Annie segurava o manuscrito contra o peito, e Paul pôde ver a primeira página do livro, escrito em folhas brancas e perfeitas, da marca Hammermill Bond. O rosto de Annie continuava sereno e luminoso.

— Não — contestou ele, virando o rosto.

— Sim, Paul — rebateu Annie. — Ele é obsceno, e além disso, não é bom.

— Você não saberia dizer o que é bom, nem mesmo se o livro pudesse andar e arrancar o seu nariz — replicou Paul, sem se importar.

Annie sorriu, docemente. Pelo visto, o mau humor dela parece ter saído de férias, pensou Paul. Mas conhecendo Annie Wilkes como ele já conhecia, Paul sabia que ele poderia retornar a qualquer instante: "Não agüentei ficar longe de você! Como vão as coisas por aqui?"

— Em primeiro lugar, uma coisa boa não arrancaria o meu nariz — respondeu Annie. — Uma coisa maligna, sim. Mas não uma coisa boa. Em segundo lugar, eu sei muito bem distinguir quando alguma coisa é boa no momento em que a vejo. Você é uma pessoa boa, Paul Sheldon. Tudo o que você precisa é de uma pequena ajuda. Vamos logo, pegue os fósforos.

— Não — respondeu Paul, balançando a cabeça de um lado para o outro como um obstinado.

— Sim.

— Não!

— Sim.

— Com os diabos, não!

— Pode esbravejar à vontade. Eu já ouvi esse tipo de linguagem antes.

— Eu não vou fazer uma coisa dessas — decidiu Paul, fechando os olhos.

Mas quando Paul os abriu, alguns instantes depois, percebeu que Annie tinha nas mãos uma caixa de remédio. Em letras azuis e brilhantes lia-se o nome Novril, e, logo abaixo, em letras vermelhas, lia-se AMOSTRA GRÁTIS. VENDA SOB PRESCRIÇÃO MÉDICA. De dentro da caixa, Annie retirou uma carteia com quatro cápsulas protegidas por um plástico transparente. Paul tentou pegá-la, mas Annie puxou a mão, rapidamente.

— Depois que você queimar o livro, eu lhe darei todas as quatro e a dor passará. Você vai começar a se sentir calmo novamente e quando estiver melhor trocarei a roupa de cama e a sua roupa também. Vejo que você está todo molhado e isso deve incomodar. Até lá, você também deve estar como fome e eu lhe trarei uma sopa, quem sabe até uma torradinha, sem manteiga. Mas antes de você queimar o livro eu não poderei fazer nada, Paul. Sinto muito.

Sua boca estava quase gritando — Está bem, está bem! — e ele mordeu a língua. Paul tentou se esquivar dela, esquivar-se daquela carteia encantadora e maravilhosa, daquelas cápsulas envolvidas no plástico transparente.

— Você é um monstro!

Pela segunda vez, Paul julgou ter despertado o ódio de Annie, mas ela limitou-se a lhe dirigir um sorriso complacente, que escondia alguma tristeza.

— Sou, sim! Isso é o que diria uma criança quando a mãe entra de repente na cozinha e a pega brincando com o detergente. É claro que ela não usaria as mesmas palavras, mas diria algo como: "Mamãe, como você é malvada!"

Annie acariciou os cabelos de Paul, passou a mão em seu rosto, no pescoço e apertou seus ombros, suavemente.

— As mães ficam muito tristes quando seus filhos as chamam de malvadas ou quando os filhos começam a chorar, assim como você está chorando agora. Mas elas sabem que estão agindo certo e, assim, fazem o que deve ser feito. É isso o que estou fazendo.

Annie deu três tapinhas no manuscrito — 190.000 palavras e cinco personagens que um Paul Sheldon saudável e cheio de vida julgara tão importantes; 190.000 palavras e cinco personagens que ele julgava cada vez mais insignificantes a cada minuto que passava.

As cápsulas. As cápsulas. Ele precisava daquelas malditas cápsulas. Os personagens eram apenas uma imagem, as cápsulas eram reais.

— E então, Paul?

— Não — disse ele, entre soluços.

O barulhinho reconfortante das cápsulas presas na carteia — o silêncio — o barulho dos palitos batendo uns contra os outros dentro da caixa de fósforos.

— Paul?

— Não!

— Paul, eu estou espetando.

Pelo amor de Deus, por que você está fazendo isso comigo? A quem você está querendo impressionar? Você acha que está no cinema, ou num programa de televisão e que há um auditório julgando a sua atuação? Faça o que ela quer ou agüente as conseqüências, ou seja, você acabará morrendo e ela queimará o manuscrito do mesmo jeito. E o que você vai escolher: ficar aqui e sofrer o diabo por causa de um livro que venderia apenas metade dos exemplares que o livro menos vendido da série Misery? Um livro que Peter Prescott, com seu estilo amável e refinado, arrasaria em sua coluna na "bíblia" das críticas literárias, a revista Newsweek? Ora, vamos, lá, seja sensato! Até mesmo Galileu se retratou quando percebeu que eles levariam a cabo suas ameaças!

— Eu estou esperando, Paul. E posso esperar o dia inteiro, embora eu tenha meus motivos para suspeitar que você esteja prestes a entrar em estado de coma. Para falar a verdade, acho que você já está entrando em coma, eu conheço essas coisas. . .

A voz de Annie parecia um zumbido.

Está bem! Me dê logo esses fósforos! Traga um maçarico! Traga uma granada! Traga uma bomba nuclear, e eu faço o que você quiser, sua megera maldita!

Assim dizia a voz do oportunista que queria sobreviver. Mas uma outra voz, quase inaudível, quase entrando em estado de coma, persistia em meio à escuridão: Cento e noventa mil palavras! Cinco personagens! Dois anos de trabalho! E a essência de tudo: a verdade. O que ele julgava ser a MALDITA verdade!

As molas da cama ressoaram quando Annie se levantou.

— Está muito bem! Você é um menino teimoso. Não posso ficar aqui sentada a noite toda, embora isso seja um prazer. Mas vim dirigindo quase uma hora, o mais rápido possível para chegar logo aqui. Vou descansar um pouco e mais tarde eu voltarei para ver se você mudou de idéia. . .

— Então você queima o livro! — gritou Paul. Annie voltou-se e o encarou.

— Eu não posso fazer isso. Se pudesse, eu faria, Paul, só para poupá-lo dessa tristeza.

— Mas por que não?

— Porque você deve fazê-lo por iniciativa própria — respondeu ela de uma maneira muito afetada.

Paul soltou uma gargalhada e, pela primeira vez desde que voltara, o rosto de Annie se fechou e ela saiu do quarto levando o manuscrito embaixo do braço.

18

Uma hora mais tarde, quando Annie voltou ao quarto, Paul apanhou a caixa de fósforos.

Ela colocou a página-título do livro sobre a grelha da churrasqueira. Paul tentou, em vão, acender o fósforo, mas ele caiu de suas mãos.

Annie, então, acendeu-o e pôs o palito aceso em sua mão. Paul levou o palito até a pontinha da folha e observou, fascinado, como a chama experimentava o sabor do papel e depois o engolia. Desta vez, Annie trouxera um garfo da cozinha. Quando a folha queimou por completo, ela empurrou as cinzas para dentro da grelha.

— Isso vai levar um tempo enorme, eu não agüe. . .

— Não, não vai levar tanto tempo assim. É preciso, porém, que você destrua algumas das páginas, como um sinal de sua compreensão.

Annie colocou a primeira página do livro sobre a grelha e Paul ainda pôde ler uma das frases que escrevera há uns dois anos atrás, no seu apartamento em Nova Iorque: "Eu não tenho carro — disse Tony Bonasaro enquanto se dirigia para a garota que descia as escadas — e aprendo tudo devagar; mas sou um motorista muito veloz."

A frase o levou de volta no tempo, como costumam fazer alguns programas de rádio. Lembrou-se que ficara andando de um lado para o outro do apartamento, completamente tomado pelo livro, mais do que isso, "grávido" — e aqui começavam as dores do parto. Lembrou-se de ter encontrado o sutiã de Joan embaixo de uma das almofadas do sofá, e o fato dela ter estado ali há uns três meses atrás mostrava bem o tipo de arrumação que a empregada fazia. Lembrou-se de escutar o motor dos carros trafegando pelas ruas de Nova Iorque e de ouvir, ao longe, o monótono repicar de sinos de uma igreja chamando os fiéis para a missa.

Lembrou de sentar-se à maquina.

Como sempre, o abençoado alívio de começar um trabalho, a gostosa sensação de penetrar por uma brecha de luz muito brilhante.

E como sempre, a suspeita de que não escreveria tão bem quanto gostaria.

E como sempre, o terror de não ser capaz de terminar o livro, de dar algum branco.

E como sempre, a sensação maravilhosa e estimulante de ter começado uma viagem.

— Annie, não me obrigue a fazer isso — pediu ele, numa voz nítida, porém sussurrante.

Imóvel, Annie segurava a caixa de fósforos ao alcance das mãos de Paul.

— A escolha é sua.

E assim Paul destruiu o seu livro.

19

Annie o fez queimar a primeira e a última folha, além de nove pares de páginas retiradas de diferentes pontos do livro. Segundo ela, nove era o número que simbolizava o poder, e nove duas vezes traria boa sorte. Paul percebeu que ela buscara nesses símbolos uma maneira de apagar todas as obscenidades que ela encontrara, até o ponto em que lera o livro.

Quando ele já havia terminado de queimar o último par de páginas escolhido por ela, Annie lhe disse:

— Como você se comportou como um bom menino e levou tudo na esportiva, podemos terminar logo com isso. Sei que isso dói tanto quanto as suas pernas.

Annie retirou a grelha e colocou o restante das folhas dentro da churrasqueira. O quarto todo cheirava a fósforos e a papel queimado. É o cheiro da ante-sala do inferno!, pensou ele, num delírio. Se tivesse alguma coisa no que restara de seu estômago, ele por certo teria vomitado.

Ela riscou outro fósforo e entregou a ele. Sem saber como, Paul conseguiu se curvar e jogá-lo dentro da churrasqueira. Não se importava mais. Não se importava.

Annie cutucou-o nos ombros e Paul entreabriu os olhos.

— O fósforo apagou — disse ela, ao mesmo tempo em que riscava outro palito e o colocava em sua mão.

Mais uma vez Paul se inclinou — o movimento fez com que suas pernas se enchessem de cãibras — e levou o palito até a ponta das folhas. Dessa vez, a chama se espalhou por completo.

De olhos fechados, Paul recostou-se no travesseiro, sentido o calor das chamas e ouvindo o crepitar do fogo.

— Meu Deus do céu! — gritou Annie, apavorada.

Paul abriu os olhos e viu as folhas queimadas se elevando pelo quarto por causa do ar quente.

Annie saiu correndo do quarto. Paul a ouviu abrindo a bica da banheira e enchendo um balde. Indolentemente, Paul observava um pedaço de papel vagar pelo quarto e ir parar numa das cortinas transparentes, fazendo nela um pequeno furo, como de uma ponta de cigarro. Seu lençol estava coberto de cinzas, assim como seus braços. Paul não ligava. Não ligava nem um pouco.

Ao entrar no quarto, Annie parecia querer olhar para todos os cantos ao mesmo tempo, como se tentasse descobrir o trajeto de cada folha de papel chamuscado que se elevava no ar. Dentro da churrasqueira, as chamas crepitavam e cresciam.

— Meu Deus do céu! — exclamou Annie, segurando o balde nas mãos.

Annie parecia indecisa não só quanto ao local em que deveria jogar água, como também quanto à própria necessidade de ter que usar deste artifício. Seu lábios estavam trêmulos e molhados de saliva, e Paul a observava.

— Meu Deus do céu! Meu Deus do céu! — era tudo o que ela parecia conseguir dizer.

Mesmo com o corpo cheio de dores, Paul experimentou um segundo de extenso prazer. Então era assim que Annie Wilkes ficava quando estava apavorada. . . Paul adorou vê-la nesse estado.

Annie finalmente se decidiu, ao ver uma folha ainda em chamas subindo pelo ar quente. Com um outro "Meu Deus do céu!", ela virou o balde cuidadosamente dentro da churrasqueira. Um enorme chiado ressoou pelo quarto, elevando uma nuvem de fumaça. O cheiro de queimado e de umidade se tornou forte e insuportável.

Continuar: parte 3 de 4