Misery
Annie
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Não fale dessa maneira. Detesto quando você se refere a isso desse jeito.
Paul a olhou sem entender nada.
— Chamar o que, de que jeito?
— O talento que Deus lhe deu. Você se desmoraliza quando se refere a seus livros como um negócio, e eu detesto quando faz tal coisa.
— Desculpe-me.
— Assim você age como uma prostituta — afirmou Annie, impassível.
As coisas não são assim, Annie, pensou ele, tomado de raiva. Eu não sou como uma prostituta. Carros velozes era uma história de como deixar de se prostituir. E foi por esse motivo que resolvi acabar de vez com aquela cadela da Misery. Eu estava a caminho da costa oeste justamente para comemorar minha liberdade, por ter deixado de ser uma prostituta. E você não fez nada além de me tirar do carro capotado e me trazer de volta para o bordel. Faço por dois dólares; mas se quiser que eu a enlouqueça de prazer, serão quatro dólares! Volta e meia eu vejo um brilho em seu olhar e sinto que você sabe muito bem disso. Um júri pode não condená-la alegando insanidade, mas não eu, Annie. Comigo não cola.
— Essa é uma boa questão. Agora, voltando ao papel. . .
— Eu vou comprar a porcaria de papel que você quer — disse ela, irritada. — Me diga qual é a marca e eu vou buscar.
— Contanto que você compreenda que eu estou do seu lado. . .
— Não me faça rir. Ninguém nunca ficou do meu lado desde a morte de minha mãe, há vinte anos atrás.
— Acredite em mim se quiser, Annie. Se você é tão insegura de si mesma que não compreende o quanto me sinto agradecido por ter me salvado a vida, é problema seu.
Paul a observava atentamente e percebeu, mais uma vez, que os olhos dela brilharam. Annie estava em dúvida, queria acreditar nele. Bom. Muito bom. Ele lhe dirigiu o olhar que imaginava aparentar toda sinceridade possível, ao mesmo tempo em que via a si mesmo cortando as veias da garganta de Annie, as veias que mantinham em funcionamento um cérebro doentio.
— Pelo menos você deveria acreditar que eu estou a favor do livro. Você fez um comentário a respeito da encadernação. Você está pretendendo encadernar o livro, não?
— Exatamente.
É claro que você mesma vai encaderná-lo. Por que se você aparecesse com esse manuscrito numa tipografia alguém poderia levantar suspeitas. Você pode ser ingênua, mas não tão ingênua assim. Paul Sheldon está desaparecido. E se o tipógrafo se lembrar de ter aceito uma encomenda do tamanho de um livro, e que ainda por cima era protagonizada pelo mais conhecido personagem de Paul Sheldon ? E se ele se lembrar das instruções dadas por você? Instruções tão categóricas que nenhum tipógrafo se esqueceria: uma única cópia de um manuscrito tão grande que dava para fazer um livro.
Uma única cópia.
Como ela era, seu guarda? Bem, era uma mulher avantajada, parecia uma deusa de pedra descrita nos livros de H. Rider Haggard. Só um minutinho. . . eu tenho o nome e o endereço dela nos arquivos, deixe-me apenas encontrar a cópia da fatura. . .
— Também não tenho nada contra. Um manuscrito encadernado pode ficar muito bonito, se a edição for boa. Mas eu acho que um livro deve ser feito para durar bastante tempo. Se eu o escrever neste papel, Annie, daqui a uns dez anos, ou menos, você não terá nada além de um punhado de páginas borradas. Isto é, a não ser que você guarde o livro na estante e não mexa muito nele.
Mas ela não faria uma coisa dessas, não é mesmo? Claro que não. Annie ia querer abrir o livro todos os dias, a toda hora, talvez. Ia tirá-lo da estante e devorá-lo
Annie lhe dirigiu um olhar estranho e implacável. E ele não gostou nem um pouco daquele olhar, um olhar tão ostensivamente contrariado. Paul começou a ficar nervoso. Ele já conhecia a ira de Annie, mas nesse olhar havia algo de novo, uma expressão bronca e um pouco infantil.
— Você não precisa falar mais nada. Eu já disse que vou buscar o papel. Como é o nome?
— Vá a essa loja onde você esteve. . .
— Paper Patch.
— Isso mesmo, vá até a Paper Patch e peça duas resmas — cada resma corresponde a um pacote com quinhentas folhas. . .
— Sei muito bem o que é uma resma. Eu não sou burra, Paul.
— Eu sei disso.
Paul estava ficando cada vez mais nervoso. Suas pernas estavam começando a incomodar e, como estivesse sentado há quase uma hora, sua bacia também estava incomodando.
Fique calmo. Pelo amor de Deus, não ponha a perder o que você já conseguiu.
Mas eu consegui alguma coisa? Ou isso é apenas fruto da minha imaginação?
— Peça a eles duas resmas de papel branco para mimeógrafo. Hammermill Bond é uma boa marca, Traid Modern também. As duas resmas desse tipo de papel lhe custarão menos que esta única resma. Creio que elas darão para fazer todo o trabalho, o rascunho e o original.
— Vou até lá agora mesmo — disse Annie, levantando-se.
Paul a olhou aterrorizado. Annie pretendia sair sem lhe dar o remédio e, ainda por cima, ia deixá-lo sentado. As dores já estavam começando; imagine só como estariam fortes quando ela retornasse, por mais rápido que ela fosse.
— Você não precisa ir lá agora — interveio ele, rapidamente. — Este papel serve muito bem para começar o trabalho. Afinal de contas, eu terei que passar tudo a limpo. . .
— Só uma pessoa tola começaria um trabalho com uma ferramenta inadequada.
Dizendo assim, Annie passou a mão no pacote, apanhou a folha de papel que ele rabiscara, amassou-a com força e jogou-a na cesta de lixo. O mesmo olhar implacável e obstinado tomou conta do rosto de Annie, como uma máscara. Seus olhos brilhavam como duas moedas de fogo.
— Eu vou à cidade agora. Sei que você está ansioso para começar a trabalhar, já que está do meu lado. — Annie frisou as últimas palavras com uma forte dose de sarcasmo. (Paul julgava ser muito mais raiva de si mesma do que outra coisa.) — Sendo assim, não vou nem me dar ao trabalho de colocá-lo de volta na cama.
Annie abriu um sorriso e seus lábios lembraram a ele os lábios de um animalzinho de estimação. Ela se aproximou dele em seus silenciosos sapatos de enfermeira e passou a mão em seus cabelos. Paul recuou. Não queria fazer tal movimento, mas não conseguiu evitar. Annie sorriu ainda mais.
— Suponho que tenhamos que adiar o inicio de A volta de Misery por um dia ou dois, talvez mesmo três. . . Acho que você vai levar uns três dias para conseguir se sentar de novo. As dores são fortes. . . Eu tinha colocado uma garrafa de champanhe no congelador, mas estou vendo que ela vai voltar para a despensa. . .
— Annie, eu posso começar o trabalho, é só você. . .
— Não, Paul.
Annie foi até a porta e voltou-se. Em seu rosto, a mesma expressão implacável, dura como pedra.
— Antes de ir, gostaria de lhe dizer uma coisa, para que você possa refletir. Sei que pareço uma pessoa burra e tola, e é normal que você pense que pode me enganar. Mas eu não sou tola, Paul, nem muito menos burra.
Subitamente, o rosto de Annie se transformou. Por trás da máscara de pedra surgiu a fisionomia de uma criança colérica e fora de si. Por alguns segundos, Paul julgou que seu próprio medo o mataria. Ele ainda julgava ter levado vantagem sobre ela? Que vantagem? E alguém lá podia fazer o papel de Scheherazade quando o carcereiro era maluco?
Annie investiu para cima dele, com passadas firmes, joelhos arqueados e os braços balançando ao longo do corpo. Os grampos que prendiam o cabelo de Annie caíram pelo chão e mechas lhe caíram pelo rosto. Sua passagem não era mais silenciosa. Annie parecia o gigante Golias invadindo o vale dos Ossos. Presa à parede, a gravura do Arco do Triunfo gemeu de medo.
— Yah! — gritou ela, dando um soco no punhado de carne saliente que restava do joelho esquerdo de Paul Sheldon.
Paul jogou a cabeça para trás, soltando um uivo de dor, e as veias de seu pescoço e testa saltaram. Todo o seu corpo tremia de dor.
Annie levantou a máquina de escrever como se fosse uma caixa de papelão vazia e a colocou na cômoda.
— Fique aí sentado — disse ela com um sorriso nos lábios —, e pense bem sobre quem é que manda aqui. Pense bem em tudo o que posso fazer para machucá-lo caso tente me enganar ou caso se comporte mal. Fique aí e grite o quanto quiser, porque ninguém pode ouvi-lo. Ninguém nunca aparece por aqui porque todos sabem que Annie Wilkes é maluca, todos sabem do que ela foi capaz, mesmo que eles a tenham julgado inocente.
Ela foi até a porta e voltou-se. Antecipando outro ataque, Paul soltou um grito. Annie riu ainda mais.
— E vou lhe dizer mais uma coisa — disse ela, com ternura — Eles acham que eu consegui escapar impune, e eles estavam certos. Pense nisso, Paul. Pense bem no que eu disse, enquanto vou até a cidade comprar a porcaria de papel que você quiser.
Annie bateu a porta com força e a casa inteira tremeu. Logo depois ele ouviu a chave rodando na fechadura.
Paul recostou-se na cadeira, tentando fazer o corpo parar de tremer, porque isto aumentava ainda mais a dor. Lágrimas lhe escorriam pelo rosto. Repetidas vezes, ele a viu voando para cima dele; repetidas vezes, ele a viu descendo a mão com toda força no que restara de seu joelho; repetidas vezes ele sentiu o impacto terrível da pancada.
— Meu Deus, por favor. . . — gemeu ele, ouvindo-a ligar o jipe —, livre-me disso ou acabe comigo de uma vez. . . mate-me logo ou livre-me. . .
O ruído do motor foi diminuindo e Deus não fez nem uma coisa nem outra. E Paul ficou onde estava, tomado de dor e lágrimas.
30
Mais tarde, Paul imaginou que as pessoas — com sua injustiça infalível — viessem provavelmente a julgar o que ele fez em seguida como um ato de heroísmo. E ele as deixaria pensar assim, porque estava fazendo apenas uma última e hesitante tentativa de sobreviver.
Imaginou até que parece ouvir um daqueles ardorosos comentaristas esportivos — Howard Cosell, Warner Wolf ou, talvez, o mais impetuoso de todos, Johnny Most — descrevendo as cenas que se seguiram. Os seus esforços para chegar até o estoque de remédios de Annie, antes que a dor o matasse, transformaram-se num tipo diferente de esporte, uma substituição experimental do Monday Night Football, talvez. Como poderíamos chamar a essa nova modalidade de esporte? Corrida para a droga?
"Mal posso acreditar na coragem que esse menino está demonstrando hoje!", dizia, entusiasmado, o comentarista imaginário na cabeça de Paul Sheldon. "Duvido que qualquer um de vocês aqui presentes no estádio Annie Wilkes — ou qualquer um de nossos telespectadores — acreditasse que ele conseguiria mover aquela cadeira depois da agressão que levou! Mas lá está ele. . . A cadeira está se mexendo! Vamos conferir no replay!"
Gotas de suor lhe escorriam pela testa e pingavam nos olhos. Paul passou a língua nos lábios e sentiu um gosto salgado, mistura de lágrimas e suor. Seu corpo não parara de tremer e a dor era insuportável.
Chega um ponto em que a discussão sobre a própria dor se torna supérflua. Ninguém no mundo imagina que uma dor como essa possa existir! Ninguém! É como se o corpo estivesse possuído por um demônio!
A única coisa que o empurrava para frente era a lembrança das cápsulas de Novril que ela guardava em algum lugar da casa. O quarto trancado a chave. . . a possibilidade do remédio não ser guardado no banheiro do andar inferior como ele imaginava e, sim, escondido em alguma parte. . . o risco que corria com a chegada inesperada de Annie. . . nada disso importava, comparado à intensidade da dor. Cada problema teria que ser solucionado em seu devido tempo, caso contrário ele morreria ali mesmo. Isso era tudo.
Paul sentia como se pregos quentes lhe estivessem sendo enfiados nas pernas, e o movimento só fez aumentar a sensação de quentura. Mas a cadeira andou. Pouco a pouco, ela começou a deslizar.
Depois de arrastar a cadeira por cerca de um metro, ele percebeu que estava na direção do canto do quarto; era preciso girar a cadeira.
Com o corpo tremendo, Paul segurou a roda direita e (pense nas cápsulas, pense apenas no alívio das cápsulas) empurrou-a com força, mas a cadeira apenas rangeu com o atrito da borracha nos tacos de madeira. Paul tentou novamente, primeiro com força e em seguida sem tanta intensidade. Seus músculos estavam flácidos como geléia, mas dessa vez ele conseguiu fazer a manobra.
Segurando nas duas rodas, Paul deu um impulso e conseguiu fazer a cadeira deslizar por pouco mais de um metro. Mas ao parar para endireitar o corpo, Paul esmoreceu.
Cinco minutos mais tarde, ele pareceu voltar a realidade, ao ouvir a instigante voz do comentarista: "Ele vai tentar novamente! Eu mal posso acreditar na coragem desse Paul Sheldon!"
Uma parte de sua mente reconhecia a presença da dor, mas uma outra parte dirigiu o seu olhar para o chão, perto da porta, onde caíra um dos grampos que prendiam o cabelo de Annie. Paul arrastou-se até a porta e abaixou-se, mas as pontas dos dedos não chegaram até o chão. Paul mordeu os lábios. Gotas de suor escorriam pelo seu rosto, encharcando o pijama.
"Eu não acredito que ele vá conseguir apanhar aquele grampo, meus amigos; ele está se esforçando ao máximo, mas não acredito que ele consiga."
Talvez não.
Tentando ignorar a dor — uma pressão forte e parecida com a de um dente incluso — ele foi se inclinando pouco a pouco para o lado direito. Paul gemia alto, mas como Annie o prevenira, ali no havia ninguém para ouvir seus gritos.
Por muito pouco as pontas dos dedos não tocaram no grampo caído no chão; sua pele estava tão esticada com essa posição, que ele teve a nítida impressão de que ela ia romper-se e que suas entranhas iam jorrar para longe.
Meu Deus, por favor me ajude
Apesar da dor Paul abaixou-se mais uma vez, mas seus dedos tocaram no grampo apenas de leve empurrando-o para o lado. Ainda curvado para o lado direito ele deixou-se escorregar na cadeira. Paul deu um grito de dor. De olhos arregalados, boca entreaberta e língua para fora — gotas de saliva pingavam pelo chão —, Paul fez outra tentativa... imprensou o grampo entre os dedos. .. pegou-o... quase o perdeu. . . segurou-o firme na mão.
Voltar à posição inicial causou-lhe uma forte onda de dor e Paul; muito ofegante, apoiou a cabeça no desconfortável encosto da cadeira. À sua frente, o grampo, em cima da placa de madeira. Por alguns instantes, Paul pensou que ia vomitar, Mas o enjôo acabou passando.
O que você está esperando?, resmungou uma voz dentro dele. Está esperando a dor passar? Mas ela não vai passar! Annie vive falando da mãe dela, mas a sua mãe também costumava lhe dizer certas coisas, não?
É, ela dizia, sim.
Sentado na cadeira — a cabeça caída para trás, o rosto molhado de suor, os cabelos colados na testa — Paul recitou um dos ditados que sua mãe costumava dizer, como se invocasse poderosas palavras mágicas: "A preguiça é a mãe de todos os vícios."
Pois então, o que você está esperando, Paulie? trate de fazer alguma coisa antes que aquele insuperável peso-pesado apareça.
Paul começou a arrastar a cadeira outra vez, em direção à porta. Ele sabia que ela estava trancada, mas achava que poderia abri-la. Tony Bonasaro, que no momento nada mais era do que um monte de cinzas escuras, havia sido um ladrão de carros. Na fase de pesquisa para escrever Carros velozes, Paul contara com a ajuda de um corajoso e ousado ex-policial chamado Tom Twyford e ele o colocara a par dos diversos artifícios usados por ladrões de carro. Tom o ensinara a fazer ligação direta, a arrombar portas utilizando um pedaço de arame fino e maleável, apelidado pelos ladrões de 'Slim Jims', e a desligar alarmes contra roubo.
Vamos supor que você não queira roubar um carro — dissera-lhe Tom há cerca de dois anos e meio, num lindo dia de primavera, em Nova Iorque — Você já tem o carro, mas está sem gasolina. Você arranja uma mangueira, mas o carro que escolhe para abastecer o seu tem uma tranca na entrada do tanque. Isto é problema? Não, não é. Essas trancas são super vagabundas. Tudo o que você precisa é de um grampo de cabelo.
Paul levou cinco intermináveis minutos tentando posicionar a cadeira no lugar ideal, a roda esquerda quase encostada na porta.
A fechadura era antiga e sem brilho, e lembrou a Paul os desenhos de John Tenniel no livro Alice no País das Maravilhas. Soltando um gemido, Paul ajeitou-se na cadeira e olhou pela fechadura: um pequeno corredor levava até a sala de estar, onde se via um tapete vermelho-escuro, um antiquado sofá estofado com um material semelhante ao tapete e um abajur com desenhos no quebra-luz. Na metade do corredor, à esquerda, havia uma porta entreaberta. O coração de Paul disparou. Tinha certeza que aquele devia ser o banheiro do andar inferior — Paul percebera que Annie trazia água de algum lugar próximo (incluindo a vez em que ela enchera o balde com a água que ele bebera com tanta sofreguidão) — e não era ali que ela passava antes de lhe trazer o remédio? Achava que sim.
Paul apanhou o grampo, mas ele escorregou, indo parar na borda da placa de madeira.
— Não!
Paul soltou um grito rouco e amparou o grampo antes que ele caísse. Segurando-o na mão fechada, Paul deixou-se ficar onde estava, desanimado.
Embora não pudesse afirmar com certeza, dessa vez ele pareceu ter se desligado por um espaço maior de tempo. Com exceção da dor profunda no joelho esquerdo, ele julgou que o resto de suas pernas não estivesse doendo tanto. Cuidadosamente, Paul segurou o grampo.
Agora, pensou ele, desdobrando o grampo, você não vai tremer nem um pouco. Ponha isso na cabeça: você não vai tremer nem um pouquinho!
Paul introduziu o grampo no buraco da fechadura. Na sua mente (Tão vívida!) surgiu a voz do comentarista esportivo descrevendo a cena.
O suor lhe escorria pelo rosto já molhado. Paul colou o ouvido na porta, ouvindo. . . mais do que isso, sentindo. . .
O volteador de uma fechadura barata é parecido com o arco de uma cadeira de balanço — dissera-lhe Tom, ao mesmo tempo em que fazia um movimento com as mãos para demonstrar o que dizia. — Você quer virar uma cadeira de balanço ? É a coisa mais fácil do mundo, certo? Tudo o que tem a fazer é segurar o arco, empurrá-lo com força e a vovozinha voa pelos ares. . . E isso é tudo o que você tem a fazer com uma fechadura barata. Levante o volteador e puxe a porta, antes que ele volte ao lugar.
Paul conseguira puxar o volteador por duas vezes, mas o grampo escorregara de sua mão e ele voltara à posição inicial. O grampo estava ficando cada vez mais torto e Paul achou que ele se partiria no meio se tentasse mais duas ou três vezes.
— Meu Deus, por favor. — murmurou ele, introduzindo o grampo mais uma vez no buraco da fechadura. — Por favor, meu Deus. Dê uma chance aqui ao rapaz; isso é tudo o que eu peço.
("Meus amigos, Paul Sheldon se comportou hoje como um herói, mas esta tem que ser uma última tentativa. Todos assistem em silêncio. . .")
Paul fechou os olhos e a voz do comentarista foi diminuindo. Ansioso, ele esperava ouvir o estalido do volteador. Agora! Ele sentia a pressão do volteador no grampo! Paul podia vê-lo — tão parecido com o arco de uma cadeira de balanço! — segurando a lingüeta da fechadura, prendendo-a no lugar, prendendo-o em seu lugar.
Elas são super vagabundas, Paul, fique calmo.
Mas era difícil manter a calma quando se está morrendo de dor.
Paul passou a mão esquerda por baixo do braço direito e segurou na maçaneta, ao mesmo tempo em que empurrava o volteador só mais um pouquinho. . . só mais um pouquinho. . .
Em sua mente, ele imaginou o volteador se mexendo dentro da fechadura empoeirada, imaginou a lingüeta se abrindo. . . Não é necessário empurrar muito, não, por Deus, não! Não é necessário virar a cadeira de balanço, para usarmos a metáfora de Tom Twyford. No instante exato que ele desimpedir a lingüeta. . . abra a porta. . .
O grampo estava entortando e escorregando de suas mãos. Desesperado, Paul empurrou o máximo que pôde e virou a maçaneta. Ele ouviu um estalido e o grampo partiu-se ao meio, metade dele indo perder-se dentro da fechadura. . . Paul permaneceu imóvel, contemplando o seu fracasso quando, subitamente, percebeu que a porta se abria.
— Meu Deus, muito obrigado! — murmurou.
Vamos conferir no replay!, exclamou Warner Wolf. No estádio Annie Wilkes a multidão delirava, sem falar nas comemorações dos milhões de telespectadores, em suas casas.
— Ainda não é hora de comemorar, Warner — retrucou ele, começando a demorada tarefa de posicionar a cadeira de frente para a porta.
Paul experimentou um instante terrível — terrível, não; apavorante, medonho — quando percebeu que a cadeira talvez fosse grande demais para passar pela porta. Foi por isso que Annie trouxe a cadeira dobrada, pensou ele, com tristeza.
Mas ele conseguiu passar, não sem dificuldade. Colocando-se bem ao centro da passagem, Paul inclinou-se para a frente e agarrou-se nos portais, para tomar impulso. O eixo das rodas arranhou a madeira, mas ele conseguiu passar.
E Paul desfaleceu pela terceira vez.
32
Uma voz chamava por ele. Paul abriu os olhos e viu Annie apontando-lhe um revólver. Os olhos dela brilhavam de fúria e os dentes reluziam, cobertos de saliva.
— Se você precisa tanto assim de liberdade, Paul, eu fico orgulhosa de concedê-la a você.
Dizendo isso, Annie puxou o gatilho.
33
Paul recuou, esperando o tiro. Mas Annie não estava ali, é claro. Paul estava apenas imaginando.
É um aviso. Annie pode chegar a qualquer momento. A qualquer momento.
A intensidade de luz que vinha da porta entreaberta tornara-se ainda maior, e Paul calculou que fosse quase meio-dia. Queria ouvir as badaladas do relógio para ter noção do tempo, mas este se recusava a bater.
Ela ficou cinqüenta e uma horas fora da outra vez.
Foi isso mesmo. E desta vez pode ficar umas oitenta. Ou então, você pode escutar o jipe se aproximando daqui a cinco minutos. Caso você não saiba, meu amigo, o serviço de meteorologia consegue detectar a aproximação de um vendaval, mas jamais consegue dizer o lugar e a hora exatos em que ele vai irromper.
— É verdade — murmurou Paul, empurrando a cadeira na direção do banheiro.
Ao se aproximar, Paul divisou um cômodo simples, com azulejos brancos de formato hexagonal cobrindo o chão. Havia uma banheira antiga, daquelas apoiadas sobre pés, e das duas torneiras saía um comprido rastro de ferrugem. Ao lado, via-se um armário e, na parede em frente, ficavam a pia e um pequeno armário para remédios.
O balde de plástico amarelo encontrava-se dentro da banheira — Paul podia ver sua borda.
O banheiro era grande o bastante para ele entrar e fazer a manobra da cadeira, mas seus braços estavam exaustos. Paul sempre fora um menino franzino e, depois de adulto, tentara cuidar bem de si mesmo. Mas seus braços não passavam agora de braços de um aleijado, e o menino franzino que ele fora um dia estava de volta. Todas as horas que ele gastara correndo, fazendo exercícios e musculação de nada haviam adiantado.
A porta do banheiro, pelo menos, era mais larga que a do quarto, e foi bem mais fácil passar por ela. Paul esbarrou no batente da porta e a cadeira deslizou suavemente sobre os azulejos do chão. Ele sentiu um cheiro forte, que associou imediatamente a hospitais e que julgou ser Lysol. Como suspeitava, não havia ali nenhum vaso sanitário. O barulho da descarga vinha sempre do andar superior, e era esta mesma descarga que ele ouvia quando usava a comadre e Annie a levava para fora do quarto. Ali havia apenas a banheira, a pia e o armário que estava com a porta aberta.
Paul deu uma olhadela nas pilhas de toalhas azuis bem arrumadas — ele já as conhecia, Annie o enxugava com elas — e virou-se para o armário de remédios que ficava acima da pia.
Fora de seu alcance.
Por mais que ele se esticasse, seus dedos não chegariam a tocar no armário. Paul sabia disso, mas tentou assim mesmo, incapaz de conceber que o destino, Deus, ou "quem quer que fosse" pudesse ser tão cruel com ele. Era como um jogador de futebol correndo desesperadamente atrás de uma bola que jamais conseguiria alcançar.
Paul abaixou o braço, soltou um gemido e recostou-se na cadeira, ofegante. Ao sentir que ia desfalecer outra vez, Paul tentou se animar, procurando algo com que pudesse alcançar o armário. A um canto do banheiro, avistou um esfregão de cabo azul.
Vai querer usar isso? Vai mesmo? É, era isso mesmo o que esperava de você. Abrir o armário e deixar cair um monte de remédios na pia. E como todo mundo tem pelo menos um vidrinho de Listerine ou Scope em casa, você vai acabar quebrando-os. E como é que você pretende colocar tudo de volta no lugar? E o que vai acontecer quando ela chegar e descobrir a bagunça que você fez, hein?
— Eu direi a ela que foi Misery — resmungou ele. — Ela derrubou os vidros quando veio procurar um remédio que lhe trouxesse de volta a vida.
Paul começou a chorar, mas mesmo através das lágrimas continuou procurando por alguma coisa, tentando ter alguma idéia, encontrar uma saída.
Ao olhar pela segunda vez para o armário das toalhas, porém, Paul arregalou os olhos e sua respiração quase parou.
Da primeira vez, ele passara os olhos muito superficialmente na prateleira cheia de lençóis, fronhas e toalhas. Agora, seus olhos pairavam no chão do armário, onde havia inúmeras caixas de papelão estampando rótulos tais como UPJOHN, lilly e CAM Pharmaceuticals.
Paul girou a cadeira rapidamente, sem se importar com a dor que sobreveio.
Meu Deus, eu te peço por favor que nessas caixas não esteja apenas o estoque extra de xampus e tampões ou retratos da velha santíssima e adorada mãe de Annie. . .
Paul tateou uma das caixas, puxou-a e a abriu. Nada de xampus ou amostras de produtos Avon. Longe disso. Ali havia uma infinidade de caixas de remédio, amostras grátis em sua maioria, além de uma enorme quantidade de cápsulas e pílulas coloridas dos mais diversos tipos e tamanhos, soltas e sem invólucro. Paul conhecia algumas delas — Motrim e Lopressor, remédios para hipertensão, que seu pai tomara nos últimos três anos de vida. As outras, porém, ele não fazia a menor idéia para que serviam.
— Onde está o Novril?! — murmurou ele, mexendo avidamente na caixa. O suor não parava de escorrer pelo seu rosto e suas pernas latejavam e doíam.
Nada de Novril. Paul fechou a caixa e empurrou-a de volta para o lugar, sem se preocupar muito em recolocá-la exatamente na mesma posição. Isso não faria a menor diferença. Aquilo era apenas um amontoado de remédios malditos. . .
Paul inclinou-se e conseguiu puxar uma segunda caixa; ao abri-la, ele mal acreditou no que viu.
Darvon. Darvocet. Darvon Composto. Morphose e Complexo Morphose. Librium. Valium. E Novril. Dúzias e mais dúzias de caixas de amostra grátis. Caixas adoráveis, caixas queridas. Santíssimas e adoradas caixinhas. Paul abriu uma delas e pôs os olhos nas cápsulas que Annie lhe dava a cada seis horas.
NÃO PODE SER ADMINISTRADO SEM PRESCRIÇÃO MÉDICA, dizia a caixa.
— Ó meu Deus, muito obrigado pelo doutor estar bem aqui! - murmurou ele, entre soluços.
Paul abriu o invólucro com os dentes e engoliu três cápsulas ao mesmo tempo, ignorando o gosto amargo que elas deixavam na boca. Por alguns instantes, Paul ficou olhando para as cinco que restaram no invólucro entreaberto, e decidiu tomar uma quarta.
Com o rosto abaixado, Paul olhou rapidamente à sua volta, entre atento e assustado. Sabia que ainda era muito cedo para sentir o efeito do remédio, mas de algum modo ele já o sentia. O simples fato de ter as cápsulas para tomar parecia mais importante do que tomar o remédio pura e simplesmente. Era como se agora tivesse o controle da lua e das marés, como se houvesse lutado e conseguido o que queria. Este era um pensamento estranho e intenso, mas também aterrador e que tinha uma nota de culpa e de heresia.
Se ela chega agora. . .
— Muito bem, eu já entendi.
Paul deu uma olhadela na caixa, tentando calcular quantas embalagens de Novril ele poderia carregar sem que ela percebesse que um ratinho chamado Paul Sheldon estivera roendo o seu queijo. . .Paul soltou uma gargalhada de alívio e compreendeu que o remédio não estava atuando apenas nas suas pernas. Para usarmos um termo vulgar, Paul estava completamente doidão.
Mexa-se, seu tonto. Não há tempo para ficar curtindo onda.
Paul apanhou cinco caixas, um total de quarenta cápsulas, refreando seus instintos em levar algumas a mais. Em seguida, revolveu as caixas e vidros de remédio que restaram, esperando que ficassem mais ou menos na posição em que os encontrara, e empurrou a caixa de volta ao lugar.
Um carro se aproximava.
Paul se empertigou e abriu bem os olhos, agarrando as rodas da cadeira, em pânico. Se fosse Annie, ele estava perdido. Não seria capaz de manobrar a cadeira enorme e desengonçada de volta para o quarto antes dela entrar. Talvez conseguisse acertar Annie com o cabo do esfregão antes que ela torcesse seu pescoço como se faz com uma galinha.
Sentado na cadeira, as pernas esticadas e as caixas de Novril no colo, Paul esperava para ver se o carro entraria ou seguiria em frente.
O barulho do motor aumentou cada vez mais. . . e foi diminuindo.
Muito bem. Você precisa de outro aviso, Paul?
Para falar a verdade, ele não precisava. Paul deu uma última olhadela nas caixas. Elas pareciam estar exatamente na mesma posição, mas ele não podia garantir, pois as vira por trás do nevoeiro de dor. Ele sabia, porém, que elas não poderiam estar assim tão desarrumadas como lhe pareceu a princípio. Como todos os neuróticos, Annie tinha os sentidos aguçados e devia saber a posição exata de cada uma daquelas caixas. Bastaria que olhasse de relance para descobrir, de alguma maneira misteriosa, que alguém estivera mexendo ali. Paul, entretanto, não sentiu medo, mas resignação. Ele precisara do remédio e conseguira escapar do quarto para buscá-lo. Se houvesse castigos, ele agüentaria as conseqüências, pois não lhe restara nenhuma alternativa a não ser o que acabara de fazer. E de tudo o que Annie já fizera com ele, a resignação era o sintoma da pior delas: Annie o transformara num animalzinho massacrado pelas dores e sem nenhuma opção mais digna de vida.
Paul foi empurrando a cadeira para trás, olhando de vez em quando para ter certeza que se dirigia para a porta. Se fizesse um movimento como esse antes de tomar o remédio, ele certamente teria gritado de dor, mas esta agora desaparecera atrás de uma linda nuvem transparente.
Ao voltar ao corredor, um pensamento terrível lhe veio à cabeça: e se o chão do banheiro estivesse ligeiramente molhado, ou empoeirado?
Paul olhou o azulejo, e a simples possibilidade de que houvesse deixado marcas no chão fez com que ele as visse de fato. Paul sacudiu a cabeça e tornou a olhar. Nenhuma marca. Mas a porta do banheiro estava um pouquinho mais aberta, não? Empurrando a cadeira para a frente, ele pegou a maçaneta, e abriu um pouco a porta. Mais um pouco. Agora, sim. Era assim que ela estava.
Pronto para voltar ao quarto, mãos nas rodas da cadeira, Paul percebeu que estava virado para o lado da sala e não era ali que a maioria das pessoas instalava um telefone?
Uma idéia lhe iluminou a cabeça como um raio de sol sobre um campo coberto de neblina.
— Delegacia de Polícia de Sidewinder. Oficial Humbuggy falando.
— Escute bem o que vou dizer, guarda Humbuggy, escute com atenção e não me interrompa, pois não tenho muito tempo. Meu nome é Paul Sheldon e estou na casa de Annie Wilkes. Ela me mantém como prisioneiro por pelo menos duas semanas, ou talvez por cerca de um mês inteiro.
— Annie Wilkes?!
— Venha para cá imediatamente e traga uma ambulância. Pelo amor de Deus, venha logo, antes que ela volte. . .
— Bem antes dela voltar — murmurou Paul — Muito antes.
E o que o fez pensar que ela tem telefone? Você já viu Annie ligando para alguém? Para quem ela ia telefonar? Para os seus bons amigos, os Roydmans?
Só por que ela não fica pendurada no telefone o dia inteiro não significa que ela não compreenda que acidentes acontecem; ela pode escorregar na escada, quebrar um braço ou uma perna, o celeiro pode pegar fogo. . .
E quantas vezes você já ouviu esse suposto telefone tocar?
E o que isso quer dizer? Por um acaso a companhia telefônica virá cortar o telefone se ele não tocar pelo menos uma vez por dia? Além do mais, eu estive inconsciente a maior parte do tempo.
Você está se arriscando sem necessidade. Você está se arriscando e sabe muito bem disso.
Sim ele sabia. Mas a possibilidade de encontrar um telefone, de tocar o plástico escuro do fone, de discar um número e ouvir o ruído, eram tentações muito fortes para ele resistir.
Paul manobrou a cadeira em direção à sala e avançou.
O lugar cheirava a mofo, era abafado e sufocante. Embora as cortinas entreabertas permitissem uma linda vista das montanhas, a sala era escura — porque a pintura é escura, pensou Paul. A cor predominante era o vermelho-escuro, dando a sensação de que alguém espalhara uma grande quantidade de sangue por todo lado.
Em cima da lareira, via-se a descorada fotografia de uma mulher ameaçadora, de olhos pequeninos perdidos no meio de um rosto carnudo e com uma boca que lembrava um botão de rosa. A fotografia, numa moldura dourada, era imensa, tal como a fotografia do presidente, exposta no saguão da agência central dos Correios de uma grande cidade. Paul não precisava de um documento autenticado para atestar que aquela mulher era a santíssima mãe de Annie.
Paul avançou um pouco mais e o braço esquerdo da cadeira esbarrou numa pequenina mesa cheia de peças de cerâmica. Elas bambolearam e uma delas — um pingüim sentado num bloco de gelo — tombou para o lado.
Sem pensar, Paul a agarrou antes que caísse. O gesto casual foi logo substituído, porém, por uma tremedeira. Paul segurava o pingüim com a mão fechada e tentava fazer com que o corpo parasse de tremer. Você conseguiu segurá-lo, relaxe. Além do mais, há um tapete no chão, ele não ia se quebrar.. .
Mas de tivesse quebrado?, respondeu sua mente, aos gritos. Se tivesse QUEBRADO? Volte para o quarto, por favor, antes que deixe algum rastro. . .
Não, ainda não. Por mais assustado que estivesse, ainda não era hora de voltar ao quarto. Tudo isso já lhe custara muito. Ele agüentaria as conseqüências.
Paul passou os olhos pela sala atulhada de móveis pesados e desajeitados. Ela tinha tudo para ser dominada pela linda vista das montanhas Rochosas que se descortinava da janela colonial, mas a sala era totalmente dominada pelo retrato daquela mulher gorda, presa numa horrorosa moldura dourada cheia de arabescos, enfeites e drapeados.
Em cima de uma mesa, ao lado do sofá em que Annie devia sentar para assistir televisão, havia um telefone.
Paul colocou a estatueta de cerâmica (minha história já foi CONTADA), era o letreiro que se lia no cubinho de gelo, com todo o cuidado, prendendo a respiração, e partiu em direção ao telefone.
Na frente do sofá havia uma mesinha com um horrível jarro verde cheio de flores secas. O arranjo parecia mal equilibrado e pronto para cair no chão se ele passasse perto e Paul desviou-se dele.
Nenhum carro se aproximava — lá fora ouvia-se apenas o ruído do vento.
Paul tocou o aparelho e tirou-o do gancho.
Uma estranha sensação de fracasso o envolveu antes mesmo que ele levasse o fone ao ouvido e escutasse o silêncio. Ao recolocar o fone no gancho, o verso de uma velha canção de Roger Miller surgiu em sua cabeça: sem telefone, sem bolada, sem um bichinho de estimação. . . sem ao menos um cigarro. . .
Paul seguiu o fio do telefone com os olhos, viu a pequenina tomada na parede e o fio entrando por ela. Tudo parecia perfeitamente em ordem.
Tal como o celeiro e as fitas elétricas no telhado.
Manter as aparências é algo muito importante.
Paul fechou os olhos e imaginou Annie retirando o interruptor, enchendo o buraco de cola e recolocando-o no lugar — a cola branca endureceria e congelaria para todo o sempre. A Companhia Telefônica não faria a menor idéia de que o telefone estava mudo, a não ser que alguém tentasse ligar para ela e comunicasse à companhia que a ligação não completava. Mas ninguém ligava para Annie, não é? Ela receberia regularmente as contas do telefone mudo e as pagaria antes do vencimento, mas o telefone nada mais era do que uma peça de decoração, mais uma prova da luta interminável de Annie em manter as aparências, assim como o gracioso celeiro recém-pintado de vermelho, com arremates cor de creme, e fitas elétricas no telhado para derreter a neve. Teria ela cortado o telefone por ter previsto uma aventura como essa que ele acabara de fazer, fugindo do quarto? Paul duvidava. O toque do telefone teria deixado Annie nervosa muito antes de sua chegada. Annie ficaria longas horas acordada de noite, ouvindo os gemidos do. vento, e pensando que as pessoas que não gostavam dela ou as que a odiavam claramente — o mundo estava cheio de Roydmans — poderiam ter a infeliz idéia de ligar para ela e gritar: Você é culpada, Annie! Eles a levaram ao tribunal de Denver e nós sabemos que você é culpada! Ninguém que é inocente é levado ao tribunal de Denver! Caso solicitasse, Annie conseguiria que seu número não constasse da lista telefônica — qualquer pessoa levada a um tribunal por causa de um crime maior (e se ela fora levada a Denver, era esse o caso) conseguiria tal coisa, mesmo que tivesse sido absolvida —, mas isso não satisfaria uma pessoa neurótica como Annie. Todos estavam contra ela. Eles acabariam conseguindo descobrir o seu número. Os próprios promotores que a acusaram teriam o maior prazer de entregar o número de seu telefone para qualquer um que pedisse; e é claro que alguém ia pedir tal coisa. Annie encarava o mundo como uma massa escura de seres humanos que se mexia como o mar, um universo maléfico cercando um pequenino palco em que um único foco de luz brilhante e intensa iluminava apenas a. . . ela. Era melhor, portanto, acabar com o telefone, silenciá-lo, assim como ela faria com ele se descobrisse do que ele fora capaz.
Paul entrou em pânico. Sua mente lhe dizia para voltar imediatamente para o quarto, esconder as cápsulas em algum lugar e voltar a cadeira para a janela. Só assim ela não notaria nenhuma diferença, nenhuma diferença mesmo. E dessa vez, Paul concordou com sua voz interior. Concordou inteiramente.
Paul arrastou a cadeira cuidadosamente para trás e, quando viu que tinha algum espaço, começou a difícil tarefa de manobrar a cadeira, tomando cuidado de não esbarrar na mesinha.
Quando estava quase terminando a manobra, Paul ouviu o motor de um carro e soube simplesmente que era ela voltando da cidade.
34
Paul quase desmaiou. A sensação de terror era tão intensa, que ele jamais experimentara nada igual na vida, um misto de terror e profunda culpa. De súbito, lhe veio à lembrança o único incidente semelhante a este, embora a sensação de desespero fosse então muito menos intensa do que a atual. Ele tinha doze anos e estava de férias. O pai estava no trabalho e sua mãe acabara de sair com a senhora Kaspbrak para passar o dia em Boston. Paul pegara o maço de cigarros da mãe e acendera um deles. Ele fumava avidamente, sentindo-se ao mesmo tempo enjoado e importante, tal como imaginava sentirem-se os ladrões de banco após um grande assalto. Quando já fumara metade do cigarro e o quarto estava cheio de fumaça, Paul escutou a porta da frente abrir. "Paulie? Sou eu! Esqueci a bolsa!" Paul agitava as mãos em meio à fumaça, ciente de que nada adiantaria, de que ele fora pego e de que levaria umas boas palmadas.
Dessa vez seria algo muito pior do que simples palmadas.
Lembrou-se de uma das visões que tivera: Annie apontando-lhe um revólver e dizendo "Se você precisa tanto assim de liberdade, Paul, eu fico orgulhosa de concedê-la a você".
O motor do carro diminuiu a marcha. Era ela mesmo.
Paul mal sentiu as mãos tocarem as rodas da cadeira e avançou em direção ao corredor, não sem antes dar uma olhada na estatueta do pingüim sentado no bloco de gelo. Estaria no mesmo local? Impossível dizer, Paul esperava que sim.
Atravessando o corredor e ganhando velocidade, ele esperava passar direto pela porta do quarto. Mas foi por pouco que não conseguiu. E este pouco era o bastante. A cadeira de rodas chocou-se com o batente da porta e bamboleou.
Saiu alguma lasca da pintura? gritou a voz dentro dele. Pelo amor de Deus, você lascou a parede? Você deixou algum rastro?
Não, nenhum. Ficou uma pequenina marca, mas não saiu nenhuma lasca. Louvado seja Deus. Paul empurrava a cadeira para frente e para trás, freneticamente, tentando passar pela porta estreita.
O motor do carro aumentava à medida que se aproximava e diminuía a marcha.
Vai ser fácil. . .fácil. . .
Ao empurrar a cadeira, o eixo de cada uma das rodas ficou preso na porta. Paul tentou se soltar, mas sabia que era inútil. Estava preso entre os batentes da porta como a rolha numa garrafa de vinho. . .
Num último esforço desesperado, com os músculos retesados como as cordas de um violão, Paul conseguiu soltar a cadeira fazendo um pequenino ruído.
O jipe Cherokee acabava de entrar na garagem.
Ela vai trazer alguns pacotes, as resmas de papel, talvez algumas compras também, ela vai estar carregada e vai ter que andar devagar para não escorregar na neve, você já está no quarto, o pior já passou, ainda há tempo, ainda há. . .
Paul avançou pelo quarto e fez uma desajeitada manobra, colocando a cadeira paralela à porta. Annie desligara o motor do jipe.
Inclinado sobre o corpo, Paul agarrou a maçaneta e tentou fechar a porta, mas a lingüeta bateu contra o batente, impedindo que ela se fechasse. Paul empurrou a lingüeta com o polegar; ela cedeu um pouquinho e estacou. Ela simplesmente se recusava a entrar.
Por alguns instantes, Paul ficou observando, atônito, e um antigo ditado dos marinheiros lhe veio à cabeça: Quando uma coisa pode dar errado, ela fatalmente dará errado.
Por favor, Meu Deus, o fato dela ter desligado o telefone já não foi o bastante?
Paul soltou a lingüeta e tentou empurrá-la outra vez, mas encontrou a mesma resistência. Um pequeno estalo dentro da fechadura fez com que ele compreendesse o que acontecera. O pedaço do grampo de cabelo que se partira estava impedindo a entrada da lingüeta.
A porta do jipe abriu e Paul pôde escutar os resmungos de Annie e o roçar dos pacotes de papel que ela tirava do carro.
— Vamos lá — sussurrou ele, começando a pressionar suavemente a lingüeta, para frente e para trás. Ela cedeu um pouco, mas continuou emperrada. Paul podia sentir o maldito grampo de cabelo impedindo a passagem.
— Vamos lá. Vamos lá. . . vamos lá. . .
Sem ao menos perceber, Paul começou a chorar e as lágrimas se misturaram ao suor que lhe escorria pelo rosto; ele mal percebia que as pernas ainda latejavam, apesar de todo o remédio que tomara, e que ele pagaria um preço muito alto por essa travessura.
Não tão alto quanto o que você terá que pagar se não conseguir fechar essa maldita porta, Paulie.
Paul ouviu os passos cuidadosos de Annie sobre a neve, o roçar das sacolas de compras e o tilintar do chaveiro na mão. . .
— Vamos lá. . . vamos lá. . . vamos lá. . .
Mais uma vez, a lingüeta cedeu um pouco, fazendo um pequeno ruído. Mas ainda não era o bastante.
— Por favor, vamos lá. . .
Paul pressionava a lingüeta com mais rapidez, quando ouviu Annie abrindo a porta da cozinha.
— Sou eu, Paul! Comprei seu papel! — gritou Annie muito animada, trazendo-lhe à memória a terrível lembrança daquele dia em que sua mãe o surpreendera fumando.
Descoberto! Eu fui descoberto! Meu Deus, por favor, não permita que ela me maltrate!
Paul continuava a apertar a lingüeta convulsivamente, até que um ruído abafado o certificou que o grampo de cabelo se deslocara, deixando livre a lingüeta. Da cozinha, vinha o barulho de Annie tirando os agasalhos.
Paul fechou a porta, e o trinco estalou tão alto (será que ela ouviu? Deve ter ouvido, deve ter, sim!) quanto o disparo de um revólver.
Os passos pesados de Annie já podiam ser ouvidos pelo corredor, e Paul ainda tentava recolocar a cadeira próximo à janela.
— Você está acordado, Paul? Consegui comprar o papel! Dando um último solavanco na cadeira, Paul aproximou-se da janela no momento exato em que Annie punha a chave na fechadura.
Não vai abrir. . . o grampo. . . ela vai desconfiar. . .
Mas o grampo deve ter se alojado em algum lugar onde não atrapalhasse o funcionamento da chave, pois Annie conseguiu abrir a porta sem qualquer problema.
Sentado na cadeira, de olhos entreabertos, Paul esperava tremendamente que tivesse colocado a cadeira no lugar certo (ou pelo menos tão perto a ponto de Annie não reparar na diferença), esperando que ela julgasse o suor do rosto e a tremedeira do corpo como sintomas da falta do medicamento, esperando, acima de tudo, que ele não tivesse deixando nenhum rastro para trás. . .
Quando a porta abriu, Paul abaixou a cabeça e só então percebeu que na luta desesperada para não deixar o menor rastro possível, ele se esquecera de apagar o maior de todos eles: as caixas de Novril, em seu colo.
35
Annie entrou carregando uma resma de papel em cada mão e dirigiu-lhe um sorriso.
— Não foi esse que você pediu? Triad Modern. Aqui tem duas resmas e tem mais duas lá na cozinha, no caso de você precisar. Sendo assim. . .
Annie parou de falar e franziu as sobrancelhas.
— Como você está suando!. . . Parece estar febril também. . . O que você andou fazendo, hein?
A voz interior de seu ego secundário entrou em pânico e começou a gritar que estava tudo perdido, que era melhor desistir de tudo, aconselhou-o a confessar o que fizera e a esperar pela misericórdia de Annie; mas ainda assim, Paul conseguiu perceber que a aparente desconfiança dela não passava de um gracejo.
— Você bem sabe o que andei fazendo. . . Tudo o que faço é sofrer.
Annie tirou um lenço de papel do bolso da saia e enxugou a testa de Paul. O lenço ficou encharcado.
— As dores tem sido fortes? — perguntou ela com um sorriso que estampava um suposto e terrível ar maternal.
— Muito, muito fortes. . . Eu poderia tomar. . .
— Eu bem que lhe avisei para não me deixar nervosa. Vivendo e aprendendo, não é assim que reza o ditado? Se você viver, Paul, acabará aprendendo.
— Posso tomar o remédio agora?
— Num minutinho.
Até o momento, Annie não tirara os olhos do rosto pálido e suado de Paul, que estava começando a se encher de pequenas brotoejas.
— Antes eu quero ter certeza de que não há mais nada que você precise, nada que a velha e boa Annie tenha se esquecido de comprar, porque ela desconhece os seus métodos de trabalho, está me ouvindo, seu espertinho? Quero ter certeza que você não vai querer que eu volte à cidade para comprar um gravador, ou alguma coisa do gênero. Se for preciso comprar mais alguma coisa, conte comigo. Seu pedido é uma ordem. Irei agora mesmo, e nem vou me preocupar de lhe dar o remédio antes, pois estarei logo de volta. O que me diz, seu espertinho? Tudo pronto?
— Tudo pronto. Annie, por favor. . .
— E você não vai mais me deixar nervosa?
— Não, eu não vou mais deixar você nervosa.
— Isso é bom, pois quando acontece eu fico fora de mim. Annie finalmente abaixou os olhos e percebeu que ele segurava as mãos entre as pernas. Por um longo tempo, Annie ficou observando.
— Por que você está com as mãos desse jeito, Paul?
Ele começou a chorar. Paul chorava de culpa e era exatamente isso o que mais o aborrecia: além de tudo o que lhe causara, aquela mulher monstruosa o obrigava a sentir-se culpado. E Paul chorava por isso. . . e também por mero cansaço.
Com lágrimas a lhe escorrerem pelo rosto, Paul levantou os olhos e arriscou sua última cartada:
— Eu preciso do remédio. . . e do urinol. Consegui me segurar até agora, Annie, mas não estou mais me agüentando e não quero fazer xixi na calça outra vez. . .
Annie sorriu, radiante, e tirou uma mecha de cabelo que lhe caíra na testa.
— Coitadinho!. . . Annie está abusando de você, não está? Está, sim! Como você é malvada, Annie! Eu vou pegar, agora mesmo. . .
36
Esconder as caixas de remédio embaixo do tapete estava fora de questão, mesmo que houvesse tempo para isso. O volume das caixas ficaria óbvio demais, embora elas fossem pequenas. Sendo assim, Paul as enfiou dentro da cueca, acomodando-as entre as nádegas. O movimento resultou em algumas dores a mais, e Paul pôde sentir as pontas das caixas espetando sua pele.
Annie retornou trazendo duas cápsulas de Novril e um copo de água numa das mãos, e um urinol antigo e metálico, que se parecia com um secador de cabelo, na outra.
Mais duas cápsulas dessas além das que você tomou há meia hora atrás vão acabar fazendo você entrar em estado de coma, isso se não acabarem te matando, pensou ele.
Por mim, tudo bem, respondeu de imediato a voz dentro dele.
Paul tomou o remédio e ela lhe entregou o urinol:
— Você precisa de ajuda, Paul?
— Não, eu posso fazer isso sozinho.
Annie afastou-se um pouco e Paul tentou enfiar o pênis desajeitadamente dentro do tubo comprido e gélido. Quando o barulho da urina ressoou pelo quarto, Paul percebeu que olhava para ela, e viu que Annie sorria.
— Já fez? — perguntou ela, pouco depois.