Mulheres recipientes

Flavia Leme de Almeida · Capítulo 10 de 12

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Mulheres recipientes

Considerações finais

 

"A palavra alma é uma palavra imortal.

Em certos poemas ela é indelével. Uma palavra de alento."

Gaston Bachelard

Mulheres recipientes, uma pesquisa prática em cerâmica, significou uma possibilidade a mais para a compreensão do universo artístico feminino, a alma do texto. Neste livro entrelaçaram-se variados caminhos trilhados por artistas que possuíam um mesmo ponto de intersecção: a busca do universo feminino nas artes visuais, sob o ponto de vista da mulher na nossa sociedade ocidental. A intenção aqui foi demonstrar que a série Mulheres recipientes está inserida num contexto artístico contemporâneo, por se tratar de uma poética recorrente na produção de algumas artistas da atualidade.

A despeito da série Mulheres recipientes tratar de obras feitas em cerâmica, um material que traz junto de si uma forte carga conceitual, por ser utilizado há milhares de anos para fins diversos, que não apenas o artesanal utilitário ou decorativo, as peças são, intencionalmente, feitas para serem apreciadas como objetos artísticos. Objetos que trazem em si uma forte intenção de situar o papel da mulher na arte e na vida contemporânea. Mas o que seriam as Mulheres recipientes? O que querem esses objetos? O que eu, como artista, pretendo com esse tipo de obra e com esse tipo de material? Todos sabemos que o material fala muito sobre a obra e que a própria obra deve falar por si mesma - caso contrário, o artista trabalharia através da linguagem escrita e não da visual. A cerâmica é por essência um material orgânico, é a argila queimada. É, pois, um material que teve origem no "ventre da terra" e, seguindo um modo de pensar de nossos ancestrais do Paleolítico, o barro foi gerado pela Mãe Terra, a Pachamama. A argila é, também, para muitos povos indígenas, um material típico do universo feminino; o pote de barro é uma mulher. Além disso, é um dos mais plásticos materiais para se modelar por suas características físicas. A argila é, portanto, um suporte intimamente ligado ao universo feminino.

Ao iniciar essa pesquisa, minha intenção era mostrar que minha proposta está ligada à arte contemporânea. Mesmo que a argila seja um material pouco usado como suporte final atualmente, entre as artistas (es)colhidas, Celeida Tostes e Judy Chicago trabalhavam com cerâmica. Encontrei-me, também neste percurso, com todas as outras artistas germinadoras. Descobri afinidades poéticas entre minha cerâmica e a obras dessas artistas e, ao me reunir com elas, pude fazer de forma mais concisa a ligação entre a minha pesquisa poética e artística, a série Mulheres recipientes, com a obra dessas artistas.

Assim como Frida Kahlo, mostro-me também em minhas obras. Mas, diferente dela, não me elegi como modelo literal, pois não faço autorretrato. Meu ponto de vista é o de mostrar o corpo feminino como um grande ventre (recipiente). Frida Kahlo pintou muito de seu sofrimento em vida, representando-o de modo forte, bravo, estóico, mostrando o quanto os traços profundos dessa dor tinham atingido seu corpo e seu espírito. Eu, ao contrário, não expresso minhas angústias através do corpo ferido, mas do potencial que ainda há nele.

Louise Bourgeois foi uma das artistas que mais marcou minha trajetória artística. Sua poética tão rica em simbologias e interpretações, a liberdade no uso de materiais diversos para se expressar apenas através da escultura, da linguagem tridimensional, tudo isso serviu como fonte de inspiração criadora para mim. Suas esculturas privilegiam as formas que insinuam o corpo de mulher, as formas que lembram entranhas, as aranhas enormes com suas bolsas cheias de ovos, a casa, o quarto, a espera, a intimidade. Todas essas sugestões simbólicas me motivam e é o que tento transmitir nas minhas esculturas - o feminino em amplo espectro. As questões do universo feminino se aliam e se fundem com as colocações transformadas em objetos. O feminino transposto na escultura.

Grande evocadora do poder das deusas votivas, Celeida Tostes celebrava a força da Pachamama. Em suas obras, a artista Celeida de Barro, assim como eu, mantinha a argila como o principal suporte para desenvolver suas obras. O feminino estava moldado em seus dez mil ovos, nas centenas de vênus, na sua performance em que se vestiu de barro, entrou no ventre da terra. Transmutou-se em outra vida ao se encolher dentro de um pote - enterrou-se como em uma urna funerária. O ventre, a reprodução (ou a repetição) está no bojo de nossas produções artísticas.

Uma outra maneira encontrada de expressar o feminino através da escultura são as graciosas Nanas, de Niki de Saint Phalle, com suas volumosas formas celebrando a fertilidade no corpo da mulher em uma explosão de cores e linhas. As Nanas foram para mim uma descoberta lúdica e alegre do poder do feminino nas artes visuais. A volúpia dos sentidos aguçada pelo olhar, pelo tocar e pelo adentrar -peças feitas para serem tocadas, obras arquitetônicas para serem vivenciadas. Minhas peças não chegaram nesta dimensão espacial, minha escala ainda está próxima de objetos portáteis, levados no colo ou mesmo no ventre... Porém, nossas obras suportam em si a força das pequenas vênus, do Paleolítico, comemorando a vida, a renovação dos ciclos.

Judy Chicago, festejou a vida e as realizações femininas com a grandiosa obra The dinner party. Também celebro os múltiplos significados da cerâmica e do vir-a-ser de um recipiente na ótica do feminino. Em sua grandiosa obra, Judy celebrou e serviu uma belíssima mesa de jantar para mais de mil mulheres: tanto as míticas, como as de carne e osso. Para cada uma das 39 mulheres da mesa de jantar foi "servido" um prato especial, pintado ou esculpido por outras mulheres - uma grande ceia feita por mulheres e para mulheres. Prato é também um objeto feito para conter os alimentos e as taças, feitas para conterem os líquidos. Portanto, recipiente na sua essência. Os pratos e as taças da instalação The dinner party, assim como minhas peças, foram feitos em cerâmica. Logo, são fruto do ventre da terra germinadora. Reproduzem-se em série através do torno ou do molde, porém não deixam de ser peças especiais, porque em cada uma delas há uma diferenciação que a torna única.

Com Ana Mendieta, o feminino foi mostrado através da sua autorrepresentação em suas silhuetas. Tentando se livrar de um forte conteúdo cultural que o corpo feminino carrega, seja através da exaltação da beleza ou do receio da conotação de objeto sexual, Mendieta encontrou uma forma de representar seu corpo diretamente na terra, associando suas energias com os elementos naturais: marcas de um corpo feminino com fogo, terra e água. Formas femininas feitas na terra e com terra, uma busca por suas raízes e origens. Nossos trabalhos se cruzam na medida em que necessitam indagar sobre a relação da mulher com a terra, a relação dos seres com sua procedência, com o princípio.

É preciso que eu admita, neste ponto, que minha primeira fonte de inspiração, foi sem dúvida, as múltiplas representações da Grande Mãe. As vênus esteatopígicas me ajudaram a elaborar conceitos sobre a plástica na cerâmica. Dentro de cada peça ocada e oca, côncava, vazia, trago a memória do passado no simbolismo do pote como morada dos mortos.

Há quem defenda que não exista mais uma "arte de mulher", ou seja, uma arte essencialmente feminina, feita por e para as mulheres. A arte, neste sentido, é universal, acessível e atingível por todos: homens e mulheres de todas as idades e crenças. Neste ponto, este livro quer defender apenas que só podemos produzir uma arte com base em nosso repertório pessoal e subjetivo. Isso quer dizer que expressamos nossos pensamentos, idéias, emoções, sensações, com base naquilo que somos, vivemos, acreditamos, aprendemos, assimilamos - considerando que todos esses pontos estão extremamente atrelados às nossas raízes culturais, na qual nascemos e não escolhemos. Logo, não seria possível separar a autora/artista da sua realidade única, seja como mulher, brasileira, ceramista e pesquisadora do século XXI.

Assim, fecho este ciclo, mostrando como todos esses pontos colaboraram para a minha transformação, através da forma e do conteúdo. A forma - diretamente ligada à cerâmica, pois este é um suporte extremamente orgânico e plástico, que durante os séculos se moldou conforme nossa vontade. O conteúdo - metaforicamente ligado às mulheres que se tornaram artistas - que transformou minha própria maneira de ver e fazer arte. Logo, isto que lhes foi apresentado é, antes de qualquer coisa, fruto de trabalho contínuo de pensamentos e mãos, de sentimentos e ações. Gerado por e através de um repertório poético, artístico, cultural, mental, emocional. Gerado de dentro para fora. Revelado em seu interior: um recipiente exposto.

Eu faço aquilo que sou. Sou aquilo que faço.