Mulheres recipientes

Flavia Leme de Almeida · Capítulo 11 de 12

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Mulheres recipientes

Anexo

 

"A matéria pura vive, sonha, pensa e se esforça como um bom

operário. O sonho da amassadura eleva-se assim ao nível

cósmico: o sonho do ceramista é uma imensa masseira onde as

terras diversas se almalgamam e se misturam aos fermentos"

Gaston Bachelard, A terra e os devaneios do repouso

Neste anexo, selecionei alguns desenhos, croquis, projetos e poesias feitos ao longo da minha pesquisa teórica e prática. Eles foram feitos a lápis, lápis de cor aquarelado e também caneta higrográfica (ponta fina colorida). Criadas em momentos distintos, essas imagens (es)colhidas exprimem muito sobre a minha intimidade e foi extremamente difícil decidir me expor assim deste modo. Contudo, compreendi que com elas poderia agregar maior valor à serie Mulheres recipientes e, portanto, isso seria de fundamental importância para visão total de meu trabalho.

O desenho tem um grande papel no meu processo criativo: ele é, muitas vezes, o primeiro local onde uma idéia é manifestada. Não necessariamente a idéia de uma escultura surge através do desenho, na grande maioria são criações que complementam algum projeto escultórico ou de instalação. Essas ilustrações estão, quase sempre, acompanhadas de palavras ou textos poéticos, que associam outras informações às imagens. É possível observar que algumas dessas imagens se distanciam tanto da peça final, que os desenhos acabam se tornando trabalhos independentes, com uma tênue relação com as esculturas. Sartre, em seu ensaio fenomenológico A Imaginação explana justamente sobre essa relação entre a representação e objeto representado: "a imagem é uma coisa, tanto quanto a coisa da qual é a imagem. Contudo, pelo fato mesmo de ser imagem, recebe uma espécie de inferioridade metafísica em relação à coisa que ela representa" (Sartre, 2008, p.10). As imagens e desenhos apresentados são, na grande maioria, independentes do objeto representado. Logo, não se tornam inferiores porque não representam, eles existem em si mesmo.

Há alguns casos, porém, em que especificamente traduzo meus desenhos em formas tridimensionais. Exemplo disso são as Figuras 26/27/28/29/31/32 em que projetei primeiramente as peças no papel para depois transpô-las no barro. Ocorre que as idéias surgem em momentos inesperados, em situações em que não estou em atelier e o desenho acaba por se tornar a melhor maneira de dar forma à elas.

O que exponho aqui, é uma profusão de idéias e desafios que foram costurados com uma mesma coerência temática e simbólica, retomando ciclicamente como um alinhavo, minha antiga pesquisa sobre o universo feminino.