Mulheres recipientes
1 No princípio era a cerâmica: a volta às origens
1 No princípio era a cerâmica: a volta
às origens
Nossos ancestrais pré-históricos
"Há milênios, sob todas as suas formas - barro esmaltado ou
não, faiança, porcelana - a cerâmica está presente em todos os
lares, humildes ou aristocráticos. Tanto que os antigos egípcios
diziam "meu pote" para dizer "meu bem", e nós mesmos,
quando falamos em reparar danos de qualquer espécie, ainda
dizemos 'pagar os vasos quebrados' [payer les pots cusses]."
Claude Lévi-Strauss
No início era o barro - e não somente o verbo ou o Caos. 1 Num tempo em que os seres humanos estavam mais próximos da natureza, ela era venerada e temida como uma divindade poderosa e respeitada como sendo algo sagrado e misterioso. Um dos modos de refletir sobre a história das civilizações ancestrais é através da cerâmica. Por ser um dos poucos materiais que sobreviveram ao
tempo,2 os arqueólogos puderam ter subsídios consideráveis para identificar e explicar o modus vivendi dos nossos antepassados. A cerâmica era feita com finalidades objetivas e simples, sendo de uso cotidiano (recipientes usados para alimentar o corpo) ou ritualístico (recipientes usados para alimentar a alma). Lévi-Strauss, no livro A oleira ciumenta, relata diversos rituais de preparo da cerâmica, um deles chamado "ligadura dos potes" da aldeia de Awaxawi, era feito para obter-se chuva e consistia em preparar ritualisticamente dois potes decorados representando o homem e a mulher. Ambos permaneciam boa parte do ano enterrados e quando retirados deveriam ser protegidos do sol e levados para uma cabana revestida de terra para que o ritual pudesse acontecer (Lévi-Strauss, 1985, p.43).
Em muitos dos artefatos arqueológicos encontrados em várias partes do mundo podemos observar um fio condutor, uma busca
pela beleza e perfeição.3 Na sua maioria eram artefatos adornados com diversos tipos de representações gráficas que ilustravam o cotidiano real ou mitológico das pessoas daquela localidade e período (animais, caça, plantio, colheita, datas comemorativas etc.), assim como, também, grafismos abstratos e hieróglifos. No caso de
urnas funerárias, não é raro encontrarmos nesses recipientes 4 cerâmicos uma alusão direta ao corpo humano. As urnas eram bojudas na parte inferior; e na parte superior, próxima à abertura, tinham feições estilizadas de um rosto. Lembravam cabeças e ventres maternos, pois essas urnas simbolizavam um "retorno ao útero materno", à barriga da Mãe Terra, a Grande Deusa, e faziam parte dos rituais de sepultamento dos nossos antepassados. De
acordo com Adele Getty (1997, p.8), há na região de Le Roc5 lajes de pedra com relevos de figuras femininas apoiadas na terra. Estas imagens poderiam indicar o culto à Mãe Terra, pois é possível acreditar que as grutas fossem relacionadas simbolicamente a um útero ou mesmo tumbas da humanidade, logo, eram considerados locais sagrados. Neste mesmo ponto, a autora ainda afirma que a experiência de adentrar numa gruta, seria equivalente a sentir múltiplas emoções simultaneamente, como certo receio devido ao fato de compararmos o silêncio e a escuridão com nossa ancestralidade e com a sensação imemorial de estarmos dentro de outro corpo.
Existe uma curiosidade acerca do manuseio e feitio da cerâmica em toda a América: o fato de ser esta uma atividade especialmente feita por mulheres. Segundo Lévi-Strauss somente em algumas poucas comunidades tribais, a cerâmica era feita por homens. Ao descrever um mito dos Hidatsa, índios do alto do Missouri, de língua soiux, o autor mostra como o ato de fazer a cerâmica era uma ocupação sagrada, misteriosa e ligada ao universo feminino. Apenas as mulheres que haviam herdado o direito de poder praticá-la através de outras mulheres, suas próprias ancestrais, até que se chegasse à ancestralidade mais longínqua que teria recebido das Serpentes esse direito, já que o mito dizia que unicamente as Serpentes podiam fazer cerâmica. Além disso, havia uma série de restrições durante a feitura da cerâmica: ninguém poderia se aproximar da ceramista enquanto ela celebrava os cânticos religiosos e nem tão pouco ter acesso a sua casa.
Conhecida também como Mãe Terra, Avó da argila, Senhora da argila e dos potes de barro, a padroeira da cerâmica era considerada uma benfeitora já que a humanidade lhe devia não apenas a matéria-prima, mas as técnicas e a arte de decorar potes. Alguns mitos considerados por Lévis-Strauss, em contrapartida revelavam uma faceta temperamental ciumenta e rabugenta (Lévi-Strauss, 1985, p.40). A cerâmica era, portanto, uma atividade quase que restrita às mulheres, na maioria das vezes de caráter sagrado e envolta em uma série de especificidades, cuidados e proibições. Paralelo a tudo isso havia sempre inúmeros mitos que remetiam às explicações sobre a origem e a função da argila entre os humanos. Para ilustrar esse fato, Lévi-Strauss nos mostra uma das diversas origens mitológicas da argila na terra e a sua clara ligação com as
mulheres através de um mito Jivaro.6 Para esse povo, a palavra nui significa argila e, no mito da origem da cerâmica, que ocorre junto ao mito da criação do mundo "[...] a abóboda celeste é uma grande tigela azul de cerâmica. Foi com barro que o Criador fez Nantu, a Lua, que irá se casar com Sol, e é com argila que ela modela um filho, em seguida destruído pelo Engolevento." Esse filho recebe o nome de Nuhi (cf. nui, "argila") e após sua morte, seu corpo transformou-se na terra em que hoje vivemos. O autor continua a descrição deste mesmo mito, afirmando que Sol e Lua tiveram como descendentes o Preguiça, o Boto, o Caititu e a Mandioca, uma filha e depois disso ficaram estéreis. A mãe de ambos lhes entregou dois ovos: um se perdeu e do outro nasceu Mika, uma menina. Mais tarde Mika se casaria com Unushi, seu irmão Preguiça. Mika além de ser a padroeira da cerâmica, é também o nome ritualístico dos
grandes vasos cerâmicos em que se coloca a chicha7 a ser consumida nas cerimônias. Lévi-Strauss cita que o antropólogo Karsten destacou a proximidade fonética das palavras mulher "nua" e cerâmica "nui". "Já apontei alhures" - diz ele - "para a interessante conexão entre a mulher, de quem a cerâmica é uma das atribuições, e a terra ou argila que ela utiliza. No pensamento dos índios, o vaso de argila é uma mulher." O autor ainda ressalta que é tarefa da mulher fabricar e utilizar os recipientes cerâmicos, "[...] pois a argila de que são feitos é fêmea, como a terra - em outras palavras, tem alma de mulher." (Lévi-Strauss, 1985, p.32 e 33)
Para o povo Jivaro e para muitas outras sociedades tribais, a relação entre a matéria argilosa e a mulher era evidente e facilmente explicada através dos mitos. Entre as possíveis explicações para entendermos essa relação mítica entre a mulher e a cerâmica, uma delas seria o fato de ambas passarem por transformações: a mulher todos os meses transforma-se ao menstruar e, principalmente, ao engravidar; a cerâmica tem sua matéria transformada através do fogo e, de maleável e moldável, torna-se rígida e resistente até mesmo ao próprio fogo. Assim como no ventre das mulheres há uma espécie de recipiente gerador e mantenedor de vidas, os recipientes cerâmicos são usados para manter e preparar os alimentos. Ambas as formas são essencialmente semelhantes por serem convexas ou côncavas: os recipientes cerâmicos eram essencialmente feitos em formato de receptáculo, assim como o órgão reprodutor feminino. Ao redor da mitologia sobre a origem da cerâmica, também existiam rigorosos métodos de colheita e preparo do barro pelas mulheres. "Em todas as informações relativas à arte da cerâmica na América do Sul, fica evidente que ela é objeto de cuidados, preceitos e proibições múltiplas." Lévis-Strauss continua dizendo que os Yucararé, uma tribo que vive a beira sul dos Andes, também rodeavam as práticas da cerâmica com uma série de precauções rigorosas. "As mulheres, que são as únicas a praticar essa arte, iam solenemente buscar a argila durante o período do ano que não era dedicado às colheitas." Elas escondiam-se num lugar afastado para construir seu abrigo e celebrar seus ritos, um lugar em que ninguém as visse e que as protegesse dos trovões, pois elas acreditavam piamente que qualquer ruído pudesse rachar os potes durante a queima (Lévi-Strauss, 1985, p.34 e 35)
Desta forma as mulheres, apesar de serem as únicas a manipular a argila, eram submetidas à ela, simultaneamente. Mitos do povo Tacana, na Bolívia, ao sopé do Andes, reafirmam esse fato ao contar "que a avó da argila ensinou as mulheres a modelar vasos de terra, cozê-los e torná-los resistentes." O mito continua descrevendo como a divindade era exigente, pois "insistia para que as mulheres lhe fizessem companhia, convidava-as para vir à sua casa, e, para prendê-las junto a si provocava o deslizamento da terra que cobria os leitos de argila, enterrando-as." Na Colômbia, "os Tainimuka ou Ofaina acreditam que a Terra Namatu, a mulher primordial, instituiu a arte da cerâmica. Ela é a senhora dos potes, que não podem ser fabricados sem sua permissão." Para o feitio de determinadas panelas de barro (as de fazer beiju) existe uma série de precauções: o preparo é feito em um local especifico da aldeia; as mulheres menstruadas e grávidas são proibidas de se aproximarem da argila, por serem "quentes demais"; as crianças são afastadas da queima se ela ocorrer de dia; ninguém pode entrar molhado na aldeia e nem a ceramista pode tomar banho, pois as panelas são sensíveis ao frio. Cabe à ceramista fazer abstinência sexual e manter o cabelo arrumado para que não caia nenhum fio em sua obra. Para se coser as panelas, eram feitos três suportes de barro (que representam os três pilares cósmicos) bem ao centro da casa coletiva. O centro da casa para eles é o centro do mundo e, se por acaso esse pilares "forem abalados pela cobra enrolada em torno deles, a estabilidade do mundo em que vivem os humanos, e também dos outros mundos, corre perigo." (Lévi-Strauss, 1985, p.39 e 40)
Lévi-Strauss, ainda no livro A oleira ciumenta, nos conta que as mulheres da tribo Jivaro não deveriam apenas saber fazer cerâmica, mas saber fazê-la de modo satisfatório: "Para merecer um marido bom caçador, uma mulher tem de saber fabricar uma louça de qualidade, para cozinhar e servir a caça. Mulheres incapazes de fazer cerâmica seriam, realmente, criaturas malditas." (Lévi-Strauss, 1985, p.37) Também nesta citação fica evidente a relação dos papéis femininos e masculinos na aldeia: cabia à mulher o poder de gerar os frutos humanos, alimentícios (plantio e colheita) e cerâmicos. Eram as mulheres as responsáveis pelo plantio e colheita da lavoura, pela coleta, feitura e queima do barro, assim como pela gestação e o cuidado para com os filhos. Aos homens cabiam todos os esforços que exigissem a locomoção para fora da aldeia, seja a caça, a pesca, as lutas, as armas e tudo o que despendesse da força física.
A diferenciação física entre homens e mulheres era evidente para os nossos ancestrais e este era, até então, o único modo de se explicar a dicotomia entre ambos. Capazes de gerar e manter novas vidas, as mulheres detinham certa magia e poder sobre os homens: o mistério da procriação as envolvia. Essa capacidade criadora era algo não só inexplicável, como também de extrema importância, por ser o modo de perpetuar a espécie.
E essas primeiras sociedades estruturadas e mais estáveis, pelo fato de estarem aprendendo a dominar técnicas da agricultura e pastoreio, tinham em comum o culto à Grande Deusa, também
conhecida por Mãe Terra ou Pachamama.8 A esse respeito a professora Lalada Dalglish explana, em poucas palavra, essa relação:
Os vários povos primitivos que deixaram de ser nômades e
passaram a praticar a agricultura desenvolveram técnicas
artesanais com fins utilitários e ritualísticos. A terra, de onde
brota a água e alimento, passou a ser associada a fertilidade da
mulher, que, por sua vez, também podia gerar filhos; nasce aí o
culto às "deusas da fertilidade", associado ao ciclo das
colheitas. Em todas as culturas por onde apareceram, estas
deusas votivas adquiriram diferentes nomes, mas possuíam as
mesmas intenções votivas associadas à fertilidade. (Dalglish,
2006, p.22)
As comunidades tribais dependiam sobremaneira deste papel reprodutor, gerador, agregador, mantenedor das mulheres, para continuarem vivos. Essa capacidade criadora era algo não só inexplicável, como também de extrema importância, visto que este era o único modo de perpetuar a espécie. Diz Joseph Campbell que até recentemente, papel social da mulher era o de garantir a preservação da nossa espécie - a relação do homem com essa função era quase inexistente. "E, à maneira dos homens primitivos, a função do macho nessa sociedade é preparar e preservar um ambiente no qual a fêmea possa gerar os espécimes futuros." Fica evidente a diferenciação dos papéis de cada um. "E seus corpos são distintamente adequados para desempenhá-los." (Campbell, 1990b, p.8-9) A importância da mulher nas sociedades ancestrais era também ressaltada pela idéia de associação do nascimento dos frutos (na agricultura) com o nascimento dos filhos (na procriação). Essas sociedades mais estruturadas e estáveis, pelo fato de estarem aprendendo a dominar técnicas de agricultura e pastoreio, tinham em comum o culto à Grande Deusa. Campbell compara o poder de procriação da mulher na era pagã, ao mesmo poder gerador existente no reino vegetal: "A mulher dá a luz, assim, como na terra se originam as plantas. A mãe alimenta como o fazem as plantas. Assim, a magia da mãe e a magia da terra são a mesma coisa. Relacionam-se." O autor afirma que a "personificação da energia que dá origem às formas e as alimenta é essencialmente feminina. A Deusa é o próprio universo. Tudo quanto você vê, tudo aquilo em que possa pensar, é produto da Deusa." (Campbell, 1990b, p.177)
As mulheres não eram responsabilizadas por sua gravidez em povos que mantinham tais crenças, ou seja, de que a gravidez não dependia da relação sexual humana. Simone de Beauvoir (1987) afirma que nesse período era desconhecida a participação do pai na procriação, pois apenas a mãe gerava em seu ventre a criança e, depois de parida, era ela quem amamentava e nutria os filhos, garantindo assim, a perpetuação do clã. "Com, efeito, os povos primitivos não acreditam que o homem tenha alguma importância na reprodução" alguns, inclusive, acreditavam que o papel do homem na relação sexual era apenas o de romper o hímen para dilatar a passagem ao verdadeiro agente semeador: os raios lunares (Beauvoir, 1987, apud Santos). Se a mulher engravidasse era sempre por um motivo externo a ela, talvez pela ação da lua, por ter ingerido determinado alimento, ou mesmo por algo místico. Em sociedades ancestrais como essas que estamos considerando, não existia nenhuma restrição à relação sexual, de maneira que a conexão entre a gravidez e o sexo poderia nem ser relacionada. E como a duração exata da gravidez foi conhecida apenas em um estágio de cultura mais recente, era plausível que nossos antecessores não relacionassem esses fatos. Para Getty (1997) "não existiam filhos ilegítimos nem mulheres 'marcadas', porque não se atribuía valor nenhum à paternidade. 'O filho de um é filho de todos', como dizem os Ibos da África em certos cânticos."
Deste modo, não é difícil entender como e porque as culturas ancestrais valorizavam e cultuavam amplamente o universo feminino. Eram desconhecidos tanto os processos de germinação da semente quanto a gestação na mulher, logo, não seria estranho que se atribuíssem às mulheres poderes místicos e sagrados, também ligados a terra.
A Grande Mãe, Pachamama: um símbolo da
fertilidade
"Santa deusa Tellus,
Mãe da Natureza Viva, alimento da vida;
Tu dás em eterna lealdade e, quando a vida nos deixa,
encontramos refúgio em Ti. Tudo quanto repartires a teu ventre
retorna.
Justamente Te chamam Mãe dos Deuses, porque com Tua
lealdade conquistaste o poder dos Deuses.
Na verdade és também Mãe dos povos e dos Deuses
Ninguém pode florescer nem existir sem Ti; Tu és poderosa;
dos Deuses
Rainha e Deusa.
A Ti e ao Teu poder invoco, oh, Deusa; Tu podes conceder-me
tudo quanto pedir, e em troca prestar-Te-ei, oh, Deusa, os meus
mais sinceros agradecimentos."
Loa, século II
Hoje podemos saber, através das incontáveis estatuetas e imagens sagradas com formas femininas, como nossos antepassados veneravam a vida, focando particularmente o poder da Grande Mãe. Apesar de a Deusa ser apresentada sob diversas maneiras, diferindo-se no formato, nomenclatura ou materiais, sua conotação simbólica era sempre mantida: a responsabilidade pela vida no mundo. A Deusa era quem criava, nutria, sustentava e restabelecia
a vida. As chamadas "vênus esteatopígicas" 9 foram encontradas em
diversas civilizações e épocas distintas, 10 juntamente com outros
tantos artefatos dos períodos Paleolítico e Neolítico. 11 Essas imagens podem ser consideradas a representação dos nossos mais antigos impulsos criadores dos mitos.
Na América Latina, especialmente no Peru, Bolívia e norte da Argentina, a Deusa ou Grande Mãe era chamada por Pachamama, literalmente, Terra Mãe. Iconograficamente, a Pachamama, assim como a Grande Deusa no continente europeu, aparece de diversas formas: como grávida, é a deusa da fertilidade; como uma velha índia acompanhada de um cão feroz, é a Senhora da Terra. De tão forte que era a crença nesta divindade, mesmo após a colonização européia nas Américas, não apenas a representação, como, também, todo seu caráter simbólico, foi incorporado à imagem da Virgem Maria, mãe de Deus.
O poder que a Deusa Mãe exercia em nossos ancestrais era imenso; refletia a ordem social e o papel privilegiado da mulher como procriadora, já que a reprodução era um grande mistério. Esse período foi denominado por alguns especialistas como matriarcado, pois a importância da mulher era tamanha que o núcleo familiar e social girava em torno dela. O mistério da gestação estava diretamente ligado ao poder misterioso do feminino. Assim como uma consequência da observação dos ciclos da natureza e de toda a magia que envolvia a criação das espécies, nossos antepassados começaram a cultuar a Deusa Mãe que era geradora de vida, a Grande Mãe de todos os seres viventes. "São-lhe prestadas honras pela sua qualidade de dar e manter a vida: do seu ventre surge o grande mistério, e tudo volta a ela [...]" (Getty,1997, p.5)
Foi através dos infindáveis mitos das mais diversas culturas que pudemos constatar o poder e o papel do feminino na estruturação do mundo. De acordo com Senna (2007), a veneração à Deusa cobriu amplo território e período da história da humanidade, cerca de 50.000 anos. Estudos antropológicos constatam esta veneração desde o Paleolítico Superior europeu, o Neolítico no Oriente Médio, a idade do bronze nos vales dos grandes rios - Nilo, Eufrates, Tigre, Ganges - também ocorrendo no período formativo da América pré-colombiana. É interessante notar que, mesmo em comunidades tão distantes e em períodos tão longínquos, havia um fio condutor, um "cordão umbilical" que ligava a Grande Deusa Mãe com todos os seus filhos. As representações celebrando o corpo fértil da mulher apareciam não apenas nas pinturas e estatuetas, mas também em baixo relevos, amuletos ou possíveis objetos de veneração. Eram caracterizadas, principalmente, pela robustez de um estágio avançado de gravidez, com "caracteres sexuais, nádegas, ventre e seios, com excesso de volume e polidez, proclamando a admiração e o respeito dos primitivos diante dessas figuras portadoras do bem mais precioso - a vida." (Senna, 2007, p.56).
Segundo estudos de W. K. Gregory encontra-se entre 40.000 e 30.000 a.C., pela Europa e parte do Sudeste da Ásia e em alguns outros lugares, o homo sapiens tardio (o homem de Cro-Magnon), que é tido como o responsável pela criação destas estatuetas pequenas - com cerca de 3 a 22 cm - denominadas, pelos pesquisadores do século XIX, Vênus (Campbell, 1990a). Conforme o historiador Siegfried Giedion, a denominação poderia indicar um suposto significado erótico, uma vez que a deusa seria a versão latina da deusa grega Afrodite - que simboliza o amor e a beleza. Giedion também chegou a citar que alguns pesquisadores defenderam a idéia de que tais figuras não eram de modo algum imagens que representassem sensualidade, mas sim que essas estatuetas de mulheres maduras de seios pesados, ventre protuberante e nádegas exageradas eram representações simbólicas da fertilidade (Giedion, 1999); o que não anula, a nosso ver, suposição de que poderiam ser também um estímulo erótico, principalmente, se considerarmos o sentido de erotismo como voltado para a vida, como o conceito freudiano de libido.
A partir de 35.000 a.C., desde a cultura aurinhacense do
Paleolítico até ao Neolítico agrícola, começaram a ser
modeladas pequenas estátuas da Deusa com barro e cinza e
depois cozidas, ou talhadas em osso, chifre ou marfim, na
Espanha, França, Europa oriental, Rússia, Mediterrâneo e
Oriente Médio. O arqueólogos têm vindo a descobrir numerosos
amuletos que representam certos aspectos da Deusa, os peitos
ou a vulva. Estas estátuas, juntamente com as imagens
esteatopígicas e as figuras alargadas com cabeça de ave não
constituem de modo nenhum uma forma de pornografia, como
sugeriam muitos estudiosos. (Getty, 1997, p.7 e 8)
De acordo com Getty, estas representações foram encontradas numa vasta região, que ia da França à Sibéria, e mantinham uma repetição quanto ao formato e ao tema: "representam a capacidade corporal da mulher para dar a luz, sangrar e curar-se em cada lua, para nutrir e amamentar e finalmente morrer e renascer." A autora ainda afirma que essas oferendas votivas eram como uma ajuda mágica a todos os "indivíduos e à comunidade para garantir bom parto, leite e alimento abundantes, ou possivelmente fizessem parte de um ritual de trânsito para a feminilidade." (Getty, 1997, p.8)
Muitos dos locais que foram descobertos por estudiosos, como as cavernas ou em volumosas rochas, os vestígios destes "homens das cavernas" se apresentaram sob forma de grandiosas pinturas na parede ou mesmo objetos calcários. Essas imagens, por se localizarem nas partes mais profundas das cavernas, faziam parte de uma espécie de ritual mágico cujo propósito, muito provavelmente, era o de assegurar uma boa caça. "Aparentemente, para os homens do Paleolítico não havia uma distinção muito nítida entre imagem e realidade" (Janson, 1996, p.14-15).
A mulher e a lua: representações e evocações
"São seus atributos: a lua, indicando o ciclo menstrual e as
estações do ano, a cornucópia repleta de flores, frutos e
sementes, símbolo da fecundidade do solo, a serpente que
sinaliza a ligação entre os dois mundos opostos, a espiral como
símbolo da vida que se renova, que é cíclica, a concha e o
triângulo, em alusão direta à vagina."
Nádia da Cruz Senna
Amuletos ou estatuetas representavam a Grande Mãe, ou então, poderiam ser consideradas como a própria Deusa em si. O que se pode confabular é que, por sua pequenez e portabilidade, essas estatuetas fossem carregadas junto com as pessoas para que, assim, o poder da Deusa pudesse ser evocado em qualquer momento ou situação. As vênus portáteis da era paleolítica tinham apenas algumas polegadas de altura e, segundo Campbell (1990a, p.17-18), foram encontradas, pelo menos duzentas, ao longo da costa atlântica, contudo este sítio arqueológico vai da França à Espanha, até a fronteira com a China. Na França, em uma prateleira rochosa, denominada Laussel, foi encontrada uma figura importante e sugestiva, uma pequena vênus que segura, na mão direita erguida, um chifre de bisão com treze traços verticais, que correspondem ao número de noites entre o primeiro crescente e a lua cheia. De acordo com o mitólogo seria o reconhecimento da equivalência dos ciclos menstrual e lunar. A Mãe da Vida não tem rosto, só quadris e seios volumosos, só dádiva maternal. Guardadas no que foram moradas, e não em grandes cavernas, com as pernas terminando em volume cônico, essas pequenas vênus foram feitas para adaptar-se aos locais de culto, apoiadas em buracos no chão. A outra mão sobre a barriga seria um indício das correlações entre os ritmos celestial e terreno da vida. No baixo relevo em pedra da Vênus de Laussel, é possível perceber, pelo modo como ela foi esculpida, a afirmação de Campbell sobre a ligação do ciclo
menstrual da mulher com o ciclo ou fases da lua.12 "No mundo inteiro a Lua é associada ao eterno feminino, pois o ciclo mensal do nosso satélite lembra os ritmos da feminilidade" (Getty, 1997, p.11).
No livro The once and future goddess: a symbol for our time, a escritora e pesquisadora Elinor Gadon nos conta, também, sobre essa relação do sangue menstrual com o ciclo lunar: "O sangue periódico das mulheres era um evento cósmico, como os ciclos da lua e das marés baixas e altas. Nós esquecemos que as mulheres eram as condutoras do sagrado mistério da vida e da morte" (Gadon, 1989, p.2, tradução nossa).
Deste modo, para esses povos, as mulheres e a lua eram originárias da mesma natureza, na medida em que ambas tinham a capacidade de 'intumescer-se' e de seus ciclos terem a mesma duração, ou seja, uma evidência direta da sintonia entre o corpo das mulheres e o corpo celeste. "A palavra para designar menstruação e a palavra para designar lua são iguais ou intimamente ligadas em várias línguas, fato que mostra a estreita conexão que é sentida entre as mulheres e a lua" (Harding, 1985, p.52).
Como Senhora das mulheres, a lua era possuidora do poder divino da fertilidade, diretamente ligada às mulheres. Nesse modo de pensar, a lua tinha um poder benéfico e indispensável no crescimento e formação das coisas, desde a germinação das sementes na terra, como na concepção dos seres humanos e na procriação animal. Todo o mistério desta força geradora estava diretamente ligado à lua, aos ciclos lunares e, consequentemente à noite, em contraposição com o calor e a luminosidade do sol durante o dia.
Para muitos povos ancestrais, o sol se configurava como uma força hostil ao desenvolvimento da vegetação e também à reprodução das espécies. A luz da lua faria, então, um contraponto com a luz hostil do sol. Cabe ressaltar que este poder atribuído à lua é uma representação simbólica da fertilidade, já que, muito provavelmente, para esses povos ancestrais, o mito e sua simbologia explicavam a própria realidade. A lua para eles era possuidora e doadora da fertilidade, ou seja, os seres vivos apenas poderiam ser gerados e se desenvolverem sob a influência da energia lunar, conforme explica a autora Harding (1985). Esse modo de conceituar a fertilidade, pode nos soar um tanto absurdo, uma vez que, atualmente, sabemos exatamente como os seres vivos são gerados: as funções dos órgãos reprodutores, os processos de fecundação e desenvolvimento do feto, o tempo real da gestação e como se evita
uma gestação.13 Assim, a lua em seu estágio crescente estaria diretamente ligada ao desenvolvimento e à fartura de bens e ao aumento e desenvolvimento da prole. Sua força, muito provavelmente, era invocada para o crescimento e expansão das plantações, rebanhos e da própria família. Vale lembrar que uma família grande, com muitos filhos e filhas, representava, aos que cultivavam a terra e dela dependiam, a garantia de segurança contra a falta de alimento e o amparo na velhice. No sul da Itália, a lua até hoje é usada como amuleto na hora do parto. "As mulheres católicas da Itália diziam que a Mãe que é a 'Lua-da-nossa-Igreja' é a 'Mãe Maria'. Ao dizerem isso, elas podem ou não olhar a lua no céu e fazer reverência" (Harding, 1985, p.53)
A Vênus de Lespugue, estatueta encontrada próxima a Lespugue, mede aproximadamente 15 cm. Apesar de estar danificada, seu acabamento é mais elaborado nas formas e nos detalhes. Como de costume, essa Vênus não possuía traços no rosto, apenas as formas exageradamente enfatizadas dos seios, ventre, quadris e nádegas. Os membros inferiores são delgados e finalizam em uma ponta. Por não terem uma base para se equilibrar em um plano reto, ou seja, seus pés e pernas eram juntos e pontiagudos, acredita-se que eram feitas para serem fincadas no solo ou mesmo colocadas em relicários de pequenos altares domésticos (Câmara, 1999). Campbell ao descrever a Vênus de Lespugue, nos revela detalhes singelos, porém deveras interessantes, sobre o formato de seu corpo e o seu encantamento: "Toda a magia da mulher está contida dentro de um círculo. Os seios e os quadris são puxados para baixo; temos então o elegante movimento ascendente do tórax para a cabeça, e depois os pés os quais a colocaram num pequeno relicário". A pequena peça se eleva na parte de cima em um "elegante movimento ascendente", tornando-se mais reduzida e afunilada na parte inferior (Campbell, 1990a, p.19). Nela, podemos perceber traços extremamente estilizados na representação do corpo feminino. Seu formato faz uma alusão ao círculo, ao curvilíneo, possivelmente, por ser uma representação simbólica da fertilidade: os seios, ventre (útero), glúteos arredondados - ou seja, "toda a magia da mulher está contida no círculo" como afirmou Campbell. É possível que esses objetos não tendessem a um realismo simplista, apenas demonstrariam e destacariam alguns valores atrelados a uma realidade cotidiana: a gestação. Portanto, o corpo curvilíneo da mulher, especialmente, no caso da mulher grávida. Talvez porque as mulheres deste período engravidavam ininterruptamente, tendo um filho após o outro.
A Vênus de Willendorf é uma das mais conhecidas estatuetas deste período. Suas formas arredondadas e sinuosas foram esculpidas em calcário colorido, numa cor aproximada ao ocre avermelhado. Nela, podemos notar, claramente, características essenciais de uma gestação: as formas dos seios, coxas, ventre e nádegas bem proeminentes. Vemos também como é proeminente o umbigo e o púbis, os braços dobram-se sobre os seios, aparecendo como uma estreita linha, as feições do rosto estão completamente suprimidas e a cabeça foi adornada por uma série de pequenas protuberâncias que podem sugerir penteado trançado ou cabelo muito encaracolado. Seus pés não foram esculpidos, assim como não existe referência de suporte ou pedestal que sustentasse a figura na vertical. Pressupõe-se que a estatueta era provavelmente usada como um amuleto de âmbito familiar, justamente pela facilidade de carregar uma peça tão pequena (Senna, 2007).
Além da arte das cavernas feita em grandes proporções, os
homens do Paleolítico também criaram pequenas esculturas do
tamanho de uma mão, utilizando-se de osso, chifre ou pedra
cortados com talhadeiras rudimentares. Essas esculturas
também parecem dever sua origem a semelhanças casuais.
Num estágio mais primitivo, os homens do Paleolítico tinham se
alegrado ao coletarem seixos em cujo formato natural viam uma
qualidade representacional "mágica"; as peças mais
minuciosamente trabalhadas dos tempos posteriores ainda
refletem essa atitude. Assim, a chamada Vênus de Willendorf
na Áustria, uma das inúmeras estatuetas da fertilidade, tem
uma forma arredondada e bulbiforme que pode sugerir um
"seixo sagrado" oval. (Janson, 1996, p.16 e 17)
A deusa entronada, famosa estatueta datada na metade do século VI a.C., é originaria da Turquia, Çatal Höyük. A figura feminina está sentada no trono, acompanhada de dois felinos um de cada lado, dispostos a simularem os braços da poltrona. Pela robustez de seu corpo que enfatiza suas características sexuais, é provável que esta estátua esteja sugerindo uma gravidez. Por suas características formais, ela foi interpretada como um símbolo da fertilidade e fecundidade, direcionando uma leitura sobre os possíveis comportamentos religiosos do período Neolítico.
Outro exemplo claro de culto ao feminino é a estatueta egípcia Deusa-Pássaro funerária, que data de 3500 a 3100 a.C. Com formas bem simplificadas, sugere quase uma abstração do corpo da mulher. Sua cabeça é pontiaguda, lembrando um bico de pássaro e seu pescoço é longo e proporcionalmente maior que a cabeça. Os braços estão levantados, formando uma delicada curvatura com as mãos - os dedos estão cuidadosamente entalhados em ambos os lados. Seu torso tem formato triangular e é ligeiramente inclinado para trás, os seios são pendentes e a cintura é estreita, formando uma sinuosa curva que segue pelos quadris e nádegas arredondados. Como na maioria das vezes, essas estatuetas não tinham pés modelados, esta parte do corpo (o que poderia ser considerado uma saia) foi pintada de branco. A figura inteira foi originalmente coberta com vermelho ocre. Sua postura sugere que a
figura feminina esteja em uma espécie de dança ou em luto 14 ou, até mesmo, que talvez esteja associada a algum um ritual de ressurreição (Phaidon, 2007, p.19 e 39).
Qual seria a natureza dos ritos e símbolos pré-históricos? Alguns autores pensam que essa função ultrapassaria uma mera
necessidade de manifestar a fertilidade.15 Suas observações apontam para uma relação muito mais integradora com a natureza, com o mundo como totalidade, onde todos os seres vivos e
inanimados eram sagrados.16 Para eles, a natureza é una, sem a distinção de superioridade do humano. E, sem a dicotomia entre espiritualidade e natureza, religiosidade e profano, a arte também estava inserida em um contexto cotidiano e era, portanto, um reflexo desta visão de mundo - visão diametralmente oposta a da cultura judaico-cristã. Era um modo de enxergar a vida, celebrando não apenas a sexualidade como fonte de prazer, como também divinizando a mulher como fonte de vida. Segundo esses autores, tais sociedades baseavam-se muito mais em relações de parceria, do que de dominação, enfatizando o cálice - símbolo feminino - e não a espada - símbolo masculino (Senna, 2007, p.57)
Parece coerente cogitar a possibilidade de que ao observarem os seus próprios ciclos e o crescimento estacional das plantas, "fossem as mulheres as primeiras a tomarem consciência do caráter periódico da natureza e o registro destes ritmos, internos e externos."(Getty, 1997, p.8). Talvez isso possa ter contribuído para que fossem desenvolvidos os primórdios da ciência e da religião. Foram descobertos restos mortais dos homens de Neanderthal e o de Cromagnon, dispostos de modo a sugerir um rito cerimonial - um outro indício d a crença de vida após a morte. O pigmento ocre vermelho foi encontrado em várias ornamentações de efígies da Deusa (como no caso da Vênus de Willendorf e da Deusa-Pássaro funerária) e outros objetos. Indubitavelmente a cor vermelha está ligada ao sangue e, simbolicamente, representa a vida ou a morte em um estágio primário. "O ocre vermelho representa as qualidades reafirmadoras da vida do sangue, a prima matéria. As pessoas só sangram enquanto vivas e as mulheres sangram todos os meses e no parto [...]" (Getty, 1997, 8). A relação entre sangue e vida era algo palpável, visível e presente em todos os animais de sangue
quente. 17 Assim, a cor vermelha representa a cor da vida, não só de modo simbólico (nas pinturas rupestres ou mesmo nas representações de divindades), mas principalmente de modo vívido: na menstruação feminina, no parto, em ferimentos ou em cortes que mostrem o interior de um corpo. O fato é que nossos ancestrais entendiam que a vida no planeta era formada por ciclos, por estações, por fases, com começo, meio e fim. O entendimento desse ciclo, parte do princípio de que vida e morte são complementares. A compreensão do que deve ser o processo natural das coisas, o ciclo de renovação, onde uma geração é substituída por outra, enfatiza a questão da dualidade convergente. Para se ter vida é necessário que haja a morte. "Ó Deusa Mãe, assim como a lua renasceu, possa eu também, meu corpo mortal, ser devolvido à fonte" (Campbell, 1990, p.53). Muitos mitos procuram explicar, cada um a seu modo, as diferenças entre a vida e a morte, entre o dia e a noite, entre homens e mulheres, entre os opostos complementares.
Ao observar e interferir na natureza, os seres humanos começaram a mudar seu modus vivendi. Talvez tenha sido o desenvolvimento da agricultura que ocasionou transformações consideráveis na sociedade. "Sem dúvida, as consequências da agricultura primitiva sobre a comunidade humana merecem o título de 'revolução neolítica', e é opinião geralmente aceita de que foram as mulheres que iniciaram tal revolução." (Getty, 1997, p.15) Ocorre que com este tipo de desenvolvimento, as comunidades nômades passaram a se estabelecer em locais fixos, começaram a crescer demasiadamente, necessitando de uma demanda maior de alimento. Com períodos de secas e enchentes, esgotamento do solo, pragas, a humanidade percebeu a necessidade de armazenar a produção excedente. Essa transformação lenta que a humanidade passou, saindo da caverna e construindo o que seriam as futuras aldeias, a crença na Senhora dos Animais, na Grande Mãe, também modificou-se.
Também foi no Neolítico que a domesticação de animais teve seu princípio e, nesse momento, observou-se a importância da paternidade na concepção. Através da domesticação de animais, passamos a entender melhor o papel masculino no processo da criação da vida e gradualmente, a dominação dos animais derivou no impulso de 'domesticação' da terra (Getty, 1997, p.15). Evidente que, segundo essa autora, os animais passaram a ser os escravos e receber a carga que antes eram das pessoas. Os valores humanos começaram a mudar sob o exercício do poder.
No momento em que se constatou a importância da semente e sua ligação com a fecundação da terra, os homens passam a ser valorizados no processo da fecundação e corresponsáveis pelo princípio da vida (Santos, 2006). Com a criação de técnicas mais avançadas de cultivo do solo (o arado), é que o homem assume o papel de cuidar da terra. Papel este executado inicialmente apenas pelas mulheres, pois elas eram consideradas possuidoras da mesma magia da terra: a de propiciar o nascimento e a de nutrir os novos seres. O homem assume a liderança e, segundo Campbell (1990 a), a analogia entre a simulação do coito e do arado penetrando a terra, torna-se a figuração mítica dominante deste período. Seu papel aos poucos se reduziu ao de procriadora e mantenedora da família - dos herdeiros do patriarca. A magia e o encantamento do poder de gerar uma nova vida vindo das entidades femininas deram lugar a crença que todos os seres vivos fossem advindos de uma entidade masculina, um único Deus.
Paulatinamente, os homens começam a ministrar rituais sagrados que eram até então, prerrogativa das mulheres sacerdotisas. A deusa-Mãe foi aos poucos substituída por um deus-Pai, único, onipotente e onipresente, advindo originalmente da cultura
judaica.18 O papel do feminino que outrora fora supremo e divino, foi aos poucos suprimido. Contudo, a despeito disso, a Deusa não desapareceu totalmente do subconsciente das pessoas. O culto à deusa-Mãe era tão forte e presente em povos de cultura agrária que o cristianismo, muito sabiamente, valorizou a imagem da Virgem Maria, a Madona, como uma transposição da Grande Mãe. "O catolicismo vai suprimir a Deusa-mãe e criar o Deus-pai, mas devido à dificuldade de suprimir este culto, será criado o culto da Virgem Santíssima - a mãe de Deus e o Deus-filho." (Santos, 2006).
A mulher como símbolo do pecado original e da
redenção maternal
"Mas o cristianismo, insistindo na castidade da Deusa Mãe,
finalmente transformou o significado da imagem matriarcal,
embora para todas aparências externas ela se manteve
inalterada. A imagem da Deusa Mãe com seu filho representava
sua sexualidade e poder de procriação, enquanto aquela da
Virgem e seu filho representa seu celibato e a vontade de Deus.
Ela era meramente a agente através da qual ele agiu"
Elinor W. Gadon (apud Gandon, 1989, p.192, tradução nossa)
No cristianismo ocidental, o poder que era atribuído à deusa-Mãe, foi transferido gradualmente para a Virgem Maria. Maria seria a personificação do amor incondicional e misericordioso, símbolo da maternidade e a mediadora da divindade. Sem dúvida, a Virgem Maria é a perpetuadora das inumeráveis Deusas Mães, anteriormente citadas (Senna, 2007). Mas a despeito de possuidora desta força maior, a Virgem Maria era a mãe de Deus, ou seja, a responsável por conceber e dar à luz a Jesus. Esta relação da mulher como provedora da vida, detentora de poderes divinos, porém com menor importância que um Deus masculino (onisciente, onipotente e onipresente), veio da Antiguidade Clássica, onde se alicerçaram os pilares da cultura ocidental. A raiz cultural greco-romana, sob a qual descendemos, está intrínseca e diretamente ligada ao nosso modo de pensar, de raciocinar, de se configurar socialmente e, inclusive, em nossos rituais religiosos. Herdamos dos gregos, entre tantas coisas, o modelo de democracia e política, os padrões de beleza e proporções arquitetônicas e artísticas, assim
como a misoginia. 19
Para a sociedade grega pré-cristã alguns homens eram considerados cidadãos livres - não todos, só os patrícios - com direito de pensar (logos), mas nem sempre de manifestar-se, porque censura também havia. Os patrícios possuíam bens, incluindo pessoas como suas esposas, filhos, outros parentes, e escravos; o que significa que havia um grande número de escravos, submetidos nas batalhas vitoriosas. A relação familiar e social instaurada era a de dominação e hierarquização do pai como o dono e senhor.
Segundo Pauline Shmit-Pantel, as relações entre mito e história, serviram para justificar as diferenças dadas em culturas e sociedades distintas entre os sexos. A autora toma como referência dois relatos de criação: a da Pandora na tradição grega e a de Eva na hebraico-cristã.Tanto em um, quanto no outro, a criação da mulher aparece como algo secundário, advindo somente após a criação do homem. "Associa a criação da mulher à origem daquilo que se pode denominar 'condição humana', ou seja, à introdução da morte e do mal no mundo." (Shmitt-Pantel, 2003, p.130)
Na mitologia grega, podemos observar uma grande semelhança nos primeiros seres criados Zeus, com o mito cristão descrito no Gênesis, assim como também o relato da criação da primeira mulher. Segundo conta este mito, Prometeu fez o homem através da mistura da água com a terra, semelhante à imagem dos deuses: de porte ereto, com capacidade de virar a cabeça para o céu e contemplar as estrelas, diferente dos animais que tem seu rosto voltado para o chão. A mulher foi feita pelo deus Júpiter, como punição a Prometeu e Epimeteu (irmãos), por haverem entregado o fogo do céu aos homens na terra e também ao homem, que o aceitou (Hesíodo, 1978, p.88 apud Furlani, 1992, p.5)
De acordo com o mito Pandora, primeira mulher criada, foi oferecida pelos Deuses à Epimeteu. A curiosidade de Pandora, considerada uma característica "natural" das mulheres, fez com que achasse uma caixa que Epimeteu havia escondido, por conter todos os males dos homens que não foram utilizados em sua criação. Obviamente, ao abri-la, a mulher deixou que todos os males e pragas se espalhassem por toda a humanidade. Ocorre que, ao se apressar em fechá-la, apenas um dos itens permaneceu no fundo da caixa, a esperança. "Assim, a lenda pagã ensinava que, embora a curiosidade da mulher tenha sido a responsável pelos males do corpo e do espírito que nos ameaçam, a esperança não nos deixa inteiramente; enquanto a tivermos, nenhum mal nos torna inteiramente desgraçados."(Hesíodo, 1978, p.88 apud Furlani, 1992, p.5)
Segundo a mitologia grega, a mulher é o fruto da criação de Zeus para se vingar de Prometeu que roubou o fogo e o entregou aos homens. É por esta razão que ela é vista de forma negativa para este universo mítico. É curioso que ao observarmos o relato grego da criação masculina, vemos uma grande semelhança com o relato da criação hebraico-cristã - e podemos, inclusive, pensar na possibilidade de serem semelhantes, visto que as traduções podem alterar algumas palavras, mas sem que se perca o sentido semântico. Uma grande mudança pode ser notada apenas quando há referência à criação da mulher; pois ela foi "plasmada com a terra e a água pelo deus Hefaístos, ou seja, é uma invenção técnica, um produto artesanal, uma obra de arte, um artifício."(Shmitt-Pantel, 2003, p.131)
A psicoterapeuta Raissa Cavalcanti 36 comenta a visão mais arquetípica do grego da criação do homem e da mulher como seres primordiais que eram um só corpo: "No início, conta-nos o mito, o homem e a mulher eram só um mesmo corpo e possuíam qualidades extraordinárias..." No Symposium, Platão narrou o mito sobre os seres primordiais que eram redondos, com quatro pernas e braços, duas faces (que olhavam para lados opostos) e, por possuir tamanha inteligência e poder, despertou a inveja e medo nos deuses. Então eles os cortaram em duas partes, uma feminina e outra masculina e até hoje as partes procuram se unir novamente. "Hermafrodito, o filho de Hermes e Afrodite" - continua Cavalcanti -"é o ser mítico que reúne em si mesmo as duas partes, o masculino e o feminino; ele é o símbolo da totalidade." Ainda, segundo a autora, "o mito nos indica um modelo arquetípico de funcionamento." O mito de criação nos faz compreender que o ser humano maduro tem consciência de reunir em si próprio o masculino e o feminino. Reitera a psicoterapeuta: "Somente quando essa reunião ocorrer internamente dentro do homem e da mulher, será possível o encontro mais verdadeiro entre os dois" (Cavalcanti, 1993, p.137)
Como Zeus, na hierarquia mitológica grega, era detentor do poder supremo, a deusa-Mãe foi dividida e diluída em uma profusão de divindades femininas. Hera e Demeter eram as deusas da fertilidade, da fecundidade do solo e das mulheres. Ártemis, a deusa da caça, estava ligada à natureza. Atena era a deusa das artes, do artesanato e da sabedoria. Afrodite era a deusa do amor, da sedução e da beleza, e foi a mais predominante entre as outras, em termos de representação. Foi através das várias representações das deusas, que se originou a tradição do nu feminino na arte do Ocidente. "Uma figuração que evidencia, em detrimento do caráter divino, o aspecto erótico e sensual." (Senna, 2007, p.63)
Esses mitos sobre as origens dos deuses e deusas, sobre a origem da vida ainda são de muitas formas perpetuados nos dias de hoje. Fica evidente que as raízes culturais do ocidente estão intrinsecamente ligadas aos preceitos bíblicos hebraico-cristãos que, por sua vez, foram gerados na cultura grega. O Gênesis narra a superioridade do homem sobre a mulher: Adão, o primeiro ser humano criado por Deus, foi feito de barro e do sopro divino em suas narinas. Depois de concluir que Adão não deveria viver sozinho, Deus criou Eva para ser sua companheira e para criá-la, tirou-lhe uma costela:
E disse o senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só.
Far-lhe-ei uma ajudadora que esteja como diante d'elle.
Havendo pois o Senhor deus formado da terra todo o animal do
campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver
como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma
vivente, isso foi seu nome. E Adão poz os nomes a todo gado, e
as aves dos céus, e a toda a besta do campo; mas para o
homem não se achava ajudadora que estivesse como diante
d'elle. Então o Deus Eterno fez cair um somno pesado sobre
Adão, e este adormeceu: e tomou das suas costellas, e cerrou
a carne em seu logar; E da costella que o Senhor Deus tomou
do homem, formou uma mulher: e trouxe-a a Adão. E disse
Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha
carne: esta será chamada varôa, porquanto do varão foi
tomada. (Bíblia, 1950, Gênesis, 2: 18/23)
Através das escrituras, o homem assume no criacionismo a primazia que era da mulher. A Bíblia nos conta que homem e mulher viviam de modo harmonioso no Éden, até que foram expulsos devido à imprudência de Eva que, induzida pela serpente, mordeu o fruto proibido pelo Senhor. Que fruto era esse? O fruto da sabedoria. A inocência era a ignorância. Assim, toda a humanidade foi condenada a viver sob o jugo do pecado e, por isso, dizem as regras católicas que todos que nascem necessitam ser batizados para se livrarem do pecado original. A serpente, animal que outrora estava ligado aos símbolos femininos pela sua capacidade de renovação da vida (a troca de pele), é descrita como "a mais astuta que todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito" (idem, Gênesis, 3: 2/13)". A serpente teria desafiado Eva, perguntando: - Por que não comer os frutos de todas as árvores do jardim? Não se trata do Éden? Eis que a mulher responde que ambos poderiam comer os frutos de qualquer árvore, a não ser da que estaria no meio do jardim, porque Deus havia proibido. A serpente argumenta que Deus sabe que este fruto é capaz de abrir os olhos de ambos, trazendo o conhecimento do bem e do mal. "E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também ao seu marido, e ele comeu" (idem, ibidem). Segundo a narrativa bíblica, ambos se envergonharam, por tomarem conhecimento de que estavam nus; então colheram folhas de figueira para cobrirem-se. Ao perceberem a presença de Deus no jardim se esconderam entre as árvores. Deus teria questionado Adão para saber qual o motivo deles terem se escondido e ele respondeu que ao ouvir sua voz, temeu e se escondeu, por estar nu. Ao que Deus teria respondido: "Quem te mostrou que estavas nu? Comeste da árvore proibida?" E Adão, feito covarde pelas escrituras, respondeu: "A mulher que me deste me ofereceu o fruto proibido" (idem, ibidem). A culpa ficou com a serpente - o mal. Esse trecho tem o título: Tentação de Eva e queda do homem.
Eva é filha de Lilith, 20 o demônio fêmea dos hebreus, cujo pecado é a sedução, representada, sobretudo, pelos cabelos, que amarram, que prendem... Mas a eufemização foi necessária, porque a mãe de todos os cristãos não podia ser o demônio, então a serpente se tornou a grande vilã. O símbolo do ciclo do tempo perdeu a carga simbólica positiva que o mantinha no nível mítico, para ser o símbolo do mal, esmagada sob os pés da Nossa Senhora, em várias aparições. Conforme as escrituras, Deus teria dito: "Como castigo, as mulheres terão os filhos com dor e os homens deverão trabalhar, e comer do que plantam." Neste ponto, devemos nos lembrar de que a primeira tradução da Bíblia, do aramaico, foi a grega. E, para os gregos, as mulheres eram desconsideradas. Matronas serviam essencialmente para a maternidade e o cuidado dos filhos pequenos, até os sete anos. O trabalho era atribuição apenas dos escravos, ou seja, poderia ser encarado como uma grande e penosa punição a todos os homens. As escrituras têm um sentido punitivo: O corpo é pecaminoso, o trabalho é castigo, o plantio e o fruto colhido têm gosto ruim e o parto é martírio. Qualquer semelhança com os preconceitos que vivemos hoje no mundo ocidental não é mera coincidência.
E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua
conceição; com dôr parirás filhos; e o teu desejo será para o teu
marido, e elle te dominará. E a Adão disse: Porquanto deste
ouvidos á voz de tua mulher, e comeste da arvore de que te
ordenei, dizendo: Não comerás d'ella: maldita é a terra por
causa de ti; com dôr comeras d'ella todos os dias da tua vida.
Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a herva do
campo. No suor do teu rosto co-o teu pão, até que te tornes á
terra; porque d'ella foste tomado: porquanto és pó, e em pó te
tornarás. E chamou Adão o nome de sua mulher Eva;
porquanto ella era a mãe de todos os viventes. E fez o Senhor
Deus a Adão e a mulher túnicas de pelles, e os vestiu. (Bíblia,
Gênesis, 3:16/21)
Pode-se, ainda, pensar por que, até o momento em que ambos são expulsos do Paraíso, apenas o homem possuía um nome. É o homem, Adão, quem dá o nome para a sua mulher - Eva. Segundo a psicanalista Marilene Lima, ao dar-lhe um nome, o poder de dominação dos homens sobre as mulheres é reafirmado mais fortemente, uma vez que o ato de "nomear, uma das primeiras habilidades do ser humano, é manter sobre aquilo que se nomeia
um controle psíquico."21 E assim, modelando esse conceito, a supremacia do homem com relação à mulher se solidifica: "Durante a Idade Media, Santo Agostinho irá reafirmar a primazia do homem, que nasce, de acordo com a Bíblia, primeiro que a mulher, que por seu instinto pecador irá marcar pelo resto da vida a existência da humanidade pecadora pelo prazer sexual." (Santos, 2006) No ensaio de Emanuel Araújo, "A arte da sedução: sexualidade feminina na Colônia", esse pensamento misógino é expresso duramente por dois dominicanos alemães, Heinrich Krämer e Jacob Sprenger no célebre tratado de demonologia escrito, Malleus maleficarum, publicado em 1486. Segundo eles, por ter sido criada a partir de uma costela do homem, houve uma falha na formação da mulher já que essa curvatura é contrária a retidão do homem, e "em virtude dessa falha, a mulher é animal imperfeito, sempre decepciona a mente." (apud Priore, 2008, p.46)
Para as mulheres, vista unicamente por esse ângulo, restava apenas obedecerem aos seus pais, irmãos e, depois de casadas, aos seus maridos. Era preciso que sempre mantivessem um comportamento social exemplar, sendo castas, educadas, respeitosas e pacientes, cumprindo claro e definido papel social. "Repetia-se como algo ideal, nos tempos coloniais, que havia apenas três ocasiões em que a mulher poderia sair do lar durante toda a sua vida: para se batizar, para se casar e para ser enterrada." Estava evidente que o único modo de redenção para as mulheres ocorria exclusivamente através da maternidade. A igreja era a grande responsável pelo direcionamento opressivo da sexualidade feminina. "O fundamento escolhido para justificar a repressão da mulher era simples: o homem era superior e, portanto, cabia a ele
exercer a autoridade." Na Epístola aos Efésios,22 São Paulo deixa bem claro esse posicionamento perante a condição feminina: "As mulheres estejam sujeitas aos seus maridos como ao Senhor, porque o homem é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja... Como a Igreja está sujeita a Cristo, estejam as mulheres em tudo sujeitas aos seus maridos." A figura do homem dentro de casa, simbolizava a figura de Deus. E a mulher foi condenada à submissão, com a desculpa do pecado de Eva. "Já que a mulher partilhava da essência de Eva, tinha de ser permanentemente controlada."(Araújo apud Priore, 2008, p.46)
A relação entre homens e mulheres, entre seres humanos e natureza será sempre uma questão instável e o papel da mulher na sociedade, de certa forma, ainda permanece mutante, consolidando-se conforme as necessidades de uma determinada época. Sabemos apenas que nossos ancestrais teriam tido uma relação mais mágica e mítica com os ciclos naturais, com a idéia da origem da vida e outros mistérios que envolviam a existência. A Grande-mãe da sociedade pagã passou a ser a singela mãe que devia se envergonhar e esconder a sua gestação, por ser fruto de um pecado carnal. O que antes era venerado como um dom, um grande conhecimento ou uma sabedoria da natureza, passou a ser visto como uma obrigação divina, um fardo, na sociedade cristã. De sacerdotisas e médicas, as mulheres foram julgadas pelos cristãos poderosos, como "bruxas", que deveriam ser mortas exemplarmente, com requintes de perversidade.
A Deusa Mãe deu à luz um Deus Pai. De uma relação harmoniosa entre mulheres, homens e natureza, surgiu a supremacia do pensar racional, advinda da configuração social do patriarca. É o patriarcado que, abaixo de Deus, hierárquica e autoritariamente falando, coloca o homem como a imagem e semelhança dele, a mulher como sua companheira submissa e a natureza como fonte de energia e matéria-prima disponível à exploração dos humanos.
1 Referência bíblica, Evangelho segundo S. João, 1:1 - "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus". Bíblia (1990). Referência mitológica grega no poema Teogonia, de Hesíodo (final do século VIII a.C.), que versa sobre a criação do mundo: "No princípio, era o Caos" -abismo sem fundo, vazio primordial, matéria eterna, rudimentar, mas dotada de energia prolífica (Furlani, 1992, p.3-4).
2 Outros registros antropológicos que podem ser encontrados para estudo das civilizações passadas são: esculturas em pedra, desenhos e inscrições rupestres nas paredes das cavernas, ossos e outros objetos fossilizados.
3 Entenda-se neste ponto que os conceitos de beleza são extremamente mutáveis, variando conforme épocas e culturas distintas.
4 Usaremos a palavra recipiente quando nos referirmos aos potes cerâmicos, pois assim também estaremos fazendo uma alusão direta às obras da autora Mulheres recipientes.
5 Le Roc é uma comuna francesa na região administrativa de Midi-Pyrénées, no departamento de Lot. 8. "Caso raro, mas não único na América do Sul, entre os Urubu, Tupi do Maranhão, a cerâmica é uma tarefa masculina. [...] Sem pretender remontar às origens, o fato é que, na América, o mais frequente é a cerâmica ser uma tarefa feminina." (Lévi-Strauss, 1985, p.38).
6 Os Jivaro são uma tribo localizada na fronteira entre o Equador e o Peru, nas encostas orientais dos Andes e em seu sopé. São conhecidos pela antiga arte de "encolher cabeças", arte atualmente não mais praticada (Lévi-Strauss, 1985, p.23).
7 Chicha. S.f.1. bebida alcoólica, geralmente feita com mandioca, mel e água, mas também com milho ou frutas fermentados.[...] 'espécie de cerveja da América do Sul e da América Central feita principalmente de milho fermentado', em muitos países da América Latina; no México, 'aguardente de cana', prov. de chichah (co-pah) [...] (Cf. Houaiss, 2001. p.699).
8 Nas Américas pré-colombianas, "Pacha significa tempo na língua Kolla, mas seu significado engloba o universo, o mundo, o tempo, o lugar, enquanto que Mama é mãe. A Pachamama é adorada em suas várias formas: os campos arados, as montanhas como seios e os rios caudalosos como seu leite. Refere-se, também, ao tempo que cura as dores, que distribui as estações e que fecunda a Terra." Sua popularidade era imensa, principalmente para as populações rurais isoladas nas montanhas, que dependiam exclusivamente da natureza para subsistência". Disponível em:
http://rosanevolpatto.trd.br/Pachamama.html. Acesso em: 28/09/08 às 20:12.
9 "Estatuetas femininas dotadas de grandes seios e nádegas, a sugerir, provavelmente, o culto à fertilidade.[...] Todas elas seguem um esquema semelhante - o de um losango, em que a cabeça e os pés, trabalhados sumariamente, ocupam as extremidades; no centro , os seios, a bacia e o ventre aparecem hipertrofiados" (Cunha, 2003. p. 71).
10 Estes artefatos foram encontrados em toda Europa e nas Américas, no período denominado de "pré-colombiano", ou seja, antes da chegada de Colombo (idem, ibidem) .
11 A chamada Idade da Pedra da pré-história compreende os períodos Paleolítico, Mesolítico, Neolítico e Calcolítico. O período Paleolítico Superior se estendeu até 10.000 aC e foi a época que o chamado Homo sapiens começou a manipular e modificar objetos, especialmente as pedras. Cada tribo ou comunidade criou 'estilos' na confecção de utensílios diferenciando-se. Graças à essas peculiaridades de manufatura, foi possível distinguir quatro eras: a Aurinaciana (30.000), a Gravetiana (25.000-20.000), a Solutriana (20.000-15.000) e a Magdaleniana (15.000-10.000). O período Neolítico é caracterizado pelo surgimento das primeiras edificações arquitetônicas monumentais com uma função religiosa, especialmente em Eridu ou Çatal Hüyük, na Turquia. Esse período também é caracterizado pela expansão da agricultura sedentária, domesticação de animais e criação de gado na Europa (ibidem, p. 71- 72)
12 O tempo do ciclo menstrual das mulheres é similar ao período da lua em cada um dos seus quatro estágios. Assim como a lua tem suas fases, mudanças de formato (de cor, inclusive), as mulheres também passam por ciclos mensais que transformam seu corpo. Ventre e seios incham e ficam doloridos e o sinal externo de que a mulher está nessa fase é a mancha vermelha do sangue menstrual.
13 Atualmente esses são assuntos obrigatórios nos currículos da disciplina de Biologia, no Ensino Fundamental e Ensino Médio, nas escolas públicas e particulares do país.
14 Do inglês "mourning figure" que pode ser traduzido como figura de luto ou figura de lamentação.
15 Marija Gimbutas, Alexander Marshack, Riane Eisler, entre outros (Senna, 2007, p.57).
16 Muito similar à visão de povos indígenas que não distinguem hierarquicamente as plantas e os animais, como nós ocidentais o fazemos, separando em classes, espécies, raças etc.
17 Todos os mamíferos e todas as aves (com algumas exceções) são considerados animais de sangue quente devido à necessidade de manterem o corpo em uma temperatura constante (gerando calor em ambientes frios ou esfriando-se quando em locais mais quentes). Os animais com sangue frio não necessitam manter a temperatura estável do seu corpo, variando-a conforme a temperatura ambiente - répteis, insetos, aracnídeos, anfíbios e peixes.
18 Posteriormente assimilada ao cristianismo.
19 Misoginia [Do grego misogynía]. S.f. 1. Desprezo, ou aversão às mulheres. 2. Med. Repulsa mórbida do homem ao contato sexual com as mulheres. [Antôn.: filoginia. Cf. ginecofibia.]. (Ferreira, 1975, p.929)
20 Mito encontrado no Talmude, livro hebraico banido da Bíblia e da memória da humanidade. Lilith foi a primeira mulher de Adão criada por Deus da terra, do mesmo modo que ele. Ela reivindicava a igualdade e não aceitava o papel de inferioridade e passividade, que depois foi assumido por Eva. Lilith tinha como características a autonomia, sensualidade e insubmissão ao jugo masculino, o que a fez fugir do paraíso (Lamas, 1997, p.33).
21 Artigo disponível em:
http://www.pedagobrasil.com.br/psicologia/educacaopsicanalise.htm. Acesso em 22/07/08.
22 Epístola aos Efésios 5: 22-24.