Mulheres recipientes
Apresentação
"Não se nasce mulher, passa-se a sê-lo"
Simone de Beauvoir
Nasci cromossomicamente 1 XX. Tornei-me mulher. Mulher, moça, menina, fêmea, feminina; sempre tive interesse por tudo que envolvesse esse universo, o meu universo: as emancipações, os abusos, os direitos, as explorações, as conquistas, as violações, o poder de gerar outras vidas, de alimentar, de acolher, de guardar, de reter... O encanto e o espanto que esses assuntos me causam, instigam-me a buscar e saber mais, para entendê-los melhor e, consequentemente, entender a mim mesma. É por esta razão que falar do universo feminino me soa tão familiar e, paradoxalmente, ainda é um mistério a ser desvendado.
Desde muito cedo já sabia que o universo artístico seria minha vereda pessoal. Minha primeira escolha acadêmica foi Arquitetura e Urbanismo, sendo que, após três anos, abandonei ao descobrir o vasto universo das Artes Plásticas. Hoje, depois de tanto tempo, percebo que acabei por agregar os conhecimentos de ambos, pois os volumes estiveram sempre presentes em meus desenhos e pinturas, fosse em forma de colagem, encaixe, volumetria ou qualquer movimento que os projetasse no espaço. Logo, as disciplinas que diziam respeito à linguagem tridimensional eram as que mais me agradavam.
A argila 2 era em potencial um excelente suporte para que eu pudesse desenvolver objetos no espaço. Na verdade eu sempre me encantei com as inúmeras possibilidades que a plasticidade do barro poderia me oferecer. Assim, com a escultura eu poderia continuar a tratar o espaço em três dimensões. Por esta razão, esse material era quase sagrado para mim. Foi de modo muito respeitoso e paulatino, na disciplina "Linguagem Tridimensional", ministrada pela professora Lalada Dalglish, que me aprofundei na pesquisa da cerâmica. Embora fosse uma das muitas disciplinas práticas oferecidas pelo curso de bacharelado em Artes Plásticas da Unesp, foi especificamente com o aprendizado da cerâmica que despertei para um novo universo artístico.
A pesquisa que apresento 3 é, portanto, a gestação destes longos e instigantes anos de pesquisa e produção. É também um outro meio de buscar mais informações sobre o assunto que sempre foi meu foco de interesse pessoal: a mulher. E por esta pesquisa ter, desde o início, características tanto poéticas (teóricas), quanto plásticas (práticas), percebo que ela se configura em constante mutação e desenvolvimento, logo, não se esgota neste momento. Do mesmo modo que sendo uma mulher, aprendi a respeitar e me adaptar aos meus ciclos e transformações mensais de humor, hormônios, fluxos e dores, também aprendi que a arte é um processo contínuo e cíclico. Vivo e convivo com meus ciclos artísticos na busca constante de mantê-los como um recipiente, como são aliás, todas as mulheres pela sua própria natureza.
1 Cromossomo [De crom(o)- + -somo.] Sm. 1.Citol. Genét. Unidade morfológica e fisiológica, visível ou não ao microscópio óptico, e que contém a informação genética. Cada espécie vegetal ou animal possui um número constante de cromossomos./ Cromossomo sexual. 1. Biol. Cromossomo que contém os genes que irão determinar o desenvolvimento dos órgãos sexuais e dos caracteres sexuais secundários (cf. Ferreira, 1975).
2 Argila: 1. Min. Silicatos de alumínio hidratados, que constituem os minerais ditos argilosos. 2. Pet. [...]; grega, barro (cf. Ferreira, 1975).
3 A íntegra dessa pesquisa está disponível em
<http://www.ia.unesp.br/pos/stricto/artes/dissertacoes_artes/2009/dis
sertacao_flavia_lemealmeida.pdf>.