Mulheres recipientes

Flavia Leme de Almeida · Capítulo 5 de 12

Páginas do PDF

Mulheres recipientes

Introdução

 

 

Historicamente, homens e mulheres sempre cumpriram papéis sociais bem definidos. Muito desta distinção deveu-se as evidentes diferenças biológicas entre ambos. Inventamos diversas maneiras de explicar e perpetuar esses comportamentos. Através dos mitos, das religiões, dos rituais, dos contos, histórias etc. e de tudo mais que fosse possível ser criado por nossas mentes, mantivemos tais padrões como se fossem leis.

As mulheres foram, durante um longo período da história, relegadas a cumprir apenas o papel de esposas, mães, donas de casa, sem ter a possibilidade de estudar ou de seguir uma carreira. É relativamente recente a inclusão das mulheres no mercado de trabalho, o que anteriormente era disponível apenas aos homens: o da atuação fora do lar e do desenvolvimento intelectual. O mesmo pode ser observado no mundo das artes. Foram poucas as mulheres que puderam ter acesso a esse mundo e, menos ainda, foi a constatação e reconhecimento das mesmas em registros e livros de história da arte. Durante muito tempo na história, se uma mulher quisesse estudar ou mesmo ser uma artista, sua única opção seria ir para um convento, onde lá aprenderia a ler, escrever e se dedicar a alguma atividade artística.

Não é de hoje que as atribuições da mulher na sociedade e sua incursão no mundo intelectual e profissional é investigado. Muito já foi escrito, discutido e tratado nos últimos séculos, com diferentes enfoques às mais diversas áreas do conhecimento humano. Entretanto, na história da arte, ainda temos um vasto campo para fomentar investigações acerca dessas mulheres que se tornaram artistas e suas respectivas obras. A maioria das nossas fontes de pesquisa sobre arte feminina são advindas de autores, europeus e norte-americanos que, obviamente, falam sobre artistas dessas localidades. Consequentemente, temos poucos registros sobre a produção de artistas mulheres contemporâneas que abordem a temática do feminino na América Central e do Sul. Por isto, houve certa dificuldade em pesquisar e encontrar um número significativo de artistas consagradas que fossem da América Latina. Há, certamente, algumas poucas artistas latino-americanas que conseguiram notoriedade internacional. Os registros de sua atuação podem ser mais facilmente encontradas em livros e catálogos sobre

arte feminista ou feminina1.

A arte dita "feminina" foi tema de muitas pesquisas entre as décadas de 1960 e 1980. Eram mulheres pesquisadoras interessadas em levantar uma história que deu nenhuma ou pouca chance às artistas. Escritoras como Pollock e Parker (1981) demonstraram que em alguns momentos foram feitas concessões para que a mulher pudesse ter uma carreira artística. Nesses casos, muitas das vezes, era preciso que ela abdicasse sua condição feminina ou mesmo tivesse que produzir obras que reforçassem a representação da figura da mulher como virgem, esposa ou mãe - uma iconografia do papel social da mulher vigente durante centenas de séculos.

Linda Nochlin foi uma das primeiras historiadoras e professoras de arte que buscou informações precisas sobre artistas mulheres e suas obras durante os últimos séculos. No artigo "Why have there been no great women artists?" (Por que não houve grandes artistas mulheres?), publicado em 1971 na revista ART News, Nochlin (1988) questionou as estruturas sociais que influenciaram não só a arte produzida por mulheres, mas todo o aparato instrumental da história da arte. A autora evidenciou as práticas sexistas, assim como os antigos valores que insistiam em perpetuar-se pelos conservadores, galeristas e museólogos. Neste ensaio, ela também afirmou que existiam muitas estruturas hierarquizadas na história da arte e que estas tendiam a valorizar um tipo de arte em detrimento de outro. A pintura, a escultura e a arquitetura são consideradas, nesse entender, como artes "maiores" e a cerâmica, o bordado e a tapeçaria como sendo artes menores. Interessante observarmos que as artes consideradas "menores" são, em sua maioria, atividades realizadas especificamente por mulheres. O nu feminino como tema de pinturas e esculturas foi amplamente explorado pelos artistas (homens) nas artes plásticas e, curiosamente, proibido às mulheres durante séculos o acesso aos estudos e treinamentos com modelos vivos (Senna, 2007).

A professora e historiadora da arte, Whitney Chadwick também é uma das importantes pesquisadoras neste campo. Em seu livro Women, art and society (1990), a autora fez um amplo levantamento dos mais variados materiais e técnicas, acrescentando, inclusive, as chamadas artes menores. Segundo Senna (2007), foram estas artes menores que fizeram com que as artistas mulheres entrassem de vez no hall da história da arte, resgatando um fazer tipicamente feminino. Ao considerarem que sempre houve uma produção artística feminina, essas autoras estavam desestruturando todo um modelo de discurso extremamente consolidado na história da arte. Modelo este que impunha um único modo de fazer arte e definia quem teria acesso à esse fazer: apenas o universo masculino.

Abordando um contexto semelhante ao das autoras citadas, a presente pesquisa Mulheres recipientes: recortes poéticos do universo feminino nas artes visuais tomou alguns importantes fatos artísticos ocorridos na história da arte e que tiveram uma coerência poética feminina. Este é, sem dúvida alguma, um tema que ainda tem muito campo para pesquisa, sobretudo se voltarmos nosso olhar para as artistas da América Latina e Caribe. As questões acerca do feminino não estão de todo esgotadas. Ainda mais no que diz respeito ao vasto e complexo universo da arte contemporânea. Logo, o papel de uma pesquisa é abordar assuntos que ainda necessitem ser investigados e, consequentemente, melhor compreendidos. No caso desta pesquisa, abordaremos a obra de algumas artistas do continente americano e os símbolos do universo feminino que aparecem no modo como se expressam artisticamente.

Este livro não tem a pretensão de esgotar o tema das artistas da história que não foram reconhecidas ou que tiveram suas imagens apagadas, nem tão pouco, cabe aqui fazer a crítica da sociedade pelo modo como tratou as mulheres durante séculos. A proposta foi conduzir a pesquisa, através do olhar artístico feminino contemporâneo. Especialmente ao destacar o modo como algumas dessas artistas foram e são capazes de se ver e serem vistas no universo das artes visuais. Assim, desta forma exposto, pretendemos ressaltar que a mulher pode ser reconhecida integralmente, não apenas em âmbito social, mas também

intelectual, artístico ou, até mesmo, ritualístico.2

A pesquisa aborda algumas manifestações artísticas em que a temática da obra de arte é a mulher, seu próprio corpo e imagem. Alude a conceitos e ideais sobre o feminino e a forma como as artistas elaboram e expressam tais temas, especialmente após o

feminismo.3 A arte contemporânea transita de forma livre e inventiva pelo tema da autorrepresentação tão carregado de conotações culturais. Mormente no que tange à representação feminina. Já não há mais a hierarquia da tradicional belas artes e nem tão pouco uma exclusividade masculina, o que estimula a reflexão sobre algumas artistas, entre tantas que atuaram no século XX e atuam no XXI.

Para desenvolver esta pesquisa, optamos pelo método descritivo-qualitativo. Através desta abordagem foi possível desenvolver relações dinâmicas entre as artistas e suas obras, entre a subjetividade do sujeito e do objeto da pesquisa. As múltiplas possibilidades de expressão e interpretação que existem em uma obra de arte estão diretamente ligadas ao modo como o "sujeito" (as artistas) se relaciona com o "objeto" (obras de arte). "De fato, não pode haver consciência (= sujeito) desvinculada do mundo (= objeto)" (Rampazzo, 2002, p.59). Assim, as artistas estudadas foram compreendidas pelo modo como traduziram artisticamente suas experiências, vivenciadas em um determinado espaço-tempo. Para compor o grupo de artistas selecionadas nesta pesquisa, consultamos o livro Women artists - mulheres artistas nos séculos XX e XXI, de Uta Grosenick (2005). A autora alemã selecionou as artistas, na maioria européias ou norte-americanas, que lhe pareceram de maior envergadura nos últimos dois séculos. Observamos que dentre as cinquenta e seis artistas selecionadas por Grosenick, apenas duas são de origem latino-americana: Frida Kahlo (mexicana) e Adriana Varejão (brasileira). A despeito de ter dedicado um livro exclusivamente para artistas do sexo feminino, ela afirmou que sua publicação não teve um cunho sexista, mas procurou abranger informações amplas sobre vida e obra, técnicas e modos de expressão, de artistas que impactaram e influenciaram a arte no século XX. "A crítica tradicional do feminismo, que prefere fugir ao debate sobre os mecanismos sociais e à verdadeira guerra real dos sexos, argumenta que a boa arte não tem sexo." Aliás, pelo contrário, uma vez que a crítica contemporânea afirma que a diferenciação sexual é, mais do que um fato, uma construção

social.4 A autora também quis demonstrar que a arte feminista ou feminina não é a mesma coisa que arte feita por mulheres. "A expressão 'arte feita pelas mulheres' cobre uma multitude de abordagens e de opções expressivas tão grande quantas mulheres artistas há." (Grosenick, 2005, p.5)

Após essa leitura,5 optamos por algumas artistas, tomando por base a relevância de sua atuação artística - olhares femininos diversos através da arte. Essa escolha priorizou os suportes utilizados, assim como, o repertório cultural de cada uma delas. Para desenvolver este estudo, dividimos o livro em quatros capítulos:

O capítulo 1 é dedicado aos assuntos relativos à relação entre a mulher e a cerâmica nas culturas ancestrais. As sociedades eram organizadas de modo a definir claramente os papéis dos homens e das mulheres, determinados por suas diferenças fisiológicas - o homem, fisicamente mais forte responsável pela caça e pela luta, a mulher, responsável pelo cuidado e assistência da prole e o trabalho agrícola de cultivo e colheita. Neste período, a natureza era sagrada, envolvida no assombro do desconhecido e digna de reverência e culto. O mistério também envolvia as mulheres. Por serem capazes de gerar, garantindo a perpetuação da espécie humana, elas estavam diretamente ligadas a outro grande mistério: a fertilização e germinação do solo.

No capítulo 2, desenvolvemos um breve recorte sobre a trajetória e os questionamentos acerca das manifestações sociais, políticas e artísticas das minorias, especificamente das conquistas femininas no século XX. Abordamos como a questão do gênero influenciou as artes no ocidente, desde que o sistema patriarcal configurou-se. Apresentamos breves biografias de algumas artistas atuantes entre os séculos XX e XXI que, de alguma forma, configuraram em suas obras temas sobre o universo feminino.

Apresentamos no capítulo 3 aspectos biográficos e considerações sobre as obras de seis artistas contemporâneas selecionadas do século XX que apresentam uma poética do feminino: Frida Kahlo (1907-1954), Louise Bourgeois (1911), Celeida Tostes (1929-1995), Niki de Saint Phalle (1930-2002), Judy Chicago (1939) e Ana Mendieta (1948-1985). Observamos como cada artista se expressa plasticamente.

O capítulo 4 é dedicado à produção em cerâmica da autora da pesquisa. Mulheres recipientes é um conjunto de obras em escultura cerâmica, em forma de potes antropomórficos. Estas peças aludem ao corpo e, indiretamente, também à condição da mulher, ou seja, o poder de gerar e os múltiplos e profundos significados atribuídos à mulher, através da história da humanidade. Na produção artística da autora, o fio condutor está no significado da palavra recipiente. Uma vez que todas as peças têm o formato côncavo, são continentes, remetem ao pote, ao container, ao útero, à barriga, ao ventre materno, à genitália, aos seios, e a todas as curvas do corpo da mulher. A autora faz aqui um depoimento de artista sobre a técnica e o material utilizado - a cerâmica e a argila. Mulheres recipientes guarda uma afinidade profunda com a produção das outras artistas referidas nesta pesquisa. Neste capítulo final, fortalecemos também a ligação com a Grande Mãe. Mito de origem dos nossos antepassados, e todas as deusas votivas, esteatopigias e vênus propiciatórias da fertilidade, que motivaram a autora na sua arte e na sua pesquisa. A reflexão sobre o tema contribuiu para a transformação da série Mulheres recipientes e do próprio modo de expressão artística da autora.

1 A noção do que é considerada uma arte feminina ou feminista será discutida no capítulo 2.

2 Neste ponto, queremos nos ater a um período da história, nas sociedades ancestrais, em que os rituais sagrados de fertilidade eram realizados especificamente por mulheres. Observamos também que alguns rituais ligados à mulher até hoje perpetuam (como nas cerimônias de primeira comunhão, debutante, casamento) a ideia de que ela deve usar uma vestimenta especial para se iniciar em uma nova fase da vida.

3 Feminismo [Do fr. féminisme.] Sm. Movimento daqueles que preconizam a ampliação legal dos direitos civis e políticos da mulher, ou a equiparação dos seus direitos aos dos homens (cf. Ferreira, 1975).

4 A esse respeito, Simone de Beauvoir já havia mencionado que uma mulher apenas se torna mulher segundo o ponto de vista de outrem, no caso, da visão masculina (Beauvoir, 1970) .

5 Outra fonte importante de pesquisa foram as ferramentas de busca na internet, especificamente os sites:

http://www.artcyclopedia.com/artists/women.htm (uma base de dados virtual com centenas de artistas e links para os mais importantes museus de arte do mundo) e

http://www.nationmaster.com/encyclopedia/Women-Artists (uma vasta compilação de fonte de dados, onde foi possível encontrar informações sobre mulheres artistas do período medieval, do renascimento, do barroco e do século XVIII e XIX).