Mulheres recipientes
Prefácio
O livro Mulheres recipientes é resultado da dissertação de mestrado de Flavia Leme de Almeida. Apresentada no Instituto de Artes da Unesp, sob a orientação da professora Lalada Dalglish, revelou-se um estudo corajoso do olhar feminino sobre a vida, da mulher na arte, e no imaginário dos povos ancestrais. A autora pegou o fio da meada no âmbito do estético para colocar-nos nas tramas da malha simbólica sempre na perspectiva do feminino como matriz. Conduz a argumentação em um percurso que vai das primeiras esculturas votivas, propiciatórias da fertilidade para a obra de seis artistas contemporâneas e finaliza com o próprio trabalho, em depoimento onde se coloca entre as artistas escolhidas. Isso mostra a maturidade da autora na compreensão do campo de produção simbólica e na percepção do seu próprio corpo nas formas escultóricas.
Para lembrar a imagem da mulher, ligada à terra e à sobrevivência da espécie, vai ao passado remoto em busca das pequenas Vênus -só seios e nádegas - deusas portáteis, propiciadoras da magia da fertilidade, com suas pernas em cunha para fincar na terra durante o culto, como se fosse o arado primitivo, que fazia o sulco para a semeadura. Esses paus de sulcar para semear teriam desvelado o papel do homem na procriação, antes oculto pela crença na fertilização lunar - o matriarcado ancestral era absoluto. Pensar o mundo simbólico feminino, para a autora, consiste em aproximar-se da obra de artistas contemporâneas destacadas, começando por Frida Kahlo, com sua figuração confessional, incisiva, perplexa, eivada de momentos de profunda dor e também de júbilo pela descoberta do seu lugar no mundo. A percepção da sua força interior diante da interdição da maternidade sonhada e a conquista da identidade mexicana, forjada na memória-sentido, vêm à luz em obras vigorosas que, certamente não querem ser arquivadas na generalidade das "questões de gênero". Suas obras são narrativas plásticas fortes, que a destacam como uma das primeiras artistas da nova figuração vanguardista na América Latina. Da mesma maneira a opção pela escultora francesa Louise Bourgeois, revela a intenção da autora de mostrar como a vida dessas mulheres se deixa ver em cada segmento da sua arte, como a história pessoal e a social amadurecem gerando uma imagística na qual todos nos encontramos. É isso afinal que garante o estatuto da arte, o fato de sermos fotografados naquilo que vemos, como diria Jacques Lacan.
Bourgeois sublimou na arte seu desencanto com o pai e a sua identificação com as frustrações da mãe e a admiração do seu fazer quase ritualístico no tecer e restaurar tapeçaria. As Mulheres-casa têm a mesma sugestão simbólica das Aranhas, que tecem a teia, ambas aludem ao feminino e ao amparo. Tanto no sentimento do trágico e da ternura como no desejo de devorar o pai, a artista nos coloca nas Células, que exorcizam o ressentimento e a dor - é a lição do medo e do enfrentamento dos nossos fantasmas. Assim como o mote da arte de Louise é a reconstrução da memória vivida, a arte de Celeida Tostes revela-nos um percurso artístico em que vida e obra caminham em direção a uma elaboração simbólica coletiva, sempre a partir da sua matéria primordial - a argila. O memorial cultual no Morro do Chapéu Mangueira é a expressão da capacidade individual e do trabalho coletivo animado por essa artista cujas performances lhe valeram o título de a grande sacerdotisa do barro. Tanto Louise como Celeida sentiam no próprio corpo o arrepio que chamam de inspiração. Este é o elo entre as artistas (es)colhidas pela autora. Niki de Saint Phalle, que nos anos sessenta ligou-se ao Novo Realismo da vanguarda francesa, teve também que superar um trauma violento, o estupro pelo próprio pai. Os happenings - "macabros e deliciosos rituais" como ela os apelidou - realizaram a catarse necessária e ela encontrou-se na sua expressão mais conhecida - as Nanas. Também nesse percurso artístico a sensação do corpo invadido se transforma em arte. Essas deliciosas esculturas negras, volumosas, sensuais, inicialmente eram armadas em arame e revestidas em papel machê, trabalhadas com tecidos e lãs, porém as técnicas se multiplicaram. As Nanas tornaram-se fontes hilariantes e fantásticas esculturas penetráveis em acrílico e outros materiais resistentes, com cores gritantes e formas ousadas. Juntaram-se a cenas de teatro e formaram parques temáticos inusitados. A mágoa vestiu-se com cores de festa para celebrar a vida.
Judy Chicago, que escolheu seu nome em homenagem à terra natal, mostra uma tendência feminista não só na arte como na docência. Como professora quebrou tabus e questionou tradições culturais, encantou as jovens alunas muitas vezes criando problemas com as instituições colegiais. Sua obra de maior envergadura foi The dinner party (O jantar festivo) - uma instalação monumental em que ela partilha o banquete com mulheres famosas no mundo da filosofia, da ciência e da arte, personagens trágicas ou vitoriosas. Contou com a participação de vários profissionais e além da viagem no mundo das mulheres célebres, a obra exigiu todo um aprendizado técnico de pintura sobre cerâmica, durante a sua preparação por cinco longos anos. A história da obra virou livro. Para completar esse grupo, a autora traz a artista cubana Ana Mendieta, cuja morte prematura é ainda um mistério, infelizmente com sugestões macabras. A intenção da autora foi mostrar uma artista totalmente ligada à terra, a ponto de representar-se como parte dela, de querer fundir-se com ela. Nas silhuetas ou nas esculturas rupestres, ela conta o desejo de retornar a Cuba de onde foi levada pelos pais ainda criança, sentindo que lhe roubaram o chão. Seu desejo virou utopia e as suas performances, propiciações mágicas de uma nostalgia comovente.
Flavia coloca-se como partícipe efetiva nesse campo de produção artística. Vive o seu papel entre as artistas (es)colhidas, e faz o depoimento poético de quem trilhou esse caminho, atenta aos encantos e desencantos que a arte nos mostra e dividindo conosco seu aprendizado. Mostra seu diário de trabalho, desde as pegadas titubeantes em busca do símbolo, esboços, rabiscos e versos. Caminhou pensamento, sentimento e mãos, colhendo flores e espinhos às margens do caminho mas sobretudo, aprendendo e valorizando a cerâmica, o ofício ligado à magia, de transformar o barro em pedra com o auxílio luxuoso do fogo, devolvendo a terra à pedra que era - eis o percurso ao inverso, a busca do princípio, como se o rio rebelado voltasse à sua nascente, quisesse conhecer a fonte-Mãe. Beber dessa fonte-Mãe - eis a lição solidária da vida, pois somos todos um e todos retornaremos ao ventre da grande Mãe Terra, a Pachamama.
De início estranhei o título que me foi apresentado, pensei: Mulheres recipientes, o que é isso? Soou duro, utilitário, até impróprio. Aos poucos, ao pensar o regime lunar da imagem, a sua fonte primordial, a expressão abrandou-se e os símbolos fundamentais compareceram um a um, re-ci-pi-en-tes, digestivos, profundos. Imagens ligadas ao feminino, ao continente, ao amparo, à fecundidade, à gestação, à deglutição, ao plantio e à colheita. Mulheres recipientes é o título que a autora deu à série de objetos escultóricos regulares, côncavos com incisões e incrustações, que são o fruto do seu próprio exercício artístico. Essas esculturas revelam a intimidade com a prática da cerâmica e o prazer no trato com a carne da Mãe Terra.
A simbologia que ela traz à luz nessas peças escultóricas celebra a reverência quase mística à natureza. As pequenas cabeças peladas que nascem da peça semi-esférica, inclinam-se sobre o oco. Parecem simbolizar uma confissão de humildade diante do que se pode colher na copa da vida, reverência ao destino, ao tempo domesticado para enfrentar o medo da morte. A densidade do continente é o oco, o próprio vazio. Porém esse oco é cheio de sonhos e presságios, como um caldeirão borbulhante, que prepara a poção mágica que alimenta a esperança. As mulheres recipientes são como a copa que se enche e dá de beber, e quanto mais se bebe, mais ela se enche, como um coração pulsante de mãe amorosa.
Mariza Bertoli