Napoleão no Kremlin
Capítulo I
Era a collina sancta, e em volta a gran-cidade!
Revolvera o cabeço uma audaz tempestade De granito e de bronze, arremeçando aos ceus Por ondas bastioens, por vagas coruchéus! Era nova Babel, soberba e formidavel;
Tudo o que é oppressor; tudo o que é implacavel; Das impostas pendendo os anneis dos grilhoens; Sétteiras nos jardins; nos eirados canhoens; Cem vigias de pedra em cada miradoiro;
Ao rez grades de ferro; em cima tectos d'oiro; Uma pompa violenta, uma anciosa mansão, Que dirieis romper da bocca d'um vulcão!
A espaços, coroando a tétrica cerviz
D'um torreão firmado em rudes alcantis,
Metalico zimborio esplende ao astro esquivo, Como o élmo que aperta a fronte de um captivo. Emmaranham-se á vista arcadas e quarteis, E os grossos revelins, e os rendados maineis. A um tempo Europa e Asia, opprobrio e maravilhas; N'um reducto um bazar; as áras nas bastilhas; Abrolhando o recinto um selvoso espessor De agudos campanis—e no todo o terror!
Era a suspeita armada, eterna sentinella, Por dentro Pantheon, por fóra cidadella!
Era, ao dubio alvorar que precede a manhan, O poema d'Igôr em torno á cruz d'Ivan;
Revolta construcção d'um Encélado novo; Garra adunca e brutal sobre o peito d'um povo; Funesta allegoria, affronta da razão,
Que intenta dizer: gloria! e diz: escravidão! Era a ameaça feroz na túrbida grandeza; Templo, ergástulo, paço, erario, e fortaleza! Era o alcaçar do Norte, o seu sanctuario, emfim A acrópole augural do Scytha—era o Kremlin!