Napoleão no Kremlin

José da Silva Mendes Leal · Capítulo 4 de 8

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Napoleão no Kremlin

Capítulo III

 

 

—«Eis-me. Cheguei. Mais fúlgido

Meu astro se alevanta:

No coração do Tártaro

Encosto o ferro e a planta.

Eis-me. O leão da Córsega

Emfim vos empolgou,

Ó capital das cúpulas,

Ó torres de Moskow!

Eu sou o Ajax authentico,

A authentica epopéa,

Aurora apoz crepusculo,

Espada feita idea.

Fadou-me Arcóle e Rívoli

Marengo, e Lodi, e as mais;

Rompi d'um canto homerico

Em dias immortaes.

O mesmo sou, que os seculos,

De tanto ousar pasmados,

No cimo das pyramides

Mostrei aos meus soldados.

Fiz n'essa terra, symbolo

De olympicos avós,

Estremecer nos tumulos

Os velhos Pharaós;

N'essa, ao potente estrépito

Do arrojo e das victorias,

Cubri co'as palmas ínclitas

As maximas memorias;

N'essa, mysterio pávido

Onde o passado rue,

N'essa, de assombros pródiga,

Maior assombro eu fui.

Era Alexandre o prólogo.

Tentou-me. Em cem combates

Arremessei, seu émulo,

O Nilo sobre o Euphrates.

No turbilhão phantástico

Dos rapidos corseis,

Ardentes vi cercárem-me

Os esquadroens dos Beys;

Vi mais—ceára horrifica

De alfanges e trabucos!—

Os marciaes Janizaros,

Os feros Mamelukos;

E a densa turba innúmera,

Ao breve aceno meu,

Sombra tornada, súbito

Ás sombras se volveu.

No pó de heroicas épochas

Ficaram meus vestigios;

A par das lendas bíblicas

Tracei novos prodigios.

Aos vãos chegou do Libano

Meu bellico trovão,

E do Thabor aos pincaros,

E ás margens do Jordão.

Sobre os dispersos idolos

Meus batalhoens marcharam;

De feito a feito alçândo-se,

Ovantes acamparam

De Thebas entre os pórticos,

Em Memphis sem rival...

Fêz-se ás gigânteas fabulas

A minha historia egual.

E o proseguir esplendido

Da triumphal carreira,

Quando a meus pés atónita

Prostrei a Europa inteira!

Quando, as cohortes férvidas

Dispondo a meu sabor,

Ao fim de um dia tragico

De universal terror,

Em vindo a erguer-se o Véspero,

Surgia da metralha

Nas mãos trazendo, incólume,

Um reino e uma batalha!

Meu curso meteórico

Não pára; a lucta é van:

Succedem-se fatidicas

Iêna, Eylau, Wagram.

Sou vencedor, sou árbitro

Aos curvos hemispherios;

«Surgi» ordeno, e surgem-me,

Quaes os desejo, imperios.

Triumphos e catastrophes,

Estados, leis, naçoens,

Os fulgurantes prestitos,

As bastas legioens,

Confundem-se, ennovellam-se

Na cerração turbada

D'um cahos, ao relampago

Que vibra a minha espada.

Quiz Deus tornar-me o Génesis,

Que em breve ha de accender

Nos homens novo espirito,

Nas eras novo ser.

A evolução recôndita

Avança d'hora em hora:

Trabalho sobre a íncude

A humanidade agora.

O herdeiro dos Apostolos

Ungiu-me entre os christãos,

E eu mesmo a c'roa altissima

Cingi com estas mãos.

Deixei submisso, trémulo

Como exorando as Parcas,

Aos meus humbraes um séquito

De palidos monarchas.

Este diadema unico

D'estrellas constellei;

Em nova, summa Ilíada

Sou já de reis um rei.

E aqui!... aqui rodêam-me,

Activos serviçaes,

Os meus ministros-principes,

Meus duques-marechaes!

Fervem do Sena ao Vistula

Os arraiaes em peso,

Como nas veias tumidas

Um sangue em febre accêso!

Olhae! Conduzo unânimes,

Mais fortes cada vez,

Germanos, frankos, ítalos,

O proprio portuguez;

O portuguez, que intrépido

Sabe ir, honrando os lares,

Descortinar o incógnito

Vencendo terra e mares!

Quem ha-de pois com exito

Meus planos impedir?

Aos orbes posso o âmbito,

Com braços taes medir!...

Moscow, teu solo as máculas

D'escravo teve; apague-as:

Venci o repto altisono

Das aguias contra as aguias.

E tu, rival maritimo,

Aqui te enfreio a acção!...

Ó Russia, emfim pertences-me!

Emfim és meu, Bretão!»