Napoleão no Kremlin

José da Silva Mendes Leal · Capítulo 3 de 8

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Napoleão no Kremlin

Capítulo II

 

No mais alto mirante um vulto grave e mudo, Todo nevoas o ceu, na terra immovel tudo, Contempla vagamente as vagas solidoens. De força e de grandeza inda não satisfeito, Aspira o espaço e a noite—a dextra sobre o peito Como para conter a furia das paixoens.

A metrópole immensa, adormecida ou morta, O immenso pedestal, que rendido o supporta, As planuras que ao longe ondulam como um mar, As hostes, os tropheus, a conquista, os portentos, Nada d'isto ja vê; taes são seus pensamentos, Tam alta a mente foi, tam fundo é seu scismar.

Quem é elle? O que faz? D'onde vem? Com que fito? Incansavel obreiro interroga o infinito;

Paz não tem; lei não quer; vai, vai; não conta os sóes; E se instantes parou, quando a fortuna o prova, É para meditar alguma audacia nova,

Na attitude que toca aos Numes e aos heróes!

D'onde vem? Attentae. Correi; segui-lhe o rasto. Nunca sulco mais fundo em terreno mais vasto! Manda: o Occidente afflue.—Que estrugir! Que avançar! Que longo! Que voraz! Que enorme! Que terrivel! Esta chamma? Hontem era um castello invencivel. Esta cinza? Era ha pouco arrogante solar.

O facho precursor alonga um ermo aberto. Investe a legião, defende-se o deserto.

D'Átilla a grande sombra, ao ver os capitaens Violar da patria selva os não cursados trilhos, Pensativa procura, afastando seus filhos, Um tumulo que sirva aos filhos dos Titaens

Quem é? O homem-cratéra; emblema, sphinge, arcano; Tanto como um propheta, e mais que um soberano. Um dia o viu reinar mal outro o viu surgir. Sam-lhe os povos degraus; o imperio foi-lhe ensaio; Na larga fronte um Deus; nos olhos d'aguia um raio; Pelas trevas se entranha, e elabora o porvir.

De Karl, o Invicto, o Magno, o Imperador espectro, Tomou nas fortes mãos o gladio, o globo, o sceptro; Co'a tunica viril das desprendidas greys

Tam amplo manto fez, que esconde, dilatado, D'um lado os Pyrenéus, os Alpes d'outro lado, E nas sobras talhou dez purpuras de reis.

Quem é? Seu grande nome o espanto e o ardor espalha, Como o som d'um clarim n'um dia de batalha. Ha muito o Austro o acclama. Hoje o Septemtrião Atérrito o escutou no horror de Borodino... A Historia escreverá: «chamava-se o Destino!» Á voz dos seus canhoens troou: «Napoleão!»

No humilhado frontal das basilicas nuas

Levantam-se-lhe aos pés, velando, as aguias suas, As aguias triumphaes, as aguias d'Austerlitz. Volve acaso o semblante. Olhou. Mira a victoria Nos amados pendoens, que inflamma tanta gloria, E o coração trasborda, e rompe o verbo, e diz: