Noites de Inverno: Livro II (Coleção As Quatro Estações)

Capítulo 2 · Janeiro/2008

 

Nove horas da manhã do primeiro dia de janeiro. Eu deveria estar na cama, ao lado do meu marido que estava em um sono tão pesado que não me viu sair da cama. Fomos deitar às seis e meia da manhã, mas quem disse que eu consegui dormir? Primeiro porque fiquei apreciando a beleza de Daniel, com seus olhos pesados quase se fechando para mim. E depois, eu tinha aquele ritual que fazia todo começo de ano, mas que meu marido sequer se dava conta.

Eu me sentava em algum lugar tranquilo e isolado e deixava minha mente vagar pelos acontecimentos do ano que passou. Hoje, particularmente, eu não consegui isso de imediato. Quando me lembrei de onde eu estava não consegui segurar minhas lágrimas. Então eu sai da varanda de nosso quarto e sai sem fazer barulho, caminhando por cada cômodo da casa. E em cada um deles, mais lágrimas escorriam pelo meu rosto, me fazendo passar a mão o tempo todo na tentativa de contê-las.

Era uma sensação deliciosamente indescritível saber que em cada cômodo, em cada cantinho daquela casa havia a mão, o trabalho, o esforço de Daniel. Eu passei a mão na parede do quarto de hóspedes, ainda vazio, me lembrando das vezes em que estive aqui quando tudo não passava de um amontoado de ferragens, tijolos e cimento. Quantas e quantas vezes eu fiquei parada, embasbacada observando as costas largas desnudas enquanto Daniel subia, tijolo por tijolo, as paredes de nossa casa?

Desci as escadas e passei pela sala enorme, já imaginando nossos móveis ali e a tv que Daniel não abria mão. Aliás, nem eu. Onde íamos assistir aos jogos de futebol? Segui para a cozinha e ali sim, eu suspirei, sorrindo por detrás das lagrimas. Era o ambiente perfeito para mim. Eu nem fazia questão da sala de jantar. Por mim, faríamos nossas refeições ali mesmo.

—Ah Daniel... você é um artista.

Falei agora com o rosto contra a janela, observando nossa varanda. E de repente me veio uma ideia. Eu sei que ficaria uma merda o resto do dia por causa das horas sem dormir, mas nesse momento eu não sentia sono. Eu me lembrei de ter visto as chaves do carro sobre o balcão da cozinha, então eu as peguei. Só esperava que quando chegasse, ainda encontrasse Daniel dormindo.

Fui rapidamente até nossa casa, pegando alguns alimentos, louças que ia precisar, entre outras coisas. Aproveitei para escovar os dentes e tomar uma ducha rápida. Peguei algumas roupas para Daniel ou ele ficaria emburrado o tempo todo por estar vestindo roupa usada, como ele gostava de dizer. Quando voltei meia hora depois, a casa ainda estava em completo silêncio, o que significava que Daniel ainda dormia.

Fui para a cozinha e comecei a preparar o primeiro café da manhã do ano para o meu marido. O primeiro café da manhã em nossa casa. Um pouco antes de começar, eu fechei os olhos e repassei rapidamente alguns pontos importantes do ano passado. A formatura de Daniel, o novo emprego, o crescente sucesso da Sweet... tínhamos muito o que agradecer. E embora já tivéssemos feito isso no momento da virada do ano, eu fiz novamente agora.

Às dez e meia da manhã eu mordiscava um croissant enquanto terminava de arrumar a mesa. Em seguida eu subi para o quarto disposta a acordar Daniel. Eu parei à porta, e não resisti, rindo alto ao vê-lo de bruços na cama, com um dos braços para fora, enquanto ele chamava por mim.

—Mel...

A voz estava grogue de sono e ele mais parecia uma criança birrenta.

—Mel!

—Estou aqui bebê chorão.

—Acordei sozinho no primeiro dia do ano. Sabe o que dizem sobre isso? Que tudo o que você faz no primeiro dia, você fará o resto do ano. Ou seja, eu vou acordar sozinho até dezembro.

—Bom, ainda dá tempo de mudar isso. A gente pode passar o dia fazendo amor.

Ele girou imediatamente na cama e esticou os braços para mim. Seus olhos ainda estavam meio fechados, mas se abriram no instante em que percebeu que não me aproximei.

—Ei... —Falou se apoiando nos cotovelos. —Você foi em casa!

—Sim. E trouxe roupas e escova de dentes. Arrume-se e desça.

Falei e sai rapidamente antes que ele tentasse me puxar para a cama. Assim, ele não ia demorar para descer, disposto a fazer manha como sempre. E foi exatamente assim. Dez minutos depois ele descia usando a camisa azul e calça jeans. Passou os dedos entre os fios de cabelo enquanto descia as escadas... e parou com a boca entreaberta.

—Nosso primeiro café da manhã do ano... e no império.

Quando ele fixou seu olhar no meu, eu passei a língua nos lábios, sentindo um arrepio me percorrer. Por que tinha que ser assim? Eu sempre me sentiria presa ao olhar dele, o coração batendo muito forte? Daniel parou à minha frente, colocando as duas mãos em meu rosto.

—Você é a mulher mais incrível que já conheci, Mel. Obrigado por estar comigo, por me apoiar e por chutar a minha bunda quando mereço.

Eu ri e o abracei.

—Obrigada por me deixar fazer parte da sua vida.

—Sempre... sempre, Mel.

Ele me beijou calmamente, com carinho, deixando sua língua acariciar a minha para depois percorrer cada canto da minha boca, mordiscando levemente e voltando a acariciar minha língua. Esse era o beijo perigoso que só ele sabia dar. O beijo que atiçava meu desejo e fazia o tesão percorrer meu corpo, me deixando languida nos braços dele. Quando nos separamos, nossos olhos se encontraram e eu, com toda convicção pude afirmar que o que via nos olhos dele era o mais puro amor. E meu peito pareceu inflar ainda mais de amor por ele.

—Seremos felizes aqui, não seremos?

—Seremos felizes em qualquer lugar, amor. Nós só precisamos ficar juntos, Mel. Eu, pelo menos, não conheço outro meio de ser feliz sem ser com você.

Eu o beijei novamente.

 

∞∞∞

Eu ainda tentava entender a situação, mas evitava perguntar a Daniel pois não queria aborrece-lo. Percebi que o assunto Ernest Ebner o irritava completamente e eu não queria de forma alguma terminar nosso primeiro dia do ano pensando em coisas ruins.

Mas eu senti vontade de chutar a bunda de Daniel quando entendi que ele se rebaixou mais uma vez por ter ouvido aquelas palavras nojentas e preconceituosas. Quem aquele homem pensava que era para desdenhar de Daniel assim? Quem era ele para conseguir colocar uma casa como a nossa de pé? Eu tinha pena e nojo de pessoas como ele.

Mas não era só isso que me deixava aborrecida. Há anos eu não ouvia falar no nome daquele homem. Fort Toment não era tão grande a ponto de não conhecermos os moradores, mas também não era tão pequena de modo que soubéssemos da vida de cada um. Por alguns minutos eu pensei em perguntar a Daniel se Anika também estava de volta. Bom, talvez estivessem aqui para o Natal, não é? Era estranho saber que apenas a senhora Ebner continuava morando aqui com seu sobrinho e a governanta. Mas isso também não era da minha conta.

—Tao quietinha... no que está pensando?

—A mente de uma mulher é um oceano de mistérios, Daniel.

Estávamos deitados na rede, apesar da noite fria. Eu estava de costas para ele, com as minhas costas contra seu peito e as mãos para trás acariciando seus cabelos.

—Sei disso. Espero que eu seja pelo menos um peixinho nesse oceano aí.

Ele estava com a cabeça encostada na minha, os lábios roçando suavemente meus cabelos e vez ou outra colocava o pé no chão para empurrar a rede.

—Acho que você é o próprio oceano.

—Eu sou um mistério?

—Um pouco. Mas eu digo em relação a sua profundidade, intensidade... ao perigo. Eu acho que posso compara-lo sim a um oceano.

—Eu hein, Mel... que papo estranho é esse?

—Papo de quem está há muitas horas sem ser beijada.

Rindo, eu girei a cabeça para ser beijada por ele. Estava tão bom ali que eu não sentia vontade de entrar, mas a temperatura caía cada vez mais e além disso, admito que estava com sono. Daqui a pouco seriam vinte e quatro horas sem dormir. Então eu dei um longo suspiro e fechei meus olhos, me encolhendo junto ao peito de Daniel.

Alguns minutos se passaram, nós dois em silêncio até que ele se levantou, fazendo malabarismo para sair da rede sem que eu caísse e depois me pegou no colo.

—Você é tão fingida, Mel. Ou melhor, tenta. Péssima atriz. Sei que está acordada.

Eu ri colando meu rosto em seu peito enquanto ele nos levava para dentro de casa.

—Daniel?

—Hum?

—Você acredita naquela coisa de que quando estamos muito felizes, algo de ruim vai acontecer?

—Eu acredito que pensamentos negativos atraem coisas negativas. Pare com isso, Mel. Estamos felizes porque batalhamos para chegar até aqui. Nós merecemos.

Sei que merecemos, mas o arrepio inesperado em meu corpo era quase um prenúncio de que algo ia mudar em breve.

Capítulo 3

 

Junho/2008

 

Eu sentia os raios de sol sobre minha pele enquanto caminhava pelo parque quase vazio àquela hora do dia. Eu não deveria estar ali e sim na Sweet, trabalhando como todos os dias. Estávamos no verão e as pessoas, parecendo mais felizes, lotavam o estabelecimento quase triplicando nosso trabalho. Não pude deixar de pensar no quanto eu também queria aquela felicidade. Mas eu não estava feliz. Pelo menos, não como há cinco meses quando nos mudamos para a casa nova.

Sei que Daniel e eu estávamos trabalhando demais, tanto que estávamos dispostos a tirar umas férias e viajarmos para algum lugar bem distante do trabalho. A Noruega foi o lugar escolhido. Eu sempre tive uma relação de amor com a aurora boreal e por isso meu sonho de visitar aquele país. Estávamos empolgados e já tínhamos até mesmo entrado em contato com uma agência de viagem. Mas nada estava acontecendo como eu esperava.

Sei que eu estava passando tempo demais na Sweet, mas se eu fazia isso era simplesmente para não ficar sozinha naquela casa enorme. Daniel estava distante, irritadiço e trabalhando bem mais que eu. Ele estava saindo antes das sete e raramente chegava em casa antes das nove da noite.

Tentei conversar com ele várias vezes, mas ele sempre me desarmava, garantindo que não era nada demais. Mas havia algo. Ele não me olhava nos olhos e aquela era uma clara evidência de que ele escondia alguma coisa de mim. E isso me magoava. Claro que, cada um tem sua individualidade, tem seus momentos em que quer ficar sozinho e não falar com ninguém e tudo o que podemos fazer é esperar e respeitar esse momento. Eu ficaria mais tranquila se ele me dissesse isso. Mas ele apenas se calava.

Eu tinha quase certeza de que tinha algo a ver com a volta do senhor Ebner... e dela. Anika. Eu quase não acreditei quando mais cedo ouvi a conversa entre Juan e Patty. Meus Deus... pai e filha de volta à cidade e com um empreendimento na cidade vizinha. Não havia dúvida de que Daniel era o engenheiro responsável. Estava explicado seu medo de me encarar, seu silêncio e principalmente seu nervosismo.

Eu percebia a inquietação de Daniel durante a noite. Ele se remexia muito e pouco depois, quando pensava que eu estava dormindo, ele se levantava. Ele não dormia bem e em consequência eu também não dormia.

Porém, eu estava cansada de viver assim. Nunca fui mulher de fugir de uma conversa e não seria agora que faria isso. Esperei pacientemente que ele viesse até mim e contasse o que estava acontecendo. Mas diante da sua inércia, eu só podia confrontá-lo.

Suspirando, eu me sentei em um banco do parque e ergui meu rosto na direção do sol, ficando assim de olhos fechados. E pensar que há poucos meses estávamos tão bem. Rindo, fazendo amor os finais de semana inteiros, planejando viagem, planejando filhos. E agora, com o coração esmagado, eu sentia que tudo isso estava escorrendo pelos meus dedos.

Na verdade, eu sempre temi o retorno de Anika. Daniel era jovem demais quando eles se separaram de uma maneira tão brusca. Ele foi podado em seu sentimento mais profundo. Eu tinha medo que essa chama reacendesse quando eles se reencontrassem. Pelo jeito meus medos tinham algum fundamento.

Meu Deus... quantas vezes eu perguntei se era algo com o trabalho? Por que... por que ele mentiu? A força do ciúme me atingiu em cheio e quando dei por mim as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Ela voltou... e ele viu a velha chama se acender. E como eu poderia culpa-lo? Daniel foi o marido mais atencioso, mais carinhoso e apaixonado que uma mulher poderia desejar. Talvez ele nem soubesse que essa paixão ainda estava viva dentro dele, bastando apenas uma faísca para que ela explodisse novamente.

Curvei meu corpo para a frente, enfiando os dedos em meus cabelos. Eu não estava preparada para isso agora. O pior de tudo era ver que Daniel realmente me amava. Mas eu não sou mulher de compartilhar meu homem. Não ia compartilhar amor, tesão, muito menos pensamentos. E nada me tirava da cabeça que ela estava lá, rondando os pensamentos dele e o deixando daquele jeito. Eu tinha que fazer alguma coisa.

E pensando nisso eu me levantei e segui para a Sweet. Qual não foi minha surpresa ao encontrar Natalie à minha procura. Sorri para minha sogra e a abracei, a levando para uma mesa mais afastada.

—Oi querida... vocês não apareceram nesse final de semana. Fiquei com saudade.

—Desculpe Natalie. Daniel e eu estamos trabalhando demais e queríamos ficar só curtindo preguiça.

Ela colocou seus olhos sobre mim... olhos tão idênticos aos de Daniel e ficou me encarando por um tempo até suspirar e colocar a mão sobre a minha.

—Querida... está tudo bem? Não quero ser uma sogra intrometida, mas...

—Não... não está tudo bem. E eu nunca me senti tão perdida.

—Oh Mel...

—Ela voltou, não é? — Eu estava de cabeça baixa e ergui meus olhos para ela. — Anika voltou.

Ela abriu a boca, como se buscasse palavras e seu rosto enrubesceu.

—Sim. Soube que ela e o pai estão com um empreendimento aí e...

—E Daniel é o engenheiro responsável.

—O que?

Ela gritou e ficou bem óbvio para mim que ela não fazia ideia de que isso estava acontecendo. Balançou a cabeça, incrédula e segurou minha mão sobre a mesa.

—Nós não sabíamos disso, eu juro.

—Eu sei. A verdade é que... nem ele me contou isso, Natalie. Entende como estou me sentindo? Eu soube através de uma conversa da qual eu nem participava. Ele está me escondendo coisas e... está estranho. Está trabalhando além do limite, não dorme direito. Eu não sei o que fazer. Pela primeira vez na vida me sinto impotente.

—Não fique assim, Mel. Eu vou conversar com Daniel e colocar um pouco de juízo naquela cabeça dura. Vocês não podem ficar assim, meu Deus. Vocês são tão companheiros, tão unidos... não é certo agirem como dois estranhos. Precisam conversar. Talvez ele esteja com medo que você pense... besteiras.

—Eu já estou pensando besteira. Para mim a paixão que ele sentia por ela voltou com força agora e ele não sabe o que fazer.

—Nunca. Meu filho tem muitos defeitos, Mel. Ele se menospreza demais, se acha pior que todo mundo, mas ele não é uma pessoa canalha. Ele ama você. Somente você.

—Eu não duvido disso, mas eu estou falando de paixão, Natalie. Lembra dele adolescente? Quando era apaixonado por ela? Você deve saber... eu estou dizendo que amor e paixão são coisas diferentes. Ele me ama, mas ainda está apaixonado por ela. É como se eu fosse as águas tranquilas de um rio... e ela o fogo.

Falei sentindo minha garganta quase estrangulada, com uma ânsia imensa de chorar. Era meu homem, caramba. E eu o estava perdendo.

—Daniel não sabe agir sob pressão... nunca soube. Enfrente-o, Mel. Ainda que isso lhe doa muito. Mas você terá que confrontá-lo.

E foi o que eu fiz horas mais tarde. Ao chegar em casa, percebi que Daniel já estava e pelas luzes acesas, estava enfiado dentro do escritório mais uma vez. Fui até lá e o vi distraído com seus papeis e materiais que usava para desenho. E quando ele me viu, silenciosamente eu implorei para que ele me dissesse a verdade, para que assumisse o que estava acontecendo. Porém antes disso eu fui tomar meu banho e sob a ducha eu tomei minha decisão. Não ia procrastinar mais nada. Iria direito ao ponto.

Não foi uma cena bonita e admito que queria deleta-la da minha vida. Eu gritei com ele e o chamei de covarde. Eu via seu rosto torturado, mas a dor em meu peito era grande demais para que eu me refreasse.

Eu o ataquei verbalmente e esperei por sua resposta. Esperei que ele me dissesse que eu estava enganada em todas as minhas acusações. Na verdade, ele realmente rebateu e disse que não era nada daquilo que eu estava pensando.

Porém, eu cheguei a um ponto em que palavras já não eram suficientes. Eu queria que ele me olhasse nos olhos como sempre fazia quando declarava seu amor, quando dizia que seríamos felizes. Eu queria o olho no olho porque eu saberia exatamente se ele mentia ou se dizia a verdade. Mas... ele fugiu do meu olhar. E assim, eu soube tudo o que eu precisava saber.

Não o acompanhei no jantar, subindo para o nosso quarto. Não sei... talvez no fundo eu quisesse que ele viesse até mim. Mas ele não veio. Eu me deitei de lado na cama, depois de abrir a porta da varanda e deixar que a brisa da noite amenizasse o calor. Eu queria dormir... dormir por vinte horas ininterruptas, mas o sono não vinha.

Ouvi quando ele veio para o quarto, pouco depois da meia noite e se deitou ao meu lado. Colocou o braço sobre minha cintura e eu mordi meus lábios com força para sufocar meu soluço quando ele beijou meu ombro.

—Eu te amo tanto, Mel. Tanto...

Eu também o amava além da razão. E queria muito que isso fosse o suficiente.

 

∞∞∞

 

Quando acordei na manhã seguinte, Daniel não estava mais na cama, o que já não era novidade. Quase me arrastando, eu me obriguei a tomar um banho para em seguida ir para o trabalho. Eu não conseguia me concentrar em nada e obviamente Juan percebeu, me encurralando até que eu dissesse a verdade.

—Ele te ama, Mel, pelo amor de Deus... quem não enxerga isso?

—Eu sei, Juan, mas será que só amor é suficiente? Eu estou vendo que ele se afasta cada vez mais de mim.

—Converse com ele.

—Eu já tentei. Ele foge do meu olhar, Juan. E Daniel nunca foi disso. Eu sei que ele quer me esconder alguma coisa agindo assim. Só pode ser o que ele sente por ela. Olha... eu nunca imaginei que minha vida ia caminhar para o inferno.

—E o que você pretende fazer então?

Engoli seco antes de responder.

—Sair... antes que eu me machuque ainda mais.

Essa era realmente minha decisão. Sair da vida de Daniel até que ele enxergasse o que ele realmente queria. Se era fácil? Talvez fosse a coisa mais difícil que eu faria. E percebi isso quando o encontrei em casa à noite. Após tomar o banho, eu desci usando somente o roupão. Não queria seduzi-lo, mas se eu ia mesmo me afastar... eu precisava ter meu último momento com o homem da minha vida.

Mas Daniel... era Daniel. A minha paixão, o meu amor para a vida inteira. Dessa vez ele não fugiu do meu olhar. Ele implorou por perdão, admitiu que errou e em nenhum momento deixou de olhar dentro dos meus olhos. E ali, olhando para ele eu enxerguei algo que não soube decifrar. Medo? Vergonha? O que diabos era aquilo? Talvez eu estivesse como sempre atordoada com seu cheiro, com seu corpo, com o desejo que percorria minhas entranhas para não chegar a nenhuma conclusão. Ele sempre foi tão fácil de ler!

Eu me desliguei do mundo e praticamente o joguei sobre o sofá, montando sobre ele e o recebendo dentro de mim. Ele me amou com a paixão e luxuria de sempre, totalmente entregue a mim, ambos arrebatados pelo desejo ardente, pelo prazer imensurável.

Mais tarde em nosso quarto, quando fui acolhida entre seus braços, mesmo me sentindo muito confusa, eu percebi que eu não podia entregar os pontos tão facilmente.

Capítulo 4

Setembro/2008

 

Eu poderia resumir os três últimos meses em duas palavras. Céu e inferno. Durante algumas semanas Daniel e eu vivemos no céu, voltando a ser o que éramos antes. Conversávamos, ríamos e brincávamos quando estávamos juntos. Nossos encontros durante o almoço passaram a ser diários novamente e nossas noites regadas a muito amor, paixão e desejo.

Não vou dizer que não mais sentia o fantasma daquela mulher pairando sobre nós porque seria mentira, mas eu procurava ignorar aqueles pensamentos. Além do mais, Daniel estava trabalhando tanto naquele projeto que acreditei ser uma forma de acabar logo e assim nos livrarmos daquela presença indesejável.

Mas admito que aquele excesso de trabalho estava me deixando preocupada. Eu já tinha diminuído meu ritmo, mas Daniel estava ficando pior. Trabalhava demais e dormia muito pouco.

Claro que eu não ia simplesmente ignorar o fato. Eu expus minhas preocupações, mas ele apenas sorriu e disse que logo estaria livre e nós poderíamos retornar ao plano de uma viagem. Mais de uma vez Daniel expôs seus sentimentos, dizendo que queria sua vida junto comigo. O que sentíamos era para sempre.

Por isso foi um choque para mim quando naquele mesmo dia ele voltou do trabalho completamente mudado. Nervoso, impaciente, raivoso e eu podia jurar que notei sua mandíbula um pouco vermelha. E então eu tive a infelicidade de dizer a ele para repassar aquele projeto para outra pessoa, assim tendo oportunidade de descansar.

Ele me acusou de não confiar nele ao pedir que se afastasse do projeto. Provavelmente pensou que eu fazia isso para o afastar de Anika. Mas e se fosse por isso? Era meu direito tentar preservar meu casamento, não era? Principalmente porque há alguns dias, ao buscar Daniel para o almoço, já que ele estava sem carro, eu o vi conversando com dois homens... e Anika. E para mim ficou bem óbvia a intenção dela. Ela estava realmente apaixonada por ele!

Mas essa descoberta não foi a que mais me chocou. O que me tirou o chão foi saber que ele disse a ela que poderia tentar reconquistá-lo. Ele disse que nosso casamento não ia bem! Foi aí que eu explodi, a dor avassaladora me rasgando o peito e eu berrei com ele, com as lágrimas banhando meu rosto.

O que diabos ele estava pensando? Por mais que eu tentasse entender, eu não conseguia. Simplesmente porque não havia explicação lógica para isso. Gritei... xinguei e o impedi de chegar até mim. Eu não suportaria seu toque... não naquele momento. E foi então que várias informações começaram a pipocar em minha mente. Nós sequer estávamos fazendo amor. Eu fechei meus olhos me sentindo derrotada. Ele desejava outra mulher, outro corpo e não o meu. Por isso ele não me procurava mais.

Mas lá estava seu olhar em mim jurando seu amor. Aquelas palavras refletiam em seus olhos. Tão verdadeiro! Mas isso seria suficiente para evitar que ele desejasse a outra mulher? A resposta era desanimadora. Não. De repente senti um cansaço, uma vontade enorme de desistir de tudo. Emocionalmente devastada, sem capacidade de raciocinar com clareza. Mas o fato era que eu não reconhecia mais meu Daniel. Era um estranho para mim agora.

Meu Deus... e eu o amava tanto! Entretanto, apesar de toda a força do meu amor por ele, eu sabia que chegamos ao final da linha. Eu não disse mais nada, apenas me afastei dele e subi para o nosso quarto.

Eu me sentei na cama, olhando para o vazio tentando pensar com coerência, me preparando para tudo o que eu estava prestes a fazer. Sabia que Daniel sempre teria um espaço enorme dentro de mim e mesmo que daqui a algum tempo eu conseguisse sorrir, apesar da dor, eu ainda estaria amando esse homem.

Dentro de mim não havia nenhum pensamento de vingança ou de ódio contra ele. Nada que pudesse manchar o sentimento tão bonito que um nutria pelo outro. Eu nunca, jamais desejaria o mal a ele. Quando me deitei, horas mais tarde, fiquei ouvindo os passos dele pela sala, depois na varanda. Pensar que eu não teria a presença dele me fez enterrar o rosto no travesseiro para sufocar meus soluços que acompanharam as lágrimas.

E algum tempo depois, quando Daniel se deitou ao meu lado, ele me abraçou pela cintura, com o rosto em meu ombro... e eu percebi que ele chorava comigo. Girei na cama, ficando de costas e o puxando para cima de mim. Nenhuma palavra foi dita... nem mesmo um "eu te amo". Apenas deixamos nossos olhos conectados, assim como nossos corpos que se moviam de forma lenta, torturante e apaixonada, como se quiséssemos prolongar ao máximo aquele momento.

Eu não sei se Daniel fazia ideia de que aquela seria nossa última vez antes de eu finalmente jogar a toalha e dizer: Acabou. Pelo menos por enquanto.

∞∞∞

 

Encolhida na cama, eu ouvia seus passos pelo quarto, banheiro e closet. La ele se demorou um pouco, mas eu permanecia na mesma posição, de olhos fechados fingindo que dormia. O cheiro dele estava espalhado pelo quarto e minha vontade era de me atirar nele, me agarrar ao seu corpo e não o soltar nunca mais. Mas eu não podia fazer isso. Nem com ele, nem comigo. Ele merecia seguir o caminho que escolheu, e eu merecia muito mais do que ele estava disposto a dar.

Essa seria a tão famosa crise dos sete anos? Eu não fazia ideia, mas também não estava disposta a queimar meus neurônios pensando nisso. Se era uma crise passageira ou não, só o tempo diria. Percebi quando Daniel voltou ao quarto e parou ao lado da cama... seu olhar estava em mim, eu podia sentir. Ele tocou meu rosto... e seus lábios tocaram levemente os meus.

—Amo você.

Não. Não. Por dentro eu gritava. Eu não suportava mais ouvir aquelas palavras sabendo que esse amor não seria o suficiente para ficarmos juntos, para que fossemos felizes como fomos um dia. Eu suspirei aliviada quando ele saiu do quarto. Agucei meus ouvidos e somente quando ouvi o barulho do carro, eu me levantei.

Meus olhos estavam inchados e doloridos devido ao choro, mas eu pouco me importava com isso agora. Segui para o closet e subi em um Puff, pegando uma mala no alto do armário. Levei-a para o quarto e a coloquei sobre a cama, em seguida colocando roupas e objetos de uso pessoal, além de documentos.

Segui para o banheiro tomando uma ducha rápida. Depois de vestida eu conferi mais uma vez se estava levando tudo o que ia precisar. Não quis olhar para nada, nem me despedir de nada. Eu não ia embora definitivamente, afinal aquela casa pertencia a nós dois e depois, com calma, teríamos que resolver o que fazer a respeito dela.

Minutos mais tarde eu desci com a bagagem, colocando no porta-malas do taxi que solicitei. Voltei e tranquei a porta... e só então eu olhei para a fachada da nossa casa. Foram poucos meses ali..., mas intensos e inesquecíveis. Depois que entrei no carro, informei ao motorista qual era o destino e então ele deu a partida. Sai sem olhar para trás. Pensei em me despedir de Natalie, mas achei melhor não fazer isso. Depois eu daria um jeito de ligar para ela.

Antes de ser levada para o aeroporto, pedi que parasse na Sweet. Eu precisava conversar com Juan. Certamente ele entendeu o que estava acontecendo assim que me viu entrar e o chamar em um canto.

—Sabe que confio em você, não é?

—Não devia, mas sei que confia.

Ri levemente.

—Estou deixando a Sweet sob sua responsabilidade, Juan. Cuide bem de tudo para mim. Eu ficarei um tempo fora e... enfim, não sei quando volto.

—Oh linda... eu sinto muito, de verdade. Não há mesmo mais solução?

—Talvez, mas estamos quebrados demais, estressados... não dá para ter uma convivência pacífica. Eu não tenho sangue de barata para assistir passivamente ao que está acontecendo.

—Bom... eu espero que tudo dê certo e que você consiga pelo menos descansar um pouco. E por favor, não deixe de mandar notícias.

Eu o abracei com força, mas controlei minhas lágrimas. Eu teria muito tempo sozinha para libera-las depois.

Meia hora depois de ser deixada no aeroporto, eu consultava o cartão de embarque em minha mão. Eu estava fazendo o certo? Não estava fugindo? Depois de pensar um tempo, cheguei à conclusão de que sim... eu estava fazendo o certo. E não... eu não estava fugindo. Eu estava apenas procurando me salvar... salvar meu coração.

Quando ouvi a primeira chamada do meu voo, eu me levantei sem pensar duas vezes. Enquanto caminhava até a área de embarque, eu olhei através das enormes janelas de vidro, apreciando a bela paisagem desse dia de outono. Somente então eu parei para pensar que, há sete anos, em uma tarde de outono, Daniel entrou em minha vida, fazendo com que eu me reencontrasse. Deixando-me apaixonada e me fazendo feliz por muito tempo. E agora... em mais um dia de outono eu saía momentaneamente de sua vida para que ele também se reencontrasse.

Quando entrei no avião, eu só pedi aos céus, aos anjos... ao universo que eu tivesse forças para prosseguir. E que se minhas noites de inverno fossem longas... que fossem pelo menos suportáveis.