Noites de Inverno: Livro II (Coleção As Quatro Estações)
Capítulo 6 · Setembro /2008
Minhas mãos começavam a suar enquanto aguardava a ligação ser completada. Meu coração batia tão forte que eu me perguntava se aquilo era normal. E mais...eu me perguntava se estava agindo certo. Não seria melhor esperar mais um pouco? Talvez, mas as inúmeras ligações de Daniel me deixaram curiosa. Ele queria o que? Agradecer-me por deixar o caminho livre?
Passavam das dez e meia da noite, portanto seis e meia da tarde em Fort Toment.
—Alô?
Eu sorri saudosa ao ouvir a voz de Natalie do outro lado.
—Natalie? Sou eu. Melanie.
—Oh minha filha! Que susto você nos deu. Como você está? Está tudo bem? Juan não quis dizer aonde você está.
Sorri, feliz com a fidelidade de Juan e com o carinho demonstrado nas palavras de Natalie.
—Desculpe, mas eu pedi a Juan para que não dissesse a ninguém.
—Sim. Eu entendo.
—Estou na Noruega. Desculpe por ter viajado assim tão intempestivamente, mas eu não aguentava mais. Eu precisava me afastar um pouco.
—Está tudo bem minha filha. Só quero que se cuide e fique bem. Você fez o que achou melhor. Eu também acho que precisavam desse afastamento para não se magoarem mais. Prometa que vai se cuidar?
—Prometo. —Falei com voz embargada e quase sucumbindo as lagrimas. —Eu vou ficar bem.
—Eu não vou contar...aonde você está.
—Eu sei.
Meu maior medo era de nunca mais poder ter o mesmo relacionamento com os pais de Daniel. Eles me acolheram como se eu fosse uma filha. Natalie era a mãe que há anos deixei de ter. Sei que eles sempre iam me considerar uma filha, mas eu não poderia esperar que não houvesse constrangimento.
—Mas me conte... o lugar é bonito?
—É maravilhoso, Natalie. Nossa...como eu gostaria de ter feito essa viagem com vocês.
Eu me calei imediatamente. O "vocês " incluía Daniel e só de pensar nele, no que ele poderia estar fazendo agora...ou com quem, me causava dor.
—Não faltará oportunidade, minha filha. Mas enquanto esse dia não vem, cuide de você, cuide desse coração e volte logo. Mas volte para nós.
Dessa vez eu não consegui segurar minhas lágrimas. Claro que eu voltaria para eles. Mas estaria faltando uma parte muito importante ali.
—Natalie...--Fechei os olhos por não conseguir segurar a pergunta. —Ele...ele está bem? Daniel?
Eu ouvi seu suspiro e depois alguns instantes de silêncio. Por fim, Natalie falou parecendo triste e cansada.
—Está tudo bem por aqui, filha. Daniel vai ficar bem.
—O que isso quer dizer? Se ele vai ficar bem quer dizer que agora não está.
—Foi modo de dizer. Obrigada por perguntar. Ele está sendo bem cuidado.
Senti a saliva descer amarga pela minha garganta. Ele estava sendo bem cuidado. Por Anika? Mesmo assim eu não pude deixar de externar minha preocupação.
—Ele está trabalhando muito. Converse com ele.
—Fique tranquila, ok? Va se distrair um pouco e não se esqueça de que nós amamos você.
—Também amo vocês.
Dizer aquelas palavras provocou uma dor tão forte em meu peito que solucei e me despedi rapidamente de Natalie. Encostei a cabeça na parede e deixei que as lágrimas fizessem seu trabalho que era aliviar meu peito, limpando...tentando tirar a dor da saudade.
Somente meia hora depois, já recomposta, eu liguei para Juan que me pareceu cauteloso demais para conversar comigo.
—Tem certeza de que não está me escondendo nada Juan?
—Você falou que confiava em mim, Mel.
—E confio. Mas você me ligou tantas vezes que pensei que tivesse acontecido algo.
—E aconteceu. Você ficou de dar notícias assim que chegasse e não ligou. Fiquei preocupado.
Fingi que acreditei em suas explicações, já que ele devia saber que, pelo horário das primeiras ligações, não havia possibilidade de eu já estar na Noruega.
—Mas já que está tudo bem, fique tranquila que aqui está tudo sob controle. Va se divertir e mande muitas fotos para nos matar de inveja.
Eu sorri, sentindo meu coração mais leve, mas ainda assim com a sensação de que alguma coisa estava acontecendo e não queriam que eu soubesse.
Estremeci com a possibilidade de Daniel já ter sido visto com Anika em atitude íntima.
Irritada com o rumo dos meus pensamentos, eu admirei um pouco mais o lago e depois entrei no quarto, indo direto para a cama e me enrolando sob os cobertores.
Fechei os olhos com força, esfregando um no outro, os meus pés gelados protegidos pela meia. Como esperado isso me remeteu às noites frias com Daniel ao meu lado. Os braços sempre estavam a minha volta me aquecendo. Dessa vez eu teria que me contentar com os cobertores.
Antes que a melancolia me dominasse, eu dormi pesadamente. Mas ainda assim, ao amanhecer eu me lembrei perfeitamente dos meus sonhos. Um sonho onde eu pude me sentir aquecida e protegida. Um sonho onde intensos olhos verdes também eram responsáveis pelo calor em meu corpo, principalmente em meu coração.
∞∞∞
Bolsa, celular e câmera fotográfica, além, claro, muito agasalho. Eram oito e meia da manhã quando sai do quarto para me dirigir ao restaurante do hotel. Depois de tomar o café da manhã eu ia aguardar a turma de turistas para explorarmos algum lugar maravilhoso como tantos que já vimos.
Porém, assim que entrei no restaurante vi Frederick acenar convidando a me juntar a ele. Enquanto me aproximava notei a presença da mulher à mesa. Ela usava um lenço azul cobrindo totalmente a cabeça. Seu rosto era espetacularmente bonito, apesar da palidez e das visíveis bolsas escuras sob seus olhos. No momento em que Frederick olhou para ela eu soube que aquela era Laura. Era visível o carinho com que ele a olhava.
—Bom dia.
—Bom dia Melanie. Daria o prazer de nos acompanhar?
—Se eu não for atrapalhar...
—Claro que não. Quero lhe apresentar...essa é Laura, a mulher da minha vida.
Meus olhos ficaram marejados, mas Laura apenas balançou a cabeça e abrindo um sorriso.
—Querida, essa é a Melanie, de quem lhe falei.
—Muito prazer Laura. Estou feliz em conhecê-la.
—O prazer é meu, querida.
Frederick puxou a cadeira para mim e então eu me sentei.
—Obrigada por ter feito companhia ao meu marido. Muito ruim vir para esse paraíso e não poder desfrutar. Mas as vezes eu fico muito cansada.
—Laura teve câncer. E estamos aqui ao mesmo tempo para comemorar sua vitória sobre a doença e para que ela descanse um pouco.
—Oh...que bom que venceu essa luta, Laura. Sem dúvida é algo para ser comemorado.
—Foi uma dura batalha, mas sobrevivi.
—Mas e aí Melanie? Qual a programação para hoje?
Frederick perguntou enquanto eu me servia com uma xicara de café.
—Eu planejava procurar pela turma de ontem.
—Por que não se junta a nós? Frederick alugou um carro e vamos percorrer alguns lugares para ver os fiordes.
—Eu adoraria.
Foi realmente um presente conhecer aquele lindo casal. Eles se olhavam com tanto amor que foi impossível não pensar em Daniel e eu. Não sei se meu olhar para ele era como o de Laura para o marido. Mas sem dúvida o olhar de Frederick para ela era como Daniel olhava para mim.
Espantei esses pensamentos me concentrando na bela paisagem à minha frente. Eu alternava entre admirar tudo e observar o mapa que pegamos no Centro de informação turística. Passamos por Fagerners em direção a Breivikeidet. Atravessamos o Ullsfjorden de balsa até o vilarejo de Svensby. A partir daí eu já não conseguia mais prestar atenção ao mapa. Era beleza demais para que eu ficasse me atentando a detalhes como nomes dos locais.
Mas voltei a olhar o mapa apenas para conferir o nome do local em que estávamos. Foi em Koppangen que vi e fotografei renas pela primeira vez em minha vida. Foram mais de cinco horas de passeio por regiões incríveis com seus belíssimos fiordes. Paisagens que eu sequer sonhava que existiam.
—Eu não quero ir embora sem ver a aurora boreal.
Laura falou após o jantar, já no hotel. Esse também tinha sido meu grande sonho. Ou melhor, ainda era, mas eu sempre quis ver isso ao lado de Daniel.
—Eu também não. Mas dizem que não é tão fácil.
—Temos que procurar os lugares certos. Frederick prestou atenção em tudo o que o guia disse em nosso primeiro dia aqui.
Eu deixei meu olhar vagar pelo lago, já que estávamos no espaço aberto do restaurante que propiciava a bela visão. A hora de dormir se aproximava e nesses momentos a melancolia voltava com toda sua força. Seria tão bom se eu pudesse ter a presença daquele casal o tempo todo. Era uma pena que não estivéssemos na época do sol da meia noite. Definitivamente eu não ia dormir.
—Está sendo difícil, não é?
A voz de Laura me fez voltar a realidade e eu a encarei.
—Frederick me disse, desculpe.
—Sem problema. Mas está realmente difícil. Até que enquanto eu estou na companhia de vocês, mal tenho tempo para chorar minha dor, mas quando chega à noite... Como você fez para superar, Laura?
—Não foi fácil para mim também. Doeu saber que Fred queria me deixar por causa de um rabo de saia. Nós terminamos e eu sabia que no momento em que saísse de minha casa ele ia procurar por ela. Bom, ele disse que não foi porque se arrependeu minutos depois.
—E vocês voltaram assim... rápido?
—Não. Ele se arrependeu. Não ficou com ela, mas também não me procurou. Ele sabia que eu estava magoada demais e qualquer tentativa de aproximação naquele momento seria realmente nosso fim. Eu trabalhava e estudava, poupava cada centavo pensando em construir nossa vida e ele de repente se interessa por uma vampira qualquer e pensa em me deixar. Foi doloroso. Eu tive que fazer várias reflexões até chegar à conclusão de que o problema nunca foi comigo. Eu me doei o tempo todo. Não que ele não tenha feito isso, mas eu fiz mais.
Eu baixei meus olhos, brincando com o guardanapo sobre a mesa. A história deles era tão parecida com a minha! Porém eu tentava não me culpar. E também não queria pensar nisso agora.
—Eu o perdoei por sua falha, mas não voltamos de imediato.
—Por que não se vocês se amavam tanto?
—Porque só o amor já não era suficiente. Pelo menos não para mim. Eu estava chateada e até insegura. E eu sei que a qualquer deslize que fosse, se ele pelo menos dissesse uma frase que me chateasse... eu sempre ia jogar na cara dele que ele era o culpado de tudo. Então eu preferi assim... levando aos poucos.
—E como foi que vocês voltaram?
—Quando eu olhei para dentro de mim mesma e me vi falhando também, não com ele, mas com outras pessoas. Eu percebi que estava me tornando uma pessoa amarga e contaminava a todos com minha frustração. Cheguei a fazer até meditação para ficar em paz comigo mesma. Com meu coração, com meu corpo, com minha mente. E aqui estamos até hoje.
—É uma belíssima história sem dúvida alguma.
—Sim, mas nenhuma história bonita é conquistada sem sacrifícios, sem luta, sem concessões. A vida é assim. Por isso, se quer um conselho... apenas cuide do seu coração, cuide de você. Porque ficar remoendo coisas desagradáveis só fará mal a você mesma.
Emocionada, eu coloquei a mão sobre a mão fria de Laura. Eu estava diante de uma mulher que batalhou não só pela sua cura, como também pelo amor. E eu tenho a certeza de que ela não se arrependia de nada. E eu a invejei porque queria me libertar da opressão em meu peito. Queria aceitar sem dor. Mas sei também que era tudo muito recente. Um dia ainda ia parar de doer.
—Não quero perder contato com vocês... nunca. Em tão pouco tempo se tornaram especiais para mim.
—Será bem-vinda a Nova York. E quem sabe um dia não iremos a Fort Toment também? Foi muito bom conhecer você também, Mel.
Nós duas estávamos com lágrimas nos olhos quando Frederick voltou olhando para nós duas com curiosidade. Mas ele sorriu vendo que ali era apenas o nascimento de uma bela amizade.
∞∞∞
Outubro/2008
Malas prontas... nem acreditava que já se foram três semanas aqui em Tromso. Já estávamos na primeira semana de outubro... como passou rápido. Infelizmente não tivemos chance de ver a aurora boreal, e hoje, nossa última noite no hotel, também seria nossa última oportunidade. Mesmo sabendo que essa já não era uma boa época para o fenômeno, nós fomos para Lyngsalpene. Eu fiquei entusiasmada e esperançosa, já que ali era uma cadeia de montanhas que barrava a umidade dos lugares próximos. Não havia nuvem no céu e não estava nublado como estava quando saímos de Tromso.
Armei o tripé que comprei dias atrás e programei a máquina do jeito que o guia turístico me aconselhou. Laura e Frederick também ajeitavam suas câmeras, todos ansiosos demais para que o espetáculo acontecesse. Bom, mas se não fosse hoje, eu certamente voltaria um dia para tentar novamente.
Olhei ao redor, com vários carros e vans estacionados, pessoas espalhadas a espera do fenômeno. Quando um casal jovem passou por mim de mãos dadas, brincando como adolescentes, a imagem de Daniel veio a minha mente mais uma vez, fazendo meus olhos lacrimejarem. Novamente aquele desejo intenso de sua presença aqui ao meu lado.
—Meu Deus...
Laura ofegou ao meu lado, minutos depois, ao mesmo tempo em que eu arregalava meus olhos vendo o espetacular brilho difuso que caracterizava a tão esperada aurora boreal. Eu levei minha mão à boca, abafando meu soluço, mas não segurando o choro emocionado. Sem sombra de dúvida era uma das coisas mais fantásticas que já presenciei na vida. Meu coração batia forte, disritmado enquanto eu me agarrava à esperança de que meu futuro fosse tão emocionante quanto a aurora boreal.