Noites de Inverno: Livro II (Coleção As Quatro Estações)

Capítulo 10 · Dezembro/2008

 

O sobretudo, mesmo em conjunto com as camadas de blusas, calças,

cachecol, meias e botas ainda não era suficiente para amenizar o frio que eu sentia. Cruzei os braços à minha frente, como se me abraçasse e encolhi os ombros num gesto quase automático. Eu bem sabia que não era o frio provocado pelo clima. Era o que costumavam chamar de frio da alma. Era exatamente assim que me sentia. Uma alma fria, porém, não solitária. O bebê que crescia dentro de mim me dava forças para não sucumbir à tristeza e saudade.

Embora eu não tivesse mudado de ideia, e não fosse mudar nunca, em

relação a contar a Daniel que ele era pai, confesso que estava um pouco apreensiva. Não pela reação dele, mas pela minha reação ao ficar frente a frente com ele. Eu não segui em frente, não me curei e duvido muito que conseguiria em tão curto prazo. Obviamente um dia esse amor deixaria de massacrar tanto o meu peito, mas levaria tempo, eu sei.

Sentada em um banco, eu observava as pessoas, principalmente casais

que deslizavam na pista de patinação de Trocadéro. Sempre tive vontade de fazer isso, mas agora me parecia um sonho bem distante, ou quase impossível. Não estou dizendo que jamais teria essa oportunidade novamente, mas o parceiro que eu imaginava comigo era agora quase inalcançável.

Passei a mão coberta pela luva sob os olhos, secando lágrimas ridículas

que insistiam em cair. Eu não parava de pensar nele, e não era apenas pelas notícias recém descobertas, mas porque uma estranha sensação tomava conta de mim. Eu podia dizer quase com certeza que estavam me escondendo alguma coisa, mas o que? Eu só conseguia imaginar que poderia ser algo com Daniel e Anika. Provavelmente eles tinham assumido a relação e por isso todos temiam minha reação ao voltar. Não queria ficar fazendo suposições ou julgamentos, mas também não tinha coragem de interpelar Natalie ou Nolan exigindo uma resposta. Eu não tinha esse direito.

Cansada de ficar massacrando minha mente com esses pensamentos, eu

me levantei e caminhei lentamente em busca de um táxi para voltar para casa. Hoje tinha sido a confraternização da turma do curso, mas eu não fiquei muito tempo por lá. Eu não estava no clima para comemorações. Além do mais, fiquei sem bateria e não avisei tia Verna. Quando finalmente consegui um pouco de carga, não consegui falar com ela. Não queria que ela se preocupasse comigo, mais do que já estava.

Dentro do táxi, eu inclinei um pouco a cabeça para trás e fechei os

olhos. Imediatamente as palavras lidas dias atrás naquele site vieram à minha mente. Por mais que eu tentasse não pensar, estava se tornando uma tarefa quase impossível. Tudo o que li não justificava as atitudes de Daniel, mas de certa forma, me fazia enxergar várias coisas por um ângulo diferente.

Com cuidado, eu desci do táxi quinze minutos depois, me encolhendo

novamente ao sentir o vento gelado. Ajeitei o cachecol e caminhei até a entrada da casa, estranhando as luzes ao redor da estufa acesas. Minha tia nunca se esquecia de apaga-las e provavelmente não deveria estar lá até agora, principalmente por causa do frio. Embora acostumada com o clima da cidade, ela reclamava demais da temperatura e dos reflexos em seu corpo.

Parei, indecisa entre ir até lá e seguir direto para casa. Eu me decidi

pela primeira. Se tia Verna tivesse simplesmente esquecido, eu deixaria tudo do jeito que ela gostava. Novamente com muito cuidado por causa do chão molhado, eu segui até a porta de vidro e a empurrei, observando ao redor.

—Tia Verna? Ainda está aqui? —Dei mais alguns passos, não notando

nada de anormal. — Tia Verna?

Sem resposta, eu me convenci de que tinha sido apenas esquecimento

dela. Apaguei as luzes e puxei a porta, caminhando dessa vez em direção a casa. Esperava que ela estivesse com a lareira acesa, para que eu pudesse me aquecer pelo menos um pouco em frente a ela. Apesar de tudo, da falta que sentia dos meus amigos, de Daniel, meus sogros e meu trabalho, eu também ia sentir falta daqui. Tia Verna era uma companhia muito agradável e por isso mesmo me recriminei por ter passado tanto tempo ausente.

Eu já estava com a mão no trinco da porta quando ouvi um gemido.

Forcei o trinco, constatando que a porta estava destrancada, e então segui direto para a sala. Parei subitamente levando a mão ao peito ao ver tia Verna caída no chão, estática e com uma careta de dor.

—Tia! Oh meu Deus...

Eu me aproximei e ajoelhei ao lado dela, segurando sua mão. Meu

coração saltitava tamanho susto que levei ao vê-la daquele jeito.

—O que aconteceu?

—Não... sei. Escorreguei não sei em que. Ah... dói demais. Não

consegui... levantar.

Ela estava sem fôlego, não sei se de dor ou de outra coisa em

decorrência da queda. Peguei o celular em minha bolsa, mas vendo que ainda estava com pouca carga, eu me levantei e fui até o telefone.

—Não chamou a emergência? Há quanto tempo está aí?

—Não... não alcancei o telefone. Não sei quanto tempo. Meia hora... talvez.

Rapidamente disquei para a emergência, os olhos fixos em tia Verna,

um tanto apavorada ao vê-la fechar os olhos. Não queria que ela percebesse o quanto estava nervosa, pois certamente ela ia brigar comigo. Mas o que eu podia fazer? Não é como se fosse uma queda simples. Ela mal conseguia se mexer!

—O pessoal da emergência já está vindo, tia. Não vou mexer na

senhora porque pode ser perigoso.

—Nem se atreva... você...hum...

Ela fez uma careta de dor... e eu me apavorei mais um pouco.

Ultimamente eu estava mais emotiva, eu diria talvez um tanto fragilizada. E ver tia Verna daquele jeito me deixou abalada. Felizmente a equipe de emergência chegou rápido, e enquanto faziam todos os procedimentos seguros para a colocar em uma maca, eu procurei por sua bolsa com documentos.

—A senhorita vai acompanha-la?

—Sim.

Respondi ao homem, que eu não sabia se era médico, enfermeiro... sei

lá. Só me preocupava o estado de saúde de minha tia.

 

∞∞∞

 

Passava da meia-noite quando eu voltei para casa. Tentei de todas as

formas convencer tia Verna de que eu poderia passar a noite com ela, que negou veementemente. Após vários exames foi constatada uma fratura na pelve, felizmente sem deslocamento e sem outras lesões mais graves. Somente lá eu fiquei sabendo realmente o que houve. Querendo me poupar de maiores preocupações, tia Verna confessou que escondeu de mim que caiu da escada e tentou se arrastar até o telefone, mas a dor foi mais forte.

Eu não queria que ela passasse a noite sozinha no hospital de forma

alguma, mas até mesmo os médicos não aconselharam minha permanência lá. Liguei para Polly avisando sobre o ocorrido, e contrariando as ordens da mãe, ela estava voltando para Paris no voo da manhã.

E eu que já tinha minha passagem comprada, decidi que o mais

acertado seria postergar minha partida e esperar até que ela estivesse melhor. Isso significava que eu teria que adiar por mais algumas semanas o momento de contar a Daniel que eu estava grávida. Eu não via a hora de voltar para casa, mas também não podia abandonar quem me acolheu de braços abertos e me ajudou a suportar os dias tristes.

Tranquei e conferi as portas assim que entrei em casa, acionando o

alarme logo em seguida. Eu queria me jogar na cama e dormir por longas horas, mas eu estava há tempo demais sem comer nada, e, embora eu não sentisse fome, eu não podia pensar somente em mim agora. Não podia deixar de me alimentar. Segui para a cozinha e abri a geladeira pegando a salada e depois aquecendo o filé assado que tia Verna já tinha assado, só esperando por mim para jantarmos.

Comi sem vontade, praticamente empurrando a comida, sentindo o

bolo se formar em minha garganta. Eu estava tão cansada! Não fisicamente, mas emocionalmente. Tentei continuar comendo, mas como conseguir isso enquanto chorava? Eu bem que tentei segurar, mas não consegui. O choro saiu fácil sem que eu pudesse impedir. Saudade da Bakery, da minha casa... de todos... de Daniel. Em poucos dias seria a virada do ano e pela primeira vez em muitos anos, eu não estaria naquela pedra, olhando o mar de mãos dadas com meu marido.

Eu solucei e apoiei os cotovelos na mesa, tapando o rosto com as mãos.

Eu não imaginei que seria tão difícil. Não sei por quanto tempo chorei, e, talvez um pouco anestesiada, eu lavei as louças mecanicamente, e em seguida subi para o meu quarto, onde fiz minha higiene. Tirei as roupas e vesti o pijama quentinho que ganhei de Ben. Estiquei os cobertores sobre a cama e liguei o aquecedor. Mas ao me deitar, sabendo que tia Verna não estava no quarto ao lado, eu me senti mais solitária que nunca. Provavelmente, o inverno nunca mais seria minha estação preferida do ano.

∞∞∞

 

Ignorando a expressão emburrada de tia Verna, eu me sentei ao seu

lado na cama, colocando a mão sobre a dela.

—Isso não está em discussão, tia. Quem me acolheu quando cheguei

aqui tão quebrada? Além do mais, a senhora é a única família que eu tenho. É minha obrigação estar aqui nesse momento. E não pense em obrigação no sentido ruim da palavra. Eu gosto e quero estar por perto enquanto se recupera.

Tia Verna só teria alta no final da tarde, portanto eu passei a manhã

com ela. De acordo com a avaliação dos médicos, por não ser uma fratura estável, ela conseguiria até andar, embora fosse sentir muita dor. O tipo de fratura permitia que ela usasse muletas ou até mesmo um andador. Ia precisar de fisioterapia, além de repouso, gelo, analgésicos e anti-inflamatórios.

—Eu sei disso, Mel. E eu não esperava outra coisa de você. Mas a

Polly está vindo, querida. Olhe, não pense que estou sendo ingrata, mas... você tem que ir, filha. Sabe... já passou da hora de você resolver sua situação com Daniel, além de contar a novidade. Não importa o que vai acontecer a partir dessa conversa, mas isso precisa acontecer já. Só assim vai conseguir aliviar um pouco esse coração. Eu não quero mais ouvir você chorar.

Eu pisquei algumas vezes e dessa vez consegui segurar minhas

lágrimas.

—Eu te amo, tia. Desculpe demorar tanto tempo a dizer isso.

—Eu também amo você, minha linda. E não se preocupe quanto a ter

dito ou não. Nunca é tarde demais para perceber o amor. Pelo menos o amor forte e verdadeiro.

Eu sorri, a mão apertando a de tia Verna e a outra ainda em minha

barriga. Ela estava coberta de razão. Estava mais do que na hora de voltar para casa.

Capítulo 11

Dezembro/2008

 

Lançando um último olhar para a imponente torre, eu me afastei a

passos lentos, apreciando e ao mesmo tempo me despedindo da bela cidade. Prometi a tia Verna que eu não ficaria mais tanto tempo afastada, mas nós duas sabíamos que as coisas seriam diferentes a partir de agora. Eu teria um filho para cuidar e minha rotina mudaria drasticamente.

Não estava preocupada com isso, porém era inegável que desde já eu

teria que pensar no que fazer em relação a Sweet. Deixar a gerência a cargo de Juan não seria problema algum, mas eu certamente ia precisar treinar mais pessoas na cozinha. Deixar meu bebê aos cuidados de uma babá era totalmente descartado. Eu queria viver, curtir intensamente cada etapa desse novo ciclo.

Continuei caminhando devagar, sem pressa alguma até conseguir um

táxi. Hoje, dia trinta de dezembro, eu sairia num voo as vinte e três horas com destino a Nova York. De lá, outro voo com duração de uma hora até Fort Toment. E eu sentia um calafrio por saber que dentro de algumas horas eu estaria novamente em casa.

Meus planos se resumiam a descansar um pouco, ir até a Sweet e ligar

para Natalie. No dia anterior liguei para Juan e pedi que encontrasse alguém para fazer uma faxina em minha antiga casa. Eu não estava no clima para voltar à casa nova. Encontrá-la vazia, provavelmente quase sem nenhum rastro de Daniel era mais do que eu poderia suportar.

Eu precisava encontrar um ponto de equilíbrio, trabalhar minha mente

para meu encontro com ele. Apesar de ser necessária uma conversa sobre nós dois, o motivo que me levava a procura-lo agora era somente nosso filho. No final das contas acabaria tudo num mesmo pacote, já que falar sobre nosso bebê significava ter que resolver nossos problemas para que nada atrapalhasse o meu momento de ser mãe e também o de Daniel de ser pai.

Meu olhar apático observava as ruas de Paris enquanto o táxi seguia o

percurso até a casa de tia Verna. Recomeçar. Nunca pensei que essa palavra fosse tão difícil de colocar em prática. Não queria, entretanto, ficar choramingando pelos cantos, remoendo o fato de meu casamento provavelmente ter chegado ao fim. Milhares de casais se separam todos os dias. Porém, nunca paramos para pensar que um dia isso pode acontecer conosco.

Até Anika aparecer novamente em nossa vida, eu sequer cheguei a

pensar nela como uma ameaça. Admito que sentia medo da reação de Daniel se um dia a encontrasse, mas eu estava tão convicta do amor dele por mim que em momento algum imaginei que esse amor pudesse ser eclipsado por uma paixão de adolescência. Mas foi e a mim, só restava aceitar e torcer pela felicidade de Daniel. Apesar de tudo, eu vivi os melhores dias da minha vida ao lado dele.

—Obrigado senhorita. Tenha um feliz ano novo, cheio de conquistas.

—Obrigada. —Agradeci emocionada ao motorista de taxi assim que

desci em frente à casa de tia Verna. — Desejo o mesmo ao senhor.

Suspirei ao me afastar do carro, deixando que um tímido sorriso se

abrisse em meu rosto. Ano novo... conquistas... quase um renascimento. Passei a mão sobre meu ventre, dessa vez sorrindo largamente.

—Seremos muito felizes, bebê. Teremos um ao outro... sempre.

Subi com cuidado os degraus da varanda e ao entrar na sala, encontrei

tia Verna discutindo com Polly. Ri e rolei meus olhos enquanto me aproximava e me sentava ao lado dela, segurando sua mão.

—Qual o motivo da revolta, tia?

—Esse absurdo de Polly querer que Kevin e Ben voltem para cá. É

cansativo para o meu neto. E de jeito nenhum quero que passe a virada do ano longe deles.

—Será apenas uma vez em todos esses anos, mamãe. Não seja

intransigente.

—Eu já disse que ficarei bem, filha. Pode ir e passar a virada com seu

marido e seu filho. Uma enfermeira dará conta de cuidar de mim muito bem enquanto você não volta.

Eu não ia me meter nesse assunto, pois se tia Verna era muito

intransigente, Polly era muito teimosa. Estava até tranquila demais, o que me deu a impressão de que provavelmente Kevin e Ben já estavam a caminho. Como se lesse meus pensamentos, Polly deu um sorriso fraco e piscou me fazendo rir também.

—Não é nada engraçado passar a virada do ano sozinha, tia.

—Como se eu não soubesse que é exatamente o que pretende fazer.

Ralhou comigo, me olhando de lado, com a testa franzida.

—Eu não estarei sozinha. Estarei com meu bebê.

Ela deixou escapar um longo suspiro e me encarou diretamente nos

olhos.

—Filha... vá ver seus sogros durante a virada. Tenho a certeza de que

eles ficarão muito felizes. Você mesma disse que eles não costumam comemorar. Vão gostar de vê-la.

—Sei que ficarão felizes, mas... não quero nem pensar na possibilidade

de encontrar Daniel e Anika lá.

Ela bufou fazendo uma careta.

—Pois ao que parece ele não esteve lá nem no Natal. Foi você mesma

quem disse, esqueceu? Por que iria no ano novo?

A verdade é que por mais que eu tenha pensado, ainda não tinha

encontrado uma explicação para a provável ausência de Daniel no dia de Natal.

—Eu vou chegar tarde lá, tia. Isso se o voo não sofrer nenhum atraso.

—Mesmo assim pense nisso.

Prometi que ia pensar no assunto e em seguida subi para o meu quarto,

verificando mais uma vez se não estava deixando nada para trás. Eu me sentei na cama, passando a mão pelo edredom e soltei um longo suspiro. Foram dias muito agradáveis com tia Verna. Mas aqui não era meu lugar. Como costumam dizer, nossa casa é onde nosso coração está. Então, eu estava voltando para onde estava o meu.

Às vinte e uma e trinta, eu estava presa no abraço apertado de tia

Verna, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Ela também chorava, alisando meus cabelos.

—Foi tão bom ter você aqui esses dias, querida. Se a situação fosse

outra eu juro que ia insistir para que ficasse. Se você tivesse vindo antes de conhecer seu marido... quem sabe, não é?

—Mãe!

Polly a repreendeu, mas eu ri, entendendo o que ela queria dizer. Eu me

afastei e passei o dedo sob os olhos dela, secando suas lágrimas.

—Eu sei, tia. Foi tão bom que pensei assim também, mas... era coisa do

destino. Ter Daniel durante esses anos foi a melhor coisa que me aconteceu. E agora... — passei a mão em minha barriga. —Está mais do que óbvia a importância dele em minha vida. Ele me deu meu melhor presente.

—Claro que sim, Mel. Estava só brincando. Mas saiba que qualquer

coisa... qualquer coisa mesmo que precisar, essa casa sempre estará de braços abertos para você.

—Obrigada. E por favor, faça um esforço para me visitar também.

—Mas é claro que vamos. —Polly se manifestou. — Temos que

conhecer o Danielzinho... ou a Melzinha.

Eu sorri ainda entre lágrimas e me levantei para abraçar Polly.

—Não suma, prima. Não podemos permanecer tanto tempo afastadas

como ficamos.

—Não ficaremos mais. É uma promessa. Bom... obrigada por tudo. Eu

preciso ir agora...

Eu abracei Polly fortemente e depois mais um abraço em minha tia.

Apesar de Polly ter insistido para me levar ao aeroporto, eu não queria que tia Verna ficasse sozinha. E além do mais, despedidas eram sempre tão depressivas.

Já dentro do táxi, acenei para Polly pela última vez.

 

∞∞∞

 

Eu estava realmente exausta enquanto atravessava a área do

desembarque. Minha cabeça doía levemente, além do mais, eu estava faminta. O voo foi tranquilo e sem atrasos, mas oito horas de viagem realmente me deixaram em frangalhos. Felizmente eu ainda teria quatro horas de intervalo até o voo para Fort Toment, que sairia às dezessete horas. Se eu tivesse a sorte de também não ocorrer nenhum atraso, às dezoito horas eu já estaria em Fort Toment. E ainda não tinha me decidido se iria ou não até a casa dos meus sogros... ou ex-sogros.

Eu empurrava o carrinho com minhas bagagens quando avistei o casal

e parei abruptamente. Um sorriso involuntário se abriu em meus lábios enquanto o homem seguia em minha direção de braços abertos.

—Frederick! Oh meu Deus, que surpresa.

Fui pega em um abraço apertado e um beijo no topo da cabeça. No dia

anterior eu informei a Frederick e Laura o horário do meu voo. Eles também iam viajar, mas para New Haven onde moravam os irmãos dela.

—Não resistimos. Tínhamos que vir vê-la.

—Oh, mas e a viagem?

—É uma viagem curta. Pouco mais de uma hora.

Ele empurrou o carrinho com as bagagens, enquanto eu me aproximava

de Laura e a abraçava.

—Olhe só para você... está mais linda do que nunca. Esses dias fizeram

bem a você, Mel.

—Obrigada Laura. Você também está muito bem.

—E é claro que não é só a viagem. Uma mulher grávida fica

resplandecente. Como está se sentindo?

—Maravilhosa. Tive apenas algumas tonturas e muita azia, mas nada

além disso. Ah... e é claro, muito sono.

Eu realmente não esperava pela surpresa de encontra-los no aeroporto,

e esse encontro me deixou muito emocionada. Amigos que conquistei em um momento complicado, e que eu levaria por toda minha vida. Almoçamos juntos em um restaurante no aeroporto enquanto eu contava sobre meus dias com minha tia. Fiquei muito feliz em ver que Laura parecia bem mais corada e disposta do que quando nos encontramos na Noruega. Frederick também parecia muito melhor. Seu sorriso esfuziante não deixava dúvida quanto a isso. Eles se tocavam o tempo todo, cheios de carinho um com o outro, o que provocou em mim um sentimento revoltante.

Inveja. Eu sentia inveja da felicidade deles, do amor compartilhado. E

eu me odiei por isso porque esse era um sentimento que jamais tive. Nunca invejei nada nem ninguém e agora estava aqui, invejando a felicidade dos meus amigos. Tudo bem que não era aquele sentimento tão obscuro a ponto de desejar o mal para o casal, mas para mim, inveja sempre foi algo muito nocivo.

—O que foi, Mel? Está se sentindo bem?

Eu não percebi que chorava até Laura colocar a mão sobre a minha e

Frederick passar o braço em volta do meu ombro.

—Estou envergonhada por estar sentindo inveja de vocês... do amor de

vocês.

—Oh querida... que bobagem. —Laura apertou levemente minha mão,

o que me fez encara-la. — Eu nem conheço seu Daniel, mas eu sinto... no fundo do meu coração eu sinto que a história de vocês ainda não terminou, meu bem. A vida é assim... às vezes andamos por caminhos tortos, mas apenas para enxergamos o caminho certo. O que nos faz feliz.

Eu queria muito acreditar nas palavras dela, mas minhas esperanças

iam minguando cada vez mais.

 

∞∞∞

 

Apenas mais uma hora e então eu finalmente estaria voando de volta

para Fort Toment. Apesar da insistência de Frederick e Laura para ficarem comigo até o horário do meu voo, eu os convenci a irem embora. Mesmo depois de Frederick ter dito que era uma viagem rápida, quanto antes eles chegassem ao destino, melhor para eles.

Enquanto aguardava o embarque, sentada em uma das centenas de

poltronas, eu deslizei a mão sobre minha imperceptível barriga, sorrindo e olhando para ela como se fosse meu bebê já em meus braços.

—Bons amigos, não é bebê? Foi uma surpresa tão boa encontrá-los

aqui. Um dia você irá conhecê-los e sei que vai gostar tanto deles quanto eu gosto.

—Você... você está grávida!

Ergui imediatamente a cabeça ao ouvir a desconhecida voz feminina...

e ao enxergar seu rosto senti como se todo o sangue fosse drenado do meu corpo. Meu coração deu um salto e passou a bater violentamente. Eu não acreditava no que estava vendo. De súbito me veio o desespero, o medo de saber que talvez ele estivesse ali, a acompanhando. Fiquei de pé imediatamente, olhando para os lados tentando reconhecer Daniel entre as centenas de rostos.

Enquanto isso Anika permanecia de pé à minha frente, com o olhar

fixo em minha barriga. Ainda não havia um volume que pudesse deixar óbvia a minha gravidez, pelo menos não por baixo das várias camadas de roupas. Mas o meu gesto de conversar e tocar minha barriga me impediu de negar aquela afirmação.

Sentindo o ciúme me bater violentamente, eu a encarei. Estava

magnificamente bem vestida, o rosto bonito com uma leve maquiagem. Sem dúvida era uma mulher lindíssima.

—Daniel não sabe! Ele não...

Dessa vez não foi o ciúme. Mais uma vez senti o poderoso efeito da

inveja se imiscuindo dentro de mim. Sentia inveja dela por ter reconquistado o amor que um dia foi meu. Odiei ouvir o nome do meu homem através dos lábios dela. Movida por esses sentimentos ruins, eu praticamente vociferei ao responder.

—Não. Ele ainda não sabe, mas vai saber. E eu já aviso uma coisa...

não tente se colocar entre ele e nosso filho ou eu acabo com você.

—O que? — Perguntou atônita, dando um passo para trás. — Mas

por...

Eu a interrompi, erguendo o dedo.

—Daniel sempre sonhou em ser pai. Eu não sei se você pretende dar

um filho a ele também, mas saiba que, eu posso ser a ex esposa, mas nosso filho nunca será ex. Se Daniel quiser assumir o filho, não vai ser você quem vai impedir. Portanto, nem tente.

Eu disse, mas dentro de mim não havia convicção alguma. E se Daniel

não fosse realmente o homem que idealizei todos esses anos? E se ele rejeitasse o próprio filho por causa dessa mulher?

—Que absurdo é esse que está falando?

—Só estou avisando você, Anika. Daniel pode não ter resistido à

paixão por você, mas ele não vai rejeitar o próprio filho.

Eu a vi abrir e fechar a boca várias vezes, o rosto mais pálido e por

alguns instantes eu tive a impressão de ver a dor em seus olhos. Mas quando por fim ela conseguiu falar, não foi nada do que eu esperava... e muito menos entendia o que significava.

—O que não contaram a você?

... continua em Livro III Manhãs de primavera, na narrativa do Daniel,

iniciando no ponto em que foi encerrado o livro I - Tarde de outono.

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Ely Martins

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