Noites de Inverno: Livro II (Coleção As Quatro Estações)
Capítulo 7 · Novembro/2008
Dizem que o tempo é o senhor da razão e à medida em que ele passa, todas as dores, tristezas e saudades vão perdendo sua força. Sempre acreditei nisso também. Não foi assim quando perdi meus pais? Com o tempo a dor perdeu força, restando ainda a saudade e lembranças de um tempo bom, mas que jamais voltaria. No entanto... isso foi bem antes. Hoje em dia, nesse exato momento eu já não concordava com essa bela ilusão. A realidade era assustadoramente diferente, pelo menos para mim.
A dor ia ficando cada dia mais forte e a saudade era um peso que eu já não conseguia segurar sozinha. Parecia que, em vez de seguir em frente, eu estava regredindo. Mas a verdade é que eu estava cansada de ser ou tentar me mostrar forte. Eu não era... não a esse ponto. Não ao ponto de perder o homem que mais amei na vida e seguir sorrindo como se ele tivesse sido apenas uma brisa em um dia quente de verão.
Sei... bem lá no fundo eu sei que não sucumbiria ao amor que sinto por Daniel. Eu não ia cair, mas esse percurso que eu estava sendo obrigada a percorrer de repente me pareceu árduo demais.
Minha intenção, assim que sai de Tromso era voltar para Fort Toment e seguir a vida. Mas a hipótese de encontrar Daniel, e ainda por cima, acompanhado por Anika me fez declinar da ideia. Eu não estava preparada ainda. Mas o pior de tudo isso era não ter nenhuma notícia dele. Eu evitava perguntar, e assim ninguém falava nada. Quando ousei perguntar há alguns dias, Natalie disse que estava tudo bem com todos e mudou de assunto.
Sei que era meio masoquista de minha parte buscar informações, mas além do amor que eu sentia pelo homem, havia o carinho que eu sempre sentiria por ele, meu amigo. Esse medo do que eu ia encontrar e a ausência de notícias fizeram com que eu me decidisse a prosseguir viagem.
Há anos eu não via minha tia, mantendo contato vez ou outra por telefone. Ela sequer pode comparecer ao meu casamento por estar muito doente, e pensando nisso eu decidi passar um tempo perto dela. Meu primeiro pensamento foi ficar em um hotel para não a incomodar, mas quando soube que eu estava indo, ela praticamente me obrigou a aceitar passar um tempo com ela.
Tia Verna sempre foi muito observadora, então logo que cheguei ela percebeu que havia algo de errado comigo. Eu não economizei palavras, contando tudo o que aconteceu desde quando conheci Daniel. E ela, claro, me ofereceu seu colo. Até então eu nem tinha me dado conta do quanto eu precisava daquilo. Foram horas de choro e no final, restou a resignação. Pelo menos eu pensei assim.
A verdade é que provavelmente meu psicológico sofreu um abalo tardio e só agora eu começava a intercalar momentos de alegria com horas de profunda tristeza. Apesar disso, eu estava gostando de passar aquela temporada ali. A casa de tia Verna era espaçosa e a ajudar cuidar das plantas na estufa se tornou uma atividade interessante.
—Sabe... eu acho que você deveria ligar para ele.
—O que? — Perguntei girando o corpo para encará-la. —Para o Daniel?
—Sim. Eu vejo como você fica aflita a espera de notícias dele e decepcionada quando ninguém diz nada. Então ligue para ele.
—Ficou louca? Imagine se ela atende? Eu não vou suportar isso, tia. Não vou mesmo.
—Bom, talvez começar a tocar no assunto por telefone seja menos doloroso que pessoalmente. E uma hora vocês terão que fazer isso.
—É complicado.
Falei voltando a preparar o arranjo de flores como ela tinha me ensinado. Ela possuía uma pequena floricultura conjugada com a casa e ajudar a preparar arranjos também se tornou uma terapia.
—Nós é que complicamos tudo. Se ele quis terminar o casamento para ficar com outra, tudo bem. É um direito dele. Eu não concordo com a forma que ele agiu. E então o que você deve fazer? Falar, externar sua mágoa e assim cada um seguir seu rumo, se for esse o desejo de ambos.
—Não digo que sinto mágoa. Acho mágoa uma palavra muito forte e nociva. Eu fiquei aborrecida, triste... sei lá. Nós sempre confiamos no outro para falar sobre tudo. Eu me pergunto... o que ele estava pensando? Que eu faria uma cena e me jogaria aos pés dele? Se foi isso, fico triste por ele não me conhecer realmente. Porque eu ia sofrer se ouvisse isso dele, tia, mas seria mais fácil aceitar porque pelo menos ia demonstrar que se preocupava comigo. Mas não foi assim.
—Homens são assim mesmo, filha. Metem os pés pelas mãos o tempo todo. Olhe... se seu tio fosse vivo pode ter a certeza de que eu já teria tentado mata-lo várias vezes.
Eu ri alto, me sentando na cadeira para descansar as pernas.
—Mas é mesmo. Eles são do tipo que, se você quiser que eles façam algo certo, deve pedir o contrário, Só assim dará certo.
—Que horror, tia. Daniel não era assim.
—É, mas errou omitindo coisas de você. E errar também não é um crime. Mas não fuja do assunto. Você disse que não sente mágoa... então está no caminho certo para pôr um ponto final nessa história. Sem mágoas, sem ressentimentos, apenas exija que lhe explique o motivo para ter omitido. Mas já vou avisando... não há motivos. Homens são assim... simplesmente. Burros.
Eu ri, mas não concordava totalmente com ela. Mas tentei olhar para dentro de mim, como Laura disse, e busquei por algum indício de mágoa contra Daniel. Não havia. Havia tristeza, desilusão... não sei ao certo. Decepção! Sim. Essa era a palavra ideal.
—Vamos parar para fazer um lanche? Quero descansar minhas costas. Uma velha como eu não pode ficar se arriscando com a coluna ou daqui a pouco estarei igual ao corcunda de Notre Dame.
—Deixa de ser boba, tia. — Falei depois de gargalhar. —Está inteira ainda. Forte, saudável.
—Você é que não me parece nem um pouco saudável. Você emagreceu desde que chegou aqui, sabia? E nem é falta de comida, porque você é boa de garfo.
—Presente da genética.
—É... puxou isso de seu pai que era um comilão, sedentário e tinha um corpo de atleta. Até hoje desconfio que ele se exercitava escondido só para ter o prazer de dizer que aquilo era genética.
Sorri fraco, triste ao me lembrar do meu pai. Em minhas fracas memorias, ele estava sempre sorrindo, brincando comigo e me colocando sobre seu ombro quando íamos para a igreja aos domingos.
—Amanhã vamos a Champs Élysées. Amo demais aquele lugar e será bom para você se distrair.
—Fala isso como se não tivéssemos ido dia nenhum. Mas tudo bem, eu realmente amei aquele lugar.
—Ok... vamos lá então jogar comida para dentro, porque saco vazio não para em pé.
Enquanto comíamos o lanche, eu sentia o olhar de minha tia sobre mim. Aquilo era até interessante, já que ela não tinha papas na língua e ficar me encarando sem dizer nada era no mínimo estranho.
—Fale logo, tia. O que é?
—Falei sério quanto a ligar para o Daniel. Ficar remoendo coisas não vale a pena.
—Não estou remoendo nada.
—Claro que está. Querendo saber o motivo para ele ter mentido para você. Eu já disse... não há motivo. Talvez medo, sei lá. Mas escute, Mel... a vida é muito curta. Um minuto perdido pode custar a vida inteira.
Engoli seco entendendo que ela se referia à minha prima Shanya.
—Vocês não fizeram as pazes?
Ela negou balançando a cabeça.
—Eu guardei tanta mágoa, tanto rancor por ela ter engravidado daquele canalha e fugido com ele para se casar, jogando o nome da nossa família na lama. Quando eu soube que a vida dela não estava boa, eu não estendi a mão, a princípio. Fiz questão de dizer que ela procurou por isso, que ela escolheu seu destino. Eu me preocupava com ela e queria ajudar, mas antes queria magoa-la também. E então quando eu finalmente disse que ela poderia voltar para casa... acontece aquela desgraça.
—Tia... eu sinto tanto. Eu só fiquei sabendo disso tempos depois quando liguei e a Polly me disse.
—Eu fiquei em uma depressão tão profunda que realmente nem pensei em ligar para você, Mel. Desculpe. Ela se foi e eu nem tive a oportunidade de dizer que eu a perdoava. Essa é uma culpa que levarei para o resto da vida. Isso não me faz bem, eu sei, mas é inevitável.
∞∞∞
Eu bem que tentei seguir os conselhos da minha tia, mas ao ligar para Daniel, a ligação foi direto para a caixa postal. Eu não tive coragem de ligar novamente. Agora, encolhida sob as cobertas, eu liguei para Juan.
—Isso está uma loucura, Mel. O movimento cresceu mais ainda. Olhe, você já pode começar a pensar em expandir isso. Às vezes as pessoas saem daqui desconsoladas porque não há nenhuma mesa vazia.
—Que alegria ouvir isso Juan. Assim que eu voltar vamos pensar nisso.
—Sim. Um bom engenheiro poderá nos auxiliar e...
Ele se calou, talvez se dando conta do que tinha acabado de dizer. Essa foi minha deixar para fazer a pergunta que estava entalada em minha garganta.
—Juan, você tem visto o Daniel?
—Desculpe, Mel. Esqueça o que eu falei. Mas a gente pode...
—Juan! — Eu o interrompi. —Não fuja do assunto, inferno. Parem de tentar me proteger de tudo. Eu não quebro, sabia? Tem ou não visto o Daniel?
—Não. Eu só ouvi dizer que ele está viajando.
—Ah...
Eu engoli seco e me acovardei. Talvez ele estivesse viajando a trabalho. Mas o pesar na voz de Juan me deu a impressão de que ele estava viajando com ela. Ou eu estava imaginando coisas? A notícia me abalou mais do que eu esperava. Então era por isso que Natalie andava tão reticente durante minhas ligações?
Eu mal me despedi de Juan e joguei o celular ao chão, girando na cama e enterrando meu rosto no travesseiro para abafar minhas lágrimas. Chorei por horas até dormir.
Mas na manhã seguinte, ainda com os olhos inchados, eu tomei uma decisão. Dias atrás eu vi algo a respeito de um curso com um dos chefes mais requisitados de Paris. Seria interessante aprender coisas novas e quem sabe implantar na Sweet. O curso teria duração de trinta dias, ou seja, após o Natal eu já poderia voltar para Fort Toment e enfrentar a minha realidade.
∞∞∞
As noites eram as piores...bem piores. Eu me sentia uma atriz. Durante o dia eu sorria...gargalhava e conversava naturalmente como se felicidade fosse uma constante em minha vida. Mas quando chegava a noite eu abandonava o palco, tirava a máscara e revelava minha alma para as paredes do quarto. Como imaginei, eu estava regredindo. A dor que eu sentia sempre que pensava em tudo o que perdi vinha com força total.
Ha três dias eu comecei o curso com o famoso Jean-Louis Delacroix, e embora eu estivesse bastante entusiasmada, ainda não era o suficiente para dizer que eu estava seguindo em frente. A dor e a saudade eram minhas companheiras. Nunca as noites me pareceram tão longas e frias.
Essa era mais uma noite em que eu me encolhia na cama...solitária. Quase vazia. Como se minha alma estivesse vagando por aí e restasse apenas meu corpo aqui.
Eu ouvi o toque na porta que foi aberta em seguida, não me dando oportunidade de secar minhas lágrimas e muito menos fechar os olhos na tentativa de fingir que dormia. Minha tia entrou no quarto segurando uma caneca e se sentou na beirada da cama.
—Ah minha filha...
Falou consternada, colocando a caneca sobre o criado e me puxando para os seus braços. Não me segurei e o soluço ecoou pelo quarto como se fosse um abre alas para as lágrimas abundantes.
—Chore, querida... vai fazer bem.
Por alguns minutos eu apenas me permiti chorar nos braços da minha tia, que alisava meus cabelos, mas respeitando minha dor e permanecendo em silêncio.
—Eu sinto tanta falta dele, tia... tanta.
—Querida... eu realmente não sei que conselho dar a você. Mas uma coisa eu posso dizer. Você precisa se cuidar. Você não está se alimentando direito, só vai dormir bem tarde. Pensa que não ouço lá do meu quarto?
—Não sinto vontade de nada.
—Mas precisa fazer um esforço. Tome... —Esticou a mão e pegou a caneca e me entregou. —Beba esse chocolate quente. Não há nada melhor para curar uma depressão e essa eterna TPM.
Meu olhar parou nela por um instante e em seguida eu peguei o que ela me oferecia, embora tivesse a certeza de que não seria isso a me libertar desse estado.
Capítulo 8
Dezembro/2008
O primeiro dia de dezembro chegou me tirando o chão completamente. O envelope em minha mão parecia pesar uma tonelada e tudo o que eu queria agora era chegar na casa da minha tia e me jogar na cama, chorando descontroladamente como eu vinha fazendo nos últimos dias.
Um ou outro transeunte me parou, perguntando se eu estava bem ou se precisava de ajuda. Eu estava bem? Eu não sei! Minha cabeça estava cheia, eu não tinha condições de pensar com clareza. Eu tinha toda a Champs Elysees à minha frente, com sua beleza quase ultrajante a presentear meus olhos. Olhos que não viam. Olhos nublados e inchados.
Eu não sei a que horas cheguei em casa e muito menos como cheguei. Se esbarrei com minha tia pelo caminho, certamente a ignorei. Fui direto para o quarto que vinha ocupando desde que cheguei, e, ainda, com lágrimas escorrendo pelo rosto, eu tirei minha roupa, sem me preocupar com frio. Eu estava tão anestesiada que provavelmente nem a temperatura seria capaz de me despertar.
Entrei sob a ducha, e ali, debaixo dela, eu me agachei apoiando os braços em meus joelhos e colocando a cabeça entre eles. Meu corpo foi sacudido por soluços. Como ainda podia existir lágrimas? O que eu tinha feito nas últimas semanas ao chegar em casa a não ser chorar? Meus olhos viviam inchados e as olheiras eram impossíveis de disfarçar mesmo com quilos de maquiagem.
Somente quando minha cabeça começou a latejar um tempo depois, eu me levantei com dificuldade, me apoiando na parede e por fim tomei meu banho. Depois de me vestir com calça e camisão de moletom, calcei as meias grossas que ganhei de tia Verna e sequei meus cabelos com a ajuda do secador.
Tudo automático, como se eu estivesse programada para fazer apenas aquilo e nada mais. Através do espelho eu vi o envelope sobre a cama e fechei rapidamente os olhos. Mas me levantei e o peguei, colocando sobre o criado, me deitando na cama e passando os braços à minha volta.
Num ato impensado, eu peguei meu celular e liguei para Daniel. Senti vontade de atirar o celular na parede ao perceber que mais uma vez caía direto na caixa postal. Que merda estava acontecendo? Ele mudou o número para que eu não ligasse para ele? A raiva explodiu em mim e digitei com força desnecessária o número da casa dos pais dele. Foi Natalie quem atendeu e eu precisei de todo meu esforço para não fazer nenhuma grosseria com ela.
—Natalie, sou eu... Mel.
—Oi Mel. Como você está? Estamos com saudades.
—Onde está o Daniel?
—Daniel? Eu... eu não...
—O que vocês estão me escondendo? Ele não quer falar comigo, não é? Toda vez que eu ligo dá caixa postal. Ele mudou o número para não ter que falar comigo, é isso?
—Mel, querida... claro que não.
Mas eu estava beirando o descontrole. Não queria mais conversa, não queria ouvir o nome de Daniel. Nunca mais.
—Está tudo bem, Natalie. Eu já entendi. Adeus.
—Mel...
Eu desliguei o celular, enfiando meus dedos em meus cabelos e balançando a perna incontrolavelmente. Ouvi o toque do celular, mas ignorei. Eu não queria mais falar com ninguém. Eu só queria ficar sozinha... sozinha!
∞∞∞
O dia estava deliciosamente frio. Através da janela era possível ver os flocos de neve caindo, transformando a paisagem, anunciando a proximidade do Natal. Ainda faltavam mais de vinte dias, na verdade, mas dezembro inteiro para mim significava Natal.
Mas nem mesmo a bela paisagem provocada pela minha estação preferida do ano era capaz de trazer algum alívio ao meu coração. Nada poderia curar a dor que eu sentia. Meus olhos vermelhos e inchados ardiam pelas longas horas de choro... ou melhor, dias de choro. Ainda não sei como encontrei forças para continuar sentada no sofá da sala, enrolada em um cobertor... vendo o fogo crepitando na lareira. Eu sentia falta da nossa casa, da nossa varanda onde sempre nos deitávamos na rede, mesmo nas noites frias. Eu sentia falta dele.
E quando eu estava aqui, sem a presença da minha tia, eu me sentia mais só do que nunca. Queria voltar para Fort Toment, afinal eu tinha um negócio próspero que não podia mais ser negligenciado, apesar de saber que Juan cuidava de tudo muito bem. Mas voltar para lá significava rever Daniel.
De uma forma meio masoquista, eu tentava imaginar como ele estaria agora. Aquela mulher também se encolhia nos braços dele se sentindo imediatamente aquecida? Ela fechava os olhos completamente deleitada enquanto ele acariciava seus cabelos? Ela fingia dormir para que ele a levasse nos braços até a cama?
Eu forcei minha mente a se desligar completamente. Eu não 'podia imaginar os dois na cama... na nossa cama. Na mesma cama em que ele me amou por incontáveis noites, tardes e manhãs. Meu Deus... por quê? Doía... doía muito. E agora tudo parecia muito pior.
No entanto, eu aprendi que ninguém, ser humano ou não, vive feliz se estiver se sentindo preso. Sei que de alguma forma, Daniel me amava. Mas em um relacionamento nem sempre o amor é o alicerce. Entre nós não havia mais cumplicidade, não havia mais companheirismo. Mesmo quando ele estava batalhando para conquistar tudo o que tinha, Daniel jamais chegou em casa tão tarde. Ele fazia questão de passarmos algumas horas juntos.
E tudo isso mudou quando aquela mulher retornou à vida dele. Eu a odiava. E não era ódio por ela ter me roubado o homem que eu amava porque ela não fez isso. Ela não o roubou, pelo menos não totalmente. Eu o deixei ir. Mas eu a odiava por ser quem ela era. Alguém que o desprezou e o chutou sem a menor consideração. Alguém que só pensava em status e dinheiro.
Hoje, Daniel era um homem bem de vida... e assim conseguiu conquista-la. Mas por Deus, será que ele não percebia que ela só se interessava pela posição dele agora?
Se eu o perdoava? Claro que sim... há muito tempo. Ele não me traiu e eu tenho certeza disso. Pelo menos, não fisicamente. Mas ninguém manda no próprio coração. E com ele não poderia ser diferente. Finalmente Daniel ia poder viver o seu grande amor da adolescência. Eu sai de cena para que outra protagonista, o amor de sua adolescência ocupasse meu lugar. Ou melhor, ela estava retornando ao seu lugar.
E eu? Eu seguiria meu caminho, sozinha como estive por muito tempo. Eu ia seguir em frente, porque como eu disse a ele certa vez: ninguém morre por amor. E eu não seria a primeira. Sei que não seria fácil porque eu o amava muito..., mas eu também me amava.
Eu me repreendi por causa desses pensamentos logo em seguida. Como eu poderia dizer que estava sozinha? Eu não estava sozinha e nunca mais estaria. Eu explodi em lágrimas novamente e foi nesse momento que tia Verna chegou, me olhando cheia de piedade.
—Oh Mel... estou preocupada com você. Eu não sei o que fazer para te ajudar. Estou com medo que você desenvolva uma depressão e...
Eu a interrompi.
—Eu estou grávida.
—O que? — Ela caiu sentada no sofá com a mão no peito. — Oh meu Deus... então está explicado tudo isso que vem passando. Mas espere...há quanto tempo?
—Vou entrar na nona semana.
—Oh meu Deus... quase três meses! Como você não percebeu nada, Mel?
—Não sei, tia. Eu nunca fiquei grávida antes. E além do mais, em outubro quando estive na Noruega eu menstruei. Como eu poderia adivinhar?
—Mas alguma mudança em seu corpo, nos seios, cintura... enjoos?
—Bom, depois que vi o resultado do exame eu fui me olhar no espelho e notei algumas mudanças. Mas não senti enjoos, tonturas... nada.
Tia Verna ficou me olhando por um longo tempo sem dizer nada. Eu já estava começando a ficar incomodada quando ela abriu um sorriso largo.
—Sua sortuda. Com sua mãe foi a mesma coisa. Mel!
Ela me abraçou com força e depois colocou a mão em meu ventre.
—E eu pensando que esse choro todo era pelo Daniel.
—Mas era por ele.
—Mas ficou tudo mais intenso por causa dos hormônios da gravidez e....
Ela se calou abruptamente, mais uma vez me encarando com aquele olhar avaliativo. Eu já imaginava o que estava se passando pela cabeça dela.
—Eu vou contar a ele, tia.
—Tem certeza?
—Óbvio! Eu nunca esconderia isso. Estávamos planejando um bebê, tia. Daniel vai adorar saber que vai ser pai. Eu não sou o tipo de mulher que esconderia um filho, e muito menos o usaria para chantagear o pai.
—E se ele quiser voltar para você por causa desse bebê?
Eu baixei o olhar, observando minhas mãos cruzadas sobre o colo. Era uma possibilidade. Nojenta, mas era. Mas eu tinha certeza de que isso não aconteceria... ou quase certeza.
—Se isso acontecer, tia, então eu terei a certeza de que nunca o conheci verdadeiramente.
—Eu não esperava outra coisa de você. Quer dizer então que vai me abandonar?
—Não fale assim. Apesar de minhas noites depressivas, passei bons momentos aqui. Mas eu fico para o Natal. Vou terminar o curso e então volto para casa. Daniel precisa saber que vai ser pai. Tenho certeza de que vai querer acompanhar cada etapa dessa gravidez.
—Tem ideia da dádiva que recebeu, filha? Um bebê com o homem que
você ama, mesmo com toda a crise que estão vivendo. É o sol depois da tempestade.
—Depois não, tia. Durante.
Porque aquela tempestade estava longe de terminar. Eu só temia que
Anika tentasse impedir Daniel de conviver com o filho. Eu não ia lutar pelo amor dele, se ele não o quisesse mais, mas eu tinha todo o direito de lutar para que meu filho tivesse a atenção do pai. Disso eu não abriria mão. A não ser, é claro, que até sobre isso Daniel tivesse mudado de ideia. Ai, como disse à minha tia, eu ia perceber que eu nunca o conheci... e o riscaria de vez da minha vida.
∞∞∞
Nua, em frente ao espelho, eu passava a mão pelo meu ventre. Girei de
um lado a outro, observando as sutis mudanças que antes eu não conseguia perceber. Sem que eu me desse conta, já estava chorando deslizando a mão pela barriga. Agora era diferente. Era um choro de emoção.
No dia anterior, quando recebi o envelope com o resultado do exame
eu fiquei atordoada e por isso caminhei pela bela avenida de Paris sem enxergar nada. Além de não acreditar na minha ingenuidade por não ter percebido a gravidez, eu pensava na crueldade da vida. Daniel e eu estávamos tentando ter um filho. Um filho que veio no momento em que ele se foi. E pelo tempo de gravidez, não havia dúvida de que nosso filho foi concebido na última noite em que fizemos amor. Na noite em que Daniel chorou junto comigo, mesmo sem saber que aquela era uma despedida.
—Meu bebê...
Eu senti uma dor no peito, mas bem diferente do tipo de dor que eu
vinha sentindo. Era uma dor gostosa, como se meu peito fosse pequeno demais para abrigar meu coração. Pequeno demais para abrigar todo o amor que eu já sentia pelo meu bebê.
Sorrindo, eu tentei imaginar a carinha dele. Parecido com o pai?
Comigo? Uma mistura de nós dois? Senti vontade de correr e pegar o celular para dar a notícia a ele. Não ia conseguir esperar o fim do mês. Meu sorriso murchou ao me lembrar que ele não me atendia. Eu engoli seco, piscando para dispersar as lágrimas que ousavam se acumular em meus olhos.
—Meu Deus... será que me enganei tanto com ele?
Eu peguei o celular e liguei para Daniel. Uma... duas vezes e apenas
caixa postal. Pensei em ligar para Juan, mas sabia que ele me diria palavras vagas. Ligar na Construtora estava totalmente fora de questão, principalmente por causa do horário.
—Droga, Daniel... não me decepcione mais, por favor.
Falei guardando o celular e novamente acariciando a barriga. Mas se
ele reagisse mal à essa notícia, eu só poderia lamentar por ele. Não ia exigir nada, não ia brigar, não ia implorar. Sou mulher o suficiente para cuidar do meu filho sozinha. Para dar amor e carinho. Se ele recusasse esse presente que a vida nos deu, seria ele o grande perdedor.