Noites de Inverno: Livro II (Coleção As Quatro Estações)
Capítulo 5 · Setembro/2008
Nos últimos sete anos, nunca passei as noites sozinha. Nem mesmo nos dias em que Daniel saía da cama, perturbado com sua insônia, pois em determinado momento ele se deitava ao meu lado. E agora eu estava aqui, sozinha, mas sentindo meu corpo mais leve e desperto depois de descansar das mais de dez horas de viagem.
Acordei sem saber em que dia estava e ainda meio perdida devido ao fuso horário, que nem era uma diferença tão grande, mas o suficiente para mexer com meu organismo. Conferi a data e hora no relógio sobre o criado do quarto de hotel, constatando que eu estava em Tromso há dois dias.
Eu me levantei e segui para o banheiro, onde me joguei em um longo banho de imersão, fechando os olhos e libertando minha mente de qualquer outro pensamento que não fosse a água quente envolvendo meu corpo. Tentei não me abalar também com o clima da cidade. Foi mesmo uma decisão precipitada vir para cá nessa época do ano.
Ainda era outono, mas o termômetro no banheiro do hotel acusava dez graus. Mas para quem já sentia o inverno dentro de si, o que seria enfrentar o frio lá fora? Minhas roupas eram suficientemente quentes para suportar.
Não desanimei e após o banho e tomar o café da manhã do hotel, eu finalmente sai para apreciar o que não pude quando cheguei há dois dias. Confesso que ofeguei ao sair e contemplar a bela paisagem. À frente do hotel o gramado bem cuidado, com árvores medianas e artisticamente podadas. Mas o que me impressionou mesmo foi o exuberante lago Nodland bem à frente.
Eu desci as escadas, passando pelo caminho até a travessia que me deixaria de frente para o lago. Passei os braços em volta do corpo, sorrindo satisfeita ao sentir a leve brisa que foi o suficiente para desarrumar meus cabelos. Eu precisava voltar para o quarto e pegar a máquina fotográfica para registrar cada canto daquele belíssimo lugar.
Porém, antes que eu me afastasse, percebi a aproximação de um grupo de turistas, e pelo que entendi vinha de Nova York. Eu me animei com a possibilidade de conversar com pessoas que falavam a mesma língua.
Eu mal tinha me aproximado e o rapaz que servia como guia sorriu acenando e me convidando a fazer parte do grupo. Eu aceitei de imediato, afinal eu estava aqui para me distrair. Eu não podia dar chance a minha mente de voltar meus pensamentos para Fort Toment... ou para minha casa... para Daniel.
Porém, horas mais tarde, já de volta ao hotel, eu descobri que trabalhar minha mente era mais difícil do que eu pensava e que somente o tempo se encarregaria de fazer com que meus pensamentos voassem por outros ares. A cada lugar que visitávamos, eu pensava em como Daniel ia adorar apreciar tudo aquilo. Que bobagem a minha. Provavelmente ele estava muito satisfeito agora, ao lado da mulher que ele desejava.
Será que já tinha encontrado o envelope que deixei para ele? Ele tinha entendido que o que fiz foi o melhor para nós dois? É o que ia evitar que nos magoássemos, e assim impedindo que manchássemos o relacionamento bonito que cultivamos por tantos anos. Não vou dizer que estava sendo fácil levar as coisas dessa forma. Doía... doía muito. E o que doía nem era tanto os acontecimentos que culminaram com essa situação. O que doía mesmo era a ausência... a saudade de um tempo incrível que marcou a minha alma.
Eu passei as mãos no rosto no mesmo instante em que ouvi a voz ao meu lado. Um dos homens que estava no grupo de turista estava sentado ao meu lado com um sorriso cativante.
—Esse lugar tem uma das paisagens mais lindas do mundo. Imagino que esteja chorando de emoção?
Eu ri e neguei balançando a cabeça, mas também não disse nada que incentivasse um diálogo. Porem ele não pareceu acanhando com meu desinteresse.
—Bom, imaginei mesmo que não fosse. É um choro triste e não de emoção. Sabe... chorar é bom. Desafoga, liberta e assim temos melhor capacidade de analisar todos os ângulos de uma situação e consequentemente lidar melhor com ela.
—Uau... — Falei realmente admirada com as palavras dele e então estendi minha mão. — Muito prazer. Melanie.
—Frederick. Muito prazer, Melanie. Mas então... de onde você é?
—Fort Toment.
—Ah... cidade encantadora. Eu a conheço. Estive lá algumas vezes. Eu sou de Nova York, mas confesso que preferia a calmaria de uma cidade menor como Fort Toment.
—Sim, eu gosto muito. Acho que não me vejo morando em outro lugar... ou não me via. Agora já não sei.
Ele me encarou com seus escandalosos olhos castanhos e assim ficou por um tempo, até que eu desviei meu olhar, um pouco incomodada.
—Desculpe. Só estava tentando ler você.
—E conseguiu decifrar alguma coisa?
—Sou muito intuitivo. Pela sua tristeza e melancolia eu diria que é saudade. Mas por estar sozinha e com uma aliança no dedo, eu imagino que seja bem mais que saudade. Ah essas dores de amor... conheço bem.
—Também trocou sua mulher por outra?
Falei com amargor e o vi arquear a sobrancelha, visivelmente surpreso.
—Foi o que aconteceu a você? Quer dizer... não precisa falar, se não quiser. Mas é que, como chorar, falar também ajuda.
Eu encarei o homem de cabelos grisalhos, algumas rugas ao redor dos olhos quando sorria. Um sorriso cativante e caloroso. Eu não costumava me abrir com estranhos. Quase nunca fazia isso, mas talvez eu estivesse mesmo precisando desabafar. Desde que tudo começou, eu falei apenas com Juan e Natalie e mesmo assim não entrei em muitos detalhes.
—Foi o que aconteceu comigo.
Eu me abri, revelando a um completo desconhecido tudo o que me aconteceu nos últimos meses. Vez ou outra minha voz ficava embargada e ele colocava a mão sobre a minha num gesto de conforto. Estava tão distraída perdida em minha narrativa que não notei quando uma jarra de suco foi colocada à nossa frente. Frederick nos serviu e eu parei um pouco meu monólogo e bebei um pouco do suco.
—Então é isso.
—Muito altruísta de sua parte. Mas e agora? O que restou aí? Um coração cheio de mágoa e aquele desejo de fazê-lo sofrer muito quando voltar com o rabo entre as pernas?
A ideia passou rapidamente pela minha mente e me causou tanto repúdio que não segurei uma careta.
—Por que eu faria isso?
—Por que não? Aquela velha história... o cara tinha a vida que nem ousou pedir a Deus e jogou fora por causa de uma paixão adolescente. Mentiu, magoou... por que não o fazer sofrer um pouco quando o arrependimento bater à sua porta?
—Porque isso seria ridículo. Olhe... Daniel realmente me magoou, me deixou triste por não ter confiado em mim, ter se distanciado. Mas eu não posso apagar tudo o que vivemos nesses sete anos. Daniel foi meu amigo, meu companheiro, meu amor. Um erro dele não pode apagar tudo de incrível que ele fez por nós.
—Você disse exatamente o que eu estava torcendo para ouvir. As pessoas costumam viver com o coração cheio de rancor demais e quando algo assim acontece, elas só pensam em pagar na mesma moeda. Isso é estúpido de tantas formas que fico irritado só de pensar. As pessoas apontam e julgam como se fossem o próprio Deus. Batem no peito como se fossem gorilas e dizem que se fossem com elas nunca perdoariam.
Eu ri debochadamente balançando a cabeça.
—Como se elas nunca tivessem errado na vida. Todo mundo, um dia vai errar, vai magoar alguém, mesmo que sem intenção.
—Exatamente. Não existe isso de erro mais ou menos grave. Um erro é um erro e sempre vai ferir a outra parte. Você pode até não o aceitar de volta, caso isso aconteça, mas daí a querer fazê-lo provar do mesmo veneno? Completo absurdo e sabe por que? Ele errou muito, como você mesma disse. Isso faz dele um monstro? Não... isso faz dele um ser humano. Falho. Seres humanos erram. Eu erro, você erra. Nós erramos o tempo todo. Será que gostaríamos de ter o dedo apontado para nós sempre que errarmos?
—Sinceramente eu nunca pensei assim. Eu sei que também erro e que Daniel relevou tantas vezes que eu sequer me dei conta de que estava errando. Eu só sinto uma tristeza muito grande por ele não ter usado o que tínhamos de melhor que era nossa lealdade. Mas... quem sou eu para julgar? Quem garante que se fosse eu no lugar dele, teria feito diferente?
—Muito bem... é isso mesmo. É fácil falar quando não somos nós no banco dos réus. A teoria é a coisa mais linda do mundo. Mas a prática...
Ele fez uma careta e se calou enquanto bebia seu suco. Eu o observei com curiosidade, percebendo pela sua maneira de se comportar que era alguém bem de vida, financeiramente estável e provavelmente vindo de uma boa estrutura familiar. Quantos anos ele teria? Eu diria que uns cinquenta, no máximo. Até então eu não tinha prestado muito atenção nele e só nesse momento vi a aliança em seu dedo. Ergui meus olhos para ele, que me encarava com um sorriso brincalhão. E eu entendi tudo.
—Isso aconteceu com você, não foi?
—Sim. Minha história é bem parecida com a sua.
—E o que você fez?
—Eu me arrependi meia hora depois. —Falou e gargalhou. —E felizmente, minha adorada Laura é tão incrível quanto você. Não voltamos imediatamente... ela quis ter certeza dos meus sentimentos. Mas sem jogadas, sem artimanhas para que eu sofresse como ela. O amor não pode ser um jogo. Nunca.
—E sua Laura está com você?
A expressão dele murchou um pouco, como se estivesse triste, sofrendo.
—Sim. Ela foi se deitar um pouco. Está... doente.
—Oh... espero que ela se recupere logo.
—Sim, ela vai. Não permito que me abandone assim tão fácil, afinal são quarenta e cinco anos de casados.
—Quarenta e cinco? — Eu quase gritei chocada demais para acreditar. — Você tem quantos anos, afinal?
—Sessenta e cinco.
—O que? Está brincando comigo? Meu Deu... eu daria quarenta e cinco no máximo.
—É meu tempo de casado, como disse. Mas pelo visto foi um elogio, então obrigado.
—Gente... é uma xícara de formol de manhã e à noite?
Ele riu alto mais uma vez e acabei rindo com ele. Imediatamente minha mente tentou projetar a imagem de Daniel aos sessenta e cinco anos. Não consegui, mas certamente estaria com sua beleza madura e atraente como sempre foi.
Nós conversamos mais um pouco e então ele se despediu, prometendo que no dia seguinte levaria a esposa para que eu conhecesse.
—Você é uma boa mulher. E é por isso que ele vai voltar.
Ele já estava se afastando, quando se virou sorrindo.
—Se é que ele realmente foi.
∞∞∞
Meu primeiro dia realmente acordada em Tromso foi bem melhor que imaginei. Pensei que ficaria chorando em cada lugar visitado me lembrando de Daniel. Claro que pensei nele boa parte do tempo, mas me diverti também.
Mas agora, às dez da noite, deitada na cama com a televisão ligada, foi inevitável não me lembrar de nosso quarto, de nós dois juntos na cama. Conversando, fazendo contas... ou amor. Girei de lado, encolhi as pernas e o choro veio fácil, assim como as lembranças de nossa última noite juntos. Noite em que ele chorou comigo, não sei se tristeza, arrependimento... não faço ideia.
Novamente a dor estava presente, apertando meu peito, fazendo meu coração bater forte e as lágrimas aumentarem. Estiquei a mão pegando o celular, pela primeira vez tendo coragem de ligar o aparelho para conferir se havia alguma ligação.
Foi inevitável o bater ainda mais acelerado do coração ao ver tantas ligações de Daniel, outras da casa de Natalie, da minha casa e da Sweet. Mas o que mais mexeu comigo foi perceber que a última ligação feita por Daniel foi há menos de meia hora.
Eu me levantei com o celular na mão e segui para o terraço de madeira com balaustradas, que me oferecia a estupenda visão do Nodland. As luzes incidindo sobre ele eram de tirar o fôlego. E eu quase pude sentir Daniel atrás de mim, me abraçando pela cintura apreciando o espetáculo.
—Ah Daniel... como eu queria ter você aqui.