Noites de Inverno: Livro II (Coleção As Quatro Estações)
Capítulo 9 · Dezembro/2008
Impossível segurar minhas lágrimas ao pensar na ironia da situação.
Durante muitos anos após a morte dos meus pais eu me abstive de comemorar os Natais. Comemorar o que, com quem e para quê? Essa era uma data em que a maioria ficava ao lado da família, e embora tia Verna sempre me convidasse, eu preferia ficar sozinha. Não havia mais sentido naquela comemoração.
Com o tempo eu fui me acostumando e para ser sincera, ficar sozinha
nessa data chegava a ser reconfortante. Não havia abraço, não havia troca de presentes... apenas meus pensamentos, desejando poder trocar todos os presentes que já tinha recebido por ter meus pais novamente.
Mas então tudo mudou quando conheci Daniel. No primeiro natal
como amigos, eu, como sempre me recolhi, ficando em casa curtindo solidão. Porém meu novo amigo não quis assim. Ele foi até mim e me convenceu a criar novas lembranças de novos natais. E foram seis natais ao lado dele e dos meus sogros. Eu finalmente voltava a enxergar a beleza daquela data e realmente criei novas lembranças. Essas ficariam gravadas em minha mente e meu coração eternamente.
E agora, vinha a ironia da vida. Justamente o homem que fez reviver
em mim aquela chama do espírito de natal... não estava mais comigo. E era por isso que eu chorava agora, com as duas mãos sobre minha barriga, triste e feliz ao mesmo tempo. Estranho, eu sei, mas eu sentia a melancolia de reviver os últimos natais com a felicidade de saber que nos próximos eu não estaria sozinha. Apesar de tudo, Daniel me deu o melhor presente que já recebi sem ao menos se dar conta disso.
—Obrigada por isso, meu amor.
Eu falei baixinho, os olhos baixos fixos em minha barriga ainda sem
qualquer sinal aparente de um bebê crescia ali dentro. Passei as costas da mão sob os olhos, secando as lágrimas e me sentei de lado na cama, observando o luxuoso álbum que recebi de presente de Frederick e Laura. No dia seguinte à descoberta da gravidez, eu liguei para meus novos amigos e contei a novidade. Até cheguei a ser convidada a passar o Natal com eles, mas preferi ficar com minha tia, afinal era minha única família.
Minha prima Polly já tinha chegado de Londres com seu marido Kevin
e o filho Ben, que vinha alegrando meus dias há uma semana. Eu me divertia com o garotinho de cinco anos e muitas vezes me peguei pensando se o meu seria tão esperto, saudável e cheio de vida como ele. No dia anterior, em companhia da minha prima fui fazer as compras de Natal, e claro, não me esqueci de presentes para meus funcionários e meus sogros. Apenas para ele não comprei nada. Eu nem fazia ideia de como eu seria tratada por ele quando nos reencontrássemos.
Novamente fui bombardeada por pensamentos estúpidos, tentando
imaginar se ele estava feliz, se tinha mesmo decidido seguir seu coração e viver sua paixão. Assim, eu parei para pensar que eu não sabia nada a respeito daquela mulher. Abandonou Daniel há mais de sete anos e agora voltou para reconquistá-lo. O que ela fez durante todo esse tempo? Ela não se casou? Por que voltar justo agora?
Movida por súbita curiosidade, eu me levantei e fui até a mesa onde
estava meu notebook. Eu me lembro de Daniel ter dito, assim que nos conhecemos, que Anika era uma modelo, mas eu não sabia até que ponto era famosa. Não era o tipo de notícia que eu acompanhava e tenho certeza de nunca ter ouvido seu nome como pessoa famosa.
Eu aguardava o notebook iniciar quando ouvi uma batida na porta e em
seguida Polly entrou com as mãos cheias de sacolas.
—Embalar presentes!
Eu sorri e fechei o notebook, vendo a expressão envergonhada dela.
—Desculpe. Está ocupada?
—Não... estava apenas passando o tempo. Adoro embalar presentes.
—Ótimo.
Jogou as sacolas sobre a cama e voltou para trancar a porta.
—Ben adora ficar bisbilhotando. Mas e aí? Como está se sentindo
hoje?
—Ótima.
Respondi enquanto pegava uma sacola. Dois dias após a novidade da
gravidez, eu fui à minha primeira consulta de pré-natal. Vários exames foram solicitados, algumas vacinas e vitaminas foram receitadas. Às vezes eu ainda me perguntava se tudo aquilo estava realmente acontecendo. Tantas conversas, tantos planos para quando eu engravidasse e no momento da descoberta eu estava sozinha.
Até alguns dias atrás eu não tinha tido nenhum dos sintomas de uma
gravidez, exceto algumas tonturas dias atrás. Mas agora eu começava a sentir meus seios doloridos, de vez em quando um formigamento em meus mamilos. Fora isso, tudo o que eu sentia era... plenitude. Aos poucos a ideia de ter um bebê dentro de mim ia criando mais força e eu me via cada vez mais extasiada com isso.
— Que bom. Eu me senti tão mal na gravidez do Ben... meu Deus. Às
vezes eu achava que ia vomitar algum órgão. Nada parava no estômago... foi horrível.
—Mas e o parto foi tranquilo?
—Foi o esperado para uma primeira gravidez. Mas nem comece com
neuras a respeito disso. No final, quando estiver com seu bebezinho você se esquece de tudo.
—Não estou pensando nisso por enquanto. Vou viver uma etapa de
cada vez.
—Isso mesmo. Mas... e o pai do bebê? Mãe disse que estão separados.
—É... aconteceram algumas coisas que... —Dei de ombros sem saber
como falar sobre isso. —Eu precisava me resguardar, cuidar do meu coração.
—Mas vai contar a ele, não é?
—Sim, claro. Daniel estava louco para ter um filho. Não gosto dessa
ideia de um homem não saber que será pai. Aliás, já estou ficando incomodada por contar a ele quando já estiver entrando no quarto mês.
—É... mas ele terá muito tempo para curtir a gravidez com você. Vai
ter tempo de ver a barriga ir crescendo, além de sentir os primeiros movimentos. É a sensação mais incrível do mundo.
Eu sorri, já ansiando por esse momento.
∞∞∞
Por mais que eu tenha tentando não demonstrar tanta melancolia, sei
que falhei miseravelmente. Mas foi impossível controlar. Era noite de Natal e estávamos em volta do belíssimo presépio que tia Verna e eu montamos. Enquanto ela fazia suas orações e agradecimentos, eu fechei meus olhos me lembrando dos natais passados. Daniel sempre permanecia com a mão presa à minha enquanto Natalie e Nolan rezavam. Nossos olhos se conectavam e ele sempre sorria para mim.
Polly afagou levemente minhas costas ao perceber como eu estava
abalada naquele momento. Ofereci um sorriso entre lágrimas, dizendo a mim mesma que era apenas uma longa tempestade que logo chegaria ao fim.
Horas mais tarde participamos da ceia e trocamos presentes. Eu chorei
emocionada quando recebei o conjunto de macacão, sapatinhos e manta em tom branco e amarelo dados por tia Verna. Era a primeira roupinha do meu bebê, porque embora eu tivesse tido o impulso de entrar numa loja para comprar alguma coisa... eu queria fazer isso com Daniel. Tenho certeza, que mesmo se estivesse com a outra, ele faria questão de participar disso tudo. E eu não ia o impedir de nada.
Passava um pouco da uma e meia da manhã quando eu me despedi de
todos e fui para o meu quarto. Era a primeira vez que dormia tão cedo no dia de Natal. Porém, antes de me deitar, eu fiz o que meu coração mandava. Eu já tinha ligado para Juan horas mais cedo, e agora ia ligar para Natalie, sabendo que ela sempre acordava cedo, não importava o dia. Já eram sete e meia da manhã em Fort Toment e não seria tão deselegante ligar a essa hora. Natalie atendeu ao primeiro toque.
—Bom dia, Natalie. Espero não a ter acordado.
—Mel! Oh minha querida, que saudade. Não... eu já estava acordada há
um bom tempo. Como você está?
—Estou bem. Estou ligando para desejar Feliz Natal a vocês e dizer
que senti muita falta de todos.
—Minha filha... também sentimos muito a sua ausência. Desejo um
feliz Natal para você também. Que todas as bênçãos recaiam sobre você. — Eu já estava chorando antes mesmo de ela terminar de falar. — Oh meu Deus, sim, querido... Seu sogro insuportável está mandando um abraço bem apertado.
—Mande outro para ele. Amo muito vocês.
—Nós te amamos também. E estamos esperando sua volta.
—Irei no final dessa semana, Natalie.
—Que maravilha. Essa é realmente uma notícia maravilhosa.
—Bom, eu só queria mesmo desejar feliz natal. Foi... foi difícil passar
essa data longe de vocês.
—Foi a mesma coisa aqui. Nolan e eu fomos deitar às dez da noite...,
mas, enfim, ligue assim que chegar está bem? Eu irei visita-la... ou venha até nós.
Mas minha mente já estava focada em outra coisa. Como assim foram
deitar às dez da noite? Sempre fizeram questão de fazer a orações à meia noite. Era por causa de Daniel? O que diabos ele pensava que estava fazendo?
—Natalie..., mas e as orações à meia noite?
—Fizemos mais cedo dessa vez e fomos nos deitar. Estávamos
cansados.
—Mas... e Daniel? Natalie, não minta para mim... ele não passou a
noite de Natal com vocês?
—Não. Mas ele...
Eu fechei meus olhos com força e inspirei, tentando a todo custo não
fazer um pré-julgamento. Eu não fazia ideia de como as coisas ficaram depois que sai de lá, portanto eu não tinha direito de jogar pedra. Eu precisava entender o que estava se passando.
—Olhe, não precisa dizer nada. Nós vamos conversar quando eu
chegar aí está bem?
—Está bem, filha, mas não fique preocupada. Está tudo bem com
todos. E quero que você fique bem também.
Mesmo após desligar e me deitar, as dúvidas ainda se acumulavam em
minha cabeça. Não queria pensar que Daniel pudesse ter deixado de passar o natal com a família por causa daquela mulher. Por mais que eu tentasse não julgar, estava sendo difícil. Estava tão apaixonado assim?
Pensar nisso me fez lembrar do que eu estava prestes a fazer quando
Polly me chamou para embalar os presentes. Sem me importar com o sono, eu me levantei e peguei o notebook. Ia pesquisar sobre Anika.
Assim que liguei o notebook, abri o navegador e digitei o nome dela
em um site de buscas. A princípio só surgiram notícias de seu tempo como modelo. Um tempo até curto demais, e de acordo com um dos sites, ela abandonou a profissão por questões pessoais. Não havia nenhuma informação, nem mesmo em sites de fofoca sobre sua vida pessoal.
Eu já estava quase desistindo dessa busca infrutífera quando um site
me chamou a atenção. Cliquei no link e ao abrir a página me deparei com uma foto de Anika. Eu não podia negar que ela era realmente uma mulher lindíssima, mas mimada, arrogante e interesseira. O modo como ela agiu com Daniel era imperdoável. Bom, imperdoável para mim, já que ele parece a ter perdoado.
Rolei a página e comecei a ler a notícia. Meu coração disparou e à
medida em que eu lia, sentia minha boca se abrindo e meus olhos cada vez mais arregalados. Percebi minhas mãos tremendo enquanto clicava na barra de rolagem. Aquilo não podia ser verdade. Querendo tirar a história a limpo, eu abri nova guia e digitei algumas palavras contidas na matéria. Achei uma pequena notícia, que continha as mesmas informações da outra. Chequei as informações do site, constatando que era um confiável.
Quando dei por mim, as lágrimas já escorriam pelo meu rosto. Quantas
vezes eu disse a mim mesma para não fazer pre- julgamentos? No entanto, agi da mesma forma. Quer dizer, na verdade, nem foi bem um pré-julgamento. Eu apenas me baseei na forma como ela tratou Daniel. Em como ela o fez sofrer por ganância. Mas agora tudo tinha mudado e parecia uma revolução dentro de mim.
Continuei lendo até o final e por fim, me decidi a salvar aquelas páginas. Não sei bem o que eu pretendia com isso, mas preferi fazê-lo. Subi a tela novamente e parei na imagem dela. Anika Ebner. Loira, olhos azuis, sorriso bonito. Fez sucesso no pouco tempo em que desfilou nas passarelas, para pouco tempo depois se afastar definitivamente. Mas o que mais me deixou atordoada foi o restante da notícia. Como é a vida, não é?