O Crepúsculo dos Ídolos ou A Filosofia a Golpes de Martelo

Friedrich Wilhelm Nietzsche · Capítulo 9 de 12

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O Crepúsculo dos Ídolos ou A Filosofia a Golpes de Martelo

O que os Alemães Estão na Iminência de Perder

O QUE OS ALEMÃES

ESTÃO NA IMINÊNCIA DE PERDER

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Entre os alemães, não é suficiente hoje em dia ter espírito: é necessário ainda tomá-lo, presumir-se com o espírito... Conheço talvez os alemães e talvez tenha o direito de lhes dizer algumas verdades. A nova Alemanha representa uma forte dose de capacidades herdadas e adquiridas, de sorte que durante um certo tempo, pode despender sem onerar seu tesouro de forças acumuladas. Não se trata do domínio duma alta cultura junto de si, ainda menos dum gosto delicado, uma nobre "beleza" dos instintos; mas não as virtudes mais viris que aquelas que poderiam ser apresentadas por um outro país da Europa. Muito mais coragem e respeito de si, muito mais segurança nas relações e na reciprocidade dos deveres, muito mais atividade e capacidade de suportar — e uma sobriedade hereditária que tem mais necessidade de aguilhão do que de obstáculo. Acrescento que aqui se obedece ainda sem que a obediência humilhe... e ninguém menospreza o adversário...

Percebe-se que não peço mais que justiça seja feita aos alemães: nisso não desejaria faltar a mim mesmo — é necessário portanto, igualmente, que lhes faça minhas objeções. Custa muito chegar ao poder: opoder embrutece. Os alemães — eram chamados outrora um povo de pensadores: eu me pergunto de uma maneira geral se pensam ainda hoje em dia? Os alemães se entediam agora com o espírito, os alemães desconfiam agora do espírito. A política devora toda a seriedade que se poderia introduzir nas coisas verdadeiramente espirituais. — "A Alemanha acima de tudo"1, temo que isto tenha sido o fim da filosofia alemã... "Existem filósofos alemães? Existem poetas alemães? Existem bons livros

1 Primeiro verso duma canção nacional alemã (nota dos tradutores). 48

alemães?" Tais são as questões que me colocam no exterior. Não posso senão rugir, mas com a bravura que me é própria, mesmo nos casos desesperados, respondo: "Sim, Bismarck!” Tinha eu portanto o direito de confessar que livros são lidos hoje?.. Maldito instinto da mediocridade!

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Quem já não ponderou tristemente sobre o que o espírito alemão poderia ser? Porém esse povo vem se embrutecendo desde há mil anos; em nenhuma parte se abusou tanto dos dois grandes narcóticos europeus: o álcool e o cristianismo. Recentemente se acrescentou um terceiro, que por si só bastaria para consumar a ruína mais sutil e ousada leveza do espírito; refiro-me à música, a nossa música alemã, constipante e constipada. Quanto pesadume mal-humorado, quanta paralisia, quanta umidade, quanta roupa caseira, quanta cerveja há na inteligência alemã! Como é possível que jovens que dedicam sua existência aos fins mais espirituais não sintam o primeiro instinto da espiritualidade, o instinto de conservação do espírito, e bebam cerveja? O alcoolismo da juventude culta não é talvez um enigma em relação a seu saber sem necessidade de espírito pode-se ser um grande sábio porém é um problema de qualquer outro ponto de vista. Onde não achar essa doce degeneração que produz a cerveja no espírito? Num caso célebre, pus o dedo nessa chaga — a degeneração do nosso primeiro livre-pensador alemão, o prudente David Strauss que chegou a ser oautor dum evangelho de cervejaria e de uma nova fé1 (I). Não foi em vão que escreveu sua dedicatória em versos à cerveja, à amável morena... fiel até a morte.

 

1 Refere-se a A antiga e a nova fé, de David Strauss (nota dos tradutores).

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Falou-se do espírito alemão e foi afirmado que está se tornando mais grosseiro e mais plano. E no fundo. há uma outra coisa que espanta: como a seriedade alemã, a profundidade alemão, a paixão alemã pelas coisas intelectuais, vão diminuindo dia a dia. Transformou-se não só a inteligência, mas também o patos, De vez em quando me aproximo das universidades alemãs: que atmosfera respiram esses sábios, que espiritualidade vazia, satisfeita, entibiada! Aquele que objetasse com a ciência alemã, incorreria num profundo equivoco e demonstraria, ademais, não ter lido uma só linha minha. Há dezoito anos não me canso de proclamar a influência deprimente de nosso cientilicismo atual sobre o espírito. A dura escravidão a que a extensão imensa da ciência condena hoje em dia cada indivíduo é uma das principais razões em virtude das quais as inteligências mais bem dotadas, mais ricas, mais profundas, não encontram já educadores nem educação que lhe convenham. Nadi faz padecer tanto nossa cultura quanto a abundância de carregadores pretensiosos e fragmentos de humanidade. Nossas universidades são, para pesar próprio, verdadeiras estufas que pioram o espírito nos seus instintos. Toda Europa já principia a percebê-lo; a alta política não engana ninguém. A Alemanha vai sendo considerada o povo mais vulgar da Europa. Todavia estou buscando um alemão com quem possa ser sério a minha maneira... e melhor ainda seria se encontrasse um com quem me atrevesse a ser alegre! Crepúsculo dos ídolos, quem compreenderá hoje com que seriedade um filósofo repousa aqui? Para nós a serenidade é o mais incompreensível.

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Vejamos a questão por outro lado. Não só é evidente que a cultura alemã está em decadência, comonão faltam razões suficientes para isso. E em última instância, ninguém pode

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gastar mais do que tem, tanto os indivíduos quanto os povos. Se se gasta em poderio, na alta política, na economia, no comércio internacional, no parlamentarismo, nos interesses militares; se se dissipa nesse aspecto da vida a dose de razão, de seriedade, de vontade de domínio de si mesmo que se possui, o outro aspecto tem que ressentir-se. A cultura e o Estado são termos antagônicos — não há desvios disto. — Estado civilizado é apenas uma idéia moderna. Um vive do outro; um prospera às custas do outro. Todas as grandes épocas da cultura são épocas de decadência política, o que foi grande no sentido da cultura não foi político, até mesmo foi antipolítico. Ocoração de Goethe se abriu ante ofenômeno Napoleão e se fechou diante das guerras de independência. No instante em que a Alemanha se eleva como grande potência, a França adquire nova importância como potência da cultura. Hoje já emigraram para Paris muitas coisas sérias e novas, muitas novas paixões do espírito; a questão do pessimismo, por exemplo, a questão Wagner, quase todas as questões psicológicas e artísticas são examinadas Já com maior delicadeza e maior profundidade que na Alemanha, os alemães são até incapazes desse tipo de seriedade.

Na história da cultura européia, a criação do império significa, acima de tudo, uma coisa: uma deslocação do centro de gravidade. Em todos os lugares já se vai compreendendo que, no assunto principal — que é sempre a cultura — ninguém leva em conta os alemães. Podeis apresentar uma única inteligência

que mereça chamar a atenção da Europa, uma inteligência como Goethe, como Hegel, como Heinrich Heine, como Schopenhauer, digna, em suma, de alternar com eles? O fato de não haver nem sequer um filósofo alemão provoca assombro.

 

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O essencial no ensino superior da Alemanha está perdido, tanto quanto ao fim como quanto aos meios que põem em prática para obtê-lo. Que a educação e a própria cultura sejam o fim — e não o império; para este fim são necessários educadores e não catedrãticos do Instituto e sábios da Universidade, é coisa esquecida. São precisos educadores educados, espíritos nobres e superiores que saibam afirmar-se a cada momento por meio da palavra e por meio do silêncio, seres duma cultura madura e dulcificada, não esses sábios brutamontes que o Instituto e a Universidade oferecem hoje como enfermeiros superiores. Faltam educadores, e abstração feita das exceções, falta a condição primeira da educação, e dai o rebaixamento da cultura alemã.

Meu venerável amigo Jacob Burkhardt, de Basiléia, é uma dessas exceções, a mais rara, e a ele deve, em primeiro lugar, Basiléia seu predomínio nas humanidades. O que as escolas superiores sabem fazer efetivamente é um adestramento brutal a fim de tornar útil e explorável ao serviço do Estado uma legião de jovens no tempo mais curto possível. Educação supe. rior e legião são coisas que encerram uma contradição primordial.

A educação superior não corresponde senão ás exceções: é preciso ser privilegiado para ter direito a privilégio tão precioso. As coisas grandes e belas não podem ser bens comuns; pulchrum est paucorum hominum. O que ocasionou o rebaixamento da cultura alemã? O fato da educação superior ser um privilégio — a transformação democrática da cultura, convertida em algo obrigatório e comum. Não é necessário esquecer que as vantagens concedidas em relação ao serviço militar aos estudantes induzem à freqüência exagerada dessas escolas. Ninguém dispõe já na Alemanha da liberdade de dar a seus filhos uma educação nobre. Nossas escolas superiores estão organizadas segundo uma mediocridade ambígua, com professores, programas e um resultado previsto. Em todos os

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lugares reina uma pressa indecente, como se se tivesse perdido algo com o fato dum jovem não ter acabado seus estudos aos vinte e três anos, quando não sabe todavia responder a uma pergunta essencial: que carreira vai escolher? Existe uma espécie superior de homens, que seja permitido dizer, que não gosta de carreiras, precisamente porque se sentem convocados. Essa espécie de homens tem tempo, dá-se tempo, não pensa em terminar; aos trinta anos se é precisamente menino, principiante; nossos professres do Instituto carregados de trabalho e embrutecidos, são um escândalo. Para se expressar no sentido da alta cultura. Nossos Institutos sob a proteção desse estado de coisas, como o fizeram recentemente os professores de Heidelberg, podem ter talvez motivos, porém seguramente não existem razões.

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Seguindo meu costume de afirmar e cuidar de objeções e críticas apenas duma maneira indireta e involuntária, apresentarei desde já as três tarefas para as quais necessitamos educadores. É preciso aprender a pensar, é preciso aprender a falar e a escrever; o fim dessas três coisas é uma cultura aristocrática. Aprender a ver, acostumar os olhos ao repouso, à paciência habituá-los a deixar ver as coisas, a localizar o juízo. aprender a cercar e envolver o caso concreto. Esta é a primeira preparação para educar o espírito. Não ceder imediatamente a uma sedução, mas saber utilizar os instintos que estorvam e isolam. Aprender a ver, tal como entendo, é, de certo modo, o que na linguagem corrente e não-filosófica chama-se vontade firme; o essencial é, precisamente, não querer; poder suspender a determinação. Todo ato anti-espiritual e toda vulgaridade repousam sobre a incapacidade de resistir a uma sedução; o que opera assim se crê obrigado a reagir e seque todos os impulsos. Em muitos casos, semelhante obrigação é conseqüência de um estado mórbido, dum estado de depressão, é um sintoma de

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esgotamento, posto que tudo que a brutalidade antifilosófica chama vício, é apenas essa incapacidade fisiológica de resistir. Uma aplicação desse ensino da vista: o que é dos que aprendem se torna, em geral, mais lento, mais desconfiado, mais resistente. Ter todas as portas abertas; prestar-se submisso ante qualquer fato cheio de pequenez; estar sempre disposto a se introduzir, a se precipitar no estranho; numa palavra, essa famosa objetividade moderna é simplesmente de mal gosto.

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Aprender a pensar: em nossas escolas se perdeu completamente a noção disso. Até nas universidades, até entre os sábios da filosofia, a lógica, enquanto teoria, prática e ofício, começa a desaparecer. Leiam os livros alemães; nem sequer se recorda neles, em nenhum deles, que para pensar necessita-se uma técnica, um plano de estudos, um magistério; que a arte de pensar tem que ser aprendida como qualquer espécie de dança. Quem conhece todavia por experiência entre os alemães esse ligeiro estremecimento que passa por todos os músculos ao roçar do pé leve das coisas espirituais? Uma falta de jeito nos assuntos intelectuais, a mão pesada no tato, é o alemão, até o ponto que no exterior isso se confunde com o espírito alemão em geral. O alemão não tem tato para os matizes. O fato dos alemães terem podido suportar seus filósofos, e sobretudo esse aleijado dos conceitos, o grande Kant, dá uma triste idéia da distinção alemã. E é porque não é possível prescindir da educação nobre, da dança sob todas suas formas. Saber bailar com os pés, com as idéias, com as palavras; necessitarei dizer que não é menos necessário saber fazê-lo com a pena, que é preciso aprender escrever? Porém neste ponto eu me converteria num enigma para leitores alemães.

 

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