O Crepúsculo dos Ídolos ou A Filosofia a Golpes de Martelo

Friedrich Wilhelm Nietzsche · Capítulo 7 de 12

Páginas do PDF

O Crepúsculo dos Ídolos ou A Filosofia a Golpes de Martelo

Os Quatro Grandes Erros

1

O Erro da Confusão entre a Causa e o Eleito

Não há erro mais perigoso que o de confundir o efeito com a causa. Considero esta a verdadeira perversão da razão. E sem embargo, este erro figura os antigos e modernos hábitos da humanidade; foi santificado por nós, e se enfeita com os nomes de religião e de moral. Toda proposição formulada pela religião ou pela moral encerra esse erro; sacerdotes e legisladores da moral são os promotores dessa perversão da razão. Citarei um exemplo. Todos conhecem o livro do célebre Cornaro, no qual o autor recomenda a dieta rigorosa que ele observava para conseguir uma vida longa e feliz ao mesmo tempo que virtuosa. Pouquíssimos livros foram tão lidos: todavia, continuasse imprimindo na Inglaterra muitos milhares de exemplares. Estou convencido de que nenhum outro livro (com exceção da Bíblia, bem entendido) produziu tanto dano nem abreviou tantas existências como essa singular obra, escrita com boa intenção, sem dúvida. O motivo disso é uma confusão entre 'o efeito e a causa. Aquele bom italiano acreditava que sua dieta era a causa de sua longevidade, quando o que acontecia era que a condição primeira para viver muito, a lentidão extraordinária na assimilação e desassimilação e o escasso consumo de substâncias nutritivas eram, na realidade, a causa de sua dieta. A frugalidade não dependia de seu livre arbítrio; não podia comer muito ou comer pouco, segundo quisesse; quando comia um pouco mais que o devido, adoecia. Aquele que não é uma carpa não só faz bem comer o suficiente, como constitui uma necessidade absoluta. Se um sábio de nossos dias, com seu rápido consumo de força nervosa, fosse submetido ao regime de Cornaro, perderia a saúde completamente. Credo experto.

34

2

A fórmula geral que serve de base a toda religião e a toda moral pode ser expressada assim: "Faça isto ,e mais isto, não faça aquilo e mais aquilo — e então serás feliz, do contrário... Toda moral e toda religião são somente esse imperativo, que chamo de o grande pecado hereditário da razão, a imortal razão. Em meu pensamento essa fórmula se transforma na contrária — primeiro exemplo de minha Transmutação de todos os valores: um homem bem constituído, um homem ditoso realizará necessariamente certos atos e temerá instintivamente cometer outros, pois assim exige o sentimento da ordem que ele representa fisiologicamente em suas relações com os homens e as coisas. Reduzindo isto a uma fórmula: sua virtude é a conseqüência de sua felicidade. Uma vida longa, uma prole numerosa não são a recompensa da virtude; pelo contrário, a própria ; virtude é essa lentidão na assimilação e desassimilação que produz entre outras conseqüências a longevidade e a prole numerosa, numa palavra, o que se chama de cornarismo.

A Igreja e a moral afirmam: "O vício e o luxo são a causa do perecimento de povos e raças"; contudo ,o que minha razão afirma é o seguinte: "Quando um povo perece teve que degenerar fisiologicamente"; .conseqüência disto são os vícios e o luxo (isto é, essa necessidade de estimulantes cada vez mais fortes e mais freqüentes que todos os temperamentos esgotados sentem). Um jovem empalidece e envelhece prematuramente;, seus amigos dizem: esta ou aquela doença é a conseqüência de uma vida precária, de um esgotamento hereditário. Os leitores de jornais dizem: este partido foi destruído devido a esta ou aquela falta que cometeu. Minha política superior contesta: um partido que comete esta ou aquela falta agoniza, não possui a segurança do instinto. Numa ou outra forma toda falta é conseqüência da degeneração do instinto, de uma desagregação da vontade; chega-se por esse caminho quase a definir o mal.

35

Todo o bem procede do instinto e é por conseguinte leve, necessário, espontâneo. O esforço é uma objeção; o deus se diferencia do herói por seu tipo (em minha linguagem, os pés leves são o primeiro atributo da divindade).

3

O Erro da Causalidade Falsa

Em todas as épocas acreditou-se saber o que é uma causa, porém de onde tiramos nosso saber, ou melhor, a fé no nosso saber? Do domínio desses famosos dados interiores, dos quais nem sequer um resultou eficaz até agora. Cremos intervir nós mesmos como causa nos atos da vontade e pensamos que ali, ao menos, vamos surpreender a causalidade em flagrante. Da mesma maneira concebemos que é necessário buscar na consciência todos os antecedentes de um ato e que os buscando, os acharemos como motivos, pois se não fosse assim não seríamos livres nem responsáveis por aquele ato. Por último, quem punha antes em dúvida o fato de que no pensamento existe uma relação causal, que sou eu a causa de meus pensamentos? Desses três dados interiores com que a causalidade parecia afiançada, o primeiro e mais concludente é a vontade considerada como causa, a noção de uma consciência (espírito) como causa e depois a do eu (sujeito) como causa, são posteriores; apareceram quando, mediante a vontade já estava estabelecida como um dado, como empirismo, a causalidade. Porém depois mudamos o pensar, e agora não cremos em uma só palavra de tudo aquilo. O mundo interior está repleto de fantasmas e de reflexos enganosos; a vontade é um desses fantasmas. A vontade já não põe em movimento nada, nem portanto explica nada. Apenas acompanha os acontecimentos, e pode também faltar. O que chamamos um motivo é outro erro. O motivo é somente um fenômeno superficial da consciência, uma coisa que está ao lado do ato e que mais oculta os antecedentes deste que os representa. E que

36

diremos do eu! O eu chegou a ser uma lenda, uma ficção, um jogo de palavras: este já deixou de pensar, sentir e querer. Que se deduz daí? Que não há tais causas intelectuais. Todo o suposto empirismo, baseado nelas, o levou ao diabo.

E é preciso confessar que havíamos abusado bastante desse empirismo? partindo dele criamos o mundo como mundo das coisas, como mundo da vontade, como mundo dos espíritos. A antiga psicologia, a que durou mais tempo, consagrou-se a esse labor e não fez outra coisa; todo acontecimento era para ela um ato, todo ato a conseqüência duma vontade. O mundo passou a ser para ela uma multiplicidade de princípios ativos, em cada acontecimento jazia um princípio ativo (um sujeito). O homem projetou em torno de si seus três dados interiores, nos quais cria firmemente: a vontade, o espírito e o eu. Primeiramente deduzo a noção do ser da noção do eu, representando-se as coisas como existentes a sua imagem e semelhança, de acordo com sua noção do eu enquanto causa. Que tem de estranho que depois tenha encontrado nas coisas apenas aquilo que eu mesmo tinha colocado nelas? A própria coisa, repitamo-lo, a noção de coisa é apenas um reflexo da crença no eu, como causa. E no próprio átomo de vocês, senhores mecânicos e físicos, quanta psicologia rudimentar existe entretanto? Não quero falar da coisa em si do horrendum prudendum dos metafísicos. O erro do espírito como causa confundido com a realidade, considerado como medida da realidade e denominado Deus!

4

O Erro das Causas Imaginárias

Tomemos como ponto de partida o sonho: uma sensação determinada, por exemplo, a que produz o tiro de um canhão, produz a evocação imediata de uma causa (que muitas vezes chega a formar uma novela cujo protagonista é, naturalmente, a pessoa que sonha). A sensação se prolonga durante esse tempo como num eco e aguarda num certo sentido até que o instinto

37

da causalidade lhe permite colocar-se na primeira fila, não já como um acaso, mas sim como a razão dum fato. A detonação do canhão se apresenta então em forma causal, numa aparente inversão do tempo. O que vem depois, a motivação, parece ter chegado primeiro, adornando-se freqüentemente com cem detalhes que se sucedem com a rapidez do relâmpago; a detonação segue. Que sucedeu? As representações que produz um estado particular dos fatos têm sido mal interpretadas, como se fossem a causa desse estado.

Na realidade, fazemos o mesmo despertos. A maioria de nossos sentimentos vagos e gerais — toda espécie de obstáculo, de opressão, de tensão de explosão no funcionamento dos órgãos, e em particular o estado do nervo simpático — provocam nosso instinto de causalidade. Queremos que haja uma razão para que nos encontremos neste ou naquele estado, para que nos sintamos bem ou mal. Não nos basta experimentar simplesmente o fato de sentirmos desta ou daquela maneira; não aceitamos esse fato, não adquirimos consciência dele até que lhe outorguemos alguma motivação.

A memória, em casos semelhantes, entra em funcionamento sem que tenhamos consciência disso, reproduz os estados anteriores de mesma ordem e as interpretações causais anexas a eles, não sua causalidade verdadeira. Verdade é que, por outro lado, a memória reproduz também a crença de que as representações, os fenômenos de consciência que acompanham o fato foram suas causas. Assim se obtém o hábito duma determinada interpretação das coisas, que na realidade estorva e até impede sua investigação.

5

Explicação psicológica desse lato.

Reduzir uma coisa desconhecida a outra conhecida alivia, tranqüiliza e satisfaz o espírito, dando-nos ademais, um sentimento de poder. O desconhecido leva consigo o perigo, a

38

inquietude, o cuidado; o primeiro tiosas, ai não se olha bem de perto os meios que conduzem a consecução. A primeira representação, em virtude da qual o desconhecido se declara conhecido, dos nossos instintos tende a suprimir essa situação penosa. Primeiro princípio: uma explicação qualquer é preferível à falta de explicação. Como, na realidade, trata-se apenas de se livrar de representações angusnos faz tão bem que se tem por verdadeira. Prova do prazer (da força) como critério de verdade. O instinto de causa depende, pois, do sentimento do medo, ao que deve sua origem. O por que não solicita a indicação da uma causa por amor a ela, mas sim busca certa espécie de causa, uma causa que tranqüilize, que livre do perigo, que alivie. A primeira conseqüência dessa necessidade é que toma como causa algo conhecido já e vivido, algo que está inscrito na memória. O novo, o imprevisto, o estranho está excluído das causas possíveis. Não se busca somente descobrir uma explicação da causa, mas sim se elege e se prefere uma classe particular de explicações, aquela que dissipa mais rapidamente e em maior número de casos a impressão do estranho, do novo, do imprevisto, isto é, são preferidas as explicações mais comuns. Que se deduz disso? Que uma avaliação de causas é o que domina, se condensa num sistema e acaba por predominar até o ponto de desterrar as outras causas e as outras explicações. O banqueiro pensa imediatamente no negócio, o cristão no pecado. a cortesã no amor.

6

Todo o domínio da moral e da religião deve ser explicado através dessa idéia das causas imaginárias.

Explicação dos sentimentos gerais desagradáveis. Esses sentimentos dependem de seres que são inimigos nossos (espíritos maus, este é o caso mais célebre; as histéricas, a que se toma por bruxas). Dependem de atos que não devem ser aprovados (o sentimento do pecado, o estado de pecado

39

substitui o mal estar fisiológico pois sempre acha razões para estar descontente de si mesmo). Dependem da idéia de castigo, da redenção de algo que não devemos fazer ou não devemos ser (idéia generalizada por Schopenhauer numa proposição que a moral se nos afigura como é, como uma verdadeira envenenadora da vida: "Toda grande dor, seja física ou moral, indica o que merecemos, pois não teria podido se apoderar de nós se não a merecêssemos. "O mundo como vontade e representação. Dependem, finalmente, de atos irreflexivos, os quais têm conseqüências danosas (as paixões, os sentidos, considerados como causas, as calamidades fisiológicas convertidas em castigos merecidos, com a ajuda de outras calamidades).

Explicação dos sentimentos gerais agradáveis. Dependem da confiança em Deus. Dependem dos sentimentos produzidos pelas boas ações (o que se chama tranqüilidade de consciência, um estado fisiológica que se parece tanto com o que produz uma boa digestão, que às vezes se confundem). Dependem do desenlace feliz de determinadas empresas (conclusão tão falsa quanto cândida pois o fim feliz duma empresa não proporciona de modo algum sentimentos gerais agradáveis a um hipocondríaco ou a um Pascal). Dependem da fé, da esperança e da caridade, virtudes cristãs. Na realidade, todas essas explicações imaginárias são as conseqüências dos estados de prazer ou de desprazer, traduzidas numa linguagem errônea. Se tem esperança, é porque o sentimento fisiológico dominante é outra vez vigoroso e expansivo; se tem confiança em Deus, é porque o sentimento da plenitude e da força nos proporciona repouso. A moral e a religião pertencem inteiramente à psicologia do erro; em cada caso particular confundem a causa com o efeito, ou a verdade com o efeito do que se considera como verdade, ou uma condição da consciência com a causalidade dessa condição.

 

40

7

O Erro do Livre-arbítrio

Não somos indulgentes com a idéia do livre-arbítrio: sabemos de sobejo do que se trata; a habilidade teológica de pior reputação que já houve para tornar a humanidade responsável à maneira dos teólogos, o que eqüivale a colocar a humanidade sob a dependência dos teólogos. Vou me limitar a explicar a psicologia dessa tendência a exigir responsabilidades. Onde quer que exijam responsabilidades, o instinto de julgar e de castigar anda, geralmente, mesclado na tarefa. Retira-se a inocência do devir quando lhe atribui um estado de fato, qualquer que seja, à vontade, a intenções, a atos de responsabilidade. A doutrina da vontade foi inventada, principalmente, colimando castigar, isto é, com a intenção de achar um culpado. Toda a antiga psicologia, psicologia da vontade, deve sua existência ao fato de que seus inventores, os sacerdotes, chefes das cominidades primitivas, quiseram atribuir-se o direito de castigar, ou quiseram conceder tal direito a Deus. Os homens foram considerados livres para se poder julgá-los e castigá-los, para se poder declará-los culpados. Conseqüentemente, toda ação tinha que reputar-se voluntária, e a origem de todo ato devia supor-se na consciência (pelo que a falsificação das moedas in psychologicis, por princípio, se erigia da própria psicologia). Hoje, que entramos na corrente contrária e nós, os imoralistas, trabalhamos com todas nossas forças para conseguir que desapareça mais uma vez do mundo a idéia da culpabilidade e do castigo, tanto quanto para eliminar delas a psicologia, a história, a Natureza, as instituições e as sanções sociais, não há, a nossos olhos, oposição mais radical que a dos teólogos, que por meio da idéia do mundo moral prosseguem contaminando a inocência do devir com o pecado e o castigo. O cristianismo é uma metafísica de verdugos.

 

41

8

O que pode nossa doutrina admitir neste ponto?

Que nada dá ao homem suas qualidades, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e antepassados, nem ele mesmo (o contra-senso desta última idéia foi ensinado sob o nome de liberdade inteligível por Kant e talvez já por Platão). Nada é responsável pelo fato do homem existir, seja desta ou da outra maneira, encontrasse em tais condições em tal meio. A fatalidade de seu ser não pode separar-se da fatalidade de tudo o que foi e será. O homem não é a conseqüência duma intenção própria, duma vontade, dum fim; com ele não se fazem ensaios para obter-se um ideal de humanidade; um ideal de felicidade ou um ideal de moralidade; é absurdo desviar seu ser para um fim qualquer. Nós inventamos a idéia do fim; na realidade não existe o fim ... Somos necessários, somos um fragmento do destino, formamos parte do todo, estamos no todo; não há nada que possa julgar, medir, comparar e condenar nossa existência, pois isto eqüivaleria a julgar, medir, comparar e condenar o todo. E não há nada fora do todo! Nada pode ser responsabilizado: as categorias do ser não podem ser referidas a uma causa primeira, o mundo não é uma unidade, nem como mundo sensível, nem como inteligência; apenas esta é a grande redenção, deste modo a inocência do devir fica restaurada. A idéia de Deus foi até agora a maior das objeções contra a existência. Nós negamos Deus, negamos a responsabilidade em Deus, e ao fazê-lo salvamos o mundo.

 

42