O Crepúsculo dos Ídolos ou A Filosofia a Golpes de Martelo

Friedrich Wilhelm Nietzsche · Capítulo 2 de 12

Páginas do PDF

O Crepúsculo dos Ídolos ou A Filosofia a Golpes de Martelo

Máximas e Sátiras

1

A ociosidade é mãe de toda psicologia. Como? Seria a psicologia um... vício?

2

O mais corajoso dentre nós dispõe apenas raramente da coragem de afirmar aquilo que sabe verdadeiramente...

3

Para viver só é necessário ser um animal ou então um deus — afirma Aristóteles. Falta o terceiro caso: é necessário ser um e outro, é necessário ser — filósofo...

4

"Toda verdade é simples." — Não existe ai uma dupla mentira?

5

De uma vez por todas, há muitas coisas que não quero absolutamente saber. — A sabedoria traça limites, mesmo ao conhecimento.

6

É naquilo que tua natureza tem de selvagem que restabeleces o melhor de tua perversidade, quero dizer de tua espiritualidade...

6

7

Como? O homem seria tão-somente um equívoco de Deus? Ou então seria Deus apenas um equivoco do homem?

8

Na Escola Bélica da Vida — O que não me faz morrer me torna mais forte.

9

Ajuda a ti mesmo: e então todos te ajudarão. Princípio do amor ao próximo.

10

Não te acovardes diante de tuas ações! Não as repudies depois de consumadas! O remorso da consciência é indecente.

11

Um asno pode ser trágico? — Perecer sob um fardo que não se pode nem carregar nem rejeitar?... O caso do filósofo.

12

Se se possui o por quê da vida, põe-se de lado quase todos os como? — O homem não aspira a felicidade; apenas os ingleses o fazem.

 

7

13

O homem criou a mulher — com o que, afinal? Com uma costela de seu deus — de seu "Ideal".

14

Como? Procuras? Desejarias multiplicar-te por dez? Por cem? Procuras adeptos? — Procura zeros!

15

Os homens póstumos — eu, por exemplo — são menos compreendidos que aqueles que são conformes sua época, mas escutamo-los melhor. Que eu me exprima mais precisamente ainda: jamais somos compreendidos — e é disso que advém nossa autoridade...

16

Entre mulheres. — "A verdade? Oh, não conheces a verdade! Não é ela um atentado contra nosso pudor?"

 

17

Eis um artista como os aprecio. É modesto em suas necessidades: requer, em suma, somente duas coisas. seu pão e sua arte — panem et Circen...

18

Aquele que não sabe dispor sua vontade nas coisas quer ao menos atribuir-lhes um sentido: o que o faz acreditar que já existe uma vontade nelas (Principio ad "fé").

 

8

19

Como? Escolheste a virtude e a elevação do coração e ao mesmo tempo lanças um olhar de inveja às vantagens dos indiscretos? — Mas com a virtude se renuncia às "vantagens"... (a ser escrito na porta num anti-semita).

20

A mulher perfeita perpetra literatura do mesmo modo que perpetra um pequeno pecado: experimentando, de passagem, e volvendo a cabeça para ver se alguém se apercebeu disso, e a fim que alguém se aperceba disso...

21

É mister colocar-se apenas nas situações onde não é

permitido ter falsas virtudes, porém onde, como o dançarino

sobre a corda, caímos ou nos mantemos, — ou ainda nos

safamos...

22

"Os homens maus não possuem canções." E como os russos

possuem canções?

23

"O espírito alemão": por dezoito anos uma contra-dictio in

adjecto.

 

9

24

A força de querer buscar as origens nos tornamos

caranguejo. O historiador olha para trás e acaba crendo para

trás.

25

A satisfação nos protege até mesmo de resfriados. Uma

mulher que se sabe bem vestida se resfria alguma vez?

Presumo até que possa dar-se o caso de que esteja pouco

vestida.

26

Desconfio de todas as pessoas com sistemas e as evito. A

vontade de sistema constitui uma falta de lealdade.

27

Diz-se que a mulher é profunda — por quê? se nela jamais chegamos ao fundo. A mulher não é nem sequer plana.

28

Quando a mulher possui virtudes masculinas, não há quem resista a ela; quando não possui virtudes masculinas, é ela que não resiste.

29

"Quanto a consciência teve que morder outrora! Que bons dentes ela tinha! E agora? O que lhe falta?" — Questão dum dentista.

 

10

30

Comete-se raramente uma única imprudência. Com a primeira imprudência se faz sempre demais e é por isso que se faz geralmente uma segunda — e então se faz pouco demais...

31

O verme se retrai quando é pisado. Isso indica sabedoria. Dessa forma ele reduz a chance de ser pisado de novo. Na linguagem da moral: a humildade.

32

Há um ódio contra a mentira e a dissimulação que procede duma sensível noção de honra; há um outro ódio semelhante por covardia, já que a mentira é interdita pela lei divina. Ser covarde demais para mentir...

33

Quão pouca coisa é necessária para a felicidade! O som duma gaita. — Sem música a vida seria um erro. O alemão até concebe o próprio Deus prestes a cantar canções.

 

34

Só se pode pensar e escrever sentado (G. Flaubert). Eis que te apanho, niilista! Permanecer sentado é precisamente o pecado contra o Espírito Santo. Somente os pensamentos que nos ocorrem ao caminharmos têm valor.

 

11

35

Existem casos em que somos como os cavalos, nós os psicólogos. A inquietude apodera-se de nós porque vemos nossa própria sombra oscilar diante de nós. O psicólogo deve se desviar de si para ser capaz de ver.

36

Nós imoralistas prejudicamos a virtude? — Tanto quanto os anarquistas prejudicam os príncipes. Só depois de terem sido atingidos de novo se sentam firmemente nos seus tronos. Moral: é preciso disparar contra a moral.

37

Corres à frente dos outros? — Fazes tal como pastor ou como exceção? Um terceiro caso seria o desertor... Primeiro caso de consciência.

38

És verdadeiro? Ou és somente um comediante? És um representante? Ou então és tudo mesmo a coisa que se representa? Afinal de contas és apenas talvez a imitação dum comediante... Segundo caso de consciência.

39

O Desiludido fala. — Procurei grandes homens e sempre encontrei somente os macacos do ideal deles.

 

12

40

És daqueles que olham ou daqueles que aplicam as mãos à coisa? — ou ainda daqueles que desviam os olhos e se mantêm à distancia? ... Terceiro caso de consciência.

41

Queres acompanhar? Ou preceder? Ou ainda trilhar o seu caminho? ... É mister saber o que se deseja e se se deseja. — Quarto caso de consciência.

42

Eram degraus para mim. Servi-me deles para subir — é por isso que me foi necessário passar sobre eles. Porém se figuravam que eu ia me servir deles para repousar...

43

Que importa que eu tenha a razão! Disponho de excesso de razão. — E ri melhor hoje quem ri por último.

44

Fórmula de minha ventura: um sim, um não, uma linha reta, um objetivo ...

 

13