O Farol do Cabo do Mundo
Capítulo X
A noite ameaçava ser medonha e, depois da noite, o dia seguinte, porque não parecia possível que o furacão se acalmasse nas vinte e quatro horas mais próximas.
Vasquez não pensava em recolher ao seu abrigo e não perdia de vista o horizonte.
Se já não distinguia o navio no meio daquela profunda escuridão, as luzes dele apareciam-lhe às vezes, quando, com o choque das ondas, guinava ora sobre uma borda, ora sobre a outra.
Assim, era impossível sentir francamente a ação do leme. Mal se podia dirigir.
Talvez até estivesse desarvorado, e sem parte da mastreação. Em todo o caso, era fácil ver que o vento não o ajudava.
No meio daquela luta dos elementos desencadeados, um navio não podia conservar-se firme no mar.
Como Vasquez não via senão luzes verdes ou vermelhas, concluiu que era um navio de vela; um paquete teria mostrado a luz branca suspensa no estai de mezena. Portanto não tinha máquina que lhe permitisse lutar com o vento.
Vasquez andava de um lado para o outro na praia, desesperado por não poder impedir aquele naufrágio.
Seria preciso que a luz do farol se projetasse naquelas trevas. E o guarda voltava-se para o lado da baía de Elgor, estendendo a mão para o sítio onde essa luz devia brilhar.
Mas debalde. O farol também não se acenderia naquela noite, como acontecia havia quase dois meses, e o navio estava destinado a naufragar nos rochedos do cabo San Juan.
Vasquez teve então uma idéia.
Talvez o navio ainda pudesse fugir da terra se tivesse conhecimento dela.
Admitindo que lhe fosse impossível conservar-se de capa, talvez, modificando um pouco o andamento, evitasse chegar ao litoral, que, do cabo San Juan ao pico Several, tem pouco mais de oito milhas. Para diante, o mar abria-se-lhe francamente.
Havia madeira e outros objetos na praia. Transportar aqueles objetos para uma eminência, juntar-lhes um punhado de sargaÇos, deitar-lhes fogo e deixar ao vento o cuidado de desenvolver a chama, era coisa fácil. E o navio, ainda que estivesse só a uma milha da costa, podia ver aquela chama e desviar-se a tempo.
Vasquez deitou logo mãos à obra.
Apanhou alguns bocados de madeira e levou-os para a extremidade do cabo. As plantas secas não faltavam, porque, embora houvesse vento, a chuva ainda não tinha começado a cair. Depois de tudo pronto, preparou-se para acender a fogueira.
Mas já era muito tarde.
Apareceu, no meio da escuridão, uma massa enorme. Levantada por ondas monstruosas, corria com impetuosidade assustadora. Antes de Vasquez poder fazer um gesto, vinha ela, como uma tromba, para a barreira dos recifes.
Ouviu-se um estrondo espantoso e daí a pouco alguns gritos de angústia, logo abafados. Depois, só o silvo das rajadas e os bramidos do mar que vinha quebrar-se na praia.
Capítulo X
DEPOIS DO NAUFRÁGIO
No dia seguinte, ao nascer do Sol, a tempestade continuava com a mesma fúria.
O mar aparecia todo branco até onde a vista podia alcançar.
Na extremidade do cabo, as ondas levantavam-se a quinze e vinte pés de altura e os seus vapores, dispersos pelo vento, voavam por cima dos rochedos.
A maré vazante e as rajadas, encontrando-se na baía de Elgor, embatiam-se com extraordinária violência. Nenhum barco poderia entrar nem sair dali.
Pelo aspecto do céu, sempre ameaçador, parecia muito provável que o temporal devia durar alguns dias, o que não era para admirar naquelas paragens do estreito de Magalhães.
Era, pois, evidente que a escuna não sairia naquela manhã do seu ancoradouro e é fácil imaginar como este contratempo excitou a cólera de Kongre e da sua quadrilha.
Tal era a situação que Vasquez conheceu, quando se levantou logo ao nascer do Sol, no meio dos turbilhões de areia.
Viu então o seguinte:
A duzentos passos, na vertente norte do cabo e por conseguinte fora da baía, estava o navio naufragado.
Era uma galera de quinhentas toneladas, pouco mais ou menos. Da mastreação só lhe restavam três pedaços quebrados ao nível dos paveses, ou porque o capitão se tivesse visto na necessidade de os cortar para se desembaraçar deles, ou porque tivessem caído na ocasião do encalhe.
Não se via objeto nenhum à superfície do mar, mas, com a violência do vento, era possível que os destroços tivessem sido atirados para o extremo da baía de Elgor.
Sendo assim, Kongre já sabia que tinha dado à costa um navio nos recifes do cabo San Juan.
Vasquez tinha, pois, de tomar precauções e não avançou mais senão depois de estar certo de que ainda não estava ninguém da quadrilha à entrada da baía.
Em alguns minutos, chegou ao lugar da catástrofe. Como o mar estava baixo, pôde andar à roda do navio encalhado e ler na
popa: Centúry, Mobile.
Era, pois, um navio de vela americano, que pertencia ao porto da capital do estado de Alabama, no Sul da União, no golfo do México. A Century tinha-se perdido completamente.
Não se via nenhum sobrevivente do naufrágio e, quanto ao navio, só restava dele um esqueleto informe. No choque, tinha-se partido o casco ao meio e o mar levara e dispersara o carregamento. Havia destroços de toda a espécie nos escolhos, descobertos agora, apesar da violência das rajadas. Ao longo do cabo e na praia estavam espalhadas caixas, barricas e fardos.
Como a Century estava em seco, Vasquez pôde entrar lá dentro.
A devastação era completa. As ondas tinham destruído tudo. Haviam arrancado as tábuas da coberta, demolido os beliches do tombadilho, quebrado os castelos da popa e da proa, desmanchado o leme, e o choque nos recifes tinha acabado a obra de destruição.
E ninguém vivo, nem um dos oficiais, nem um dos homens da tripulação!
Vasquez chamou com voz forte, sem obter resposta. Foi até ao fundo do porão e não encontrou um cadáver.
Ou aqueles infelizes tinham sido levados por algum golpe de mar, ou se tinham afogado no momento em que a Century se despedaçara contra as rochas.
Vasquez desceu à praia, certificou-se novamente de que nem Kongre nem nenhum dos seus companheiros se dirigiam para o sítio do naufrágio e depois tornou a subir, apesar do temporal, até à extremidade do cabo San Juan.
«Talvez — dizia ele consigo — encontre algum dos homens da Century que ainda esteja vivo e a quem eu possa socorrer.»
Mas debalde procurou. Voltando ao litoral, pôs-se a examinar os objetos de toda a espécie que o mar tinha arrojado para ali.
«Não é impossível — pensava ele — que eu encontre alguma caixa de conservas com que me possa alimentar por duas ou três semanas!»
Efetivamente apanhou uma barrica e uma caixa que o mar atirara para lá dos recifes. O conteúdo estava escrito por fora. Na caixa havia bolachas e na barrica uma provisão de carne salgada.
Tinha garantidos o pão e a carne por dois meses pelo menos.
Vasquez transportou primeiro a caixa para a gruta, que distava dali quando muito duzentos metros, e depois levou a barrica a rolar diante de si.
Depois voltou à extremidade do cabo e deitou os oLhos para a baía.
Não duvidava de que Kongre tivesse conhecimento do naufrágio. Na véspera, antes da noite, por certo ele pudera ver, do alto do farol, aquele navio que corria para terra.
Ora, uma vez que a escuna estava presa na angra, a quadrilha iria certamente à entrada da baía de Elgor para tirar a parte que lhe cabia do naufrágio.
Se alguma coisa havia, talvez objetos de valor, aqueles bandidos com certeza que não deixariam escapar esta ocasião.
Quando Vasquez chegou ao cotovelo das rochas, foi surpreendido pela violência do vento que entrava na baía.
Não seria possível à escuna resistir-lhe e, admitindo que ela chegasse às alturas do cabo San Juan, nunca poderia ir para o largo.
Naquele instante, tendo o vento abrandado um pouco, ouviram-se gritos.
Era uma voz muito fraca que pedia socorro.
Vasquez correu na direção daquela voz, do lado da primeira cavidade onde se tinha refugiado ao pé da caverna.
Tendo dado, o muito, cinqüenta passos, viu um homem estendido ao pé de uma rocha.
Movia a mão como para pedir auxílio.
Num segundo, Vasquez chegou ao pé dele.
O homem que ali estava podia ter trinta a trinta e cinco anos e parecia robusto.
Vestido com um fato de marinheiro, deitado sobre o lado direito, com os olhos fechados e a respiração arquejante, era agitado por sobressaltos convulsivos. Mas não parecia estar ferido, pois não se lhe via nenhum sinal de sangue no fato.
Este homem, que era talvez o único sobrevivente da Century, não tinha ouvido Vasquez aproximar-se. Mas quando ele lhe pôs a mão no peito, fez um esforço inútil para se endireitar e, como estava muito fraco, tornou a cair na areia. Contudo tinha aberto por um instante os olhos e dissera a custo:
— Acudam-me!... Acudam-me!...
Vasquez, ajoelhado ao pé dele, encostou-se à rocha com precauÇão e disselhe:
— Meu amigo!... Meu amigo... Estou aqui... Olhe para mim!... Hei-de salvá-lo.
O infeliz estendeu a mão e perdeu os sentidos.
Era preciso sem demora proporcionar-lhe os cuidados que o seu estado de extrema fraqueza exigia.
«Deus permita que não seja tarde!», disse Vasquez consigo.
O essencial, primeiro que tudo, era sair dali. A cada momento podia chegar a quadrilha com a chalupa ou com a lancha, ou então a pé, indo pela praia.
Transportar aquele homem para a gruta, onde estaria em seguranÇa, era o que Vasquez devia fazer, e foi o que fez.
Depois de um trajeto de quase duzentos metros, no que gastou um quarto de hora, meteu-se no intervalo das rochas com o homem inerte às costas, e estendeu-o num cobertor, encostando-lhe a cabeça a uma trouxa de roupa.
O homem não tinha voltado a si, mas respirava. Contudo, se não tinha nenhuma ferida aparente, não teria fraturado os braços ou as pernas, rolando pelos recifes?
Era o que Vasquez temia e, num caso desses, não saberia o que havia de fazer.
Apalpou-o, fez-lhe mover os membros e pareceu-lhe que todo o corpo estava intacto.
Vasquez deitou uma pouca de água numa chávena, misturou-lhe algumas gotas de aguardente que ainda tinha na cabaça e introduziu um golo daquela bebida por entre os lábios do náufrago; a seguir friccionou-lhe os braços e o peito, depois de lhe substituir o fato molhado pelo que encontrara na caverna dos piratas.
Não podia fazer mais.
Afinal teve a satisfação de ver que o doente tornava a si. Conseguiu até endireitar-se e, olhando para Vasquez, que o amparava nos braços, disse, com voz menos fraca:
— Tenho sede... Tenho sede!
Vasquez apresentou-lhe a chávena cheia de água com aguardente.
— Vai melhor? — perguntou-lhe.
— Sim!... Sim!... — respondeu o náufrago.
E como se reunisse as recordaÇões ainda vagas no espírito, acrescentou, apertando brandamente a mão do seu salvador:
— Aqui?... O senhor?... Onde estou eu?
Exprimia-se em inglês e, como Vasquez também falava essa língua, respondeu-lhe:
— Está em segurança. Encontrei-o na praia, depois do naufrágio da Century.
— A Century... Sim, recordo-me...
— Como se chama?
— Davis... John Davis.
— Era o capitão da galera?
— Não... Era o imediato!... E os outros?
— Morreram todos — respondeu Vasquez —, todos. Só o senhor escapou do naufrágio!
— Todos?...
— Todos!
John Davis ficou como aterrado com o que acabava de ouvir.
Fora ele o único sobrevivente! E porquê? Compreendeu que devia a vida àquele desconhecido que o tratava com tanta solicitude.
— Obrigado, obrigado!... — disse ele.
E correu-lhe pelos olhos uma grossa lágrima.
— Tem fome?... Quer comer?... Um bocadinho de bolacha e de carne? — tornou Vasquez.
— Não... não... Quero beber mais!
A água fresca, misturada com aguardente, fez muito bem a John Davis, porque daí a pouco pôde responder a todas as perguntas.
Eis, em poucas palavras, o que ele contou:
A Century, uma galera de quinhentas e cinqüenta toneladas, do porto de Mobile, tinha largado, vinte dias antes, da costa americana. A sua tripulação compunha-se do capitão, Harry Steward, do imediato, John Davis, e de doze homens, incluindo um grumete e um cozinheiro. Ia carregada de níquel e de objetos de pacotilha para Melbourne, Austrália.
Navegou bem até ao grau 55 de latitude sul no Atlântico.Sobreveio então a violenta tempestade que agitava aquelas paragens desde a véspera. Logo ao princípio, a Century, surpreendida pelo primeiro pé-de-vento, perdeu o artemão e todo o velame da ré. Pouco depois uma onda enorme, entrando por bombordo, varreu a tolda, demoliu em parte o tombadilho e levou dois marinheiros que não se puderam salvar.
A intenção do capitão Steward tinha sido procurar um abrigo por detrás da ilha dos Estados, no estreito de Lemaire. Julgava estar certo da sua situação em latitude, porque o ponto fora tirado naquele dia. Com razão lhe parecia preferível aquele caminho para dobrar o cabo Horn e subir depois para a costa australiana.
À noite o temporal redobrou de violência. Caçaram-se todas as velas, exceto a de mezena e a da gávea nos rizes, e a galera foi de vento em popa.
Naquele momento, o capitão julgava estar ainda a mais de vinte milhas longe da terra. Não via perigo nenhum em ir para diante, até avistar a luz do farol. Deixando-o então muito para o sul, não se arriscava a ir bater nos recifes do cabo San Juan e entraria sem custo no estreito.
A Century continuou, pois, a navegar, não duvidando Harry Steward de que havia de ver o farol antes de uma hora, porque a sua luz estendia-se num raio de dez milhas.
Mas afinal não viu a luz.
Então, quando lhe parecia estar ainda a grande distância da ilha, deu-se um choque tremendo. Desaparecem três marinheiros, com o mastro de mezena e o mastro grande. Ao mesmo tempo, as ondas assaltaram o casco, que se abriu, e o capitão, o imediato e os sobreviventes da tripulação foram atirados pela borda fora, no meio de uma ressaca que não deixava salvar ninguém.
Portanto, a Century tinha naufragado. Só o imediato, John Davis, devido a Vasquez, se tinha salvo da morte.
E, agora, Davis não sabia em que costa se tinha a galera ido perder.
Perguntou novamente a Vasquez:
— Onde estamos?
— Na ilha dos Estados.
— Na ilha dos Estados! — exclamou John Davis, estupefato com aquela resposta.
— Sim... a ilha dos Estados — tornou Vasquez —, à entrada da baía de Elgor.
— Mas o farol?
— Não estava aceso.
John Davis, que mostrava no rosto a mais profunda surpresa, esperava que Vasquez se explicasse; mas este, levantando-se de repente, pôs-se à escuta.
Tinha-lhe parecido ouvir uns ruídos suspeitos e queria saber se não andaria por ali perto a quadrilha.
Meteu-se pelo intervalo das rochas e deitou a vista pelo litoral até ao extremo do cabo San Juan.
Estava tudo deserto.
O furacão continuava com a mesma força. As ondas iam ali quebrar-se com prodigiosa violência; pelo horizonte, todo enevoado, corriam nuvens ainda mais ameaçadoras.
O ruído que Vasquez ouvira provinha do desmantelamento da Century.
Com o vento, a ré do navio tinha-se voltado e a rajada, penetrando dentro, empurrava-a mais para a praia.
Rolava como um enorme tonel arrombado e acabou por se despedaçar definitivamente contra a esquina das rochas. No lugar do naufrágio, coberto de mil objetos diferentes, só ficava a outra metade da galera.
Vasquez voltou para dentro e estendeu-se na areia ao pé de John Davis.
Iam voltando as forças ao imediato da Century. Já se poderia levantar e ir à praia, encostado ao braço do companheiro. Mas ele não o deixou sair. Foi então que John Davis lhe perguntou porque não se tinha acendido o farol naquela noite.
Vasquez pô-lo ao fato dos casos abomináveis que se tinham passado sete semanas antes na baía de Elgor.
Depois de sair dali o aviso Santa Fé, nada, durante perto de duas semanas, tinha interrompido o serviço do farol, que estava confiado a ele, Vasquez, e aos seus dois companheiros, Filipe e Moriz. Durante aquele período, chegaram muitos navios à vista da ilha e fizeram sinais, que lhes foram regularmente correspondidos.
Mas a 26 de Dezembro apareceu uma escuna às oito horas da noite, à entrada da baía. Do quarto de vigia, onde estava de guarda, Vasquez não cessara de avistar as suas luzes de posição e tinha assistido a toda a manobra. Na opinião dele, o capitão que a comandava devia conhecer bem o rumo que havia de seguir, porque não mostrou a mais pequena hesitação.
A escuna chegou à angra ao pé do recinto do farol e fundeou aí.
Foi então que Filipe e Moriz, que tinham saído, foram a bordo para oferecer os seus serviços ao capitão e, feridos covardemente, morreram sem se poderem defender.
— Desgraçados! — exclamou John Davis.
— Sim... os meus desgraçados companheiros! — repetiu Vasquez cuja mágoa renascia com aquelas recordações dolorosas.
— E o senhor? — perguntou John Davis.
— Eu, do alto da galeria, ouvi os gritos dos meus companheiros... Compreendi o que se tinha passado... Aquela escuna era um navio de piratas... Nós éramos três guardas!... Tinham assassinado dois e não se importaram com o terceiro.
— Como pôde escapar-lhes?
— Desci rapidamente a escada do farol, fui ao meu quarto,peguei na minha roupa e nalgumas provisões, fugi antes de a tripulação da escuna desembarcar e vim refugiar-me nesta parte do litoral.
— Miseráveis! Miseráveis! — exclamou John Davis. – Estão senhores do farol e não o acendem. Foram eles que causaram a morte do meu capitão e de todos os nossos homens.
— Sim, estão senhores de tudo — afirmou Vasquez —, e como surpreendi uma conversa do chefe com um dos seus companheiros, pude conhecer-lhes os projetos.
John Davis soube então como aqueles salteadores, que estavam havia muitos anos na ilha dos Estados, para ali atraíam os navios e trucidavam os sobreviventes dos naufrágios, metendo numa caverna todos os objetos que tinham algum valor, enquanto Kongre não se podia apossar dalgum navio.
Sobrevieram os trabalhos da construção do farol, e a quadrilha foi obrigada a abandonar a baía de Elgor e a refugiar-se no cabo Saint-Barthélemy, na outra extremidade da ilha dos Estados, onde ninguém suspeitava da sua presença.
Acabados os trabalhos, tornou ela a voltar, já havia mais de mês e meio, mas agora possuía uma escuna que viera encalhar no cabo Saint-Barthélemy e cuja tripulação morrera.
— E porque não saiu já daqui a escuna com o carregamento desses salteadores? — perguntou John Davis.
— Tem sido demorada até agora por causa de consertos importantes de que precisava. Mas já me certifiquei de que têm tudo preparado para saírem esta manhã.
— Para?...
— Para as ilhas do Pacífico, onde esses bandidos se julgarão em seguranÇa e continuarão o seu mister de piratas.
— Mas não poderão sair enquanto durar este temporal.
— Por certo — concordou Vasquez —, e, a julgar pelo aspecto do tempo, é possível que essa demora se prolongue uma semana inteira.
— E, enquanto aqui estiverem, nunca acenderão o farol?
— Nunca.
— E arriscam-se a perder-se outros navios como se perdeu a Century?
— É a pura verdade.
— Mas não se podia dar sinal da costa aos marinheiros que se aproximam dela de noite?
— Sim... talvez por meio de fogueiras acesas na praia, no extremo do cabo San Juan. Foi o que eu quis fazer para avisar a Century. Quis acender uma fogueira com lenha e ervas secas. Mas o vento soprava com tal fúria que não o pude conseguir.
— Pois o que o senhor não pôde fazer havemos de fazê-lo nós — declarou John Davis. — A lenha não nos faltará. Os restos do meu pobre navio... e, infelizmente, os de tantos outros, hão-de fornecê-la com abundância. Porque, afinal, se a escuna ainda se demorar aqui, se o farol da ilha dos Estados não puder ser visto pelos navios que vêm do mar largo, quem sabe se não se darão outros naufrágios?
— Em todo o caso — observou Vasquez —, Kongre e a sua quadrilha não se podem demorar muito na ilha e tenho a certeza de que a escuna se há-de fazer ao mar logo que o tempo o permitir.
— Porquê? — perguntou John Davis.
— Porque eles sabem que brevemente vêm render os guardas do farol.
— Render os guardas?
— Sim, nos primeiros dias de Março, e já estamos a 18 de Fevereiro.
— Vem então um navio nessa época?
— Sim, o aviso Santa Fé deve chegar de Buenos Aires a 10 de Março, ou talvez mais cedo.
John Davis teve a mesma idéia que tinha acudido ao espírito de Vasquez.
— Ah! — exclamou ele. — Isso vai mudar tudo! Deus queira que o mau tempo dure até lá e que esses miseráveis ainda aqui estejam quando o Santa Fé fundear na baía de Elgor!