O Farol do Cabo do Mundo
Capítulo III
Nunca outros estrangeiros tinham tido ocasião de mostrar ali a sua presença. As costas da ilha eram muito temidas pelos navegadores e por isso nenhum navio se tentava a ir procurar ali um refúgio que mais segura e facilmente encontraria em muitos outros pontos da Terra de Magalhães.
Apesar disso, tinham-se tomado todas as precauções na previsão de que viesse gente suspeita à baía de Elgor. Os anexos estavam fechados com portas sólidas, que se aferrolhavam por dentro, e não se poderiam arrombar as grades das janelas dos armazéns e da casa de habitação. Além disso, Vasquez, Moriz e Filipe tinham consigo carabinas e revólveres e as munições não lhes faltavam.
Finalmente, ao fundo do corredor que ia dar ao pé da torre, havia uma porta de ferro que seria impossível quebrar ou arrombar. Quanto a entrar de outra maneira na torre, como seria isso possível através das seteiras estreitas da escada, defendidas por travessas sólidas, e como se podia chegar à galeria que rodeava a lanterna, a não ser subindo pela corrente do pára-raios?
Tais eram os trabalhos de tão grande importância que tinham sido levados a bom fim na ilha dos Estados, pelos cuidados do Governo da República da Argentina.
Capítulo III
OS TRÊS GUARDAS
É nesta época do ano, de novembro a março, que a navegação se ativa mais nas paragens da Terra de Magalhães.
O mar ali está sempre mau.
Mas, se nada faz parar nem sossega as imensas ondas que vêm dos dois oceanos, pelo menos o estado da atmosfera é mais igual e as tormentas que o perturbam até nas zonas altas são apenas passageiras.
Os navios a vapor e os de vela arriscam-se de melhor vontade, neste período de tempo bonançoso, a contornar o Novo Continente dobrando o cabo Horn.
Contudo, não era a passagem dos navios, quer pelo estreito de Lemaire, quer pelo sul da ilha dos Estados, que podia quebrar a monotonia dos longos dias desta estação. Nunca foram muitos, e mais raros ainda se tornaram desde que o desenvolvimento da navegação a vapor e o aperfeiçoamento das cartas marítimas fizeram menos perigoso o estreito de Magalhães, que é o caminho ao mesmo tempo mais curto e mais fácil.
Mas esta monotonia, inerente à vida que se passa nos faróis, não a notam muito bem os guardas que neles estão empregados.
São, na maior parte, marinheiros encanecidos no serviÇo ou pescadores antigos.
Não é gente que conte os dias e as horas, sabem sempre achar que fazer e distrair-se.
Demais, o serviço não se limita a acender a luz entre o pôr e o romper do Sol. Fora recomendado a Vasquez e aos seus camaradas que vigiassem com cuidado as proximidades da baía de Elgor, que fossem muitas vezes por semana ao cabo San Juan e que observassem a costa leste até ao pico Several, sem nunca se afastarem mais de três a quatro milhas.
Deviam ter sempre em dia o livro do farol e registrar aí todos os casos que ocorressem, a passagem dos navios de vela e a vapor, a sua nacionalidade, o seu nome, quando os mandassem, com o número, a altura das marés, a direção e a força do vento, o bom ou mau tempo, a duração das chuvas, a freqüência dos temporais, as altas e baixas do barômetro, o estado da temperatura e outros fenômenos, para com isso se estabelecer a carta meteorológica daquelas paragens.
Vasquez, argentino de nascença, como Filipe e Moriz, devia ser na ilha dos Estados o chefe dos guardas do farol.
Tinha então quarenta e sete anos.
Vigoroso, de uma saúde a toda a prova, pronto para suportar quaisquer intempéries, como todo o marinheiro que cortou e recortou a maior parte dos cento e oitenta paralelos, resoluto, enérgico, familiarizado com o perigo, soube sair-se bem em mais de uma circunstância em que teve a vida em risco. Não foi só pela idade que tinha que o escolheram para chefe dos guardas, foi também pelo seu caráter de rija têmpera, que inspirava inteira confiança.
Sem ter passado de primeiro-mestre na marinha de guerra da República, quando saiu do serviço era estimado por todos.
Por isso, quando solicitou aquele lugar na ilha dos Estados, a autoridade marítima não teve hesitação nenhuma em Lho confiar.
Filipe e Moriz eram igualmente dois marinheiros, um de quarenta e outro de trinta e sete anos. Vasquez conhecia-lhes as famílias havia muito tempo e tinha-os designado ao Governo para seus auxiliares.
O primeiro era solteiro, como ele. Dos três, só Moriz era casado, sem filhos, e a mulher, a quem havia de tornar a ver daí a três meses, estava a servir numa hospedaria do porto de Buenos Aires.
Quando passassem os três meses, Vasquez, Filipe e Moriz embarcariam no Santa Fé, este traria para a ilha dos Estados outros três guardas, que eles iriam render três meses depois.
Seria em Junho, Julho e Agosto que retomariam o serviço, isto é, no meio do Inverno.
Não teriam sofrido mau tempo da primeira vez, mas deviam esperar uma vida bem custosa quando voltassem para a ilha.
Como se deve calcular, isto não lhes causava inquietação nenhuma. Vasquez e os seus camaradas já estariam quase aclimatados e afrontariam impunemente o frio, as tempestades e todos os rigores das estações antárticas.
Desde aquele dia, 10 de dezembro, o serviço foi organizado regularmente.
Todas as noites os lampiões funcionaram, debaixo da vigilância do guarda que estava no quarto de vigia, enquanto os outros dois descansavam. De dia os diversos aparelhos eram examinados e limpos, com torcidas novas quando era preciso, e postos em estado de projetar os seus raios potentes ao pôr do Sol.
De quando em quando, conforme as indicações do serviço, Vasquez e os seus camaradas desciam a baía de Elgor até ao mar, a pé por uma ou outra margem ou no barco que estava sempre à disposição dos guardas, uma chalupa bem apetrechada que se abrigava numa angrazinha onde nada havia a recear, porque a protegiam as rochas altas contra os ventos de leste, as únicas que eram para temer.
Quando Vasquez, Filipe e Moriz faziam estas excursões na baía ou nos arredores do recinto do farol, um deles ficava sempre de guarda na galeria superior.
Podia acontecer que passasse algum navio à vista da ilha dos Estados e quisesse mandar o número. Convinha, pois, que um dos guardas estivesse sempre no seu posto.
Do terrapleno só se avistava o mar de leste para nordeste. Nas outras direções, as penedias detinham os olhos a alguns centos de toesas do recinto. Portanto um deles tinha obrigação de estar sempre no quarto de vigia, para poder comunicar com os navios.
Nos primeiros dias que se seguiram à partida do aviso não houve nada digno de menção.
O tempo continuava bom e a temperatura muito elevada. O termômetro marcava às vezes dez graus acima de zero. O vento soprava do largo, e geralmente muito leve entre o nascer e o pôr do Sol, depois, de tarde, alava para terra, quer dizer, subia para o noroeste, e vinha das vastas planícies da Patagônia e da Terra do Fogo.
Houve contudo algumas horas de chuva e, como o calor aumentava, deviam esperar-se tempestades próximas, que poderiam modificar o estado atmosférico.
Com a influência dos raios solares, que adquiriam uma força vivificante, a flora começou a manifestar-se numa certa proporção. O prado próximo do farol, inteiramente despido do manto branco do Inverno, mostrava o seu tapete de um verde desmaiado. No bosque de faias antárticas, fazia até gosto estender-se debaixo da folhagem nova. O regato, largamente alimentado, corria, cheio de todo, até à angra. Os musgos e os líquenes tornavam a aparecer ao pé das árvores e atapetavam os flancos das rochas, juntos com as cocleárias, tão eficazes contra as afecções escorbúticas. Enfim, se não era a Primavera — esta palavra tão bonita não se usa ali —, era o Verão que por algumas semanas ainda reinava no extremo limite do continente americano.
No fim deste dia, antes de se acender o farol, Vasquez, Filipe e Moriz, sentados todos três na galeria circular que corria em roda da lanterna, conversavam, conforme o seu costume, e muito naturalmente o chefe dos guardas dirigia e mantinha a conversação.
— Então, rapazes — disse ele, depois de encher conscienciosamente o cachimbo, exemplo que foi seguido pelos outros dois —, começam a habituar-se a esta nova vida?
— Por certo, Vasquez — respondeu Filipe. — Em tão pouco tempo não se pode sentir muito aborrecimento nem grande fadiga.
— Efetivamente — acrescentou Moriz —, mas os nossos três meses hão de passar mais depressa do que eu julgava.
— Sim, meu rapaz, hão de correr como uma corveta a singrar por esses mares fora!
— A respeito de navios — ponderou Filipe —, ainda hoje não avistamos um só, nem sequer no horizonte...
— Há de vir, Filipe, há de vir — replicou Vasquez, arredondando a mão sobre os olhos como para fazer um óculo. — Não valia a pena ter levantado este belo farol na ilha dos Estados, um farol que manda a sua claridade até dez milhas ao largo, para nenhum navio se aproveitar dele.
— E o nosso farol é todo novo — observou Moriz.
— É como dizes, rapaz! — aprovou Vasquez —, e é preciso dar tempo aos capitães para saberem que esta costa é iluminada. Quando o souberem, não hesitarão em vir mais perto dela e entrar no estreito, com grande vantagem da sua navegação! Mas não basta saber que há um farol, é preciso também ter a certeza de que ele está sempre aceso, desde o pôr do Sol até que ele se levanta.
— Isso — disse Filipe — só será bem conhecido quando o Santa Fé voltar a Buenos Aires. — Justamente, rapaz — declarou Vasquez —, e quando se publicar o relatório do comandante Lafayate, as autoridades hão-de logo espalhá-lo por todo o mundo marítimo. Mas a maior parte dos navegadores já não deve ignorar o que se fez aqui.
— Quanto ao Santa Fé, que só partiu há cinco dias, — tornou Moriz —, a sua viagem durará...
— Suponho — interrompeu Vasquez — que não poderá durar mais de uma semana! O
tempo está bom, o mar sereno e o vento sopra de boa parte. O navio leva as velas pandas de dia e de noite, e, contando ainda com a máquina, muito me admiraria se não fizesse os seus nove a dez nós.
— A estas horas — disse Filipe — deve ter passado o estreito de Magalhães e dobrado o cabo das Virgens numas quinze milhas.
— Decerto, meu rapaz — declarou Vasquez. — Neste momento, rodeia a costa patagônica e pode desafiar na corrida os cavalos dos patagões... E, ainda assim, naquela terra, os homens e os cavalos correm como uma fragata de primeira ordem com vento de feição!
Percebe-se que esta lembrança do Santa Fé estivesse ainda presente no espírito daquela boa gente. Era como que um pedaço de terra natal que acabava de os deixar, para ir a outra parte. Seguiam-no com o pensamento até o fim da viagem.
— Fizeste hoje boa pesca? — tornou Vasquez, dirigindo-se a Filipe.
— Muito boa, Vasquez, apanhei de linha algumas dúzias de cadozes e à mão um peixe grande que pesava bem três arráteis e que fugia por entre as rochas.
— Está bem — respondeu Vasquez — e não tenhas medo de despovoar a baía!... Quanto mais peixes se apanham, mais há, como se diz, e isso faz com que economizemos as nossas provisões de carne seca e toucinho salgado!... Com respeito aos legumes...
— Eu — disse Moriz — fui até o faial. Apanhei lá algumas raízes e, como já vi trabalhar o cozinheiro do navio, que sabe da poda, hei de arranjar-lhes um petisco famoso!
— E vem em muito boa ocasião — declarou Vasquez —, porque não se deve abusar das conservas, ainda mesmo das melhores! Vale mais tudo o que é morto ou pescado de fresco, ou então apanhado há pouco tempo!
— Oh! — disse Filipe —, se viessem alguns ruminantes do interior da ilha... um casal de guanacos ou outros quaisquer...
— Não digo que um filete ou uma perna de guanaco seja para desprezar — volveu Vasquez. — Quando lhe dão um bom bocado de carne, o estômago não tem mais senão agradecer!... Por isso, se a caça se apresentar, vamos a ver se a matamos.
Mas tomem cuidado, rapazes, em não se afastarem daqui para irem procurar caça grossa ou outra. O essencial é conformarem-se com as instruÇões que recebemos e não se afastarem do farol, a não ser para observarem o que se passa na baía de Elgor e ao largo entre o cabo San Juan e o pico Diegos.
— Contudo — tornou Moriz, que gostava de caçar —, se aparecesse uma peça boa a um tiro de espingarda...
— A um tiro, a dois, e até três, não digo que não — respondeu Vasquez. — Mas, como sabem, o guanaco é muito bravio por natureza e não freqüenta a boa sociedade... a nossa, entende-se, e muito me admirava se visse um par de chavelhos deles ao de cima das rochas, do lado do faial ou nas proximidades do farol!
Efetivamente, desde o princípio dos trabalhos não fora visto nenhum animal perto da baía de Elgor. O imediato do Santa Fé, que era um arrojado Nemrod, tinha por muitas vezes tentado caçar o guanaco. A sua tentativa não tivera resultado, apesar de se internar cinco a seis milhas pelo interior.
Se a caça grossa não faltava, pelo menos não se deixava ver senão de longe em longe para se lhe atirar. Talvez se tivesse subido às alturas e passado o porto Parry, se fosse até à outra extremidade da ilha, houvesse sido mais feliz. Mas ali, onde se erguiam grandes picos, na parte ocidental, o caminho devia ser por certo mais difícil e nem ele, nem ninguém da tripulação do Santa Fé, foi nunca reconhecer os arredores do cabo Saint-Barthélemy.
Na noite de 16 para 17 de Dezembro, estando Moriz de guarda no quarto de vigia das seis às dez horas, avistou-se uma luz na direção de leste, a cinco ou seis milhas ao largo. Era evidentemente de um navio, o primeiro que aparecia nas águas da ilha desde que se tinha montado o farol.
Moriz pensou, com razão, que isto devia interessar aos camaradas, que ainda não dormiam, e foi preveni-los.
Vasquez e Filipe subiram logo com ele e, com a luneta de longo alcance nos olhos, puseram-se à janela que dava para leste.
— É uma luz branca — declarou Vasquez.
— E, por conseguinte — observou Filipe —, não é luz de posição, porque não é verde nem vermelha.
A observação era justa. Não era uma dessas luzes de posição, colocadas, conforme a sua cor, uma a bombordo e outra a estibordo do navio.
— E — acrescentou Vasquez —, visto que é branca, é porque está pendurado no estai da mezena, o que indica que temos um paquete à vista da ilha.
Nesse ponto não havia dúvida nenhuma. Era efetivamente um paquete que se aproximava do cabo San Juan. Os guardas não sabiam se tomaria pelo estreito de Lemaire ou se passaria pelo sul.
Seguiram com os olhos o andamento do navio à proporção que ele se aproximava, e, meia hora depois, ficaram cientes do seu rumo.
O paquete, deixando o farol por bombordo a sul-sudoeste, dirigiu-se francamente para o estreito.
Pôde ver-se-lhe a luz quando passou pela enseada San Juan; daí a pouco desapareceu no meio da escuridão.
— É o primeiro navio que passa à vista do farol do Cabo do Mundo! — exclamou Filipe.
— E não será o último! — afiançou Vasquez.
No dia seguinte, de manhã, Filipe distinguiu um grande navio de vela que aparecia no horizonte. O tempo estava claro, a atmosfera livre de nevoeiros por uma brisazinha do sudoeste e por isso pôde avistar-se o navio à distância de, pelo menos, dez milhas.
Vasquez e Moriz, prevenidos do caso, subiram à galeria do farol. Distinguia-se o navio indicado acima das ilhas extensas do litoral, um pouco à direita da baía de Elgor, entre o pico Diegos e o pico Several.
Esse navio singrava rapidamente, sempre para cima, com uma velocidade que não se devia avaliar em menos de doze ou treze nós. Ia a panos largos, com amuras a bombordo. Mas, como se dirigia em linha reta para a ilha dos Estados, não se podia ainda afirmar se lhe passaria ao norte ou ao sul.
Como marinheiros a quem essas coisas sempre interessam, Vasquez, Filipe e Moriz discutiam esse ponto. Finalmente, foi Moriz quem teve razão, afirmando que o navio não procurava a entrada do estreito. Efetivamente, quando chegou a milha e meia da costa, orÇou, de modo a tomar mais a direção do vento, para dobrar o pico Several.
Era um navio grande, de mil e oitocentas toneladas, pelo menos, armado em galera, do gênero daqueles clippers construídos na América e cuja velocidade é realmente maravilhosa.
— Transforme-se em chapéu de chuva este óculo – exclamou Vasquez — se aquele navio não saiu de um estaleiro da Nova Inglaterra!
— Talvez nos vá mandar o seu número — disse Moriz.
— Não fazia senão o seu dever — respondeu simplesmente o chefe dos guardas.
Foi o que aconteceu quando o clipper tornejava o pico Several. Içaram uma série de bandeiras, sinais que Vasquez traduziu imediatamente depois de consultar o livro do farol.
Era o Montarak, do porto de Boston, Nova Inglaterra, Estados Unidos da América.
Os guardas responderam-lhe içando a bandeira argentina na haste do pára-raios, e não cessaram de observar o navio até ao momento em que a extremidade da sua mastreação desapareceu por detrás das alturas do cabo Webster, na costa sul da ilha.
— E agora — disse Vasquez — boa viagem ao Montarak, e queira Deus que não apanhe algum mau tempo ao largo do cabo Horn!
Nos dias que se seguiram, o mar esteve quase deserto. Mal se puderam entrever uma ou duas velas no horizonte de leste. Os navios que passavam a umas dez milhas da ilha dos Estados não procuravam evidentemente aproximar-se da terra da América. Na opinião de Vasquez, deviam ser baleeiras que iam para os sítios da pesca, nas paragens antárticas. Viram-se também alguns golfinhos que vinham das latitudes mais elevadas. Conservavam-se a boa distância do pico Several, dirigindo-se para o oceano Pacífico.
Não houve nada a notar até à data de 20 de dezembro, a não ser observações meteorológicas. O tempo tornara-se muito variável, com saltos de vento do nordeste para o sueste. Por várias vezes caíram chuvas muito fortes, de quando em quando acompanhadas de granizo, o que indicava uma certa tensão elétrica da atmosfera.
Podiam-se pois recear tempestades, que não deixam de ser temíveis, principalmente naquela época do ano.
Na manhã de 21, quando Filipe passeava, fumando, no terrapleno, pareceu-lhe ver um animal qualquer do lado do faial.
Depois de ter observado por alguns instantes, foi à sala comum buscar a luneta de longo alcance.
Filipe viu sem custo que era uma llama muito grande. Talvez fosse ocasião de dar um bom tiro.
Vasquez e Moriz, a quem ele chamou, saíram logo do anexo e foram ter com ele ao terrapleno.
Todos foram de opinião que deviam caçar o animal. Se conseguissem matá-lo, seria um acréscimo de carne fresca que viria variar agradavelmente a comida do costume.
Combinou-se o seguinte: Moriz, armado com uma das carabinas, sairia do recinto do farol e tentaria, sem ser visto, fazer voltar o animal, que continuava imóvel, e afastá-lo para o lado da baía, onde Filipe o esperaria quando ele passasse.
— Em todo o caso, tomem muito cuidado, rapazes – recomendou Vasquez. — Estes animais têm os ouvidos e as ventas finas! Apenas vir ou lhe der o faro de Moriz, por mais longe que seja, fugirá tão depressa que não lhe poderão atirar nem desviá-lo do caminho. Nesse caso deixem-no correr, porque não se devem afastar daqui. Entendem?
— Entendemos — respondeu Moriz.
Vasquez e Filipe postaram-se no terraço e, servindo-se da luneta, viram que o guanaco não se tinha tirado do lugar em que se mostrara primeiro. Dirigiram então as atenções para Moriz.
Este encaminhara-se para o faial. Ali estaria abrigado e talvez pudesse, sem assustar o animal, chegar às rochas, para o apanhar de costas e obrigá-lo a fugir do lado da baía.
Os camaradas puderam segui-lo com os olhos até ele chegar ao faial e desaparecer.
Passou quase uma hora. A llama continuava imóvel e Moriz devia já poder mandar-lhe um tiro.
Vasquez e Filipe esperavam, pois, ouvir o estrondo e ver o animal cair, mais ou menos gravemente ferido, ou então fugir com toda a velocidade.
Mas não se ouviu tiro nenhum e, com grande surpresa de Vasquez e de Filipe, a llama, em lugar de fugir, estendeu-se nas rochas, com as pernas pendentes e o corpo descaído, como se já não tivesse força para se segurar.
Quase a seguir, Moriz, que conseguira meter-se por trás das rochas, apareceu e correu para o guanaco, que não se mexeu; debruçou-se para ele, apalpou-o e levantou-se de repente.
Depois, voltando-se para o lado do farol, fez um gesto com o qual os companheiros não se podiam enganar. Evidentemente, pedia-lhes que fossem ter com ele quanto mais depressa melhor.
— Há qualquer coisa de extraordinário — afirmou Vasquez. Vem, Filipe.
E ambos, descendo precipitadamente do terraço, correram para o bosque. Não levaram dez minutos a chegar lá.
— Então... a llama?... — interrogou Vasquez.
— Está ali — respondeu Moriz, apontando para o animal deitado aos seus pés.
— Está morto? — perguntou Filipe.
— Está — disse Moriz.
— Foi de velhice? — exclamou Vasquez.
— Não... foi de uma ferida!
— De uma ferida! Então feriram-no?
— Sim... tem uma bala numa ilharga!
— Uma bala! — repetiu Vasquez.
Não havia nada mais certo. Depois de ser ferido com uma bala e de se arrastar até aquele local, a llama tinha caído morta.
— Então há caçadores na ilha! — murmurou Vasquez.
Imóvel e pensativo, lançou um olhar inquieto ao redor.