O Farol do Cabo do Mundo
Capítulo VI
O mar estava então quase quieto e daí a alguns minutos começaria a vazante.
Todo o banco de areia estava coberto de água. Só alguns cabeços de recifes apareciam à superfície. Do cabo Saint-Barthélemy já não se via a ponta, e na praia a última saliência, depois de ter sido por um instante tocada pelas ondas, ficava em seco.
Era evidente que o mar comeÇava a retirar-se devagar e que as rochas iam brevemente descobrir-se à roda do banco.
Então houve novas pragas. Os homens, exaustos, sem fôlego, iam abandonar um trabalho com que não podiam.
Kongre correu para eles, com os olhos enfurecidos e escumando de cólera.
Pegando num machado, ameaçou ferir com ele o primeiro que desertasse do seu posto, e eles sabiam bem que não hesitaria em o fazer.
Todos voltaram portanto para as manivelas e, com grandes esforços, a corrente esticou, esmagando o forro de cobre dos escovéns.
Afinal, ouviu-se um ruído. A lingueta do cabrestante tornara a cair no encaixe. A escuna fizera um movimento leve para o largo. A cana do leme, movendo-se, indicava que o navio ia saindo a pouco e pouco da areia.
— Hurra!... Hurra!... — gritaram os homens, vendo que a Maule estava livre.
A parte inferior do leme acabava de deslizar na areia. O cabrestante virou-se mais depressa e daí a alguns minutos a escuna, puxada pelo ferro, flutuava fora do banco de areia.
Kongre atirou-se logo para a roda do leme. A corrente cedeu, o ferro desprendeu-se e foi içado novamente para o aparelho de suspensão. Agora era só ir, por entre os recifes, até à angra da baía Franklin.
Kongre mandou então armar a bujarrona, que devia ser suficiente. No estado em que o mar se encontrava, havia água por toda a parte. Passada meia hora, depois de contornar os últimos rochedos ao longo da praia, a escuna fundeava na angra dos Pinguins, a duas milhas da extremidade do cabo Saint-Barthélemy.
Capítulo VI
NA BAÍA DE ELGOR
A operação do desencalhe tinha pois sido feita com bom resultado. Mas ainda não acabara tudo. Era preciso que a escuna estivesse em completa segurança naquela angra aberta no litoral do cabo Saint-Barthélemy. Estava muito exposta às ondas do mar largo e aos temporais do noroeste. Na época das marés fortes do equinócio nem poderia ficar vinte e quatro horas ali.
Kongre sabia-o muito bem. Por isso a sua intenção era sair da angra na vazante do dia seguinte, que queria aproveitar para tornar a subir em parte o estreito de Lemaire.
Mas antes disso era indispensável acabar de visitar o navio todo e verificar o estado do casco por dentro. Apesar de ter a certeza de que não metia água, podia ser que, se não o costado, pelo menos o cavername tivesse sofrido com o encalhe e fosse necessário fazer consertos por causa de ser demorada a viagem.
Kongre pôs logo os seus homens ao trabalho, para tirarem o lastro que obstruía o porão até à altura das cavernas de bombordo e de estibordo. Demais, não teriam de desembarcar, o que pouparia tempo e fadigas, principalmente tempo, que era preciso aproveitar muito, na situação pouco segura em que a escuna se encontrava.
A ferragem velha que constituía o lastro foi primeiro levada da proa para a ré do porão, para se poder examinar bem a parte da frente do navio.
Esse exame foi feito com todo o cuidado por Kongre e Carcante, ajudados por um chileno chamado Vargas, que tinha trabalhado antigamente de carpinteiro nos estaleiros de Valparaíso e sabia bem do seu ofício.
Em toda a parte compreendida entre a proa e o mastro de mezena não havia avaria nenhuma. Tudo estava em bom estado; as peças, com cavilhas de cobre, não se ressentiam do choque no banco de areia.
Levado o lastro para a proa, viu-se o casco igualmente intacto do mastro de mezena ao mastro grande. Os pontaletes não estavam dobrados nem torcidos, e a escada que dava para a parte central ficara no mesmo lugar.
Examinou-se então o resto do porão.
Aí é que havia uma avaria de alguma importância.
Se nesse sítio o navio não metia água, o cavername de bombordo mostrava um rombo de metro e meio de comprimento. Este rombo devia ter sido causado pelo embate contra um rochedo antes de a escuna ser arrastada para o banco de areia.
Se o costado não tinha cedido de todo, se a estopa ficara no seu lugar, impedindo que entrasse água no porão, esta avaria não deixava de ter certa gravidade e era para causar inquietação a um marinheiro.
Era preciso pois remediá-la antes de se fazerem ao mar, a não ser que fizessem uma travessia curta com tempo sereno. Demais, era provável que aquele conserto levasse uma semana toda, admitindo ainda que tivessem os materiais e as ferramentas necessárias para esse trabalho.
Quando Kongre e os seus companheiros viram tudo, as maldições muito justificadas pelas circunstâncias em que estavam seguiram-se aos hurras que tinham saudado o desencalhe da escuna.
Não estaria ela em estado de navegar? Não poderiam afinal sair da ilha dos Estados?
Kongre interveio então, dizendo:
— Efetivamente a avaria é grave. No estado em que está, não poderíamos contar com a escuna, porque, havendo mau tempo, arriscava-se muito a abrir-se de meio a meio... E temos de andar centenas de milhas antes de chegarmos às ilhas do Pacífico!... Era arriscarmo-nos a soçobrar no caminho. Mas esta avaria tem conserto e havemos de a remediar.
— Onde? — perguntou um dos chilenos, que não ocultava a sua inquietação.
— Aqui não, com certeza — declarou um dos companheiros.
— Não — respondeu Kongre num tom resoluto —, na baía de Elgor.
Em quarenta e oito horas a escuna podia, efetivamente, transpor a distância que a separava da baía. Só teria de costear o litoral da ilha, para o sul ou para o norte.
Na caverna, onde tinha ficado tudo o que provinha do saque feito aos navios, o carpinteiro teria à sua disposição a madeira e as ferramentas precisas para o conserto. Se fosse preciso ficar arribada quinze dias ou três semanas, a escuna ficaria. A estação boa ainda devia durar dois meses e, pelo menos, quando Kongre e os seus companheiros saíssem da ilha dos Estados, seria a bordo de um navio que, depois de consertado, apresentaria toda a segurança.
Demais, Kongre tivera sempre a intenção de, quando saísse do cabo de Saint-Barthélemy, passar algum tempo na baía de Elgor. Por coisa nenhuma queria perder os objetos de toda a espécie que tinha deixado na caverna, quando os trabalhos do farol obrigaram a quadrilha a refugiar-se na outra extremidade da ilha.
Assim, os seus projetos não seriam modificados senão quanto à duração da arribada, que se prolongaria além do que desejava.
Voltou então a confiança e fizeram-se os preparativos de maneira que pudessem partir na maré do dia seguinte.
Quanto à presença dos guardas do farol, não era coisa que desse cuidado àquele bando de piratas. Em algumas palavras, Kongre expôs os seus projetos a esse respeito.
— Antes de chegar esta escuna — comunicou ele a Carcante quando ficaram sós -
tinha eu resolvido tomar posse da baía de Elgor, e ainda não mudei de tenções. Mas em lugar de irmos para lá pelo interior da ilha, evitando que nos vejam, iremos por mar, bem às claras. A escuna irá fundear na angra... Hão-de receber-nos sem suspeitarem nada... e...
Um gesto que Carcante percebeu perfeitamente completou a idéia de Kongre. E, na realidade, os projetos daquele miserável tinham todas as probabilidades de bom êxito. A não ser por um milagre, como escapariam Vasquez, Moriz e Filipe da sorte que os ameaçava?
A tarde foi consagrada aos preparativos da partida. Kongre mandou pôr o lastro no seu lugar e tratar do embarque das provisões, das armas e de outros objetos que se tinham trazido para o cabo Saint-Barthélemy.
O carregamento efetuou-se com rapidez.
Desde a partida da baía de Elgor — havia já mais de um ano — Kongre e os seus companheiros tinham-se alimentado principalmente das suas reservas e só havia uma pequena quantidade delas, que se guardou na despensa. Quanto às camas, ao fato, às ferramentas, aos objetos de ouro e de prata, foram para diferentes sítios do navio, enquanto não vinha o material que ainda estava armazenado na caverna à entrada da baía.
Em suma, andaram tão diligentes que às quatro horas da tarde essa carregação estava a bordo.
A escuna podia fazer-se ao mar imediatamente, mas Kongre não queria navegar de noite ao longo de um litoral coberto de recifes. Nem sabia se iria ou não pelo estreito de Lemaire para subir à altura do cabo San Juan. Dependeria isso da direção do vento. Sim, se puxasse para o sul, e não se conservasse ao norte e tendesse a refrescar. Nesse caso, parecer-lhe-ia preferível passar ao sul da ilha, porque assim garantiria à escuna o abrigo da terra. Demais, fosse qual fosse o caminho que escolhesse, calculava que esta travessia não devia durar mais de umas trinta horas, incluindo a arribada de noite.
À tarde não tinha havido modificação nenhuma no estado atmosférico. Não se apresentara nevoeiro ao pôr do Sol. e era tal a pureza da linha do céu e da água que, quando o disco desaparecia no horizonte, atravessou o espaço um raio verde.
Parecia, pois, que a noite havia de ser serena, e, efetivamente, assim foi. A maior parte dos homens tinham-na passado a bordo, uns no posto, outros no porão.
Kongre ocupava o camarote do capitão Palha, à direita, e Carcante o do imediato, à esquerda do pavimento.
Por várias vezes foram á tolda observar o estado do céu e do mar e certificar-se de que, ainda mesmo na preia-mar, a escuna não corria nenhum perigo e que nada lhe demoraria a partida no dia seguinte.
Efetivamente, o nascer do Sol foi magnífico. Naquela latitude, é raro vê-lo aparecer acima de um horizonte tão límpido.
Logo às primeiras horas, Kongre desembarcou com a lancha e, através de um barranco estreito, quase ao pé do cabo Saint-Barthélemy, chegou à aresta dos rochedos.
Daquela altura, pôde percorrer com os olhos um vasto espaço de mar nos três quartos do compasso. A leste só encontrava as massas montanhosas que se elevam entre o cabo Saint-Antoine e o cabo Kempe.
O mar, sereno na região do sul, era muito agitado na abertura do estreito, porque o vento tomara força e tendia a refrescar.
Não se via uma vela, nem um fumo ao largo, e sem dúvida a Maule não se cruzaria com outro navio na sua curta travessia até ao cabo San Juan.
Kongre tomou logo uma resolução. Receando com razão que não houvesse muito vento e não querendo, de maneira nenhuma, cansar a escuna, expondo-a às ondas do estreito, muito fortes na mudança da maré, resolveu-se a ir ao longo da costa meridional da ilha e chegar à baía de Elgor dobrando os cabos Kempe, Webster, Several e Diegos. Fosse pelo sul ou pelo norte, a distância era quase igual.
Tornou, pois, a descer, foi pela praia, dirigiu-se para a caverna e verificou que não lhe tinha esquecido lá coisa nenhuma. Nada revelava a presença de um grupo de homens na extremidade oeste da ilha dos Estados.
Eram pouco mais de sete horas. A vazante, que começava já, favorecia a saída da angra.
O ferro foi posto no aparelho, depois içou-se o traquete e o cutelo, que, com aquela brisa do noroeste, deviam bastar para levar a escuna para fora dos bancos.
Kongre governava o leme e Carcante vigiava na proa.
Não foram precisos mais de dez minutos para saírem dos recifes e daí a pouco a escuna balanceou-se nas águas.
Por ordem de Kongre, Carcante mandou fazer as manobras necessárias e a escuna pôs a proa a sudoeste, para dobrar a ponta extrema do cabo Saint-Barthélemy.
Em meia hora, a escuna contornou as rochas. Então orçou e tomou a direção de leste, para se aproximar mais do vento. Mas ele favorecia-Lhe o andamento, ao abrigo da costa meridional da ilha.
Entretanto, Kongre e Carcante puderam observar que aquele navio leve andava muito bem. Por certo que, com bom tempo, não havia perigo em se aventurarem nos mares do Pacífico, depois de deixarem para trás as últimas ilhas do arquipélago de Magalhães.
Talvez Kongre tivesse podido chegar à entrada da baía de Elgor à tarde, mas preferia parar num ponto qualquer do litoral antes de o Sol desaparecer no horizonte. Contentou-se, pois, com uma média de cinco a seis milhas por hora.
Neste primeiro dia a Maule não encontrou navio nenhum e ia anoitecer quando foi fundear a leste do cabo Webster, tendo feito quase metade da travessia.
Ali amontoavam-se penedos enormes e elevavam-se as rochas mais altas da ilha.
A escuna ancorou numa angra coberta pelo pico; um navio não estaria mais quieto no fundo de um porto ou até num lago. Certamente, se o vento viesse do sul, a escuna estaria muito exposta naquele sítio, onde o mar, quando as tempestades polares o agitam, é tão violento como nas proximidades do cabo Horn.
Mas o tempo parecia querer conservar-se com brisa de nordeste e a sorte continuava a favorecer os projetos de Kongre e dos seus.
A noite de 25 para 26 de Dezembro foi das mais sossegadas. O vento, que tinha descaído às dez horas da noite, tornou a voltar pelas quatro horas da manhã.
Logo aos primeiros alvores da aurora, Kongre tomou as suas disposiÇões para se fazer ao mar. Depois de tudo pronto, a escuna pôs-se a caminho.
O cabo Webster prolonga-se pouco mais ou menos quatro ou cinco milhas pelo mar, de norte para o sul. A escuna teve, pois, de sair, para alcançar a costa que corre para leste até ao pico Several, num comprimento de vinte milhas proximamente.
A Maule continuou a caminhar nas mesmas condições da véspera, desde que chegou ao litoral, onde encontrou águas serenas ao abrigo dos rochedos altos.
Que costa medonha, ainda mais temível do que a do estreito! Montão de blocos enormes e de um equilíbrio instável, porque grande quantidade destes obstruíam as praias até às últimas mudanças da maré, prodigiosa extensão de recifes denegridos, que não deixam um lugar livre para uma embarcação, ainda que seja das mais pequenas, poder atracar. Nem uma angra que fosse acessível, nem um banco de areia em que se pudesse pôr os pés. Era a monstruosa muralha que a ilha dos Estados opunha às ondas terríveis que vinham das paragens antárticas.
A escuna ia andando devagar e estava a menos de três milhas do litoral. Kongre não conhecia aquela costa e, com razão, tinha medo de se aproximar muito dela.
Por outro lado, não querendo fatigar o navio, conservava-se no meio das águas tranqüilas que não teria encontrado ao largo da terra.
Às dez horas, chegando à entrada da baía Blossom, não pôde contudo evitar completamente o marulho. O vento, entrando pelo golfo que se abre profundamente nas terras, levantava o mar em ondas extensas que a escuna recebia de través, rangendo. Kongre deixou-se levar, para dobrar o pico que limita a baía do lado oriental, e, depois de o passar, virou mais ao vento. A seguir, com as amuras a bombordo, fez-se um pouco ao largo.
Tinha pegado na cana do leme e ia, o mais possível, na direção do vento. Só às quatro horas da tarde calculou que podia alcançar o que desejava. Virando então de ló, mudou as amuras e aproou para a baía de Elgor, ficando-lhe naquele momento o pico Several a quatro milhas a noroeste.
Daquela distância, a costa mostrava-se toda até ao cabo San Juan.
Ao mesmo tempo, do outro lado do pico Diegos, aparecia a torre do farol do Cabo do Mundo, que Kongre via pela primeira vez. Com a luneta que encontrara no camarote do capitão Palha, pôde até distinguir um dos guardas que, da galeria, estava olhando para o mar. Como o Sol ainda se devia conservar por três horas acima do horizonte, a escuna havia de arribar
certamente antes da noite.
Não pudera a Maule escapar à vista dos guardas e sabiam perfeitamente que estava nas águas da ilha dos Estados. Quando Vasquez e os seus companheiros a tinham visto fazer-se ao largo, deviam pensar que se dirigia para as Maloínas. Mas depois, pelas manobras que fazia, não podiam duvidar de que queria alcançar a baía.
Pouco importava, aliás, a Kongre que tivessem visto a escuna e até que lhe supusessem a intenção de arribar à ilha. Isto em nada lhe modificava os projetos.
Com grande satisfação sua, o fim da travessia efetuava-se em condições muito favoráveis. O vento vinha um pouco mais de leste e a escuna podia dobrar o pico Diegos.
Era uma felicidade. Talvez, no estado em que tinha o casco, ela não pudesse suportar uma série de voltas que a fatigariam e metesse água antes de chegar à angra.
E foi o que aconteceu. Quando a escuna estava só a duas milhas da baía, um dos homens, que tinha ido ao porão, tornou a subir logo, gritando que entrava água por uma fenda do costado.
Era exatamente no sítio que tinha batido na rocha. O costado, que resistira até ali, abrira-se agora no comprimento de algumas polegadas.
Mas esta avaria não era de grande importância. Tirando o lastro, Vargas conseguiu, sem muito trabalho, tapar o rombo com estopa.
Entretanto era indispensável consertar a escuna. No estado em que se encontrava não podia, sem risco de ficar desmantelada, afrontar os mares do Pacífico.
Eram seis horas quando a Maule se encontrou à distância de milha e meia da baía de Elgor. Kongre mandou então caçar as velas altas. Com as outras, a escuna chegaria sem custo à angra no fundo da baía, sob a direção de Kongre, que, repetimos, conhecia perfeitamente o rumo que se havia de seguir e podia servir de piloto.
Às seis horas e meia da tarde projetou-se sobre o mar um feixe de raios luminosos.
Tinham acendido o farol e o primeiro navio que ele ia guiar por aquela baía era uma escuna chilena que caíra nas mãos de um bando de piratas.
Eram quase sete horas e o Sol declinava por detrás dos altos picos da ilha dos Estados quando a Maule deixou por estibordo o cabo San Juan. A baía abria-se diante dela.
Kongre e Carcante, passando por diante das cavernas, puderam certificar-se de que os orifícios pareciam não ter sido descobertos debaixo do montão de pedras e das silvas que os obstruíam. Nada tinha dado sinal da presenÇa deles naquele sítio da ilha e haviam de encontrar o produto das suas rapinas tal qual o tinham deixado.
— Isto vai bem — disse Carcante a Kongre, que estava então à ré.
— E daqui a pouco ainda há de ir melhor! – acrescentou Kongre.
Em vinte minutos, quando muito, a escuna chegou à angra onde havia de fundear.
Naquele instante foi vista por dois homens que tinham descido à praia. Filipe e Moriz estavam ali. Preparavam a lancha para irem a bordo da escuna.
Vasquez estava de serviço.
Quando a escuna chegou ao meio da angra levava só a bujarrona, que Carcante mandou arriar.
Quando fundeou, Moriz e Filipe saltaram para a tolda da escuna.
A um sinal de Kongre, o primeiro levou logo uma machadada na cabeça e caiu.
Simultaneamente, dois tiros de revólver prostraram Filipe ao pé do companheiro.
Num instante, estavam ambos mortos.
Por uma das janelas da torre do farol, Vasquez ouviu os tiros e viu o assassínio dos camaradas.
Se conseguissem apanhá-lo teria a mesma sorte. Sabia que não podia esperar misericórdia daqueles assassinos. Pobre Filipe, pobre Moriz! Não pudera fazer nada para os salvar e ficava ali aterrado por aquele horrível crime que se perpetrara em alguns segundos!
Passado o primeiro momento de espanto, recuperou o sangue-frio e encarou rapidamente a situação. Era preciso, a todo o custo, escapar à fúria daqueles miseráveis. Talvez eles não soubessem que ele estava ali, mas era de supor que, terminadas as manobras para ancorarem, alguns deles tivessem a idéia de subir ao farol, para o apagarem e fazerem com que na baía não pudesse entrar navio nenhum, pelo menos até nascer o dia.
Sem hesitar, Vasquez correu pela escada abaixo para o compartimento do rés-do-chão.
Não havia um instante a perder. Já se ouvia o ruído da lancha que se afastava da escuna para pôr em terra alguns homens da tripulação.
Vasquez pôs dois revólveres à cinta, meteu algumas provisões num saco, deitou-o para o ombro, desceu rapidamente a ladeira do recinto e, sem ninguém o ter visto, desapareceu no meio da escuridão.