O Farol do Cabo do Mundo
Capítulo XII
possível que não se afunde logo, mas não poderá fazer a longa viagem para que se prepara. Os miseráveis serão obrigados a voltar ao ancoradouro para a consertar e terão de desembarcar a carga. Isso talvez leve uma semana inteira... e daqui até lá o Santa Fé...
John Davis calou-se.
Tinha pegado na mão do companheiro e apertava-a.
Vasquez, sem hesitar, apenas Lhe respondeu:.
— Está dito!
Capítulo XII
A SAÍDA DA BAÍA
Como sucede muitas vezes depois de um temporal muito forte, o horizonte estava enevoado na manhã de 25 de Fevereiro. Mas o vento acalmara e manifestavam-se todos os indícios da mudança de tempo.
Naquele dia resolveu-se que a escuna saísse do ancoradouro e Kongre fez os seus preparativos para essa saída se efetuar de tarde.
Havia razão para crer que o Sol dissiparia os vapores que se tinham acumulado antes. A maré, que devia baixar às seis horas da tarde, favorecia a saída da baía de Elgor. A escuna chegaria às alturas do cabo San Juan pelas sete horas e o longo crepúsculo daquelas altas latitudes havia de lhe permitir que o dobrasse antes da noite.
Certamente poderia sair com a vazante da manhã, se não fosse o nevoeiro. Tudo estava pronto a bordo, carga completa e mantimentos em abundância, os que provinham da Century e os que tinham sido tirados dos armazéns do farol. No anexo só ficaram a mobília e os utensílios, porque Kongre não podia meter mais nada no porão.
Apesar de aliviada de uma parte do seu lastro, a escuna afundava-se mais algumas polegadas do que a sua altura de água normal e não seria prudente profundar mais a linha de flutuação.
Pouco depois do meio-dia, quando passeavam no recinto do farol, Carcante disse a Kongre:
— O nevoeiro começa a espalhar-se e daqui a pouco podemos ver ao longe.
Ordinariamente o vento abranda com estas névoas e o mar desce com mais rapidez.
— Parece-me que afinal poderemos sair agora – respondeu Kongre — e que nada incomodará a nossa navegação até ao
estreito...
— Espero que até mais para além — concluiu Carcante. — Mas a noite há-de ser escura, Kongre. Estamos apenas no primeiro quarto da Lua e o crescente vai desaparecer quase ao mesmo tempo que o Sol.
— Isso pouco importa, Carcante; não preciso de lua nem de estrelas para costear a ilha. Conheço toda a costa norte e tenciono dobrar as ilhotas New-Year e o cabo Colnett a boa distância, para lhes evitar as rochas!
— Amanhã já estaremos longe, Kongre, com este vento de nordeste que faz enfunar as velas.
— Amanhã teremos perdido de vista o cabo Saint-Barthélemy e espero que à tarde estaremos a umas vinte milhas da ilha dos Estados.
— Já não é muito cedo, Kongre. Estamos aqui há que tempos.
— Tens pena disto, Carcante?
— Não, agora que tudo acabou, visto que fizemos fortuna, como se costuma dizer, e que vamos num bom navio com as nossas riquezas!... Mas, com mil diabos, cheguei a julgar que estava tudo perdido quando a Maule... não, a Carcante, entrou na baía com água aberta! Se não pudéssemos fazer os consertos, quem sabe quanto tempo teríamos de estar aqui! Quando chegasse o aviso seríamos obrigados a voltar para o cabo Saint-Barthélemy... E eu já estou farto do cabo Saint-Barthélemy!
— Sim — concordou Kongre, cujo rosto feroz se anuviava —, e a situação seria muito grave... Vendo o farol sem guardas, o comandante do Santa Fé teria tomado as suas medidas... Faria buscas... Revistaria toda a ilha e quem sabe se não descobriria o nosso retiro?... E, depois, o terceiro guarda, que nos escapou, não poderia ir ter com ele?
— Não era de recear, Kongre. Nunca mais vimos sinais desse homem e como poderia ele viver, há perto de dois meses, sem recursos nenhuns? Porque há quase dois meses que a Carcante...
— Ah! desta vez não me esqueci do seu novo nome — veio fundear na baía de Elgor, e, a não ser que o tal guarda tenha vivido em todo esse tempo de peixe cru e de raízes...
— Afinal sairemos daqui antes de voltar o aviso — interrompeu Kongre — e é mais seguro.
— Segundo diz o livro do farol, não deve chegar senão daqui
a oito dias.
— E daqui a oito dias, Carcante, já estaremos longe do cabo Horn, a caminho das ilhas de Salomão ou das Novas Hébridas.
— É isso, Kongre. Vou subir pela última vez à galeria para observar o mar. Se houver algum navio à vista...
— Que nos importa isso? — disse Kongre, encolhendo os ombros. — O Atlântico e o Pacífico pertencem a todos. A Carcante tem os seus papéis em regra. Fez-se tudo quanto era preciso a esse respeito, podes fiar-te em mim. E até, se o Santa Fé o encontrasse à entrada do estreito, havia de lhe retribuir o cumprimento, porque uma delicadeza requer outra!
Como se vê, Kongre não duvidava do bom êxito dos seus projetos. Efetivamente parecia que tudo concorria para os favorecer.
Enquanto o seu capitão tornava a descer para a angra, Carcante subiu a escada e, chegando à galeria, ficou ali em observação durante uma hora.
O céu estava então completamente limpo e a linha do horizonte, recuada uma dúzia de milhas, mostrava-se em toda a sua nitidez. O mar, embora ainda agitado, já não estava embranquecido pelas ondas furiosas, e o marulho, se bem que muito forte, não poderia incomodar a escuna. Demais, se apenas se metessem no estreito, haviam de encontrar o mar bom e navegariam nele como num rio, ao abrigo da terra, e de vento em popa.
Ao largo, não se via outro navio senão uma galera que, pelas duas horas, apareceu por um instante a leste e a uma distância tal que, se não fosse o seu óculo de longo alcance, Carcante não lhe poderia conhecer o velame. Corria para o norte. Não ia, pois, com destino ao oceano Pacífico e não tardou a desaparecer.
Uma hora depois, Carcante teve um motivo de inquietação e pensou se não o devia referir a Kongre.
Acabava de aparecer a nor-nordeste um fumo ainda distante. Era um paquete que descia para a ilha dos Estados ou para o litoral da Terra do Fogo.
As consciências más têm medo de tudo. Bastou aquele fumo para que Carcante sentisse sérios receios.
— Será o aviso?... — pensou ele.
A bem dizer, estava-se a 25 de fevereiro e o Santa Fé só devia chegar nos primeiros dias de março. Teria antecipado a sua partida?... Se assim fosse, daí a duas horas viria em direção oblíqua do cabo San Juan. Tudo estaria perdido. Teria ele de renunciar à liberdade, no momento de a conquistar, e voltar à existência medonha do cabo Saint-Barthélemy?
Aos seus pés, Carcante via a escuna que se balançava graciosamente, como se quisesse zombar dele. Estava tudo pronto. Faltava-lhe só levantar ferro para sair.
Mas não podia, com vento contrário, resistir à corrente que começava a subir, e o mar não estaria sereno antes de duas horas e meia.
Era impossível estar já ao largo antes de chegar aquele navio, e se fosse o aviso...
Carcante não pôde conter uma praga que o sufocava, Contudo, não quis incomodar Kongre, que estava muito ocupado com os seus últimos preparativos, antes de ter a certeza da verdade, e ficou sozinho em observação na galeria do farol.
O navio aproximava-se rapidamente, favorecido pela corrente e pela brisa. O capitão fazia-o andar a todo o vapor, porque saía um fumo espesso da chaminé, que Carcante não podia ainda avistar, por detrás do velame, fortemente tendido. Por isso o navio virava muito para estibordo. Continuando naquele andamento, não tardaria a estar oblíquo ao cabo San Juan.
Carcante não largava a luneta e a sua inquietação ia crescendo à proporÇão que o paquete se aproximava. A distância ficou em breve reduzida a algumas milhas e o casco do navio foi visível em parte.
No momento em que eram maiores, os receios de Carcante dissiparam-se de repente.
O paquete ia na direção do estreito e todo o seu aparelho lhe apareceu então à vista.
Era um navio a vapor, que devia ter umas cento e cinqüenta toneladas, e que não se podia confundir com o Santa Fé.
Carcante, assim como Kongre e os companheiros, conhecia bem o aviso, que tinha visto muitas vezes quando estivera fundeado na baía de Elgor. Sabia que estava armado em escuna, e o que se aproximava estava-o em galera.
Carcante sentiu um grande alívio e ficou muito satisfeito por não ter perturbado inutilmente o sossego da quadrilha.
Deixou-se estar ainda por uma hora na galeria e viu passar o navio ao norte da ilha, mas a três ou quatro milhas, isto é, muito longe para poder mandar o seu sinal que, aliás, ficaria sem resposta, por motivo justificado.
Quarenta minutos depois, aquele navio, que deitava pelo menos doze nós por hora, desaparecia ao largo do pico Colmett.
Carcante desceu, depois de se certificar de que não se avistava nenhum outro navio no horizonte.
Aproximava-se a hora da maré. Era o momento marcado para a partida da escuna.
Estavam acabados os preparativos e as velas prontas para se içarem. Depois de soltas ao vento, a Carcante singraria para o mar a panos largos.
Às seis horas, Kongre e a maior parte dos homens estavam a bordo. A lancha trouxe os restantes e depois foi içada.
A maré começava a baixar a pouco e pouco. Já descobria o sítio onde se tinha posto a escuna durante os consertos. Do outro lado da angra, os rochedos mostravam os seus cabeços pontiagudos. O vento penetrava pelas aberturas da penedia e uma leve ressaca ia morrer na praia.
Chegara o momento da partida. Kongre deu ordem para se virar o cabrestante. A corrente retesou-se, rangeu no escovém e, depois de estar a prumo, pôs-se o ferro no aparelho e atravessou-se, em vista de uma navegação que devia ser demorada.
As velas foram então orientadas e a escuna começou o seu movimento para o mar.
Como o vento soprava do és-sueste, a Carcante dobraria facilmente o cabo San Juan. Demais, não havia perigo nenhum em passar muito perto dos rochedos naquele sítio.
Kongre sabia isso.
Conhecia bem a baía. De pé, ao leme, deixava audaciosamente a escuna pôr-se a um quarto para aumentar a velocidade quanto possível fosse.
O andamento da Carcante era, efetivamente, muito irregular. Afrouxava quando o vento enfraquecia e depressa quando a brisa era mais forte. Adiantava-se assim à vazante, deixando atrás de si uma esteira muito lisa, o que mostrava as suas boas linhas de água e permitia augurar o bom seguimento da viagem.
Às seis horas e meia, Kongre já não estava senão a uma milha do último pico. Via o mar desdobrar-se até o horizonte. O Sol descia do lado oposto e em breve as estrelas brilhariam no zênite, que se sombreava com o véu do crepúsculo.
Carcante aproximou-se de Kongre e disselhe com satisfação:
— Estamos quase fora da baía!
— Daqui a vinte minutos — respondeu Kongre —, mando afrouxar as escotas e ponho o leme a estibordo para contornar o cabo San Juan.
— Teremos de bordejar quando estivermos no estreito?
— Não me parece — disse Kongre. — Logo que dobrarmos o cabo San Juan mudaremos as amuras e espero que as poderei conservar a bombordo até ao cabo Horn. A estação começa a adiantar-se e creio que poderemos contar com a persistência destes ventos de leste. Em todo o caso, chegando ao estreito faremos tudo o que nos obrigar a bordejar.
Se, como esperava, Kongre pudesse evitar a mudança das amuras, ganharia um tempo considerável. Se fosse preciso, amainaria as velas quadradas e só conservaria as auricas e latinas. Assim a escuna ficaria a três quartos do vento.
Naquele instante um homem da tripulação gritou:
— Sentido à proa!
— Que foi? — perguntou Kongre.
Carcante correu para o homem e debruçou-se por cima dos paveses.
— Chega... chega, devagar! — gritou Kongre.
A escuna estava então oblíqua à caverna que a quadrilha tinha ocupado por muito tempo.
Naquele sítio da baía via-se uma parte da quilha da Century, que a vazante empurrava para o mar. Podia haver um choque de terríveis conseqüências e era preciso evitá-lo.
Kongre virou o leme para estibordo. A escuna desviou-se um quarto e passou perto da quilha, que só lhe roçou pela querena.
A manobra deu em resultado aproximar-se um pouco da margem norte a Carcante, que logo retomou a sua direção. Andando mais uns quarenta metros passava-se o recanto dos rochedos; Kongre podia largar o leme e dar o rumo para o norte.
Neste momento ouviu-se um silvo no ar e um choque fez estremecer o casco da escuna, sendo seguido imediatamente por uma detonação violenta.
Ao mesmo tempo levantou-se do litoral um fumo esbranquiçado, que o vento impeliu para o interior da baía.
— Que é isto? — exclamou Kongre.
— Atiraram sobre nós — respondeu Carcante.
— Pega-me no leme! — ordenou Kongre.
Correndo para bombordo, olhou por cima do resguardo e viu um buraco no casco, meio pé acima da linha de flutuação.
Toda a tripulação correu logo para aquele lado.
Um ataque vindo daquele sítio do litoral!... Uma bala que a Carcante, na ocasião de sair, recebia no costado, e que, se a tivesse apanhado mais abaixo, a teria indubitavelmente afundado!... Se aquela agressão era para assustar, era também para causar grande surpresa.
Que podiam fazer Kongre e os companheiros?
Soltarem a lancha, embarcarem nela, correrem para a praia, no sítio de onde saíra o fumo, deitarem as mãos aos que tinham atirado aquele projétil, matá-los ou pelo menos desalojá-los dali?.
Mas sabiam por acaso se aqueles agressores tinham sobre eles a superioridade do número?
O melhor, portanto, era afastarem-se para verem primeiro a importância da avaria.
Esta resolução impôs-se com mais evidência porque se ouviu outra detonação. Viu-se fumo no mesmo sítio e a escuna sentiu novo choque. Tinha recebido outra bala, um pouco atrás da primeira.
— Orça! — rugiu Kongre, correndo para a ré, ao pé de Carcante, que se apressava a executar a ordem.
Logo que a escuna sentiu a ação do leme, orçou e depois descaiu para estibordo.
Em menos de cinco minutos começou a afastar-se da praia, e daí a pouco estava fora do alcance daquela peça que fizera fogo sobre ela.
Não se ouviu mais detonação nenhuma. A praia estava deserta até à extremidade do cabo. Era de esperar que não se repetisse o ataque.
O mais urgente era verificar o estado do casco. Dentro não se podia fazer isso, porque era preciso tirar a carga para outro lado; mas o que não oferecia dúvida era que as duas balas tinham atravessado o costado do navio e estavam metidas no porão.
Foram logo buscar a lancha, enquanto a Carcante se punha de capa e não sofria senão o efeito da vazante.
Kongre e o carpinteiro desceram na lancha e examinaram o casco, para saberem se o conserto se podia fazer ali mesmo.
Viram então que duas balas de quatro tinham batido na escuna e furado o costado de um lado ao outro. Felizmente as obras vivas tinham escapado. Os dois buracos estavam no princípio da blindagem e justamente na linha de flutuação: Se as balas tivessem vindo alguns centímetros mais abaixo, o navio abriria água naquele sítio e a tripulação não teria tempo de remediar esse mal. O porão ficaria cheio e a Carcante afundar-se-ia à entrada da baía.
Sem dúvida, Kongre e os seus companheiros poderiam chegar à praia na lancha, mas a escuna ficaria completamente perdida.
Em suma, a avaria não devia ser de extrema gravidade, mas impedia certamente a Carcante de se arriscar mais ao largo. Ao menor balanço que desse para bombordo, a água entraria dentro. Era, pois, preciso que os dois buracos feitos pelos projéteis fossem tapados antes de se continuar a viagem.
— Mas quem nos terá feito isto? — repetia sempre Carcante.
— Talvez o guarda que nunca encontramos — respondeu Vargas. — E talvez também algum sobrevivente da Century que esse guarda tenha salvo. Porque, enfim, para mandar balas é necessário uma peça e aquela não caiu da Lua.
— Evidentemente — aprovou Carcante. — Não há dúvida de que provém da galera. Foi pena que não a encontrássemos nós.
— Não se trata agora disso — interrompeu Kongre, de repente.— Trata-se de fazer os consertos o mais depressa possível!
Efetivamente o que havia a fazer não era discutir as circunstâncias do ataque contra a escuna, era proceder aos consertos necessários.
Em rigor, podia-se levar para o pé da praia oposta da baía no pico Diegos. Bastaria uma hora para isso. Mas naquele sítio estaria muito exposta aos ventos do largo e até ao pico Several a costa não apresentava abrigo nenhum. Ao primeiro sinal de mau tempo quebrava-se logo de encontro aos recifes.
Kongre resolveu-se, pois, a voltar naquela mesma tarde para o fundo da baía de Elgor, onde o trabalho se poderia fazer com toda a segurança e o mais rapidamente possível.
Mas naquele momento a maré descia e não se podia fazer nada. Era forçoso esperar pela maré, que não viria senão daí a três horas.
Ora a Carcante começava a andar com muita força, levada pelas ondas, e seria arrastada até ao pico Several, em risco de se encher de água. Já se ouvia o ruído que ela fazia entrando pelos buracos do casco a cada balanço mais acentuado.
Kongre teve de se resignar a deitar ferro perto do pico Diegos.
Em suma, a situação era muito inquietadora. Chegava a noite e em breve seria profunda a escuridão.