O Farol do Cabo do Mundo

Júlio Verne · Capítulo 14 de 15

Páginas do PDF

O Farol do Cabo do Mundo

Capítulo XIV

Vasquez, esquecendo-se de toda a prudência, tinha deitado meio corpo fora da cavidade: Davis, por detrás dele, encostava-se-lhe ao ombro. Ambos, arquejantes, olhavam para fora.

A maior parte dos piratas tinha já ido para bordo.

Entre os que ainda estavam em terra, Vasquez conheceu perfeitamente Kongre, que se encontrava no recinto do farol com Carcante.

Cinco minutos depois separaram-se e Carcante dirigiu-se para a porta do anexo.

— Cuidado — recomendou Vasquez em voz baixa. — Vai por certo subir ao farol.

Ambos se deixaram escorregar para o fundo do esconderijo. Efetivamente, Carcante subia pela última vez ao farol.

A escuna ia partir daí a um instante e ele queria observar o horizonte, para ver se aparecia algum navio à vista da ilha.

A noite havia de estar serena; o vento abrandara com a tarde e isto prometia bom tempo ao nascer do Sol.

Quando Carcante chegou à galeria, John Davis e Vasquez viram-no muito distintamente. Andava em volta dela, girando a luneta para todos os pontos do horizonte.

De repente saiu-lhe da boca um urro formidável.

Kongre e os outros piratas levantaram a cabeça na sua direção.

Com voz que todos ouviram, Carcante gritava:

— O aviso!... O aviso!

 

Capítulo XIV

O AVISO SANTA FÉ

Não se pode descrever a agitação que então se produziu no fundo da baía.

Aquele grito, o aviso!... o aviso!..., tinha caído como um raio, como uma sentença de morte na cabeça daqueles miseráveis.

O Santa Fé era a justiça que chegava à ilha, era o castigo de tantos crimes, a que não poderiam escapar!

Mas Carcante não se teria enganado?

O navio que se aproximava seria o aviso da marinha argentina? Viria com destino à baía de Elgor? Não se dirigiria simplesmente para o estreito de Lemaire, ou para o pico Several para passar ao sul da ilha?

Apenas Kongre ouviu o grito de Carcante, subiu correndo ao cimo do outeiro, precipitou-se para a escada do farol e chegou à galeria em menos de cinco minutos.

— Onde está esse navio? — perguntou ele.

— Ali... a nor-nordeste.

— A que distância?

— Duas milhas, pouco mais ou menos.

— Então não pode chegar à entrada da baía antes da noite?

— Não.

Kongre tinha pegado na luneta.

Olhou para o navio com extrema atenção, sem pronunciar uma palavra.

Era um navio a vapor. Via-se-lhe sair o fumo em espirais espessas, indicando que vinha com toda a força.

Kongre e Carcante não podiam duvidar de que fosse o aviso.Tinham visto muitas vezes o navio argentino durante os trabalhos de construção, quando vinha para a ilha dos Estados ou quando saía de lá. Além disso, aquele navio dirigia-se diretamente à baía. Se o capitão quisesse ir para o estreito de Lemaire teria navegado mais para oeste, e mais para sul se pretendesse passar ao largo do pico Several.

— Sim — afirmou Kongre afinal —, é efetivamente o aviso!

— Maldito azar que nos reteve aqui! — exclamou Carcante. — Se não fossem aqueles patifes, que nos fizeram demorar por duas vezes, já estaríamos ao largo, no Pacífico.

— Agora não serve de nada estarmos a falar nisso – replicou Kongre. — É preciso tomar uma resolução.

— Qual?

— Levantar ferro.

— Quando?

— Imediatamente.

— Mas antes de nos encontrarmos longe, o navio estará pelo través da baía.

— Sim... mas ficará fora.

— Porquê?

— Porque não poderá ver a luz do farol e não se arriscará a navegar para a angra no meio da escuridão.

Este raciocínio, muito lógico, que Kongre fazia, também John Davis e Vasquez o tinham feito.

Não queriam sair de onde estavam enquanto pudessem ser vistos da galeria. No seu estreito esconderijo, exprimiam exatamente a mesma idéia que o chefe dos piratas.

O Farol já devia ter sido aceso, porque o Sol acabava de desaparecer. Não lhe vendo a luz, embora provavelmente conhecesse a ilha, o comandante Lafayate não hesitaria em continuar o seu rumo?... Não podendo encontrar explicação para isso, ficaria talvez toda a noite a cruzar ao largo.

Já tinha entrado umas dez vezes na baía de Elgor, mas só de dia, e, sem ter agora o farol para lhe indicar o caminho, por certo que não se arriscaria a entrar naquela baía escura. Demais, devia pensar que na ilha se tinham dado acontecimentos graves, visto os guardas não estarem no seu posto.

— Mas — lembrou então Vasquez —, se o comandante não viu a terra e continua a navegar com esperança de avistar o farol, não lhe poderá acontecer o mesmo que á Century? Não poderá vir dar à costa nos recifes do cabo San Juan?

John Davis apenas respondeu com um gesto evasivo.

Era verdade. Podia dar-se a eventualidade de que Vasquez falava. O vento não era de temporal e o Santa Fé não estava na situação da Century; mas, enfim, era possível uma catástrofe.

— Vamos ao litoral — tornou Vasquez. — Daqui a duas horas estaremos no cabo.

Talvez ainda seja tempo de acendermos uma fogueira para indicar a terra.

— Não — objetou John Davis —, já seria muito tarde. Antes de uma hora talvez o aviso esteja à entrada da baía.

— Que havemos então de fazer?

— Esperar.

Eram mais de seis horas e o crepúsculo começava a envolver a ilha.

Os preparativos da partida faziam-se com a maior atividade a bordo da Carcante.

Kongre queria sair a todo o custo.

Devorado pela inquietação, resolvera levantar ferro imediatamente. Se não o fizesse senão na maré da manhã, expunha-se a encontrar o aviso.

Vendo sair aquele navio, o comandante Lafayate não o deixaria passar. Daria ordem para o apanharem e interrogaria o seu capitão. Certamente quereria saber porque não estava aceso o farol. A presença da Carcante havia de parecer-lhe, com razão, suspeita. Depois de fazer parar o navio, iria a bordo, chamaria Kongre, examinaria a tripulação e, só por ver as caras daqueles homens, teria as mais legítimas suspeitas. Obrigaria o navio a virar de bordo, a segui-lo e não o deixaria sair sem obter informações mais amplas.

Então, quando o comandante do Santa Fé não encontrasse os três guardas do farol, não poderia explicar a sua ausência senão por um atentado de que tivessem sido vítimas. E não seria levado a crer que os autores desse atentado deviam ser os homens desse navio que lhe queria fugir?

E ainda se podia dar outra complicaÇão.

Visto que Kongre e a sua quadrilha tinham avistado o Santa Fé ao largo, não era provável, certo até, que o tivessem também visto os que, por duas vezes, tinham atacado a Carcante quando ela ia a sair da baía?

Aqueles inimigos desconhecidos seguiriam todos os movimentos do aviso, estariam lá quando ele chegasse à angra e se, como havia razão para pensar, estava entre eles o terceiro guarda, Kongre e os companheiros não poderiam escapar ao castigo dos seus crimes.

Kongre encarou logo todas estas eventualidades e as suas conseqüências. Por isso tinha só uma coisa a fazer: levantar ferro imediatamente, e como o vento, que soprava do norte, era favorável, aproveitar a noite para chegar ao largo, a todo o pano.

Então a escuna teria o oceano diante de si. Podia ser que o aviso, na impossibilidade de ver o farol e não se querendo aproximar da terra no meio das trevas, estivesse, naquele momento, muito distante da ilha dos Estados.

Se fosse preciso, para mais prudência ainda, em vez de se dirigir para o estreito de Lemaire, Kongre navegaria para o sul, iria dobrar o pico Several e depois esconder-se atrás da costa meridional. Por isso, apressava as manobras.

John Davis e Vasquez, compreendendo o plano dos piratas, procuravam uma idéia para o impedirem e, desesperados, sentiam que o não podiam fazer!

Às sete horas e meia Carcante chamou os poucos homens que ainda estavam em terra. Logo que a tripulação se achava toda a bordo, içou-se a lancha e Kongre mandou levantar ferro.

John Davis e Vasquez ouviram o ruído das manobras.

Ao fim de cinco minutos estava tudo pronto e a escuna começou a sua evolução.

Tinha todas as velas erguidas, para não perder nada da brisa que ia enfraquecendo.

Saiu lentamente da angra e, para receber melhor o vento, conservou-se no meio da baía.

Mas em breve a navegação se tornou muito difícil.

Como a maré estava quase na vazante, a corrente não favorecia a escuna, e naquele andamento, com três quartos de largo, não adiantava caminho. Talvez até o perdesse quando viesse a maré, daí a duas horas.

Calculando as coisas pelo melhor, não estaria antes da meia-noite nas alturas do cabo San Juan.

Pouco importava isso. Não entrando o Santa Fé na baía, Kongre não se arriscava a ser encontrado. Ainda que tivesse de esperar pela maré seguinte, estaria fora dali ao nascer do dia.

A tripulação não descurava nada para apressar o andamento da Carcante, mas o navio estava desarmado contra o grande perigo que vinha do desvio no rumo.

O vento empurrava o navio pouco a pouco para a margem sul da baía de Elgor.

Kongre não conhecia bem essa margem, mas sabia que era muito perigosa por causa dos rochedos.

Uma hora depois da partida, pareceu-lhe até estar tão próximo dela que julgou prudente virar de bordo para se afastar.

Essa manobra era perigosa de executar com o vento que caía cada vez mais com a noite.

Mas era urgente. Com tudo isso, por falta de velocidade, não pôde a escuna orçar e continuou a desviar-se para a costa.

Kongre percebeu o perigo.

Só lhe restava um meio; empregou-o.

Trouxeram a lancha, desceram seis homens para ela com um cabo e, à força de remos, conseguiram fazer andar a escuna. Um quarto de hora depois pôde tomar a direção primitiva sem receio de ser atirada para os recifes do sul.

Infelizmente para a quadrilha, não havia um sopro de vento; as velas batiam de encontro aos mastros. Debalde a lancha tentaria rebocar a Carcante até à entrada da baía. Kongre ia ser obrigado a fundear naquele sítio, a menos de duas milhas da angra.

Depois daquelas manobras, John Davis e Vasquez tinham-se levantado e, descendo até quase ao mar, seguiram todos os movimentos da escuna.

Como a brisa caíra de todo, compreenderam que Kongre seria obrigado a parar, esperando pela próxima vazante. Mas sempre teria tempo, antes da madrugada, de chegar à entrada da baía, e havia grandes probabilidades de sair sem que o vissem.

— Temo-lo seguro! — exclamou de repente Vasquez.

— Como? — perguntou John Davis.

— Venha... Venha!

Vasquez levou rapidamente o companheiro na direção do farol.

Na sua opinião, o Santa Fé devia cruzar defronte da ilha. Podia até estar muito próximo dela, o que, no fim de contas, não apresentava grande perigo com aquele mar sereno.

Por certo o comandante Lafayate, muito surpreendido por não ver o farol, estava ali com pouca pressão, esperando o nascer do Sol.

Era também o que Kongre pensava; mas calculava igualmente que tinha as maiores probabilidades de desnortear o aviso. Quando a vazante trouxesse as águas da baía para o mar, até mesmo sem precisar de vento, a Carcante continuaria a sua rota e em menos de uma hora estaria no mar alto.

Depois não se afastaria para o largo.

Bastava-lhe uma dessas brisas fracas, que não deixam de se levantar de um momento para o outro, até mesmo nas noites mais serenas, e que a corrente o levasse para o sul, para ir impunemente ao longo da costa, no meio daquela noite muito escura. Tendo dobrado o pico Several, que estava a sete ou oito milhas o muito, a escuna seria abrigada pelas rochas e não teria mais nada a recear.

O único perigo era ser vista pelos vigias do Santa Fé, se estivesse acima da baía e não nas alturas do cabo San Juan. Certamente, o comandante Lafayate, se a Carcante fosse assinalada à saída da baía, não a deixaria afastar-se, ainda que não fosse senão para interrogar o capitão a respeito do farol. Com o auxílio do vapor, alcançaria o navio fugitivo antes que ele desaparecesse por detrás das alturas do sul.

Eram mais de nove horas.

Kongre teve de fundear, esperando pela vazante. Mas ainda faltavam quase seis horas. Só às três da manhã a corrente lhe seria favorável.

A escuna fez um movimento de rotação, com a proa voltada para o largo. A lancha tornou a ser içada. Kongre, na ocasião propícia, não perderia um minuto para se pôr a caminho.

De repente, a tripulação soltou um grito que se ouviu nas duas margens da baía.

Acabava de rasgar as trevas uma grande claridade. A luz do farol, com todo o seu brilho, iluminava o mar ao longo da ilha.

— Ah! Patifes! Estão lá! — exclamou Carcante.

— Para terra! — ordenou Kongre.

Efetivamente, para escapar ao perigo imediato que o ameaçava só tinha uma coisa a fazer: desembarcar, deixando poucos homens a bordo da escuna, correr para o recinto do farol, entrar no anexo, subir a escada da torre, entrar no quarto de vigia, atirar-se ao guarda ou aos companheiros, se é que os tinha, dar cabo deles e apagar o farol. Se o aviso se tivesse posto a caminho para entrar na baía, por certo havia de parar... Se já lá estava, tentaria sair, por não ter luz para o guiar. Na pior das hipóteses, fundearia à espera que amanhecesse.

Kongre mandou buscar a lancha.

Meteram-se nela Carcante e doze piratas, armados de espingardas, revólveres e navalhas. Num minuto chegaram à praia e correram para o farol, que estava a milha e meia de distância.

Fizeram o trajeto num quarto de hora.

Não se tinham separado uns dos outros.

Toda a quadrilha, menos os dois homens que tinham ficado a bordo, estava reunida ao pé do terrapleno.

Sim... John Davis e Vasquez estavam lá.

A correr, sem tomarem precaução nenhuma, porque bem sabiam que não podiam encontrar ninguém, tinham subido o outeiro e entrado no recinto.

O que Vasquez queria era tornar a acender o farol, para que o aviso pudesse chegar à angra sem esperar pelo dia. Receava — e muito — que Kongre tivesse destruído as lentes, quebrado os lampiões e que o aparelho já não estivesse em estado de funcionar. Então a escuna, segundo todas as probabilidades, fugiria sem ser vista pelo Santa Fé.

Correram ambos para dentro, meteram-se pelo corredor, empurraram a porta da escada, tornando a fechá-la, e, correndo os ferrolhos, subiram os degraus e chegaram acima.

A lanterna estava em bom estado e os lampiões no seu lugar, ainda com torcidas e azeite desde o dia em que os tinham apagado.

Não! Kongre não tinha destruído o aparelho dióptrico da lanterna, só pensara em impedir que o farol funcionasse enquanto ele estivesse na baía de Elgor. E como poderia ter previsto as circunstâncias em que seria obrigado a sair dali?

Mas o farol tornava a brilhar. O aviso podia entrar à vontade no seu ancoradouro antigo.

Ouviram-se pancadas violentas na parte de baixo da torre. Toda a quadrilha se atirava de encontro à porta, querendo subir à galeria e apagar a luz. De boamente arriscariam as vidas para demorarem a chegada do Santa Fé.

Não tinham encontrado ninguém no terraço nem no quarto dos guardas.

Os que estavam em cima não podiam ser muitos. Facilmente dariam conta dele.

Matavam-nos, e o farol nunca mais projetaria à noite os seus raios temíveis.

Como se sabe, a porta que dava para o corredor tinha uma chapa grossa de ferro.

Era impossível forçar os ferrolhos que a fechavam e também impossível fazê-la saltar com alavancas ou com machados. Carcante, experimentando-o, logo percebeu isso. Depois de alguns esforços inúteis, foi juntar-se com Kongre e com os outros piratas.

Que haviam de fazer?

Haveria meio de subir por fora até à lanterna do farol?

Se não havia, só lhes restava fugir para o interior da ilha, para não caírem nas mãos do comandante Lafayate e da sua tripulação.

Não podiam voltar para bordo da escuna. Faltava-lhes o tempo. O aviso já devia estar na baía, dirigindo-se para a angra.

Se, pelo contrário, o farol estivesse apagado daí a alguns minutos, não só o Santa Fé não poderia continuar a navegar, mas seria obrigado a voltar para trás e talvez a escuna conseguisse passar.

Mas havia um meio de chegar lá EM cima.

— A corrente do pAra-raios! — exclamou Kongre.

Efetivamente, ao longo da torre estendia-se uma corrente metálica, segura, de três em três pés, por ganchos de ferro. Levantando-se de um para o outro, com os pulsos, era certamente possível chegar à galeria e talvez surpreender os que lá estavam.

Kongre ia tentar este meio último de salvação.

Carcante e Vargas foram adiante. Levantaram-se nos bicos dos pés, lançaram as mãos à corrente e começaram a subir um atrás do outro, esperando que não os vissem no meio da escuridão.

Chegaram finalmente ao parapeito e agarraram-se às travessas de madeira, prontos para saltar.

Naquele instante, soaram tiros de revólver.

John Davis e Vasquez estavam na defensiva.

Os dois bandidos, feridos na cabeça, largaram as mãos e foram esmagar-se no telhado do anexo.

Ouviram-se assobios ao pé do farol.

O aviso chegava à angra e o apito soltava os seus sons agudos pelo espaço.

Só restava fugir. Daí a alguns minutos, o Santa Fé estaria no seu ancoradouro.

Kongre e os seus companheiros, percebendo que nada mais podiam tentar, deitaram a correr e meteram-se pelo interior da ilha.

Um quarto de hora depois, quando o comandante Lafayate fundeava, a lancha dos guardas, que fora recuperada, chegava ao navio de guerra com alguns impulsos de remos.

John Davis e Vasquez estavam a bordo do Santa Fé.