O Farol do Cabo do Mundo

Júlio Verne · Capítulo 13 de 15

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O Farol do Cabo do Mundo

Capítulo XIII

Era preciso todo o conhecimento que Kongre tinha daquelas paragens para não encalhar num dos muitos recifes que impedem a entrada da costa.

Finalmente, às dez horas, veio a maré alta.

Levantou-se ferro e antes da meia-noite a Carcante, depois de ter corrido muitos perigos, estava de volta ao seu antigo ancoradouro na angra da baía de Elgor.

 

Capítulo XIII

DURANTE TRÊS DIAS

Pode imaginar-se o grau de desespero a que tinham chegado Kongre, Carcante e os companheiros.

No próprio momento em que iam definitivamente sair da ilha, aquele obstáculo fizera-os parar!... E daí a quatro dias, ou talvez menos, o aviso podia-se apresentar na baía de Elgor!...

Por certo que, se as avarias da escuna fossem menos graves, Kongre não teria hesitado em ir para outro ancoradouro. Teria ido, por exemplo, refugiar-se na angra San Juan, que, por detrás do cabo, se abre profundamente na costa setentrional da ilha. Mas no estado em que o navio estava, seria loucura querer ir tão longe; a escuna afundava-se antes de lá chegarem. Na parte do percurso que seria obrigada a fazer de vento em popa, não tardaria a encher-se de água e pelo menos a carga ficaria irremediavelmente perdida.

Era, pois, necessário voltar para a angra e Kongre não teve remédio senão resignar-se a isso.

Naquela noite ninguém dormiu a bordo. Os homens tiveram de estar de quarto e cingir-se a uma vigilância de todos os instantes.

Quem sabia se não se daria novo ataque? Se um bando numeroso, superior ao de Kongre, tinha desembarcado recentemente nalgum outro ponto da ilha?... Se a presença daquela quadrilha de piratas fora afinal conhecida em Buenos Aires e se o Governo argentino procurava destruí-la?

Sentados à ré, Kongre e Carcante conversavam a respeito de tudo isto, ou, para melhor dizer, só o segundo falava, porque Kongre estava muito absorto e não lhe respondia senão por palavras breves.

Fora Carcante que emitira primeiro esta hipótese: a vinda à ilha dos Estados de soldados para perseguirem Kongre e os seus companheiros. Mas, admitindo que não houvesse conhecimento desse desembarque, não era assim que uma tropa regular procederia. Atracaria francamente, ou então, se lhe tivesse faltado tempo para isso, teria à entrada da baía muitas embarcações que apresariam a escuna, ou à viva força por meio de abordagem, ou depois de a pôr na impossibilidade de continuar o seu rumo. Em todo o caso, não se teria escondido depois de uma única escaramuÇa, como faziam aqueles assaltantes desconhecidos, cuja prudência demonstrava serem muito fracos.

Carcante abandonou, pois, esta hipótese e voltou à suposição que Vargas emitira.

— Sim, os que deram os tiros tinham unicamente em mira impedir que a escuna saísse da ilha e, se são muitos, é porque alguns homens da Century escaparam da morte... Encontraram talvez esse guarda e souberam por ele que o aviso chegava brevemente... Aquela peÇa encontraram-na eles nos salvados!

— O aviso ainda aqui não está — disse Kongre, com uma voz que a cólera fazia tremer. — Antes de ele voltar, a escuna já há-de estar longe.

Efetivamente, era muito improvável, admitindo que o guarda do farol tivesse encontrado alguns náufragos da Century, que eles fossem mais de dois ou três, o muito. Como se podia admitir que um temporal tão violento tivesse poupado mais vidas?

E que poderia fazer aquele punhado de homens contra um bando numeroso e bem armado? Depois de consertada, a escuna havia de se fazer de vela e ir para o largo, seguindo, desta vez, pelo meio da baía. O que se fizera da primeira vez não se podia fazer da segunda.

Era, pois, apenas questão de tempo.

Quantos dias duraria o novo conserto?

Não houve nenhuma novidade naquela noite e no dia seguinte a tripulação deitou-se ao trabalho.

Primeiro tiraram parte da carga que estava no porão, a bombordo. Foi preciso meio dia para levar todos aqueles objetos para a coberta. Demais, não seria necessário desembarcar a carga nem levantar a escuna no banco de areia. Como os buracos das balas estavam um pouco acima da linha de flutuação, encostando a canoa ao pé do costado do navio, podiam tapá-los sem custo. O essencial era que o cavername não estivesse deteriorado pelos projéteis.

Kongre e o carpinteiro desceram então ao porão e viram o seguinte: As duas balas só tinham atingido o costado, atravessando-o quase à mesma altura, e encontraram-nas quando se tirou a carga. Passaram ao de leve pelas cintas, sem lhes comprometerem a solidez. Os buracos, a dois ou três pés um do outro, pareciam feitos à serra. Podiam ser tapados hermeticamente, com buchas, sem grande trabalho.

Em suma, as avarias não eram grandes. Não comprometiam o bom estado do casco e iam ser consertadas prontamente.

— Quando? — perguntou Kongre.

— Vou preparar as travessas de dentro para se porem esta tarde — respondeu Vargas.

— E as buchas?

— Fazem-se amanhã de manhã e também se põem à tarde.

— Então poderemos arrumar a carga de noite e partir depois de amanhã?

— Por certo — declarou o carpinteiro.

Bastariam quarenta horas para aqueles consertos e a partida da Carcante só seria demorada dois dias.

Carcante perguntou então a Kongre se, de manhã ou de tarde, não tencionava ir ao cabo San Juan.

— Para ver o que se passa — disse ele.

— Para quê? — volveu Kongre. — Não sabemos com quem tratamos. Era preciso irmos dez ou doze e por conseguinte não deixarmos senão dois ou três homens de guarda à escuna. E quem sabe o que sucederia durante a nossa ausência?

— É verdade — concordou Carcante —; e, depois, que ganharíamos com isso?

Deixemos lá os que atiraram sobre nós. Que vão fazer com que os enforquem noutra parte! O que importa é sairmos da ilha o mais depressa possível.

— Depois de amanhã de manhã já estaremos no mar — declarou Kongre.

Havia todas as probabilidades de que o aviso, que só devia chegar daí a alguns dias, não viesse antes de eles partirem.

Demais, se Kongre e os seus companheiros tivessem ido ao cabo San Juan, não encontrariam sinais de Vasquez e de John Davis.

Eis o que se passara: Na tarde da véspera, a proposta que John Davis fizera ocupou-os a ambos até à noite.

O sítio que escolheram para montar a peça foi no recanto da penedia. Entre os rochedos que havia ali, John Davis e Vasquez puderam pôr facilmente o suporte, mas custou-lhes muito a levar a peça para lá.

Foi preciso tirá-la da areia e depois atravessar um espaço cheio de cabeços, onde não era possível puxar por ela. Tiveram de a levantar com alavancas, o que levou tempo e os cansou muito.

Eram quase seis horas quando a peça foi posta no suporte de maneira que se pudesse apontar para a entrada da baía.

John Davis carregou-a, introduziu-lhe um grande cartucho, com uma bucha de folhas secas, pondo-lhe a bala por cima, e depois escorvou-a.

Faltava só dar-lhe fogo na ocasião propícia.

John Davis disse então a Vasquez:

— Refleti muito no que convém fazer. Não devemos meter a escuna a pique. Todos aqueles patifes nadavam para a praia e talvez nós não lhes pudéssemos escapar: O essencial é que sejam obrigados a voltar para o ancoradouro e ficarem aí alguns dias.

— Sim — admitiu Vasquez —, mas o rombo de uma bala pode consertar-se só numa manhã.

— Não pode — respondeu John Davis — porque hão-de ser obrigados a mudar a carga para outro sítio. Calculo que isso deve durar quarenta e oito horas, pelo menos, e já estamos a 28 de fevereiro.

— E se o aviso não chegar senão daqui a uma semana — objetou Vasquez. — Não seria melhor atirar à mastreação do que ao acaso?

— Evidentemente, Vasquez; sem o mastro de mezena ou o mastro grande (e não me parece que os pudessem substituir), a escuna ficaria aqui por muito tempo. Mas acertar num mastro é mais difícil do que no casco, e é preciso que as nossas balas não falhem.

— Sim, tanto mais que, se aqueles miseráveis não saírem senão na maré da tarde, o que é provável, já não se há-de ver muito. Faça como entender melhor, Davis.

Estando tudo preparado, Vasquez e o companheiro só tiveram de esperar e puseram-se ao lado da peça, prontos para disparar logo que a escuna lhes passasse ao alcance.

Sabe-se qual foi o resultado dos tiros e em que condições a Carcante teve de voltar para o ancoradouro.

John Davis e Vasquez não saíram do mesmo sítio enquanto não o viram voltar para o fundo da baía.

E, agora, mandava-lhes a prudência que procurassem refúgio em qualquer outro ponto da ilha.

Efetivamente, como Vasquez dissera, talvez no dia seguinte Kongre e uma grande parte dos seus homens fossem ao cabo San Juan. Talvez os quisessem perseguir.

Tomaram rapidamente a sua resolução.

Era saírem da gruta e procurarem, a uma ou duas milhas dali, outro abrigo situado de forma que pudessem ver todos os navios que chegassem pelo norte.

Se o Santa Fé aparecesse faziam-lhe sinais, depois de irem ao cabo San Juan. O comandante Lafayate mandava uma lancha, recolhia-os a bordo e era informado da situação; então resolvia-se tudo, quer a escuna ainda estivesse na angra, quer o que era, infelizmente, possível já se tivesse feito ao mar.

— Queira Deus que isso não aconteça! — diziam John Davis e Vasquez.

Pelo meio da noite puseram-se ambos a caminho, levando as provisões, as armas e uma reserva de pólvora.

Seguiram pela praia pouco mais ou menos umas seis milhas, contornando a enseada San Juan. Depois de muito procurarem, acabaram por descobrir, do outro lado daquele golfo, uma cavidade que bastaria para os abrigar até à chegada do aviso.

Demais, se a escuna saísse, poderiam voltar para a gruta.

Vasquez e John Davis ficaram todo o dia em observação.

Enquanto a maré enchia, sabiam eles que não podia sair a escuna, e não se inquietavam. Mas, com a vazante, voltava-lhes o receio de que eles acabassem os consertos naquela noite.

Quando a partida fosse possível Kongre não a demoraria certamente nem uma hora.

Era tanto o seu terror de ver aparecer o Santa Fé como a vontade que John Davis e Vasquez tinham de que ele viesse.

Estes ao mesmo tempo vigiavam o litoral. Mas nem Kongre nem nenhum dos seus companheiros apareceram:

Como se sabe, Kongre tinha resolvido não perder tempo com buscas que seriam por certo inúteis. O melhor que tinha a fazer, e que fazia, era ativar o trabalho e acabar os consertos o mais depressa possível.

Como dissera o carpinteiro Vargas, as travessas estavam prontas de tarde e no dia seguinte tudo estaria concluído.

Vasquez e John Davis não tiveram nenhum alarme naquele dia.

Mas como lhes pareceu longo!

De tarde, depois de terem a certeza de que a escuna ainda não tinha saído, foram meter-se no seu esconderijo, onde o sono lhes deu um descanso de que muito precisavam.

No dia seguinte estavam de pé ao amanhecer.

A primeira coisa que fizeram foi olhar para o mar.

Não se via navio nenhum.

O Santa Fé não aparecia e não havia o mais pequeno sinal de fumo no horizonte.

A escuna iria partir na maré da manhã?

Começava a vazante. Se a aproveitasse, daí a uma hora teria dobrado o cabo San Juan.

John Davis não podia pensar em recomeçar a tentativa da véspera.

Kongre devia estar precavido. Passaria de longe e as balas não poderiam alcançar a escuna.

Compreendem-se as impaciências e inquietações em que estiveram John Davis e Vasquez até ao fim daquela maré. Afinal, pelas sete horas, veio a maré. Kongre já não podia sair senão na maré da tarde.

O tempo estava bom e o vento conservava-se a nordeste.

O mar já não se ressentia do último temporal.

O Sol brilhava entre nuvens leves, muito elevadas, que a brisa não alcançava.

Foi mais um dia interminável para Vasquez e John Davis.

Também não houve rebate nenhum.

A quadrilha não tinha saído da angra. Parecia pouco provável que qualquer dos piratas se afastasse de lá, de manhã ou de tarde.

— Isto prova que aqueles patifes estão a trabalhar – afirmou Vasquez.

— Sim! Apressam-se — acrescentou John Davis. — Daqui a pouco têm tudo pronto e podem sair.

— Talvez saiam esta noite... embora a maré seja tarde — lembrou Vasquez. — É verdade que eles conhecem a baía. Não precisam de luz para a alumiar. Subiram-na na noite passada e, se a descerem esta noite, vão-se de todo.

E concluiu, com desespero: — Que pena que os mastros deles não quebraram!

— Que quer, Vasquez? — respondeu Davis —, fizemos tudo o que pudemos!... Deus que faça o resto!

— Nós o ajudaremos! — proferiu por entre os dentes Vasquez, que pareceu tomar de repente uma resoluÇão enérgica.

John Davis continuava pensativo e andava de um lado para outro na praia, com os olhos voltados para o norte. Nada no horizonte... nada!

De repente, parou. Chegou ao pé do companheiro e propôs-lhe: — Vasquez... e se nós fôssemos ver o que eles estão fazeno?

— Lá no fundo da baía, Davis?

— Sim... Veríamos se a escuna está consertada... se se apronta para sair.

— E para que nos serviria isso?

— Para saber, Vasquez? — exclamou John Davis. — Morro de impaciência. Não consigo me conter... Não está mais na minha mão!

E realmente o pobre homem já não era senhor de si.

— Vasquez — continuou ele —, que distância há daqui ao farol?

— Três milhas, no máximo, passando as colinas e indo em linha reta até o fundo da baía.

— Pois vou lá, Vasquez... Às quatro horas... chegarei antes das seis... alcançarei o mais longe que me for possível. Ainda será dia... mas ninguém me verá... e eu... hei de ver!

Seria inútil querer dissuadi-lo. Vasquez não o tentou. O companheiro recomendou:

— Ficará aqui e vigiará o mar. Eu voltarei antes da noite. Irei sozinho.

Vasquez respondeu, como quem já tem o seu plano: — Acompanho-o, Davis. Também tenho vontade de dar uma volta pelos lados do farol.

Estava resolvido e havia de se fazer.

Nas horas que se haviam de passar até eles partirem, Vasquez, deixando o companheiro sozinho na praia, isolar-se-ia na cavidade que lhes tinha servido de refúgio e entregar-se-ia a trabalhos misteriosos.

O imediato da Century surpreendeu-o uma vez afiando a navalha num pedaço de rocha e outra vez a rasgar uma camisa em tiras, enrolando-as depois à maneira de corda bamba.

Vasquez respondeu evasivamente às perguntas que ele lhe fez, dizendo que à tarde se explicaria melhor.

John Davis não insistiu.

Às quatro horas, depois de comerem uma bolacha e um bocado de carne salgada, puseram-se os dois a caminho, armados de revólveres. Um barranco estreito facilitou-lhes a subida das colinas e chegaram acima sem custo.

Diante deles estendia-se uma planície árida, onde só cresciam alguns tufos de bérberis. Não se via uma única árvore. Algumas aves marinhas, dando gritos estridentes, voavam aos bandos, fugindo para o sul.

A direção que tinham a seguir para chegarem ao fundo da baía estava indicada por si própria.

— É ali — indicou Vasquez.

E apontava para o farol, que se levantava a menos de duas milhas.

— Vamos! — respondeu John Davis.

Caminhavam ambos a passo rápido. Só tinham de tomar algumas precauções nas proximidades da angra.

Depois de meia hora de caminho pararam, arquejantes.

Mas não sentiam a fadiga.

Faltava ainda andar meia milha.

Era preciso muita prudência, porque Kongre ou um dos seus homens podiam estar em observação na galeria do farol e àquela distância haviam de ser vistos.

Como o tempo estava claro, a galeria via-se perfeitamente. Não estava lá ninguém naquele momento, mas talvez Carcante ou outro qualquer estivessem no quarto de vigia, de onde, pelas janelas estreitas, que davam para todos os pontos cardeais, se podia ver a ilha numa grande extensão.

John Davis e Vasquez meteram-se por entre as rochas, que estavam dispersas aqui e ali, numa confusão caótica.

Passavam de uma para a outra, indo a um de fundo e às vezes de rastos para atravessarem um espaço descoberto. Demoraram-se muito com esta caminhada.

Eram quase seis horas quando chegaram ao último ressalto das colinas que enquadravam a angra.

Olharam para baixo.

Não era possível que os vissem, a não ser que algum dos homens da quadrilha subisse a colina. Nem do alto do farol os poderiam ver, no meio das rochas com que se confundiam.

A escuna estava na angra, em muito bom estado.

A tripulação ocupava-se em levar para o porão parte da carga que viera para cima durante os consertos. A lancha estava à ré, o que indicava que se tinha acabado o trabalho.

— Estão prontos — murmurou John Davis, comprimindo a cólera quase a estalar.

— Quem sabe se irão aparelhar antes da maré, daqui a duas ou três horas?

— E não se pode fazer nada... nada! — repetia John Davis. Efetivamente, o carpinteiro Vargas cumprira a sua palavra.

Tudo fora feito rapidamente e não havia sinal nenhum da avaria.

Tinham bastado aqueles dois dias. A Carcante estava em

estado de agüentar o mar.

Mas o tempo foi passando, o Sol baixou, desapareceu, e fez-se noite sem haver indício nenhum que indicasse a próxima partida da escuna.

Do seu abrigo, Vasquez e John Davis ouviam a bulha que os homens faziam. Eram risadas, gritos, pragas, o ruído dos fardos que arrastavam para a coberta. Às dez horas ouviram claramente fechar-se uma porta. Depois, completo silêncio.

Davis e Vasquez esperaram, com o coração oprimido.

Por certo, como tinham acabado os trabalhos, iam fazer-se ao mar.

Mas não, a escuna continuava no fundo da angra.

Passou-se uma hora.

O imediato da Century pegou a mão de Vasquez e disse:

— A maré vai mudar.

— Não podem sair.

— Hoje não. Mas amanhã?...

— Nem amanhã, nem nunca — asseverou Vasquez.

E acrescentou, saindo do refúgio em que estavam de emboscada:

— Venha comigo.

Davis, muito admirado, acompanhou Vasquez, que avançava prudentemente para o farol. Em poucos instantes chegaram ao outeiro que servia de pedestal à torre. Ali, Vasquez, depois de procurar por pouco tempo, deslocou uma rocha, que girou sem grande esforço.

— Meta-se aí dentro — ordenou ele a Davis, apontando-lhe para a parte de baixo do rochedo. — Descobri este esconderijo por acaso quando estava no farol e nem suspeitava de que me havia de servir dele um dia. Não é uma caverna, é um simples buraco em que mal poderemos caber os dois. Mas podem passar mil vezes por diante da nossa porta sem saberem que a casa está habitada.

Davis, obedecendo ao convite, meteu-se na cavidade, onde Vasquez logo entrou também. Apertados um contra o outro, a ponto de não se poderem mexer, falavam a meia voz.

— O meu plano é este — declarou Vasquez. — Vai esperar aqui por mim.

— Esperar por você? — perguntou Davis.

— Sim; vou à escuna.

— À escuna! — repetiu Davis, estupefato.

— Resolvi que aqueles patifes não hão de sair daqui — afirmou Vasquez com firmeza.

Tirou de dentro da camisa dois embrulhos e uma navalha.

— Isto — explicou ele — é um cartucho que fiz com a nossa pólvora e um pedaço de camisa. Com o outro pedaço da camisa e o resto da pólvora, fabriquei esta mecha. Ponho tudo na cabeça e vou a nado até a escuna. Subo pelo comprimento do leme e com esta navalha faço uma abertura entre ele e o cadaste. Ponho o cartucho nessa abertura, acendo a mecha e me retiro. É o meu projeto, que nada no mundo me impedirá de cumprir.

— É maravilhoso! — exclamou John Davis, entusiasmado. – Mas não o deixarei se expor sozinho a um perigo desses. Vou acompanhá-lo.

— Para quê? — replicou Vasquez. — Um homem passa melhor pelos lugares quando vai só, e um homem basta para o que eu quero fazer.

Por mais que Davis insistisse, Vasquez foi inflexível. A idéia dele queria executá-la sozinho. A seu pesar, Davis teve de ceder.

Quando a noite estava mais escura, Vasquez, depois de se despir, trepou para fora da cavidade e começou a descer a ladeira da colina.

Chegando ao mar, atirou-se à água e nadou vigorosamente para a escuna, que se balançava frouxamente a pouca distância da praia.

À proporção que ele se aproximava, o conjunto do navio tornava-se mais negro e mais imponente.

Ninguém se movia a bordo, mas por certo estavam de vela.

Daí a pouco o nadador viu perfeitamente o perfil do marinheiro de guarda. Sentado no castelo de proa, com as pernas pendentes ao de cima da água, o homem assobiava uma cantiga marítima cujas notas se ouviam claramente no silêncio da noite.

Vasquez descreveu uma curva e, aproximando-se do navio pela ré, ficou invisível na sombra projetada pelo arqueamento.

O leme arredondava-se por cima dele. Pegou-lhe na superfície

viscosa e, à custa de esforÇos sobre-humanos, pôde levantar-se, agarrando-se à ferragem. Depois, escarranchando-se, apertou-o entre os joelhos.

Com as mãos livres, pegou no saco que levava à cabeça e, segurando-o nos dentes, viu o que tinha dentro.

A navalha começou logo a trabalhar; o buraco ia-se fazendo cada vez mais largo e mais fundo.

Depois de uma hora de trabalho, a folha saiu do outro lado. Vasquez meteu dentro o cartucho, adaptou-Lhe a mecha e depois procurou o fuzil no fundo do saco.

Naquele momento os joelhos afrouxaram-lhe. Sentiu-se escorregar e isso era a perda irremediável da sua tentativa. Se o fuzil se molhasse, não feria lume.

No movimento involuntário que fez para recuperar o equilíbrio, o saco oscilou e a navalha, que já estava dentro, caiu ao mar, fazendo saltar a água com ruído.

O homem de guarda deixou de assobiar. Vasquez ouviu-o descer e ir primeiro à coberta e depois ao tombadilho. Viu desenhar-se-Lhe a sombra na superfície do mar.

O marinheiro procurava por certo discernir a causa do ruído insólito que lhe atraíra a atenção. Ficou assim por muito tempo, enquanto Vasquez, com as pernas retesadas e as unhas crispadas na madeira viscosa, sentia faltarem-lhe as forças a pouco e pouco.

Afinal, sossegado pelo silêncio que havia, o marinheiro afastou-se e, voltando para a proa, continuou a assobiar:

Vasquez tirou o fuzil do saco e bateu na pedra. Saíram algumas faíscas. A mecha, acesa, começou a crepitar dissimuladamente.

Vasquez, deixando-se escorregar, entrou novamente na água e, nadando em silêncio, fugiu para terra.

No seu esconderijo, onde tinha ficado sozinho, o tempo parecia interminável a John Davis:

Passaram-se meia hora, três quartos de hora, uma hora; e Davis, sem se poder conter, saiu de rastos da cavidade e olhou ansiosamente para o mar.

Que podia ter sucedido a Vasquez? Abortaria a sua tentativa? Em todo o caso, não devia ter sido descoberto; porque não se ouvia ruído nenhum.

De repente, repercutida pelo eco da colina, rebentou uma explosão sumida no silêncio da noite, explosão que foi imediatamente seguida por um concerto ensurdecedor de gritos e de bater de pés.

Alguns instantes depois, um homem, todo sujo de água e de lama, chegava a correr, empurrava Davis, metia-se no fundo do esconderijo e deixava cair o rochedo que lhe ocultava a entrada.

Quase a seguir passou um grupo de homens gritando. Os sapatos grossos, batendo com grande ruído nos rochedos, não conseguiam encobrir-lhes as vozes.

— Depressa! — dizia um. — Temos que pegá-lo.

— Vi-o como estou vendo a ti — dizia outro. – Está sozinho.

— Não nos leva cem metros de dianteira.

— Ah! Canalha! Havemos de apanhá-lo.

O ruído foi diminuindo até se extinguir de todo.

— Pronto? — perguntou Davis, em voz baixa.

— Sim.

— Parece-lhe que deu resultado?

De manhã, um estrondo de martelos que se ouviu fez desaparecer todas as incertezas.

Se trabalhavam assim a bordo da escuna, era porque tinha avarias e a tentativa de Vasquez dera bom resultado. Mas a importância dessas avarias era o que nem um nem outro podiam saber.

— Deus queira que sejam tão graves que os façam estar mais um mês na baía! — exclamou Davis, esquecendo-se de que, nesse caso, o seu companheiro e ele morreriam de fome no sconderijo.

— Silêncio! — murmurou Vasquez, pegando-lhe a mão.

Aproximava-se outro grupo, mas este vinha silencioso. Era talvez o mesmo, que voltava da caçada infrutífera. Fosse como fosse, os homens que o compunham não pronunciavam uma palavra.

Só se lhes ouvia o ruído dos sapatos batendo no chão.

Toda a manhã Vasquez e Davis ouviram-nos assim andar em redor deles.

Passavam bandos em perseguição do invisível assaltante, mas, à proporção que as horas decorreram, essa perseguição pareceu afrouxar.

Havia já muito tempo que nada perturbava o silêncio; pelo meio-dia, porém, pararam três ou quatro homens a dois passos da cavidade onde Davis e Vasquez estavam agachados.

— Decididamente, não somos capazes de o encontrar! — declarou um deles, sentando-se no próprio rochedo que obstruía o orifício.

— É melhor deixarmo-nos disso — afirmou outro. — Os nossos companheiros já foram para bordo.

— E nós vamos fazer o mesmo. De mais a mais, o patife errou o golpe.

Vasquez e Davis, que estavam invisíveis, estremeceram e aplicaram os ouvidos ainda com mais atenção.

— Sim — aprovou um quarto interlocutor. — Vejam lá, queria fazer o leme ir pelos ares!

— A alma e o coração de um navio!

— Fazia-nos uma boa partida!

— Foi uma felicidade o cartucho rebentar onde não fez quase mal nenhum. Só arrancou alguma ferragem e o leme pouco sofreu.

— Fica tudo consertado hoje — continuou o primeiro que tinha falado. — E esta tarde, antes da maré, toca a marchar! O outro que morra de fome, se quiser!

— Ainda não achas tempo, Lopez? — interrompeu brutalmente uma voz áspera. — Já é falar de mais. Vamo-nos.

— Vamo-nos! — disseram os outros três, pondo-se a caminho.

No esconderijo onde estavam metidos, Vasquez e Davis, aterrados pelo que acabavam de ouvir, olhavam um para o outro em silêncio.

Aos olhos de Vasquez assomaram duas grossas lágrimas e deslizaram-Lhe pelas pestanas, sem que o rude marinheiro se importasse com ocultar aquele testemunho do seu impotente desespero.

Aí estava o resultado irrisório da sua heróica tentativa: Doze horas de demora suplementar era a que se reduzia o prejuízo que os piratas tinham sofrido. À tarde, feitos todos os consertos, a escuna havia de afastar-se pelo vasto mar e desapareceria no horizonte!

O ruído dos martelos que se ouvia provava que Kongre fazia trabalhar com ardor para porem a Carcante em bom estado.

Às cinco horas e um quarto, com grande desespero de Vasquez e de Davis, esse ruído cessou de repente. Compreenderam que a última pancada do martelo tinha completado o trabalho. Alguns minutos depois, o ranger da corrente no escovém confirmou esta hipótese. Kongre punha o ferro a prumo. Aproximava-se o instante da partida.

Vasquez não se pôde conter: Fazendo girar o rochedo, arriscou prudentemente um olhar para fora.

Para oeste, o Sol declinava, alcançando o cume das montanhas que limitavam a vista. Naquela data, próximo do equinócio do Outono; não levaria uma hora a desaparecer.

A escuna continuava fundeada na angra.

Já não tinha sinal nenhum das avarias que sofrera. Tudo parecia estar em regra a bordo. A corrente, vertical como Vasquez supusera, mostrava que bastaria um último esforço para levantarem ferro quando quisessem.