O Guardião

Dean R. Koontz · Capítulo 5 de 8

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O Guardião

No dia 13 de agosto de 1988,…

Quatro

 

A CHAMA INTERIOR

 

1

No dia 13 de agosto de 1988, sábado, sete meses depois da morte de Danny, Thelma Ackerson chegou à casa da montanha para passar quatro dias.

Laura estava nos fundos, treinando tiro ao alvo com seu Smith & Wesson .38 Chief´s Special. Acabava de recarregar, fechar o cilindro, e ia colocar o protetor nas orelhas, quando ouviu o motor de um carro aproximando-se da casa. Apanhou o binóculo que estava no chão, aos seus pés, e examinou o veículo para certificar-se de que não se tratava de algum visitante indesejável. Quando viu Thelma na direção, abaixou o binóculo e continuou a atirar no alvo — o desenho da cabeça e torso de um homem — pregado num monte de feno.

Chris, sentado na relva perto dela, apanhou seis balas da caixa e as estendeu para a mãe, quando ela deu o último tiro.

Era um dia quente, claro e seco. Flores silvestres coloriam a borda do gramado onde começava o mato rasteiro na estrada da floresta. Até alguns momentos atrás, esquilos brincavam na relva e os pássaros cantavam, mas os tiros os havia assustado.

Laura podia ter associado a casa nas montanhas com a morte do marido e procurado vendê-la. Porém, em vez disso, vendeu a casa em Orange County e transferiu Chris para a escola de San Bernardino. Acreditava que tudo que havia acontecido em janeiro na rodovia 330 podia acontecer em qualquer lugar. A casa nada tinha a ver com isso; a culpa era do destino, das misteriosas forças que regiam sua vida estranhamente acidentada. Sabia intuitivamente que, se o guardião não tivesse aparecido para salvá-la na estrada coberta de neve, teria entrado em sua vida em outro lugar qualquer, em outro momento de crise. Nesse lugar, Kokoschka teria surgido com sua arma e a mesma tragédia teria ocorrido.

A outra casa tinha mais lembranças de Danny do que a de pedra e madeira ao sul de Big Bear. Era mais fácil conviver com a dor nas montanhas do que em Orange County.

Além disso, por estranho que pudesse parecer, sentia-se mais segura nas montanhas. Nos subúrbios muito populosos de Orange County, com as ruas e estradas apinhadas de gente, era mais difícil identificar o inimigo. Nas montanhas, os estranhos eram mais visíveis, especialmente porque a casa ficava quase no centro do terreno de trinta acres.

E Laura não havia esquecido a advertência do guardião: Procure andar armada. Esteja preparada. Se vierem à sua procura... serão muitos homens.

Quando Laura deu o último tiro e retirou os protetores das orelhas, Chris entregou a ela as seis balas. O menino tirou também o protetor que estava usando e correu para o alvo, a fim de verificar a pontaria da mãe.

O alvo estava encostado em fardos de feno empilhados, formando uma parede de dois metros de altura com quatro metros e meio de espessura. Atrás ficavam os bosques de pinheiros, sua propriedade, o que podia tornar questionável a necessidade de tanta proteção. Mas Laura não queria ferir ninguém por engano.

Chris pregou novo alvo e levou o outro para Laura.

— Acertou quatro, mamãe. Dois mortais, dois ferimentos graves, mas parece que está desviando um pouco para a esquerda.

— Vamos ver se consigo corrigir isso.

— Você está ficando cansada, só isso — disse Chris.

Sobre a grama cortada espalhavam-se mais de 150 cápsulas vazias. Os pulsos, braços e ombros de Laura estavam doloridos por causa do tranco da arma, mas ela queria dar mais seis tiros, antes de parar o treino daquele dia.

Perto da casa, Thelma bateu a porta do carro.

Chris colocou os protetores nas orelhas e apanhou o binóculo para observar o alvo, enquanto a mãe atirava.

Laura fez uma pausa e olhou para o filho cheia de pena, não só por ter perdido o pai, mas porque não era justo para uma criança de sete anos saber o quanto a vida era perigosa, naquela constante expectativa de violência. Laura procurava fazer a vida dele tão alegre quanto possível. Brincavam ainda com a história de Tommy Sapo, embora Chris não acreditasse mais na existência do sapo inglês; com uma vasta coleção de livros infantis, Laura ensinava ao filho o prazer e a fuga que se pode encontrar na literatura; até seu treino de tiro era em forma de brincadeira, desviando assim a atenção da necessidade premente de se proteger. Contudo, por enquanto a vida dos dois era dominada pela perda, pelo perigo e pelo medo do desconhecido. A realidade não podia ser escondida do menino, e não podia deixar de ter um efeito profundo e duradouro sobre ele.

Chris abaixou o binóculo e olhou para a mãe, para ver por que ela não estava atirando. Laura sorriu para ele, e o menino retribuiu o sorriso. Era um sorriso tão doce, de partir o coração.

Laura virou para o alvo, ergueu o .38, segurando-o com as duas mãos e apertou o gatilho para o primeiro tiro daquela série.

Quando acabava de dar o quarto tiro, Thelma apareceu atrás dela, com os dedos nos ouvidos e fazendo uma careta.

Laura deu os dois últimos tiros, tirou os protetores das orelhas e Chris foi apanhar o alvo. O estampido soava ainda, ecoando nas montanhas, quando Laura voltou-se e abraçou Thelma.

— Que negócio é esse de arma? — perguntou Thelma. — Vai es crever filmes para Clint Eastwood? Ou não, coisa melhor ainda, para a versão feminina de Clint Eastwood em Perseguidor implacável. E sou a pessoa ideal para o papel: durona, fria, com um sorriso de desprezo que faria estremecer até Bogart.

— Não vou me esquecer de você para o papel — disse Laura — , mas o que eu queria de verdade era ver Clint vestido de mulher.

— Ei, você ainda tem senso de humor, Shane.

— Pensou que tinha perdido?

Thelma franziu a testa.

— Eu não sabia o que pensar quando vi você atirando, com cara de má como uma cobra com dor de dente.

— Autodefesa — disse Laura. — Toda boa moça deve aprender.

— Você estava atirando como uma profissional. — Thelma olhou para as cápsulas no chão. — Sempre faz isso?

— Três vezes por semana, umas duas horas de cada vez.

Chris voltou com o alvo.

— Oi, tia Thelma. Mamãe, você conseguiu quatro mortais desta vez, um bom ferimento e um fora do alvo.

— Mortais? — perguntou Thelma.

— Acha que ainda estou desviando para a esquerda? — Laura perguntou para o filho.

Chris mostrou o alvo.

— Não tanto como da outra vez.

— Escute, Christopher Robin — disse Thelma —, só vou receber isso: um oi tia Thelma e nada mais?

Chris colocou o alvo na pilha, sobre os outros já usados, e deu um abraço apertado e um beijo em Thelma. Notando que ela não estava fantasiada de punk, perguntou:

— Puxa, o que aconteceu com você, tia Thelma? Parece normal.

— Eu pareço normal? O que é isso... um elogio ou um insulto?

Lembre-se, garoto, mesmo que sua tia Thelma pareça normal, ela não é nada disso. Ela é um gênio da comicidade, uma pessoa maravilhosa mente espirituosa, uma lenda no seu próprio álbum de recortes. Seja como for, resolvi que a era do punk já passou.

Escalaram Thelma para ajudar a recolher as cápsulas vazias.

— Mamãe é uma grande atiradora — disse Chris com orgulho.

— Acho bom que seja grande, com todo esse treino. Tem metal aqui suficiente para fazer balas para um exército de amazonas.

— O que quer dizer isso? — Chris perguntou para a mãe.

— Pergunte outra vez daqui a dez anos — respondeu Laura.

Entraram na casa e Laura trancou os dois fechos embutidos da porta da cozinha. Fechou as persianas para não serem vistos de fora.

Thelma observou com interesse o ritual, mas não disse nada.

Chris pôs Os caçadores da arca perdida no vídeo e sentou na frente da televisão com um saco de pipoca e uma Coca-Cola. Na cozinha Laura e Thelma tomaram café enquanto Laura desmontava e limpava seu .38 Chiefs Special.

A cozinha era grande mas aconchegante, com muita madeira escura, tijolos em duas paredes, uma coifa de cobre, panelas de cobre dependuradas em ganchos e o chão de cerâmica azul-escuro. O tipo de cozinha onde as famílias nos seriados de televisão armam suas crises e chegam a uma revelação transcendental (com sentimento) em trinta minutos, menos os comerciais, todas as semanas. Mesmo para Laura era um lugar estranho para desmontar uma arma cujo objetivo era matar seres humanos.

— Você está mesmo com medo? — perguntou Thelma.

— Pode apostar que sim.

— Mas Danny morreu porque tiveram a pouca sorte de entrar por acaso no meio do comércio de drogas. Aquela gente já se foi há muito tempo, certo?

— Talvez não.

— Bem, se tivessem medo de que você os identificasse, teriam vindo há muito tempo.

— Não quero arriscar.

— Precisa relaxar, garota. Não pode passar o resto da vida esperando que alguém salte sobre você de repente. Tudo bem, pode ter uma arma. Isso provavelmente é prudente. Mas não vai voltar para o mundo nunca mais? Não pode carregar um revólver para sempre.

— Posso. Tenho licença.

— Licença para carregar esse canhão?

— Levo na bolsa para qualquer lugar.

— Jesus, como conseguiu porte de arma?

— Meu marido foi morto em circunstâncias estranhas por pessoas desconhecidas. Os assassinos tentaram matar a mim e ao meu filho... e ainda estão em liberdade. Além disso, sou uma mulher rica e relativamente famosa. Seria estranho se não me dessem a licença.

Thelma ficou em silêncio por um minuto, tomando café, observa Laura limpar o revólver. Finalmente disse:

— Isto é meio sinistro, Shane, ver que fala sério, ver você tão tensa. Quero dizer, já faz sete meses... desde a morte de Danny. Mas você está nervosa como se tudo tivesse acontecido ontem. Não pode manter este nível de tensão, de expectativa ou seja lá o que for. É o caminho da loucura. Da paranóia. Deve enfrentar o fato de que não pode passar o resto da vida assim.

— Posso, se for preciso.

— É mesmo? O que me diz deste momento? Sua arma está desmontada. E se algum assassino bárbaro, com tatuagem na língua, começasse a dar pontapés na porta da cozinha?

As cadeiras da cozinha tinham pés de borracha. Laura empurrou a sua bruscamente até a bancada ao lado da geladeira. Abriu uma gaveta e tirou dela outro .38 Chiefs Special.

— O que é isso? Estou sentada no meio de um arsenal? — Thelma perguntou.

Laura guardou o revólver na gaveta.

— Venha. Vou mostrar a casa.

Thelma a acompanhou até a despensa. Dependurada atrás da porta estava uma Uzi semi-automática.

— Isso é uma metralhadora. Tem porte legal para ela?

— Com aprovação federal podem ser compradas em qualquer casa de armas, mas só a semi-automática; é ilegal o uso da arma adaptada para fogo automático.

Thelma olhou para ela e depois suspirou:

— Esta foi adaptada?

— Foi. É completamente automática. Mas eu a comprei assim de um vendedor ilegal, não na loja.

— Isto tudo é muito sinistro, Shane. De verdade.

Laura levou Thelma para a sala de jantar e mostrou o revólver preso no fundo do aparador. Na sala de estar havia um quarto revólver preso na parte inferior de uma mesa de centro, perto de um dos sofás. Outra Uzi adaptada estava atrás da porta do hall na frente da casa. Havia revólveres escondidos na gaveta da mesa de trabalho, no escritório do segundo andar, no banheiro principal e no quarto de Laura, onde havia também uma terceira Uzi.

Olhando para a metralhadora que Laura tirou de baixo da cama, Thelma disse:

— Cada vez mais sinistro, arrepiante. Se eu não a conhecesse tão bem, Shane, ia pensar que está louca, com uma paranóia por revólveres. Mas, como a conheço, se está realmente tão assustada, deve ter algum motivo. Não é perigoso para Chris viver no meio de tantas armas?

— Chris sabe que não deve tocar nelas, e eu confio nele. Várias famílias na Suíça têm membros na milícia... quase todos os homens adultos estão preparados para defender o país, sabia disso? E quase todas as casas têm armas, mas têm o menor índice de ferimentos acidentais a bala em todo o mundo. Porque as armas são um meio de vida. As crianças aprendem a respeitá-las desde muito cedo. Não vai acontecer nada ao Chris.

Laura guardou a Uzi sob a cama e Thelma perguntou:

— Como foi que você encontrou um vendedor ilegal de armas?

— Sou rica, lembra?

— E o dinheiro compra tudo? Certo, talvez seja verdade. Mas, ve nha cá, como é que uma garota como você acha um traficante de armas?

Eles não anunciam nos quadros de avisos da Laundromat, suponho.

— Fiz pesquisas a respeito para vários livros, Thelma. Aprendi a encontrar qualquer pessoa ou qualquer coisa.

Thelma voltou com ela para a cozinha, em silêncio. Da sala de televisão vinha a música heróica que acompanhava Indiana Jones nas suas aventuras. Laura continuou a limpar a arma e Thelma serviu mais duas xícaras de café.

— Agora, garota, vamos falar sério. Se existe realmente uma ameaça que justifica todo esse armamento, então é maior do que você pode enfrentar sozinha. Por que não um guarda-costas?

— Não confio em ninguém. A não ser em você e Chris, é claro.

E no pai de Danny, mas ele mora na Flórida.

— Mas não pode continuar assim sozinha, com medo...

Limpando o cano da arma com uma escova espiral, Laura disse:

— Estou com medo, certo, mas sinto-me bem, estando prepara da. Durante toda a minha vida fui mera espectadora, enquanto tiravam de mim as pessoas que eu amava. Nada fiz além de suportaria dor da perda. Muito bem, para o diabo com isso. De agora em diante vou lutar. Se alguém quiser tirar Chris de mim, vai ter de me enfrentar primeiro, vai ter de entrar numa guerra.

— Laura, sei o que tem passado. Mas escute, deixe que eu banque a psicanalista e diga que está reagindo menos a uma ameaça real 1do que super-reagindo a uma sensação de desamparo em face do destino. Não pode alterar a Providência, garota. Não pode jogar pôquer com Deus e esperar ganhar porque tem um .38 na bolsa. Quero dizer, você perdeu Danny num ato de violência, certo, e talvez possa dizer que Nina Dockweiler estaria viva se alguém tivesse dado um tiro no Enguia logo no começo, mas são os únicos casos em que as pessoas que você amava teriam sobrevivido se alguém tivesse usado uma arma. Sua mãe morreu de parto. Seu pai de um ataque cardíaco. Perdemos Ruthie num incêndio. Acho legal que procure se defender com armas, mas precisa manter a perspectiva, encarar com senso de humor nossa vulnerabilidade como espécie, ou vai acabar num hospício, com gente que fala com árvores e come poeira tirada do umbigo. Deus nos livre, mas e se Chris tiver câncer? Você está preparada para estourar qualquer um que toque nele, mas não pode matar o câncer com um revólver. Parece tão ferozmente decidida a protegê-lo que, se isso acontecer, vai desmoronar por completo, se acontecer alguma coisa contra a qual ninguém pode lutar com sucesso. Eu me preocupo com você, garota. Laura fez um gesto afirmativo, balançando a cabeça, invadida por uma profunda afeição.

— Eu sei que se preocupa, Thelma. Mas pode ficar descansada.

Durante 33 anos eu apenas suportei as coisas; agora estou lutando do melhor modo possível. Se eu ou Chris tivermos câncer, contratarei os melhores especialistas, procurarei o melhor tratamento. Mas se tudo falhar, se por exemplo, Chris morrer de câncer, então aceitarei a der rota. A luta não exclui a força para suportar o revés. Posso lutar, e se perder a luta, posso ainda sobreviver.

Por um longo tempo Thelma olhou para a amiga. Finalmente fez um gesto afirmativo:

— Era isso que eu queria ouvir. Certo. Fim da discussão. Vamos passar para outras coisas. Shane, quando pretende comprar um tan que blindado?

— Vão entregar na segunda-feira.

— Canhões de cano curto, granadas, bazucas?

— Na terça. O que me diz do filme do Eddie Murphy?

— Assinamos o contrato há dois dias — disse Thelma.

— É mesmo! Minha Thelma vai estrelar um filme com Eddie Murphy?

— Sua Thelma vai aparecer num filme com Eddie Murphy. Não qualifico ainda como estrela.

— Você teve uma quarta posição nos créditos do filme com Steve Martin; terceira posição com Chevy Chase. E esta vai ser uma segun da, certo? E quantas vezes foi anfitriã no Tonighti Oito vezes, não foi? Tem de enfrentar a verdade, você é uma estrela.

De pequena magnitude talvez. Não é arrepiante, Shane? Nós duas, vindas do nada, do Lar Mcllroy, e chegamos ao topo. Estranho?

— Não tão estranho — disse Laura. — A adversidade cria força e a força vence. E sobrevive.

2

Stefan deixou a noite de neve de San Bernardino e num instante estava dentro do portão, na outra extremidade da Estrada do Relâmpago. O portão parecia um grande barril, como os dos parques de diversões, mas sua superfície interna era de cobre polido e não de madeira, e não girava sob os pés das pessoas. O barril tinha dois metros e meio de diâmetro e três metros e meio de comprimento; com poucos passos Stefan saiu de dentro dele para o laboratório do andar térreo do instituto, onde esperava encontrar homens armados. O laboratório estava deserto.

Atônito, ficou parado por um momento e olhou em volta, incrédulo. Três paredes da sala de 9 x 12m eram cobertas, do chão até o teto, por máquinas que zumbiam e estalavam sem nenhuma supervisão. A maioria das lâmpadas estava apagada, e o grande laboratório parecia sinistro. Aquelas máquinas faziam funcionar o portão e as dezenas de mostradores e medidores com suas luzes verdes-pálidas ou alaranjadas que serviam o aparelho — que era uma brecha no tempo, um túnel para qualquer tempo — jamais eram apagadas; uma vez fechado, só podia ser reaberto com muita dificuldade e muito dispêndio de energia, mas uma vez aberto podia ser mantido com relativamente pouco esforço. Naqueles dias, quando o objetivo principal não era mais o desenvolvimento do portão, o pessoal do instituto só ia ao laboratório para manutenção de rotina e, é claro, quando alguma viagem estava em progresso. Se não fosse assim, Stefan jamais poderia ter feito as dezenas de viagens secretas, não autorizadas, para monitorar — e às vezes corrigir — os fatos da vida de Laura.

Porém, embora não fosse incomum encontrar o laboratório deserto durante o dia, era estranho naquele momento, pois tinham enviado Kokoschka para apanhá-lo e sem dúvida deviam estar esperando ansiosamente o resultado da missão naquelas montanhas cobertas de neve da Califórnia. Deviam ter previsto a possibilidade de Kokoschka falhar, a possibilidade do homem errado voltar de 1988 e guardariam o portão até que a situação estivesse resolvida. Onde estava a polícia secreta com suas jaquetas negras de couro com grandes ombreiras? Onde estavam as armas com as quais ele esperava ser recebido?

Olhou para o grande relógio na parede e viu que eram 11:45, hora local. A hora certa. Stefan começara a viagem quando faltavam cinco minutos para as 11 horas, naquela manhã, e todas as viagens terminavam 11 minutos depois de terem começado. Ninguém sabia por quê, mas independente do tempo passado na outra extremidade da estrada, só 11 minutos se passaram na base. Stefan estivera em San Bernardino quase uma hora e meia, mas somente 11 minutos estavam marcados em sua vida, no seu tempo. Se tivesse ficado meses com Laura, antes de apertar o botão amarelo do seu cinto, ativando o raio de luz, teria voltado para o instituto somente — e exatamente — 11 minutos depois da sua partida.

Mas onde estavam as autoridades, as armas, os colegas furiosos e ofendidos? Depois de descobrir sua intervenção na vida de Laura, depois de enviar Kokoschka para matar a ele e a Laura, por que teriam abandonado o portão quando só precisavam esperar 11 minutos para saber o resultado da missão?

Stefan tirou as botas, a jaqueta e o coldre a tiracolo, e os escondeu num canto, atrás de algum equipamento. Havia deixado o avental branco do laboratório no mesmo lugar, antes de partir, e agora ele o vestiu.

Intrigado, preocupado ainda com a falta de recepção hostil, saiu do laboratório para o corredor do andar térreo e foi procurar encrenca.

 

3

Às duas e meia da manhã de domingo, Laura estava ao lado do processador de palavras no escritório, ao lado do seu quarto, de pijama e com um roupão tomando suco de maçã e trabalhando no seu novo livro. A única luz era a das letras verdes eletrônicas na tela do computador e da pequena lâmpada de cabeceira focalizada nas páginas impressas na véspera. Um revólver estava na mesa, ao lado do manuscrito.

A porta que dava para o corredor escuro estava aberta. Laura só fechava a porta do banheiro porque, mais cedo ou mais tarde, uma porta fechada podia impedir que ouvisse os passos de um intruso em outra parte da casa. Tinha um sofisticado sistema de alarme, mas mesmo assim deixava abertas as portas internas.

Ouviu Thelma no corredor e voltou-se no momento em que a amiga chegava na porta.

— Desculpe se algum barulho a impediu de dormir.

— Nada disso. Nós, que trabalhamos em casas noturnas, não dor mimos cedo. Mas eu durmo até o meio-dia. E você? Geralmente fica acordada até tarde?

— Não durmo bem. Quatro ou cinco horas chegam para mim.

Em lugar de ficar na cama, virando de um lado para o outro, levanto-me e escrevo.

Thelma puxou uma cadeira e apoiou os pés na mesa de Laura. Seu gosto para roupa de dormir era mais exagerado do que quando era jovem: pijama largo de seda com estampado em vermelho, verde, azul e amarelo, formando desenhos abstratos de quadrados e círculos.

— Fico feliz por ver que ainda usa chinelo de coelhinho — disse Laura. — Demonstra uma certa constância de personalidade.

— Essa sou eu. Sólida como uma rocha. Não encontro mais chinelos desse tipo para meu número, portanto tenho de comprar chinelos peludos de adulto e um par de chinelos de criança, arrancar os olhos e as orelhas dos pequenos e costurar nos grandes. O que está escrevendo?

— Um livro escabroso.

— Parece uma coisa adequada para um fim de semana na praia.

Laura suspirou e recostou na poltrona forrada.

— É um livro sobre morte, sobre a injustiça da morte. Um projeto tolo porque estou tentando explicar o inexplicável. Tento explicar a morte para meu leitor ideal, porque assim talvez eu a possa compreender. É um livro sobre a necessidade de continuar a luta, mesmo conhecendo nossa mortalidade, porque devemos lutar e suportar. É um livro negro, sombrio, árido, deprimente, amargo, profundamente perturbador.

— Existe um grande mercado para isso?

Laura riu:

— Provavelmente nenhum. Mas quando o escritor é dominado por uma idéia... bem, é como uma chama interior, que a princípio nos aquece e nos faz sentir bem e depois começa a nos devorar vivos, queimando-nos de dentro para fora. Não se pode fugir do fogo; ele continua queimando. O único modo de se livrar dele é escrever um livro maldito. Quando tenho alguma dificuldade com este, passo para um livro infantil que estou escrevendo, todo ele sobre Sir Tommy Sapo.

— Você é biruta, Shane.

— Quem está usando chinelos de coelhinho?

Conversaram sobre várias coisas, com a camaradagem descontraída que compartilhavam há vinte anos. Talvez porque sua solidão era agora mais aguda do que nunca, sem Danny, talvez por medo do desconhecido, Laura começou a falar sobre seu guardião. Só Thelma no mundo todo poderia acreditar naquela história. Na verdade, ela ficou encantada, tirou os pés da mesa, inclinou-se para a frente, jamais demonstrando incredulidade, enquanto Laura contava tudo, desde o assalto ao armazém, até o momento em que seu guardião desapareceu na estrada.

Quando Laura apagou aquela chama interior, Thelma disse:

— Por que não me contou isso... por que não me falou sobre seu guardião antes? Em Mcllroy?

— Não sei. Parecia algo... mágico. Alguma coisa que devia guardar só para mim, porque se contasse a alguém quebraria o encanto e nunca mais o veria. Depois, quando ele deixou que eu me livrasse sozinha do Enguia, depois que ele nada fez para salvar Ruthie, acho que deixei de acreditar. Nunca contei para Danny porque, quando conheci meu marido, o guardião era tão real para mim quanto Papai Noel. Então, de repente... lá estava ele na estrada.

— Naquela noite na montanha ele disse que voltaria logo para explicar tudo...

— Mas não o vi mais. Estou esperando há sete meses e sempre que alguém aparece de repente penso que pode ser meu guardião ou outro Kokoschka com uma metralhadora.

Thelma ficou eletrizada pela história e remexia-se na cadeira como se uma corrente elétrica percorresse seu corpo. Finalmente começou a andar pela sala.

— E Kokoschka? Os tiras descobriram alguma coisa sobre ele?

— Nada. Não tinha nenhuma identificação. O Pontiac era roubado, como o jipe vermelho. Examinaram suas impressões digitais em todos os arquivos possíveis e não descobriram nada. Não se pode interrogar um cadáver. Não sabem quem era, nem de onde veio ou por que queria nos matar.

— Você teve muito tempo para pensar sobre tudo isso. Alguma idéia? Quem é esse guardião? De onde veio?

— Não sei. — Laura tinha uma idéia, mas parecia maluca e não se baseava em nenhuma prova concreta. Não contou para Thelma por que parecia por demais egomaníaca. — Não sei.

— Onde está o cinto que ele deixou?

— No cofre — disse Laura, indicando com um movimento de cabeça o canto da sala onde o cofre embutido no chão estava escondido sob o tapete.

Juntas soltaram a ponta do tapete, revelando a tampa do cofre que era um cilindro de 25cm de diâmetro e 40cm de profundidade. Continha um único objeto que Laura retirou.

Voltaram para perto da mesa para examinar o misterioso cinto. Laura ajustou a haste flexível da lâmpada.

O cinto tinha l0cm de largura e era feito de tecido negro e elástico, talvez náilon, entremeado de fios de cobre, formando desenhos intrincados e curiosos. Devido à sua largura, tinha duas fivelas de cobre. Costurada no cinto, à esquerda das fivelas, havia uma caixa estreita do tamanho de uma cigarreira antiga — mais ou menos de 8 x 6cm, 145 com l cm de espessura, também de cobre. O mais minucioso exame não revelou nenhum modo de abrir a caixinha na qual havia um botão amarelo com menos de 2cm de diâmetro. Thelma segurou o estranho material.

— Quer repetir o que ele disse que ia acontecer se apertasse o botão amarelo?

— Disse apenas que, pelo amor de Deus, não apertasse o botão e quando perguntei por quê, respondeu: "Não vai querer ir para onde ele a levará.”

Ficaram lado a lado, iluminadas pela lâmpada de mesa, olhando para o cinto na mão de Thelma. Passava das quatro horas da manhã e a casa estava silenciosa como uma cratera árida e sem ar da lua.

Finalmente Thelma perguntou:

— Já pensou em apertar o botão?

— Não, nunca — respondeu Laura sem hesitar. — Quando ele mencionou o lugar para onde o cinto me levaria... havia uma expressão terrível nos seus olhos. E eu sei que ele voltou para lá contra a vontade. Não sei de onde ele veio, Thelma, mas se não interpretei mal o que vi nos seus olhos: o lugar fica a um passo do inferno.

No sábado à tarde, vestiram shorts e camisetas, estenderam cobertores no gramado dos fundos da casa e fizeram um longo e preguiçoso piquenique de salada de batatas, frios, queijo, frutas frescas, batatas fritas e pãezinhos de canela com nozes raladas. Brincaram com Chris e o garoto divertiu-se muito, especialmente porque Thelma sabia adaptar seus atos cômicos para crianças de oito anos.

Chris viu alguns esquilos brincando no gramado, perto do bosque, e Laura deu um pãozinho de nozes a ele para dar aos animaizinhos.

— Corte em pedaços pequenos e jogue para eles. Não vão deixar você chegar muito perto. E você fique perto de mim, está ouvindo?

— Certo, mamãe.

— Não vá até o bosque. Só até a metade do gramado.

Chris correu e parou a dez metros de onde elas estavam, pouco mais da metade do caminho até as árvores do bosque e ajoelhou na relva. Começou a atirar pedaços de pão para os esquilos, fazendo com que os animaizinhos rápidos e cautelosos chegassem cada vez mais perto para apanhar a guloseima.

— Ele é um bom garoto — disse Thelma.

— O melhor — Laura puxou a Uzi para mais perto dela.

— Chris está apenas a uns dez ou 12 metros de nós!

— Mas está mais perto do bosque que de mim. — Laura olhou para as sombras do bosque de pinheiros.

Tirando uma batata frita do saco, Thelma disse:

— Nunca fiz piquenique com uma metralhadora portátil. Acho que gosto. Não preciso me preocupar com os ursos.

— É boa para formigas também.

Thelma deitou de lado no cobertor, a cabeça apoiada na mão, mas Laura continuou sentada com as pernas cruzadas à moda índia. Borboletas coloridas, brilhantes como raios de sol condensados, cortavam o ar quente de agosto.

— O garoto parece estar bem adaptado — disse Thelma.

— Mais ou menos — concordou Laura. — No começo foi difícil.

Ele chorava muito, ficou emocionalmente instável. Mas passou. Nessa idade as crianças são flexíveis, adaptam-se rapidamente, aceitam com facilidade. Mas apesar de tudo parecer bem com ele... temo que exista em sua alma agora algo escuro que não existia antes e que parece não querer ir embora.

— Não — disse Thelma —, não irá embora. É como uma sombra no coração. Mas ele vai viver, e vai encontrar a felicidade, e em certos momentos nem vai perceber a sombra.

Enquanto Thelma observava Chris com os esquilos, Laura estudava o perfil da amiga.

— Você ainda sente falta de Ruthie, não sente?

— Todos os dias, nestes vinte anos. Você não sente falta do seu pai?

— É claro — disse Laura. — Mas quando penso nele, acho que não sinto o que você sente. Porque esperamos que nossos pais morram antes de nós; mesmo quando sua morte é prematura podemos aceitar, porque sempre soubemos que ia acontecer mais cedo ou mais tarde.

Mas é diferente quando se perde o marido, a mulher, um filho... ou uma irmã. Não esperamos que eles morram, pelo menos não no come ço da vida. Portanto, é mais difícil de enfrentar. Especialmente, eu acho, quando é uma irmã gêmea.

— Quando tenho alguma boa notícia a respeito da minha carrei ra, meu primeiro pensamento é como Ruthie ficaria feliz. E você, Shane? Está se adaptando?

— Eu choro à noite.

— Isso é saudável, por enquanto. Não será tão saudável daqui a um ano.

— Fico acordada ouvindo as batidas do meu coração e é um som cheio de solidão. Graças a Deus por Chris. Ele me dá motivação para viver. E você. Tenho você e Chris e somos uma uma família, não acha?

— Não como uma família. Somos uma família. Você e eu..irmãs.

Laura sorriu, estendeu a mão e desmanchou o cabelo de Thelma.

— Mas — disse Thelma — isso não quer dizer que pode usar minhas roupas.

 

4

Nos corredores e pelas portas abertas dos escritórios e laboratórios do instituto, Stefan viu os companheiros trabalhando e nenhum demonstrou interesse especial por sua presença. Tomou o elevador para o terceiro andar e na porta do seu escritório encontrou o dr. Wladyslaw Januskaya, há muito tempo protegido do dr. Vladimir Penlovski, e a segunda autoridade encarregada da pesquisa de viagem no tempo, que originalmente fora chamada de Projeto Foice, mas que há alguns meses havia recebido o nome de Estrada do Relâmpago.

Januskaya tinha quarenta anos, dez menos que seu mentor, mas parecia mais velho do que o enérgico e cheio de vida Penlovski. Baixo, gordo, quase calvo, com a pele manchada e dois dentes de ouro na frente, óculos grossos que faziam seus olhos parecerem dois ovos pintados, Januskaya podia ter sido uma figura cômica. Mas sua crença fanática no Estado e o zelo com que trabalhava para a causa totalitária bastavam para eliminar todo o potencial de comicidade; na verdade ele era um dos homens mais perturbadores envolvido no projeto da Estrada do Relâmpago.

— Stefan, meu caro Stefan — disse Januskaya. — Quero agradecer a você a sugestão oportuna de outubro passado de instalar um gerador seguro para o suprimento de força do portão. Sua visão salvou o projeto. Se estivéssemos ainda usando a energia da cidade... ora, o portão teria entrado em colapso uma meia dúzia de vezes, e teríamos sofrido um atraso prejudicial.

Tendo voltado ao instituto esperando ser preso, Stefan ficou confuso ao ver que não haviam descoberto sua traição e o elogio daquele verme desprezível o deixou sobressaltado. Sua sugestão sobre o gerador não fora motivada pela vontade de ver o projeto ter sucesso, mas porque não queria que fossem interrompidas suas viagens particulares ao tempo de Laura por falha do fornecimento de força da cidade.

— Em outubro eu não podia imaginar que a esta altura chegaríamos a uma situação como esta, na qual não se pode confiar nos serviços públicos — disse Januskaya, balançando a cabeça tristemente — a ordem social tão completamente perturbada. O que o povo tem de suportar para ver o triunfo do Estado socialista dos seus sonhos, não é mesmo?

— Estamos atravessando tempos difíceis — disse Stefan, falando de coisa diferente.

— Mas triunfaremos — disse Januskaya com entusiasmo. Os olhos aumentados pelas lentes cintilaram com a loucura fanática que Stefan conhecia muito bem. — Com a Estrada do Relâmpago triunfaremos.

Bateu no ombro de Stefan e continuou a andar pelo corredor.

Quando o cientista estava quase na frente dos elevadores, Stefan disse:

— Oh, sr. Januskaya?

O gordo verme branco voltou-se e olhou para ele:

— Sim?

— O senhor já viu Kokoschka hoje?

— Hoje? Não, hoje ainda não.

— Ele está aqui, não está?

— Oh, acho que sim. Está sempre aqui, desde que tenha alguém trabalhando, você sabe. É um homem muito diligente. Se tivéssemos outros como Kokoschka não teríamos dúvida do triunfo final. Precisa falar com ele? Se eu o encontrar digo para procurá-lo?

— Não, não — disse Stefan. — Não é urgente. Não quero inter romper o trabalho dele. Na certa o verei, mais cedo ou mais tarde.

Januskaya continuou até os elevadores, e Stefan foi para seu escritório, fechando a porta.

Agachou ao lado do arquivo que havia empurrado para o lado, a fim de esconder um terço da grade na entrada do túnel de ventilação. No espaço estreito atrás do arquivo um emaranhado de fios de cobre saía da grade. Os fios estavam ligados a um cronômetro simples, por sua vez ligado a uma tomada na parede, mais atrás do arquivo. Nada fora desligado. Stefan podia ajustar o cronômetro e no espaço de um a cinco minutos, dependendo da volta que desse no marcador, o instituto seria destruído.

Que diabo está acontecendo?, pensou ele. Ficou por algum tempo sentado à sua mesa, olhando para o pedaço de céu visível através de uma das duas janelas: nuvens escuras e esparsas moviam-se preguiçosamente sobre o fundo muito azul.

Finalmente saiu do escritório, subiu a escada da ala norte e passou rapidamente do quarto andar para o sótão. A porta se abriu com um leve rangido. Stefan acendeu a luz e entrou no espaço longo e semi-acabado, pisando cuidadosamente no assoalho de madeira. Verificou três cargas de plástico que havia escondido nas vigas do teto há duas noites. Os explosivos estavam como ele os havia deixado.

Não precisava examinar as cargas do porão. Voltou ao escritório. Obviamente ninguém sabia de suas intenções de destruir o instituto e nem das suas tentativas de evitar as tragédias da vida de Laura programadas pelo destino. Ninguém, exceto Kokoschka. Droga, Kokoschka devia saber, pois tinha aparecido na estrada da montanha com uma Uzi.

Então, por que não contou a ninguém?

Kokoschka era oficial da polícia secreta do Estado, um verdadeiro fanático, servidor entusiasta e obediente do governo, e pessoalmente responsável pela segurança da Estrada do Relâmpago. Tendo descoberto um traidor no instituto, Kokoschka não hesitaria em mandar que um esquadrão de agentes cercasse o prédio, guardando o portão e interrogando todos que estavam lá dentro.

Certamente não teria permitido que Stefan fosse ajudar Laura na estrada da montanha, e depois segui-lo com a intenção de matar a todos. Ele na certa ia querer deter Stefan e interrogá-lo para saber se havia outros conspiradores no instituto.

Kokoschka soubera da interferência de Stefan no curso dos acontecimentos predeterminados na vida de uma mulher. E havia descoberto ou não os explosivos no instituto — provavelmente não descobrira, pois do contrário teria pelo menos desligado as cargas. Então, por motivos pessoais não tinha reagido como um policial, mas como indivíduo. Naquela manhã havia seguido Stefan através do portão até a tarde fria de janeiro de 1988, por motivos que Stefan não podia compreender.

Não fazia sentido. Mas só podia ser assim.

O que Kokoschka pretendia?

Provavelmente Stefan jamais ia saber.

Agora Kokoschka estava morto numa estrada, em 1988, e logo dariam por falta dele no instituto.

Naquela tarde, às duas horas, Stefan devia fazer uma viagem sob a direção de Penlovski e Januskaya. Pretendia explodir o instituto — em dois sentidos — à uma hora, uma hora antes da viagem programa da. Agora, às Ilh43min resolveu que precisava apressar seus planos, antes que dessem pelo desaparecimento de Kokoschka.

Foi até um dos arquivos, abriu a última gaveta, que estava vazia, retirou-a dos trilhos e do arquivo de aço. Na parte de trás do compartimento da gaveta estava uma pistola Colt Commander 9mm Parabellum com nove balas, adquirida em uma das suas viagens ilegais e levada secretamente para o instituto. De trás de outra gaveta retirou dois silenciadores de alta tecnologia e quatro pentes carregados. Levou tudo para a mesa rapidamente, pois alguém podia entrar sem bater na porta, atarraxou um dos silenciadores no revólver, soltou a trava e distribuiu o resto do material pelos bolsos do avental de trabalho.

Quando deixasse o instituto através do portão pela última vez, não teria certeza de que Penlovski, Januskaya e outros cientistas morreriam na explosão. O prédio seria destruído, bem como todas as máquinas e arquivos, mas, o que aconteceria se um dos pesquisadores sobrevivesse? O conhecimento necessário para construir outro portão estava na cabeça de Penlovski e de Januskaya, portanto Stefan pretendia matá-los, bem como outro homem, Volkaw, antes de ajustar o marcador de tempo dos explosivos e entrar no portão, voltando para Laura.

Com o silenciador, o Commander era longo demais para caber no bolso do avental de trabalho de Stefan, por isso virou o bolso do avesso e rasgou o fundo. Com o dedo no gatilho, enfiou a arma no bolso furado e abriu a porta do escritório.

Seu coração batia descompassadamente. Era a parte mais perigosa do plano, matar aqueles homens, porque muita coisa podia sair errada antes de liquidá-los e voltar ao escritório para ligar os explosivos.

Laura estava muito longe e talvez jamais a visse outra vez.

5

Na tarde de segunda-feira, Laura e Chris vestiram seus joggings cinzentos. Depois que Thelma os ajudou a desenrolar os espessos tatames no pátio, atrás da casa, mãe e filho sentaram e fizeram exercícios respiratórios.

— Quando é que Bruce Lee vai chegar? — perguntou Thelma.

— Às duas horas — respondeu Laura.

— Ele não é Bruce Lee, tia Thelma — disse Chris impaciente. — Você fica dizendo Bruce Lee, mas Bruce Lee está morto.

O sr. Takahami chegou às duas em ponto. Vestia uma roupa de ginástica azul-escura com o emblema da escola de artes marciais nas costas do blusão: FORÇA SILENCIOSA. Quando foi apresentado a Thelma, disse:

— A senhora é muito engraçada. Adoro seu álbum de discos.

Encantada com o elogio, Thelma respondeu:

— Pois posso dizer honestamente que gostaria que o Japão tivesse vencido a guerra.

Henry riu:

— Acho que vencemos.

Sentada numa cadeira de lona, tomando chá gelado, Thelma assistiu à aula de autodefesa.

Henry Takahami tinha quarenta anos, corpo musculoso e pernas fortes. Era mestre de judô e caratê e boxeador experiente. Ensinava uma forma de autodefesa baseada em várias artes marciais, um sistema inventado por ele mesmo. Duas vezes por semana ia de carro de Riverside até a casa nas montanhas e passava três horas com Laura e Chris.

O combate com pontapés, socos, rosnados, torções do corpo e movimentos de impacto era conduzido de modo a não ferir ninguém, mas com força suficiente para treinar os alunos com perfeição. Chris aprendia golpes menos cansativos e violentos do que Laura, e Henry dava ao garoto muitos momentos para descanso. No fim da aula Laura estava sempre banhada de suor e exausta.

Quando Henry partiu, Laura mandou Chris subir para o banho de chuveiro enquanto enrolava os tatames ajudada por Thelma.

— Ele é engraçadinho — disse Thelma.

— Henry? Sim, acho que é.

— Talvez eu resolva ter umas aulas de judô ou caratê.

— Sua audiência tem estado tão descontente ultimamente?

— Esse foi um golpe baixo, Shane.

— Tudo é permitido quando o inimigo é formidável e impiedoso.

No dia seguinte à tarde, quando punha a bagagem no Camaro, pronta para voltar a Beverly Hills, Thelma disse:

— Ei, Shane, lembra daquela primeira família com que você fi cou quando estávamos no Mcllroy?

— Os Teagel — disse Laura. — Flora, Hazel e Mike.

Thelma encostou no lado do carro aquecido pelo sol, perto de Laura:

— Lembra o que contou sobre a fascinação de Mike por certos jornais como o National Enquireri — Lembro dos Teagel como se

os tivesse deixado ontem.

— Bem — disse Thelma —, tenho pensado muito nas coisas que aconteceram com você... esse guardião, o fato de ele não envelhecer, o modo como desapareceu no ar... e lembrei dos Teagel. Parece uma ironia. Todas aquelas noites no Mcllroy ríamos do velho e biruta Mike Teagel... e agora você está bem no meio de algo que não passa de noticiário exótico.

Laura riu baixinho.

— Talvez eu deva reconsiderar aquelas histórias de extraterres tres que viviam secretamente em Cleveland, certo?

— Acho que estou tentando dizer... que a vida é cheia de surpresas e coisas estranhas. Algumas são desagradáveis, e alguns dias tão escuros como o interior da cabeça de um político. Mas há momentos em que compreendo que estamos aqui por algum motivo, por mais enigmático que seja. Nada é sem sentido. Se fosse, não haveria mistério.

Seria monótono e claro como o mecanismo de uma máquina de fazer café.

Laura fez um gesto afirmativo.

— Meu Deus, veja só! Estou torturando a nossa língua só para fazer declarações filosóficas simplórias que, resumindo, só significam "continue firme, garota".

— Você não é simplória.

— Mistério — disse Thelma. — Maravilha. Você está no meio disso, Shane, e isso é a vida. Se parece escuro agora... bem, também vai passar.

Abraçaram-se, sem precisar dizer mais. Chris saiu correndo da casa com um desenho a lápis que havia feito para Thelma. Era uma cena primitiva mas encantadora, mostrando Tommy Sapo na frente de um cinema, olhando para o cartaz com o nome de Thelma em letras enormes.

Chris estava com os olhos cheios de lágrimas.

— Você precisa mesmo ir, tia Thelma? Não pode ficar mais um dia?

Thelma o abraçou, depois enrolou o desenho cuidadosamente co mo se fosse uma preciosa obra-prima.

— Eu gostaria de ficar, Christopher Robin, mas não posso. Meus fãs estão exigindo que eu faça esse filme. Além disso, tenho uma grande hipoteca para pagar.

— O que é uma hipoteca?

— A maior motivação do mundo — disse Thelma, beijando o garoto. Entrou no carro, ligou o motor, abaixou o vidro e piscou para Laura. — Notícias exóticas, Shane.

— Mistério.

— Maravilha.

Laura ergueu os três dedos, na saudação de Jornada nas estrelas.

Thelma riu.

— Você vai conseguir, Shane. Apesar das armas e de tudo que fiquei sabendo desde que cheguei na sexta-feira, estou menos preocupada com você agora.

Chris ficou ao lado de Laura olhando o carro de Thelma até ele desaparecer na estrada.

6

O escritório do dr. Vladimir Penlovski era uma suíte no quarto andar do instituto. Quando Stefan entrou na sala de espera, não viu ninguém, mas ouviu vozes que vinham da sala ao lado. Foi até a porta, que estava entreaberta, empurrou-a e viu Penlovski ditando para Anna Kas- par, sua secretária.

Penlovski ergueu os olhos, um pouco surpreso ao ver Stefan. Certamente percebeu a tensão no rosto dele, pois franziu a testa e disse:

— Alguma coisa errada?

— Alguma coisa está errada há muito tempo — disse Stefan — , mas acho que tudo vai ficar certo agora.

Penlovski olhou para ele intrigado. Stefan tirou o Commander equipado com silenciador do bolso e deu dois tiros no peito do cientista.

Anna Kaspar saltou da cadeira, deixando cair o lápis e o bloco, com um grito preso na garganta.

Stefan não gostava de matar mulheres — não gostava de matar ninguém — mas não tinha escolha agora, e atirou três vezes, jogando-a contra a mesa, antes que o grito se concretizasse.

Morta, ela escorregou para o chão. Os tiros não fizeram mais barulho do que o rosnado de um gato e a queda do corpo da mulher não deu para chamar a atenção.

Penlovski estava caído para trás na cadeira, olhos e boca abertos, olhando sem ver. Um dos tiros devia ter atingido o coração, pois havia apenas um pequeno ponto de sangue na sua camisa; a circulação fora cortada imediatamente.

Stefan saiu da sala e fechou a porta. Atravessou a sala de espera, passou para o corredor e fechou aquela porta também.

Seu coração estava disparado. Com aqueles dois assassinatos estava desligando-se para sempre do seu tempo, do seu povo. A partir daquele momento a única vida para ele seria no tempo de Laura. Não podia mais voltar atrás.

Segurando a arma num dos bolsos, a outra mão enfiada no outro, foi pelo corredor até o escritório de Januskaya. Quando chegou perto da porta, dois homens saíram do escritório. Disseram alô ao passar por ele e Stefan parou, para ver se iam ao escritório de Penlovski. Se fossem, teria de matá-los também.

Os dois pararam na frente dos elevadores. Stefan ficou aliviado porque, quanto mais matasse, maior seria a possibilidade dos corpos serem encontrados e dado o alarme que o impediria de ligar o detonador e fugir pela Estrada do Relâmpago.

Entrou no escritório de Januskaya, que tinha também uma sala de espera. A secretária, sentada à sua mesa — uma funcionária, como Anna Kaspar, da polícia secreta — ergueu os olhos e sorriu.

— O dr. Januskaya está no escritório? — perguntou Stefan. — Não. Está na sala de documentos com o dr. Volkaw. Volkaw era o terceiro homem que conhecia o projeto o bastante para precisar ser eliminado. O fato de estar com Wladyslaw Januskaya naquele momento parecia um bom presságio.

Na sala de documentos eram arquivados, para estudo, os vários livros, jornais, revistas e outros materiais recolhidos pelos viajantes do tempo. No momento, os idealizadores da Estrada do Relâmpago dedicavam-se a uma análise urgente dos pontos chaves onde a alteração dos fatos podia provocar as mudanças desejadas no curso da história.

No elevador Stefan trocou o silenciador da arma. O primeiro serviria ainda para uma dúzia de tiros. Mas Stefan não queria arriscar. O segundo silenciador era uma medida adicional de segurança. Substituiu também o pente não todo usado, por outro, completo.

O corredor do primeiro andar era sempre movimentado, com pessoas que iam de um laboratório para outro, de uma sala para outra. Com as mãos nos bolsos, Stefan foi diretamente para a sala de documentos.

Quando Stefan entrou, Januskaya e Volkaw estavam de pé ao lado de uma mesa de carvalho, inclinados sobre uma revista, discutindo calorosamente em voz baixa. Ergueram os olhos e imediatamente continuaram a discussão, supondo que Stefan estava ali para fazer alguma pesquisa.

Stefan atirou duas vezes nas costas de Volkaw. Januskaya reagiu com confusão e choque, quando Volkaw foi atirado sobre a mesa com o impacto dos tiros quase silenciosos.

Stefan atirou no rosto de Januskaya, deu meia-volta e saiu da sala, fechando a porta. Duvidando que pudesse falar com coerência naquele momento, fingiu estar absorto nos seus pensamentos, esperando que isso dissuadisse qualquer pessoa de se dirigir a ele. Foi para os elevadores sem correr, subiu até o terceiro andar, enfiou a mão por trás do arquivo e girou o botão do cronômetro até o fim, dando a si mesmo cinco minutos para chegar ao portão e fugir no tempo, antes que o instituto fosse destruído.

7

Quando começou o ano letivo, Chris concordou em estudar em casa, sob orientação de uma professora reconhecida pelo Estado. Chamava-se Ida Palomar e lembrava um pouco Marjorie Main, a falecida estrela dos filmes de Mãe e Pai Chaleira. Ida era uma mulher grande, um pouco carrancuda, mas de coração generoso, e ótima professora.

No feriado do Dia de Ação de Graças, Laura e Chris já estavam adaptados ao isolamento relativo em que viviam. Na verdade, sentiam prazer na união formada entre os dois devido à convivência com poucas pessoas.

No Dia de Ação de Graças Thelma telefonou de Beverly Hills. Laura atendeu na cozinha repleta do aroma de peru assado. Chris estava na sala de televisão, lendo Shel Silverstein.

— Além de desejar a vocês um bom feriado — disse Thelma — , estou telefonando para convidar os dois a passar os feriados de Natal comigo e Jason.

— Jason? — perguntou Laura.

— Jason Gaines, o diretor — disse Thelma. — O cara que está dirigindo meu filme. Estou morando com ele.

— Ele já sabe?

155 — Escute, Shane, eu faço as piadas.

— Desculpe.

— Ele diz que me ama. Será loucura? Quero dizer, puxa, aqui está este cara decente, cinco anos mais velho do que eu, sem nenhuma mutação visível, um diretor de enorme sucesso, que vale milhões, que pode ter qualquer estrela sensacional, e só quer a mim. Obviamente ele tem alguma deficiência mental, mas não se percebe; conversando com ele, a gente acredita que é normal. Diz que ama em mim especial mente meu cérebro...

— Ele sabe que esse cérebro é doente?

— Lá vem você outra vez, Shane. Diz que ama meu cérebro e meu senso de humor, e até fica excitado com meu corpo... se não fica, é o primeiro cara na história capaz de fingir uma ereção.

— Seu corpo é muito bonito.

— Bem, começo a considerar a possibilidade de que não é tão ruim quanto eu pensava. Isto é, se considerarmos a magreza como sine qua non da beleza feminina. Porém, embora possa olhar para meu corpo no espelho, agora, vejo sempre esta cava. pousada nos ombros.

— Você tem um rosto perfeitamente adorável... especialmente agora que não está rodeado de cabelo verde e roxo.

— Não é o seu rosto, Shane. O que significa que é loucura convidar você para passar o Natal conosco. Jason vai conhecer você e logo eu estarei na lata de lixo. Mas, o que me diz? Você vem? Estamos fil mando em Los Angeles e arredores e devemos terminar no dia 10 de dezembro. Então Jason terá muito trabalho, a edição do filme e todas essas coisas, mas na semana de Natal nós paramos. Gostaríamos que vocês estivessem aqui. Diga que vem.

— Bem que gostaria de conhecer o homem com bastante inteligência para se apaixonar por você, Thelma, mas não sei. Eu... me sinto segura aqui.

— Pensa que somos perigosos?

— Você sabe do que estou falando.

— Pode trazer uma Uzi.

— O que Jason vai pensar?

— Eu digo que você é uma esquerdista radical, do grupo salvem as baleias, acabem com os conservantes tóxicos, liberacionista dos pa pagaios e que você carrega sempre uma Uzi para o caso da revolução estourar sem aviso prévio. Ele vai acreditar. Isto é Hollywood, garota.

A maioria dos atores com quem ele trabalha é mais insana do que isso, politicamente.

De onde estava, Laura via Chris na cadeira, lendo. Ela suspirou:

— Talvez esteja na hora de a gente sair para o mundo uma vez ou outra. E vai ser um Natal difícil se ficarmos sozinhos, o primeiro sem Danny. Mas fico um tanto apreensiva...

— Já faz mais de dez meses, Laura — disse Thelma suavemente.

— Mas não vou relaxar a guarda.

— Não precisa. Falei sério sobre a Uzi. Traga todo seu arsenal se quiser. Mas venha.

— Bem... nós vamos.

— Fantástico! Não vejo a hora de você conhecer Jason.

— Será que estou vendo sinais de que o amor desse insano figu rão de Hollywood é correspondido?

— Estou louca por ele — admitiu Thelma.

— Fico feliz por você, Thelma. Estou aqui de pé com um sorriso de orelha a orelha e há muitos meses não me sentia tão bem.

Era tudo verdade. Mas quando desligou, sentiu mais do que nunca a falta de Danny.

8

 

 

Depois de ligar o marcador de tempo atrás do arquivo, Stefan foi para o laboratório principal no andar térreo. Eram 12hl4min e como a viagem estava programada para as duas horas, não havia ninguém no portão. As janelas estavam hermeticamente fechadas e quase todas as luzes apagadas exatamente como há pouco mais de uma hora, quando voltou de San Bernardino. Os inúmeros botões, medidores e gráficos iluminados do aparelho cintilavam verdes e cor de laranja. Mais na sombra do que na luz, o portão esperava por ele. Quatro minutos para a explosão.

Stefan foi diretamente ao painel de programa e ajustou os botões e alavancas, preparando o portão para o destino desejado: sul da Califórnia, perto de Big Bear, às oito horas da noite de 10 de janeiro de 1988, algumas horas depois da morte de Danny Packard. Stefan fizera os cálculos necessários há alguns dias e seguia as próprias anotações numa folha de papel, o que permitiu que programasse a máquina em um minuto.

Se pudesse viajar para a tarde do dia 10, antes do acidente e da troca de tiros com Kokoschka, teria feito isso, evitando assim a morte de Danny. Entretanto tinham aprendido que o viajante do tempo não podia revisitar um local onde pode encontrar a si mesmo numa viagem anterior. Podia voltar a Big Bear depois do dia em que deixara Laura, naquela noite de janeiro, pois, já tendo partido para a estrada, não corria o risco de encontrar a si mesmo. Porém, se regulasse o portão para um tempo onde fosse possível se encontrar, simplesmente seria lançado de volta ao instituto, sem ir a lugar nenhum. Esse era um dos muitos aspectos misteriosos da viagem no tempo que haviam aprendido, mas que não compreendiam.

Quando terminou a programação, verificou o indicador de latitude e longitude, para garantir que chegaria perto de Big Bear. Então olhou para o relógio que marcava sua hora de chegada e sobressaltou-se vendo que indicava oito horas da noite, 10 de janeiro de 1989 e não 1988. O portão estava agora preparado para levá-lo a Big Bear não algumas horas, mas um ano após a morte de Danny.

Stefan tinha certeza de ter feito os cálculos exatos, com calma e precisão, nas duas últimas semanas. Evidentemente, nervoso como estava, havia cometido um engano ao dar entrada nos números. Teria de reprogramar o portão.

Faltavam menos de três minutos para a explosão.

Piscou os olhos protegendo-se do suor e examinou os números no papel, o produto final dos seus cálculos exaustivos. Quando estendeu a mão para a alavanca do controle, a fim de cancelar o programa e modificar os números, ouviu um grito de alarme no corredor. Gritos pareciam partir da ala norte do prédio, na área da sala de documentos.

Alguém havia encontrado os corpos de Januskaya e Volkaw.

Mais gritos. Pessoas correndo.

Olhando nervosamente para a porta que dava para o corredor, Stefan compreendeu que não teria tempo para reprogramar. Voltaria para Laura um ano depois de tê-la deixado.

Com o Colt Commander munido de silenciador na mão direita, Stefan levantou-se da banqueta de programação e foi para o portão — o barril com 2,5m de altura e 3,5m de comprimento, de aço polido, aberto em uma das extremidades sobre blocos de cobre. Não perdeu tempo nem para apanhar sua jaqueta, que estava num canto da sala.

A comoção no corredor aumentava.

Quando estava a poucos passos da entrada do portão, a porta do laboratório se abriu violentamente, batendo na parede, com força.

— Pare aí!

Stefan reconheceu a voz, mas não podia acreditar. Ergueu o revólver e virou para enfrentar o homem: Kokoschka.

Impossível. Kokoschka estava morto. Kokoschka o seguira até Big Bear na noite de 10 de janeiro de 1988 e Stefan o matara naquela estrada coberta de neve.

Atônito, Stefan atirou duas vezes e errou.

Kokoschka atirou. Uma bala atingiu a parte superior esquerda do peito de Stefan, atirando-o para trás, contra a entrada do portão. Ainda de pé, atirou três vezes em Kokoschka, obrigando-o a se proteger, rolando para trás de uma mesa do laboratório.

Faltavam menos de dois minutos para a explosão. Stefan, em choque, não sentia dor. Mas seu braço esquerdo estava paralisado. Uma sombra insistente insinuava-se à sua frente.

Apenas algumas lâmpadas estavam acesas no teto, mas de repente bruxulearam e se apagaram, deixando a sala vagamente iluminada pelos vários mostradores luminosos. Por um momento Stefan pensou que aquilo era um efeito do seu atordoamento, algo subjetivo, mas então compreendeu que o fornecimento de energia da cidade tinha falhado outra vez, evidentemente obra de sabotadores, pois não se ouvia nenhum sinal de ataque aéreo.

Kokoschka atirou duas vezes no escuro, denunciando sua posição, e Stefan deu os três últimos tiros do seu revólver, sabendo que era impossível atingir Kokoschka, escondido atrás da mesa de mármore.

Agradecendo o fato do portão estar ligado ao gerador e em funcionamento, Stefan jogou longe a pistola e com a mão direita segurou o portal em forma de barril. Entrou e se arrastou freneticamente para o ponto três quartos, onde cruzaria o campo de energia, partindo para Big Bear, 1989.

Enquanto se arrastava de joelhos, apoiado no braço direito, no interior escuro do barril, Stefan lembrou que o cronômetro do detonador no seu escritório estava ligado ao sistema de força municipal. A contagem regressiva fora interrompida com o corte de energia.

Stefan compreendeu então que Kokoschka não estava morto em Big Bear em 1988. Kokoschka não fizera aquela viagem ainda. Só agora ele tomava conhecimento da traição de Stefan, quando descobriu os corpos de Januskaya e Volkaw. Antes que o fornecimento de energia fosse restaurado, Kokoschka revistaria o escritório de Stefan, encontraria o detonador e o desarmaria. O instituto não seria destruído. Stefan hesitou, pensando em voltar.

Ouviu outras vozes no laboratório, outros homens da segurança que chegavam para apoiar Kokoschka.

Continuou a se arrastar para dentro do portão. E Kokoschka? O chefe da segurança evidentemente ia viajar para 10 de janeiro de 1988, para tentar matar Stefan na rodovia 330. Mas só ia conseguir matar Danny, antes de ser morto. Stefan tinha certeza de que a morte de Kokoschka era parte imutável do destino, mas precisava estudar melhor os paradoxos da viagem no tempo e verificar se Kokoschka podia evitar a própria morte em 1988, a morte que Stefan já havia testemunhado.

A complexidade da viagem no tempo era bastante confusa, mesmo quando estudada com mente clara. Naquelas condições, ferido e lutando para permanecer consciente, pensar em tudo aquilo o deixava atordoado. Mais tarde. Podia se preocupar com isso mais tarde.

Atrás dele, no laboratório escuro, alguém começou a atirar para o interior do portão, esperando atingi-lo antes que chegasse ao ponto de partida.

Stefan arrastou-se pelos últimos centímetros. Na direção de Laura. Para a vida num tempo distante. Mas havia planejado fechar para sempre a ponte entre a era que deixava e aquela para onde estava indo. Porém o portão ia permanecer aberto. E eles podiam atravessar o tempo e alcançá-lo,.. e a Laura.

 

9

Laura e Chris passaram o Natal com Thelma e Jason Gaines, em Be-verly Hills. Era uma casa estilo Tudor, com 22 cômodos, num terreno murado de seis acres, uma área imensa onde o preço do acre era absurdamente alto. Durante a construção, nos idos de 1940 — para um produtor de comédias malucas e filmes de guerra —, nada havia sido economizado em termos de qualidade, e o fino trabalho de arquitetura não poderia ser repetido nem por dez vezes o preço pago na época. Havia tetos em caixotão, alguns de carvalho, outros de cobre; cornijas elaboradamente entalhadas; vitrais cinzelados, tão profundamente encaixados nas espessas paredes que era possível sentar confortavelmen-te nos parapeitos das janelas; lintéis interiores decorados com painéis feitos a mão — parreiras e rosas, querubins e flâmulas, gamos saltando, pássaros com fitas coloridas nos bicos; os exteriores eram de gra-nito entalhado e em dois deles havia grupos de frutas de cerâmica no estilo delia Robbia. O terreno em volta da casa era um parque particular muito bem tratado, onde caminhos calçados com pedras percorriam a paisagem tropical de palmeiras, benjaminas, samambaias, fícus nídia, azaléias carregadas de brilhantes flores vermelhas, aves-do-paraíso e flores da estação tão variadas que Laura só conseguiu identificar metade.

Laura e Chris chegaram no começo da tarde de sábado, antes do Natal, e Thelma os levou para um longo passeio pela casa e pelo terreno. Depois tomaram chocolate com folhados em miniatura feitos pelo cozinheiro e servidos pela empregada no solário que dava para a piscina.

— Não é uma vida maluca, Shane? Dá para acreditar que a garota que passou anos em buracos como o Mcllroy e o Caswell esteja morando aqui sem precisar reencarnar-se numa princesa?

A casa era tão imponente que conferia ao seu dono uma Importância com I maiúsculo, e quem a possuísse precisava evitar cuidadosamente uma atitude pomposa ou presunçosa. Mas quando Jason Gaines chegou, às quatro horas, Laura viu que ele nada tinha de pretensioso, o que era de espantar para um homem que há 17 anos trabalhava no cinema. Jason tinha 38 anos, cinco mais do que Thelma. Parecia um Robert Vaugham jovem, o que era muito melhor do que "uma aparência decente" como Thelma havia dito. Meia hora depois de ter chegado, estava numa das salas de jogos com Chris, brincando com o trem elétrico na plataforma de 5x7m, com cidadezinhas, campos, moinhos, cachoeiras, túneis e pontes.

Naquela noite, quando Chris já dormia no quarto ao lado do de Laura, Thelma visitou a amiga. De pijamas, sentaram na cama com as pernas cruzadas, como duas garotas, comendo pistache torrado e tomando champanhe em vez de biscoitos e leite.

— A coisa mais estranha, Shane, é que, apesar da minha origem, sinto que pertenço a este lugar. Não me sinto deslocada.

Não parecia deslocada. Era ainda Thelma Ackerson, mas tinha mudado nos últimos meses. O cabelo tinha um corte e um penteado mais sofisticados; pela primeira vez na vida Thelma estava bronzeada de sol e tinha o porte de uma mulher e não tanto de uma comediante — procurando a aprovação da platéia com cada gesto e atitude. Seu pijama era menos espalhafatoso e mais feminino: justo, de seda creme, não estampada. Mas com "chinelos de coelhinho.

— Chinelos de coelhinho — disse ela — para lembrar quem sou. Não se pode perder a noção de proporção com chinelos de coelhinho, nem perder a perspectiva, nem agir como uma estrela ou uma dama muito rica. Além disso, eles me dão confiança porque são tão bonitos, é como se dissessem: "Nada do que o mundo fizer pode me levar a ser tola e frívola." Se eu morresse e fosse para o inferno, poderia agüentar se estivesse com meus chinelos de coelhinho.

O dia de Natal foi como um sonho maravilhoso. Jason demonstrou ser um idealista com o encantamento de uma criança. Insistiu para que se reunissem em volta da árvore, todos de pijama e roupão, que abrissem os presentes fazendo estalar as fitas sonoramente e rasgando o papel barulhentamente, com a maior dramaticidade possível; insistiu para que cantassem canções de Natal e enquanto abriam os presentes abandonassem a idéia de um saudável café da manhã a favor de biscoitos, balas, nozes, bolo de frutas e pipoca doce. Provou que não estava apenas tentando ser um bom anfitrião quando passou parte da noite anterior com Chris e os trens, pois no dia de Natal brincou o tempo todo com o garoto e era evidente que gostava de crianças e dava-se bem com elas. Na hora do jantar Laura concluiu que Chris tinha se divertido mais num dia do que nos últimos 11 meses.

Quando o acompanhou até a cama naquela noite, ele disse:

— Um grande dia, não foi, mamãe?

— Um dos maiores de todos os tempos — concordou ela.

— Eu só queria — disse Chris sonolento — era que papai estivesse aqui também.

— É o que eu também queria, meu querido.

— Mas, de certo modo ele esteve aqui, porque pensei nele o tem po todo. Será que vou me lembrar dele mesmo depois de dezenas e de zenas de anos, mamãe?

— Eu o ajudarei a se lembrar, meu bem.

— Porque já existem algumas coisas que não me lembro bem. Te nho de pensar muito para lembrar. Mas não quero esquecer, porque ele era meu pai.

Depois que ele dormiu, Laura foi para seu quarto. Ficou imensamente aliviada quando Thelma apareceu para outra conversa íntima, porque se ficasse sozinha passaria por algumas horas de tristeza.

— Se eu tiver filhos, Shane — disse Thelma, sentando na cama de Laura —, acha que poderiam viver na nossa sociedade ou seriam banidos para alguma colônia de crianças feias?

— Não seja boba.

— É claro que eu poderia pagar uma cirurgia plástica maciça para eles. Quero dizer, mesmo que fossem de uma espécie questionável, poderia transformá-los em seres humanos passáveis.

— Às vezes sua autodepreciação me deixa furiosa.

— Desculpe. Atribua ao fato de não ter tido mãe e pai para solidificar minha auto-estima. Tenho a confiança e a dúvida de uma órfã.

— Ficou calada por algum tempo e então disse, rindo: — Ei, quer saber de uma coisa? Jason quer casar comigo. A princípio pensei que ele estivesse possuído por um demônio, sem poder controlar a língua, mas ele garantiu que não precisa de um exorcista, embora evidentemente deva ter sofrido um pequeno derrame. Então, o que você acha?

— O que eu acho? Que importância tem o que eu acho? Mas na minha opinião Jason é um cara formidável. Você vai agarrá-lo, não vai?

— Temo que seja bom demais para mim.

— Ninguém é bom demais para você. Case com ele.

— E se não der certo, vou ficar arrasada.

— E se não tentar, vai ficar mais do que arrasada... vai ficar sozinha.

10

Stefan sentiu o formigamento familiar e desagradável que acompanhava a viagem no tempo, uma vibração especial que penetrava em sua pele, atravessando a carne, chegando à medula dos ossos, voltando depois rapidamente até a superfície. Com um estalido e barulho de sucção, ele deixou o portão e no mesmo instante descia aos tropeções uma encosta íngreme coberta de neve, nas montanhas, ao sul da Califórnia, na noite de 10 de janeiro de 1989.

Tropeçou, caiu sobre o lado ferido, rolou para o sopé da encosta, parando encostado a um tronco de árvore caído. Pela primeira vez desde que fora atingido, sentiu dor. Com um grito caiu de costas, mordendo a língua para não desmaiar, os olhos piscando na noite tempestuosa. Outro relâmpago cortou o céu e a luz pareceu pulsar no ferimento aberto. Com a luz espectral da terra coberta de neve e dos ferozes e es-pasmódicos clarões dos relâmpagos, Stefan viu que estava numa clareira na floresta. Árvores negras e nuas estendiam os galhos para o céu como fanáticos adorando um deus violento. Pinheiros, os galhos curvados ao peso da neve, eram sacerdotes solenes de uma religião mais decorosa. Chegando num tempo que não era o seu, o viajante perturbava as forças da natureza com imensa dispersão de tremenda energia. Independente do tempo no local da chegada, o desequilíbrio era compensado pelo espetáculo violento de relâmpagos furiosos e cortantes. Por isso a estrada etérea pela qual transitavam os viajantes do tempo era chamada Estrada do Relâmpago. Por motivos ainda desconhecidos, a volta ao instituto, à era do viajante, não era marcada por aquela pirotécnica celeste.

Os relâmpagos diminuíram, como sempre acontecia, passando de descargas apocalípticas a lampejos distantes. Num minuto a noite estava calma outra vez.

Com a diminuição dos relâmpagos, a dor do ferimento aumentou. Era como se as descargas que haviam rasgado o céu estivessem agora dentro do seu peito, do ombro e braço esquerdos, uma força grande demais para ser suportada por um mortal.

Stefan ficou de joelhos e levantou-se trêmulo, temendo não ter forças para sair vivo do bosque. A não ser pelo brilho fosforescente da clareira coberta de neve, a noite estava negra como breu, assustadora. Embora sem vento, o ar estava gelado e Stefan vestia apenas seu avental do laboratório sobre a camisa e a calça.

O que era pior, talvez estivesse a quilômetros de uma estrada ou de qualquer marco que indicasse sua posição. Se o portão fosse visto como um revólver, sua exatidão era notável em termos da distância percorrida no tempo, mas muito imperfeito na pontaria. Geralmente o viajante chegava num espaço de tempo compreendido entre dez ou 15 minutos do calculado, mas nem sempre com essa exatidão geográfica. Às vezes aterrissava a cem metros do local desejado, mas em outras ocasiões, a uma distância de 15 ou vinte quilômetros, como no dia 10 de janeiro de 1988, quando Stefan viajou para salvar Laura, Danny e Chris do acidente com o caminhão dos Robertson.

Em todas as viagens anteriores levara um mapa da área de chegada e uma bússola, para o caso de parar em algum lugar isolado como o que estava agora. Mas desta vez, tendo deixado a jaqueta no canto do laboratório, não tinha mapa nem bússola e o céu encoberto não permitia que achasse o caminho guiando-se pelas estrelas.

A neve chegava quase aos seus joelhos e Stefan estava com sapatos comuns, não de bota. Precisava se movimentar imediatamente, do contrário ficaria pregado ao solo. Examinou a clareira, à procura de inspiração, intuição, e finalmente escolheu um caminho ao acaso, caminhando para a esquerda, à procura de uma trilha de gamos ou outro curso natural que indicasse a saída da floresta.

Todo o lado esquerdo do seu corpo, do pescoço até a cintura, la-tejava de dor. Esperava que a bala que o havia atravessado não tivesse seccionado nenhuma artéria e que a perda de sangue fosse bastante pequena para que pudesse pelo menos chegar até Laura, ver seu rosto que tanto amava, uma vez ainda, antes de morrer.

O primeiro aniversário da morte de Danny caiu numa terça-feira e embora Chris não fizesse nenhum comentário a respeito, sabia a importância da data. O garoto nesse dia estava extremamente quieto. Passou a maior parte do tempo brincando com seus Mestres do Universo, na sala de televisão, um brinquedo com imitações vocais de armas laser, clangor de espadas e motores de naves espaciais. Depois deitou na cama, em seu quarto, lendo revistas de quadrinhos. Resistiu aos esforços de Laura para tirá-lo daquele isolamento voluntário, o que talvez tenha sido bom; qualquer tentativa de Laura para parecer alegre não seria verdadeira, e Chris teria ficado mais deprimido vendo que ela tam¬bém lutava para não pensar na grande perda.

Thelma, que havia telefonado alguns dias antes para comunicar seu casamento com Jason Gaines, telefonou outra vez às 7hl5min da¬quela noite, só para conversar, como se não soubesse da importância da data. Laura atendeu no escritório, onde lutava ainda com o livro sombrio no qual estava trabalhando há quase um ano.

— Ei, Shane, adivinha só! Conheci Paul McCartney! Ele estava em Los Angeles para um contrato de gravação e nos encontramos numa festa na sexta-feira. Quando o vi pela primeira vez estava enfiando um hors d'oeuvre na boca, disse oi, com migalhas nos lábios, e estava gatíssimo. Disse que assistiu a meus filmes, que gostou muito e conversamos... você acredita? Acho que durante vinte minutos, e aos poucos, a coisa mais estranha aconteceu.

— Você descobriu que estava despindo Paul McCartney enquanto conversava.

— Bem, ele ainda é bem bonito, você sabe, com aquela carinha de querubim que adorávamos há vinte anos, mas agora marcada pela experiência, três sofisticado e com um atraente toque de tristeza nos olhos, extremamente interessante e encantador. A princípio acho que tive vontade de tirar a roupa dele e viver finalmente minha fantasia. Mas quanto mais conversávamos, menos ele parecia um deus, era uma pessoa, e em minutos, Shane, o mito evaporou, e Paul McCartney era apenas um homem agradável, atraente, de meia-idade. Então, o que acha disso?

— O que devo achar?

— Não sei — disse Thelma. — Estou um pouco perturbada. Não acha que uma lenda viva devia continuar a nos encantar com sua magia, pelo menos durante vinte minutos de conversa? Quero dizer, já conheci muitas estrelas e astros e nenhum deles continuou a parecer um deus, mas aquele era Paul McCartney.

— Bem, se quer minha opinião, a perda rápida do seu status de deus não depõe em nada contra ele, mas diz muita coisa positiva a seu respeito. Você chegou a uma nova maturidade, Ackerson.

— Isso quer dizer que devo deixar de assistir aos filmes antigos dos Três Patetas nas manhãs de sábado?

— Os Três Patetas são permitidos, mas pastelões são definitivamente coisas do passado para você.

Quando Thelma desligou, às dez para as oito, Laura sentiu-se melhor, portanto deixou o livro negro e passou para a história infantil sobre Sir Tommy Sapo. Escreveu duas frases apenas e a noite lá fora foi iluminada por um relâmpago cuja luminosidade dava para provocar pensamentos sombrios de holocausto nuclear. O trovão sacudiu a casa de cima a baixo, como se uma imensa bola de ferro dos demolidores tivesse sido lançada sobre ela. Laura levantou-se de um salto, tão surpresa que nem apertou o botão save no computador. Um segundo relâmpago rasgou a noite, transformando os vidros das janelas em telas de televisão e o trovão foi mais forte do que o primeiro.

— Mamãe!

Voltou-se e viu Chris de pé na porta.

— Está tudo bem — disse Laura.

O menino correu para ela. Laura sentou na poltrona e pôs o filho no colo.

— Está tudo bem. Não tenha medo, meu bem.

— Mas não está chovendo — disse ele. — Por que esses trovões se não está chovendo?

Lá fora continuou a série incrível de relâmpagos e trovões, durante quase um minuto, depois diminuiu. A força foi tão grande que Laura imaginou que de manhã iam encontrar o céu partido, seus grandes pedaços espalhados, como fragmentos de um ovo imenso.

Stefan não tinha andado nem cinco minutos quando teve de parar para descansar, encostado no tronco de um pinheiro, cujos galhos começavam logo acima da sua cabeça. Suava de dor e ao mesmo tempo tremia no frio cortante de janeiro, atordoado demais para ficar de pé, e com medo de sentar e dormir para sempre. Com os galhos molhados do pinheiro gigantesco acima dele e à sua volta, tinha a impressão de estar refugiado sob o manto negro da Morte, de onde jamais sairia.

Antes de levar Chris para a cama, Laura fez sundaes para os dois, com sorvete de coco e amêndoa e calda de caramelo. Comeram na mesa da cozinha e a depressão do garoto aparentemente tinha passado. Talvez por marcar o fim daquele aniversário com tanto drama, o fenômeno estranho afastou os pensamentos de morte, levando-o a pensar em coisas maravilhosas e cheias de mistério. Chris conhecia a história do relâmpago que havia atingido o fio de uma pipa, penetrando no laboratório do dr. Frankenstein no antigo filme de James Whale que vira pela primeira vez uma semana atrás, e sabia também do relâmpago que assustara o Pato Donald numa história em quadrinhos, e sabia da noite tempestuosa em A guerra dos dálmaías quando Cruella de Ville ameaçava selvagemente os filhotes.

Quando Laura o acomodou na cama com um beijo de boa-noite, Chris estava quase dormindo e com um sorriso — um meio sorriso — e não com a expressão tristonha que mostrara durante todo o dia. Laura sentou numa cadeira ao lado da cama até o garoto adormecer, embora ele não estivesse mais com medo e não precisasse de sua presença. Ficou simplesmente porque precisava olhar para o filho por algum tempo.

Laura voltou ao escritório às 9hl5min, mas antes de ir até o processador de palavras, parou perto da janela e olhou para o gramado coberto de neve e para o fio negro do caminho de cascalho que levava à estrada distante, e para cima, para o céu escuro, sem estrelas. Algo sobre aqueles relâmpagos a perturbava; não a estranheza, não seu potencial destruidor, mas o fato de que a força sobrenatural e sem precedentes dos relâmpagos e dos trovões parecia de certa forma... familiar. Tinha a vaga lembrança de já ter visto aquele espetáculo em outra ocasião, mas não sabia quando. Era uma sensação estranha, um déjà vu persistente.

Foi até o quarto e verificou o painel de controle de segurança, certificando-se de que estava ligado o alarme de todas as janelas e portas. Tirou de baixo da cama a Uzi com o pente de balas exóticas, muito leves, recobertas com liga de metal. Levou a arma para o escritório e a deixou no chão, ao lado da cadeira.

Antes que Laura tivesse tempo de sentar, a noite foi outra vez cortada por um relâmpago, assustando-a, seguido imediatamente pelo trovão que ela sentiu nos ossos. Outro relâmpago e mais outro iluminaram as janelas, como uma série de rostos fantasmagóricos formados de luz ectoplásmica.

O céu estremecia com abalos cintilantes. Laura correu para o quarto de Chris. Para sua surpresa, embora os clarões e o ruído fossem mais violentos do que antes, o garoto dormia, talvez porque todo aquele barulho fosse parte de um sonho onde os filhotes de dálmatas enfrentavam a tempestade numa de suas aventuras. Dessa vez também não choveu.

Os relâmpagos e trovões logo cessaram, mas a ansiedade de Laura continuou intensa.

Stefan via estranhas sombras negras na escuridão da floresta, coisas que se esgueiravam entre as árvores e espiavam com olhos mais negros do que seu corpos, mas embora sobressaltado e assustado, sabia que não eram reais, apenas fantasmas criados por sua mente cada vez mais desorientada. Continuou a caminhada difícil, enfrentando o frio exterior, o calor interno, as agulhas dos pinheiros, espinhos agudos, o solo gelado que às vezes fugia sob seus pés e, em outras, rodava como o prato de um toca-discos. A dor no braço, peito e ombro era tão intensa que começou a delirar, vendo ratos roendo sua carne dentro do corpo, embora não pudesse compreender como tinham entrado.

Depois de andar a esmo durante quase uma hora — para Stefan pareciam horas, dias, mas não podiam ser dias porque o sol não tinha nascido — chegou ao perímetro da floresta e, na extremidade de um terreno inclinado coberto de relva e neve, ele viu a casa. As luzes podiam ser vistas vagamente em volta das janelas cobertas pelas persianas. Stefan parou sem acreditar, pensando que a casa não era mais real do que as figuras demoníacas que o haviam acompanhado no bosque. Então começou a caminhar para a miragem — talvez não fosse um delírio, afinal.

Dera alguns passos quando o relâmpago cortou a noite, ferindo o céu. Como um chicote, o clarão estalou várias vezes, como que dirigido por um braço extremamente forte.

A sombra de Stefan saltou e se contorceu na neve à sua frente, embora ele estivesse paralisado de medo. Às vezes tinha duas sombras porque o relâmpago desenhava sua silhueta em duas direções. Caçadores bem treinados haviam seguido seu rastro na Estrada do Relâmpago, dispostos a apanhá-lo antes que pudesse avisar Laura.

Olhou para trás, para as árvores. Sob a claridade estroboscópica do céu, as árvores pareciam saltar sobre ele, recuando depois, saltando novamente. Não viu os caçadores.

Quando a luz cessou, Stefan continuou sua caminhada cambaleante na direção da casa. Caiu duas vezes, levantou-se com dificuldade, continuou a andar, certo de que se caísse outra vez, não poderia mais ficar de pé nem gritar com voz capaz de ser ouvida.

Atenta à tela do computador, tentando pensar em Sir Tommy Sapo, mas pensando nos relâmpagos, Laura de repente lembrou onde vira uma tempestade como aquela: no dia em que seu pai inventou Sir Tommy, o dia em que o toxicômano assaltou o armazém, o dia em que vira seu guardião pela primeira vez, no verão em que tinha oito anos.

Endireitou o corpo na cadeira.

Seu coração começou a bater rapidamente, com força.

Relâmpagos com aquela força sobrenatural significavam problemas específicos para ela. Não se lembrava de relâmpagos no dia da morte de Danny, nem quando o guardião apareceu no cemitério, no enterro do seu pai. Mas com uma certeza absoluta que não era capaz de explicar, sabia que o fenômeno que acabava de assistir naquela noite tinha um significado terrível para ela; um presságio nada bom.

Apanhou a Uzi e percorreu o andar superior da casa, verificando as janelas, o quarto de Chris, certificando-se de que tudo estava como devia. Então, desceu para o andar térreo.

Quando entrou na cozinha alguma coisa bateu com um ruído surdo contra a porta dos fundos. Com uma exclamação abafada de surpresa e medo, Laura virou rapidamente para aquela direção apontando a Uzi e quase abriu fogo.

Mas não era barulho de arrombamento. Era uma pancada surda nada ameaçadora, um pouco mais forte do que uma batida comum, repetida duas vezes. Teve a impressão de ouvir uma voz muito fraca, chamando-a.

Silêncio.

Laura aproximou-se cautelosamente da porta e ficou ouvindo durante meio minuto.

Nada.

A porta era um modelo de alta segurança com uma placa de aço entre tábuas de carvalho de 5cm de espessura, portanto não havia perigo de alguém atirar de fora e atingi-la. Ainda assim, Laura hesitou em se aproximar e olhar pelo olho-mágico, porque temia ver outro olho do lado de fora, tentando espiar para dentro. Quando finalmente criou coragem, viu um homem caído no cimento, os braços abertos, como se tivesse caído para trás depois de bater na porta.

Uma armadilha, pensou. Uma armadilha, um truque.

Acendeu os holofotes externos e foi até a janela que ficava acima da mesa de trabalho embutida. Cuidadosamente ergueu uma lâmina da persiana. O homem deitado lá fora era seu guardião. Seus sapatos e a calça estavam cheios de neve. Vestia o que parecia ser um avental de laboratório manchado de sangue no peito.

Até onde Laura podia ver, não havia ninguém no pátio nem no gramado, mas ela pensou na possibilidade de terem atirado o corpo ali para que saísse da casa. Abrir a porta à noite, naquelas circunstâncias, era loucura.

Mas não podia deixá-lo lá fora. Não o seu guardião. E ainda por cima ferido, talvez morrendo.

Laura apertou o botão de derivação de circuito ao lado da porta, abriu os fechos embutidos e relutantemente saiu para a noite gelada com a Uzi nas mãos. Ninguém atirou. No gramado fracamente iluminado, até a floresta, nada se movia.

Foi até o homem, ajoelhou ao lado dele e pôs os dedos no seu pulso. Estava vivo. Laura ergueu uma das pálpebras do homem ferido. Inconsciente. O ferimento no alto do peito parecia grave, mas não estava sangrando mais.

O treinamento com Henry Takahami e seu programa de exercícios haviam aumentado intensamente a força de Laura, mas não o bastante para erguer o ferido com um braço. Deixou a Uzi ao lado da porta e verificou que não podia erguê-lo nem com os dois braços. Parecia perigoso mover um homem gravemente ferido, mas era mais perigoso deixá-lo ao relento no frio, ainda mais que tudo indicava que alguém o perseguia. Conseguiu arrastá-lo para a cozinha. Com alívio, apanhou a Uzi, trancou a porta e ligou o alarme.

Ele estava assustadoramente pálido e frio, portanto a primeira providência devia ser tirar seus sapatos e meias endurecidos como gelo. Depois de descalçar o pé esquerdo, Laura começou a desatar o cordão do sapato do pé direito e durante todo o tempo ele murmurava numa língua estranha, com palavras confusas demais para serem identificadas, e em inglês, falava sobre explosivos, portões e "fantasmas nas árvores". Laura sabia que ele estava delirando e provavelmente não ia entender suas palavras, mas disse com voz tranqüilizadora:

— Tudo bem agora, descanse, vai ficar bom; assim que eu tirar seu pé de dentro deste bloco de gelo vou chamar o médico.

A palavra médico o tirou brevemente da confusão. Segurou o braço dela com dedos fracos, fixou em Laura os olhos cheios de medo.

— Não médico. Sair... Preciso sair...

— Não está em condição de ir a lugar nenhum — disse ela. — A não ser de ambulância para o hospital.

— Preciso sair. Depressa. Eles estão chegando... logo vão chegar...

Laura olhou para a Uzi.

— Quem está chegando?

— Assassinos — disse ele, ansioso. — Me matar por vingança.

Matar você, matar Chris. Chegando. Agora.

Nesse momento não havia delírio nos seus olhos nem em sua voz. O rosto pálido, molhado de suor, não estava flácido, mas tenso de terror.

Todo seu treinamento de artes marciais e com armas não parecia mais precauções histéricas.

— Certo — disse ela —, vamos sair logo que eu tiver examinado esse ferimento para ver se precisa de um curativo.

— Não! Agora. Sair agora.

— Mas...

—Agora — insistiu ele.

Havia tanto pavor no seu olhar que Laura quase acreditou que os assassinos de quem falava não eram homens comuns, mas criaturas sobrenaturais, demônios com a crueldade e a fúria de seres sem alma.

— Está bem — ela concordou. — Vamos sair agora.

A mão dele largou o braço de Laura. Seus olhos saíram de foco e Stefan começou a murmurar coisas sem nexo.

Enquanto atravessava a cozinha apressadamente para subir e acordar Chris, Laura ouviu seu guardião falar ansiosa e vagamente de "uma grande, negra e rolante máquina de morte", que não significava nada para ela, mas assim mesmo a assustou.