O Guardião
— Nariz bonitinho? Meu Deus, garoto, você…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Nariz bonitinho? Meu Deus, garoto, você tem o ego de um ator.
— Soltou o menino, olhou para Stefan Krieger que estava numa das cadeiras perto da televisão, depois voltou-se para Laura. — Shane, você viu o calhambeque que arranjei? Não acha que sou esperta? Quando estava entrando no meu Mercedes, pensei: Thelma, eu disse, esse carro não vai chamar demais a atenção naquele motel de segunda classe, um carro de 65 mil dólares? Então tentei pedir emprestado o carro do mordomo, mas quer saber o que ele dirige? Um Jaguar. Será que Beverly Hills é a Zona Crepuscular, ou o quê? Daí tive de pedir emprestada a pickup do jardineiro. Mas aqui estou e o que acham deste disfarce?
A peruca loura cintilava com gotas de chuva. Thelma estava com óculos de aro de tartaruga e dentaduras falsas que a faziam parecer dentuça.
— Você fica bem melhor assim — disse Laura com um grande sorriso.
Thelma tirou os dentes falsos.
— Escute só, depois de conseguir o calhambeque para não chamar a atenção, eu me lembrei que, como uma estrela de primeira grandeza, eu chamaria a atenção. E como a mídia já descobriu que somos amigas e tem feito algumas perguntas a seu respeito, a famosa escritora que anda com uma metralhadora, resolvi vir incógnita. — Pôs a bolsa e as dentaduras na cama. — Isto faz parte de uma caracterização que criei para meu novo ato e que já usei oito vezes em Bally's, Las Vegas.
Foi um fracasso total, a personagem. Os espectadores cuspiram em mim, Shane, chamaram o segurança do casino para me prender, questionaram meu direito de viver no mesmo planeta que eles... oh, foram grosseiros, Shane, foram...
Thelma parou de falar de repente e caiu no choro. Correu para Laura e a abraçou.
— Oh, Jesus, Laura, fiquei tão assustada. Quando ouvi a notícia sobre San Bernardino, as metralhadoras, e depois de como encontra ram sua casa em Big Bear, pensei que você... ou talvez Chris... fiquei tão preocupada...
Abraçando Thelma com força, Laura disse:
— Vou te contar tudo, mas o principal é que estamos bem e acho que encontramos um meio de sair desta encrenca.
— Por que não telefonou para mim, sua boba?
— Eu telefonei.
— Só esta manhã! Dois dias depois da notícia sair em todos os jornais. Quase fiquei louca.
— Desculpe, devia ter telefonado antes. Mas não queria envolver você se pudesse evitar.
Thelma soltou-se do abraço com relutância.
— Eu estou inevitável, profunda e desesperadamente envolvida, sua idiota, porque você está envolvida. — Tirou um lenço de papel do paletó de camurça e enxugou os olhos.
— Tem outro desses? — perguntou Laura.
Thelma estendeu para ela o lenço de papel e as duas assoaram o nariz.
— Nós estávamos fugindo, tia Thelma — disse Chris. — É difícil se comunicar com as pessoas quando a gente está fugindo.
Respirando fundo, Thelma disse:
— Então, Shane, onde guarda sua coleção de cabeças? No banheiro? Ouvi dizer que deixou uma em San Bernardino. Que falta de cuidado. É seu novo passatempo, ou sempre gostou da cabeça humana livre das extremidades deselegantes?
— Quero que conheça uma pessoa — disse Laura. — Thelma Ackerson, este é Stefan Krieger.
— Muito prazer — disse Thelma.
— Desculpe se não me levanto — disse Stefan. — Estou ainda em convalescença.
— Se você pode desculpar esta peruca, eu posso desculpar qualquer coisa. — Voltou-se para Laura. — Ele é quem eu estou pensando?
— É.
— Seu guardião?
— Isso mesmo.
Thelma aproximou-se de Stefan e o beijou carinhosamente nas duas faces.
— Não tenho idéia de onde você vem, nem quem você é, Stefan Krieger, mas eu te amo por todas as vezes que ajudou minha Laura.
— Sentou na beirada da cama ao lado de Chris. Shane, este homem que você tem aqui é lindo. Olhe para ele, um pedaço. Aposto que você atirou nele só para que não fugisse. Parece exatamente um anjo da guarda. — Stefan ficou embaraçado, mas Thelma continuou: — Você é um gatão, Krieger. Quero saber tudo a seu respeito. Mas primeiro, aqui está o dinheiro que você pediu, Shane. — Abriu a bolsa enorme e tirou um grosso maço de notas de cem dólares. Laura examinou o dinheiro e disse:
— Thelma, eu pedi quatro mil. Aqui tem quase o dobro.
— Dez ou 12 mil, eu acho. — Thelma piscou para Chris. — Quando meus amigos estão fugindo, eu insisto que viajem de primeira classe.
Thelma ouviu a história, nunca demonstrando incredulidade. Stefan ficou surpreso, mas ela disse:
— Não esqueça, já vivi em Mcllroy e em Caswell, o universo não tem mais surpresas para mim. Viajantes do tempo de 1944? Ora! Em Mcllroy eu podia mostrar a vocês uma mulher grande como um sofá, que usava roupas feitas com fazenda de estofador e que recebia um belo salário do governo para tratar crianças órfãs como lixo. Isso sim é incrível.
Thelma estava impressionada com a origem de Stefan, assustada e preocupada com a situação em que se encontravam, mas mesmo nessas circunstâncias ela era Thelma Ackerson, sempre procurando o humor nas coisas.
Às seis horas ela colocou novamente as dentaduras e foi comprar comida num restaurante mexicano próximo.
— Quando a gente está fugindo da lei, precisamos de feijão na barriga, comida de machão.
Voltou com sacos de papel molhados que continham tacos, enchiladas, duas porções de nachos, burritos e chimichangas. Arrumaram a comida nos pés da cama e Chris sentou no meio com Thelma. Laura e Stefan usaram as cadeiras.
— Thelma — disse Laura —, aqui tem comida para dez pessoas.
— Bom, achei que ia dar para nós e para as baratas. Se não der mos comida para as baratas, elas podem ficar zangadas, sair daqui e virar minha pickup. Vocês têm baratas aqui, não têm? Quero dizer, afinal, um lugar formidável como este sem baratas seria como o Hotel Beverly Hills sem ratos-das-árvores.
Enquanto comiam, Stefan descreveu o plano para fechar o portão e destruir o instituto. Thelma interrompeu algumas vezes com piadas, mas quando ele terminou, ela disse séria:
— Isso é extremamente perigoso. Corajoso até a loucura.
— Não há outro meio.
— Sim, eu sei. Então, o que posso fazer para ajudar?
Chris interrompeu o movimento de levar flocos de milho à boca e disse:
— Queremos que você compre um computador, tia Thelma.
Laura explicou:
— Um IBM PC, o melhor modelo, igual ao que tenho em casa.
Sei usar todo o software desse modelo. Não temos tempo para aprender a operar outro tipo. Eu anotei tudo para você. Acho que eu mesma podia comprar com o dinheiro que me deu, mas tenho medo de aparecer em muitos lugares.
— E precisamos de um lugar para ficar — disse Stefan.
— Não podemos ficar aqui — observou Chris, adorando tomar parte na conversa —, não se vamos trabalhar com o computador. A faxineira ia notar, por mais que a gente tentasse esconder e ela ia comentar porque é mesmo esquisito gente neste lugar trabalhando com um computador.
Stefan comentou:
— Laura disse que você e seu marido têm uma casa em Palm Springs.
— Temos uma casa em Palm Springs, um condo em Monterey, outro em Las Vegas, e não seria surpresa para mim se tivéssemos...
ou pelo menos se fôssemos acionistas... de um vulcão no Havaí. Meu marido é rico demais. Assim, podem escolher. Minhas casas são suas casas. Só peço que não usem as toalhas para lustrar as calotas dos seus carros e se mascarem tabaco, por favor, cuspam nos cantos, não no meio das salas.
— Pensei que a casa em Palm Springs seria ideal — disse Laura.
— Você me disse que é bastante isolada.
— Fica no meio de um terreno enorme com muitas árvores e só gente da minha profissão mora por perto, todos muito ocupados, que não costumam aparecer para uma xícara de café. Ninguém vai perturbá- los lá.
— Tudo bem — disse Laura —, só mais algumas coisas. Precisa mos de roupas, sapatos confortáveis, algumas necessidades básicas. Eu fiz uma lista, com tamanhos e tudo. E naturalmente, quando isto acabar, eu pago o dinheiro que me deu e o que vai gastar no computador e nessas outras coisas.
— Pode estar certa que sim, Shane. E 40% de juros. Por semana. Juros por hora. Mais seu filho. Seu filho será meu.
— Minha tia Rumpelstiltskin — disse Chris, rindo.
— Quando você for meu filho não vai dizer essas gracinhas, Christopher Robin. Ou pelo menos vai me chamr de Mãe Rumpelstilskin, sir.
— Mãe Rumpelstilskin, sir! — disse Chris, fazendo continência.
Às oito e meia Thekma estava pronta para partir, levando a lista feita por Laura e a informação sobre o computador.
—Volto amanhã à tarde, o mais cedo possível — disse ela, abraçando Laura e Chris. — Você está mesmo segura aqui, Shane?
— Acho que sim. Se tivessem descoberto onde estamos já teriam aparecido.
Stefan disse:
— Lembre, Thelma, são viajantes do tempo; se descobrirem onde estamos, podem viajar para o momento em que chegamos aqui. Na verdade, podiam estar à nossa espera quando chegamos ao motel, na quarta-feira. O fato de estarmos aqui há tanto tempo sem problemas é uma prova quase certa de que ninguém sabe que estamos nos escondendo neste lugar.
— Minha cabeça está girando — disse Thelma. — E eu que achava complicado o contrato de um grande estúdio!
Ela saiu para a noite e a chuva, com a peruca e os óculos de aros de tartaruga, mas com os dentes falsos na bolsa, e partiu na pickup do jardineiro.
Laura, Chris e Stefan a viram sair, olhando pela grande janela, e Stefan observou:
— Ela é uma pessoa especial.
— Muito especial — disse Laura. — Tomara que eu não tenha posto sua vida em perigo, — Não se preocupe, mamãe — disse Chris. — A tia Thelma é du rona. É o que ela sempre diz.
Naquela noite, às nove horas, logo depois da partida de Thelma, Laura foi de carro à casa de Fat Jack, em Anaheim. A chuva não estava tão forte mas caía sem parar. O asfalto brilhava como prata negra, e as sarjetas estavam ainda cheias d'água que parecia óleo na luz diferente das lâmpadas da rua. A neblina esgueirava-se também no ar, não com passos de gato, mas como uma cobra, arrastando-se lentamente.
Laura detestava ter de deixar Stefan no motel. Mas não seria prudente para ele passar muito tempo no frio da noite de janeiro, debilitado como estava. Além disso, nada podia fazer para ajudá-la.
Chris foi com ela, pois Laura não queria separar-se dele durante o tempo que precisaria para comprar armas. O garoto fora com ela visitar Fat Jack há um ano, quando Laura havia comprado as Uzi adaptadas, portanto o homem gordo não ficaria surpreso ao vê-lo. Não ia gostar, pois Fat Jack não gostava de crianças, mas não ficaria surpreso.
Laura olhava freqüentemente para o retrovisor e os espelhos laterais, e examinava os carros que passavam com um cuidado que emprestava novo significado ao termo impulso defensivo. Não podia arriscar ser abalroada por algum maluco que estivesse dirigindo com velocidade excessiva para as condições da estrada. A polícia logo apareceria, verificaria as placas e antes mesmo de detê-la, homens com metralhadoras iam aparecer e matar os dois.
Tinha deixado a Uzi com Stefan, apesar dos protestos dele. Mas não podia abandoná-lo sem nenhum meio de defesa. Levava apenas o .38 especial. E cinqüenta balas distribuídas pelos bolsos da sua jaqueta de esqui.
Perto da Disneylândia, quando a fantasmagoria feericamente iluminada do Jack's Pizza Party Palace surgiu da neblina, como a nave espacial de Contatos imediatos de terceiro grau, descendo entre as nuvens criadas por ela mesma, Laura ficou aliviada. Parou no estacionamento cheio de carros e desligou o motor. Os limpadores de pára-brisa pararam sua dança e a chuva escorreu pelo vidro como uma cortina. Reflexos vermelhos, azuis, amarelos, verdes, brancos, roxos e cor-de-rosa dos luminosos cintilaram naquele filme de água dando a Laura uma estranha sensação, como se estivesse dentro de uma daquelas antigas caixas de música da década de 1950.
— Fat Jack's colocou mais luminosos, desde a última vez que estivemos aqui — comentou Chris.
— Acho que tem razão — respondeu Laura.
Saíram do carro e olharam para a fachada do Fat Jack's Pizza Palace, que piscava, tremia, ondulava com grotesco mau gosto. Os luminosos não se limitavam ao nome do lugar. Eram usados para delinear o prédio, a linha do telhado, todas as janelas e as portas da frente. Além disso havia um gigantesco par de óculos escuros em uma extremidade do telhado, e um foguete espacial enorme pronto para ser lançado, na outra, com nuvens luminosas perpetuamente espiralando e brilhando sob os propulsores a jato. A pizza com 3m de diâmetro, também iluminada, era antiga, mas a cara de palhaço com um largo sorriso era nova.
Era tão grande a quantidade de luzes que cada gota de chuva era iluminada e colorida, como se fosse parte de um arco-íris que tivesse se desmanchado ao cair da noite. Cada poça d'água cintilava com os pedaços do arco-íris.
O efeito era desorientador, mas preparava o visitante para o interior do Fat Jack's, que parecia uma visão do caos de onde o universo se formara há trilhões de anos. Garçons e garconetes serviam fantasiados de palhaços, piratas, fantasmas, espaçonautas, bruxas, ciganos e vampiros e um trio de cantores, vestidos de ursos, iam de mesa em mesa, para alegria das crianças de rostos sujos de pizza. Em alcovas ao lado da sala principal, crianças mais velhas brincavam com videoramas, e a cacofonia dos jogos eletrônicos — bip, zirifi, zap, bonn — era música de fundo para os ursos cantores e os grilos das crianças.
— Manicômio — disse Chris.
O recepcionista Dominick, sócio minoritário de Fat Jack, os recebeu na porta. Era um homem alto, cadavérico, com olhos tristes e parecia deslocado no meio de tanta alegria.
Erguendo a voz para ser ouvida no meio do barulho, Laura perguntou por Fat Jack e disse:
— Eu telefonei. Sou uma velha amiga da mãe dele. — Essa era a senha para dizer que queria comprar armas, não pizza.
Dominick, que sabia projetar a voz com clareza em toda aquela balbúrdia, respondeu sem gritar:
— Já esteve aqui antes, se não estou enganado.
— Boa memória — disse ela. — Há um ano.
— Por favor, venha comigo — disse Dominick com voz sepulcral.
Não precisaram atravessar a desordem ciclônica do salão, o que era bom, porque evitava que Laura fosse vista por muitas pessoas e talvez reconhecida. Uma porta na outra extremidade do hall de entrada dava para um corredor que passava pela cozinha e pelo depósito, levando ao escritório particular de Fat Jack. Dominick bateu na porta, os dois entraram e ele disse para Fat Jack:
— Velhos amigos da sua mãe — e deixou Laura e Chris com o homem gordo.
Fat Jack levava a sério seu apelido e tentava fazer jus a ele. Tinha l,5m de altura e pesava cerca de 170 quilos. Com imensas calças de malha e camiseta muito justas, parecia o homem gordo na fotografia com ímã que as pessoas em dieta pregam na porta da geladeira, para lembrar que não devem comer; na verdade, Fat Jack parecia uma geladeira.
Estava sentado numa poltrona giratória, atrás da mesa feita especialmente para ele e não se levantou.
— Escute só os animaizinhos — disse para Laura, ignorando Chris. — Fiz meu escritório nos fundos, à prova de som e ainda assim posso ouvi-los lá na frente, gritando, berrando; é como se eu estivesse na entrada do inferno.
— São só crianças se divertindo — disse Laura, de pé, ao lado de Chris.
— E a sra. O'Leary era só uma velha com uma vaca desajeitada, mas ela incendiou Chicago — disse Fat Jack, carrancudo. Estava comendo uma barra de chocolate. Ao longe, as vozes das crianças, isola as pelas paredes à prova de som, erguiam-se num rugido surdo, e como se estivesse falando com a multidão invisível, o homem gordo disse:
— Ora, quero que morram sufocados, esses diabinhos.
— Lá fora é uma casa de loucos — retrucou Chris.
— Quem falou com você?
— Ninguém, senhor.
A pele de Jack era áspera e os olhos cinzentos pareciam enterrados no rosto gorducho. Olhou para Laura e disse:
— Viu meu novo luminoso?
— O palhaço é novo, não é?
— Isso mesmo. Não é uma beleza? Eu desenhei, mandei fazer e foi armado no meio da noite, assim, na manhã seguinte era tarde de mais para conseguirem uma ordem oficial impedindo que o colocasse.
O maldito pessoal da prefeitura quase bateu as botas, de uma vez só.
Fat Jack mantinha uma batalha legal há dez anos com a Comissão de Zoneamento de Anaheim e com a prefeitura. As autoridades não aprovavam seus luminosos de mau gosto, especialmente agora que a área em volta da Disneylândia estava programada para restauração urbana. Fat Jack gastara dezenas, se não centenas de milhares de dólares, nessa luta nos tribunais, pagando multas, processos, e até algum tempo na cadeia por desacato ao tribunal. Era um ex-libertário que agora se dizia anarquista, e não tolerava qualquer violação dos seus direitos — reais e imaginários — como indivíduo livre-pensador.
Negociava ilegalmente com armas pela mesma razão que colocava luminosos que infringiam as leis da cidade: como um desafio à autoridade, para defender os direitos individuais. Era capaz de falar durante horas sobre os males do governo, qualquer tipo de governo, em qualquer grau, e na outra visita que Laura fizera a ele com Chris, para comprar a Uzi adaptada, tinham ouvido uma longa explicação dos motivos pelos quais o governo não tinha direito sequer de aprovar uma lei proibindo o assassinato.
Laura não era muito amante de grandes governos, fossem da esquerda ou da direita, mas não simpatizava com Fat Jack também. Ele não reconhecia a legitimidade da autoridade, nem das instituições, nem da família.
Agora, depois de ela entregar sua lista de pedidos, depois do homem dizer o preço e contar o dinheiro, ele os levou por uma porta escondida no fundo do closet do escritório a uma escada estreita que desceram — Fat Jack parecia estar prestes a ficar entalado — e chegaram ao porão onde ele guardava a mercadoria ilegal. Seu restaurante era uma casa de loucos, mas o arsenal estava arrumado numa ordem quase fanática: caixas sobre caixas de revólveres e armas automáticas empilhavam-se nas prateleiras de metal, em ordem de calibre e também de acordo com o preço; havia pelo menos mil armas no porão do Pizza Party Palace.
Fat Jack podia fornecer duas Uzi adaptadas para Laura.
— Uma arma extremamente popular desde o atentado contra Reagan — disse ele — e outro Chief Special .38.
Stefan pedira um Colt Commander 9mm Parabellum com pente de nove balas e o cano preparado para silenciador.
— Eu não tenho — disse Fat Jack —, mas pode levar um Colt Commander Mark IV .38 Super, que tem pente de nove balas, e tenho dois preparados para silenciador. Tenho também muitos silenciadores.
Laura já sabia que Jack não tinha munição, mas ainda comendo sua barra de chocolate, ele explicou assim mesmo:
— Não tenho munição nem explosivos. Sabe, não acredito na autoridade, mas não sou irresponsável. Meu restaurante está cheio de garotos barulhentos lá em cima e não posso arriscar uma explosão, mesmo que isso significasse trazer mais paz ao mundo. Além disso, destruiria todos os meus belos luminosos também.
— Tudo bem — disse Laura, passando o braço pelo ombro de Chris —, e o gás que está na minha lista?
— Tem certeza de que não é gás lacrimogênio?
— Tenho. É Vexxon. Queremos isso — Stefan tinha dado a ela o nome do gás dizendo que era uma das armas químicas da lista dos itens que o instituto esperava levar para 1944 e introduzir no arsenal militar alemão. Agora, talvez pudesse ser usado contra os nazistas. — Precisamos de alguma coisa que mate rapidamente.
Fat Jack encostou-se na mesa de metal no meio da sala, onde estavam as Uzi, os revólveres, a pistola e os silenciadores. A mesa estalou ameaçadoramente.
— Bem, estamos falando de material bélico do Exército, coisa mui to controlada.
— Não pode conseguir?
— Sim, eu posso conseguir um pouco de Vexxon — disse Fat Jack.
Afastou-se da mesa, que estalou aliviada, e foi até as prateleiras de metal de onde retirou algumas barras de chocolate do meio das caixas de armas, um esconderijo secreto. Não ofereceu chocolate para Chris, mas guardou uma barra no bolso da calça e começou a comer a outra.
— Não tenho esse tipo de coisa aqui; é tão perigosa quanto explosivos. Mas posso arranjar para amanhã à tarde, se não for inconveniente.
— Será ótimo.
— Vai custar uma nota.
— Eu sei.
Fat Jack deu um largo sorriso. Pedaços de chocolate estavam grudados entre seus dentes.
— Não vendo muito dessa coisa, pelo menos não para uma pequena compradora como você. Fico curioso imaginando o que vai fazer com o gás. Não que espere que me conte. Mas geralmente são grandes compradores da América do Sul ou do Oriente Médio que procuram esses gases neurativos ou asfixiantes. O Iraque e o Irã os têm usado muito nos últimos anos.
— Neurativo, asfixiante? Qual a diferença?
— Asfixiante... tem de ser aspirado; mata alguns segundos de pois de chegar aos pulmões e entra na corrente sangüínea. Quem espalha esse gás deve usar máscara. O neurativo, por outro lado, mata mais depressa ainda, basta tocar na pele e certos tipos, como o Vexxon, não exigem o uso de máscara nem de roupa protetora, basta tomar alguns comprimidos que agem como antídoto.
— Sim, eu ia pedir os comprimidos também — disse Laura.
— Vexxon. O gás de uso mais fácil do mercado. Você é uma compradora muito esperta — disse Fat Jack.
O homem tinha acabado de comer a barra de chocolate e parecia ter crescido desde que Laura e Chris entraram no escritório há uma hora. Laura percebeu que o compromisso de Fat Jack com a anarquia política refletia-se, não apenas na atmosfera do seu restaurante, mas também na condição do seu corpo, pois sua carne aumentava de volume, independente de considerações sociais ou médicas. Além disso, Jack parecia ter prazer com o tamanho do seu corpo, batendo freqüentemente na barriga ou massageando quase com afeição os rolos de banha em volta da cintura, e andava com arrogância beligerante, empurrando o mundo com a barriga. Laura imaginou Fat Jack crescendo cada vez mais, ultrapassando os duzentos quilos, 250, enquanto as estruturas luminosas do telhado do restaurante ficavam cada vez mais elaboradas, até que um dia o telhado despencava e Fat Jack explodia ao mesmo tempo.
— O gás estará aqui amanhã às cinco horas — disse ele, arrumando as Uzi, o .38 especial, o Colt Commander e os silenciadores numa caixa onde estava escrito BRINDES DE ANIVERSÁRIO, onde deviam estar contidos chapéus de papel e línguas-de-sogra para as crianças no restaurante. Jack fechou a caixa e indicou com um gesto que Laura devia levá-la para cima; entre outras coisas, Fat Jack não acreditava em cavalheirismo.
De volta ao escritório, quando Chris abriu a porta do corredor, Laura ficou feliz ouvindo a gritaria das crianças no restaurante. Era a primeira coisa normal e sensata que ouvia há mais de meia hora.
— Ouça esses cretinos — disse Fat Jack. — Não são crianças; são macacos fingindo que são crianças. — Bateu com força a porta à prova de som, deixando Chris e Laura no corredor.
No carro, de volta ao motel, Chris disse:
— Quando tudo isto terminar... o que você vai fazer com Fat Jack?
— Vou entregar seu traseiro gordo para a polícia — disse Laura.
— Anonimamente.
— Ótimo. Ele é biruta.
— É pior do que isso, meu bem. É um fanático.
— O que é um fanático, exatamente?
Laura pensou por um momento e então disse:
— Um fanático é um doido que acredita em alguma coisa.
5
O tenente Erich Klietmann da SS observou o ponteiro grande do relógio no painel de programa e quando o viu chegar quase na marca dos 11 minutos, voltou-se e olhou para o portão. Alguma coisa brilhou dentro do tubo escuro, uma sombra negro-acinzentada que se transformou na silhueta de um homem — depois mais três homens, um atrás do outro. A equipe de busca saiu de dentro do tubo para a sala, e foi recebida pelos três cientistas que estavam monitorando o painel de programação.
Estavam voltando de fevereiro de 1989 e sorriam, o que acelerou as batidas do coração de Klietmann porque os homens não estariam sorrindo se não tivessem localizado Stefan Krieger, a mulher e o garoto. Os dois primeiros grupos de assassinos enviados ao futuro — o que atacou a casa perto de Big Bear e o que atacou San Bernardino — eram compostos por oficiais da Gestapo. Seu fracasso fez com que der Führer insistisse para que a terceira equipe fosse formada por Schutzstaffel, e agora, para Erich aqueles sorrisos significavam que teria oportunidade de provar que a SS tinha homens melhores do que a Gestapo.
O fracasso das duas primeiras equipes não eram as únicas notas dissonantes no desempenho'da Gestapo nesse caso. Heinrich Kokoschka, chefe de segurança do instituto, também da Gestapo, aparentemente tornara-se um traidor. Provas concretas pareciam dar força à teoria de que dois dias atrás, em 16 de março, ele havia desertado para o futuro com cinco outros membros da equipe do instituto.
Na noite de 16 de março, Kokoschka havia viajado sozinho para San Bernardino com a intenção declarada de matar Stefan Krieger no futuro, antes que ele voltasse para 1944 para matar Penlovski, evitando assim a morte dos melhores homens do projeto. Mas Kokoschka não voltou. Alguns diziam que ele fora morto em 1988, que Krieger tinha levado a melhor — mas isso não explicava o que havia acontecido com os outros cinco homens do instituto naquela noite: os dois agentes da Gestapo que esperavam a volta de Kokoschka e os três cientistas que controlavam o painel do portão. Todos desapareceram e cinco cintos estavam faltando; portanto tudo levava à conclusão de que havia um grupo de traidores dentro do instituto convencidos de que Hitler perderia a guerra mesmo com a ajuda das armas exóticas conseguidas no futuro, e que haviam desertado para outra era fugindo da cidade condenada de Berlim.
Mas Berlim não estava condenada. Klietmann não podia admitir essa possibilidade. Berlim era a nova Roma; o Terceiro Reich ia durar mil anos. Agora que a SS tinha oportunidade de procurar e matar Krieger, o sonho do Führer seria protegido e realizado. Uma vez Krieger eliminado, o homem que era a maior ameaça ao portão e cuja execução era a tarefa mais importante confiada à sua equipe, procurariam Kokoschka e os outros traidores. Onde quer que os porcos estivessem, por mais distante que fosse seu esconderijo, Klietmann e seus irmãos da SS os exterminariam com perfeição e grande prazer.
Agora, o dr. Theodore Juttner — diretor do instituto desde as mortes de Penlovski, Januskaya e Volkaw, e os desaparecimentos dos homens no dia 16 de março — voltou-se para Erich e disse:
— Parece que encontramos Krieger, Obersturmführer Klietmann.
Prepare seus homens para partir.
— Estamos prontos, doutor — disse Erich. Prontos para o futuro, pensou ele, prontos para Krieger, prontos para a glória.
6
Às três e quarenta da tarde de sábado, 14 de janeiro, pouco mais de um dia depois da sua primeira visita, Thelma voltou ao Motel Pássaro Azul da Felicidade na pickup desconjuntada do jardineiro. Levava duas mudas de roupas para cada um, malas e umas duas mil unidades de munição para os revólveres e as Uzi. Comprara também o IBM PC com impressora, uma variedade de software, uma caixa de disquetes, e tudo mais que precisavam para usar o sistema de computador.
Com quatro dias de repouso, Stefan recuparava-se rapidamente, embora não pudesse ainda carregar peso. Ficou com Chris no quarto do motel e arrumou as malas, enquanto Laura e Thelma levavam o computador e acessórios para a mala e o banco traseiro do Buick. A tempestade passara durante a noite. Nuvens cinzentas esgarçadas pendiam como fios de barbas do céu. A temperatura era de 18°C e o ar estava limpo.
Fechando a mala do Buick, Laura disse:
— Você foi fazer compras com essa peruca, os óculos e esses dentes!
—Nada disso — disse Thelma, tirando os dentes falsos e guardando-os no bolso porque a faziam ciciar quando falava. — De perto, algum vendedor poderia me reconhecer e o disfarce chamaria mais atenção do que se estivesse sem ele. Mas depois de comprar tudo, fui com a pickup até um canto deserto de outro shopping e me disfarcei num misto de Harpo Marx e Bucky Beaver antes de vir para cá, para o caso de alguém me ver na estrada. Você sabe, Shane, gosto deste tipo de aventura. Talvez eu seja a reencarnação de Mata Hari, por que quando penso em seduzir homens para saber seus segredos e vender esses segredos para governos estrangeiros, sinto uns arrepios deliciosos.
— O que te dá arrepio é a parte da sedução dos homens — disse Laura —, não a parte de vender os segredos. Você não é espiã, só uma libertina.
Thelma entregou as chaves da casa em Palm Springs.
— Não temos empregados permanentes. Costumamos contratar um serviço de limpeza alguns dias antes de irmos para lá. Não fiz isso desta vez, é claro; portanto, talvez encontrem um pouco de poeira, mas pouca, e nenhuma cabeça decepada como as que você costuma deixar por onde passa.
— Você é um amor.
— Há um jardineiro. Não de tempo integral, como em Beverly Hills. Esse só vai uma vez por semana, às terças-feiras, para cortar a grama, aparar as cercas vivas e cuidar de algumas flores, para ser pago depois para plantar outras. Aconselho ficar longe das janelas e não se mostrar muito às terças, até o homem ir embora.
— Vamos nos esconder debaixo das camas.
— Encontrará alguns chicotes e correntes debaixo da cama, mas não pense que Jason e eu somos pervertidos. Os chicotes e correntes pertenciam à mãe dele e são guardados por razões estritamente sentimentais.
Arrumaram as malas no banco traseiro com os outros volumes que não cabiam na mala do Buick. Depois de muitos abraços, Thelma disse:
— Shane, estarei num intervalo de trabalho durante três sema nas, portanto, se precisar de mim, pode me encontrar em casa, em Beverly Hills, a qualquer hora do dia ou da noite. Vou ficar perto do telefone. — Thelma partiu com relutância.
Laura ficou aliviada quando a pickup desapareceu na estrada; Thelma estava a salvo. Deixou as chaves do quarto no escritório do motel e partiram, Chris na frente, ao lado dela, Stefan atrás, com a bagagem. Laura sentiu deixar o Pássaro Azul da Felicidade, porque haviam passado quatro dias ali em segurança e nada garantia que estariam seguros em qualquer outro lugar do mundo.
A primeira parada foi numa loja de armas. Para evitar que Laura fosse vista, Stefan desceu e comprou munição para a pistola. Não haviam incluído essa munição na lista de Thelma, pois não sabiam ainda se iam conseguir o Parabellum 9mm que Stefan queria. Em lugar dele, tinha agora o Colt Commander .38 Mark IV.
Seguiram então para o Fat Jack's Pizza Party Palace para apanhar as duas latas de gás. Stefan e Chris esperaram no carro, sob os luminosos já acesos no fim da tarde, mas que só atingiriam o auge da sua glória quando a noite chegasse.
As latas estavam sobre a mesa de Jack. Eram do tamanho de pequenos extintores de incêndio domésticos com a parte externa cor de aço inoxidável e não vermelho e uma etiqueta onde se via a caveira com os dois ossos cruzados e os dizeres VEXXON/AEROSSOL/AVISO — TÓXICO ASFIXIANTE MORTAL / POSSESSÃO NÃO AUTORIZADA CONSTITUI CRIME SOB AS LEIS DOS ESTADOS UNIDOS, e mais uma porção de coisas escritas em letra muito pequena.
Jack apontou o dedo grosso como um salsichão para um botão do tamanho de uma moeda de meio dólar na parte superior de cada cilindro.
— Esses são marcadores de tempo, calibrados em minutos, de um a sessenta. Se você ajustar o marcador de tempo e apertar o botão no centro dele, pode soltar o gás por controle remoto, como uma bomba de tempo. Mas se quiser usar manualmente, segure o fundo do cilindro com uma das mãos, esta alavanca em forma de gatilho com a outra e aperte, como se estivesse atirando com um revólver. O gás, libertado sob pressão, tem o alcance de cinco mil pés quadrados em um minuto e meio, mais rápido se algum aparelho de aquecimento ou de refrigeração estiver ligado. Exposto à luz e ao ar, dissolve-se rapidamente em componentes não tóxicos, mas seu efeito mortal dura de quarenta a sessenta minutos. Três miligramas em contato com a pele matam em trinta segundos.
— O antídoto? — perguntou Laura.
Fat Jack sorriu e bateu com a mão nas sacolas de plástico azul de quatro polegadas quadradas pregadas nas alças dos cilindros.
— Dez comprimidos em cada sacola. Dois protegem uma pessoa.
As instruções estão nas sacolas, mas me disseram que os comprimidos devem ser tomados pelo menos uma hora antes de soltar o gás. Eles protegem a pessoa de três a cinco horas.
Jack recebeu o dinheiro e colocou os cilindros de Vexxon numa caixa onde estava escrito QUEIJO MOZZARELLA — CONSERVE NA GELADEIRA. Fechou a caixa, riu e balançou a cabeça.
— O que aconteceu? — perguntou Laura.
— Isso me deixa curioso — disse Fat Jack. — Uma beleza como você, evidentemente bem-educada, com um garotinho... se alguém como você está envolvida numa merda dessas, a sociedade deve mesmo estar se desmanchando muito mais depressa do que eu esperava. Talvez eu viva para ver o dia em que tudo desmorone, quando a anarquia governe, quando as únicas leis sejam as que os indivíduos fazem entre eles e selam com um aperto de mão.
Como se só então tivesse lembrado, Jack ergueu a tampa da caixa, apanhou algumas pequenas folhas de papel verde de uma gaveta e colocou sobre os cilindros de Vexxon.
— O que é isso? — perguntou Laura.
— Você é uma boa freguesa — disse Fat Jack —, por isso estou dando alguns cupons para pizza de graça.
A casa de Thelma e Jason em Palm Springs era realmente isolada. O estilo era uma mistura curiosa e atraente de arquitetura espanhola e adobe do sudoeste, no meio de um acre de terreno, cercado por um muro cor de pêssego com 2,8m de altura, só interrompido pela entrada e saída do caminho circular para veículos. Havia uma grande quantidade de oliveiras, palmeiras e fícus, que os isolavam dos vizinhos nos três lados.
Chegaram às oito horas da noite de sábado, depois de atravessar o deserto quando saíram do restaurante de Fat Jack em Anaheim, mas encontraram facilmente a casa, pois todo o terreno estava iluminado por um sistema externo de fotocélula que servia de medida de segurança além do valor estético. As sombras das palmeiras e das samambaias desenhavam formas dramáticas nos muros de tijolos.
Thelma havia dado também o controle remoto para abrir a porta da garagem. Guardaram o Buick na garagem para três carros e entraram na casa pela porta que dava para a lavanderia — depois de desativar o sistema de alarme, seguindo o código dado também por Thelma. Era bem menor do que a mansão de Gaines em Beverly Hills, mas nem por isso pequena, com dez cômodos e quatro banheiros. A marca inconfundível de Steve Chase, o decorador preferido pelos moradores de Palm Springs, estava por toda a parte: espaços dramáticos dramaticamente iluminados; cores simples, abricó, salmão opaco — combinando com turquesa aqui e ali; paredes de suede, tetos de cedro; num lado, mesas de cobre com uma rica patina; no outro, mesas de granito contrastando elegantemente com móveis confortáveis estofados com uma variedade de tecidos; elegantes mas feitos para serem usados.
Na cozinha, Laura encontrou quase todos os armários vazios, exceto uma prateleira com latas de alimentos. Como estavam muito cansados para sair e fazer compras, improvisaram o jantar com o que havia. Se Laura tivesse entrado na casa sem uma chave, sem saber a quem pertencia, logo teria percebido que era de Thelma e de Jason quando chegasse à despensa. Não podia imaginar outro casal de milionários tão infantil a ponto de ter na despensa ravióli e espaguete Chef Boyar-dee em lata. Chris ficou encantado. Como sobremesa comeram duas caixas de profiteroles com molho de chocolate, a única coisa que havia dentro do freezer.
Laura e Chris dormiram na cama de casal e Stefan num quarto de hóspedes, no outro lado do corredor. Embora tivesse religado o sistema de alarme que controlava todas as portas e janelas, embora a Uzi carregada estivesse no chão, ao lado da cama, e o .38, também carregado, na mesa-de-cabeceira, e embora ninguém no mundo, a não ser Thelma, pudesse saber que estavam ali, Laura dormiu pouco, acordando constantemente. Cada vez que acordava, sentava na cama, ouvindo os ruídos da noite — procurando detectar passos cuidadosos, vozes murmurando.
Quase de manhã, sem poder dormir, Laura olhou para o teto escuro durante um longo tempo, pensando no que Stefan tinha dito quando explicou alguns pontos sobre a viagem no tempo e as mudanças que os viajantes podiam fazer nos seus futuros. O destino luta para refazer o padrão do que estava determinado. Stefan a salvou do viciado no armazém, em 1963, e o destino a fez enfrentar outro pedófilo, Willy Sheener, em 1967. Seu destino era ser órfã, assim, quando encontrou um lar com os Dockweiler, o destino havia conspirado para matar Nina Dockweiler, e Laura voltou ao orfanato.
O destino luta para refazer o padrão do que estava determinado. E agora?
No padrão determinado, Chris não nascia. Nesse caso, será que o destino ia providenciar sua morte trazendo os fatos, tanto quanto possível, ao padrão predeterminado, alterado por Stefan Krieger? Seu destino era passar a vida numa cadeira de rodas antes de Stefan impedir que o dr. Markwell fizesse o parto de sua mãe. Então, talvez o destino a pusesse agora na linha de fogo da Gestapo para que sua coluna fosse atingida, deixando-a paralítica de acordo com o plano original? Por quanto tempo as forças do destino procuravam refazer o padrão depois do mesmo ser alterado? Chris tinha mais de oito anos de vida. Seria tempo bastante para que o destino aceitasse sua existência? Laura estava com 34 anos e perfeitamente sã. Estaria o destino preocupado ainda com aquela alteração dos seus desígnios?
O destino luta para refazer o padrão do que estava determinado.
A luz da aurora entrava timidamente pelas beiradas das cortinas.
Laura virava de um lado para o outro na cama, zangada, sem saber com quem nem com o quê. Contra o destino? Que poder era esse que desenhava os padrões e lutava para que não fossem alterados? Deus?
Estaria furiosa com Deus — ou implorando a Ele para deixar seu filho viver e livrá-la da cadeira de rodas?
Sem um algo lógico para descarregar suas emoções, a raiva lentamente se transformava em medo. Pareciam seguros na casa de Palm Springs. Depois de uma noite tranqüila, podiam quase ter certeza de que ninguém ia saber da sua presença ali, pois do contrário os assassinos sem dúvida já teriam aparecido. Mas Laura estava com medo.
Alguma coisa má ia acontecer. Alguma coisa muito má.
Estava chegando, mas Laura não sabia de qual direção.
Relâmpagos, muito em breve.
Infelizmente o velho ditado não era verdadeiro: o raio caía duas vezes no mesmo lugar, três vezes, uma centena, e ela era o pára-raio que os atraía.
7
O dr. Juttner deu entrada no último número do painel de programa que controlava o portão. Disse para Erich Klietmann:
— Vocês vão viajar para as vizinhanças de Palm Springs, Califórnia, janeiro de 1989.
— Palm Springs? — perguntou Klietmann surpreso.
— Sim. É claro, esperávamos que teriam de ir a Los Angeles ou Orange County, onde suas roupas de jovens executivos seriam mais apropriadas do que numa cidade de veraneio, mas mesmo assim não vão chamar a atenção. Para começar, é inverno lá, e mesmo no deserto os ternos escuros são próprios para a estação. — Juttner entregou a Klietmann uma folha de papel com instruções. — Aqui está onde encontrarão a mulher e o garoto.
Klietmann dobrou o papel e guardou no bolso interno do paletó.
— E quanto a Krieger? — perguntou.
— A equipe de busca não encontrou nenhuma menção dele — disse Juttner —, mas deve estar com a mulher e o garoto. Se ele não estiver lá, você deve pegar a mulher e o garoto, sem matá-los. Se tiver de usar a tortura para descobrir onde está Krieger, tudo bem. E se acontecer o pior e eles não revelarem onde ele está... mate os dois. Isso com certeza o fará aparecer em algum lugar na linha do tempo.
— Nós o encontraremos, doutor.
Klietmann, Hubatsch, von Manstein e Bracher estavam com seus cintos para a volta sob os ternos Yves St. Laurent. Com as pastas de executivo Mark Cross, dirigiram-se para o portão, entraram no barril gigantesco e caminharam para o ponto marcado, a dois terços do comprimento da máquina, onde passariam, num piscar de olhos, de 1944 para 1989.
O tenente estava assustado mas ao mesmo tempo entusiasmado. Ele era o punho de aço de Hitler, do qual Krieger não podia escapar, nem escondendo-se quarenta anos no futuro.
8
No primeiro dia em Palm Springs, domingo, 15 de janeiro, eles montaram o computador e Laura ensinou Stefan a usá-lo. Os programas operacionais da IBM e o software para as tarefas que queriam realizar eram bastante simples, e quando a noite chegou, embora Stefan não chegasse a ser um especialista na operação do computador, sabia como funcionava, como a máquina pensava. Stefan não ia fazer a maior parte do trabalho com o computador, isso ficaria a cargo de Laura, que já tinha experiência. Sua tarefa consistia em explicar a ela os cálculos necessários para a solução dos vários problemas que teriam de resolver.
Stefan pretendia voltar a 1944, por meio do cinto que havia tirado de Kokoschka. Os cintos não eram máquinas do tempo. O portão era a máquina, o veículo de transporte, e permanecia sempre em 1944. Os cintos estavam sintonizados às vibrações temporais do portão e simplesmente levavam o viajante de volta quando era apertado o botão que ativava aquele elo.
— Como? — perguntou Laura, quando Stefan explicou o uso do cinto. — Como é que ele os leva de volta?
— Não sei. Você poderia explicar a função de um microchip dentro do computador? Não. Mas isso não a impede de usá-lo, assim como minha ignorância não me impede de usar o portão.
Depois de voltar ao instituto em 1944, controlaria o laboratório e faria duas viagens de importância vital, cada uma no futuro, a poucos dias de março de 44, para providenciar a destruição do instituto. Essas duas viagens deviam ser meticulosamente planejadas, para que chegasse ao destino, nos dois casos, precisamente na localização geográfica escolhida e na hora exata. Esse tipo de cálculo não podia ser feito em 1944, não só devido à falta de computadores, mas também porque naquele tempo certos conhecimentos eram ainda deficientes — pouca coisa faltava, mas era vital —, especialmente no que se referia ao ângulo e velocidade de rotação da Terra e outros fatores planetários, que podiam afetar a viagem, o que fazia com que os viajantes do instituto geralmente chegassem com diferença de minutos da hora calculada e a distâncias variáveis dos alvos. Com os números fornecidos pelo IBM, ele podia programar o portão para levá-lo a um metro e a uma fração de segundo do ponto desejado.
Usaram todos os livros comprados por Thelma. Eram livros científicos e de matemática, bem como livros de história da Segunda Guerra, nos quais podiam determinar a localização das figuras importantes em certas datas.
Além dos cálculos complexos para as viagens, precisavam de algum tempo para que Stefan ficasse completamente bom. Quando voltasse a 1944, estaria entrando novamente na toca do lobo, e mesmo equipado com o gás e uma arma de primeira classe, precisaria ser rápido e ágil para não ser morto.
— Duas semanas — disse ele. — Acho que em duas semanas já terei movimento suficiente no ombro para voltar.
Tanto fazia esperar duas semanas ou dez, quando usasse o cinto de Kokoschka voltaria ao instituto apenas 11 minutos depois da partida do dono do cinto. A data da partida da época atual em nada afetava a data da volta a 1944.