O Guardião

Dean R. Koontz · Capítulo 6 de 8 · parte 1/4

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O Guardião

O longo hábito de viver

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Segunda Parte

 

 

A PERSEGUIÇÃO

 

O longo hábito de viver

nos indispõe para a morte.

 

—SIR THOMAS BROWNE

Cinco

 

UM EXÉRCITO DE SOMBRAS

 

1

Laura acendeu a lâmpada e sacudiu Chris.

— Vista-se, meu bem. Depressa.

— O que está acontecendo? — perguntou ele sonolento, esfregando os olhos.

— Alguns homens maus estão vindo e precisamos sair antes que cheguem. Agora, ande depressa.

Durante aquele ano, além de lamentar a morte do pai, Chris fora preparado para o momento em que os fatos aparentemente tranqüilos do dia-a-dia fossem abalados por outra inesperada explosão do caos que existe no íntimo da existência humana, o caos que uma vez ou outra entra em erupção como um vulcão ativo, como na noite do assassinato do seu pai. Chris viu a mãe tornar-se uma atiradora capaz, viu o arsenal com que ela se armou, aprendeu autodefesa junto com ela e durante todo esse tempo conservou a mente e as atitudes de uma criança, aparentemente igual a todas as outras crianças, embora um tanto tristonho desde a morte do pai. Mas agora, no momento de crise, não reagiu como um garoto de oito anos; não choramingou, não fez perguntas desnecessárias; não ficou de mau humor nem demorou para obedecer. Afastou as cobertas, saiu da cama imediatamente e correu para o armário.

— Quando terminar desça para a cozinha — disse Laura.

— Está bem, mamãe.

Laura ficou orgulhosa com aquela reação e certa de que Chris não ia atrasar a partida, mas, ao mesmo tempo, triste por ver um menino de oito anos compreendendo a brevidade e a dureza da vida o bastante para reagir à crise com a rapidez e tranqüilidade de um adulto.

Laura estava com uma calça jeans e camisa de flanela xadrez. Quando foi até o quarto, vestiu uma suéter de lã, tirou os sapatos fechados, para caminhadas, e calçou botas forradas com borracha, amarradas de cima a baixo.

Desfizera-se das roupas de Danny, portanto não tinha nada para o homem ferido. Mas apanhou dois cobertores no roupeiro do corredor.

Foi até o escritório e tirou do cofre o cinto negro com fivelas de cobre que seu guardião lhe dera um ano atrás, guardando-o na bolsa tipo sacola.

Desceu e parou no armário do hall onde apanhou um casaco azul-celeste e a Uzi que estava dependurada atrás da porta. Enquanto se movia, Laura estava atenta a qualquer ruído diferente — vozes na noite ou o ruído de um motor — mas tudo estava em silêncio.

Na cozinha, pôs a metralhadora portátil na mesa, ao lado da outra, depois ajoelhou perto do seu guardião, que estava outra vez inconsciente. Desabotoou o avental branco molhado de neve, depois a camisa, e examinou o ferimento a bala no peito dele. Era no ombro esquerdo, bem acima do coração, o que era bom, mas perdera muito sangue; sua roupa estava encharcada.

— Mamãe? — Chris estava na porta, vestido para uma noite de inverno.

— Apanhe uma daquelas Uzi e a outra que está atrás da porta da despensa e leve as duas para o jipe.

— É ele — disse Chris arregalando os olhos, surpreso.

— Sim, é ele. Apareceu aqui assim, muito ferido. Leve dois revólveres também... o que está naquela gaveta e o outro que está na sala de jantar. E tenha cuidado para que não disparem acidentalmente...

— Não se preocupe, mamãe — disse ele.

Laura virou o homem ferido cuidadosamente de lado — ele gemeu mas não acordou — para ver se tinha um ferimento de saída de bala nas costas. Sim. A bala atravessara o corpo, saindo sob a omoplata. As costas estavam encharcadas de sangue também, mas nenhum dos dois ferimentos sangrava naquele momento; podia haver uma hemorragia interna, que Laura não tinha meios para detectar nem para tratar.

Sob a camisa ele estava usando o cinto. Laura o tirou. Não coube na parte central da sua sacola e ela o guardou na bolsa de fora fechada com zíper, depois de ter colocado os objetos necessários no mesmo compartimento.

Abotoou a camisa do homem, pensando se devia tirar o paletó molhado. Resolveu que ia ser difícil tirar as mangas dos braços inertes. Rolando Stefan de um lado para o outro, conseguiu pôr um cobertor de lã em volta do seu corpo.

Enquanto Laura enrolava o homem ferido no cobertor, Chris fez duas viagens até o jipe carregando as armas, usando a porta interna que levava da lavanderia para a garagem. Voltou então com um pequeno carrinho de sessenta centímetros de largura e 12 de altura — uma plataforma de madeira sobre rodas — deixado por um entregador de móveis há um ano e meio. Levando-o como se fosse um skate, o menino disse:

— Temos de levar a caixa de munição, mas é pesada demais para mim. Vou levar neste carrinho.

Satisfeita com aquela demonstração de iniciativa e inteligência, Laura disse:

— Temos 12 balas nos dois revólveres e mil e duzentas nas três Uzi, portanto acho que não vamos precisar mais do que isso, aconteça o que acontecer. Traga o carrinho para cá. Depressa. Estava imaginando como íamos levá-lo até o jipe sem sacudi-lo demais. Essa parece ser a solução.

Moviam-se rapidamente, como se tivessem sido treinados para aquela emergência, mesmo assim Laura achava que estavam demorando demais. Suas mãos tremiam e sentia um frio no estômago, esperando uma pancada na porta a qualquer momento.

Chris segurou o carrinho enquanto Laura passou o homem ferido para ele. Depois de ter colocado o carrinho sob a cabeça, ombros, costas e nádegas do ferido, segurou as duas pernas dele e puxou como se estivesse levando um carrinho de mão. Chris a seguiu, agachado ao lado das rodas da frente, uma mão no ombro direito do ferido para impedir que caísse. Tiveram alguma dificuldade na porta da lavanderia, mas conseguiram chegar até a garagem para três carros.

O Mercedes estava à esquerda, o jipe à direita e a vaga do meio vazia. Levaram o guardião para o jipe.

Chris abriu a porta traseira e estendeu um pequeno tatami no fundo do carro para servir de colchão.

— Você é um garoto bacana — disse Laura.

Juntos transferiram o ferido para o jipe.

— Traga o outro cobertor e os sapatos dele que estão na cozinha — ordenou Laura.

Quando o menino voltou, Laura já havia acomodado o guardião de costas sobre o tatami. Cobriram os pés descalços dele com o segundo cobertor e puseram os sapatos molhados ao lado.

Laura fechou a porta traseira do jipe e disse:

— Chris, entre no jipe e ponha o cinto de segurança.

Ela voltou correndo para a casa. A bolsa com seus cartões de crédito estava sobre a mesa. Laura passou a alça longa pelo ombro. Apanhou a Uzi e voltou pela lavanderia, mas antes de dar três passos alguma coisa bateu na porta dos fundos com violenta força.

Laura girou o corpo rapidamente apontando a Uzi para a porta.

Mais uma vez alguma coisa bateu na porta, mas a placa de aço e os fechos embutidos não cediam facilmente.

Então começou o pesadelo.

Uma metralhadora começou a atirar e Laura foi para o lado da geladeira, abrigando-se ali. Estavam tentando abrir a porta dos fundos com tiros, mas o centro de aço resistiu ao assalto. A porta tremeu e balas atravessaram os lados da armação reforçada, abrinao buracos na parede.

As janelas da sala de televisão e da cozinha explodiram com o impacto dos tiros. As persianas de metal dançavam em suas bases. As placas de metal zumbiam com a passagem das balas, e algumas se do- ' braram, mas a maior parte do vidro partido ficou dentro das persianas, de onde caía para o chão. As portas dos armários se partiam e estalavam, atingidas, e lascas de tijolo voavam de uma parede, enquanto as balas ricocheteavam no exaustor de cobre sobre o fogão, arranhando e amassando o metal. As panelas de cobre dependuradas em ganchos presos no teto, atingidas, produziam sons metálicos diversos. Uma das lâmpadas estourou. A persiana da janela sobre a mesa de trabalho foi arrancada finalmente e uma meia dúzia de balas atingiu a porta da geladeira a poucos centímetros de Laura.

Seu coração disparou e um fluxo de adrenalina aguçava seus sentidos com força quase dolorosa. Queria correr para o jipe e tentar fugir antes que eles percebessem suas intenções, mas um instinto guerreiro primitivo a mandava ficar onde estava. Espremeu o corpo contra o lado da geladeira, fora da linha direta de fogo, esperando não ser atingida por um ricochete.

Quem são vocês?, pensou ela furiosa.

Os tiros cessaram e Laura viu que seu instinto não a enganara. A barragem de balas foi seguida pelos próprios atiradores. Começaram á invadir a casa. O primeiro entrou pela janela sobre a mesa da cozinha. Laura afastou-se da geladeira e abriu fogo, atirando o homem de volta ao pátio. O segundo, vestido de negro como o primeiro, entrou pela porta de correr da sala de televisão — Laura o viu pelo arco da cozinha um segundo antes de ele a ver — e girou a Uzi para ele, espalhando balas, destruindo a máquina de fazer café, quase derrubando a parede da cozinha ao lado do arco de entrada e partindo o assaltante ao meio, antes que ele pudesse virar sua arma para ela. Há algum tempo não treinava com a Uzi e ficou surpresa com a facilidade com que a controlava. Ficou surpresa também com a sensação desagradável de precisar matar alguém, embora estivessem tentando assassinar a ela e seu filho; a náusea a invadiu como uma onda oleosa, mas Laura conteve o vômito que subia na sua garganta. Outro homem começou a entrar na saleta, e Laura estava pronta para matá-lo e a uma centena de outros iguais a ele, por mais que aquilo a enchesse de náusea, mas o homem atirou-se para trás, fora da linha de fogo quando viu o companheiro morto. Agora, o jipe.

Laura não sabia quantos homens havia lá fora, talvez fossem só três, dois mortos, um vivo, talvez quatro, dez ou uma centena, mas de qualquer modo não esperavam aquela reação, aquele poder de fogo, não de uma mulher e um garoto, e sabiam que seu guardião estava ferido e desarmado. Portanto, naquele momento estavam surpresos e sem dúvida procurando se abrigar para avaliar a situação e planejar o movimento seguinte. Podia ser sua primeira e última chance de chegar ao jipe. Correu para a garagem.

Viu que Chris tinha ligado o motor quando ouviu os tiros; a fumaça azulada saía dos canos de escapamento. Quando Laura correu para o jipe, a porta da garagem começou a se levantar; evidentemente Chris tinha usado o controle remoto para abri-la assim que viu a mãe. Quando ela entrou no carro, apenas um terço da porta estava aberta. Laura engatou a primeira. — Abaixe-se!

Chris obedeceu imediatamente, escorregando no banco para o fundo do jipe. Laura soltou o freio. Levou o acelerador até o fundo, descascou os pneus no concreto e saiu para a noite, passando a dois ou três centímetros da porta, arrancando a antena do rádio.

Os grandes pneus do jipe, embora sem correntes, eram próprios para neve. Enfiados na neve congelada e no cascalho que formava a superfície da entrada de carros da casa, encontravam tração com facilidade, cuspindo granadas de pedra e gelo.

Um vulto escuro, um homem vestido de negro, apareceu correndo à esquerda, atravessando o gramado, chutando neve, a uns 12 ou 13 metros do jipe, uma forma amorfa que podia ser apenas uma sombra, a não ser pelo espocar da metralhadora que abafava o ronco do motor. Balas atingiram o lado do carro e a janela atrás de Laura explodiu, mas a lateral estava intacta, e agora estava saindo do alcance deles, ganhando velocidade, a alguns segundos da segurança, com o vento sibilando pela janela quebrada. Laura rezava para que nenhum dos pneus fosse atingido e ouvia as balas no metal do jipe, ou talvez fossem as pedras e o gelo espirrados pelas rodas.

Quando chegou à estrada no fim da trilha de cascalho, ficou certa de que estava fora do alcance dos tiros. Apertou o freio para fazer a curva fechada para a esquerda, olhou pelo retrovisor e viu ao longe os faróis acesos na porta da garagem. Os assassinos haviam chegado a pé — só Deus sabia como tinham viajado, talvez por meio daqueles estranhos cintos — e agora iam usar seu Mercedes para persegui-los.

A intenção de Laura era entrar à esquerda na estrada, passar por Running Springs, além da entrada para o lago Arrowhead e seguir na estrada principal até a cidade de San Bernardino, onde havia gente e segurança, onde homens vestidos de negro com armas automáticas não poderiam surpreendê-la com facilidade e onde poderia conseguir assistência médica para seu guardião. Mas quando viu os faróis lá atrás, respondeu a um instinto inato de sobrevivência e entrou à direita na estrada, seguindo para leste-nordeste na direção do lago Big Bear.

Se tivesse entrado à esquerda chegariam ao ponto fatal, àquela subida da estrada onde Danny fora assassinado; e por intuição, Laura sentia — quase por superstição — que o lugar mais perigoso para eles naquele momento era aquela parte inclinada da estrada, com duas pistas de asfalto. Ela e Chris haviam corrido perigo de vida duas vezes naquele trecho; primeiro quando o caminhão dos Robertson derrapou descontrolado; depois, quando Kokoschka começou a atirar neles. Às vezes Laura compreendia que havia padrões benignos e malignos na vida e, quando impedidos de se realizar, o destino procurava fazer com que o padrão fosse obedecido de outro modo. Embora sem poder provar logicamente que morreriam se fossem para Running Springs, no íntimo estava certa de que a morte os esperava naquele lugar.

Quando entraram na estrada, seguindo para Big Bear, com as árvores altas erguendo-se escuras nos dois lados, Chris sentou no banco e olhou para trás.

— Eles estão vindo — disse Laura —, mas não vão nos alcançar.

— São os mesmos que mataram papai?

— Sim, acho que são. Mas naquele dia não sabíamos nada sobre eles e não estávamos preparados.

O Mercedes estava agora na estrada, a maior parte do tempo fora da vista de Laura, por causa das curvas, subidas e descidas. O carro parecia estar a uns duzentos metros, mas provavelmente diminuindo a distância porque tinha um motor maior e muito mais possante.

— Quem são eles? — perguntou Chris.

— Não tenho certeza, meu bem. E não sei por que querem nos fazer mal. Mas sei o que eles são. São assassinos, são lixo. Aprendi tudo sobre esse tipo de gente há muito tempo em Caswell Hall, e sei que a única coisa a fazer é enfrentá-los, lutar, porque eles só respeitam isso.

— Você foi legal lá em casa, mamãe.

— Você também foi legal paca, garotão. Foi muita esperteza ligar o motor do jipe quando ouviu os tiros e abrir a garagem logo que cheguei. Isso provavelmente nos salvou.

Atrás deles o Mercedes estava agora a uns cem metros. Era um 420 SEL devorador de distâncias, que se portava muito melhor do que o jipe na estrada.

— Estão vindo depressa, mamãe.

— Eu sei.

— Muito depressa.

Aproximando-se da ponta leste do lago, Laura viu-se atrás de uma pickup Dodge muito velha, com uma lâmpada traseira quebrada e o pára-choque que parecia pregado com adesivos com frases supostamente engraçadas — EU PARO PARA LOURAS, CARRO DO PESSOAL DA MÁFIA. O calhambeque ia a 50km/h, abaixo do limite de velocidade. Se Laura hesitasse, o Mercedes diminuiria a distância e quando estivessem perto os assassinos na certa começariam a atirar. Era um trecho de ultrapassagem proibida, mas Laura avistava o bastante para tentar; passou a pickup pela esquerda e depois, acelerando, voltou à faixa da direita. À sua frente estava agora um Buick, a mais ou menos 65km/h. Ela o ultrapassou também, um pouco antes de começarem as curvas fechadas que impediriam o Mercedes de passar pelo Dodge. — Ficaram presos lá atrás! — disse Chris. Laura estava a 90km/h, uma velocidade excessiva para algumas curvas, mas conseguiu controlar o carro e esperava escapar. Mas na estrada havia uma bifurcação para o lago; nem o Buick, nem o Dodge seguiram para a cidade de Big Bear. Os dois carros entraram na estrada para Fawnskin e da praia do norte, deixando o espaço vazio entre o jipe e o Mercedes, que imediatamente começou a se aproximar.

Havia casas em todo o trajeto agora, tanto na encosta, à direita, quanto no vale, à esquerda. Algumas estavam fechadas, provavelmente casas de férias, só usadas nos fins de semana e no verão, mas as luzes das outras eram visíveis entre as árvores.

Laura sabia que podiam entrar em qualquer uma daquelas trilhas e chegar a uma casa onde seriam acolhidos. As pessoas abririam a porta sem hesitação. Não estavam na cidade; naquele ambiente de cidade pequena, nas montanhas, ninguém suspeitava de visitantes noturnos não esperados.

O Mercedes estava a uns cem metros e o motorista começou a piscar os faróis, como se estivesse dizendo alegremente: Ei, aqui vamos nós, Laura, vamos pegar você, somos os bichos papões, os verdadeiros, e ninguém pode fugir de nós para sempre, aqui vamos nós, aqui vamos nós.

Se ela tentasse refugiar-se em uma das casas próximas, os assassinos provavelmente a seguiriam, e iam matar não só Laura e Chris mas as pessoas que os acolhessem. Os miseráveis talvez hesitassem em persegui-la de perto no centro de San Bernardino ou Riverside, ou até mesmo em Redlands, onde podiam ser detidos pela polícia, mas não se intimidariam com um punhado de testemunhas porque, não importava quantas pessoas eles matassem, podiam escapar apertando os botões amarelos nos seus cintos e desaparecer como seu guardião tinha desaparecido um ano atrás. Laura não tinha a menor idéia do lugar para onde iam, mas suspeitava que lá não seriam tocados pela polícia. Não queria arriscar vidas inocentes, por isso passou pelas casas sem diminuir a velocidade.

O Mercedes estava a uns cinqüenta metros, diminuindo a distância rapidamente.

— Mamãe...

— Estou vendo, meu bem.

Laura estava indo para a cidade de Big Bear, mas infelizmente o lugar não condizia com o nome. Era menor que uma cidade, menor que uma vila, apenas um pequeno povoado. Não tinha ruas onde pudesse despistar os perseguidores e o número de policiais não era suficiente para deter um par de fanáticos com metralhadoras.

Poucos carros passavam por eles em sentido contrário, e Laura ficou atrás de um carro, um Volvo cinzento, e fez a ultrapassagem num trecho sem nenhuma visibilidade da estrada à sua frente, mas não tinha escolha, porque o Mercedes estava a quarenta metros do jipe. Os assassinos passaram também o Volvo, com a mesma imprudência.

— Como vai nosso passageiro? — perguntou Laura.

Sem abrir o cinto de segurança, Chris virou para trás.

— Parece que está bem, eu acho. Sacudindo à beca.

— Não posso evitar.

— Quem é ele, mamãe?

— Não sei muita coisa sobre ele — respondeu Laura. — Mas quando sairmos desta encrenca, vou contar o que sei. Não contei antes por que... acho que eu não sabia o que estava acontecendo, e tinha medo de que fosse perigoso para você saber alguma coisa a respeito dele. Mas não podia ser mais perigoso do que isto, certo? Assim, vou contar tudo mais tarde.

Se houver um mais tarde.

Quando já havia percorrido dois terços do caminho que seguia a margem sul do lago, com o jipe a toda velocidade, o Mercedes a 35 metros de distância, Laura viu a entrada para as montanhas. Era um caminho que atravessava as montanhas, passando por Clark's Sum-mit, 16 quilômetros de estrada que cortava caminho, evitando os cinqüenta ou setenta quilômetros da rodovia 38, e que levava à rodovia de pista dupla ao sul, perto de Barton Flats. Laura lembrava que o desvio era asfaltado no começo e no fim, com nove ou dez quilômetros de terra no meio. Ao contrário do jipe, o Mercedes não tinha tração nas quatro rodas; tinha pneus para neve, mas sem correntes. Os homens no Mercedes provavelmente não conheciam o desvio, ignorando que teriam de passar por uma estrada de terra coberta de gelo e, em alguns lugares, cheia de neve.

— Segure firme! — disse para Chris.

Laura só usou os freios no último momento, virando para a direita com tanta velocidade que o jipe deslizou para o lado com um chiado dos pneus. O carro estremeceu, como um cavalo velho obrigado a um salto perigoso.

O Mercedes entrou melhor na curva, embora o motorista tivesse sido apanhado de surpresa. À medida que subiam para uma área mais isolada, a distância entre os dois carros diminuiu, chegando a trinta metros.

Vinte e cinco. Vinte.

Reflexos de relâmpagos, como galhos cobertos de espinhos, cortavam o céu ao sul. Não estavam tão próximos quanto os do começo da noite, mas o bastante para transformar a noite em dia. Superando o som do motor, ouvia-se o rugido do trovão.

Olhando atônito para os sinais de tempestade, Chris disse:

— Mamãe? O que é isso? O que está acontecendo?

— Não sei — disse Laura, em voz muito alta para ser ouvida acima da cacofonia do motor e do céu que parecia em chamas.

Laura não ouviu os tiros, apenas o impacto das balas no metal do jipe, uma delas atravessando o pára-brisa traseiro e atingindo as costas do banco; Laura ouviu e sentiu o impacto. Começou a girar a direção de um lado para o outro, dificultando a pontaria dos assassinos, o que a deixou atordoada à luz intermitente dos relâmpagos. Tinham parado de atirar ou estavam errando todos os tiros agora. Porém, o movimento ondulante diminuía a velocidade do jipe e o Mercedes aproximava-se cada vez mais.

Laura tinha de usar os espelhos laterais e não o retrovisor central. Embora a maior parte do pára-brisa traseiro estivesse intacta, o vidro parecia uma teia cerrada, translúcida e inútil.

Quinze metros, dez.

Ao sul os relâmpagos e trovões cessaram, como antes.

Laura chegou ao alto de uma subida e viu que o asfalto terminava no meio da descida à sua frente. Parou de girar a direção e acelerou. Quando o jipe saiu do asfalto, vibrou por um momento, como que surpreso com a mudança, mas depois continuou firme na estrada de terra congelada com trechos cobertos de neve. Aos solavancos passaram por um pequeno vale ladeado de árvores e começaram a subir a colina próxima.

Nos espelhos laterais Laura viu o Mercedes atravessar o vale e começar a subir atrás dela. Mas quando chegou no fim da subida, o carro perseguidor começou a falhar. Deslizou de lado, os faróis desviando-se do jipe. O motorista virou a direção para o lado oposto ao da derrapagem, exatamente o que não devia fazer. Os pneus do Mercedes giravam sem sair do lugar. O grande carro deslizou de lado e para trás por uns vinte metros, até a roda direita dianteira cair na vala ao lado da estrada; os faróis ficaram em posição oblíqua, atravessados na estrada de terra.

— Eles encalharam! — disse Chris.

— Vão levar meia hora para se livrar — acrescentou Laura.

O jipe continuou seu caminho, descendo a colina na estrada da montanha.

Embora tivesse escapado, Laura não sentiu alegria nem alívio, mas medo. Tinha um pressentimento de que não estavam a salvo ainda e aprendera a confiar no seu instinto desde aquela noite, vinte anos antes, quando pressentiu que o Enguia iria ao quarto onde ia dormir sozinha, no topo da escada do Mcllroy, a noite em que de fato ele havia deixado uma bala sob seu travesseiro. Afinal, intuições eram mensagens do subconsciente, que funcionava freneticamente o tempo todo, processando informação não percebida pelo consciente.

Alguma coisa estava errada. Mas, o quê?

Faziam menos de 35km/h naquela trilha estreita, sinuosa, esburacada e coberta de gelo. Durante algum tempo a estrada acompanhou uma serra rochosa sem árvores, depois desceu pela encosta da montanha até o fundo de um desfiladeiro paralelo, onde o arvoredo era tão espesso, nos dois lados, que a luz dos faróis, ricocheteando nos troncos, parecia revelar falanges de pinheiros tão sólidas quanto muros de madeira.

Na parte de trás do jipe, seu guardião murmurava incoerentemente no delírio da febre. Laura preocupava-se com ele e gostaria de ir mais depressa, mas não ousava.

Chris ficou em silêncio durante os cinco primeiros quilômetros depois de perderem de vista os perseguidores. Finalmente, disse:

— Lá em casa... você matou algum deles?

Laura hesitou.

— Sim. Dois.

— Ótimo.

Perturbada com o tom de sombrio prazer daquela palavra, Laura disse:

— Não, Chris, não é bom matar. Fiquei doente.

— Mas eles mereciam morrer — respondeu ele.

— Sim, mereciam. Mas isso não significa que seja agradável matá- los. Não é. Não há nenhuma satisfação. Apenas... desgosto por ter de fazer isso. E tristeza.

— Eu queria ter matado um deles — disse Chris com raiva fria e intensa, perturbadora num garoto daquela idade.

Laura olhou rapidamente para o filho. Com o rosto desenhado pelas sombras e pela pálida luz amarela do painel, parecia muito mais velho e Laura teve uma rápida visão do homem que ia ser.

Quando o solo no fundo do desfiladeiro tornou-se rochoso demais, a estrada subiu outra vez, seguindo uma plataforma na encosta.

Laura estava atenta à trilha primitiva.

— Meu querido, precisamos conversar sobre isso longamente mais tarde. Agora quero que ouça com atenção e procure entender. Existem muitas filosofias más no mundo. Sabe o que é filosofia?

— Mais ou menos. Não... acho que não.

— Então, digamos que muita gente acredita em coisas que não são boas para se acreditar. Mas há duas coisas que diferentes tipos de pessoas consideram piores, mais perigosas, as mais erradas de todas.

Algumas pessoas acreditam que o melhor meio de resolver um problema é a violência: espancam ou matam quem não concorda com elas.

— Como esses caras que estão atrás de nós.

— Isso mesmo. Evidentemente são desse tipo. É um pensamento perigoso porque a violência gera violência. Além disso, se resolvermos nossas diferenças com uma arma não pode haver justiça, nenhum mo mento de paz, nenhuma esperança. Está entendendo?

— Acho que sim. Mas qual é o outro pior modo de pensar?

— Pacifismo — disse ela. — Exatamente o oposto do primeiro tipo de pensamento prejudicial. Os pacifistas acreditam que nunca de vemos erguer a mão contra outro ser humano, não importa o que ele faça ou o que pretenda fazer. Se um pacifista está ao lado do irmão e vê um homem que vai matar o irmão, avisa o irmão, mandando-o fugir, mas não apanha uma arma para deter o assassino.

— Ele deixa o cara ir atrás do irmão? — perguntou Chris, atônito.

— Deixa. Se acontecer o pior, prefere deixar que o irmão seja assassinado a violar os próprios princípios e tornar-se um assassino.

— Isso é maluquice.

Deram a volta no fim do desfiladeiro e a estrada começou a descer para outro vale. Os galhos dos pinheiros, muito baixos, raspavam a capota do jipe; blocos de neve caíam no capô e no pára-brisa.

Laura ligou os limpadores de pára-brisa e inclinou-se sobre a direção, usando a mudança na estrada como pretexto para não falar, até imaginar um modo de esclarecer melhor seu ponto de vista. Tinham enfrentado muita violência naquela última hora; sem dúvida, mais violência os esperava e ela temia que Chris criasse uma atitude prejudicial a respeito de tudo aquilo. Não queria que ele considerasse armas e músculos como substitutos aceitáveis da razão. Por outro lado, não queria que fosse traumatizado pela violência e passasse a temê-la, até mesmo à custa da dignidade e da sobrevivência. Finalmente ela disse:

— Alguns pacifistas são covardes disfarçados, mas outros acre ditam realmente que é direito permitir o assassinato de um inocente em vez de matar para evitá-lo. Estão errados porque, não lutando contra o mal, tornam-se parte dele. São tão culpados quanto o que puxa o gatilho. Talvez isso seja demais para a sua cabeça agora, e talvez tenha de pensar muito para compreender, mas é importante saber que há um modo de vida que fica no meio, entre assassinos e pacifistas. Você tenta evitar a violência. Jamais a provoca. Mas se alguém age com violência, você se defende, e aos seus amigos, sua família, quem estiver em apuros. Quando tive de matar aqueles homens, eu me senti mal. Não sou heroína. Não me orgulho de ter matado duas pessoas, mas também não me envergonho. Não quero que se orgulhe de mim por isso, nem pense que senti alguma satisfação, que a vingança me faz sentir melhor sobre a morte do seu pai. Não faz.

Ele ficou calado.

— O que estou dizendo é demais para você?

— Não. Só que tenho de pensar por algum tempo — disse Chris.

— Neste momento acho que estou pensando errado. Porque eu queria que estivessem mortos, todos que tiveram alguma coisa a ver com... o que aconteceu com papai. Mas vou pensar, mamãe. Vou tentar ser uma pessoa melhor.

Laura sorriu:

— Eu sei que vai Chris, sei que vai.

Durante a conversa com Chris e nos momentos de silêncio depois dela, Laura continuou a se torturar com a impressão de que ainda não estavam livres do perigo iminente. Haviam percorrido uns 12 quilômetros na estrada da montanha e faltavam talvez uns dois quilômetros de estrada de terra e uns três de asfalto, antes de chegarem à rodovia 38. Quanto mais o tempo passava, mais Laura se convencia de que estava esquecendo de alguma coisa e que mais problemas os esperavam.

Parou de repente na lombada de outra cordilheira, um pouco antes da estrada começar a descer novamente — pela última vez — na direção das terras baixas. Desligou o motor e os faróis.

— O que aconteceu? — perguntou Chris.

— Nada. Preciso pensar, dar uma espiada no nosso passageiro.

Saiu do jipe e abriu a porta traseira, cujo vidro fora atingido por uma bala. Pedaços de vidro caíram no chão a seus pés. Laura subiu na parte de trás e verificou o pulso do homem ferido. Estava fraco ainda, talvez um pouco mais fraco do que antes, mas regular. Pôs a mão na testa dele; não estava fria; ele parecia estar fervendo por dentro. Pediu a Chris a lanterna que estava no porta-luvas. Puxou os cobertores para ver se ele estava sangrando mais do que quando o haviam colocado no jipe. O ferimento parecia grave, mas não havia muito sangue, apesar dos solavancos do carro. Tornou a cobri-lo, devolveu a lanterna para Chris, saiu do jipe e fechou a porta traseira.

Laura acabou de quebrar o pára-brisa de trás, bem como da pequena janela traseira do lado do motorista. Completamente sem vidro, a avaria não era tão evidente e talvez não atraísse a atenção de um policial ou de qualquer outra pessoa.

Durante algum tempo ela ficou parada no frio, ao lado do carro, olhando para a floresta escura, tentando forçar uma conexão entre instinto e razão. Por que tinha tanta certeza de que estava indo ao encontro de mais problemas e que a violência daquela noite não havia terminado?

As nuvens esgarçavam-se com a força do vento de grande altitude que as levava para leste, um vento que não tinha ainda chegado ao solo, onde o ar estava estranhamente parado. A luz da lua abria caminho entre os farrapos de nuvens, iluminando fantasmagórica a paisagem coberta de neve de colinas e mais colinas, árvores cobertas pelo negror da noite e formações rochosas.

Laura olhou para o sul onde mais alguns quilômetros de estrada os levariam à 38 e tudo parecia calmo. Olhou para o leste, oeste, depois para o norte, de onde tinham vindo, e em todos os lados, nas montanhas de San Bernardino, não havia sinal de habitação humana, nem uma luz, e tudo parecia existir na pureza e na paz das eras primitivas.

Fazia a si mesma as perguntas que tinham sido parte do seu diálogo interior naquele último ano e dava as mesmas respostas. De onde vinham os homens com os cintos? De outro planeta, outra galáxia? Não. Eram tão humanos quanto ela. Então, talvez viessem da Rússia. Talvez os cintos agissem como transmissores de matéria, aparelhos parecidos com a câmara de teletransporte daquele velho filme, A mosca da cabeça branca. Isso explicaria o sotaque do seu guardião... se fosse teletransportado da Rússia... mas não explicava por que não tinha envelhecido nada durante um quarto de século; além disso, Laura não acreditava que a União Soviética ou qualquer outro país tivesse aperfeiçoado os transmissores de matéria naqueles últimos vinte anos. Assim, só restava a viagem no tempo.

Há alguns meses Laura considerava essa possibilidade, embora sem confiança suficiente na sua análise para mencioná-la para Thelma. Mas se o guardião estava entrando em sua vida nos momentos de crise por meio de viagens pelo tempo, podia fazer essas viagens no espaço de um mês ou uma semana do seu tempo, enquanto muitos anos estariam passando para ela, por isso não parecia ter envelhecido. Enquanto não fosse possível interrogá-lo e saber a verdade, a teoria da viagem no tempo era a única com a qual podia operar. Seu guardião tinha viajado de algum mundo futuro; e evidentemente era um futuro pouco agradável, porque quando falou sobre o cinto ele disse: "Você não vai querer ir para onde ele a levará", e havia nos seus olhos uma expressão sombria e terrível. Laura não podia imaginar por que um viajante do tempo viria do futuro para protegê-la, a ela, entre tantas pessoas, de viciados assaltantes e caminhões descontrolados, e não tinha tempo para pensar nas possibilidades.

A noite estava quieta, escura e fria.

Estavam caminhando diretamente para uma encrenca.

Laura sabia, mas não podia dizer o que era nem de onde viria.

Quando voltou para o jipe, Chris disse:

— E agora, o que está acontecendo?

— Você é louco por Jornada nas estrelas, Guerra nas estrelas, e esse negócio todo, talvez seja o especialista que preciso para escrever um livro. Você é meu especialista para assuntos estranhos.

O motor estava desligado e o interior do jipe iluminado só pelo luar encoberto pelas nuvens. Mas Laura via bem o rosto de Chris porque naqueles minutos fora do carro seus olhos haviam se adaptado à noite. O menino olhou para ela intrigado.

— Do que está falando?

— Chris, como eu disse antes, vou contar tudo que sei sobre o homem que está deitado ali atrás, sobre seus outros estranhos aparecimentos na minha vida, mas não temos tempo para isso agora. Por isso, não me sufoque com perguntas, certo? Porém, suponhamos que meu guardião... é assim que o chamo porque ele me protegeu de coisas terríveis, sempre que foi possível... suponhamos que ele seja um via jante no tempo, vindo do futuro. Vamos imaginar que não vem numa grande máquina desajeitada, mas por meio de um cinto que ele usa sob a roupa, e que se materializa no ar quando chega aqui, do futuro.

Está acompanhando meu raciocínio?

Chris olhava para ela arregalado.

— É isso que ele é?

— Pode ser, sim.

O menino desafivelou o cinto de segurança e ajoelhou no banco para olhar o homem deitado no compartimento de carga do jipe.

— Santa merda!

— Dadas as circunstâncias pouco comuns — disse ela —, vou ignorar sua linguagem.

Chris olhou para ela encabulado.

— Desculpe. Mas, um viajante do tempo!

Se Laura estivesse zangada, sua zanga teria se dissipado pois viu nele uma urgência, a excitação infantil, a capacidade para se maravilhar que não via há um ano, nem mesmo no Natal, quando Chris tinha se divertido tanto com Jason Gaines. A perspectiva de conhecer um viajante do tempo o enchia de ânsia da aventura e de alegria. Essa era uma das coisas esplêndidas da vida: cruel mas também misteriosa, repleta de maravilhas e de surpresas; às vezes as surpresas eram tão magníficas que podiam ser chamadas de milagres, e testemunhando esses milagres, uma pessoa deprimida podia encontrar motivo para viver, um cínico podia encontrar o alívio para o tédio e um garoto profundamente ferido podia encontrar a vontade de se curar, o remédio para sua melancolia.

— Muito bem, suponhamos que quando ele quer voltar ao seu tempo aperte um botão no cinto especial — disse Laura.

— Posso ver o cinto?

— Mais tarde. Lembre-se, você prometeu não fazer muitas perguntas agora.

— Está bem — Chris olhou outra vez para o guardião, depois sentou no banco, prestando atenção ao que a mãe dizia. — Quando ele aperta o botão, o que acontece?

— Ele desaparece.

— Puxa! E quando ele chega do futuro, apenas aparece sem mais nem menos?

— Não sei. Nunca o vi chegar. Mas acho que, por algum motivo, há relâmpagos e trovões.

— Os relâmpagos desta noite!

— Sim, mas não é sempre. Tudo bem. Vamos supor que ele volte no tempo para nos ajudar, nos proteger contra certos perigos...

— Como o caminhão na estrada.

— Não sabemos por que ele quer nos proteger, só saberemos quando ele nos contar. De qualquer modo, suponhamos que outras pessoas do futuro não querem que ele nos proteja. Não podemos entender seus motivos também. Mas um deles era Kokoschka, o homem que atirou no seu pai...

— E os caras que assaltaram nossa casa esta noite — disse Chris — também são do futuro.

— Acho que sim. Queriam matar meu guardião, você e eu. Mas nós matamos alguns deles e deixamos dois atolados com o Mercedes.

Assim... o que eles farão agora, garoto? Você é o especialista das coi sas estranhas. Tem alguma idéia?

— Deixe-me pensar.

O luar opaco refletia-se no capo sujo do jipe.

O interior do carro estava ficando frio; a respiração dos dois era feita de plumas geladas, e as janelas começavam a se embaçar. Laura ligou o motor, o aquecimento, o descongelador, mas não os faróis.

— Bem — disse Chris —, a missão deles falhou, portanto não vão ficar por aqui. Vão voltar para o futuro de onde vieram.

— Aqueles dois caras no nosso carro?

— Isso mesmo. Provavelmente já apertaram os botões dos cintos dos caras que você matou e mandaram os corpos para o futuro, e agora não deve ter nenhum cadáver na nossa casa, nenhuma prova de que os viajantes do tempo estiveram aqui. Só talvez um pouco de sangue.

Assim, quando os outros dois ficaram atolados na vala, provavelmente desistiram e foram para casa.

— Então não estão mais lá atrás, no Mercedes? Não iriam a pé até Big Bear para roubar um carro, talvez, e tentar nos encontrar?

— Nada disso. Seria muito difícil. Quero dizer, eles têm um meio mais fácil de nos encontrar sem andar por aí à nossa procura como fariam bandidos comuns.

— Que meio é esse?

O menino franziu a testa e olhou para fora, para a neve, o luar e a escuridão.

— Veja só, mamãe, assim que nos perderam, apertaram os botões nos cintos, voltaram para o futuro e depois fizeram uma nova viagem ao nosso tempo para armar outra emboscada. Sabem que estamos nesta estrada. Então, o que eu acho que fizeram foi outra viagem ao nosso tempo, mais cedo, esta noite, e prepararam uma armadilha na outra extremidade desta estrada, e agora estão lá à nossa espera. É isso, é lá que eles estão! Aposto que é lá que eles estão!

— Mas por que não chegaram mais cedo esta noite, mais cedo do que na primeira vez e nos atacaram em casa, antes do meu guardião aparecer para nos avisar?

— Paradoxo — disse o garoto. — Sabe o que quer dizer isso?

Era uma palavra complexa demais para um menino daquela ida de, mas Laura respondeu:

— Sim, eu sei o que é um paradoxo. Uma coisa autocontraditória mas possivelmente verdadeira.

— Veja só, mamãe, o mais formidável é que a viagem no tempo está cheia de paradoxos. Coisas que não poderiam ser verdadeiras, que não deviam ser reais... mas que talvez sejam. — Agora ele falava com o entusiasmo com que costumava descrever as cenas dos seus filmes fantásticos favoritos e das suas histórias em quadrinhos, um entusiasmo mais intenso do que nunca, provavelmente porque não era uma história mas a realidade, mais extraordinária que a ficção. — Assim como se você voltasse no tempo e se casasse com seu avô. Aí você ia ser sua própria avó. Se fosse possível a viagem no tempo, talvez pudesse fazer isso... mas aí, como você podia ter nascido, se sua verdadeira avó nunca se casou com seu avô? Paradoxo! Ou se você voltasse no tempo e conhecesse sua mãe quando ela era pequena e acidentalmente a matasse? Você deixava de existir, pop!, como se nunca tivesse nascido? Mas se você deixasse de existir... então como podia ter voltado no tempo? Paradoxo! Paradoxo!

Olhando para ele na escuridão pintada de luar, do interior do jipe, Laura via um menino diferente daquele que conhecia. É claro que sabia da fascinação de Chris pelas histórias da era espacial, que pareciam preocupar a maioria das crianças, independente da idade. Mas até então nunca tinha visto o interior daquela mente criada por essas influências. Evidentemente as crianças do fim do século XX não só tinham uma vida interior mais rica em fantasia do que a das crianças de qualquer outra época da história, como também pareciam ter adquirido dessas fantasias algo não fornecido por fadas, duendes e fantasmas, que haviam entretido gerações de crianças antes: a capacidade para pensar em conceitos abstratos como espaço e tempo de um modo muito além das suas idades intelectuais e emocionais. Laura tinha a estranha sensação de estar falando com um garoto e com um cientista de foguetes que existiam no mesmo corpo.

Um tanto confusa, Laura disse:

— Então... como não conseguiram nos matar em sua primeira viagem esta noite, por que não fizeram outra viagem mais cedo, para nos matar antes que meu guardião nos avisasse?

Continuar: parte 2 de 4